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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O CANTOR MACAU FALA SOBRE SUA CARREIRA

publicado: revista Raça Brasil
Compositor da música "Olhos Coloridos" que virou sucesso na voz de Sandra de Sá, o cantor Macau fala sobre sua carreira nesta entrevista





Ele assina a música que se transformou no hino pop da negritude do Brasil. Aos 60 anos, e com mais de 200 obras no currículo, Macau comemora três décadas do lançamento de Olhos Coloridos, na voz deSandra de Sá. Mas o grande público ainda sabe pouco do artista que é autor da façanha de fazer uma canção valer mais que mil palavras. “A minha contribuição é a música. O meu trabalho é cheio de canções que mostram o sofrimento dos negros em suas várias formas. Em forma de poesia, de canção, eu escrevo a história, a luta e as conquistas do povo negro do meu país”, diz Macau.

Veja trechos da entrevista com o cantor Macau:

Macau, conte-nos um pouco de sua infância. Você vem de família pobre?

A minha infância foi normal na qualidade de negro pobre da favela. Fui criado pelos meus avós, na Favela da Praia do Pinto, hoje Condomínio Selva de Pedra, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Lá acontecia de tudo: brigas, tiros, invasão policial. Cresci vendo tudo isso. Meu avô era dono de uma birosca que promovia festas, cantorias, congada, caxambu, samba de terreiro. Tinha de tudo. Na fogueira assavam batatas-doces e carne. Nos fundos da casa, ou, melhor, do barraco, tinha um quintal enorme com árvores e frutas. Eu fui bem criado. Eles tinham dois filhos: eu era filho do Rui Xisto, o filho mais velho.

Como você foi apresentado ao mundo da música e se transformou em compositor?

Morando na Cruzada São Sebastião, criada por Dom Hélder Câmara. Na Cruzada estava instalada a Escola Santos Anjos, construída também por ele no terreno entre a Paróquia Santos Anjos e o Jardim de Alah. Minha avó sempre me levava à igreja. Fiz a primeira comunhão, fui coroinha, fiz parte do coral e me tornei coordenador do Grupo Jovem, no qual cuidei da área musical. Nessa época me tornei um músico, compus canções sacras e concorri no Festival de Música Sacra, em que ganhei o primeiro lugar com a música Eu preciso nascer novamente. Passei a conviver com a música na igreja, e com os amigos da Cruzada, tocando violão e compondo.

Suas experiências pessoais influenciaram nos versos de Olhos Coloridos?

Muito. É resultado de uma forte discriminação racial da qual fui vítima. Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de “nego abusado”, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era “sarará crioulo”.

Negro discriminando outro negro...

Mas não parou aí: fiquei horas no camburão com outras pessoas como se fôssemos lixo, um por cima dos outros, como lata de biscoito. Rodamos horas pela cidade até que resolveram nos levar para a delegacia para averiguação. Não havia nada que me mantivesse preso e, mesmo assim, só de madrugada fui liberado com a ajuda do padre Bruno Trombeta, da Pastoral Penal. Saí dali triste e revoltado, chocado e com forte depressão.

A música "Olhos Coloridos", sucesso na voz de Sandra de Sá, foi composta por Macau | FOTO: Divulgação
Foi logo depois que compôs seu belo hino-denúncia?

Não consegui ir para casa. Fui para a praia onde refleti sobre tudo que tinha acontecido comigo. Chorei muito olhando para o mar e foi aí que surgiu a primeira frase “os meus olhos coloridos me fazem refletir...”. Imediatamente fui para casa, peguei meu violão e, em poucos minutos, compus Olhos Coloridos. Ela veio de uma manifestação pessoal, uma expressão de revolta. Por isso minha música é subterrânea, é uma fusão afro-brasileira do meio ambiente em que vivo.

Sua música vem conscientizando e encantando gerações como hino pop da negritude, popularizada, sobretudo, na voz de uma diva da black music. Como é sua relação com Sandra de Sá?

Sandra de Sá gravou Olhos Coloridos pela primeira vez no LP Sandra Sá, em 1982, gravação original em que toquei meu violão, com arranjos de Serginho Trombone e produção de Durval Ferreira. Esse LP selou definitivamente a minha parceria com ela, que dura até hoje, sempre com Olhos Coloridos à frente de tudo. Em 1982, no LP Sandra de Sá & Banda Black Rio, a música foi gravada em uma versão que até hoje é executada nas rádios brasileiras. Houve novas versões em 1986, 1994, 2004, fora as inúmeras apresentações em que ela canta esta canção.

Se tivesse que compor uma canção para chamar a atenção da sociedade brasileira contemporânea sobre a questão racial,manteria a mesma letra de Olhos Coloridos?

Sim! Essa canção está cada vez mais atual, por incrível que pareça. Ela é o hino da juventude negra. Se tivesse que compor,agora, uma canção para chamar a atenção da sociedade, eu a comporia de novo.

O ATOR JORGE COUTINHO EM ENTREVISTA À RAÇA

publicado: Raça Brasil 
Confira a entrevista que Jorge Coutinho deu à Raça sobre a dramaturgia brasileira
TEXTO: Sandra Almada | FOTOS: Eraldo Platz | Adaptação web: David Pereira

O ator Jorge Coutinho | FOTO: Eraldo Platz
Leia trechos da entrevista com o ator, cineasta e homem político, Jorge Coutinho.

O senhor acha que temos boas escolas de dramaturgia no Brasil?

Reconheço que não temos boas escolas, não! Estamos atrás porque, primeiro, hoje em dia, os atores pensam muito em televisão.

E ter como horizonte profissional ser um ator de televisão, implica em não fazer um curso de teatro mais denso, mais sério?

Exatamente. Para ser um ator de televisão se faz um destes cursos profissionalizantes que são de curta duração. O sujeito tem uma cara bonita – e às vezes nem isto – conhece alguém das emissoras ou não e... Por aí a coisa segue. Por outro lado, quando os autores estão escrevendo as novelas já estão pensando em quem vai interpretar este e aquele papel. Fica, então, tudo entre os mesmos, tudo na mesmice. Acho que sinto assim porque não me vejo na televisão, não vejo você, não vejo a família. Também são poucos os atores que chegam aqui no sindicato e dizem: “Eu quero fazer teatro”. Quando ouço isto, fico feliz da vida! Não que fazer televisão seja menor, o que quero dizer é que teatro é o alicerce.

O senhor, um homem de cinema, pode dizer por que não vemos um protagonismo negro na frente e atrás das câmeras, nem na tela grande nem na telinha, ou seja, na indústria do entretenimento, em geral?

Porque é difícil. Você faz seu roteiro, manda (para as instituições de fomento à cultura), mas não sai o financiamento para você! Sai para fulano, beltrano, mas para nós, não sai. É muito difícil. Agora eu quero colocar um filme, um roteiro na Petrobras. Mas não sei se vai sair. A não ser que se brigue politicamente.



"...Também são poucos os atores que chegam aqui no sindicato e dizem: 'Eu quero fazer teatro'. Quando ouço isto, fico feliz da vida!" | FOTO: Eraldo Platz
Qual a diferença entre brigar politicamente e brigar na condição apenas de artista?

Quando se briga politicamente, se briga de dentro (de um organismo político). Você fica muito mais próximo das pessoas (que se encontram dentro dos centros de decisão). Liga-se e se diz: “Facilita que é nosso!” É feito assim! Se disserem que é o contrário, digo que é mentira. É feito através deste esquema. Se você manda um roteiro, ele vai estar no meio de quinhentos mil outros, e não serão lidos todos. Esta é que é a verdade! É a mesma coisa com testes de atores para uma peça, por exemplo. Às vezes, cobram pelo teste. Vinte mil pessoas vão fazer. Depois, aquelas vinte mil vão assistir à peça, como pagantes, pois têm interesse em ver como o personagem está sendo interpretado, etc. É tudo uma jogada que o ator nem sempre percebe, muitas vezes é carta marcada mesmo. E é triste dizer isso!

Até onde o senhor vai pelo cinema? É uma paixão grande?

É preciso se denunciar algumas coisas. A gente precisa falar sobre e para o nosso povo. Esta questão em que eu bato muito: ‘nós somos 52%!’ Nós temos um município no Rio de Janeiro, o de São Gonçalo, onde 85% da população é negra. É a gente. É o segundo colégio eleitoral do estado, elege um governador. É o que eu digo: o povo tem que tomar consciência disso!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Ocupado por artistas, prédio abandonado no centro de SP tem shows, oficinas e arte

Cerca de 80 artistas ocuparam o prédio desde o dia 1º de maio; lugar tornou-se residência artística e centro cultural
matéria:Gabriel Nanbu
publicado:virgula.uol.com.br

Se você estiver nos arredores do metrô Anhangabaú, em São Paulo, é possível que ouça sons de guitarra e bateria vindo de algum lugar ali por perto. Se seguir o barulho, encontrará a fachada de um prédio velho e destruído na Rua do Ouvidor, nº 63. As apresentações de música que ocorrem no porão do edifício, geralmente às quintas, são só uma das atividades que vêm acontecendo por lá desde o último dia 1º de maio. Naquele Dia do Trabalho, um grupo de cerca de 80 artistas – pintores, desenhistas, cineastas, músicos, fotógrafos, atores, dançarinos – ocupou o local, até então abandonado, e o transformou em um efervescente centro cultural.

"Pegamos um prédio que estava há nove anos ocioso e o revitalizamos. A gente ocupou com a intenção de transformá-lo em uma residência artística e um centro cultural", diz a figurinistaGicodéllic (na foto aqui embaixo, de amarelo), do Androides Andróginos, coletivo que articulou a ocupação.



A programação da Ouvidor 63, voltada para quem quer que tenha interesse, é afixada na entrada do prédio e postada no Facebook. Nos últimos três meses, têm rolado oficinas diversas (de edição de vídeo a dança com bambolê), exibição de filmes (Cineclube Inferno, no terceiro andar; não espere assistir a Os Vingadores por lá) e apresentações performáticas, dramáticas e musicais. O edifício serve, ainda, como lugar de dormir e trabalhar para uma galera de talento com projetos em desenvolvimento.

A reportagem do Virgula Inacreditável subiu os 13 andares do edifício (exercício da semana). Os novos habitantes da Ouvidor, 63 deram um senhor talento no lugar. Limparam as salas, consertaram encanamentos, mexeram na fiação elétrica e decoraram as paredes com desenhos bacanas (com isso, também gastaram uma grana).

Pelos cantos, há som de gente fazendo música, instalações de arte, araras de roupa. Entre janelas de vidro quebrado com vista para a Praça da Bandeira, lêem-se frases pichadas na parede: "A revolução sexual começa pelo cu", "O homem é a cura do homem".

Conversamos com alguns artistas do rolê. Um pintor, Augusto Amaral (o cara da foto no começo da reportagem), nos impressionou bastante. Ele nos recebeu em seu ateliê/ dormitório, no terceiro andar, e mostrou quadros e seu caderno de desenhos. Com influência de pintores clássicos e de ilustrações de HQ, ele cria coisas de fazer cair o queixo.

"A ideia é ter um lugar de pensamento aberto que atenda à arte de forma inteligente e com real qualidade. Não é para ter Naldo aqui. Deixa o Naldo lá fora. Nós corremos atrás de caras como Van Gogh e Elis Regina e fazemos acontecer de forma colaborativa. Deveriam copiar esse modelo em outros lugares", disse Augusto, antes oferecer um pedaço de chocolate.

O futuro da ocupação artística, no entanto, é incerta. A Ouvidor 63 recebeu, há duas semanas, uma notificação de reintegração de posse e agora estuda uma forma de revertê-la na Justiça. O imóvel pertence ao Governo do Estado, mas não é utilizado por ele desde a década de 80. Contatada pela reportagem, a Secretaria de Planejamento, responsável pelo edifício, informou que a destinação do prédio está "sendo estudada pelo Conselho do Patrimônio Imobiliário".



Pedro Marini (foto acima), baixista da banda gaúcha Picanha de Chernobill e organizador dos eventos no porão da Ouvidor 63, se mostra cético quanto a continuidade da ocupação. "Algumas pessoas já saíram do prédio com medo de terem seus materiais de trabalho confiscados em uma futura reintegração de posse feita pela polícia. Muitos não querem mesmo pagar para ver. Não sabemos o que fazer", disse.

O músico foi um dos que participaram do ato de 1º de maio e organizou a vinda de um ônibus com cerca de 30 artistas de Porto Alegre para participar do projeto. "O prédio estava condenado, sem fio elétrico, sem encanamento, sem nada. Tinha só o esqueleto. A gente investiu grana e energia para melhorar o edifício", disse. "Eu me emociono todo dia que subo e desço essas escadas. Você se depara com caras com muito talento, mas que estariam dormindo em praça se não estivessem aqui".

A HISTÓRIA DO CANTOR E ATIVISTA FELA KUTI

publicado: Revista Raça Brasil
TEXTO: Alexandre de Maio | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira
O cantor e ativista nigeriano Fela Kuti | FOTO: Divulgação
Fela Anikulapo Ransome Kuti nasceu na Nigéria, em 1938, em uma família de classe média do estado de Ogun, cujos membros eram bastante articulados, social e politicamente. Vem de berço a atuação explosiva e transformadora de Fela Kuti que, aos 20 anos, foi morar em Londres para, a princípio, estudar medicina. Na capital, inglesa, porém, enveredou para o curso de música no Trinity College of Music, onde criou a banda Koola Lobitos com um novo estilo de som, o Afrobeat, uma reunião dos elementos do jazz, do rock psicodélico e do Highlife, originário da África Ocidental.

Em 1963, já casado com Remilekum (Remi) Taylor, Fela voltou para a Nigéria e começou a trabalhar como produtor de rádio, em paralelo com as atividades da banda. No final dos anos 60, ele e a Koola Lobitos voltaram aos Estados Unidos. O músico passou a ter contato com o Movimento Black Power e com as músicas de James Brown. Pronto! O movimento negro e suas ideias passaram a influenciar fortemente as canções e a visão política de Fela Kuti. Uma combinação pra lá de explosiva! Nessa mesma época a Koola Lobitos foi rebatizada e ganhou o nome de Nigeria 70.

Uma nova república

Sem visto de trabalho, Fela e os membros da banda foram obrigados a deixar o solo americano, não sem antes realizar uma sessão de gravação em Los Angeles que, mais tarde se tornaria o álbum The '69 Los Angeles Sessions. Revolucionado pelas ideias de Malcolm X, o musico volta para a Nigéria e funda a República Kalakuta, uma pequena comunidade, com um estúdio de gravação, onde os mais chegados podiam viver em harmonia. Fela chegou a declarar que Kalakuta era um Estado independente da Nigéria.

Nessa época se apresentava numa casa que ele próprio criou e mudou seu nome do meio para "Anikulapo" (que significa "aquele que carrega a morte no bolso") . A cada gravação o tom político das letras crescia e sua popularidade aumentava em toda a Africa. Fela gravava sua musica em Pidgin, uma espécie de dialeto usado para ser entendido em todo o continente, baseado em inglês.

Sua fama aumentava e o governo começava a se incomodar e os ataques a Kalakuta eram comuns. A perseguição policial era intensa. Em 1977 ele lançou a musica Zombie onde comparava os soldados nigerianos a zumbis, o sucesso do álbum se traduziu numa brutal invasão de mais mil soldados onde Fela foi espancado, sua mãe morta, a República Kalakuta incendiada e seu estúdio destruído junto com centenas de horas de gravações.


Album The '69 Los Angeles Sessions | FOTO: Divulgação


Fela que quase morreu na ocasião, enviou o caixão de sua mãe para os militares e escreveu duas canções "Coffin for Head of State" e "Unknown Soldier". Em 1978 casou-se com vinte e sete mulheres, muitas delas entre suas vocalistas e dançarinas e fez dois grande shows, em um deles as confusões o levaram a ser proibido de entrar em Gana, no outro toda sua banda o abandonou.

Fela não desistia e montou seu próprio partido chamado Movimento do Povo e 1979 se candidatou a presidente da Nigeria que amargava mais de 10 anos sem eleições, mas sua candidatura foi recusada. Abalado criou a banda Egypt 80 e continuou a gravar e a incomodar a política do país, em 84 foi preso e acusado pelo governo militar por lavagem de dinheiro. Foi solto 20 meses depois e se separou de 12 esposas, continuou gravando e viajando e politicamente ativo.

Em 1989 lançou o álbum Antiapartheid "Beasts of No Nation" que exibe em sua capa o Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o primeiro-ministro da África do Sul P.W. Botha com caninos pingando sangue.

No anos 90 começou a se espalhar o boato que teria AIDS e em 3 de Agosto de 1997 Olikoye Ransome-Kuti, seu irmão anunciou sua morte causada pelo Sarcoma de Kaposi em decorrência do vírus da AIDS. Seu enterro foi marcado pela presença de mais de um milhão de pessoas.

Fela foi um ícone da luta contra os regimes ditatoriais da continente africano. Criativo, competente, Kuti colocou a musica Nigeriana no topo, polêmico defendia o pan-africanismo e hoje sua figura influencia e inspira ativistas no mundo inteiro.

terça-feira, 29 de julho de 2014

RESTO

por: Denis Denilto
Do céu as lágrimas caem e aqui 
embaixo, bem embaixo o coração dói.
Não resta muita coisa para o agora. 
Em um mundo "gris" esperar é a última esperança!
Não há nada novo neste instante.
Nesta manhã experimente o mesmo de antes.
As Lágrimas choram neste tempo cinza.
Tenho azia ao mesmo de sempre...
As folhas caem lentamente e lentamente
deixo adormecer minha mente.
Não adianta resistir!
As lágrimas caem e o coração dói
em um mundo cinza. 
Só me resta a azia depois de ver cair
lentamente as folhas dormidas na mente.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Divina Diva -Nina Simone

Nina em 1965
Informação geral
Nome completo Eunice Kathleen Waymon
Também conhecido(a) como Nina Simone
Nascimento 21 de fevereiro de 1933
Local de nascimento Tryon, Carolina do Norte
Estados Unidos
Data de morte 21 de abril de 2003 (70 anos)
Local de morte Carry-le-Rouet, Provence-Alpes-Côte d'Azur
França
Gênero(s) gospel, folk, jazz, R&B, soul,blues
Instrumento(s) voz, piano


Eunice Kathleen Waymon mais conhecida pelo seu nome artístico, Nina Simone (Tryon, 21 de fevereiro de 1933 – Carry-le-Rouet, 21 de abril de 2003) foi uma grande pianista, cantora e compositora americana. O nome artístico foi adotado aos 20 anos, para que pudesse cantar Blues, nos cabarés de Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City, escondida de seus pais( a mãe ministra metodista e o pai barbeiro). "Nina" veio de pequena ("little one") e "Simone" foi uma homenagem à grande atriz do cinema francêsSimone Signoret, sua preferida.

Nina Simone, quando jovem foi impedida a ingressar em um conservatório de música na Filadélfia, mesmo tendo afrontado o racismo e cursado piano clássico na severa Juilliard School, em Nova York. Também se destacou e foi perseguida por abraçar publicamente todo tipo de o combate ao racismo. Seu envolvimento era tal, que chegou a cantar no enterro do pacifista Martin Luther King. Casada com um policial nova-iorquino, Nina também sofreu com a violência do marido, que a espancava. E tudo isso, dizia ela, que tinha acontecido, as portas tinham se fechado, por ser negra.


Depois de fracassar na tentativa de ser uma grande concertista através do conservatório, Nina permaneceu algum tempo em Nova Yorque até ir para Atlantic City e, nessa cidade, trabalhando como pianista em um bar, foi obrigada a cantar para não perder o emprego, e tocar piano era o que ela fazia. Tornou-se Nina Simone, como se batizou naquela ocasião. Cantou músicas clássicas e imortalizou hits como "Feeling Good", "Aint Got No - I Got Life", "I Wish I Know How It Would Feel To Be Free", e "Here Comes The Sun", além de "My Baby Just Cares For Me" que gravou e foi trilha sonora de um anúncio televisivo de perfume francês.

Em um breve contato com sua obra, aqueles que não a conhecem percebem logo a diversidade de estilos pelos quais Nina Simone se aventurou, desde o gospel, passando pelo soul, blues, folk e jazz. Foi uma das primeiras artistas negras a ingressar na renomada Juilliard School of Music, em Nova Iorque. Sua canção “Mississippi Goddamn” tornou-se um hino ativista da causa negra e fala sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham em 1963.

Ao se apresentar num evento militar em Forte Dix, New Jersey, em 1971, em plena Guerra do Vietnã, Nina Simone deu voz àqueles que eram contrários ao conflito, quando cantou um poema em que Deus é chamado de assassino, após 18 minutos poderosos de My Sweet Lord, de George Harrrison.

Nina esteve duas vezes no Brasil, gravou com Maria Bethânia e seu último show ocorreu em 1997 no Metropolitan. Era uma intérprete visceral, compositora inspirada e tocava piano com energia e perfeição. Morreu enquanto dormia em Carry-le-Rouet em 2003.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Anderson Silva




Marcos Vilas Boas
publicado: revista Trip

Quando o assunto é racismo, Anderson Silva costuma fazer como nos ringues: mais esquiva do que ataca. Mesmo assim, não escapou de passar por situações de preconceito ao longo da vida. Quais? ele conta a seguir. E fala também sobre aposentadoria, homossexualidade e de como ficou careca depois de tanto alisar o cabelo
Anderson Silva tinha 16, 17 anos, um currículo que incluía aulas de capoeira, tae kwon do, balé e sapateado, e fazia o melhor cover de Michael Jackson das festinhas black de Curitiba. Ele montou com os amigos um conjunto que imitava as coreografias dos grandes grupos de funk, soul e disco americanos; sua tia Edith costurava as roupas, todas iguaizinhas, com a indefectível calça meia canela acompanhada de meias brancas. Mas Anderson só saía de casa depois de um ritual sagrado: aplainar o cabelo crespo com generosas quantidades de creme Alisabel.
Problemas de autoimagem? Racismo às avessas? Imposição da sociedade de consumo? Desejo inconfesso de se tornar branco como seu ídolo Jackson? Anderson tem uma explicação mais singela: “Eu só queria poder jogar meu cabelo nas festinhas”. O resultado foi desastroso: os cachos alisados à força foram substituídos por uma lustrosa careca – que, por ironia, acabou virando marca registrada. Até hoje há quem ache que o lutador raspa a cabeça para atemorizar adversários. A verdade é que Alisabel venceu Anderson por nocaute.

Para um garoto negro, pobre e que havia sido enviado de São Paulo pela desesperançada mãe, aos 4 anos, para ser criado por uma tia e sua família, não foi moleza crescer na pálida Curitiba. Anderson diz ter enfrentado inúmeros episódios de racismo durante a infância e a adolescência. Houve a vez em que um policial o abordou num ponto de ônibus, lhe deu um peteleco na cabeça e um soco no estômago – porque ele, único pele preta num grupo de amigos brancos
ali reunidos, havia tido a desfaçatez de dizer que voltava de um shopping naquela longínqua era pré-rolezinho. E também a ocasião em que era atendente do McDonald’s, e um cliente se recusou a ser atendido por um negro. E ainda a desconfiança de que o pai de uma namorada, por quem foi profundamente apaixonado, não apertava sua mão, não o recebia em casa e sabotou o relacionamento por causa de sua cor.

SÃO SEBASTIÃO DE BERMUDAS
Corta para um estúdio de São Paulo, março de 2014. Anderson posa calado e paciente para o fotógrafo Marcos Vilas Boas com seis flechas cortadas e coladas a seu corpo, com sangue falso escorrendo pela regata branca. A imagem produzida pela Trip homenageia a clássica capa da revista norte-americana Esquire de abril de 1968, em que o boxeador Muhammad Ali aparece em pose que remete ao martírio de São Sebastião, o militar que foi flechado por ordem do imperador Diocleciano por proteger cristãos.

Naquele momento, o martírio de Ali – célebre por sua luta pelos direitos civis dos negros e contra o racismo – era político: ele havia sido preso e destituído de seu título de boxe por se recusar a se alistar na guerra do Vietnã. Já o martírio de Anderson hoje é sobretudo físico: ele se recupera de uma delicada cirurgia depois da chocante fratura de sua tíbia e sua fíbula esquerdas durante o combate de dezembro passado contra Chris Wideman, em que perdeu a chance de reaver o cinturão dos pesos médios do UFC (Ultimate Fight Championship).

Embora seus estilos de boxeadores-bailarinos se assemelhem, Ali e Anderson são bastante distintos nos posicionamentos políticos. Ao contrário do americano, o brasileiro se recusa a levantar bandeiras quando o assunto é racismo. Seu discurso remete ao de outro grande atleta negro, Pelé – que, ao fazer seu milésimo gol em 1969, dedicou-o às criancinhas brasileiras, em frase que à época foi tachada de demagógica pelas patrulhas ideológicas. “Quando perguntam minha opinião, eu dou, mas prefiro evitar polêmicas”, afirma Anderson. “Há outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar, como as crianças do nosso país.”

"Me arrependi de usar alisabel, perdi meu black power"

Depois de meia hora parado como um São Sebastião de bermudas brancas e bíceps inflados, Anderson pede pressa porque começa a sentir câimbras – ainda um efeito colateral da delicada cirurgia por que passou há três meses. Considerado por muitos o maior lutador da história do MMA (artes marciais mistas), prestes a completar 39 anos neste 14 de abril, ele dá nota 9 para a recuperação da sua perna, confirma que pretende voltar a lutar no ano que vem, mas ainda não sabe dizer quando e como pretende encerrar sua carreira. De certeza, apenas uma: na ativa ou aposentado, nunca mais veremos seus cabelos encaracolados. “Me arrependi de usar Alisabel, perdi meu black power.”

Você acaba de refazer uma foto clássica do Muhammad Ali, que é um dos seus ídolos. Além de um grande boxeador, ele foi um cara que usou a fama para combater o racismo. Você às vezes sente vontade de fazer o mesmo aqui no Brasil? Quando sou abordado para falar sobre qualquer assunto político, seja racismo ou não, eu dou minha opinião. Mas prefiro me manter calado e evito polêmicas nesse sentido.

Por quê? Não acho legal. Não que não seja importante. Mas tem outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar e gastar mais energia.

No esporte, na família? Na família. Nas crianças do nosso país. Hoje eu fui ao hospital do Graacc [Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer] e vi um monte de crianças que estão ali passando por milhões de dificuldades, muitas sem perspectiva de vida, mas lutando para ser felizes. Então eu prefiro focar nessas coisas. Serve para que a gente entenda que nossos problemas são tão pequenos perto do que algumas pessoas passam.

O jornalista Ali Kamel, da TV Globo, escreveu um livro chamado Não somos racistas. Você concorda com a afirmação do título? O Brasil não é racista? Eu não acredito que o Brasil seja um país racista. Nós temos casos isolados de racismo. O Brasil tem muita coisa pra melhorar em relação ao racismo, política, saúde, educação. Mas acredito que a gente tem chances de mudar. Só não podemos perdê-las.

Você se lembra da primeira vez em que foi tratado de forma diferente por causa da cor da sua pele? Houve várias situações. Mas eu nunca tive problema com isso porque lá em casa a gente sempre foi muito bem instruído pela minha tia Edith a lidar com essas situações.

Que tipo de coisa sua tia falava? Ela sempre reforçou que somos todos iguais, independentemente de ser negro, branco, amarelo, roxo, de ser rico, pobre. Quando você tem essa consciência, tem capacidade de lidar com certas situações. Por mais que elas acabem te deixando um pouco constrangido, por mais que elas te magoem, você aprende a lidar.

Mas você pode falar de alguma situação específica? Uma vez eu trabalhava como atendente em uma lanchonete, e um cliente perguntou: “Não tem ninguém para me atender?”. Eu respondi: “Estou aqui para atendê-lo”. Aí ele falou: “Eu não quero ser atendido por um negro”. Fui até meu gerente e falei que tinha um senhor que não queria ser atendido por mim. O gerente foi até o balcão, e o cliente falou: “Não quero ser atendido por um negro, isso é um absurdo”. Aí o gerente respondeu: “Se você não for atendido por ele, você não vai ser atendido por mais ninguém aqui”. Aí aquele senhor saiu da loja meio bravo.

"Nós estamos vivendo um momento em que não cabe racismo no mundo"
Hoje, olhando esse caso tantos anos depois, você acha que tomou a melhor atitude na situação ou acha que deveria ter processado essa pessoa? Caberia esse processo. Mas aí eu iria perder meu dia de trabalho, teria que ir até a delegacia e não daria em nada. Porque nossa lei, por mais que exista, é muito falha. Principalmente em relação a esse tipo de coisa. Na época, meu caso não teria nenhuma repercussão. Agora, sim. Mas antigamente eu era uma pessoa comum. Hoje em dia eu tenho uma vida um pouco mais restrita, tem alguns lugares aonde não vou, por causa do assédio. Nos últimos anos, não tenho passado por nenhum constrangimento desse tipo.

Você acha que a fama que conquistou nos últimos anos protege você do racismo ou você acaba sendo mais visado? Depende muito das situações. Quando se fala em racismo, a fama acaba me deixando mais visível e mais desprotegido em alguns sentidos. Mas depende muito da sua postura, da forma como você lida com isso.

Você agora mora em Los Angeles, mas passa muito tempo no Rio. Você acha que o racismo é mais grave no Brasil ou nos Estados Unidos? Racismo é ruim em qualquer canto do planeta. Nos Estados Unidos existe também, até muito mais que no Brasil. Eu nunca tive problema com racismo em Los Angeles. Acho que as coisas estão mudando, as pessoas estão aprendendo que todos são iguais perante Deus, independentemente de cor, de raça. Eu costumo dizer que o confronto é inevitável no homem, que a cor é só uma desculpa para desencadear essa loucura, essa falta de respeito que as pessoas têm umas com as outras. Eu sou muito bem resolvido com essa coisa de racismo. Nós estamos vivendo um momento em que não cabe racismo no mundo.

Houve alguns exemplos recentes muito duros de racismo envolvendo atletas. O jogador de futebol Tinga foi xingado no Peru, o Arouca foi ofendido no Brasil, jogaram bananas no carro de um juiz. Quando você lê notícias como essas, como se sente? É triste, é desagradável. Nós estamos numa era de evolução. Mas não adianta. São coisas que vão acontecer. Muitas vezes as pessoas nem sabem o que estão falando. No caso do juiz, elas estavam ali porque eram torcedores e queriam atingir o juiz de alguma maneira. Como ele era negro, foi a maneira que encontraram de hostilizá-lo. Se fosse outro juiz, japonês, branco, não ia sofrer a mesma coisa, mas ia sofrer algum tipo de vandalismo.

Quando você começou nas artes marciais lá em Curitiba, era um meio que... Que tem muito racismo...

Como foi sua entrada, um rapaz pobre e negro, nesse universo? Minha tia e meu tio me ensinaram a entrar e a sair dos lugares de cabeça erguida. Em todas as academias que eu frequentei, sempre fui muito bem recebido por ter a disciplina e a educação que adquiri na minha casa. Quando comecei a treinar tae kwon do, na academia tinha muito coreano e branco, eu era talvez o único negro. Eu limpava a academia e treinava de graça. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito dentro da academia. Sempre fui bem recebido, sempre fui respeitado. Tenho grandes amigos que fiz nas academias até hoje. Dentro do ambiente esportivo, você tem que aprender a conviver com diferentes opiniões, diferentes raças, classes sociais. É todo mundo igual.

Então no esporte você não sofreu racismo. Mas e nas ruas de Curitiba? Você sofreu muito com batidas policiais? Várias vezes. Teve outra situação em que sofri racismo. Eu estava voltando do treino com amigos, fui passear no shopping e estava no ponto de ônibus, de bermuda e chinelo, com uma mochila nas costas. Parou uma viatura de polícia. Um PM desceu e me abordou, perguntou de onde eu estava vindo. Eu respondi que vinha do shopping. “Como assim do shopping?”, ele perguntou. Ele poderia ter feito isso com todos os outros meninos, mas fez só comigo. Eu era o único negro. Pensei: “Vou responder o que ele precisar e tá tudo certo”. Ele foi um pouco rude, mas eu não dei muita bola.

Como você se sente ao ler outras notícias de violência policial contra negros, como o caso da Claudia Silva Ferreira, que foi arrastada no asfalto pendurada em um camburão no Rio de Janeiro? Foi um episódio horrível. Como sou de família militar, acho que houve despreparo dos policiais. O que a gente pode fazer é abrir os olhos e prestar atenção nas coisas que estão acontecendo todos os dias e tentar mudar isso. Não adianta fazer manifestação e, depois que começa o Carnaval, está tudo certo. Não adianta fazer manifestação, ter feriado de Copa do Mundo, e está tudo certo. Estamos entrando numa época em que temos a oportunidade de fazer mudanças. É importante que as pessoas tenham consciência para exercer seus direitos, fazer manifestação sem serem violentas, agressivas, e sendo objetivas. Fica muito vago quando as pessoas são vítimas de alguma coisa, fazem um estardalhaço na mídia e depois deixam aquilo passar. Outros casos de violência e de racismo passaram, ficaram por isso mesmo. Acho importante as pessoas pararem um pouco e observarem o quanto elas podem mudar o país, as leis, o quanto a gente pode ter um país melhor.

Você perdeu seu cabelo usando Alisabel. Como foi isso? O problema não foi o Alisabel. O problema é que eu passava Alisabel todo dia! Minha tia falava: “Para, vai cair seu cabelo, você vai ficar careca”. Mas eu continuava passando todo dia, porque achava legal ficar com o cabelo liso, ir para os bailinhos. E, aí, de repente, caiu.

Quantos anos você tinha? Tinha 16, 17.

Por que você queria ter cabelo liso? Pegava mal cabelo crespo na época? Na minha turminha todo mundo tinha cabelo lisinho, eu queria ter igual, pra poder jogar o cabelo nas festinhas. Depois me arrependi de não ter meu black power.

Não tinha nada a ver com problemas de autoimagem, de querer parecer menos negro? Não era nada disso, até porque na minha turma havia pessoas de várias raças, japonês, árabe. Nunca foi por conta de ser negro que eu alisava o cabelo.

Você tinha um conjunto que fazia as coreografias do Jackson 5, né? Meus irmãos tinham um grupo, e minha turma sempre os via dançando, ensaiando. Aí a gente resolveu montar nosso grupinho e dançar também. A gente se reunia na garagem de casa e ficava fazendo as coreografias. Quando tinha as festinhas americanas, a gente saía dançando.

"Tem vários homossexuais no MMA que não se revelaram ainda"

dizem que você é um bom dançarino. Eu já fui. Hoje em dia não mais.

Sua tia colocou você para fazer balé na infância, não foi? Poxa, que fase... No começo eu não gostava não. Foi um castigo. Nenhum amigo fazia. Eu fazendo balé? Hello? Não era muito legal. Meus amigos ficavam: “Ah, menininha, mocinha”. E ainda com a minha voz fina... Sofri muito bullying.

E depois você começou a gostar do balé? Comecei a gostar, sim. Minha tia me botou também nas aulas de sapateado. Sou grato a ela porque me ajudou muito na luta. O [boxeador] Evander Holyfield fazia balé. Não tem muito a ver essa coisa, não. Você quer fazer balé, você faz balé. Quer fazer esgrima, faz esgrima. Você resolveu virar gay, vira gay, está tudo certo. Você respeitando o espaço das pessoas, elas respeitando teu espaço, está tudo certo.

No MMA tem muita discriminação contra gays? Acho que não tem preconceito, mas tem homossexuais no MMA. Tem vários que não se revelaram ainda.

Eles estão no armário porque, se saíssem, ia pegar mal nesse meio? Acho que hoje em dia é uma coisa tão boba não expressar o sentimento. Desde que você respeite o espaço das pessoas, respeite seus limites. Você tem que viver sua vida em paz e ninguém tem nada a ver com isso.

Quando entrevistei o Minotauro, há dois anos, ele disse que preferia não treinar com gay. Você treinaria? Claro, desde que me respeitassem, está tudo certo. Acho que não tem muito a ver. O fato de o cara ser gay não quer dizer que ele vai te assediar. Ele pode ser gay, ter um relacionamento, pode conviver em grupo com caras que não são gays. Ele faz o que quiser da vida particular dele.

Você é assumidamente vaidoso, metrossexual. Tiram muita onda com você na academia? Tiram. Às vezes a galera acha que eu sou gay. Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: “Olha, que eu saiba não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui um tempo eu descubra que eu sou gay” [risos]. Eu tomo muito cuidado com as minhas coisas, ponho todas as coisas na minha bolsa, coloco sabonete, passo um creme quando acaba o treino. A galera acha frescura. Mas é de cada um. Não quer dizer que você é mais macho ou menos macho, mais gay ou menos gay.

Você disse que sua tia Edith o orientou a lidar com o racismo. O que você fala para seus filhos sobre isso? Falo para eles não deixarem ninguém desrespeitá-los e para tomar cuidado para não desrespeitar ninguém. A vida se resume a dar para as pessoas respeito e receber de volta. Seguir por onde você resolver andar com a cabeça erguida, determinação e honra. É isso que eu passo pros meus filhos.

Eles já sofreram com o racismo? Eu acredito que não, porque teriam me falado. Nunca me falaram. Nos Estados Unidos, elas estudam em colégio público, convivem com outras crianças negras, brancas, japonesas, russas. Não têm essa proteção que tinham aqui. No Brasil, elas estudavam em colégio particular, mas nunca aconteceu nada.

Na infância, você gostava muito de quadrinhos, principalmente do Homem-Aranha, o que acabou lhe dando o apelido de Spider. E muita gente encarava você como um super-herói mesmo. Agora, com a lesão dessa última luta, você acha que estão encarando você de forma mais humana? Você virou o Peter Parker de novo? Acho que os últimos anos, as últimas lutas fizeram as pessoas entenderem isso, que sou uma pessoa comum como todas as outras, que não sou uma máquina, que eu posso falhar a qualquer momento e que estou tentando superar meus erros. Como todo brasileiro, todos os dias.

Você nunca caiu nessa de que era invencível? Nunca, jamais. Quando você pensa dessa forma, é o começo do fim.

Você reviu a luta da lesão? Eu vi uma vez, com olhos técnicos. Vi algumas coisas que eu poderia ter feito diferente.

Aquele chute você faria diferente? Hoje eu faria. Eu tentaria não fazer o chute tão isolado. Dei um chute isolado, sem colocar nenhum tipo de golpe antes. Foi falta de atenção naquele momento da minha parte.

Como você lidou com a dor? Ouvi dizer que você preferiu não se medicar para não se viciar. É verdade? O remédio que os médicos me deram pra dor era muito forte. Eu tomava o remédio, dava uns 3, 4 minutos, e a dor ia embora. Depois ela voltava. Tinha alguns momentos em que eu estava sem dor e estava tomando remédio. Eu resolvi parar, ficar com a dor e ver o que ia dar. Quando ela voltava, eu enchia a banheira de gelo e botava a perna dentro até passar. Fiz esse esforço para não viciar no remédio.

"[Depois da contusão] eu cheguei a me perguntar: 'será que vou conseguir voltar?'"

Você achou que não ia conseguir voltar? Eu cheguei a me perguntar: “Será que vou conseguir voltar?”. Mas o Marcio Tanure, meu médico e do UFC, que me trata há anos, me disse: “Relaxa, isso é mais fácil que cirurgia no menisco”. Aí eu fiquei mais tranquilo.

O Ronaldo, seu amigo e sócio da 9ine [que gerencia a carreira de Anderson], ajudou você nesse momento? Ele falou sobre como superou as cirurgias dele? A gente conversou bastante, ele falou da experiência que ele teve. Foi bacana, importante. Foi mais fácil lidar.

Como você está fisicamente? Fisicamente estou 100%. Minha perna, de 0 a 10, está 9. Estou me sentindo forte, treinando todos os dias.

O que falta pra perna ficar 10? Tempo. Mais alguns meses eu estou zerado. Estou fazendo a fisioterapia, já estou mais seguro, estou chutando. A única restrição é que eu não posso pular nem correr.

Como você enxerga sua carreira daqui pra frente? Eu tenho mais oito lutas no meu contrato. Estou com a cabeça boa, com o coração bom. Tô com muita vontade de continuar. Mas as coisas vão surgir com o tempo: os medos, as frustrações, a vontade, a falta de vontade de lutar. Por enquanto, eu estou bem, estou com vontade de continuar fazendo o que eu faço e não tenho mais nada para provar pra ninguém. É ir lá e fazer o que eu amo, independentemente do resultado.

A volta é para 2015? É. Este ano não.

Estão começando a falar de lutas com nomes como o [boxeador] Roy Jones Jr. Faz sentido? Muito. Agora o Roy Jones é o maior objetivo na minha carreira. É um sonho pessoal que eu tenho. Ele foi o melhor boxeador na época dele. Eu gostaria de ter essa oportunidade de fazer uma luta de boxe com ele, nas regras do boxe, fora do contrato com o UFC. Ele já se pronunciou e acha que seria fantástico.

Esse contrato de oito lutas com o UFC pode ser quebrado? Pode. Eu posso parar na hora que eu resolver parar. O tempo vai dizer. As oportunidades vão aparecendo, as limitações.

O Jon Jones deu uma declaração forte por esses dias, dizendo que você deveria se aposentar, fazer palestra, seminários. Como bate esse tipo de declaração? Cada um tem sua opinião. Minha mulher e meus filhos também acham que eu tenho que me aposentar. Lá em casa tem um pé de “acho” que nunca dá nada. Ninguém pode falar para você o que fazer dentro daquilo que você ama. Você é que tem que saber do seu limite e da sua hora de parar.

E, no caso do Minotauro, você acha que ele deveria se aposentar? O Rodrigo [Minotauro] é um cara que tem uma história dentro desse esporte e só ele pode dizer a hora de parar. Ninguém pode dizer. Eu não acho que seja um bom momento para ele parar, ou para qualquer pessoa parar, quando não sente isso dentro do coração. A gente conversa muito sobre isso, eu, Rodrigo, o Rogério [Minotouro]. É uma coisa que tem que surgir de cada um. Eu fiz minha história, estou caminhando, estou correndo atrás. Ninguém pode dizer para mim que é hora de eu parar. O Dana White não pode me aposentar, ele não tem esse direito. Ele pode cuidar do negócio dele, das coisas dele. Quem sabe quando e como parar é o atleta.

Uma geração de ídolos do UFC está perto do final da carreira. Você, o Georges St. Pierre, o Minotauro. Vai ser um baque pro UFC quando vocês pararem? Não houve uma renovação, não houve um trabalho de base com novos atletas. Os novos talentos já apareceram famosos. Assim fica difícil ver alguém que vá fazer algo diferente lá dentro. Tudo que está aparecendo hoje no UFC é normal, ninguém vai assistir a um cara porque acha que ele vai fazer algo diferente. As pessoas lutam com a regra, mostram que estão ali para fazer o trabalho delas, não demonstram um talento acima da média. É a evolução do esporte, é um negócio. Na minha época era uma coisa. Com as novas gerações é diferente.

Você se destacou pelo seu talento, mas também pelas polêmicas. Muita gente reclama das suas provocações, das brincadeiras no octógono, de lutar de guarda baixa. Hoje você faria diferente? Para mim, entrar no octógono, lutar e fazer o que eu faço é uma diversão. Tem que assumir o risco e entender que aquilo é seu jeito, você tem que estar feliz com o que está fazendo. Eu sempre fiz tudo com muita tranquilidade, com verdade. Não fazia para acharem que era melhor que meu adversário. Fazia porque eu gostava. Quando comecei a lutar, nunca tive pretensão de chegar ao UFC. Eu treinei para ser tão bom ou até melhor que meus professores, para ser melhor que eu mesmo no dia anterior. Acho que esse foi o caminho do meu sucesso dentro do octógono. As oportunidades foram aparecendo, nunca desafiei ninguém, nunca fiz menção de que queria lutar com esse ou aquele. Deus me deu aquilo que ele achava que era meu de direito.


Eu achava que era um jogo mental para desestabilizar o adversário... Era uma coisa que eu via nos meus ídolos, no Bruce Lee, no Muhammad Ali, até mesmo no Roy Jones Jr. Mas nunca fiz isso para me vangloriar sobre meus adversários ou para criar uma barreira psicológica. Fazia porque gostava, porque achava legal, porque me divertia. Sempre entro ali pensando na minha diversão. Esqueço meus fãs, esqueço as pessoas que estão à minha volta e tento fazer o que eu treinei, com respeito aos meus fãs, ao meu país. Mas eu não luto pelos meus fãs, eu luto por mim, eu luto porque eu amo lutar. Depois vêm as outras coisas, vêm os fãs, a fama, o dinheiro.

Como você vê o Anderson daqui a 20 anos? Um velho chato, enchendo o saco dos meus filhos, talvez brigando muito com meus netos. Não, tô brincando. Me vejo feliz, com meus filhos bem-criados, formados, cada um trilhando com sucesso o caminho que decidiu trilhar. E vivendo minha vida em paz, com dignidade.

O jornalista Eduardo Ohata, que ajudou você a escrever sua biografia, disse que sempre o viu mais como um professor do que como um lutador. Ele está certo? Está sim. Acredito que sou melhor professor do que lutador. Ainda tenho meus alunos, sei exatamente a forma de conduzir alguns treinos. Sei lidar muito mais com a coisa de ensinar do que com a coisa de lutar. Eu tenho dificuldade de relacionamento com os treinadores de uns anos para cá porque tem coisas que eu percebo que não vão funcionar e que eu acho que não devem ser treinadas.

Quando você decidir que é hora de parar, a ideia é que você seja um professor? Não sei se vou ter tempo de continuar fazendo isso depois de me aposentar. Eu gosto de ensinar, eu ensino meus filhos, apesar de nenhum querer ser lutador. Mas eu não sei se teria tempo para dar aula todos os dias. Minha vida mudou muito.

Como está o plano de fazer cinema? Tá bacana. Fiz uma participação no filme brasileiro Até que a sorte nos separe 2, ao lado do Leandro Hassum. Acabei de filmar o Tapped com o Lyoto Machida, sobre o mundo do MMA. Estou recebendo alguns roteiros, estudando qual vai ser melhor fazer. Acabei de assinar contrato com a ICM, terceira maior agência de atores em Hollywood. No Brasil, eu tenho aulas com o Luiz Mario, preparador de atores, com ajuda do Johnny Araujo, que é um excelente diretor. E, quando estou em Los Angeles, também tenho aula de acting.

O Steven Seagal deu uns toques a você sobre luta. Ele também está ajudando na atuação? O Steven Seagal é um amigo distante, que aparece quando pode. Numa época ele esteve mais perto, porque estava tranquilo no trabalho. Deu uns toques sobre treino, sobre luta. Mas, como ator, ainda não deu nenhuma dica.

Quando você parar de lutar, vai deixar inimigos no UFC? Espero que não. Eu não tenho inimigos dentro do UFC. Respeito todos os funcionários como parte da minha família. Quando parar, deixo uma história bonita e um legado. Há uma grande chance das novas gerações do UFC olharem para trás e falarem: “Eu tenho esse cara como exemplo. Ele fez a diferença”.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Elza Soares: "Eu vim do Planeta Racismo"

 
publicado: uol.com.br
No início este ando, Elza Soares estava deitada em uma maca a caminho da mesa de cirurgia, após anos sofrendo de dores na coluna e com dificuldades de locomoção. Foi a segunda tentativa cirúrgica de aplacar a fratura causada pela queda de cima de um palco, em 1999, agravada pelo uso do salto 15 e o gingado característico da paciente. Ao cogitar possíveis consequências da operação --perder os movimentos ou a fala, por exemplo-- prometeu a si mesma: "Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio Rodrigues".

O compositor gaúcho, cujo centenário se comemora neste 2014, foi autor do primeiro sucesso da cantora, "Se Acaso Você Chegasse", em 1960. Ele aparece emoldurado ao lado de Elza no palco do novo show dela, "Elza Canta Lupicínio", e norteia o repertório com as canções que popularizaram o termo "dor de cotovelo". Elza entra e sai do espetáculo com passos e movimentos curtos, sempre amparada por um ajudante. No centro do palco, senta-se em uma poltrona e dança nos limites do assento. Não há chororô. 

Com oito pinos nas costas, ela mantém a mesma média de 15 shows por mês, que se desdobram em outros dois espetáculos: "A Voz e a Máquina", em que duela com batidas eletrônicas de dois DJs; e a releitura de seu álbum clássico, "A Bossa Negra"(1961). "Me cansa ficar parada", ela diz, contando nos dedos mais um mês de recuperação, enquanto conversa com o UOL em um hotel em São Paulo, horas antes de sua apresentação no Sesc Santana, na zona norte de São Paulo.

No palco, fala do fatídico 7 a 1 que a seleção brasileira levou na semifinal da Copa do Mundo contra a Alemanha: "Parecia que os jogadores estavam com assaduras". Madrinha da Seleção de 1962 e ex-mulher de Mané Garrincha, ela também reclama sobre a torcida brasileira. "Teve muita gente [na Copa], mas o povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou. Futebol virou elite". E prevê uma goleada, sabe-se lá de quem, nas próximas eleições presidenciais. "O povo mais inocente que tem é o brasileiro."

No quarto de hotel, Elza não usa os enfeites brilhantes e a transparência dos vestidos de gala que traja no palco, mas não dispensa a maquiagem mais leve e os óculos escuros. A pele negra da carioca não mostra as rugas de seus 77 anos, e a cabeleira -- ou peruquinha, como ela chama-- fica entre o cacheado e o black power. A cantora, que em uma de suas primeiras aparições disse que tinha vindo do "planeta fome", também veio do "planeta racismo": "Escrever 'somos todos macacos' é fácil. Mas e dizer: 'Somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso".

"O povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Vai ter dinheiro como? Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7x1 outra vez" Elza Soares sobre o resultado da seleção na copa"


UOL - Como está o seu problema na coluna?
Elza Soares - Há alguns anos eu levei uma queda no Metropolitan (SP) durante um show. Eu caí do palco, de uma grande altura, e tive um achatamento na coluna. Tive uma fratura que não era preciso operar na época, mas tive que usar um colete para colocar no lugar. Mesmo assim, fiquei com meu bom salto 15, sambando que nem uma louca. Era só usar o colete, né? Até que há uns quatro anos eu comecei a sentir choque no corpo todo. Fiz uma viagem e, quando tentei sair do avião, não dava mais. Foi a primeira vez que usei cadeira de rodas. Cheguei em casa alucinada de dor, operei a cervical e parou o choque. Mas aí começou na lombar.

Quando foi a primeira operação?
Foi em 2012. Comecei a sentir a lombar, a ter choque e dor nos pés. O médico disse que tinha que operar a lombar. Coloquei oito pinos. Mas o mais triste foi antes. Ele disse: 'Olha, Elza, você sabe que, com essa operação, você pode ficar muda, perder a voz, pode morrer'. Morrer todo o mundo vai, mas ficar sem voz? 'Então não vou operar'. Mas ele insistiu. Assim que acabou a operação, gritei 'socorro' dentro do hospital. Pensei: 'Bom, estou gritando, então estou ótima'. Descobri que tenho vértebra de criança, então [os pinos nas costas] têm que ser aqueles parafuzinhos. Do cóccix até o pescoço, como o nome do disco [de 2002]. Tenho que ter cuidado, mas um cuidado mais ou menos, né? Não sou muito cuidadosa.

Quanto tempo falta para a recuperação?
A última operação foi em janeiro, já se passaram cinco meses. Disseram que demora seis meses. Estou esperando esse mêsinho. Não dá para sambar, é difícil. Mas também não dá para ficar sentada, que nem dondoca na cadeira, só fazendo caras e bocas, né?

O que você teve que deixar de fazer?
O salto, cara. O salto dói à beça. Tem um pouquinho ainda [mostra o sapato discreto, preto, com um salto do tipo tamanco], mas não dá para notar. Tive que parar de malhar, sempre malhei muito. Eu corria do Leme ao Posto 6 na areia. Sempre tive muito capricho com o corpo. Uma coisa meio masoquista.


Leonardo Soares/UOLElza: "Eu acho que cantar para mim ainda é remédio bom. Sem cantar eu não sei viver. É minha alegria. Em casa, eu fico nostálgica"

Sua maquiagem e suas roupas continuam exatamente iguais. Dá até para ver sua cicatriz.
Dá. Eu quero até que mostre. Acho importante. Tenho uma pele tão boa, que minha cicatriz ficou uma linhazinha só. As roupas lindas, maravilhosas, nunca, jamais [ficarei sem usar]. Meu perfume Dolce & Gabbana, que está acabando... Você merece, e eu mereço tudo isso.

E nos shows, houve alguma proibição?
Não, porque eu fico sentadinha, dou uma tremidinha, faço aquilo no ombro. Na cadeira eu danço. Tenha santa paciência, não aguento.

E você não diminuiu a agenda de shows.
Eu acho que cantar, para mim, ainda é remédio bom. Sem cantar eu não sei viver. É minha alegria. Em casa, eu fico nostálgica. Eu não saio à noite. Não é que eu não goste, mas eu nunca fui boêmia. Não tive esse prazer. Não bebo, não fumo. Não vou atrapalhar quem gosta da noite, né? Senão fica todo o mundo falando alto, e eu: 'Ai, me leva para casa'. Me cansa ficar parada.

Como Lupicínio Rodrigues voltou à sua vida neste momento? É um retorno ao início da carreira?
O Lupicínio me deu meu primeiro sucesso, "Se Acaso Você Chegasse". Ele me deu a chance de criar meus filhos, sair do barraquinho, viver um pouco melhor com um pouco mais de dignidade. Porque você sabe o quanto é difícil uma mulher pobre e negra chegar a esse patamar. Tem que lutar demais. Ganhei do Lupicínio o direito de sair daquela situação. Quando fui operar a coluna, não acreditava muito, estava indo para a mesa de cirurgia pensando: 'Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio. Ele vai me dar mais um sucesso'. Cheguei ao Rio, chamei o maestro Eduardo Neves, e começamos a montar o repertório. Foi quando fiquei um mês ouvindo Jamelão, o maior intérprete do Lupicínio. E chorando, hein? Música, se a gente não começar a cuidar, é que nem o futebol. Vai para o buraco.

Nossa entrevista estava, inicialmente, marcada para o dia do jogo do Brasil contra a Alemanha. Como você passou esse sufoco?
Foi triste. Chorei muito, fiquei louca. Nunca senti tanta saudade do Mané [Garrincha] como nesse dia. Não só da pessoa, mas do jogador que jogou por chuteiras e bandeiras, do grande jogador que morreu pobre. Você coloca um vídeo do Mané, você não quer tirar. Aqueles dribles dele... Em 1962, o Mané ganhou a Copa. Você vai à Suécia e vê que eles têm verdadeira loucura por ele.

Em 1962, você foi ao Chile como madrinha da seleção brasileira ao lado de Mané Garrincha.
E paguei o maior o mico. Cheguei com muito frio e a primeira-dama chilena me emprestou um casaco de vison. Fui eu com o casaco da mulher do presidente. Cheguei no estádio e fazia aquele calor incrível. Tirei o casaco, [o Brasil] fez o gol, e joguei o casaco para cima, mas ele não voltou. A gente [Garrincha e Elza] ainda estava só de namorico, aquele que você acha que pode dar certo. Quando o chileno [Eladio Rojas] cuspiu na cara dele, o Mané só levantou a perna e o jogador fingiu que caiu, e Mané foi expulso. Ao sair do campo, jogam uma pedra nele. Eu vi aquele sangue descendo, entrei no campo, soltaram aquelas cães, e eu correndo no estádio. Madrinha da seleção levando mordida de cachorro na bunda, veja só, aquele vexame.

E teve sua entrada no vestiário masculino da seleção.
Mas não vi ninguém pelado, acredita? Eu corri para ver o Mané, nem pensei que o pessoal estaria tomando banho, mas eu não vi nada. Que vergonha. Ele [Mané] tinha jurado em dar a Copa para mim. Foi lindinho ele. Depois disso...

Isso de ser madrinha se perdeu totalmente. Quem chega próximo dessa posição hoje? A Bruna Marquezine, namorada de Neymar?
É, né? Não sei, não. Ah, tadinha. Tem que estar no estádio, tem que estar presente. Sabe... tem que dar uma reviravolta nesse futebol brasileiro.

"Minha ostentação era simplesmente comer bem, descer do morro e dar uma vida melhor para meus filhos Elza Soares, sobre a origem humilde e o funk ostentação"

Por que chegamos a um resultado assim, como o 7 a 1 da Alemanha no Brasil?
Porque não teve povo. Teve muita gente, mas o povo que gosta de futebol não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. O povo mesmo, coitado, participou pela TV ou na areia de Copacabana. E chorando, né? Com esse salário, comprar um ingresso? Agora tem que fazer com que esses estádios maravilhosos e lindos fiquem acessíveis para esse povo. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Fico triste. E agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7 a 1 outra vez.

E, no caso das eleições, quem seria a Alemanha?
Nós, brasileiros, vamos à luta, mas nossas reivindicações estão completamente erradas. Não saímos às ruas com um objetivo. Saímos para quebradeira, para quebrar ônibus, que é do povo. Cada vez que se quebra um ônibus você deixou de ajudar um trabalhador que precisa daquilo. Acho que existe a necessidade de se ter alguém que fale pelo povo, mas alguém de verdade, não essa coisa de sair na rua sem saber por quem estão lutando. Acho indigno o salário de um médico, de um professor. Está na hora de buscar como uma meta: 'Eu quero isso'. O povo mais inocente que tem é o brasileiro. A gente usa muito o lado do coração, mas falta usar a cabeça. A gente perdoa muito e isso é muito negativo. O Brasil é o país da chance.

Você já sabe em quem vai votar?
Ainda não. Estou buscando alguém.

O que acha da presidente Dilma Rousseff?
Gosto dela como mulher. Achei que, quando ela entrasse, ia dar essa força. Mas tirando ela, quem mais tem? Quem está aí na frente é a Dilma. Eu não sei se tem outro candidato que tenha força para colocar esse país no lugar certo.

Em sua primeira aparição no programa de calouros de Ary Barroso, em 1953, você disse que vinha do "planeta fome". Aquilo abriria ainda mais a porta para a manifestação artística da favela e do subúrbio. E hoje esses artistas estão nos palcos com o discurso da ostentação.
Não sou contra, não. Sendo uma coisa boa, a gente aplaude. Agora, minha ostentação era simplesmente comer bem, descer do morro e dar uma vida melhor para meus filhos. Nunca tive isso. Quer dizer, comprei carros, morei bem, tive bens, mas não sei se saberia viver assim apenas.

Você também veio do "planeta racismo".
A fome é indecente, é indigna. A fome é uma coisa muito feia. O racismo você vai tirando aos poucos, a homofobia também, que é um absurdo. Agora a fome não te dá direito nem de falar, nem de dormir, nem de acordar. É muito triste. Só quem já passou por ela, sabe. Agora racismo só faz quem tem dinheiro.
Não nos livramos do racismo ainda?
Não. O racismo está por aí, pelas paredes. Ele está nas bananas. Mal sabem eles que banana é boa à beça.

E ainda teve o "somos todos macacos"...
(Interrompe) Escrever que 'somos todos macacos' é fácil, mas e dizer 'somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso. Macaco tudo bem. Pega um macaquinho e coloca no braço, mas quem não é negro, não é negro mesmo. E não aceita ser negro, como se ser negro fosse uma doença, como se gay fosse uma doença. Será que a gente vai se livrar disso um dia?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Gratidão Lupita Nyong’o

por* Hanayrá Negreiros
publicado:blogueirasnegras.org
Para mim esse texto é um agradecimento meu à Lupita Nyong’o.

Faz tempo que eu não escrevo, tinha perdido a vontade, ou talvez não tivesse nenhum assunto que me fizesse pensar com as palavras, até conhecer a Lupita, moça preta, da pele bem escura, que conseguiu mostrar a nossa beleza pro mundo. Obrigada Lupita!

A conheci no Pinterest, site de referências de imagens, onde a gente consegue montar painéis com diferentes temas, no meu caso, gosto muito e estudo a estética da mulher negra, e comecei a ver nesse site muitas fotos dessa até então desconhecida moça. De primeira, achei ela linda e com um tipo físico parecido com o meu, o que me animou bastante! Eu ainda nem tinha assistido 12 Anos de Escravidão e já gostava dela, gostava porque ela era colorida, literalmente, começando pelo tom de pele, que diga-se de passagem, a gente não vê muito por aí estampado em revistas de moda, nem em comerciais de TV, nem em nada, e depois por ela se permitir ser colorida, ela usava cores alegres, que contrastavam com a pretura da sua pele, nas roupas, nas maquiagens.

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.

A falta de mulheres parecidas com a gente, na mídia, seja ela TV, revistas e o que mais possa servir para ajudar a formar uma identidade estética negra, (não para seguirmos à risca, porque eu realmente acredito que não será uma revista que vai me falar o que usar), nos anula enquanto mulheres e consumidoras. E com certeza o Oscar de Lupita representa muito mais do que o resultado de uma linda atuação, representa uma mudança não só estética, mas política também.

E com a falta de tudo isso, acredito que não só pra mim, mas para muitas outras mulheres negras, tanto com a pele escura feita a dela, ou mais clara (porque temos vários tons), a chegada da Lupita, de alguma forma, nos fez sentir assim, representadas. Como se Lupita dissesse por nós – “olha, a gente tá aqui também!”

Porém, toda essa minha gratidão, só poderia ser completa pelo que Lupita representa não só pela beleza dela, ou pelas roupas e maquiagens que ela usa, mas pelo discurso dela também, por ela dizer que não há vergonha na nossa beleza, que somos bonitas também. Imagino quantas meninas negras se sentiram mais felizes vendo uma Lupita, vendo uma Alek Wek, e outras mulheres negras que nos representam. E já aviso, precisamos de mais pretas nas TVs, nos filmes, nas passarelas, espero que não pare na Lupita. Isso me faz pensar nas outras mulheres negras que vieram antes de Lupita ou Alek, me faz pensar em Carolina Maria de Jesus, que com suas palavras e jeito de contar o que se passava na favela, fez com a enxergassem, como mulher, preta e periférica. Recentemente, li um texto publicado aqui no BN escrito por Dulci Lima em homenagem ao centenário de Carolina, onde é contada a importância dessa mulher para nossa sociedade. E penso, como me sinto também agradecida por poder ler o que essa mulher se pôs a escrever.

Penso também em Zezé Motta, Ruth de Souza e tantas outras mulheres, que vieram antes, e que de alguma forma também ajudaram na minha formação enquanto mulher preta. O meu muito obrigada!

Por hora fico por aqui, pensando nos próximos textos a serem escritos e nos próximos batons coloridos a serem usados, porque como bem disse uma vez, uma moça bem preta e bonita “não existe vergonha na beleza negra”.

Hanayrá Negreiros é formada em Moda, adora escrever sobre estética da mulher negra, costurar e fazer ilustrações. Não vive sem um doce, chocolate de preferência!