Mostrando postagens com marcador musica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador musica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O CANTOR MACAU FALA SOBRE SUA CARREIRA

publicado: revista Raça Brasil
Compositor da música "Olhos Coloridos" que virou sucesso na voz de Sandra de Sá, o cantor Macau fala sobre sua carreira nesta entrevista





Ele assina a música que se transformou no hino pop da negritude do Brasil. Aos 60 anos, e com mais de 200 obras no currículo, Macau comemora três décadas do lançamento de Olhos Coloridos, na voz deSandra de Sá. Mas o grande público ainda sabe pouco do artista que é autor da façanha de fazer uma canção valer mais que mil palavras. “A minha contribuição é a música. O meu trabalho é cheio de canções que mostram o sofrimento dos negros em suas várias formas. Em forma de poesia, de canção, eu escrevo a história, a luta e as conquistas do povo negro do meu país”, diz Macau.

Veja trechos da entrevista com o cantor Macau:

Macau, conte-nos um pouco de sua infância. Você vem de família pobre?

A minha infância foi normal na qualidade de negro pobre da favela. Fui criado pelos meus avós, na Favela da Praia do Pinto, hoje Condomínio Selva de Pedra, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Lá acontecia de tudo: brigas, tiros, invasão policial. Cresci vendo tudo isso. Meu avô era dono de uma birosca que promovia festas, cantorias, congada, caxambu, samba de terreiro. Tinha de tudo. Na fogueira assavam batatas-doces e carne. Nos fundos da casa, ou, melhor, do barraco, tinha um quintal enorme com árvores e frutas. Eu fui bem criado. Eles tinham dois filhos: eu era filho do Rui Xisto, o filho mais velho.

Como você foi apresentado ao mundo da música e se transformou em compositor?

Morando na Cruzada São Sebastião, criada por Dom Hélder Câmara. Na Cruzada estava instalada a Escola Santos Anjos, construída também por ele no terreno entre a Paróquia Santos Anjos e o Jardim de Alah. Minha avó sempre me levava à igreja. Fiz a primeira comunhão, fui coroinha, fiz parte do coral e me tornei coordenador do Grupo Jovem, no qual cuidei da área musical. Nessa época me tornei um músico, compus canções sacras e concorri no Festival de Música Sacra, em que ganhei o primeiro lugar com a música Eu preciso nascer novamente. Passei a conviver com a música na igreja, e com os amigos da Cruzada, tocando violão e compondo.

Suas experiências pessoais influenciaram nos versos de Olhos Coloridos?

Muito. É resultado de uma forte discriminação racial da qual fui vítima. Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de “nego abusado”, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era “sarará crioulo”.

Negro discriminando outro negro...

Mas não parou aí: fiquei horas no camburão com outras pessoas como se fôssemos lixo, um por cima dos outros, como lata de biscoito. Rodamos horas pela cidade até que resolveram nos levar para a delegacia para averiguação. Não havia nada que me mantivesse preso e, mesmo assim, só de madrugada fui liberado com a ajuda do padre Bruno Trombeta, da Pastoral Penal. Saí dali triste e revoltado, chocado e com forte depressão.

A música "Olhos Coloridos", sucesso na voz de Sandra de Sá, foi composta por Macau | FOTO: Divulgação
Foi logo depois que compôs seu belo hino-denúncia?

Não consegui ir para casa. Fui para a praia onde refleti sobre tudo que tinha acontecido comigo. Chorei muito olhando para o mar e foi aí que surgiu a primeira frase “os meus olhos coloridos me fazem refletir...”. Imediatamente fui para casa, peguei meu violão e, em poucos minutos, compus Olhos Coloridos. Ela veio de uma manifestação pessoal, uma expressão de revolta. Por isso minha música é subterrânea, é uma fusão afro-brasileira do meio ambiente em que vivo.

Sua música vem conscientizando e encantando gerações como hino pop da negritude, popularizada, sobretudo, na voz de uma diva da black music. Como é sua relação com Sandra de Sá?

Sandra de Sá gravou Olhos Coloridos pela primeira vez no LP Sandra Sá, em 1982, gravação original em que toquei meu violão, com arranjos de Serginho Trombone e produção de Durval Ferreira. Esse LP selou definitivamente a minha parceria com ela, que dura até hoje, sempre com Olhos Coloridos à frente de tudo. Em 1982, no LP Sandra de Sá & Banda Black Rio, a música foi gravada em uma versão que até hoje é executada nas rádios brasileiras. Houve novas versões em 1986, 1994, 2004, fora as inúmeras apresentações em que ela canta esta canção.

Se tivesse que compor uma canção para chamar a atenção da sociedade brasileira contemporânea sobre a questão racial,manteria a mesma letra de Olhos Coloridos?

Sim! Essa canção está cada vez mais atual, por incrível que pareça. Ela é o hino da juventude negra. Se tivesse que compor,agora, uma canção para chamar a atenção da sociedade, eu a comporia de novo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Ocupado por artistas, prédio abandonado no centro de SP tem shows, oficinas e arte

Cerca de 80 artistas ocuparam o prédio desde o dia 1º de maio; lugar tornou-se residência artística e centro cultural
matéria:Gabriel Nanbu
publicado:virgula.uol.com.br

Se você estiver nos arredores do metrô Anhangabaú, em São Paulo, é possível que ouça sons de guitarra e bateria vindo de algum lugar ali por perto. Se seguir o barulho, encontrará a fachada de um prédio velho e destruído na Rua do Ouvidor, nº 63. As apresentações de música que ocorrem no porão do edifício, geralmente às quintas, são só uma das atividades que vêm acontecendo por lá desde o último dia 1º de maio. Naquele Dia do Trabalho, um grupo de cerca de 80 artistas – pintores, desenhistas, cineastas, músicos, fotógrafos, atores, dançarinos – ocupou o local, até então abandonado, e o transformou em um efervescente centro cultural.

"Pegamos um prédio que estava há nove anos ocioso e o revitalizamos. A gente ocupou com a intenção de transformá-lo em uma residência artística e um centro cultural", diz a figurinistaGicodéllic (na foto aqui embaixo, de amarelo), do Androides Andróginos, coletivo que articulou a ocupação.



A programação da Ouvidor 63, voltada para quem quer que tenha interesse, é afixada na entrada do prédio e postada no Facebook. Nos últimos três meses, têm rolado oficinas diversas (de edição de vídeo a dança com bambolê), exibição de filmes (Cineclube Inferno, no terceiro andar; não espere assistir a Os Vingadores por lá) e apresentações performáticas, dramáticas e musicais. O edifício serve, ainda, como lugar de dormir e trabalhar para uma galera de talento com projetos em desenvolvimento.

A reportagem do Virgula Inacreditável subiu os 13 andares do edifício (exercício da semana). Os novos habitantes da Ouvidor, 63 deram um senhor talento no lugar. Limparam as salas, consertaram encanamentos, mexeram na fiação elétrica e decoraram as paredes com desenhos bacanas (com isso, também gastaram uma grana).

Pelos cantos, há som de gente fazendo música, instalações de arte, araras de roupa. Entre janelas de vidro quebrado com vista para a Praça da Bandeira, lêem-se frases pichadas na parede: "A revolução sexual começa pelo cu", "O homem é a cura do homem".

Conversamos com alguns artistas do rolê. Um pintor, Augusto Amaral (o cara da foto no começo da reportagem), nos impressionou bastante. Ele nos recebeu em seu ateliê/ dormitório, no terceiro andar, e mostrou quadros e seu caderno de desenhos. Com influência de pintores clássicos e de ilustrações de HQ, ele cria coisas de fazer cair o queixo.

"A ideia é ter um lugar de pensamento aberto que atenda à arte de forma inteligente e com real qualidade. Não é para ter Naldo aqui. Deixa o Naldo lá fora. Nós corremos atrás de caras como Van Gogh e Elis Regina e fazemos acontecer de forma colaborativa. Deveriam copiar esse modelo em outros lugares", disse Augusto, antes oferecer um pedaço de chocolate.

O futuro da ocupação artística, no entanto, é incerta. A Ouvidor 63 recebeu, há duas semanas, uma notificação de reintegração de posse e agora estuda uma forma de revertê-la na Justiça. O imóvel pertence ao Governo do Estado, mas não é utilizado por ele desde a década de 80. Contatada pela reportagem, a Secretaria de Planejamento, responsável pelo edifício, informou que a destinação do prédio está "sendo estudada pelo Conselho do Patrimônio Imobiliário".



Pedro Marini (foto acima), baixista da banda gaúcha Picanha de Chernobill e organizador dos eventos no porão da Ouvidor 63, se mostra cético quanto a continuidade da ocupação. "Algumas pessoas já saíram do prédio com medo de terem seus materiais de trabalho confiscados em uma futura reintegração de posse feita pela polícia. Muitos não querem mesmo pagar para ver. Não sabemos o que fazer", disse.

O músico foi um dos que participaram do ato de 1º de maio e organizou a vinda de um ônibus com cerca de 30 artistas de Porto Alegre para participar do projeto. "O prédio estava condenado, sem fio elétrico, sem encanamento, sem nada. Tinha só o esqueleto. A gente investiu grana e energia para melhorar o edifício", disse. "Eu me emociono todo dia que subo e desço essas escadas. Você se depara com caras com muito talento, mas que estariam dormindo em praça se não estivessem aqui".

sábado, 26 de julho de 2014

Jazz lhe abençoe: Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane

Conheça a Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane, um ritual único e cheio de notas
publicado: revista trip
Depois de criar a luz, a terra, os animais e os homens, Deus nos deu o saxofone. Para que John Coltrane trouxesse um evangelho musical e uma família chamada King fundasse uma igreja de San Francisco. A Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane - um ritual único, sincero e cheio de notas para trazer almas para o jazz e para Jesus

“Com trombetas e som de cornetas, exultai perante a face do Senhor, do Rei”
Salmos, 98:6
Um baterista suado rufa e dá com tudo no prato de condução enquanto um pianista acima do peso castiga o teclado em síncope e o saxofonista de longos dreadlocks e exóticas vestes segura um harmônico agudo por 10 s no que, sem muita dúvida, é a melhor jam session de San Francisco. O ar está esfumaçado, uma platéia multirracial estala dedos, grita, bate palmas, e mulheres negras dançam de olhos fechados diante da banda. Descrição perfeita de um mundano bar de jazz – mas Jesus, assim como o diabo, está nos detalhes. 

A fumaça é de incenso, as vestes do saxofonista são de um sacerdote, as dançarinas são senhoras devotas e os gritos, infalivelmente, são de “aleluia”. Fora o fato de que o relógio marca meio-dia em um domingo de sol. Hora da missa semanal na igreja ortodoxa mais freestyle do planeta. A Igreja Ortodoxa Africana de São John Coltrane. Louvado seja Jazz.

O templo em si não tem a descrição de uma típica casa de Deus. Uma sala anexa de centro comunitário, com porta e paredes de vidro escurecidos, carpete barato e fileiras de cadeiras de auditório. O ar sacro da igreja vem das enormes telas penduradas. Um Jesus negro, uma Virgem Maria negra, crianças angelicais, uma árvore e duas imagens de São John Coltrane. Em ambas o santo segura um saxofone que expele fogo sagrado – a visão original que inspirou o bispo King a fundar sua congregação. Prestai atenção.

Há 43 anos o jovem saxofonista Franzo King entrou com sua esposa em um club de San Francisco. Esperavam assistir a uma grande performance, mas, no gargarejo do palco, suas vidas foram transformadas. Sentiram na alma o poder sagrado do sax tenor de John Coltrane. Franzo viu os olhos do jazzman varados de luz em um rosto que parecia esculpido na pedra. Era alguém não humano mas divino. E de seu sax um evangelho sem palavras tomava o ar, e o som tão forte, místico e atraente quanto o fogo. Uma aparição. 

Entendo o surto de Franzo... John William Coltrane vinha em uma bem-sucedida busca espiritual. Tinha 38 anos, e havia anos longe da birita e da heroína dos anos 50. Livre como seu som, tocou no islã, na cabala, na meditação, na astrologia, no hinduísmo, no cristianismo. John domou sua alma, sua técnica, e produziu o jazz mais poderoso já ouvido. O show a que o casal King assistiu foi em 1965, Coltrane acabara de gravar um disco. O LP da gravadora Impulse era uma oração em gratidão a seu despertar espiritual. Reconhecendo qual o tipo de amor Deus tem por nós: supremo. A Love Supreme, o título do álbum.

Marina e Franzo já eram parte de um rebanho cristão, de fé pentecostal. Mas agora o caso é outro. Os King sabiam que aquele não era um mero músico virtuoso, mas Deus em pessoa. Eles buscaram na obra do saxofonista seus pensamentos e palavras. Pulverizaram o nome do meio de Coltrane. William virou Will-I-Am, uma afirmação do caráter divino de John. A hipérbole era literal... tanto que, assim que levantou algum dinheiro, o casal fez o que qualquer arrebatado faria: foi pregar. 

Em 1971, quatro anos depois da morte de Coltrane, Franzo e sua companheira, Marina King, deram o primeiro serviço no One Mind Temple Evolucionary Transitional Body of Christ. O nome mezzo cristão mezzo hippie era bem adequado àquele começo de década, mas a doutrina só seria consolidada em 1982. Quando a One Mind... começou era mais uma jam forte, aberta e salpicada das falas do reverendo King exaltando Coltrane e seu som como a própria Verdade, como Deus que pisou na Terra. Foi um arcebispo de Chicago, de passagem por San Francisco, que tirou a peculiar seita do underground da fé.

Sax Appeal 
Seu nome era Alexander McGuire, criador da Igreja Ortodoxa Africana, tradicional congregação cristã negra, fundada em 1921 para protestar contra a discriminação racial sofrida nas comunidades pentecostais de Chicago. Quando visitou a missa de Franzo King, McGuire deu sua bênção. Promoveu nosso reverendo a bispo e rebaixou Coltrane da condição de Deus à de santo. King adotou a batina e a liturgia mais formal de McGuire. A One Mind... se tornou a divisão do oeste da Igreja Ortodoxa Africana. E orgulhosamente tomou São John Coltrane como padroeiro.

Qual o milagre de Coltrane, bispo? “A sua ascensão”, responde, “em unir-se com Deus em si através do poder de sua música. Acreditamos que, quando ele se livrou do vício das drogas, sua revelação e seu despertar espiritual se tornaram um evangelho em A Love Supreme. Quem tem o coração aberto reconhece o caratér sagrado daquela mensagem”. Se o leitor não é catequizado em jazz moderno, A Love Supreme é considerado a obra-prima de Coltrane, um álbum intencionalmente construído como uma prece, uma busca pela perfeição e pela pureza espiritual traduzida em quatro partes. As mesmas composições que, todo domingo, a banda de reverendos executa e improvisa em cima. O mesmo disco que Waneka King, filha do bispo e ela mesma reverenda, transmite semanalmente pela KPOO, a única rádio de propriedade afro-americana da Califórnia. Um programa de quatro horas dedicado à música de São Coltrane e à palavra de Deus.

OS KING SABIAM QUE AQUELE NÃO ERA UM MERO MÚSICO VIRTUOSO, MAS DEUS EM PESSOA

Waneka é a “gerente” da igreja, cuida dos contatos, da comunidade durante a semana e é a espetacular baixista da banda. Ela quem sorri antes de responder, cheia de dedos, se acha que o papa reconheceria um dia São John Will-I-Am Coltrane como um santo pra valer. “Nem todos aceitam fácil essa idéia, eu sei. Mas nós sabemos que nosso padroeiro foi um homem conectado com Deus através da música. Eu gostaria de saber o que João Paulo II teria a dizer sobre isso, mas Bento 16 já seria incrível se canonizasse Madre Teresa.”

Pela qualidade do jazz e pela peculiaridade da igreja, é espantoso que o quorum não seja maior. De 15 a 20 pessoas comparecem a cada serviço. Mas o rebanho do jazz é fiel. Um casal branco de Nova York bate cartão, e os pés, diga-se, participando dos serviços, sapateando profissionalmente em um tablado de madeira do lado da banda. Senhores na casa dos 60, na estica de paletó, colete e chapéu, soltam seus aleluias quando um solo chega ao auge. E a família estendida do bispo King faz mais do que volume – é o coração da igreja, cantando passagens bíblicas em complexas melodias afrojazzísticas, batendo pandeiros e, eventual­mente, passando a sacolinha. Nada de couvert artístico, o dinheiro serve para manter a igreja em ordem e para caridade na vizinhança.

Duas horas e meia depois do primeiro tema é a hora da palavra. Franzo King, suado de tocar saxofone e bateria ao longo da missa, vai ao púlpito improvisar sua pregação. A data é especial, deveras, o primeiro domingo pós-eleição presidencial. E bispo King, logo após uma prece, sai solando verbalmente.

Os Estados Unidos da Babilônia
Como sua igreja, King tem um pé no mundano que atrai também o descrente. Seu estilo é uma mistura de MC com pregador, uma marra arrastada e meio irônica que me fez pensar que ele criou algo como o “Pimp my Church”. Toda sua fala foi sobre o presidente eleito: “Quero falar sobre o Obama...”. “Aleluia!”, “Oh, yes!”, “Thank yoooou, Lord!”, gritam os fiéis. O bispo está feliz, evidente. Mas não muito interessado na esperança política, na “change” do slogan ou na queda do muro racial da América. O bispo quer saber é o que Deus pretende com o Barack no poder. “Muita gente está comemorando cedo demais, amém?” “Aleluia!”, respondem. Bispo segue: “A América está achando que estamos redimidos. Que o reino dos céus é nosso. Mas aqui, meus irmãos, é a Baaaaabilônia!”. “Tá certo!”, alguém grita. “Falou e disseeeee”, canta outro. King sorri: “Como o irmão Bob Marley disse, a Babilônia vai queimar!”. Não que nosso bispo queira o mal da América, não senhor, mas ele ainda vê o saldo vermelho na consciência americana. Vai King: “Coorporações não tem país, não tem bandeira. Eles estão na cadeira da presidência há muito tempo. E vocês acham que eles vão deixar Obama governar se ele não tiver algum tipo de poder divino agindo para ajudar?”. Palmas e chocalhos explodem. “O país está com a espada sobre a cabeça. Qual é a mudança, qual é a esperança? A minha é que Deus vire a mesa dessa nação. Que acabe com a loucura desse país! Não acham que tem maluco demais por aqui?”, diz em tom jocoso o bispo saxofonista.

Ele fala sobre arrependimento, fala sobre a crise que vai assolar o mundo nos próximos anos. E de como Jesus, quando voltar, “vai estar bravo. Ah, vai estar beeeeem bravo, aleluia!”. Um saxofonista sopra um fraseado. “Tem muito arrependimento para ser feito nesse país, e eu quero ver como Deus vai usar esse rapaz Obama. Eu quero ver se Obama está pronto para o plano de Deus.” Silêncio na paróquia após a estranha desconfiança do bispo. 

Ele percebe, para logo os consolar. “Mas vocês sabem, meus irmãos, que uma pessoa é tão boa quanto a música que escuta...”, King pausa como um bom saxofonista antes de fechar seu solo, “e eu sei, e tenho minhas fontes, que Obama escuta São John Coltraaaaane!”. “Aaaaaaleluia!”, delira a congregação e o presente repórter, enquanto o baterista de batina ataca o prato de condução, Waneka dedilha o baixo, o bispo pousa a Bíblia no púlpito. De cocuruto vermelho, espanca um pandeiro velho e mother Marina King canta um gospel de beleza violenta. Arcebispo Franzo Wayne King apanha o sax tenor. Fecha o olho, dá um berro e exulta a Palavra pela boca de um saxofone, na face do Senhor. E na de São John Will-I-Am Coltrane.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Inspiração haitiana

Daniel Castellano/ Gazeta do Povo  / A partir da esquerda: Daniel Amaral, o “cara das cordas”; Giovana Luersen, vocalista e autora da letra; a flautista Fernanda Fausto; o baixista Davi Dornellas e o violonista Asaph Eleutério.  Também fazem parte do grupo Karla Dibia (clarinete) e Gabrelly Nichele (percussão)
publicado: gazeta do povo
Pela “despolaquização” de Curitiba, grupo de músicos lança canção em homenagem aos imigrantes do Haiti que vivem na cidade
“Cada viagem de Inter 2 dá um Ulysses”, assegura o músico Daniel Amaral. Não que James Joyce seja facilmente reproduzível. Mas o fato é que, todos os dias, várias histórias acontecem silenciosamente em Curitiba. Nos ônibus, nas praças, na Rua XV. Uma delas começa a finalmente a chegar ao que se poderia chamar de coração afetivo da cidade, espaço no qual se encontra aquilo que tem importância – ou é discutido entre cafezinhos na Boca Maldita.
Os cerca de 2 mil haitianos que vivem e trabalham em Curitiba ainda não têm um clube próprio. Tampouco emprestam seus nomes afrancesados a alguma rua. Mas os creoles, de certa forma, podem comemorar porque não são mais (tão) invisíveis: sua recente história por aqui é motivo de inspiração para um grupo de sete jovens músicos da Faculdade de Artes do Paraná (Fap), integrantes da banda Alimentadores da Região.
A música traça um rápido panorama do cotidiano dos haitianos por essa cidade que um dia já foi refúgio de poloneses, italianos e alemães. O Haiti não é aqui, mas o Água Verde, durante a construção da nova Arena da Baixada, se tornou um pedaço dele. A canção lembra-se disso. Também dos pensionatos onde vivem alguns haitianos. E, por fim, do Butiatuvinha, maior reduto dos caribenhos por essas bandas frias.A letra da canção “CWBTI”, disponível para audição na internet (veja serviço abaixo), é de Giovana Luersen, outra usuária dos alimentadores, ligeirões e convencionais amarelinhos. “Moro no Centro. Percebi que havia haitianos em todas as partes, em todos os horários. Fiquei interessada no assunto e vi que ninguém havia se ligado nesse momento histórico importante,” diz Giovana, voz e violão do grupo Alimentadores da Região, formado em 2012 no pátio da faculdade.

Talvez o grupo tenha até aplicado conceitos dos estudos culturais ou de sociologia da música, disciplinas que ainda estudam na Fap, para talhar a canção. Mas o fato de a composição ser dividida em duas partes quase antagônicas entre si – começo reggae, desfecho punk – vem da observação em campo. “Apesar de tudo, da nossa aceitação, sempre vejo pessoas falando mal de haitianos. São os ‘curitibocas’ em ação”, cutuca Giovana, curitibana-leite quente assim como quatro dos outros músicos.
“Despolaquização”
O mais recente fenômeno de imigração ainda vai dar o que falar, mas para o grupo ele já suscita pistas sobre como os fatores culturais da cidade podem se reorganizar. Seria, como afirma o grupo numa troça étnica, a “despolaquização” de Curitiba. “Apesar da loucura deste mundo, percebemos de fato que os haitianos estão entre nós, produzindo e trabalhando. Através da música, queremos que as pessoas percebam isso também”, diz Asaph Eleutério, voz e violão da banda.
Se em outros cantos a imigração atual é motivo de complexas e até violentas reações sociais – turcos na Alemanha, africanos na França, por exemplo – em Curitiba o problema parecia ser a indiferença. “As novas diásporas continuam”, diz a flautista Fernanda Fausto. “Se pensarmos de forma ampla, é a construção de uma nova identidade, seja aqui ou na França.” Allez.
Cenário da canção é o maior reduto dos imigrantes
Eles estão mesmo nas ruas, embora sempre a trabalho, nunca pela esmola. Sobreviventes do terremoto que devastou o Haiti em 2010, rapidamente enxergaram o Brasil como nova Canaã. Mesmo que tivessem curso superior, foram, como mostram alguns trechos do documentário Operários da Bola, mão-de-obra fundamental para a construção dos estádios brasileiros para a Copa de 2014. Em Curitiba, a história foi mais ou menos a mesma.
De acordo com informações atualizadas da Pastoral do Migrante, são cerca de 5 mil os haitianos no Paraná. Dois mil deles estão em Curitiba e trabalham, em sua maioria, na construção civil.
Durante o auge das obras na Arena da Baixada, 1,5 mil homens batiam ponto no Água Verde – quatrocentos deles eram haitianos, cerca de 30% do total. Os caribenhos também venderam seus muques durante a construção do Shopping Pátio Batel, inaugurado em setembro de 2013.
Em Curitiba, a maior concentração de imigrantes está na vila Três Pinheiros, no Butiatuvinha, região de Santa Felicidade. É justamente esse um dos cenários da música “CWBTI”.
Ainda segundo a Pastoral, o movimento imigratório agora é interno, com haitianos saindo de São Paulo e do Rio de Janeiro em direção a Curitiba, sempre em busca de trabalho. Ao menos do frio eles já vêm avisados.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ciclo de Leituras Ebulição Marginal



Nelson Triunfo, pioneiro do movimento hip hop no Brasil, na rua 24 de Maio, em São Paulo
Nascido nos guetos norte-americanos em meados da década de 1970, o hip hop é uma cultura que se estabelece sobre quatro elementos distintos: o rap, o grafite, o break e o MC (mestre de cerimônias). Há ainda um quinto elemento, já amplamente disseminado pelo movimento criado por Afrika Bambaataa: o conhecimento, ou a sabedoria. O Ciclo de Leituras Ebulição Marginal, que começa hoje (21) em Curitiba, utiliza o hip hop para despertar o interesse literário em jovens das periferias.

Em sua segunda edição, a programação é composta por encontros de mediação de leitura e apresentações culturais ligadas à produção artística da periferia. A intenção é revelar conexões entre a literatura e os elementos do hip hop, especialmente o rap – que, do inglês, significa “ritmo e poesia”. “Se pensarmos que é poesia, o rap também é literatura. É um link direto”, diz Anna Carolina Azevedo, idealizadora do ciclo. “Nossa intenção é tornar esses meninos atentos a isso, ao fato de que existe poesia dentro do movimento hip hop e, a partir desse lugar que é tão comum para eles, partir para saltos maiores”.

Para Anna Carolina, dessa forma é possível chegar a outros tipos de leituras, aos cânones e a outros gêneros, mas a primeira aproximação se dá por meio do rap e de referências da literatura marginal contemporânea, como Paulo Lins e Férrez. Neste ano, toda a programação do ciclo é baseada nos sentidos que se desprendem da palavra “marginal”. “Entendemos o termo ‘marginal’ como algo que está fora de um círculo, de um centro”, explica a idealizadora.

Além de rodas de leitura, sessões de grafitagem, batalhas de rimas e de break, oficinas de poesia e saraus literários, também há espaço reservado para o Manguebeat, movimento de contracultura do Recife da década de 1990, e para a censura à época da ditadura militar. Ambos momentos marginais, segundo Anna Carolina. “A literatura durante a ditadura militar, se pensarmos em Rubem Fonseca e Ignacio de Loyola Brandão, corria fora da elite militar – e, por isso, era marginal. E o nordeste, onde aconteceu o Manguebeat, é a margem do Brasil e em si já é uma periferia”.

Do underground literário de Curitiba, o poeta Marcos Prado será homenageado em rodas de leitura e discussões. “Ele foi um cara que morreu muito jovem, aos 35 anos. Em vida produziu incessantemente, mas não fazia parte das instituições oficiais de cultura da cidade”, considera. A obra do autor, assim como todo o legado do movimento hip hop e da literatura marginal, são as bases para a realização do projeto, que busca desmistificar a ideia de que a literatura está reservada apenas para uma parcela da sociedade. “Formando leitores, formamos cidadãos mais sensíveis e mais atentos àquilo que gira em torno deles, às nuances sutis do cotidiano”.

Ciclo de Leituras Ebulição Marginal
Onde: Espaço da Leitura Eucaliptos (R. Pastor Antonio Polito, 2200, Alto Boqueirão – Curitiba/PR)
Quando: 21/07 a 26/07, às 9h30, 14h30 e 19h30
Quanto: grátis
Info.: (41) 3286-2931

Programação:

21 de julho, segunda – feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – Rua, Ritmo e Poesia.
19h30 – Exibição do Ebulição Marginal 2013 + Apresentação Teatral do grupo de teatro juventude, com peça inspirada na obra de Ferréz.

22 de julho, terça-feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – A margem da ditadura, literatura no período militar
19h30 – Exibição do Ebulição Marginal 2013 + Roda de leitura em cinema – O Bandido da Luz Vermelha.

23 de julho, quarta-feira:
9h30 – Oficina de poesia Marcos Prado.
14h30 – Roda de leitura – Na periferia do Brasil: O movimento Manguebeat
19h30 – Papo Cabeça – Arte na Periferia

24 de julho, quinta-feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – Arte e Guerra de Banksy.
19h30 – Filme Cidade Cinza

25 de julho, sexta-feira:
9h30 – Oficina de Poesia Marcos Prado
14h30 – Roda de leitura + Palestra sobre Marcos Prado, com participações de Sérgio Viralobos e Mônica Berger.

26 de julho, sábado:
14h30 – Batalha Ebulição Marginal: Competição de breaking, rima e grafite.
19h30 – Show da banda The Old Street + Inverso: O Som da Poesia Marginal com Zirigdun Pfóin + Apresentações de Rap Freestyle (inscrições feitas na hora)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Divina Diva -Nina Simone

Nina em 1965
Informação geral
Nome completo Eunice Kathleen Waymon
Também conhecido(a) como Nina Simone
Nascimento 21 de fevereiro de 1933
Local de nascimento Tryon, Carolina do Norte
Estados Unidos
Data de morte 21 de abril de 2003 (70 anos)
Local de morte Carry-le-Rouet, Provence-Alpes-Côte d'Azur
França
Gênero(s) gospel, folk, jazz, R&B, soul,blues
Instrumento(s) voz, piano


Eunice Kathleen Waymon mais conhecida pelo seu nome artístico, Nina Simone (Tryon, 21 de fevereiro de 1933 – Carry-le-Rouet, 21 de abril de 2003) foi uma grande pianista, cantora e compositora americana. O nome artístico foi adotado aos 20 anos, para que pudesse cantar Blues, nos cabarés de Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City, escondida de seus pais( a mãe ministra metodista e o pai barbeiro). "Nina" veio de pequena ("little one") e "Simone" foi uma homenagem à grande atriz do cinema francêsSimone Signoret, sua preferida.

Nina Simone, quando jovem foi impedida a ingressar em um conservatório de música na Filadélfia, mesmo tendo afrontado o racismo e cursado piano clássico na severa Juilliard School, em Nova York. Também se destacou e foi perseguida por abraçar publicamente todo tipo de o combate ao racismo. Seu envolvimento era tal, que chegou a cantar no enterro do pacifista Martin Luther King. Casada com um policial nova-iorquino, Nina também sofreu com a violência do marido, que a espancava. E tudo isso, dizia ela, que tinha acontecido, as portas tinham se fechado, por ser negra.


Depois de fracassar na tentativa de ser uma grande concertista através do conservatório, Nina permaneceu algum tempo em Nova Yorque até ir para Atlantic City e, nessa cidade, trabalhando como pianista em um bar, foi obrigada a cantar para não perder o emprego, e tocar piano era o que ela fazia. Tornou-se Nina Simone, como se batizou naquela ocasião. Cantou músicas clássicas e imortalizou hits como "Feeling Good", "Aint Got No - I Got Life", "I Wish I Know How It Would Feel To Be Free", e "Here Comes The Sun", além de "My Baby Just Cares For Me" que gravou e foi trilha sonora de um anúncio televisivo de perfume francês.

Em um breve contato com sua obra, aqueles que não a conhecem percebem logo a diversidade de estilos pelos quais Nina Simone se aventurou, desde o gospel, passando pelo soul, blues, folk e jazz. Foi uma das primeiras artistas negras a ingressar na renomada Juilliard School of Music, em Nova Iorque. Sua canção “Mississippi Goddamn” tornou-se um hino ativista da causa negra e fala sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham em 1963.

Ao se apresentar num evento militar em Forte Dix, New Jersey, em 1971, em plena Guerra do Vietnã, Nina Simone deu voz àqueles que eram contrários ao conflito, quando cantou um poema em que Deus é chamado de assassino, após 18 minutos poderosos de My Sweet Lord, de George Harrrison.

Nina esteve duas vezes no Brasil, gravou com Maria Bethânia e seu último show ocorreu em 1997 no Metropolitan. Era uma intérprete visceral, compositora inspirada e tocava piano com energia e perfeição. Morreu enquanto dormia em Carry-le-Rouet em 2003.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cinco anos sem Michael Jackson; entenda por que o Rei do Pop não morreu

por: Leonardo Rodrigues
publicado: musica.uol.com.br




Elvis não morreu, entrou para o programa de proteção às testemunhas do FBI. Jim Morrison também vive: cansado da fama, passou a se esconder do mundo sob a identidade do escritor Thomas Pynchon. Diferente dos colegas, Michael Jackson pode ainda não ter ganhado sua teoria conspiratória definitiva, mas hoje, passados exatos cinco anos de sua morte, sua memória brilha forte tal qual uma cintilante luva cravejada de cristais Swarovski.Você pode gostar dele ou não, mas o fato é que o Rei do Pop continua entre nós, e muito mais no presente do que em sua apagada última década de vida. Indícios não faltam. Desde o fatídico 25 de junho de 2009, Michael já lançou dois álbuns póstumos e tem material para outros oito, voltou às paradas, estrelou um documentário, se apresentou "ao vivo" como holograma e até foi flagrado fazendo compras em Paris.
No caso mais pitoresco, precisou pagar a indenização simbólica de 1 euro a fãs da Suíça, Bélgica e França, pelo inapelável "dano emocional" causado por sua repentina morte, após uma overdose de propofol, um forte anestésico utilizado como sonífero. Brincadeiras, exageros e polêmicas à parte, Michael nunca perdeu seus tons superlativos nem sua majestade na música. Segundo levantamento da revista "Forbes", ele é o artista que mais lucra depois de morrer, desbancando a estrela Elizabeth Taylor.

A recente escalada do pop suingado de Bruno Mars, Pharrell Williams, Robin Thicke e Justin Timberlake reafirma ainda mais o legado de um artista que redefiniu não só a música negra dos Estados Unidos, mas todo um universo pop. Hoje é possível afirmar que existe o antes, o depois e o "além" de Michael Jackson.