segunda-feira, 27 de junho de 2011

Carta ao Prefeito de Curitiba, à Fundação Cultural de Curitiba e ao Instituto Municipal de Turismo

 
Curitiba, 21 de junho de 2011.
 Parabéns Prefeito Luciano Ducci!  

 O evento Mia Cara Curitiba foi um sucesso!  Uma comemoração aos 150 anos da unificação da Itália, realizada pela Prefeitura de Curitiba, Instituto Municipal de Turismo e Consulado Geral da Itália. Com atrações culturais, gastronômicas, religiosas e esportivas gratuitas e em espaços abertos da cidade, a programação foi oferecida a toda a população de Curitiba e do Brasil, descendentes ou não de italianos, como foi ressaltado na imprensa. Com uma abertura impactante e poética, criada por um artista italiano de referência internacional, que encantou o público com esfera gigante e bailarina sobrevoando a praça Generoso Marques (bem próximo ao Pelourinho de Curitiba). A semana, de 27 de maio à 5 de junho, contou ainda com projeção de imagens nas fachadas e iluminação colorida na praça; exposições de fotografias e artes plásticas, danças folclóricas, Setimana Della Gastronomia Italiana, corrida em Santa Felicidade e mostra de filmes. Como diria meu avô, cabelo, barba e bigode! Nossos irmãos italianos (e brasileiros) merecem!
Senhor Prefeito, eu tenho a felicidade de ter minha descendência na África (como o resto da humanidade, segundo especialistas) e gostaria de ver, no Ano Internacional da Afrodescendência, 2011, uma programação especial realizada pela prefeitura de Curitiba.
Uma semana de atividades para toda a população e visitantes da cidade (e da periferia). Uma abertura espetacular, orquestrada por artistas internacionalmente reconhecidos, ou, melhor ainda, valorizando os mestres da cultura popular daqui de Curitiba mesmo, para comemorar o Ano Internacional da Afrodescendência com a grandeza que o povo curitibano merece.

Apenas recentemente tem-se considerado o papel civilizatório que os negros vindos da África desempenharam na formação da sociedade brasileira.”
História Geral da África . VI, Brasília: UNESCO, 2010.
 Com certeza nossa municipalidade, que trata todas as etnias com isonomia, está atenta ao Ano Internacional da Afrodescendência. Desde o começo de 2011 escrevemos ao senhor a este respeito. No entanto, já passamos da metade do ano e ainda não vimos o Movimento Negro e os especialistas serem chamados para tratar do assunto...
Quando a municipalidade quer trabalhar com educação física, chama um professor, quando quer um espetáculo impactante, chama uma referência internacionalmente reconhecida, quando quer cobertura jornalística, assessor de imprensa, quando quer cuidar da saúde, médico.
Senhor prefeito, sugerimos que esta importante comemoração para a população negra curitibana não seja criada por qualquer pessoa ou equipe. Sugerimos que o senhor contrate os (melhores) especialistas do mercado e ouça os anseios da comunidade, não apenas a opinião de um representante ou dois.
O senhor recebeu nossa carta no aniversário de Curitiba deste ano? Protocolamos ao Senhor Prefeito uma carta sugerindo que o Ano Internacional da Afrodescendência fosse ressaltado em maio ou em novembro, meses de consciência e combate ao racismo em todo o Brasil.
Ainda não tivemos resposta. O dia 13 de maio “passou em branco”. O dia 25 de maio, dia da África, data perfeita para um dia de ápice no Portal Africano da Praça Zumbi dos Palmares... no Ano Internacional da Afrodescendência... nada. Nem a morte do ícone do combate ao racismo deu margem a alguma manifestação da nossa municipalidade. Maio, em Curitiba, foi LupaLuna e unificação da Itália. Mas nada que demonstrassem o respeito da municipalidade pelo povo afrocuritibano.
Ano passado, no dia 26 de abril de 2010 (ofício 192/2010-SGM-2 em resposta à solicitação de inclusão do povo afrodescendente nas comemorações do aniversário da cidade de Curitiba, em 2010), fomos informados que “a Prefeitura de Curitiba tem profundo respeito por todas as etnias que compõem a história da cidade” e todas são “eventualmente” citadas.
Lembramos que Curitiba é a capital mais negra do sul do país, conforme dados do IBGE. 23,4% da população curitibana é afrodescendente. Esta porcentagem não é minoritária, os senhores ao de concordar. Muitas dúvidas estão pairando. Se Curitiba realmente não pratica o racismo velado e institucional, de que forma a municipalidade pretende demonstrar sua isonomia para com o povo afrocuritibano? E de que forma fará isso, especialmente, no Ano Internacional da Afrodescendência?
A municipalidade diz que trata a todos com isonomia. Mas então por que já passamos da metade do Ano Internacional da Afrodescendência e ainda não houve nenhuma menção ou atividade marcante da parte da Prefeitura?
“Nossa intenção é fazer com que esse evento se perpetue, seja realizado anualmente e se transforme em mais um atrativo para trazer turistas para a cidade”, afirmou Juliana Vosnika, presidente do Instituto de Turismo, no jornal Metrópole de 30 de maio, sobre o evento italiano. Na opinião do senhor ou dos seus assessores, nossas solicitações de isonomia são infundadas?
Sugerimos alguns eventos afro em Curitiba para sua apreciação e inclusão no calendário oficial: Lavação das Escadarias da Igreja Nossa Senhora do Rosário de São Benedito dos Pretos, Festival Paranaense do Samba, Mês da Consciência Negra, Abolisom – Ecos da Abolição da Escravatura, Dia da África no Memorial Africano, Caravanas da Periferia ao Centro, Aulão de Dança Afro e similares. Esperamos que a prefeitura e suas secretarias, especialmente a FCC, a SMEL, SMAM e Instituto de Turismo possam ajudar a resolver esta lacuna oficial, dando fim a este imbróglio, fanfarra do jeca tatu (ou samba do crioulo doido, como preferir) onde, na prática, a teoria é diferente e algumas etnias têm mais isonomia que outras.
Aliás, parabéns à equipe de Comunicação da Prefeitura por incluir uma mulher negra na Campanha “Doe Calor” e um pai e filho afrodescendentes na Campanha da Família. Obrigado! Rezamos para que os senhores tenham a iluminação de fazer um grande trabalho de transformação da nossa cidade, afinal, até a FIFA tem campanhas anti-racismo.
“É difícil para um negro chegar a um lugar de destaque”, desabafou a curitibana negra Michele Mara, que cantou em rede nacional. Hoje, rasgou-se o manto da invisibilidade e o Brasil inteiro sabe que em Curitiba existe uma negra talentosa. Já é um começo! Imagina quando descobrirem que, contrariamente ao que disseram os historiadores, os discursos oficiais e a mídia, somos mais de 23%, em Curitiba, e 28% de negros auto-declarados no Paraná e desde o surgimento da vila temos ajudando na construção de Curitiba com nossa força, inteligência, conhecimentos, cultura. Quantos Zacarias de Góes, Rebouças, Lápis, Eneidinas, Micheles, Soares, Santos, Silvas escondidos, invisibilizados.
Gratos por sua atenção e pelas singelas respostas que nossas cartas têm recebido, reiteramos nossos protestos de elevada estima e consideração e solicitamos da nossa municipalidade a realização de um evento em comemoração ao Ano Internacional da Afrodescendência
Atenciosamente,
 Adegmar J. Silva Candiero
                                                                      Centro Cultural Humaita
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            CentroCulturalHumaita

        emaildohumaita@gmail.com
    informativohumaita.wordpress.com
      [41] 9161.7961 | [41] 8875.8336


Seguindo o preceito,
Salvando o respeito,
Guardando o segredo,
Mantendo o axé!

              M. Sodré

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