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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O ATOR JORGE COUTINHO EM ENTREVISTA À RAÇA

publicado: Raça Brasil 
Confira a entrevista que Jorge Coutinho deu à Raça sobre a dramaturgia brasileira
TEXTO: Sandra Almada | FOTOS: Eraldo Platz | Adaptação web: David Pereira

O ator Jorge Coutinho | FOTO: Eraldo Platz
Leia trechos da entrevista com o ator, cineasta e homem político, Jorge Coutinho.

O senhor acha que temos boas escolas de dramaturgia no Brasil?

Reconheço que não temos boas escolas, não! Estamos atrás porque, primeiro, hoje em dia, os atores pensam muito em televisão.

E ter como horizonte profissional ser um ator de televisão, implica em não fazer um curso de teatro mais denso, mais sério?

Exatamente. Para ser um ator de televisão se faz um destes cursos profissionalizantes que são de curta duração. O sujeito tem uma cara bonita – e às vezes nem isto – conhece alguém das emissoras ou não e... Por aí a coisa segue. Por outro lado, quando os autores estão escrevendo as novelas já estão pensando em quem vai interpretar este e aquele papel. Fica, então, tudo entre os mesmos, tudo na mesmice. Acho que sinto assim porque não me vejo na televisão, não vejo você, não vejo a família. Também são poucos os atores que chegam aqui no sindicato e dizem: “Eu quero fazer teatro”. Quando ouço isto, fico feliz da vida! Não que fazer televisão seja menor, o que quero dizer é que teatro é o alicerce.

O senhor, um homem de cinema, pode dizer por que não vemos um protagonismo negro na frente e atrás das câmeras, nem na tela grande nem na telinha, ou seja, na indústria do entretenimento, em geral?

Porque é difícil. Você faz seu roteiro, manda (para as instituições de fomento à cultura), mas não sai o financiamento para você! Sai para fulano, beltrano, mas para nós, não sai. É muito difícil. Agora eu quero colocar um filme, um roteiro na Petrobras. Mas não sei se vai sair. A não ser que se brigue politicamente.



"...Também são poucos os atores que chegam aqui no sindicato e dizem: 'Eu quero fazer teatro'. Quando ouço isto, fico feliz da vida!" | FOTO: Eraldo Platz
Qual a diferença entre brigar politicamente e brigar na condição apenas de artista?

Quando se briga politicamente, se briga de dentro (de um organismo político). Você fica muito mais próximo das pessoas (que se encontram dentro dos centros de decisão). Liga-se e se diz: “Facilita que é nosso!” É feito assim! Se disserem que é o contrário, digo que é mentira. É feito através deste esquema. Se você manda um roteiro, ele vai estar no meio de quinhentos mil outros, e não serão lidos todos. Esta é que é a verdade! É a mesma coisa com testes de atores para uma peça, por exemplo. Às vezes, cobram pelo teste. Vinte mil pessoas vão fazer. Depois, aquelas vinte mil vão assistir à peça, como pagantes, pois têm interesse em ver como o personagem está sendo interpretado, etc. É tudo uma jogada que o ator nem sempre percebe, muitas vezes é carta marcada mesmo. E é triste dizer isso!

Até onde o senhor vai pelo cinema? É uma paixão grande?

É preciso se denunciar algumas coisas. A gente precisa falar sobre e para o nosso povo. Esta questão em que eu bato muito: ‘nós somos 52%!’ Nós temos um município no Rio de Janeiro, o de São Gonçalo, onde 85% da população é negra. É a gente. É o segundo colégio eleitoral do estado, elege um governador. É o que eu digo: o povo tem que tomar consciência disso!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lázaro Ramos: Momento de Ajuste

Lázaro Ramos percebeu em si próprio as mesmas questões que ecoaram nas ruas
Texto: Pedro Só | Fotos: jorge bispo
publicado: revista Trip



Um dos atores mais populares e elogiados de sua geração, Lázaro Ramos, 35 anos, percebeu que estava vivendo pessoalmente a mesma angústia que detonou as manifestações de rua no Brasil em junho de 2013. assim como todo o país, em 2014 ele parou para ver a Copa e se emocionar com momentos como o choro do goleiro Júlio César. Nas próximas páginas, um papo sobre tudo: infância em Salvador, racismo, teatro, primeira vez, casamento, religião, política, celebridade – e a busca por um sentido na profissão: “Não quero ficar obsoleto”

“A grande alegria de trabalhar é poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas andarem com as próprias pernas. pagar plano de saúde, ajudar um primo na faculdade”

“Alguém nos ajude, Lázaro, a entender...” A frase do cantor Criolo sobre a ascensão da classe C no país foi ao ar em março de 2013 no programa Espelho, que Lázaro Ramos comanda no Canal Brasil há nove temporadas. Por caprichos internéticos, um ano depois, trecho dessa entrevista foi viralizado nas redes sociais, enfatizando o discurso aparentemente desconexo do rapper paulistano. Mas, para além do meme repetido com efeito humorístico, há uma discussão séria e central entre os interesses e a trajetória do politizado ator baiano de 35 anos, reconhecido como um dos melhores e mais populares de sua geração.

Filho de um namoro de Carnaval entre Célia, empregada doméstica morta em 1999, e Ivan, ex-operador de máquinas do polo petroquímico de Camaçari, hoje com 59 anos, ele passou a infância na casa da madrinha, Helenita, de 90 anos.

A convivência com o pai era boa e constante, nos fins de semana. “Como funcionário de Camaçari, ele não levava vida de luxo, mas todo sábado tinha almoço em restaurante, nunca faltou presente de aniversário ou Natal. Aí veio o Collor...”. Sob nova realidade econômica, Lázaro saiu da escola particular para a pública. Depois, aos 14 anos, foi morar com o pai – sem restaurante no sábado.

O adolescente Lázaro fez teatro na escola pública, a Anísio Teixeira. Como só podia frequentar o curso de teatro quem fizesse um outro curso profissionalizante, ele foi cursar patologia clínica. Um emprego no Hospital Ramiro de Azevedo o ajudou a dar apoio à mãe, que sofria de uma doença degenerativa limitadora dos movimentos, em seus últimos anos de vida. A morte dela abalou Lázaro, mas não o impediu de, pouco mais de um ano depois, em 2000, ganhar projeção nacional ao lado dos amigos Wagner Moura e Vladimir Brichta com uma montagem de A máquina, de João Falcão.

Na TV, que o cooptou depois que protagonizou o filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, em 2002, ele foi conquistando espaços com competência e versatilidade. Em Elas por elas(2012), quebrou barreiras como o primeiro protagonista negro de uma novela. Hoje vive o guru pop Brian Benson, em Geração Brasil. Mas o cinema é sua área de atuação mais frequente. Está em cartaz com O vendedor de passados (direção de Lula Buarque de Holanda), baseado no romance do angolano José Eduardo Agualusa. Em breve será visto também em O Grande Kilapy (de Zezé Gamboa), coprodução Brasil-Portugal-Angola, em que interpreta um malandro africano. Em 2015, estará em O grande circo místico, sob a direção de Cacá Diegues.

Outro projeto que gera muita expectativa é Acorda Brasil (cujo título pode ser mudado ainda), dirigido por Sergio Machado. Baseado na experiência do maestro Silvio Bacarelli na favela de Heliópolis, em São Paulo, o filme obrigou Lázaro a contracenar com adolescentes inexperientes e dar vazão à inquietude que rege sua carreira. Lázaro diz que as grandes transformações que teve enquanto ator “vieram de provocações que os filmes lhe fizeram: Madame Satã, O homem que copiava, Cidade Baixa, Ó paí, ó...”. Ser colocado à prova, no abismo, dá medo. Mas traz recompensas definitivas. “Esse medo está aqui em mim, mas ao mesmo tempo tem o sagrado do teatro, que fala: ‘Se joga no abismo, rei! Vá lá! Você não tem nada a perder!’. E aí tem que tirar uma coragem do [põe a mão na boca e fala baixinho] cu pra poder seguir, bicho! Porque dá um medo, rapaz! Mas é bom! É isso que mantém a gente vivo.”

"As grandes transformações da que tive enquanto ator vieram de provocações que os filmes fizeram: Madame Satã, Cidade Baixa..."

Morando no Rio de Janeiro há 14 anos, casado com a atriz Taís Araújo – um relacionamento iniciado há quase dez anos, com oito meses de interrupção em 2008 – e pai de João Vicente, 3 anos, Lázaro não se contenta em apenas atuar. Em 2010, lançou o livro infantil A Menina Sentada (depois adaptado para o teatro). Em 2011, dirigiu a peça Namíbia, não!(de Aldri Anunciação) e, no começo deste ano, estreou a peça As Pocorotas, também voltada para crianças. Tem lido livros técnicos sobre roteiro, já com alguns projetos cinematográficos em mente. E sem esquecer as convicções políticas.

Que passam por ideias como as do sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, entrevistado por Lázaro neste ano no programa Espelho. O autor deBatalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? questiona a classificação estabelecida a partir de critérios estritamente econômicos. “Ele fala: ‘Peraí! Vamos ver! O que é a ascensão da classe C? Que valor é esse que a gente teve agora?’. Eu gostaria de avisar a todos: para você que não entendeu o Criolo, veja a entrevista do Jessé.”

Vamos do começo, sua infância. Sua mãe era empregada doméstica, certo? Sim. Minha mãe trabalhava, minha família toda, então a maioria das crianças foi criada por uma mulher chamada Helenita, que todo mundo chama de Dindinha e que fez 90 anos há duas semanas. Uma mulher que nunca teve filhos, mas pegava os sobrinhos e sobrinhos-netos e criava, dava educação. Minha mãe trabalhava numa vizinha ao lado. Tive muito contato com essa patroa, os netos da patroa. Claro que com os limites de um filho de empregada.

A Dindinha criou você? Isso. A mãe tava ali próxima, mas Dindinha foi a grande educadora da família toda.

Vocês ainda têm contato? Sim, e ajudo, ela é minha família. A grande alegria que eu tenho, de poder trabalhar com frequência, é poder participar, poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas caminharem com suas próprias pernas. Felizmente eu tenho a possibilidade de fazer isso hoje. Pagar plano de saúde, poder ajudar um primo na faculdade.

Você diria que teve uma infância feliz? Tive uma infância feliz, muito protegida, numa casa com quintal. Mas fui um menino criado dentro de casa, a gente não podia sair, as crianças brincavam com a gente no quintal de Dindinha. Era tudo muito regrado, não tinha palavrão, não tinha essa de escolher o que comer. Ao mesmo tempo, dava muita autoestima, e isso foi muito legal. Eu fui perder a inocência sobre a dureza da vida quando saí da casa dela. Aí que eu fui entender mais ou menos como era o mundo. Mas lá era assim, autoestima, me chamavam de capaz, me estimulavam, uma família de pessoas bem-humoradas, minha mãe inclusive. No túmulo da minha mãe tem a frase “Nunca esqueceremos seu sorriso”, que é uma frase marcante, né? Engraçado que até hoje encontro gente que foi amigo ou amiga da minha mãe e fala sempre isso: “Sua mãe era muito engraçada”. Isso contamina a família, me contaminou também.

E como eram as questões materiais? Tinha presente de aniversário, Natal? Tem duas fases. A fase farta é quando meu pai era do polo petroquímico de Camaçari, operador de máquinas. Não era uma vida com luxo, mas tinha presente de aniversário, ir a um restaurante todo sábado. Aí veio o [Fernando] Collor e muda tudo: saí de escola particular e fui pra escola pública... sou filho da época da inflação. Dinheiro era um negócio que perdia o valor rapidamente, a gente saía do banco e ia correndo comprar as coisas. Depois do Collor, cortamos todos os supérfluos, não tinha restaurante, virou outra vida.

Em que bairro você morava? Na Federação era a casa de Dindinha. E no Garcia ficava a casa do meu pai, com quem fui morar aos 14 anos. Ele ainda não era casado, mas ele já tinha a casa dele e tal. Meus pais nunca foram casados, sou filho de namoro de Carnaval: nasci em novembro, nove meses depois do Carnaval. Sou escorpião.

E a relação com seu pai foi boa? Sempre foi muito boa. Meu pai é um homem que passou por uma grande transformação. Ele nunca foi um homem afetivo, era mais disciplinador, muito correto, muito justo, eu tinha medo dele. Mais adulto, quando saí de casa e fui seguir a vida, a gente foi criando uma relação afetiva que eu nem sei o que é que disparou. Hoje a gente é amigo, tem uma relação que não é nem parecida com o que era na infância. Meu pai não queria que eu fosse ator. Muitos anos depois ele veio me dizer: era medo, imagina profissão de ator, vai sobreviver como? De quê? Ele sempre quis que eu fizesse

 escola técnica.