terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Australiana foi presa por agredir e ofender manicure negra em Brasília

Louise Stephanes disse no salão de beleza em Brasília que não queria ser atendida pela profissional negra por ela ser de "raça ruim"

A australiana que foi presa em Brasília, acusada de agredir e ofender uma manicure negra em um salão de beleza, responde por outros processos de racismo na Companhia Energética de Brasília (CEB), onde trabalha. Na última sexta-feira ((14), a secretária Louise Stephanes, de 30 anos , disse que não queria ser atendida pela profissional negra por ela ser de "raça ruim".

Em nota divulgada nesta segunda-feira (17), a CEB afirma que "a empregada Louise Stephanes Garcia Gaunth já responde a mais de uma sindicância, dentre outros motivos, por indícios de atitudes racistas". Ao fim das investigações, o resultado será encaminhados ao Ministério Público.

Na nota, a companhia informa também que avalia quais medidas administrativas podem ser tomadas em relação ao crime que a australiana teria cometido no fim de semana.

Revoltada, a dona do salão acionou a polícia na última sexta. Ao ser abordada por um policial militar negro, Stephanes gritou para que ele não falasse com ela. Ela foi presa em flagrante, mas no sábado (15) conseguiu um habeas corpus e responderá pelo crime em liberdade. Nesta segunda, ela não compareceu ao trabalho.

Telefone

Na manhã desta segunda-feira, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, lamentou o ato da australiana.

"O racismo é lamentável em qualquer situação e é por isso que o governo do Distrito Federal tem políticas públicas de combate à discriminação, como, por exemplo, o disque-denúncia. E a população tem consciência disso, tanto que a denúncia de racismo foi feita pelas pessoas que estavam no salão de beleza. Uma atitude que merece nosso respeito e prova que a população de Brasília não aprova o racismo."

Desde março do ano passado, quando o Disque Racismo (156) foi criado no Distrito Federal, 126 casos do crime foram confirmados, uma média de 11 por mês. As denúncias são avaliadas pela Ouvidoria e encaminhadas para o Ministério Público.

O secretário de Igualdade Racial, Viridiano Custódio, afirma que o Disque Racismo facilita a identificação desse tipo de crime, pois nas delegacias muitos atos são registrados apenas como injúria racial.

A falta de informação faz com que muitas vezes uma pessoa que cometeu racismo tenha uma pena mais branda pelo crime ter sido registrado como injúria racial. A injúria consiste em ofender a honra de alguém com a utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Nesse caso, a pena é menor, o suspeito paga fiança e fica livre. No racismo é diferente. É quando alguém discrimina um determinado grupo ou coletividade a pena pode chegar a três anos de prisão.

Ainda de acordo com o secretário, a manicure que sofreu a agressão foi procurada e orientada a registrar a queixa também pelo Disque Racismo. O caso já é investigado pela 1.ª Delegacia de Polícia.

Segundo testemunhas, a suposta agressora tem cerca de 30 anos e entrou no estabelecimento para fazer as unhas do pé. A primeira pessoa que ela ofendeu foi uma manicure, que preferiu não se identificar por se sentir envergonhada. A profissional foi contratada pelo salão há uma semana.
A suposta agressora foi levada para a delegacia e foi transferida neste sábado (15) para a Penitenciária Feminina do Gama (Colmeia). Segundo a Polícia Civil, ela vive regularmente no Brasil há cinco anos e já foi detida por dirigir sob efeito de álcool.

A Polícia Civil informou que mulher foi presa por racismo e não por injúria racial porque disse que não poderia ser atendida pela funcionária negra. Ela cometeu segregação racial ao afirmar que a profissional não poderia executar o serviço por ser de "raça ruim".

O encaminhamento para a penitenciária da Colmeia comprova que ela foi enquadrada por racismo, segundo a polícia. Se fosse por injúria, ela teria assinado um termo de comparecimento à Justiça e deixaria a delegacia. O crime de racismo é inafiançável. A suspeita pode permanecer presa por até um ano.

"Ela chegou e perguntou se havia alguém que pudesse fazer o pé dela. A recepcionista disse que sim, então ela sentou. Quando ela viu que seria eu, disse que não queria", lembra a manicure. "Fiquei sem graça. Aí a menina disse que tinha então outra pessoa, e ela respondeu que podia ser a outra, porque ela era um pouco mais clara. Ela disse que eu era escura demais para fazer a unha dela."

Minutos depois, a suposta agressora teria se incomodado com a presença da manicure e pedido que ela se retirasse. "Ela disse: 'dá para você se retirar? Sua presença está me incomodando. Eu não quero que você fique perto de mim'. Subi na hora, não conseguia parar de chorar", conta a profissional.

Dona do salão, Eliete Lima de Carvalho cuidava do cabelo de uma cliente e só percebeu o problema quando viu a manicure chorando. A proprietária subiu as escadas para o banheiro atrás dela para saber o que havia acontecido e, depois, voltou ao salão para exigir que a cliente se desculpasse.

"Ela disse que não ia se desculpar, que não tinha feito nada de errado. E aí começou a falar do trabalho da outra manicure, dizendo que ficou uma porcaria, que não ia pagar. Outra cliente, que é morena, ficou irritada e pediu para ela abaixar o tom, então ela disse 'eu não sei por que essas pessoas de raça ruim insistem em falar comigo'. Precisei segurar a menina, que queria bater nela", conta Eliete.

A discussão evoluiu para bate-boca e gritaria. A dona do salão acionou a Polícia Militar, mas a suposta agressora tentou fugir. Eliete afirma que pediu mais uma vez que ela se desculpasse, que a situação poderia ser contornada se ela reconhecesse que errou. "Ela disse que queria ver quem iria prendê-la por isso", diz a proprietária.

Abordada por um PM negro, a australiana ainda teria gritado para que ele não dirigisse a palavra a ela. A cliente ofendida, as funcionárias, a dona do salão e a cliente de quem ela cuidava, que é advogada, foram para a delegacia prestar depoimento.

Assustada e desconfortável, a manicure que não quis se identificar disse que nunca passou por isso antes. "Ela insistiu que não queria nenhum de nós, pretos, falando com ela. Disse que éramos raça ruim", conta.

De acordo com os dados mais atualizados disponíveis no site da Secretaria de Segurança Pública, houve 409 crimes raciais em 2012 no DF.

Protesto
Indignada com a situação, Eliete decidiu trabalhar com o cabelo o mais volumoso possível neste sábado. "Não admito funcionário tratar mal cliente, nem cliente tratar mal funcionário. E não admito preconceito, de forma alguma", afirmou. "Ela me machucou profundamente. Agiu como se fosse melhor por não ser negra ou porque acha que ser manicure é ser inferior. Não aceito."

No momento da confusão, havia cinco clientes e nove funcionárias no salão - quatro delas, negras. O estabelecimento funciona há dez anos.

Eliete disse ainda que, pela manhã, comentou com as funcionárias que achou absurdo o ocorrido com o jogador Tinga, do Cruzeiro, vítima de racismo durante partida contra o Real Garcilaso, pela Taça Libertadores, no Peru. "Ainda falei que era inadmissível, que esse era o tipo de coisa que eu não conseguia acreditar que ainda existia."

O episódio de racismo contra o jogador ocorreu na cidade peruana de Huancayo. Tinga, que é negro, entrou no segundo tempo. Sempre que ele tocava na bola, a torcida do time da casa, fazia sons que imitavam um macaco.

publicado: agencia O Globo e  Midiacon News

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