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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Em capitais, muros amanhecem pichados “contra o genocídio da juventude negra”

publicado: revista fórum

O Levante Popular da Juventude coordenou a ação que ocorreu nesta madrugada em São Paulo, Bahia e Ceará. Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Norte também serão alvos do mesmo tipo de protesto ainda nesta segunda-feira (17). Movimento pede, também, o fim dos autos de resistência, e que a presidenta se posicione sobre a chacina em Belém, no Pará

Contra o “genocídio do povo negro”, membros do Levante Popular da Juventude picharam muros em São Paulo, Fortaleza e Salvador, na madrugada desta segunda-feira (17). Ainda hoje, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Norte serão alvos da mesma iniciativa.

A ação coordenada começou em São Paulo, onde o movimento cobrou uma resposta da presidenta sobre a chacina em Belém do Pará, realizada no último dia 5 de novembro, que terminou com nove mortes oficializadas. Porém, a população local alega que o número é maior.

“Chacina em Belém, Dilma posicione-se. Contra a morte da juventude negra”, dizia a mensagem cravada no muro principal do Cemitério da Consolação.

Na Bahia, a ação ocorreu na avenida João Angélica, no centro de Salvador, tradicional ponto de encontro do movimento negro do estado. O muro da Universidade Federal do Ceará também amanheceu com a mensagem deixada pelo Levante, a mesma grafada pelos baianos: “Levante contra o genocídio da juventude negra”.


Universidade Federal do Ceará foi o alvo escolhido pelo Levante, no Ceará

Em nota, o Levante Popular da Juventude explicou a ação: “Deixamos nossas marcas nas ruas neste 17 de novembro de 2014 em memória à vida de cada um dos jovens, em sua maioria negros, executados pelas polícias brasileiras”.

Números divulgados no 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) foram utilizados para justificar o discurso de genocídio da população negra. “Ser negro no Brasil é ter 3,7 mais chances de morrer de forma violenta. Os números da violência só crescem em nosso país. De 2009 a 2013, subiu de 44.518 para 53.646 o número de homicídios. Entre todas essas vítimas, 36.479 eram jovens negros, ou seja, 68% do total de mortos”, explica o Levante.

O movimento também lembrou a tragédia em Belém e, dessa vez em nota, cobrou a presidenta. “O genocídio do povo negro é uma realidade tão naturalizada em nosso país que, até a data de hoje, a presidenta Dilma Rousseff não prestou nenhum esclarecimento público sobre o ocorrido e não demonstrou nenhuma intencionalidade em pressionar o estado do Pará ou mobilizar para que os órgãos federais investiguem os crimes”, declarou.

Na nota, o Levante faz quatro exigências: “A imediata aprovação do PL 4471, que determina o fim dos Autos de Resistência no Brasil; posicionamento da presidenta Dilma Rousseff sobre as mortes ocorridas no Pará; a imediata investigação da chacina ocorrida no Pará no dia 5 de novembro; e o combate concreto e permanente ao genocídio do povo negro”.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

HOJE VAMOS À MARCHA CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO

Hoje será realizada em 18 estados do Brasil e 15 países das Américas, Europa e África a II Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. A marcha faz parte da campanha “Reaja ou será Morta, Reaja ou Será Morto” e busca chamar a atenção para a luta contra o racismo e os altos índices de violência e morte contra a população negra. O objetivo da mobilização é ampliar o debate em torno da unidade, autonomia, protagonismo e solidariedade contra o genocídio, o racismo e o extermínio do povo negro, enfrentando os resultados de quase 400 anos de trabalho escravo e 126 anos de racismo institucional e social, que tem como herança uma sociedade extremamente desigual, preconceituosa, racista e injusta. 
Ao verificar a taxa de homicídios no país observa-se que a imensa maioria das vítimas morre na periferia é jovem e negra de acordo com dados do IBGE. A baixa inserção da população negra nos espaços de representação, em especial nas estruturas governamentais, responsáveis pelas elaborações e gestão das políticas públicas, tem como resultado uma série de práticas genocidas em todos os âmbitos sociais. Essa violência praticada pelo Estado brasileiro vem desde o tráfico negreiro, quando os negros foram trazidos da África como animais e explorados pelos Europeus. 

MANIFESTO NACIONAL
II MARCHA (INTER)NACIONAL CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO

A Luta Transnacional Contra o Racismo, a Diáspora Negra Contra o Genocídio

A Campanha Reaja ou será Morta, Reaja ou Será Morto, diante da conjuntura de brutalidade, violência, superencarceramento e morte da população negra; diante do confinamento de comunidades inteiras em campos de concentração batizados de UPPs ou Bases de Segurança; diante das remoções forçadas de famílias inteiras para o benefício do capitalismo cujos defensores são os maiores investidores nos chamados jogos internacionais (Copa e Olimpíadas); diante do Estado de exceção constituído por leis que suprimem a própria lei garantindo execuções sumárias e extrajudiciais, prisões sem fundamentos e a barbárie generalizada no espaço urbano militarizado e perigoso para nossas vidas desprotegidas de iniciativas legais, ou submetidas a iniciativas legais de nosso abate; diante de instituições que deveriam garantir a efetivação de direitos que se calam e ajoelham frente aos nossos algoze diante da nossa eliminação;. Diante da nossa execração quando mulheres são arrastadas por carros, jovens são amarrados em postes e linchados, suspeitos baleados agonizam em frente a policiais, comunidades inteiras submetidas a uma politica de controle, como se isso não bastasse para comprovar que estamos em uma guerra de genocídio racial; diante do silêncio de parte do movimento social, incluindo de negros e negras que está atrelado aos governo federal e locais que pautam os movimentos sociais com seus garotos de recado constrangidos fazendo seu trabalho em ano eleitoral, ao mesmo tempo em que os governos matam e humilham a população negra, elaborando e apresentando programas ineficazes e sem dotação orçamentaria e mandam seus mediadores e porta-vozes acalmar as vozes das ruas. Assim, diante do exposto, a Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, em diálogo com irmãos e irmãs em todo território nacional, em diálogo com irmãos e irmãs da Europa e Estados Unidos, da Colômbia e Barcelona, convoca, convida, conclama as organizações negras em particular e as organizações do movimento social, de um modo geral, a tomarem sua voz de volta e REAGIREM. Façamos a II Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro tomando nossa voz de volta, dando um salto de unidade e autonomia, de solidariedade e luta contra o racismo e pela vida.

Esse texto é uma orientação geral quanto aos princípio que animam quem almeja, de verdade, construir essa II Marcha Nacional Contra o genocídio do Povo Negro.

Chamamos todas e todos para essa II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro de forma autônoma, independente e revolucionaria. Eis nossos princípios inegociáveis:

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro tem como tema: A luta Transnacional Contra o Racismo, a Diáspora Negra Contra o Genocídio. 

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro reconhece e respeita a autonomia histórica das mulheres negras que tem reagido e resistido a opressão dirigida as nossas comunidades e criado instituições poderosas de luta, solidariedade e humanidade do povo negro em todas os continentes, as mulheres negras são a linha de frente dessa Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, as coordenadoras e impulsionadoras de nossa ação nas ruas do país;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro é uma ação política independente e centrada na luta contra o racismo e o genocídio, na qual os negros e negras terão sua vozes para falarem de si próprios, sem mediadores ou acadêmicos bem intencionados para serem porta vozes de nossa luta;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro deve ser organizada nas bases, nas comunidades, nas favelas e prisões, nos quilombos e aldeias, nas fábricas e nas ruas , nos terreiros de candomblé, nas casas de batuque, de xangôs, de tambor de mina, nas posses e quebradas e devem ter essas coletividades como sujeitos e não como objeto de estudo ou barganha em articulações politicas; 

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro repudia o uso eleitoreiro de nossa desgraça seja por qualquer partido ou grupo politico-eleitoral, pois nossas demandas não cabem nas urnas ou em projetos alheios a autonomia preta, pan-africanista e favelada;

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro usará as cores do Panafricanismo e terá caráter internacional na luta negra;
• Fora desses princípios qualquer iniciativa não poderá ser apresentada como II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro sob pena de desafiar nosso repúdio Nacional e Internacional; 

• A II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro não terá qualquer vínculo partidário ou eleitoral, e quem assim o fizer estará fazendo outra coisa não a II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro

Contra o Genocídio do Povo Negro, Nenhum Passo Atrás

Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto.
EM CURITIBA
 CONCENTRAÇÃO NA PRAÇA SANTOS ANDRADE AS 18H.  
A marcha também ocorrerá em outros 17 estados brasileiros e em 15 países das Américas, Europa e África.O genocídio contra negros, em especial contra a juventude negra, vem sendo denunciado por diversas organizações do movimento negro. Segundo registros do Sistema de Informações de Mortalidade, contabilizados no relatório “Mapa da Violência 2012 A cor dos homicídios no Brasil”, entre 2002 e 2010, , morreram assassinados no país 272.422 negros, com uma média de 30.269 assassinatos ao ano. Só em 2010, foram 34.983. Já as taxas de homicídio de jovens brancos passaram, entre 2002 e 2010, de 40,6 para 28,3 – queda de 30,3% – enquanto a dos jovens negros cresceu de 69,6 para 72,0 – crescimento de 3,5%. O estudo foi realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, Flacso Brasil e Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ligada à Presidência da República. O movimento negro denuncia que boa parte das mortes são provocadas por policiais.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A DIFÍCIL MISSÃO DE SER JOVEM E NEGRO NO BRASIL


Mônica Francisco ressalta em artigo que a existência de 500 mil jovens que não estudam nem trabalham revela empreitada para alijar estes jovens da possibilidade de viver. “Que jovem branco tem inconscientemente o medo de ser alvo de alguém que queira ‘descarregar’ um pouquinho a sua arma?”, questiona em sua coluna no Jornal do Brasilpublicado: brasil247.com

Favela 247 – As dificuldades enfrentadas pela juventude negra brasileira foram tema de artigo publicado pela representante da Rede de Instituições do Borel Monica Francisco, na coluna Comunidade em Pauta, do Jornal do Brasil. “A existência de 500 mil jovens que nem estudam e nem trabalham, (...) nos dão a certeza de que há uma verdadeira empreitada no sentido de alijar estes jovens da possibilidade de viver, e viver no sentido mais pleno dessa palavra. (...) Que jovem branco tem inconscientemente o medo de ser alvo de alguém que queira ‘descarregar’ um pouquinho a sua arma?”, questiona. Dentre uma das grandes mudanças propostas pela ativista é a retirada, de textos jornalísticos sobre crimes, a frase "não tinha passagens pela polícia ou antecedentes criminais". “Isso produz de maneira subjetiva a errada sensação ou induz ao errado pensamento de que se pode ser vítima ou alvo de qualquer ato mais vil se a pessoa em questão não se enquadra nesta sentença”.

Por *Mônica Francisco, para o Jornal do Brasil

É impossível ser negro neste país
Não é à toa que um grande atleta de alto rendimento desabafando, disse ser impossível ser negro neste país.
Terça-feira (12), dia anterior ao da publicação desta coluna, comemora-se O Dia Internacional da Juventude. Segundo a atualmente badalada enciclopédia colaborativa da internet, por resolução da Assembléia Geral da ONU em 1999, estabeleceu-se em resposta à recomendação da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, reunida em Lisboa, de 8 a 12 de Agosto de 1998.

Em decorrência da data, achei mais do que pertinente voltarmos a alguns assuntos que teimam em nos inquietar. Na última semana, recebi em minha linha do tempo do Facebook, um post feito há um ano, após um encontro, onde uma defensora dos direitos humanos e ativista social, moradora da favela do Cantagalo, chamava a atenção de autoridades presentes ao encontro sobre um grupo de jovens marcado para morrer.

Um ano depois, percebemos que há uma terrível marca sobre a juventude negra brasileira, e o peso de andar dia após dia com a sensação de ser o próximo.
Isso se traduz nas terríveis notícias que nos chegam todos os dias. Na última semana, Rhuan, morador do Alemão, dava depoimento sobre sua sorte de ter sobrevivido a um tiro nas costas.

Em Acari, as mortes se contabilizam. Somemos ainda, segundo Diego Santos, membro do Conselho Nacional de Juventude, a dificuldade de se ver materializado na prática cotidiana ações que de fato minimizem a tragédia, como por exemplo os nem-nem.
Diz ele que o Rio de Janeiro conta com o Programa Juventude Viva, da Secretaria Nacional de Juventude em 13 municípios.

O programa visa estimular o desenvolvimento em parceria com os municípios, de ações que previnam a violência contra a juventude, principalmente a juventude negra, alvo direto e predileto da violência e das condições mais precárias de inserção na sociedade.

A existência de 500 mil jovens que nem estudam e nem trabalham, citados por Diego, nos dão a certeza de que há uma verdadeira empreitada no sentido de alijar estes jovens da possibilidade de viver, e viver no sentido mais pleno dessa palavra.
Isso sim é uma das maiores tragédias da história deste país. Isso não é cinema, é real. Jovens mortos como moscas. Que jovem branco tem inconscientemente o medo de ser alvo de alguém que queira "descarregar" um pouquinho a sua arma?

Cerceados no direito de ter direito, perspectiva e com uma necessidade de constante limpeza moral, como o caso do sobrevivente do Alemão, o Rhuan, que tem de agregar ao seu depoimento a frase recorrente: "Não sou bandido, eu trabalho", e ao lado, a prova indefectível, a carteira de trabalho.

Uma das grandes mudanças, dentre tantas que deveriam ou melhor devem se implantar neste país, é a retirada urgente das pautas jornalísticas a frase complementar, "não tinha passagens pela polícia ou antecedentes criminais".
Isso produz de maneira subjetiva a errada sensação ou induz ao errado pensamento de que se pode ser vítima ou alvo de qualquer ato mais vil se a pessoa em questão não se enquadra nesta sentença.
rcada por causa do seu endereço, da sua classe e principalmente por causa da sua cor.É vergonhoso ver o mundo consentindo no extermínio de seres humanos pela guerra e pelos vírus letal. A mesma vergonha deveríamos sentir de assistir à execução de um plano macabro de extermínio de uma juventude, ma
O que precisamos é que se cumpra a lei que temos, que se respeite a humanidade, e que se repense seriamente em quem de fato colocaremos nos postos de poder em outubro.
"A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Monica Francisco é representante da Rede de Instituições do Borel, coordenadora do Grupo Arteiras e consultora na ONG Asplande

quinta-feira, 24 de julho de 2014

DO LUTO À LUTA

O extermínio de jovens negros é a maior vergonha nacional

O extermínio de jovens negros é a maior vergonha nacional. Nos acostumamos aos Douglas, Amarildos e Claudias, e a maioria parece achar menos chocantes essas mortes do que a de um branco, rico
por:*Alê Youssef,
publicado: revistatrip
Durante a gravação do programa Esquenta! especial sobre a morte do dançarino DG, Fernando Luna, diretor editorial da Trip, explicando as motivações que resultaram na publicação das importantes matérias de capa das revistas Trip e Tpm sobre racismo, disse que não era preciso esperar uma tragédia específica para gerar essa discussão fundamental, pois no Brasil sempre acontecem episódios lamentáveis e o assunto é tão presente que a qualquer momento encontra tristes fatos concretos recentes relacionados. Foi o que aconteceu com as revistas que estampavam “Ser negro no Brasil é foda” e “Ser negra no Brasil é (muito) foda” em suas capas. Motivadas pelos casos de racismo no futebol e pela prisão injusta de um ator negro, viraram referência nacional uma semana depois com a repercussão da morte de DG.

Mas tão frequente quanto os casos de assassinato e impunidade é o esquecimento. Parece que a realidade é tão dura que a sociedade afrouxa e esquece para não ter que pensar no assunto. Na verdade, todos nós nos resignamos. Mas não dá para ser assim, pois o lamento pela perda de vidas deveria servir para colocarmos as mãos em nossas consciências e assumirmos uma verdade que precisa ser encarada: o extermínio de jovens negros é a maior vergonha nacional.

É a maior vergonha, pois há cerca de 20 anos convivemos com esses números que parecem nos anestesiar mais do que revoltar. É a maior vergonha pois as dificuldades políticas de medidas eficazes para revertermos esse quadro empurram, eleição após eleição, a sujeira para debaixo do tapete. É a maior vergonha porque nos acostumamos aos Douglas, Amarildos, Claudias, e a maioria parece achar menos chocantes essas mortes do que a de alguém que seja branco e more em bairro nobre de qualquer cidade brasileira. É a maior vergonha pois revela o que vem sendo chamado de epidemia da indiferença, que torna tudo isso invisível, a não ser em momentos dramáticos.

Sem resignação

Estamos matando tesouros de nosso país: a juventude e a criatividade. As trágicas mortes não apenas interrompem trajetórias, mas se tornam símbolos do desperdício de forças transformadoras. Precisamos ir além e agir com rigor e empenho para reverter esse quadro desolador. Talvez tudo tenha que começar por um amplo debate, que reúna todos os atores sociais envolvidos e estabeleça metas para que esse extermínio seja interrompido. As mudanças necessárias no nosso sistema de segurança pública devem romper com a lógica polarizada que contaminou os debates políticos no Brasil, para buscar consensos entre os homens e as mulheres de bem que acreditam que a vida é sagrada e não pode ser perdida de maneira tão banal.

Que as autoridades esclareçam essas mortes e nos mostrem a verdade, seja ela qual for. Que nosso luto se transforme em luta para fazermos o que tem que ser feito. E que não nos esqueçamos dessas tragédias jamais, pois a resignação que nos cega também nos mata um pouco a cada dia.

*Alê Youssef, 38, é apresentador do programa Navegador, da Globonews, comentarista do programa Esquenta!, da TV Globo, advogado e produtor. Seu e-mail é alexandreyoussef@gmail.com

Chacina da Candelária completa 21 anos

Tânia Rêgo/ABr  / Vinte e uma cruzes foram bentas em memória dos 21 anos da chacina

Para ONGs de direitos humanos, nada mudou no período. Celebração lembrou as oito crianças e adolescentes assassinados em 1993
Publicado: gazeta do povo - 24/07/2014 

O Movimento Candelária Nunca Mais lembrou ontem os 21 anos da Chacina da Candelária, em que oito crianças e adolescentes que dormiam na praça da igreja, no Centro do Rio, foram mortos a tiros por cinco homens que desceram de dois carros. No local, houve uma celebração, com 21 cruzes, que foram bentas e serão colocadas em outros pontos da cidade e da região metropolitana onde ocorreram atos de violência contra crianças e jovens. Após a cerimônia, os representantes de movimentos e organizações não governamentais caminharam até a Cinelândia, onde realizaram um ato cultural. As informações são da Agência Brasil.

As manifestações para lembrar a chacina começaram na noite de terça-feira, quando mães que perderam filhos em situações de violência fizeram uma vigília em frente da igreja. Ontem, na Cinelândia, foi realizado o ato Criança não é de rua, que deve ser repetido em todo o país. Os participantes forraram o chão com papelão, deitaram-se e, por um minuto, simularam dormir, em um ato de solidariedade aos moradores de rua. No ato, também foi lembrado o menino Matheus de Souza, de 14 anos, morto no dia 11 do mês passado, na subida do morro do Sumaré.

Pela paz

Padre diz que chacina foi um “despertar” para semear esperança

O padre Renato Chiera, que fez a celebração das cruzes na Igreja da Candelária, ontem, comparou a chacina a um despertar. “[No dia da chacina], quando eu cheguei aqui, tinha ainda o sangue, e eu falei com as pessoas que estavam ao redor – eram meninos amendrontados, um deles, que era da Casa do Menor, tinha fugido. Ele estava em cima de uma banca e contou que tinha visto a tragédia. Disse que ficou quietinho, com medo de que atirassem nele. Essa matança foi, para mim e para muitos, um despertar. Não adianta gritar contra as trevas, temos que acender luzes. Então, a gente tenta semear esperança, semear vida.”

Os locais com registro de violência contra crianças que vão receber as 21 cruzes ficam em diversas comunidades cariocas, como a da Providência, do Borel, de Acari, do Pau da Bandeira, de Guaratiba, da Rocinha, entre outras.

A principal testemunha do crime foi Wagner dos Santos, que sobreviveu à chacina, fingindo-se de morto. Um ano após a chacina, em dezembro de 1994, Wagner sofreu outro atentado, no qual levou quatro tiros, mas sobreviveu. Wagner atualmente mora na Suíça e não participou do ato de ontem.

Para Fátima Silva, do Movimento Candelária Nunca Mais, a situação não mudou muito desde a chacina. “De 21 anos para cá, não mudou quase nada. O orçamento público destinado à criança está diminuindo cada vez mais. Não tem políticas públicas nas comunidades. Que políticas públicas são promovidas para essas crianças? Como a gente implementa o Estatuto [da Criança e] do Adolescente?”, questiona. Ela ressalta ainda a falta de uma proposta pedagógica para essas crianças e afirma que não está sendo cumprida a Constituição Federal, que estabelece prioridade absoluta e diz que é dever do Estado, da família e da sociedade cuidar das crianças e dos adolescentes. “O que se vê, porém, é o abandono da situação, a falta de políticas públicas e de implementação do estatuto, além de projetos esfacelados, que não têm continuidade.”

Primeira a chegar

A educadora Yvonne Bezerra de Mello, que criou o projeto Uerê na Comunidade da Maré, destinado a crianças marcadas pela violência, conta como foi a Chacina da Candelária e diz que nada mudou até hoje. “Eu estava aqui na Candelária no dia da chacina. Era um grupo [de crianças] com o qual eu já trabalhava há dois anos na rua. Fui chamada quando faltavam 15 minutos para a meia-noite por um dos meninos, que me contou que policiais passaram e assassinaram alguns deles. Fui a primeira a chegar. De lá para cá, não mudou nada.”