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terça-feira, 10 de março de 2015

NUPIER promove parceria com empresas de ônibus do Estado para divulgação de cartilha “Discriminação é Crime”.

Durante o último mês de fevereiro, as companhias de ônibus Urbanização de Curitiba, Cidade Verde Transporte Rodoviário, Transporte Coletivo Cidade Canção, Autarquia Municipal de Transporte Rodoviário de Ponta Grossa, Viação Cidade do Paranavaí, Viação Umuarama, Sorriso de Toledo e Instituto de Transportes e Trânsito de Foz do Iguaçu acordaram com o Núcleo de Promoção da Igualdade Étnico-Racial do Ministério Público do Paraná a divulgação, em espaço apropriado dos veículos que realizam os principais trajetos das cidades de Curitiba, Maringá, Sarandi, Cascavel, Ponta Grossa, Paranavaí, Umuarama, Toledo e Foz do Iguaçu, da cartilha “Discriminação é Crime”, confeccionada pelo Ministério Público no mês de maio de 2014. O material contém instruções sobre a correta forma de registro de crimes raciais, o que evita o fenômeno da subnotificação e a ausência de realidade das estatísticas estaduais sobre a existência de racismo no Estado do Paraná. Foram distribuídos 400 folders para Curitiba, 90 para Maringá, 100 para Sarandi, 50 para Cascavel, 400 para Ponta Grossa, 26 para Paranavaí, 60 para Umuarama, 200 para Toledo e 110 para Foz do Iguaçu, conforme demanda trazida pelas próprias empresas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Pesquisa revela racismo velado no comércio de Londrina

publicado: jornal de Londrina
Durante o levantamento, professor e estudantes do Colégio Marcelino Champagnat e da Educação para Jovens e Adultos do Sesc flagraram atitudes preconceituosas contra negros

"Temos que tomar alguma atitude concreta a respeito", enfatizou o professor Cláudio Galdino, responsável por coordenar a pesquisa (Crédito: Roberto Custódio / JL)

Um negro entra em uma loja, tenta conversar com alguns vendedores, chega a sentar-se em uma cadeira e sai do estabelecimento sem nenhum atendimento. Em outra situação, uma negra que estava sendo atendida por uma vendedora é solenemente ignorada assim que outra pessoa, branca, passa pela porta.

Os dois casos são semelhantes, e apesar de parecerem pertencer ao século passado aconteceram neste ano, no comércio de Londrina. Os flagrantes de preconceito foram identificados em trabalhos realizados pelo professor de Geografia Cláudio Francisco Galdino junto a estudantes do Colégio Marcelino Champagnat e da Educação para Jovens e Adultos (EJA) do Sesc.


Galdino conversa com as estudantes responsáveis pela pesquisa; resultados serão apresentados na sexta-feira (Crédito: Roberto Custódio / JL)

O objetivo das pesquisas, explicou o professor, era identificar a presença dos negros no comércio de Londrina, em ambos os lados do balcão. Para tanto, os estudantes passaram por supermercados, lojas do calçadão e da Rua Sergipe e pelos maiores shoppings da cidade. Os resultados devem ser concluídos no fim de semana, mas já se mostram preocupantes.

“A quantidade de negros presentes nos cargos de atendimento e venda direta é muito pequena. Em sua maioria, eles estão trabalhando em cargos menos valorizados, como auxiliares de limpeza e cozinha”, revelou.

A saída dos alunos a campo é, de acordo com Galdino, diferente de tudo que vinha sendo feito até então nas atividades da Semana da Consciência Negra. Em um nível mais profundo, serviu para que os próprios estudantes abrissem os olhos para uma realidade que, apesar de corriqueira, está muito longe de ser considerada normal.

“Falei para eles: ‘vocês vão para o shopping, mas não é para comprar, nem a passeio’. Os que já vieram falar comigo a respeito do trabalho estão se mostrando indignados. Alguns me fizeram relatos emocionados por conta desse preconceito velado. Está sendo muito marcante para eles”, disse.

Invisíveis

Pelo menos para Rhaiany Lisboa dos Santos, de 17 anos, o trabalho deu resultado. “É uma situação para a qual eu nunca tinha dado muita atenção. Agora passei a ser mais crítica em relação a isso. Por que é tão difícil ver negros como atendentes nas lojas de shoppings? Por que a gente quase não vê negros na publicidade? Parece que eles são invisíveis”, questionou.
O preconceito ficou evidente, para a estudante Geisy Bahls Fogaça, de 18 anos, na diferença do tratamento dado aos estudantes durante o levantamento em dois mercados da cidade. “Em um deles fomos bem recebidos, o pessoal do RH abriu os dados para nós. Uma das diretoras de recursos humanos, inclusive, é negra, e mostrou como a questão é trabalhada no estabelecimento. Em outro, porém, os seguranças não deixaram nem a gente entrar no mercado. O pessoal do setor administrativo ficou de nos retornar, mas até agora, nada”, disse.

Professor já sentiu na pele a discriminação

O professor de Geografia Cláudio Galdino contou à reportagem que já sentiu na pele a discriminação. A justificativa, lembrou, é um termo aparentemente inocente, mas que esconde uma quantidade imensa de preconceito: a “boa aparência”, ainda cobrada em algumas vagas de emprego.

“Eu tinha uns 15 anos e fui fazer um teste seletivo para ser empacotador de uma rede de supermercados da cidade. Fui o único a acertar todas as questões. Quando a avaliadora perguntou quem era o Cláudio que tinha gabaritado o teste, levantei a mão e ela olhou com uma cara estranha. Veio então a pessoa responsável pela seleção e me dispensou, falando na minha cara que era uma pena, mas a pessoa tinha que ter ‘boa aparência’ para trabalhar nos caixas. Até hoje, nunca mais entrei em nenhuma loja dessa rede”, revelou.

Como resultado prático do trabalho, o professor espera trazer a desigualdade à tona e convocar entidades, como a Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), para um debate. “Acredito que vamos fazer uma carta aberta à sociedade, mostrando essa situação. Temos que conversar com a Acil, temos que tomar alguma atitude concreta a respeito”, declarou Galdino.

Repúdio

A assessoria de imprensa da Acil informou à reportagem que a associação deve buscar contato com o professor Cláudio Galdino para ter acesso aos resultados do trabalho. Antes mesmo da divulgação dos resultados da pesquisa, a Acil reforçou a posição de “repúdio a toda e qualquer forma de discriminação racial”.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Direitos Humanos Ex-secretária do Distrito Federal denuncia policiais militares por racismo

Alex Rodrigues - Repórter da Agência Brasil Edição: Marcos Chagas









 
publicado:agência Brasil


Ex-secretária do governo do Distrito Federal (DF) e militante do movimento negro, a advogada Josefina Serra dos Santos disse ter sido alvo de racismo praticado por cinco policiais militares. Segundo ela, eles a abordaram e a revistaram com violência, ameaçando-a durante todo o tempo.
De acordo com a Doutora Jô, como a advogada é conhecida na capital, o caso aconteceu no último dia 7, próximo ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios. O local fica a menos de 2 quilômetros (km) do Congresso Nacional e a 7 km do Palácio do Buriti, sede do goveesso Nacional e a 7 km do Palácio do Buriti, sede do governo do DF .
Josefina conta que caminhava próximo à Biblioteca Nacional quando viu alguns policiais revistando um grupo de jovens por volta das 18h30. Em dias úteis, neste horário, é grande o movimento de pedestres e de carros. Apesar disso, até o momento, nenhuma testemunha do fato se apresentou ou foi identificada.
Josefina dos Santos apresentou na 1ª Delegacia da Polícia Civil representação criminal contra soldados da Polícia MilitarElza Fiuza/Agência Brasil
Na representação criminal que apresentou à 1ª Delegacia da Polícia Civil, nesta segunda-feira (13), a advogada narra que após os policiais liberarem um dos jovens, negro, se aproximou do garoto e o aconselhou a ir para casa. E que, logo após a conversa, foi abordada por uma viatura.

“Ouvi alguém me mandar parar, senão atiraria. Foi então que olhei para trás e vi uma policial, também negra, apontando uma arma para mim”. A advogada diz que, a fim de se identificar, apresentou sua carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Um outro policial, também negro, se aproximou e, gritando comigo, disse que não era para eu falar nada. Quando perguntei o porquê daquilo, uma segunda policial, branca, disse que, como advogada, eu devia saber que aquilo era um procedimento padrão, principalmente com pessoas iguais a mim – e que eu entendesse isso como quisesse”, relatou Josefina.

A advogada destaca que, durante a revista, seu celular foi atirado longe, sua blusa levantada de forma que seus seios ficaram expostos, seu braço torcido com força por um dos policiais e que a policial, branca, declarou que “neguinhas, quando aprendem algo, se acham”, mas que de nada adiantaria ela denunciá-los, pois nada aconteceria. “Tentaram me intimidar dizendo que era mais fácil acontecer algo comigo do que com eles. O que eu ia dizer? Só queria me proteger. Nunca tive medo da polícia. Conheço muita gente boa que faz seu trabalho dentro da PM, mas, infelizmente, há pessoas assim e, apesar de haver um trabalho [de conscientização dos policiais], parece que não está surtindo efeito e pelo que ouvi e passei só posso dizer se tratar de racismo”.
A ex-secretária de Igualdade Racial do DF, Josefina Serra dos Santos disse ter sido alvo de racismo praticado por cinco policiais militares Elza Fiuza/Agência Brasil



O secretário-geral da PM explica que racismo é uma "situação atípica" na corporaçãoElza Fiuza /Agência Brasil

“Infelizmente, a sociedade brasileira ainda é racista e machista. E como as pessoas que compõem a PM vêm dessa sociedade, a corporação empenha todos os esforços para que essas pessoas não coloquem para fora esses sentimentos. Essa é uma situação atípica, pois não é assim que ensinamos os policiais a agirem”, declarou o secretário-geral da PM, coronel Marcos Araújo, garantindo que, há mais de duas décadas, o Curso de Formação dos Policiais Militares de Brasília inclui conceitos de direitos humanos.

A Corregedoria da PM instaurará uma sindicância ou um inquérito policial militar para apurar os fatos. Imagens que possam ter sido gravadas por câmeras de vídeo existentes no local serão analisadas. Se a denúncia for confirmada, os policiais podem ser punidos até mesmo com a expulsão. Como a PM, oficialmente, só tomou conhecimento dos fatos nesta quarta-feira, ainda não se fala em prazo para a conclusão da apuração. Segundo o coronel, mesmo identificados, os policiais não serão afastados de suas funções pelo tempo que durar o processo administrativo.

“Pode ser que alguns policiais não tenham ainda internalizado o que ensinamos na academia, mas a corporação repudia veemente esses fatos. Não coadunamos com essas atitudes. O comandante-geral e o corregedor da PM já estão cientes da denúncia e vamos apurar tudo rapidamente”, disse o coronel. “Não posso adiantar nada, mas, pelo relato, a abordagem fugiu aos padrões e houve sim alguns erros. Vamos ter que ouvir também o policial”.

Apesar de ser uma queixa frequente por parte principalmente de moradores de bairros carentes, o coronel disse não haver, na corregedoria da PM, denúncias formais por racismo. “Há uma quantidade enorme de procedimentos decorrentes da possível conduta irregular de policiais sendo apurada, mas não de racismo”. O coronel revelou que um levantamento feito em 2008 identificou que 62% dos cerca de 15 mil policiais militares do Distrito Federal são negros, mas não soube dizer quantos desses são oficiais e ocupam postos de comando na corporação. “Há alguns, mas não são muitos. Mas o que de fato ajuda a mudar a mentalidade da corporação é o que já estamos fazendo, trabalhando a educação e a internalização de valores de respeito aos direitos humanos. Um fato como esse, que é exceção, nos magoa, pois derruba todo nosso trabalho”.

Além de manifestar solidariedade e oferecer apoio jurídico e psicológico à advogada, a Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (Sepir) promete acompanhar a apuração do caso junto à PM e também os eventuais desdobramentos no Ministério Público. "É preciso garantir que a lei seja cumprida. No imaginário brasileiro, os negros são vistos como um objeto, como seres não-humanos, o que resulta não só numa carga de preconceito pessoal, mas também de racismo institucional. Um cidadão negro discriminado e por um agente do Estado negro tem sua própria psiquê agredido. E o agressor, por sua vez, não consegue enxergar no seu semelhante uma vítima dessa discriminação", disse à Agência Brasil a ouvidora da Sepir, Jacira da Silva.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Grêmio cede 1h de imagens de racismo e polícia passa a agir nesta segunda

O Grêmio entregou na noite de domingo as imagens do sistema interno de câmeras da Arena para a Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Na 4ª Delegacia de Polícia, os vídeos começam a ser analisados nesta segunda-feira. Também nesta data, dois torcedores identificados como autores de xingamentos racistas contra o goleiro Aranha, do Santos, no jogo da Copa do Brasil na última quinta-feira, serão intimados a prestar esclarecimentos.

Entre eles a jovem Patrícia Moreira, de 23 anos. Flagrada pelas câmeras da ESPN chamando o goleiro Aranha de 'macaco', a moça esteve fora de Porto Alegre acompanhada da família nos últimos dias. A ideia, segundo vizinhos, era 'fugir' da repercussão do caso.

Mas a manifestação dela também foi confirmada por pessoas próximas. Patrícia vai se apresentar e, acompanhada por um advogado, dar sua versão para os fatos.

Após analisarem as imagens, os policiais vão separar trechos, buscar identificar mais pessoas, e ainda confrontar os vídeos com os acusados. Sendo comprovados atos de injúria racial, o passo seguinte é indiciar os suspeitos. Posteriormente, um julgamento apurará culpa e a pena neste caso vai de 1 a 3 anos de reclusão.

São mais de 60 minutos de imagens. E a qualidade do sistema de câmeras da Arena do Grêmio não é a melhor. Tanto que no caso de injúria racial contra o zagueiro Paulão, do Internacional, na primeira partida da final do Gauchão, a baixa qualidade do vídeo não autorizou a identificação do responsável.

O Grêmio entregou contatos dos dois torcedores intimados a depor nesta segunda. E outros três aficionados identificados também foram apontados pela agremiação. Estes precisam ser encontrados para viverem momento semelhante de intimação e depoimento.

Ao todo, a Polícia Civil gaúcha espera encontrar até 20 responsáveis pelos atos de racismo contra o goleiro Aranha, do Santos. O Grêmio tenta de todas as formas auxiliar na investigação, até como argumento para se livrar de um punição mais forte no STJD. O julgamento no tribunal desportivo ocorrerá na tarde de quarta-feira e o duelo de volta contra o Santos pela Copa do Brasil foi suspenso até que todas instâncias sejam vencidas.

Clube se mobiliza por conscientização, mas não dá 100% certo

O Grêmio se mobilizou e fez uma série de ações pela conscientização de seus torcedores na partida deste domingo, contra o Bahia. Foram vídeos, faixa com jogadores, materiais de imprensa, tudo no pleito pelo fim de discriminação.

Mas não deu totalmente certo. No fim do primeiro tempo, a organizada Geral do Grêmio cantou músicas que se referiam ao Internacional como 'macacada' e 'macaco imundo'. Depois da partida, o presidente Fábio Koff disse que tais atos foram propositais e tiveram motivação política.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Angela Davis critica ausência de negros no poder e na televisão no Brasil

publicado: agencia Brasil
A filósofa, escritora, professora e ativista norte-americana Angela Davis criticou hoje (25) a ausência de negros nos espaços de poder e nos meios de comunicação no Brasil. "Não posso falar com autoridade no Brasil, mas às vezes não é preciso ser especialista para perceber que alguma coisa está errada em um país cuja maioria é negra e a representação é majoritariamente branca", disse. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da população brasileira (50,7%) é negra.

Angela Davis integrou o grupo Panteras Negras e o Partido Comunista dos Estados Unidos e chegou a constar na lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI (agência federal de investigação dos Estados Unidos). Ela foi presa na década de 1970 e inspirou a campanha Libertem Angela Davis, que angariou apoiadores em todo o mundo.

Apesar da constatação, Angela fez um alerta: "Não significa somente trazer pessoas negras para a esfera do poder, mas garantir que essas pessoas vão romper com os espaços de poder e não simplesmente se encaixar nesses espaços". A ativista citou o caso dos Estados Unidos, em que houve época em que não havia político negro e que atualmente é presidido por um negro, Barack Obama. "O que mudou?", perguntou, sem responder. "Quantos senadores negros há no Brasil? Se olharmos para o Senado não saberíamos que os negros constituem mais de 50% da população brasileira", disse, em participação no Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra. "Sempre assisto TV no Brasil para ver como o país se representa e a TV brasileira nunca permitiu que se pensasse que a população é majoritariamente negra".

Angela voltou a comentar o conflito na Faixa de Gaza, entre Israel e Palestina. "Temos que reconhecer Israel como único Estado colonizador do século 21 que continua a se expandir. Da mesma forma que desafiamos o apartheid [na África do Sul], temos que lutar contra oapartheid israelense. Vidas de crianças estão sendo destruídas em Gaza", disse. "Temos que expressar nossa solidariedade ao povo da Palestina”.

Pesquisadora relaciona cantoras de samba a lutas do movimento de mulheres negras

publicado: Agência Brasil

A luta atual das mulheres negras contra o racismo e o sexismo deve levar em conta o que foi conquistado ao longo do tempo por outras mulheres negras ativistas, defendeu hoje (25) a coordenadora da organização não governamental (ONG) Criola, médica e doutora em Comunicação e Cultura, Jurema Werneck.

Chamadas de ialodês, essas mulheres, segundo Jurema, sempre existiram e transcendem o chamado feminismo negro – protagonizado por mulheres negras. "Hoje está difícil, mas não se compara", disse, ressaltando que chegou ao doutorado, mas a avó dela era analfabeta e a mãe estudou apenas até o ensino fundamental.

Segundo Jurema, a luta de mulheres negras sempre existiu e as demandas foram se transformando. Nos anos 1930, 1940 e 1950, as lutas eram por educação, creches, demandas do Estado. A geração posterior, a dela, deu continuidade a essas reivindicações e conquistou leis que garantiram a igualdade de direitos. Agora, na avaliação da coordenadora, é preciso continuar lutando para que essas normas conquistadas sejam cumpridas. "O racismo não desaparece por decreto, desaparece na luta cotidiana", argumentou.

Mulheres participam das celebrações do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, durante o Festival Latinidades Edição 2014 – Griôs da Diáspora Negra Antônio Cruz/Agência Brasil
No doutorado, a pesquisadora buscou no samba referências de luta de mulheres negras. Alcione, Elza Soares, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra e Mart'nalia foram algumas das citadas por ela em conferência no Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra. "Se se pensar em nome de mulher negra que não é anônima, vai-se pensar em nomes que estão na cultura popular", disse. "Se o racismo é essa coisa horrível, imagina a conquista dessas mulheres para aparecerem na cena pública", comparou.

Uma a uma, Jurema destacou na obra e na vida das sambistas aspectos que enalteciam a mulher negra e mostravam o contexto em que estavam inseridas. Elza Soares, por exemplo, surgiu como cantora em um show de calouros do programa de Ary Barroso na Rádio Tupi. Ela cantou para conseguir dinheiro para alimentar o filho e deixou claro “o planeta do qual vinha: o planeta fome”

"Se forem ler uma entrevista com a Elza Soares, todo mundo quer que ela conte essa história e sempre dizem em seguida, 'apesar disso, ela tem força, foi longe'. Como se o problema estivesse resolvido e só ela tivesse nascido neste contexto. Tentam isolar ela da comunidade, mas todo mundo sabe que têm pessoas que tem esta carga de desafios", diz Jurema.

De Alcione, ela destaca as letras, que falam para mulheres. Jovelina Pérola Negra colocou o próprio rosto em close, sem maquiagem e com um pano na cabeça na capa do primeiro disco, com o próprio nome. "Com quem se parece? Com minha tia, minha mãe, minha vizinha", explicou a pesquisadora. Segundo ela, a intenção de Jovelina foi mostrar que cada uma dessas mulheres é como ela, uma pérola negra.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

BENEDITA HOMENAGEIA MANDELA E CRITICA RACISMO

FOTO: George Hallet/Divulgação: "A atualidade de Mandela para nós se deve principalmente quanto à necessidade de continuarmos a lutar contra o racismo e a violência contra as populações negras. As leis que já existem não são devidamente aplicadas e por isso as denúncias e a fiscalização pública são fundamentais"

Por *Benedita da Silva, para o Favela 247

Mandela - Mandiba
18 de Julho, data do nascimento de Mandela, foi instituído pela ONU como o Dia Internacional de Nelson Mandela, para homenagear a luta pela igualdade, liberdade e democracia. Quando um nome simboliza tantos valores fundamentais para a humanidade, é porque foi construído com o exemplo de sua vida e de sua luta. Como muitos que defendem a democracia e a igualdade racial, lutei pela libertação de Mandela da prisão perpétua que lhe impôs o cruel regime racista do Apartheid. A sua vida orgulha e inspira todos nós. Mandela é mostrado sob vários ângulos, pois assim foi a sua luta, mas prefiro vê-lo como o lutador incansável, como ele mesmo se definiu: “A luta é a minha vida. Continuarei a lutar pela liberdade até o fim de meus dias."

Quando foi solto em 1990, depois de uma campanha internacional de solidariedade, Mandela teve que enfrentar a violência genocida dos racistas sul-africanos com medo de sua grande liderança. Milhares de homens, mulheres e crianças negras eram massacrados por grupos armados. Ele não se deixou intimidar e, pressionando com a mobilização popular, buscou o caminho do diálogo político para por fim à absurda segregação racial. Conquistou a revogação das leis racistas do apartheid e as eleições livres e diretas em 1994, quando foi eleito presidente da África do Sul. Nessa condição de líder negro, tomou a iniciativa de dialogar com a minoria branca em busca da tolerância mútua e do consenso democrático. Mandela conseguiu superar a divisão racial e construir uma grande nação democrática. O filme Invictus revela muito da habilidade e firmeza com que Mandela mediava os conflitos. Sua vida é, sem dúvida, uma fonte inesgotável de ensinamento sobre luta, tolerância e consenso.

O mais importante na celebração da data simbólica do 18 de Julho é entender o que ela tem a ver com o nosso país. O Brasil tem a maior população negra fora da África. Aqui o negro foi trazido como escravo mas nunca deixou de lutar por sua libertação, cujo maior exemplo é o de Zumbi dos Palmares. O fim da escravidão, porém, se lhe deu a liberdade formal lhe impôs a condição de socialmente excluído. Ele recebe os piores salários e tem as mais precárias condições de vida. Sobre as populações negras se abate uma violência institucional permanente. Em nosso país o Apartheid racial assumiu a forma da chamada Cidade Partida, que nas grandes cidades exclui socialmente as populações pobres e negras. Os avanços obtidos nos tempos mais recentes são reais mas apenas deixam claro o longo caminho que ainda temos que percorrer no campo da igualdade racial e dos direitos sociais. Apenas um exemplo para ilustrar a violência contra o negro. O Mapa da Violência de 2012, elaborado pelo Ministério da Saúde, mostra que “se no ano 2002 a vitimização negra foi de 65,4%, no ano de 2006 cresceu para 90,8% e, no ano de 2010 foi ainda maior: 132,3%. Isto é, por cada branco vítima de homicídio proporcionalmente morreram 2,3 negros pelo mesmo motivo.”

A atualidade de Mandela para nós se deve principalmente quanto à necessidade de continuarmos a lutar contra o racismo e a violência contra as populações negras. As leis que já existem não são devidamente aplicadas e por isso as denúncias e a fiscalização pública são fundamentais. O legado de Mandela, contudo, é também o da tolerância e da democracia, o da disputa acirrada mas sem ódio e violência.

*Benedita da Silva é deputada federal (PT-RJ)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Porque reverenciamos o 25 de Julho, dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha?

por:*Luciane Reis
Porque reverenciamos o 25 de Julho, dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha?

As mulheres negras nunca reconheceram o mito da fragilidade que sempre justificou os espaços subalternos que lhes foram dados. Aprenderam muito cedo o quanto duro é o trabalho nos espaços disponibilizados e acima de tudo que suas vidas valiam o que lutassem para ter. O processo que desumaniza a população negra, fez com que o machismo sobre essas mulheres, tivesse um impacto maior do que nas demais, principalmente na mercantilização de suas vidas e corpos, além de sua afetividade.

Sabemos quais são as consequências da negação do papel da mulher negra na formação da cultura dos povos, especialmente na política partidária e na área social. Mesmo entre os movimentos feministas mais avançados e plurais, há ainda hoje uma dificuldade em reconhecer as mulheres negras que estiveram presentes nas lutas e movimentos sociais e principalmente na capacidade destas de ocupação de espaços “privilegiados”. As heroínas e intelectuais negras, são totalmente invisibilizada nos processos históricos.

Após séculos de exploração, ainda há de forma intensa a erotização e apropriação do corpo da mulher negra, onde na divisão entre santas e profanas, acabam por ocupar o espaço de diversão casual. Nada diferente do passado por mulheres negras na diáspora como um todo e principalmente na América Latina, onde essa identidade é legitimada a partir de raízes euro-ocidental, raiz que rejeita a presença negra na história e vida cotidiana, que exclui e discrimina estas. Por conta do entendimento desta realidade comum na diáspora negra, um grupo de mulheres negras viu a necessidade de iniciar um debate em nível internacional sobre a situação da população afro descendente, o racismo, discriminação e principalmente questionar a identidade europeia imposta a esse povo.

Diante da constatação de que é difícil ser negra latino-americana numa sociedade construída a partir do racismo e do patriarcado, essas delinearam os países latino-americanos via exclusão territorial, social, econômica e política. Esses dados confirmaram a realidade da diáspora negra na perspectiva racial e principalmente das mulheres negras, onde essa identidade implica em sofrer uma dupla opressão historicamente construída e a hegemonia de um gênero sobre o outro. Ao compreender esses fatos, surge a necessidade de construir uma identidade global com uma articulação que pudesse permitir ter uma maior visibilidade desta situação em toda região.

Essas mulheres internacionalizaram o debate que faz surgir o movimento das mulheres afro-latinas e caribenhas, contribuindo desta maneira para a criação da maior antena preta feminista. Essa união permitiu a aproximação de profissionais de comunicação, cultura, acadêmicos e áreas afins que hegemonizaram a luta negra na diáspora de forma continental. A partir desta articulação, em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, realizou-se o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, do qual decorreram duas decisões: a criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas e a definição do 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha. Data que nos dias de hoje, temos orgulho em comemorar.

O 25 de Julho internacionaliza o feminismo negro via aglutinação da resistência das mulheres negras à cidadania nas regiões em que vivem, principalmente as opressões de gênero e étnico-raciais. Desta forma, essa data amplia e fortalece as organizações e identidade das mulheres negras, que vem construindo estratégias para o enfrentamento do racismo e do sexismo. Essa não é uma data qualquer para nós mulheres negras, ele significa o rompimento com um feminismo que nunca nos contemplou. Resgata a luta das mulheres negras da diáspora, iniciada ainda na década 70, através das feministas negras em pontos diferentes da diáspora.

Comemorar o 25 de julho é celebrar e reverenciar a elaboração de novas perspectivas feministas, em especial da introdução da diferença na teoria feminista tradicional. Afinal não podemos esquecer que o feminismo que ressurgiu na década de 1970, afirmava uma identidade feminina homogênea, logo não se conseguia identificar e visibilizar demandas específicas de mulheres que sofriam com a intersecção de diversas condições como, gênero, raça, classe, etnia, orientação sexual e religiosidade.

Fortalecer o 25 de julho é dá visibilidade e energia a emancipação das mulheres negras de um feminismo que colocava a opressão de gênero como fator opressor prioritário para as mulheres, sem levar em conta as demandas das mulheres negras. É fortalecer a emancipação de um feminismo que não conseguia abarcar as diferenças entre estas ou seja, o olhar para as múltiplas experiências e identidades femininas.

Empoderar essa data é contribuir na luta histórica de mulheres que foram e são protagonistas no pautar e exigir de seus países o atendimento de demandas que nos dias de hoje melhora a qualidade de vida da população negra é lutar pela garantia e ampliação do acesso a direitos já conquistados, principalmente na construção enquanto continente de afros descendentes como uma nação transnacional. É nessa construção coletiva que precisamos acreditar quando reverenciamos o 25 de julho, dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha.

Luciane Reis é Historiadora.


DO LUTO À LUTA

O extermínio de jovens negros é a maior vergonha nacional

O extermínio de jovens negros é a maior vergonha nacional. Nos acostumamos aos Douglas, Amarildos e Claudias, e a maioria parece achar menos chocantes essas mortes do que a de um branco, rico
por:*Alê Youssef,
publicado: revistatrip
Durante a gravação do programa Esquenta! especial sobre a morte do dançarino DG, Fernando Luna, diretor editorial da Trip, explicando as motivações que resultaram na publicação das importantes matérias de capa das revistas Trip e Tpm sobre racismo, disse que não era preciso esperar uma tragédia específica para gerar essa discussão fundamental, pois no Brasil sempre acontecem episódios lamentáveis e o assunto é tão presente que a qualquer momento encontra tristes fatos concretos recentes relacionados. Foi o que aconteceu com as revistas que estampavam “Ser negro no Brasil é foda” e “Ser negra no Brasil é (muito) foda” em suas capas. Motivadas pelos casos de racismo no futebol e pela prisão injusta de um ator negro, viraram referência nacional uma semana depois com a repercussão da morte de DG.

Mas tão frequente quanto os casos de assassinato e impunidade é o esquecimento. Parece que a realidade é tão dura que a sociedade afrouxa e esquece para não ter que pensar no assunto. Na verdade, todos nós nos resignamos. Mas não dá para ser assim, pois o lamento pela perda de vidas deveria servir para colocarmos as mãos em nossas consciências e assumirmos uma verdade que precisa ser encarada: o extermínio de jovens negros é a maior vergonha nacional.

É a maior vergonha, pois há cerca de 20 anos convivemos com esses números que parecem nos anestesiar mais do que revoltar. É a maior vergonha pois as dificuldades políticas de medidas eficazes para revertermos esse quadro empurram, eleição após eleição, a sujeira para debaixo do tapete. É a maior vergonha porque nos acostumamos aos Douglas, Amarildos, Claudias, e a maioria parece achar menos chocantes essas mortes do que a de alguém que seja branco e more em bairro nobre de qualquer cidade brasileira. É a maior vergonha pois revela o que vem sendo chamado de epidemia da indiferença, que torna tudo isso invisível, a não ser em momentos dramáticos.

Sem resignação

Estamos matando tesouros de nosso país: a juventude e a criatividade. As trágicas mortes não apenas interrompem trajetórias, mas se tornam símbolos do desperdício de forças transformadoras. Precisamos ir além e agir com rigor e empenho para reverter esse quadro desolador. Talvez tudo tenha que começar por um amplo debate, que reúna todos os atores sociais envolvidos e estabeleça metas para que esse extermínio seja interrompido. As mudanças necessárias no nosso sistema de segurança pública devem romper com a lógica polarizada que contaminou os debates políticos no Brasil, para buscar consensos entre os homens e as mulheres de bem que acreditam que a vida é sagrada e não pode ser perdida de maneira tão banal.

Que as autoridades esclareçam essas mortes e nos mostrem a verdade, seja ela qual for. Que nosso luto se transforme em luta para fazermos o que tem que ser feito. E que não nos esqueçamos dessas tragédias jamais, pois a resignação que nos cega também nos mata um pouco a cada dia.

*Alê Youssef, 38, é apresentador do programa Navegador, da Globonews, comentarista do programa Esquenta!, da TV Globo, advogado e produtor. Seu e-mail é alexandreyoussef@gmail.com

Chacina da Candelária completa 21 anos

Tânia Rêgo/ABr  / Vinte e uma cruzes foram bentas em memória dos 21 anos da chacina

Para ONGs de direitos humanos, nada mudou no período. Celebração lembrou as oito crianças e adolescentes assassinados em 1993
Publicado: gazeta do povo - 24/07/2014 

O Movimento Candelária Nunca Mais lembrou ontem os 21 anos da Chacina da Candelária, em que oito crianças e adolescentes que dormiam na praça da igreja, no Centro do Rio, foram mortos a tiros por cinco homens que desceram de dois carros. No local, houve uma celebração, com 21 cruzes, que foram bentas e serão colocadas em outros pontos da cidade e da região metropolitana onde ocorreram atos de violência contra crianças e jovens. Após a cerimônia, os representantes de movimentos e organizações não governamentais caminharam até a Cinelândia, onde realizaram um ato cultural. As informações são da Agência Brasil.

As manifestações para lembrar a chacina começaram na noite de terça-feira, quando mães que perderam filhos em situações de violência fizeram uma vigília em frente da igreja. Ontem, na Cinelândia, foi realizado o ato Criança não é de rua, que deve ser repetido em todo o país. Os participantes forraram o chão com papelão, deitaram-se e, por um minuto, simularam dormir, em um ato de solidariedade aos moradores de rua. No ato, também foi lembrado o menino Matheus de Souza, de 14 anos, morto no dia 11 do mês passado, na subida do morro do Sumaré.

Pela paz

Padre diz que chacina foi um “despertar” para semear esperança

O padre Renato Chiera, que fez a celebração das cruzes na Igreja da Candelária, ontem, comparou a chacina a um despertar. “[No dia da chacina], quando eu cheguei aqui, tinha ainda o sangue, e eu falei com as pessoas que estavam ao redor – eram meninos amendrontados, um deles, que era da Casa do Menor, tinha fugido. Ele estava em cima de uma banca e contou que tinha visto a tragédia. Disse que ficou quietinho, com medo de que atirassem nele. Essa matança foi, para mim e para muitos, um despertar. Não adianta gritar contra as trevas, temos que acender luzes. Então, a gente tenta semear esperança, semear vida.”

Os locais com registro de violência contra crianças que vão receber as 21 cruzes ficam em diversas comunidades cariocas, como a da Providência, do Borel, de Acari, do Pau da Bandeira, de Guaratiba, da Rocinha, entre outras.

A principal testemunha do crime foi Wagner dos Santos, que sobreviveu à chacina, fingindo-se de morto. Um ano após a chacina, em dezembro de 1994, Wagner sofreu outro atentado, no qual levou quatro tiros, mas sobreviveu. Wagner atualmente mora na Suíça e não participou do ato de ontem.

Para Fátima Silva, do Movimento Candelária Nunca Mais, a situação não mudou muito desde a chacina. “De 21 anos para cá, não mudou quase nada. O orçamento público destinado à criança está diminuindo cada vez mais. Não tem políticas públicas nas comunidades. Que políticas públicas são promovidas para essas crianças? Como a gente implementa o Estatuto [da Criança e] do Adolescente?”, questiona. Ela ressalta ainda a falta de uma proposta pedagógica para essas crianças e afirma que não está sendo cumprida a Constituição Federal, que estabelece prioridade absoluta e diz que é dever do Estado, da família e da sociedade cuidar das crianças e dos adolescentes. “O que se vê, porém, é o abandono da situação, a falta de políticas públicas e de implementação do estatuto, além de projetos esfacelados, que não têm continuidade.”

Primeira a chegar

A educadora Yvonne Bezerra de Mello, que criou o projeto Uerê na Comunidade da Maré, destinado a crianças marcadas pela violência, conta como foi a Chacina da Candelária e diz que nada mudou até hoje. “Eu estava aqui na Candelária no dia da chacina. Era um grupo [de crianças] com o qual eu já trabalhava há dois anos na rua. Fui chamada quando faltavam 15 minutos para a meia-noite por um dos meninos, que me contou que policiais passaram e assassinaram alguns deles. Fui a primeira a chegar. De lá para cá, não mudou nada.”

terça-feira, 22 de julho de 2014

Jovem negro faz vídeos de pessoas o seguindo em lojas esperando que ele furte algo

Os clipes de Rashid, que já possuem mais de 15 milhões de visualizações, pretendem mostrar o "racismo institucional" quando funcionários o seguem nas lojas para ver se ele não furtará nada

publicado: virgula.uol.com.br
O jovem Rashid Polo, assim como a maioria das pessoas, usa os poucos segundos de vídeo do Vine para trivialidades, como reclamar dos professores, falar sobre a vida e fazer piadas. Mas nos últimos tempos, ele tem feito algo diferente: flagrado (e, claro, comentando) o racismo velado com o qual atendentes de lojas tratam rapazes negros como ele em lojas de conveniência.

Histórias de afro-americanos sendo seguidos por balconistas e seguranças nas lojas são extremamente comuns, não somente nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro. E ao andar pelos estabelecimentos, Rashid flagra alguns deles o seguindo.

"Você não odeia quando entra em uma loja e o caixa começa a te seguir? Eu não vou roubar tudo isso!", comenta bem-humorado o jovem na filmagem.

Os vídeos da rede social de Rashid estão fazendo muito sucesso na internet com. Em um deles, o adolescente usa a hashtag #SheThinkImStealing (#ElaPensaQueEstouRoubando, em tradução livre) para mostrar uma mulher que segue o jovem por toda a loja e se intimida ao notar que apareceu na imagem feita pelo celular.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Anderson Silva




Marcos Vilas Boas
publicado: revista Trip

Quando o assunto é racismo, Anderson Silva costuma fazer como nos ringues: mais esquiva do que ataca. Mesmo assim, não escapou de passar por situações de preconceito ao longo da vida. Quais? ele conta a seguir. E fala também sobre aposentadoria, homossexualidade e de como ficou careca depois de tanto alisar o cabelo
Anderson Silva tinha 16, 17 anos, um currículo que incluía aulas de capoeira, tae kwon do, balé e sapateado, e fazia o melhor cover de Michael Jackson das festinhas black de Curitiba. Ele montou com os amigos um conjunto que imitava as coreografias dos grandes grupos de funk, soul e disco americanos; sua tia Edith costurava as roupas, todas iguaizinhas, com a indefectível calça meia canela acompanhada de meias brancas. Mas Anderson só saía de casa depois de um ritual sagrado: aplainar o cabelo crespo com generosas quantidades de creme Alisabel.
Problemas de autoimagem? Racismo às avessas? Imposição da sociedade de consumo? Desejo inconfesso de se tornar branco como seu ídolo Jackson? Anderson tem uma explicação mais singela: “Eu só queria poder jogar meu cabelo nas festinhas”. O resultado foi desastroso: os cachos alisados à força foram substituídos por uma lustrosa careca – que, por ironia, acabou virando marca registrada. Até hoje há quem ache que o lutador raspa a cabeça para atemorizar adversários. A verdade é que Alisabel venceu Anderson por nocaute.

Para um garoto negro, pobre e que havia sido enviado de São Paulo pela desesperançada mãe, aos 4 anos, para ser criado por uma tia e sua família, não foi moleza crescer na pálida Curitiba. Anderson diz ter enfrentado inúmeros episódios de racismo durante a infância e a adolescência. Houve a vez em que um policial o abordou num ponto de ônibus, lhe deu um peteleco na cabeça e um soco no estômago – porque ele, único pele preta num grupo de amigos brancos
ali reunidos, havia tido a desfaçatez de dizer que voltava de um shopping naquela longínqua era pré-rolezinho. E também a ocasião em que era atendente do McDonald’s, e um cliente se recusou a ser atendido por um negro. E ainda a desconfiança de que o pai de uma namorada, por quem foi profundamente apaixonado, não apertava sua mão, não o recebia em casa e sabotou o relacionamento por causa de sua cor.

SÃO SEBASTIÃO DE BERMUDAS
Corta para um estúdio de São Paulo, março de 2014. Anderson posa calado e paciente para o fotógrafo Marcos Vilas Boas com seis flechas cortadas e coladas a seu corpo, com sangue falso escorrendo pela regata branca. A imagem produzida pela Trip homenageia a clássica capa da revista norte-americana Esquire de abril de 1968, em que o boxeador Muhammad Ali aparece em pose que remete ao martírio de São Sebastião, o militar que foi flechado por ordem do imperador Diocleciano por proteger cristãos.

Naquele momento, o martírio de Ali – célebre por sua luta pelos direitos civis dos negros e contra o racismo – era político: ele havia sido preso e destituído de seu título de boxe por se recusar a se alistar na guerra do Vietnã. Já o martírio de Anderson hoje é sobretudo físico: ele se recupera de uma delicada cirurgia depois da chocante fratura de sua tíbia e sua fíbula esquerdas durante o combate de dezembro passado contra Chris Wideman, em que perdeu a chance de reaver o cinturão dos pesos médios do UFC (Ultimate Fight Championship).

Embora seus estilos de boxeadores-bailarinos se assemelhem, Ali e Anderson são bastante distintos nos posicionamentos políticos. Ao contrário do americano, o brasileiro se recusa a levantar bandeiras quando o assunto é racismo. Seu discurso remete ao de outro grande atleta negro, Pelé – que, ao fazer seu milésimo gol em 1969, dedicou-o às criancinhas brasileiras, em frase que à época foi tachada de demagógica pelas patrulhas ideológicas. “Quando perguntam minha opinião, eu dou, mas prefiro evitar polêmicas”, afirma Anderson. “Há outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar, como as crianças do nosso país.”

"Me arrependi de usar alisabel, perdi meu black power"

Depois de meia hora parado como um São Sebastião de bermudas brancas e bíceps inflados, Anderson pede pressa porque começa a sentir câimbras – ainda um efeito colateral da delicada cirurgia por que passou há três meses. Considerado por muitos o maior lutador da história do MMA (artes marciais mistas), prestes a completar 39 anos neste 14 de abril, ele dá nota 9 para a recuperação da sua perna, confirma que pretende voltar a lutar no ano que vem, mas ainda não sabe dizer quando e como pretende encerrar sua carreira. De certeza, apenas uma: na ativa ou aposentado, nunca mais veremos seus cabelos encaracolados. “Me arrependi de usar Alisabel, perdi meu black power.”

Você acaba de refazer uma foto clássica do Muhammad Ali, que é um dos seus ídolos. Além de um grande boxeador, ele foi um cara que usou a fama para combater o racismo. Você às vezes sente vontade de fazer o mesmo aqui no Brasil? Quando sou abordado para falar sobre qualquer assunto político, seja racismo ou não, eu dou minha opinião. Mas prefiro me manter calado e evito polêmicas nesse sentido.

Por quê? Não acho legal. Não que não seja importante. Mas tem outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar e gastar mais energia.

No esporte, na família? Na família. Nas crianças do nosso país. Hoje eu fui ao hospital do Graacc [Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer] e vi um monte de crianças que estão ali passando por milhões de dificuldades, muitas sem perspectiva de vida, mas lutando para ser felizes. Então eu prefiro focar nessas coisas. Serve para que a gente entenda que nossos problemas são tão pequenos perto do que algumas pessoas passam.

O jornalista Ali Kamel, da TV Globo, escreveu um livro chamado Não somos racistas. Você concorda com a afirmação do título? O Brasil não é racista? Eu não acredito que o Brasil seja um país racista. Nós temos casos isolados de racismo. O Brasil tem muita coisa pra melhorar em relação ao racismo, política, saúde, educação. Mas acredito que a gente tem chances de mudar. Só não podemos perdê-las.

Você se lembra da primeira vez em que foi tratado de forma diferente por causa da cor da sua pele? Houve várias situações. Mas eu nunca tive problema com isso porque lá em casa a gente sempre foi muito bem instruído pela minha tia Edith a lidar com essas situações.

Que tipo de coisa sua tia falava? Ela sempre reforçou que somos todos iguais, independentemente de ser negro, branco, amarelo, roxo, de ser rico, pobre. Quando você tem essa consciência, tem capacidade de lidar com certas situações. Por mais que elas acabem te deixando um pouco constrangido, por mais que elas te magoem, você aprende a lidar.

Mas você pode falar de alguma situação específica? Uma vez eu trabalhava como atendente em uma lanchonete, e um cliente perguntou: “Não tem ninguém para me atender?”. Eu respondi: “Estou aqui para atendê-lo”. Aí ele falou: “Eu não quero ser atendido por um negro”. Fui até meu gerente e falei que tinha um senhor que não queria ser atendido por mim. O gerente foi até o balcão, e o cliente falou: “Não quero ser atendido por um negro, isso é um absurdo”. Aí o gerente respondeu: “Se você não for atendido por ele, você não vai ser atendido por mais ninguém aqui”. Aí aquele senhor saiu da loja meio bravo.

"Nós estamos vivendo um momento em que não cabe racismo no mundo"
Hoje, olhando esse caso tantos anos depois, você acha que tomou a melhor atitude na situação ou acha que deveria ter processado essa pessoa? Caberia esse processo. Mas aí eu iria perder meu dia de trabalho, teria que ir até a delegacia e não daria em nada. Porque nossa lei, por mais que exista, é muito falha. Principalmente em relação a esse tipo de coisa. Na época, meu caso não teria nenhuma repercussão. Agora, sim. Mas antigamente eu era uma pessoa comum. Hoje em dia eu tenho uma vida um pouco mais restrita, tem alguns lugares aonde não vou, por causa do assédio. Nos últimos anos, não tenho passado por nenhum constrangimento desse tipo.

Você acha que a fama que conquistou nos últimos anos protege você do racismo ou você acaba sendo mais visado? Depende muito das situações. Quando se fala em racismo, a fama acaba me deixando mais visível e mais desprotegido em alguns sentidos. Mas depende muito da sua postura, da forma como você lida com isso.

Você agora mora em Los Angeles, mas passa muito tempo no Rio. Você acha que o racismo é mais grave no Brasil ou nos Estados Unidos? Racismo é ruim em qualquer canto do planeta. Nos Estados Unidos existe também, até muito mais que no Brasil. Eu nunca tive problema com racismo em Los Angeles. Acho que as coisas estão mudando, as pessoas estão aprendendo que todos são iguais perante Deus, independentemente de cor, de raça. Eu costumo dizer que o confronto é inevitável no homem, que a cor é só uma desculpa para desencadear essa loucura, essa falta de respeito que as pessoas têm umas com as outras. Eu sou muito bem resolvido com essa coisa de racismo. Nós estamos vivendo um momento em que não cabe racismo no mundo.

Houve alguns exemplos recentes muito duros de racismo envolvendo atletas. O jogador de futebol Tinga foi xingado no Peru, o Arouca foi ofendido no Brasil, jogaram bananas no carro de um juiz. Quando você lê notícias como essas, como se sente? É triste, é desagradável. Nós estamos numa era de evolução. Mas não adianta. São coisas que vão acontecer. Muitas vezes as pessoas nem sabem o que estão falando. No caso do juiz, elas estavam ali porque eram torcedores e queriam atingir o juiz de alguma maneira. Como ele era negro, foi a maneira que encontraram de hostilizá-lo. Se fosse outro juiz, japonês, branco, não ia sofrer a mesma coisa, mas ia sofrer algum tipo de vandalismo.

Quando você começou nas artes marciais lá em Curitiba, era um meio que... Que tem muito racismo...

Como foi sua entrada, um rapaz pobre e negro, nesse universo? Minha tia e meu tio me ensinaram a entrar e a sair dos lugares de cabeça erguida. Em todas as academias que eu frequentei, sempre fui muito bem recebido por ter a disciplina e a educação que adquiri na minha casa. Quando comecei a treinar tae kwon do, na academia tinha muito coreano e branco, eu era talvez o único negro. Eu limpava a academia e treinava de graça. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito dentro da academia. Sempre fui bem recebido, sempre fui respeitado. Tenho grandes amigos que fiz nas academias até hoje. Dentro do ambiente esportivo, você tem que aprender a conviver com diferentes opiniões, diferentes raças, classes sociais. É todo mundo igual.

Então no esporte você não sofreu racismo. Mas e nas ruas de Curitiba? Você sofreu muito com batidas policiais? Várias vezes. Teve outra situação em que sofri racismo. Eu estava voltando do treino com amigos, fui passear no shopping e estava no ponto de ônibus, de bermuda e chinelo, com uma mochila nas costas. Parou uma viatura de polícia. Um PM desceu e me abordou, perguntou de onde eu estava vindo. Eu respondi que vinha do shopping. “Como assim do shopping?”, ele perguntou. Ele poderia ter feito isso com todos os outros meninos, mas fez só comigo. Eu era o único negro. Pensei: “Vou responder o que ele precisar e tá tudo certo”. Ele foi um pouco rude, mas eu não dei muita bola.

Como você se sente ao ler outras notícias de violência policial contra negros, como o caso da Claudia Silva Ferreira, que foi arrastada no asfalto pendurada em um camburão no Rio de Janeiro? Foi um episódio horrível. Como sou de família militar, acho que houve despreparo dos policiais. O que a gente pode fazer é abrir os olhos e prestar atenção nas coisas que estão acontecendo todos os dias e tentar mudar isso. Não adianta fazer manifestação e, depois que começa o Carnaval, está tudo certo. Não adianta fazer manifestação, ter feriado de Copa do Mundo, e está tudo certo. Estamos entrando numa época em que temos a oportunidade de fazer mudanças. É importante que as pessoas tenham consciência para exercer seus direitos, fazer manifestação sem serem violentas, agressivas, e sendo objetivas. Fica muito vago quando as pessoas são vítimas de alguma coisa, fazem um estardalhaço na mídia e depois deixam aquilo passar. Outros casos de violência e de racismo passaram, ficaram por isso mesmo. Acho importante as pessoas pararem um pouco e observarem o quanto elas podem mudar o país, as leis, o quanto a gente pode ter um país melhor.

Você perdeu seu cabelo usando Alisabel. Como foi isso? O problema não foi o Alisabel. O problema é que eu passava Alisabel todo dia! Minha tia falava: “Para, vai cair seu cabelo, você vai ficar careca”. Mas eu continuava passando todo dia, porque achava legal ficar com o cabelo liso, ir para os bailinhos. E, aí, de repente, caiu.

Quantos anos você tinha? Tinha 16, 17.

Por que você queria ter cabelo liso? Pegava mal cabelo crespo na época? Na minha turminha todo mundo tinha cabelo lisinho, eu queria ter igual, pra poder jogar o cabelo nas festinhas. Depois me arrependi de não ter meu black power.

Não tinha nada a ver com problemas de autoimagem, de querer parecer menos negro? Não era nada disso, até porque na minha turma havia pessoas de várias raças, japonês, árabe. Nunca foi por conta de ser negro que eu alisava o cabelo.

Você tinha um conjunto que fazia as coreografias do Jackson 5, né? Meus irmãos tinham um grupo, e minha turma sempre os via dançando, ensaiando. Aí a gente resolveu montar nosso grupinho e dançar também. A gente se reunia na garagem de casa e ficava fazendo as coreografias. Quando tinha as festinhas americanas, a gente saía dançando.

"Tem vários homossexuais no MMA que não se revelaram ainda"

dizem que você é um bom dançarino. Eu já fui. Hoje em dia não mais.

Sua tia colocou você para fazer balé na infância, não foi? Poxa, que fase... No começo eu não gostava não. Foi um castigo. Nenhum amigo fazia. Eu fazendo balé? Hello? Não era muito legal. Meus amigos ficavam: “Ah, menininha, mocinha”. E ainda com a minha voz fina... Sofri muito bullying.

E depois você começou a gostar do balé? Comecei a gostar, sim. Minha tia me botou também nas aulas de sapateado. Sou grato a ela porque me ajudou muito na luta. O [boxeador] Evander Holyfield fazia balé. Não tem muito a ver essa coisa, não. Você quer fazer balé, você faz balé. Quer fazer esgrima, faz esgrima. Você resolveu virar gay, vira gay, está tudo certo. Você respeitando o espaço das pessoas, elas respeitando teu espaço, está tudo certo.

No MMA tem muita discriminação contra gays? Acho que não tem preconceito, mas tem homossexuais no MMA. Tem vários que não se revelaram ainda.

Eles estão no armário porque, se saíssem, ia pegar mal nesse meio? Acho que hoje em dia é uma coisa tão boba não expressar o sentimento. Desde que você respeite o espaço das pessoas, respeite seus limites. Você tem que viver sua vida em paz e ninguém tem nada a ver com isso.

Quando entrevistei o Minotauro, há dois anos, ele disse que preferia não treinar com gay. Você treinaria? Claro, desde que me respeitassem, está tudo certo. Acho que não tem muito a ver. O fato de o cara ser gay não quer dizer que ele vai te assediar. Ele pode ser gay, ter um relacionamento, pode conviver em grupo com caras que não são gays. Ele faz o que quiser da vida particular dele.

Você é assumidamente vaidoso, metrossexual. Tiram muita onda com você na academia? Tiram. Às vezes a galera acha que eu sou gay. Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: “Olha, que eu saiba não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui um tempo eu descubra que eu sou gay” [risos]. Eu tomo muito cuidado com as minhas coisas, ponho todas as coisas na minha bolsa, coloco sabonete, passo um creme quando acaba o treino. A galera acha frescura. Mas é de cada um. Não quer dizer que você é mais macho ou menos macho, mais gay ou menos gay.

Você disse que sua tia Edith o orientou a lidar com o racismo. O que você fala para seus filhos sobre isso? Falo para eles não deixarem ninguém desrespeitá-los e para tomar cuidado para não desrespeitar ninguém. A vida se resume a dar para as pessoas respeito e receber de volta. Seguir por onde você resolver andar com a cabeça erguida, determinação e honra. É isso que eu passo pros meus filhos.

Eles já sofreram com o racismo? Eu acredito que não, porque teriam me falado. Nunca me falaram. Nos Estados Unidos, elas estudam em colégio público, convivem com outras crianças negras, brancas, japonesas, russas. Não têm essa proteção que tinham aqui. No Brasil, elas estudavam em colégio particular, mas nunca aconteceu nada.

Na infância, você gostava muito de quadrinhos, principalmente do Homem-Aranha, o que acabou lhe dando o apelido de Spider. E muita gente encarava você como um super-herói mesmo. Agora, com a lesão dessa última luta, você acha que estão encarando você de forma mais humana? Você virou o Peter Parker de novo? Acho que os últimos anos, as últimas lutas fizeram as pessoas entenderem isso, que sou uma pessoa comum como todas as outras, que não sou uma máquina, que eu posso falhar a qualquer momento e que estou tentando superar meus erros. Como todo brasileiro, todos os dias.

Você nunca caiu nessa de que era invencível? Nunca, jamais. Quando você pensa dessa forma, é o começo do fim.

Você reviu a luta da lesão? Eu vi uma vez, com olhos técnicos. Vi algumas coisas que eu poderia ter feito diferente.

Aquele chute você faria diferente? Hoje eu faria. Eu tentaria não fazer o chute tão isolado. Dei um chute isolado, sem colocar nenhum tipo de golpe antes. Foi falta de atenção naquele momento da minha parte.

Como você lidou com a dor? Ouvi dizer que você preferiu não se medicar para não se viciar. É verdade? O remédio que os médicos me deram pra dor era muito forte. Eu tomava o remédio, dava uns 3, 4 minutos, e a dor ia embora. Depois ela voltava. Tinha alguns momentos em que eu estava sem dor e estava tomando remédio. Eu resolvi parar, ficar com a dor e ver o que ia dar. Quando ela voltava, eu enchia a banheira de gelo e botava a perna dentro até passar. Fiz esse esforço para não viciar no remédio.

"[Depois da contusão] eu cheguei a me perguntar: 'será que vou conseguir voltar?'"

Você achou que não ia conseguir voltar? Eu cheguei a me perguntar: “Será que vou conseguir voltar?”. Mas o Marcio Tanure, meu médico e do UFC, que me trata há anos, me disse: “Relaxa, isso é mais fácil que cirurgia no menisco”. Aí eu fiquei mais tranquilo.

O Ronaldo, seu amigo e sócio da 9ine [que gerencia a carreira de Anderson], ajudou você nesse momento? Ele falou sobre como superou as cirurgias dele? A gente conversou bastante, ele falou da experiência que ele teve. Foi bacana, importante. Foi mais fácil lidar.

Como você está fisicamente? Fisicamente estou 100%. Minha perna, de 0 a 10, está 9. Estou me sentindo forte, treinando todos os dias.

O que falta pra perna ficar 10? Tempo. Mais alguns meses eu estou zerado. Estou fazendo a fisioterapia, já estou mais seguro, estou chutando. A única restrição é que eu não posso pular nem correr.

Como você enxerga sua carreira daqui pra frente? Eu tenho mais oito lutas no meu contrato. Estou com a cabeça boa, com o coração bom. Tô com muita vontade de continuar. Mas as coisas vão surgir com o tempo: os medos, as frustrações, a vontade, a falta de vontade de lutar. Por enquanto, eu estou bem, estou com vontade de continuar fazendo o que eu faço e não tenho mais nada para provar pra ninguém. É ir lá e fazer o que eu amo, independentemente do resultado.

A volta é para 2015? É. Este ano não.

Estão começando a falar de lutas com nomes como o [boxeador] Roy Jones Jr. Faz sentido? Muito. Agora o Roy Jones é o maior objetivo na minha carreira. É um sonho pessoal que eu tenho. Ele foi o melhor boxeador na época dele. Eu gostaria de ter essa oportunidade de fazer uma luta de boxe com ele, nas regras do boxe, fora do contrato com o UFC. Ele já se pronunciou e acha que seria fantástico.

Esse contrato de oito lutas com o UFC pode ser quebrado? Pode. Eu posso parar na hora que eu resolver parar. O tempo vai dizer. As oportunidades vão aparecendo, as limitações.

O Jon Jones deu uma declaração forte por esses dias, dizendo que você deveria se aposentar, fazer palestra, seminários. Como bate esse tipo de declaração? Cada um tem sua opinião. Minha mulher e meus filhos também acham que eu tenho que me aposentar. Lá em casa tem um pé de “acho” que nunca dá nada. Ninguém pode falar para você o que fazer dentro daquilo que você ama. Você é que tem que saber do seu limite e da sua hora de parar.

E, no caso do Minotauro, você acha que ele deveria se aposentar? O Rodrigo [Minotauro] é um cara que tem uma história dentro desse esporte e só ele pode dizer a hora de parar. Ninguém pode dizer. Eu não acho que seja um bom momento para ele parar, ou para qualquer pessoa parar, quando não sente isso dentro do coração. A gente conversa muito sobre isso, eu, Rodrigo, o Rogério [Minotouro]. É uma coisa que tem que surgir de cada um. Eu fiz minha história, estou caminhando, estou correndo atrás. Ninguém pode dizer para mim que é hora de eu parar. O Dana White não pode me aposentar, ele não tem esse direito. Ele pode cuidar do negócio dele, das coisas dele. Quem sabe quando e como parar é o atleta.

Uma geração de ídolos do UFC está perto do final da carreira. Você, o Georges St. Pierre, o Minotauro. Vai ser um baque pro UFC quando vocês pararem? Não houve uma renovação, não houve um trabalho de base com novos atletas. Os novos talentos já apareceram famosos. Assim fica difícil ver alguém que vá fazer algo diferente lá dentro. Tudo que está aparecendo hoje no UFC é normal, ninguém vai assistir a um cara porque acha que ele vai fazer algo diferente. As pessoas lutam com a regra, mostram que estão ali para fazer o trabalho delas, não demonstram um talento acima da média. É a evolução do esporte, é um negócio. Na minha época era uma coisa. Com as novas gerações é diferente.

Você se destacou pelo seu talento, mas também pelas polêmicas. Muita gente reclama das suas provocações, das brincadeiras no octógono, de lutar de guarda baixa. Hoje você faria diferente? Para mim, entrar no octógono, lutar e fazer o que eu faço é uma diversão. Tem que assumir o risco e entender que aquilo é seu jeito, você tem que estar feliz com o que está fazendo. Eu sempre fiz tudo com muita tranquilidade, com verdade. Não fazia para acharem que era melhor que meu adversário. Fazia porque eu gostava. Quando comecei a lutar, nunca tive pretensão de chegar ao UFC. Eu treinei para ser tão bom ou até melhor que meus professores, para ser melhor que eu mesmo no dia anterior. Acho que esse foi o caminho do meu sucesso dentro do octógono. As oportunidades foram aparecendo, nunca desafiei ninguém, nunca fiz menção de que queria lutar com esse ou aquele. Deus me deu aquilo que ele achava que era meu de direito.


Eu achava que era um jogo mental para desestabilizar o adversário... Era uma coisa que eu via nos meus ídolos, no Bruce Lee, no Muhammad Ali, até mesmo no Roy Jones Jr. Mas nunca fiz isso para me vangloriar sobre meus adversários ou para criar uma barreira psicológica. Fazia porque gostava, porque achava legal, porque me divertia. Sempre entro ali pensando na minha diversão. Esqueço meus fãs, esqueço as pessoas que estão à minha volta e tento fazer o que eu treinei, com respeito aos meus fãs, ao meu país. Mas eu não luto pelos meus fãs, eu luto por mim, eu luto porque eu amo lutar. Depois vêm as outras coisas, vêm os fãs, a fama, o dinheiro.

Como você vê o Anderson daqui a 20 anos? Um velho chato, enchendo o saco dos meus filhos, talvez brigando muito com meus netos. Não, tô brincando. Me vejo feliz, com meus filhos bem-criados, formados, cada um trilhando com sucesso o caminho que decidiu trilhar. E vivendo minha vida em paz, com dignidade.

O jornalista Eduardo Ohata, que ajudou você a escrever sua biografia, disse que sempre o viu mais como um professor do que como um lutador. Ele está certo? Está sim. Acredito que sou melhor professor do que lutador. Ainda tenho meus alunos, sei exatamente a forma de conduzir alguns treinos. Sei lidar muito mais com a coisa de ensinar do que com a coisa de lutar. Eu tenho dificuldade de relacionamento com os treinadores de uns anos para cá porque tem coisas que eu percebo que não vão funcionar e que eu acho que não devem ser treinadas.

Quando você decidir que é hora de parar, a ideia é que você seja um professor? Não sei se vou ter tempo de continuar fazendo isso depois de me aposentar. Eu gosto de ensinar, eu ensino meus filhos, apesar de nenhum querer ser lutador. Mas eu não sei se teria tempo para dar aula todos os dias. Minha vida mudou muito.

Como está o plano de fazer cinema? Tá bacana. Fiz uma participação no filme brasileiro Até que a sorte nos separe 2, ao lado do Leandro Hassum. Acabei de filmar o Tapped com o Lyoto Machida, sobre o mundo do MMA. Estou recebendo alguns roteiros, estudando qual vai ser melhor fazer. Acabei de assinar contrato com a ICM, terceira maior agência de atores em Hollywood. No Brasil, eu tenho aulas com o Luiz Mario, preparador de atores, com ajuda do Johnny Araujo, que é um excelente diretor. E, quando estou em Los Angeles, também tenho aula de acting.

O Steven Seagal deu uns toques a você sobre luta. Ele também está ajudando na atuação? O Steven Seagal é um amigo distante, que aparece quando pode. Numa época ele esteve mais perto, porque estava tranquilo no trabalho. Deu uns toques sobre treino, sobre luta. Mas, como ator, ainda não deu nenhuma dica.

Quando você parar de lutar, vai deixar inimigos no UFC? Espero que não. Eu não tenho inimigos dentro do UFC. Respeito todos os funcionários como parte da minha família. Quando parar, deixo uma história bonita e um legado. Há uma grande chance das novas gerações do UFC olharem para trás e falarem: “Eu tenho esse cara como exemplo. Ele fez a diferença”.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Essa mulher confrontou o racismo olho por olho e veja o que aconteceu

publicado:http://racismoambiental.net.br/

Essa é Mo Asumang seu pai é Ganês e sua mãe Alemã. Descontente com a onda de racismos e discriminação em alguns países ela decidiu enfrentar cara a cara o que Neonazistas e outros grupos tem a dizer. Percorreu ruas da Alemanha portando uma câmera em busca de seu objetivo questionando o que eles tem contra sua raça e quais seus planos para os negros. O resultado disso foi fantástico, virou um documentário que contou com o apoio da BBC News que reproduziu esse vídeo.
Guerreira essa garota! Recebeu insultos e teve que engolir seco por várias vezes no vídeo… Mas seu trabalho está ganhando o mundo!

Lázaro Ramos: Momento de Ajuste

Lázaro Ramos percebeu em si próprio as mesmas questões que ecoaram nas ruas
Texto: Pedro Só | Fotos: jorge bispo
publicado: revista Trip



Um dos atores mais populares e elogiados de sua geração, Lázaro Ramos, 35 anos, percebeu que estava vivendo pessoalmente a mesma angústia que detonou as manifestações de rua no Brasil em junho de 2013. assim como todo o país, em 2014 ele parou para ver a Copa e se emocionar com momentos como o choro do goleiro Júlio César. Nas próximas páginas, um papo sobre tudo: infância em Salvador, racismo, teatro, primeira vez, casamento, religião, política, celebridade – e a busca por um sentido na profissão: “Não quero ficar obsoleto”

“A grande alegria de trabalhar é poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas andarem com as próprias pernas. pagar plano de saúde, ajudar um primo na faculdade”

“Alguém nos ajude, Lázaro, a entender...” A frase do cantor Criolo sobre a ascensão da classe C no país foi ao ar em março de 2013 no programa Espelho, que Lázaro Ramos comanda no Canal Brasil há nove temporadas. Por caprichos internéticos, um ano depois, trecho dessa entrevista foi viralizado nas redes sociais, enfatizando o discurso aparentemente desconexo do rapper paulistano. Mas, para além do meme repetido com efeito humorístico, há uma discussão séria e central entre os interesses e a trajetória do politizado ator baiano de 35 anos, reconhecido como um dos melhores e mais populares de sua geração.

Filho de um namoro de Carnaval entre Célia, empregada doméstica morta em 1999, e Ivan, ex-operador de máquinas do polo petroquímico de Camaçari, hoje com 59 anos, ele passou a infância na casa da madrinha, Helenita, de 90 anos.

A convivência com o pai era boa e constante, nos fins de semana. “Como funcionário de Camaçari, ele não levava vida de luxo, mas todo sábado tinha almoço em restaurante, nunca faltou presente de aniversário ou Natal. Aí veio o Collor...”. Sob nova realidade econômica, Lázaro saiu da escola particular para a pública. Depois, aos 14 anos, foi morar com o pai – sem restaurante no sábado.

O adolescente Lázaro fez teatro na escola pública, a Anísio Teixeira. Como só podia frequentar o curso de teatro quem fizesse um outro curso profissionalizante, ele foi cursar patologia clínica. Um emprego no Hospital Ramiro de Azevedo o ajudou a dar apoio à mãe, que sofria de uma doença degenerativa limitadora dos movimentos, em seus últimos anos de vida. A morte dela abalou Lázaro, mas não o impediu de, pouco mais de um ano depois, em 2000, ganhar projeção nacional ao lado dos amigos Wagner Moura e Vladimir Brichta com uma montagem de A máquina, de João Falcão.

Na TV, que o cooptou depois que protagonizou o filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, em 2002, ele foi conquistando espaços com competência e versatilidade. Em Elas por elas(2012), quebrou barreiras como o primeiro protagonista negro de uma novela. Hoje vive o guru pop Brian Benson, em Geração Brasil. Mas o cinema é sua área de atuação mais frequente. Está em cartaz com O vendedor de passados (direção de Lula Buarque de Holanda), baseado no romance do angolano José Eduardo Agualusa. Em breve será visto também em O Grande Kilapy (de Zezé Gamboa), coprodução Brasil-Portugal-Angola, em que interpreta um malandro africano. Em 2015, estará em O grande circo místico, sob a direção de Cacá Diegues.

Outro projeto que gera muita expectativa é Acorda Brasil (cujo título pode ser mudado ainda), dirigido por Sergio Machado. Baseado na experiência do maestro Silvio Bacarelli na favela de Heliópolis, em São Paulo, o filme obrigou Lázaro a contracenar com adolescentes inexperientes e dar vazão à inquietude que rege sua carreira. Lázaro diz que as grandes transformações que teve enquanto ator “vieram de provocações que os filmes lhe fizeram: Madame Satã, O homem que copiava, Cidade Baixa, Ó paí, ó...”. Ser colocado à prova, no abismo, dá medo. Mas traz recompensas definitivas. “Esse medo está aqui em mim, mas ao mesmo tempo tem o sagrado do teatro, que fala: ‘Se joga no abismo, rei! Vá lá! Você não tem nada a perder!’. E aí tem que tirar uma coragem do [põe a mão na boca e fala baixinho] cu pra poder seguir, bicho! Porque dá um medo, rapaz! Mas é bom! É isso que mantém a gente vivo.”

"As grandes transformações da que tive enquanto ator vieram de provocações que os filmes fizeram: Madame Satã, Cidade Baixa..."

Morando no Rio de Janeiro há 14 anos, casado com a atriz Taís Araújo – um relacionamento iniciado há quase dez anos, com oito meses de interrupção em 2008 – e pai de João Vicente, 3 anos, Lázaro não se contenta em apenas atuar. Em 2010, lançou o livro infantil A Menina Sentada (depois adaptado para o teatro). Em 2011, dirigiu a peça Namíbia, não!(de Aldri Anunciação) e, no começo deste ano, estreou a peça As Pocorotas, também voltada para crianças. Tem lido livros técnicos sobre roteiro, já com alguns projetos cinematográficos em mente. E sem esquecer as convicções políticas.

Que passam por ideias como as do sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, entrevistado por Lázaro neste ano no programa Espelho. O autor deBatalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? questiona a classificação estabelecida a partir de critérios estritamente econômicos. “Ele fala: ‘Peraí! Vamos ver! O que é a ascensão da classe C? Que valor é esse que a gente teve agora?’. Eu gostaria de avisar a todos: para você que não entendeu o Criolo, veja a entrevista do Jessé.”

Vamos do começo, sua infância. Sua mãe era empregada doméstica, certo? Sim. Minha mãe trabalhava, minha família toda, então a maioria das crianças foi criada por uma mulher chamada Helenita, que todo mundo chama de Dindinha e que fez 90 anos há duas semanas. Uma mulher que nunca teve filhos, mas pegava os sobrinhos e sobrinhos-netos e criava, dava educação. Minha mãe trabalhava numa vizinha ao lado. Tive muito contato com essa patroa, os netos da patroa. Claro que com os limites de um filho de empregada.

A Dindinha criou você? Isso. A mãe tava ali próxima, mas Dindinha foi a grande educadora da família toda.

Vocês ainda têm contato? Sim, e ajudo, ela é minha família. A grande alegria que eu tenho, de poder trabalhar com frequência, é poder participar, poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas caminharem com suas próprias pernas. Felizmente eu tenho a possibilidade de fazer isso hoje. Pagar plano de saúde, poder ajudar um primo na faculdade.

Você diria que teve uma infância feliz? Tive uma infância feliz, muito protegida, numa casa com quintal. Mas fui um menino criado dentro de casa, a gente não podia sair, as crianças brincavam com a gente no quintal de Dindinha. Era tudo muito regrado, não tinha palavrão, não tinha essa de escolher o que comer. Ao mesmo tempo, dava muita autoestima, e isso foi muito legal. Eu fui perder a inocência sobre a dureza da vida quando saí da casa dela. Aí que eu fui entender mais ou menos como era o mundo. Mas lá era assim, autoestima, me chamavam de capaz, me estimulavam, uma família de pessoas bem-humoradas, minha mãe inclusive. No túmulo da minha mãe tem a frase “Nunca esqueceremos seu sorriso”, que é uma frase marcante, né? Engraçado que até hoje encontro gente que foi amigo ou amiga da minha mãe e fala sempre isso: “Sua mãe era muito engraçada”. Isso contamina a família, me contaminou também.

E como eram as questões materiais? Tinha presente de aniversário, Natal? Tem duas fases. A fase farta é quando meu pai era do polo petroquímico de Camaçari, operador de máquinas. Não era uma vida com luxo, mas tinha presente de aniversário, ir a um restaurante todo sábado. Aí veio o [Fernando] Collor e muda tudo: saí de escola particular e fui pra escola pública... sou filho da época da inflação. Dinheiro era um negócio que perdia o valor rapidamente, a gente saía do banco e ia correndo comprar as coisas. Depois do Collor, cortamos todos os supérfluos, não tinha restaurante, virou outra vida.

Em que bairro você morava? Na Federação era a casa de Dindinha. E no Garcia ficava a casa do meu pai, com quem fui morar aos 14 anos. Ele ainda não era casado, mas ele já tinha a casa dele e tal. Meus pais nunca foram casados, sou filho de namoro de Carnaval: nasci em novembro, nove meses depois do Carnaval. Sou escorpião.

E a relação com seu pai foi boa? Sempre foi muito boa. Meu pai é um homem que passou por uma grande transformação. Ele nunca foi um homem afetivo, era mais disciplinador, muito correto, muito justo, eu tinha medo dele. Mais adulto, quando saí de casa e fui seguir a vida, a gente foi criando uma relação afetiva que eu nem sei o que é que disparou. Hoje a gente é amigo, tem uma relação que não é nem parecida com o que era na infância. Meu pai não queria que eu fosse ator. Muitos anos depois ele veio me dizer: era medo, imagina profissão de ator, vai sobreviver como? De quê? Ele sempre quis que eu fizesse

 escola técnica.