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terça-feira, 10 de março de 2015

Divando a Feira Afro Chic

por: Francielle Costacurta
Aconteceu neste sábado 07/03 o 1º Afro Chic de Curitiba. O espaço do Solar do Barão ficou pequeno de tantas Divas Makes. Entendam meninos... Divas Makes são aquelas que fazem acontecer a vida com encantos e realeza.  No Solar, mulheres no auge dos seus "blacks-trances" eram perseguidas pelos olhares esbugalhados dos meninos. Crianças eram fadas, príncipes, princesas, heróis, heroínas personificadas no estilo personal black mirim. E nesse clima a cultura se reluzia em um grande banquete familiar. Ninguém se conhecia, todos se conheciam, todos se viam, se tocavam, todas mais que sorriam.
Enfim, não havia espaço para timidez e a feiura  com certeza, não fora convidada para feira Afro Chic. Assim, que venham outras "Afro Chic" para nos embebecer de tanta beleza....aff



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Dra. Nilma Lino Gomes é a nova Ministra da Seppir

Nilma Lino Gomes é a atual reitora da Unilab.
Ela é pedagoga formada pela UFMG e não tem vínculo com partidos.

Nomeada pela presidente Dilma Rousseff para ocupar a Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial, Nilma Lino Gomes foi a primeira mulher negra a assumir a reitoria de uma universidade federal no país. Em abril de 2013, Nilma foi empossada reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), com sede em Redenção (CE).
A futura ministra não é filiada a nenhum partido. Nilma é pedagoga, graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também fez o mestrado em educação. Ela tem doutorado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado, em sociologia, pela Universidade de Coimbra (Portugal).
Entre 2004 e 2006, presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e desde 2010 integrou a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, onde participou da comissão técnica nacional de diversidade para assuntos relacionados à educação dos afro-brasileiros.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Convite de Faculdade Zumbi dos Palmares a Falabella gera polêmica

publicado: Revista Fórum

Entidade convidou o diretor para participar de um debate sobre o programa “Sexo e as Nêga”. Discentes e docentes do curso de Pedagogia emitiram uma nota de repúdio e criticaram a reitoria pela iniciativa

Por Jarid Arraes
Depois de receber críticas e ser alvo de protestos do movimento negro brasileiro, Miguel Falabella e sua série global “Sexo e as Nêga” enfrentam nova polêmica, desta vez envolvendo a Faculdade Zumbi dos Palmares, de São Paulo, que convidou o diretor para participar de um debate sobre o programa no FlinkSampa – Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra – que acontecerá em novembro deste ano.

Miguel Falabella chegou a publicar em seu perfil no Facebook uma nota de comemoração pelo convite, o que não foi bem aceito pelos ativistas negros que protestam contra “Sexo e as Nêga”. Por causa da repercussão negativa, a Faculdade Zumbi dos Palmares usou a página institucional na rede social para justificar o convite e negar boatos de que Falabella receberia o Troféu Raça Negra 2014, evento aclamado pela comunidade negra brasileira.

Apesar do esclarecimento, foi lançada nessa segunda-feira (22) uma nota de repúdio escrita por discentes e docentes do curso de Pedagogia da Faculdade Zumbi dos Palmares, que protestam contra o convite oferecido a Falabella e criticam a reitoria pela iniciativa.

A carta, publicada na página pessoal de Ellen de Lima Souza, coordenadora do curso de Pedagogia, afirma que a série “Sexo as Nêga” reproduz estereótipos racistas e desrespeita as mulheres negras brasileiras, indo contra os “princípios orientadores das políticas de ações afirmativas conquistadas pela luta do Movimento Negro no Brasil”. A publicação ainda afirma que “produções televisivas racistas não precisam ser debatidas, mas punidas de forma exemplar conforme assegura a Constituição Federal brasileira”.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Traços em negrito: beleza negra além dos traços finos

Por Jarid Arraes
publicado: revista Fórum
O padrão ocidental de beleza é obviamente racista – um fato inevitavelmente observado em todos os contextos relacionados a aparência física. São raras as celebrações da negritude, sobretudo quando as pessoas em questão são mulheres. Infelizmente, é muito comum passar as páginas de revistas e catálogos de cosméticos ou assistir programas inteiros de televisão sem encontrar representações de mulheres negras como belas, nem mesmo nos comerciais e propagandas. E apesar de haver alguns exemplos de mulheres negras famosas no Brasil e no mundo que são consideradas lindas, a beleza negra presenciada na mídia parece, na maioria das vezes, se enquadrar nos específicos critérios dos “traços finos”.
São cabelos que até podem ser cacheados – mas nunca armados -, lábios que não devem ser muito grossos e narizes afilados e “delicados”. Só assim as mulheres negras estarão dentro do padrão de beleza. Esse filtro, no entanto, é extremamente excludente: no Brasil e no mundo, há muitas etnias e variações genéticas que resultam em traços distintos, que claramente não podem ser todos compatíveis com o que a sociedade considera bonito. Essa separação do que é permitido no mundo da beleza acaba gerando uma hierarquização da própria negritude, discriminando aquelas que possuem cabelos crespos e volumosos, mas dando permissões limitadas às mulheres negras de rosto mais fino e cabelos com cachos mais definidos.

A cultura dos “traços finos” é uma tentativa de “higienização” de todo um grupo racial que já há muitos séculos é retratado como indesejável. A expressão livre e desimpedida da negritude é repudiada e, portanto, sua aparência física também é podada e as mulheres cujos traços não são finos acabam sendo hostilizadas. Aquelas que conseguem enfrentar os parâmetros da indústria da beleza e amam suas características físicas, sem recorrer a modificações corporais como rinoplastias e alisamentos, são verdadeiras guerreiras que resistem fortemente para manter a autoestima. Essas mulheres, que passo a passo buscam a politização e o fortalecimento da percepção de si, levam suas características faciais e corporais a um patamar transformador que repercute em todas as esferas sociais. É a resistência e o empoderamento dessas mulheres que criam caminhos por onde a desintegração do racismo pode trilhar e acontecer.

Com essa importante reflexão, é possível virar a mesa e jogar com as palavras originalmente usadas para oprimir. Ao invés de reproduzir a ideia dos “traços finos” desejáveis, deve entrar em cena a exaltação dos “traços em negrito“: fortes, escuros e evidentes. A beleza da negritude, afinal, pode e deve existir em muitos tons, tamanhos e pluralidades.
Foto:Tredência Modas

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O racismo não está nas diferenças

Por Jarid Arraes
publicado:revista Forum



No último dia 25, Dia Nacional da Mulher Negra, data oficializada no Brasil como oportunidade para homenagear Tereza de Benguela, houve muita discussão em torno da necessidade de se criar uma data separada para as mulheres negras. Muitos alegam, em comentários na própria página da Revista Fórum, que o 25 de Julho acaba sendo mais uma forma de racismo, pois diferencia as mulheres negras das demais mulheres, especialmente das brancas. Muitos comentaristas são pessoas bem intencionadas, que não conseguem identificar a raiz do desconforto que sentem em datas como o Dia da Mulher Negra ou o Dia da Consciência Negra. Eventos voltados para as pessoas negras acabam incomodando essas pessoas. Por quê?

O Brasil é um país que trata questões raciais de forma problemática e preocupante: é corriqueira a noção de que nomear cores é indesejável, ou seja, a simples constatação de que há pessoas brancas, pretas e amarelas, para grande parte da população, já é encarada como uma espécie de racismo. O que essas pessoas ignoram ou teimam em compreender é que o racismo existe a partir da ideia de superioridade de um grupo sobre outro, tendo como um de seus mecanismos o silenciamento e apagamento das manifestações identitárias do grupo considerado inferior. Portanto, o racismo não está no fato de reconhecer que existem pessoas de diferentes cores e práticas culturais enraizadas na experiência coletiva de cor, mas sim em dissimular o material e escondê-lo, sem promover qualquer reflexão sobre a diversidade existente em certo contexto social.

Em nosso país há pessoas de muitas cores, assim como manifestações culturais plurais e diversificadas; afinal, nossos ancestrais se originaram de diferentes lugares do planeta, de quem herdamos nossas religiões, danças, músicas, artes e culinária. Não há nada de racista em enxergar as belas diferenças no Brasil – mas é preciso ir além da celebração. A cor de uma pessoa, atualmente, ainda implica em situações de discriminação ou desfavorecimento. Esse é um fato histórico que vem sendo reproduzido há muitos séculos e ganha força na omissão. Por isso, agir como se o racismo não existisse não faz com que ele desapareça; pelo contrário, possibilita sua manutenção sem que em qualquer momento seja desafiado.

Quando o movimento negro e o feminismo negro estabelecem datas simbólicas e levantam o debate racial dentro dos movimentos sociais, a esperança é de que mais pessoas passem a enxergar o racismo estrutural e cotidiano, presente em todas as esferas sociais. Usando o 8 de Março – Dia da Mulher – como exemplo, é possível analisar a forma como o racismo atua: nesse dia é feita uma universalização da experiência feminina, seja no sentido político ou no sentido de homenagem. O que acontece é que todas as mulheres são unificadas sob seu gênero, sem que sejam consideradas suas especificidades. Isso não é totalmente negativo, mas ainda é muito prejudicial para certos grupos de mulheres. Ser uma mulher negra não é o mesmo que ser uma mulher branca – e isso não se justifica sob pretextos biologizantes e higienistas, mas sim por razões socioculturais. Isso é um fato pautado em dados, estatísticas e análises acadêmicas dos dados colhidos em pesquisas: a forma como mulheres negras são tratadas em nossa cultura é carregada da herança mais cruel trazida da escravidão e ainda hoje continua dificultando suas vidas.

Somos pessoas diferentes e tais diferenças são pertinentes no mundo real. Isso não quer dizer que somos melhores ou piores do que outras pelo simples fato de termos a pele de uma certa cor ou uma religião diferente da outra. Ainda assim, conscientizar-se de nossas diferenças nos prepara para reagir diante do racismo, não o aceitando independente de quem seja agredido por ele. Além disso, a plena aceitação da diversidade possibilita a convivência amistosa e o respeito pelo espaço do outro, sem nenhuma síndrome de superioridade. Desse ponto de vista, é possível entender, por exemplo, que o cabelo crespo é uma característica das pessoas negras, que ainda lutamos contra o preconceito direcionado a esse tipo de cabelo e que esse preconceito é originado no racismo. Somente identificando todos esses fatos e nomeando o racismo é possível que ele seja extinguido.

Por isso, um dia para lembrar e discutir as especificidades sociais das mulheres negras não configura racismo. Datas como 25 de Julho e 20 de Novembro são oportunidades catalisadoras de força, meios de denunciar a discriminação e de propor soluções. O racismo não está em nossas diferenças, mas sim na hierarquização que, infelizmente, ainda é atribuída a elas.

Foto de capa: Flickr / University of the Pacific Black Law Student Assoc.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Cinema negro será tema do Latinidades em 2015

Agencia Brasil
Conferências e debates tiveram público estimado em 4 mil pessoas Valter Campanato/Agência Brasil

O Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra  já tem tema definido para a próxima edição em 2015: o cinema negro. Este é um tema que vem sendo pensado desde o início do festival, disse a idealizadora e coordenadora do evento, Jaqueline Fernandes.

“Queremos discutir o papel da mulher negra nessa cadeia cinematográfica, o seu protagonismo na produção e também como atriz. Na África, por exemplo, as pessoas não conhecem a vasta produção da Nigéria, em obras que se espalham pelo mundo.” Segundo Jaqueline, qe é produtora e jornalista, o objetivo é circular e poder estar em todas as regiões administrativas do Distrito Federal (DF), sede do festival. “Queremos formar cineclubes que possam sair do Plano Piloto [área central do DF], assim como estamos hoje em uma casa de santo na periferia.”

As atividades do último dia do Latinidades – almoço coletivo e plantio de um baobá – foram no terreiro Ilê Axé Òyá Bagan. A representatividade das plantas trazidas da África também foi tema de debate e a figura imponente do baobá compôs os ambientes do festival. Os baobás são árvores sagradas e estão presentes em vários aspectos da sociedade e cultura africanas. Segundo Jaqueline, o plantio dessa espécie deve continuar em outros terreiros.

Para Jaqueline, quando se pensa em negritude, as pessoas têm em mente cenas que giram em torno de Salvador ou do Rio de Janeiro e, por isso, é importante que o festival seja no Distrito Federal. “Não tem no imaginário a presença de negros em Brasília – as pessoas pensam que são minoria, quando na verdade, uma pesquisa da Codeplan [Companhia de Planejamento do Distrito Federal] diz que a população negra do DF é mais que 50% do total. A pesquisa fala também onde essa população está presente: nas periferias e nas paradas de ônibus do Plano Piloto.”

De acordo com a produtra, fazer o festival na capital do país é fortalecer a presença negra, que é maioria, incentivar as pessoas à autodeclaração e à celebração. "Tem pessoas do mundo todo vindo para Brasília discutir igualdade racial e de gênero, debater políticas públicas. É esse o espaço de protagonismo da mulher negra, aqui é a capital e que espera-se que ela seja um espelho para o país”, reforçou Jaqueline.

A organização do evento ainda não tem dados concretos sobre a presença do público nos showse outras atividades culturais, mas estima que cerca de 45 mil pessoas tenham passado pelo Museu da República. As conferências e mesas de debates, para as quais é preciso fazer inscrição, registraram 
e cerca de 4 mil pessoas.
Jaqueline destaca que todos os debates tiveram a intersseccionalidade proposta. “Tivemos ali gente discutindo sobre as griôs da diáspora e pontuando diversos saberes. Lançamos um olhar sobre o que é mesmo um griô, essas mulheres incríveis que tem conhecimentos em várias áreas, com práticas em diferentes momentos, oficinas de capoeira, trabalho de benzedeiras, encontro de saberes dentro da academia, da cultura popular e do samba, por exemplo.”

O Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra começou no dia 23, em Brasília. Houve conferências, debates, feiras, saraus e shows, além de outras atividades, com a presença de personalidades e artistas de vários estados brasileiros, América Latina, Caribe, Estados Unidos e Moçambique, em prol da promoção da igualdade racial e enfrentamento ao racismo e sexismo.

Mais informações sobre o evento, que foi criado em 2008 e se consolidou como o maior festival de mulheres negras da América Latina, estão no site do evento.

As griotes da Diáspora Negra. Relato do Latinidades 2014.

As griotes da Diáspora Negra. Relato do Latinidades 2014.
Peço licença à todas as palestrantes e também para o coletivo Pretas Candangas e Griô Produções, responsáveis pela organização do Latinidades, cujos trabalho e atuação são irretocáveis e inspiradores, para falar em primeiro lugar de duas griotes da diáspora negra: Inès Morales e Iradilva Miranda Dantas. A primeira faz parte do MOMUNE (Movimento de Mujeres Negras de la Frontera Norte de Esmeraldas, Equador). A segunda, e não menos importante, é benzedeira/curandeira e membro da Malungu e Coordenadora Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará. São elas que podem, para efeitos desse relato, serem os primeiros testemunhos de tantos momentos políticos e espirituais que tivemos nessa edição do evento.

Falar de Inès Morales é colocar em pauta diversas questões. A primeira delas talvez seja como somos apartadas de nós mesmas e uma das outras, aqui e lá fora. Quantas de nós sabemos que existem outras mulheres negras no Chile, no Equador, na Colômbia e na Argentina, por exemplo, lutando as mesmas batalhas? Quantas de nós fomos e somos separadas por fronteiras arbitrárias que não reconhecemos? Quem estabeleceu ou estabelece tais divisões entre nós? É disso que também fala a luta do MOMUNE, que, além de enfrentar questões ditas clássica de gênero e raça, coloca em xeque sua fronteira com a Colômbia, uma linha imaginária que as separa de suas (e nossas) irmãs afrocolombianas.

Já Iradilva Miranda Dantas também nos fala sobre território, sobre como ele é importante para a manutenção de nossos saberes ancentrais, mais uma vez de como ainda precisamos lutar para que sejam reconhecidos e valorizados. Em sua casinha, como chama o lugar que lhe serve de consultório, atende aproximadamente 60 pessoas por dia, o que demonstra sua vocação e a qualidade do trabalho desenvolvido. Mas para além de números, estamos falando de como a mulher negra pratica medicina num país que não a contempla como paciente e como agente de saúde em potencial e de fato. Que a pratica da curar de nossas benzedeiras em todo Brasil seja reconhecido como patrimônio imaterial e estratégico que é.

Na mesa Letras e Vozes da Diáspora Negra tivemos a presença da professora e ativista pernambucana Inaldete Pinheiro dispensa apresentações. Pesquisadora, foi responsável por denunciar como nossas crianças são representadas na literatura em Racismo e anti-racismo na literatura infanto-juvenil, sendo responsável por aplicar a Lei 10.639 muito antes que ela existisse. Falou também como tantas de nossas estórias são transmitidas por meio da oralidade, falando das famosas estórias de trancoso, aquelas que ouvimos de nossas avós e mães, e tantas vezes dão conta de uma universo fantástico povoado por personagens ancestrais.

Shirley Campell Barr, escritora e ativista costa-riquenha, autora do poema Rotundamente Negra, falou sobre nosso protagonismo, sobre a importância de nossa escrita. testemunhou, num dos momentos mais emocionantes de sua exposição, queescreve porque tem vontade e direito. “Me nego categoricamente a deixar de falar minha língua, meu acento e minha história”. Compartilhou também sua experiência vivendo no Brasil, onde pessoas negras não ocupam os espaços de poder, mando e prestigio.

A literatura erótica também esteve presente com a voz e a pena da jovem e carismática escritora brasileira Nina Silva que falou sobre como nossa sexualidade, usada pela branquitude para objetificar corpos negros, é ferramenta de militância. Somos corpos negros, afeitos às curvas e ao prazer. Nós mulheres, precisamos conhecermos, nos tocar. Acima de tudo, sermos nós as senhoras desse prazer.

Na conferência de Conferência de Abertura, Diálogos Afro-Atlânticos, fomos agraciadas com as presenças de Ana Maria Gonçalves e Paulina Chiziane. A primeira questionou o estereótipo da mulher negra forte. Sim, sabemos que o somos, mas queremos muito mais. Até mesmo para podermos dizer não à tarefa que sempre nos é relegada, de sermos cuidadoras de nós de todos os outros. Que o façamos apenas se o quisermos. A segunda nos trouxe uma discussão interessante de como o cristianismo tem sua origem africana menosprezada, como o protagonismo africano de sua construção é transformada numa manifestação demoníaca. Para a palestrante, não precisamos de uma nova igreja, mas sim nos apropriar mais uma vez daquela que criamos.

No primeiro dia, foi apresentada a performance Quadros com as atrizes Vera Lopes ePâmela Amaro, em comemoração ao centenário da escritora Carolina Maria de Jesus. Esse foi um dos momentos mais emocionantes do festival, quando muitas de nós se emocionaram e choraram juntas. Outro momento de grande emoção se deu com a exibição do curta metragem O Dia de Jerusa, estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Após a apresentação a diretora, Viviane Ferreira (BA/SP), nos emocionou ainda mais, reafirmando seu compromisso de fazer cinema fiel às questões do universo da mulher negra. Mais do que nunca o pessoal se tornou político.

A oficina de contação de estórias, feita pelas cariocas Sinara Rúbia e Ludmilla Almeidados projetos Ton Ogbon e Grupo Cultural Vozes da África, fez da participação do público sua grande virtude. Tudo começou com a princesa Aláfia, para empoderar e fazer conhecer que somos muito mais que escravizados. Em seguida, audiência foi dividida em grupos e a cada uma coube recontar uma estória fazendo uso de panos, símbolos e instrumentos de percussão. De maneira muito simples e divertida, foi contada por exemplo a estória de Exu, de quem foi prontamente retirado o estigma, dando lugar a uma estória de dualidade, sabedoria, esperteza e humanidade.

Foi durante a mesa Sabedoria ancestral: memória, política e sustentabilidade que a pernambucana Martha Rosa Queirós, Chefe de Gabinete da Fundação Cultural Palmares, nos questionou o protagonismo dos maracatus africanos face ao movimento Mangue Beat, criado no ambiente universitário. Também nos lembrou do Maracatu Nação Leão Coroado Nação Nagô, na pessoa do seu mestre, o senhor Luis de França que permitiu que a mesma tocasse percurssão no grupo, o que abriu o caminho para diversas mulheres.

Já Célia Maria Corsino, Diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial do IPHAN, destacou que o patrimônio imaterial tem o mesmo status legal dos tombamentos. Mas tem uma peculiaridade importante, pois reconhece acima de tudo comunidades. Trouxe também um projeto que tem sido discutido na instituição, que versa sobre os mestres populares do saber. Está previsto que eles obtenham a mesma titulação que aqueles reconhecidos pela academia, recebendo inclusive bolsa equivalente à titulação para desenvolver seus projetos e formar aprendizes.

Heloisa Pires Lima, educadora, escritora e editora sediada em São Paulo, trouxe um vívido exemplo de como a oralidade, a proximidade das estórias xona sobre a figura de Njuzu, senhora das águas, com uma lenda contada da Amazônia. Junto com conosco, povos escravizados pelo europeu, viajaram significados e saberes que podem nos ajudar a reconstruir nossos elos perdidos com a África. Em sua fala, o convite: “quer mergulhar nessas águas” de conhecimento e ancestralidade?

Débora Marçal, atriz da companhia paulista Capulanas, participou da mesa Territórios Negros: fontes de sabedoria ancestral e falou sobre a trajetória do grupo e a apropriação do quintal como território negro. Contou também sobre a decisão de escrever sobre o grupo antes que alguém o fizesse, na conquista em ter o espaço para que o grupo desenvolvesse suas atividades. Ao final de sua fala, nos emocionou com seu canto na companhia das demais atrizes da companhia.

A engenheira florestal e ativista do MNU Minas Gerais, Angela Gomes, apresentou sua tese de doutorado, Territórios da Etnobotânica: Terreiros, Quilombos, Quintais. Nesse estudo reconheceu mais de 500 espécies trazidas do continente, com destaque para 80 plantas.Nos fez questionar que, acima de tudo, o tráfico de negros para a América tinha como um dos seus pilares a transferência de saberes e tecnologias ambientais, ainda hoje desprezados pela academia mas preservados pelos terreiros e pela cultura popular.

Esse é um post que não termina aqui mas é o momento apropriado para reverenciar as irmãs Pretas Candangas e a Griô Produções. Mulheres negras de luta que concretizaram aquilo que antes era apenas uma sonho para muitas. Uma possibilidade que agora é uma realidade palpável de mudança e empoderamento. Durante esses dias tivemos amor, compartilhamos lutas e projetos. Mais uma vez possibilidades que, como disse uma companheira, falam de uma ancestralidade nova e ao mesmo tempo antiga. Obrigada a todas as mulheres da organização, palestrantes e da audiência. Essa é uma experiência de vida que será por nós sempre lembrada com todo carinho e afeto.

Charô Nunes
Olá, meu nome é Charô, escrevo sobre cultura e sociedade no blog Indigestivos Oneirophanta.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pesquisadora relaciona cantoras de samba a lutas do movimento de mulheres negras

publicado: Agência Brasil

A luta atual das mulheres negras contra o racismo e o sexismo deve levar em conta o que foi conquistado ao longo do tempo por outras mulheres negras ativistas, defendeu hoje (25) a coordenadora da organização não governamental (ONG) Criola, médica e doutora em Comunicação e Cultura, Jurema Werneck.

Chamadas de ialodês, essas mulheres, segundo Jurema, sempre existiram e transcendem o chamado feminismo negro – protagonizado por mulheres negras. "Hoje está difícil, mas não se compara", disse, ressaltando que chegou ao doutorado, mas a avó dela era analfabeta e a mãe estudou apenas até o ensino fundamental.

Segundo Jurema, a luta de mulheres negras sempre existiu e as demandas foram se transformando. Nos anos 1930, 1940 e 1950, as lutas eram por educação, creches, demandas do Estado. A geração posterior, a dela, deu continuidade a essas reivindicações e conquistou leis que garantiram a igualdade de direitos. Agora, na avaliação da coordenadora, é preciso continuar lutando para que essas normas conquistadas sejam cumpridas. "O racismo não desaparece por decreto, desaparece na luta cotidiana", argumentou.

Mulheres participam das celebrações do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, durante o Festival Latinidades Edição 2014 – Griôs da Diáspora Negra Antônio Cruz/Agência Brasil
No doutorado, a pesquisadora buscou no samba referências de luta de mulheres negras. Alcione, Elza Soares, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra e Mart'nalia foram algumas das citadas por ela em conferência no Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra. "Se se pensar em nome de mulher negra que não é anônima, vai-se pensar em nomes que estão na cultura popular", disse. "Se o racismo é essa coisa horrível, imagina a conquista dessas mulheres para aparecerem na cena pública", comparou.

Uma a uma, Jurema destacou na obra e na vida das sambistas aspectos que enalteciam a mulher negra e mostravam o contexto em que estavam inseridas. Elza Soares, por exemplo, surgiu como cantora em um show de calouros do programa de Ary Barroso na Rádio Tupi. Ela cantou para conseguir dinheiro para alimentar o filho e deixou claro “o planeta do qual vinha: o planeta fome”

"Se forem ler uma entrevista com a Elza Soares, todo mundo quer que ela conte essa história e sempre dizem em seguida, 'apesar disso, ela tem força, foi longe'. Como se o problema estivesse resolvido e só ela tivesse nascido neste contexto. Tentam isolar ela da comunidade, mas todo mundo sabe que têm pessoas que tem esta carga de desafios", diz Jurema.

De Alcione, ela destaca as letras, que falam para mulheres. Jovelina Pérola Negra colocou o próprio rosto em close, sem maquiagem e com um pano na cabeça na capa do primeiro disco, com o próprio nome. "Com quem se parece? Com minha tia, minha mãe, minha vizinha", explicou a pesquisadora. Segundo ela, a intenção de Jovelina foi mostrar que cada uma dessas mulheres é como ela, uma pérola negra.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

BENEDITA HOMENAGEIA MANDELA E CRITICA RACISMO

FOTO: George Hallet/Divulgação: "A atualidade de Mandela para nós se deve principalmente quanto à necessidade de continuarmos a lutar contra o racismo e a violência contra as populações negras. As leis que já existem não são devidamente aplicadas e por isso as denúncias e a fiscalização pública são fundamentais"

Por *Benedita da Silva, para o Favela 247

Mandela - Mandiba
18 de Julho, data do nascimento de Mandela, foi instituído pela ONU como o Dia Internacional de Nelson Mandela, para homenagear a luta pela igualdade, liberdade e democracia. Quando um nome simboliza tantos valores fundamentais para a humanidade, é porque foi construído com o exemplo de sua vida e de sua luta. Como muitos que defendem a democracia e a igualdade racial, lutei pela libertação de Mandela da prisão perpétua que lhe impôs o cruel regime racista do Apartheid. A sua vida orgulha e inspira todos nós. Mandela é mostrado sob vários ângulos, pois assim foi a sua luta, mas prefiro vê-lo como o lutador incansável, como ele mesmo se definiu: “A luta é a minha vida. Continuarei a lutar pela liberdade até o fim de meus dias."

Quando foi solto em 1990, depois de uma campanha internacional de solidariedade, Mandela teve que enfrentar a violência genocida dos racistas sul-africanos com medo de sua grande liderança. Milhares de homens, mulheres e crianças negras eram massacrados por grupos armados. Ele não se deixou intimidar e, pressionando com a mobilização popular, buscou o caminho do diálogo político para por fim à absurda segregação racial. Conquistou a revogação das leis racistas do apartheid e as eleições livres e diretas em 1994, quando foi eleito presidente da África do Sul. Nessa condição de líder negro, tomou a iniciativa de dialogar com a minoria branca em busca da tolerância mútua e do consenso democrático. Mandela conseguiu superar a divisão racial e construir uma grande nação democrática. O filme Invictus revela muito da habilidade e firmeza com que Mandela mediava os conflitos. Sua vida é, sem dúvida, uma fonte inesgotável de ensinamento sobre luta, tolerância e consenso.

O mais importante na celebração da data simbólica do 18 de Julho é entender o que ela tem a ver com o nosso país. O Brasil tem a maior população negra fora da África. Aqui o negro foi trazido como escravo mas nunca deixou de lutar por sua libertação, cujo maior exemplo é o de Zumbi dos Palmares. O fim da escravidão, porém, se lhe deu a liberdade formal lhe impôs a condição de socialmente excluído. Ele recebe os piores salários e tem as mais precárias condições de vida. Sobre as populações negras se abate uma violência institucional permanente. Em nosso país o Apartheid racial assumiu a forma da chamada Cidade Partida, que nas grandes cidades exclui socialmente as populações pobres e negras. Os avanços obtidos nos tempos mais recentes são reais mas apenas deixam claro o longo caminho que ainda temos que percorrer no campo da igualdade racial e dos direitos sociais. Apenas um exemplo para ilustrar a violência contra o negro. O Mapa da Violência de 2012, elaborado pelo Ministério da Saúde, mostra que “se no ano 2002 a vitimização negra foi de 65,4%, no ano de 2006 cresceu para 90,8% e, no ano de 2010 foi ainda maior: 132,3%. Isto é, por cada branco vítima de homicídio proporcionalmente morreram 2,3 negros pelo mesmo motivo.”

A atualidade de Mandela para nós se deve principalmente quanto à necessidade de continuarmos a lutar contra o racismo e a violência contra as populações negras. As leis que já existem não são devidamente aplicadas e por isso as denúncias e a fiscalização pública são fundamentais. O legado de Mandela, contudo, é também o da tolerância e da democracia, o da disputa acirrada mas sem ódio e violência.

*Benedita da Silva é deputada federal (PT-RJ)

Hoje é dia da Rainha Teresa de Benguela - Dia da Mulher Negra

A Rainha Teresa de Benguela foi a mulher que chefiava o Quilombo do Piolho (ou Quariterê), em 
Guaporé, O Quilombo do Quariterê em Cuiabá ficava próximo à fronteira de Mato Grosso com a Bolívia. Sob a liderança da Rainha Teresa (viúva), a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas, sobrevivendo até 1770, quando o quilombo foi destruído pelas forças de Luiz Pinto de Souza Coutinho e a população (79 negros e 30 índios), morta ou aprisionada.

A Rainha Teresa comandou a estrutura política, econômica e administrativa do Quilombo, mantendo um sistema de defesa com armas trocadas com os brancos ou resgatadas das vilas próximas. Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade negra que lá se refugiava eram transformados em instrumento de trabalho, visto que dominavam o uso da forja.

O Quilombo do Quariterê, além do parlamento e de um conselheiro para a rainha, desenvolvia agricultura de algodão e possuía teares onde se fabricavam tecidos que eram comercializados fora dos quilombos, como também os alimentos excedentes. Mato Grosso.

O dia de 25 de julho é instituído no Brasil, pela Lei número 12.987, como o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra

Manifesto da Marcha das Mulheres Negras 2015 contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver

Nós, mulheres negras brasileiras, descendentes das aguerridas quilombolas e que lutam pela vida, vimos neste 25 de Julho – Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha denunciar a ação sistemática do racismo e do sexismo com que somos atingidas diariamente mediante a conivência do poder público e da sociedade, com a manutenção de uma rede de privilégios e de vantagens que nos expropriam oportunidades de condição e plena participação da vida social.

Nesta data vimos visibilizar a incidência do racismo e do sexismo em nossas vidas, assim como as nossas estratégias de sobrevivência, nosso legado ancestral e nossos projetos de futuro e afirmar que a continuidade de nossa comunidade, da nossa cultura e dos nossos saberes se deve única e exclusivamente, a nós, mulheres negras. Transcorrido esse marco histórico e a atualidade de nossas lutas, nos valemos do Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha para anunciar a realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que realizaremos em 13 de maio do próximo ano, em Brasília.

Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.

Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.

A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.

Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.

Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.

Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.

Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.

Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.

Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .

Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.

Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.

Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.


Estamos em Marcha:
 pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
 pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
 pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
 pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
 pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
 pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
 pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
 pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
 pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 13 de maio de 2015 – Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – em Brasília/DF.

Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

ESTAMOS EM MARCHA !

“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!”

Brasil, 25 de Julho de 2014.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

RUTH DE SOUZA FALA SOBRE SUA CARREIRA


publicado: revista Raça Brasil

Entre existir e ser notado há uma única diferença: a coragem. Coragem é aquilo que faz com que uma pessoa subverta a ordem, desobedeça as regras, rasgue os dogmas e aja. Assim fez Ruth de Souza, que ressignificou a presença da mulher negra no mundo das artes cênicas. Ela ousou ver mais do que estava à mostra e desbravou horizontes até então desconhecidos para a maioria das atrizes negras brasileiras. Historicamente, a mulher negra de sucesso faz da audácia e do novo sua bandeira. Nestaentrevista, nada mais justo que recordar algumas revoluções que uma profissional negra precisou enfrentar para obter êxitos que ainda hoje ecoam na arte - mais precisamente na televisão e no teatro. Foram mudanças que, de uma forma ou de outra, influenciaram a vida e a obra das gerações seguintes. Ela poderia ter sido mais uma que não se libertou dos serviços domésticos, no entanto encontrou neles a matéria-prima de seu talento. Foi a primeira negra a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, está na TV globo desde que a emissora foi inaugurada, e ainda hoje se destaca pelo longo currículo, feito que pouquíssimos profissionais tem a honra de alcançar. Ruth recebeu a equipe da Raça Brasil no apartamento onde vive, na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo um pouco debilitada fisicamente, mostrou que a cabeça continua atuante como sempre. Com bom humor e irreverência ela falou sobre sua trajetória profissional, racismo e os estereótipos que os negros enfrentam na carreira de ator.

Veja trechos da entrevista com Ruth de Souza

Sua trajetória profissional já é bastante conhecida. E pessoalmente, quem é Ruth de Souza? 

Alguém simples que adora as pessoas, gosta de fazer amigos e de manter os amigos. Sou eu, Ruth.

A senhora é uma atriz que trafega aparentemente à margem das querelas estéticas que sempre marcaram a teledramaturgia. Fale um pouco sobre sua infância e suas heranças culturais.

O meu trabalho é uma espécie de terapia. Adoro trabalhar, bom seria se todos fossem assim. Meu pai era analfabeto, era lavrador no interior de Minas Gerais. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro, mas fui para Minas ainda pequenininha. Quando meu pai morreu, voltamos para o Rio e minha mãe foi trabalhar como lavadeira para sustentar a casa.

Qual foi a primeira personagem que a senhora interpretou?

Eu fiz uma velhinha. Na época eu tinha 18 anos e interpretei uma velhinha caquética igual eu estou agora (risos). Era a história do imperador do Haiti. Atravessei o palco do Theatro Municipal com uma trouxinha nas costas. 

"Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um" 
| FOTO: Kadão Costa/Estúdio Líquido

É verdade que você foi a primeira atriz negra a pisar no palco do Municipal?
verdade, eu fui a primeira atriz negra.

E como a senhora se sente quanto a esse pioneirismo?

Foi uma responsabilidade muito grande, e ao mesmo tempo me encheu de orgulho. Era uma fase muito difícil para o ator, muito difícil para o negro. Não havia negro na TV, só havia o Grande otelo fazendo comédia. 

Qual foi a personagem que mais marcou sua vida e que fez seu coração bater mais forte?

Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um. Gostei muito de fazer na TV a “Cabana do Pai Tomás”, “ossos do Barão”, onde eu fazia a neta de um barão e “Sinhá Moça”, que foi um grande sucesso. Já no cinema foi muito bom fazer “Filhas do Vento”. 

A senhora já viveu alguma situação de racismo em sua vida ou em sua carreira?

Senti que em alguns papéis eu tive que cobrar, aquela coisa que o papel tem que ser assim e que negro fala assado. Me lembro de uma vez que o diretor da Companhia Cinematográfica Vera Cruz me disse que eu era muito magra para interpretar uma escrava de fazenda, na época eu pesava 45 quilos. Ele tinha a concepção que a negra tinha que ser gorda risonha e ser boa de fogão. Logo após esse trabalho, fui interpretar outra personagem com o mesmo nome da anterior, aí perguntei ao diretor: “Por que toda vez eu tenho que fazer um personagem de nome Bastiana? Porque toda negra se chama Bastiana, ele respondeu. Eu disse: Não. Eu me chamo Ruth”. Eles estavam habituados ao negro na fazenda e à negra dentro da cozinha. Mas sofrer discriminação eu não sofri, sempre tive uma postura que me ajudou muito. Às vezes nossa gente tem certas posturas que não ajudam muito.

Como a senhora avalia o trabalho dos nossos autores de novelas, hoje, especialmente os que rejeitam os personagens negros? O negro brasileiro recebe os papéis que merece nas telinhas?

Não, de jeito nenhum. Agora, por acaso, o Lázaro está conseguindo, a Camila e a Taís também. Está aí o meu orgulho de ter começado a abrir caminho para essa família toda, tanto que eu recebi uma homenagem da Academia de Cinema. Na ocasião, chamaram todos os atores jovens para me homenagear, me deu um acesso de choro... Foi tão lindo saber que eu abri o caminho para todos aqueles que estavam ali presentes.

Porque reverenciamos o 25 de Julho, dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha?

por:*Luciane Reis
Porque reverenciamos o 25 de Julho, dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha?

As mulheres negras nunca reconheceram o mito da fragilidade que sempre justificou os espaços subalternos que lhes foram dados. Aprenderam muito cedo o quanto duro é o trabalho nos espaços disponibilizados e acima de tudo que suas vidas valiam o que lutassem para ter. O processo que desumaniza a população negra, fez com que o machismo sobre essas mulheres, tivesse um impacto maior do que nas demais, principalmente na mercantilização de suas vidas e corpos, além de sua afetividade.

Sabemos quais são as consequências da negação do papel da mulher negra na formação da cultura dos povos, especialmente na política partidária e na área social. Mesmo entre os movimentos feministas mais avançados e plurais, há ainda hoje uma dificuldade em reconhecer as mulheres negras que estiveram presentes nas lutas e movimentos sociais e principalmente na capacidade destas de ocupação de espaços “privilegiados”. As heroínas e intelectuais negras, são totalmente invisibilizada nos processos históricos.

Após séculos de exploração, ainda há de forma intensa a erotização e apropriação do corpo da mulher negra, onde na divisão entre santas e profanas, acabam por ocupar o espaço de diversão casual. Nada diferente do passado por mulheres negras na diáspora como um todo e principalmente na América Latina, onde essa identidade é legitimada a partir de raízes euro-ocidental, raiz que rejeita a presença negra na história e vida cotidiana, que exclui e discrimina estas. Por conta do entendimento desta realidade comum na diáspora negra, um grupo de mulheres negras viu a necessidade de iniciar um debate em nível internacional sobre a situação da população afro descendente, o racismo, discriminação e principalmente questionar a identidade europeia imposta a esse povo.

Diante da constatação de que é difícil ser negra latino-americana numa sociedade construída a partir do racismo e do patriarcado, essas delinearam os países latino-americanos via exclusão territorial, social, econômica e política. Esses dados confirmaram a realidade da diáspora negra na perspectiva racial e principalmente das mulheres negras, onde essa identidade implica em sofrer uma dupla opressão historicamente construída e a hegemonia de um gênero sobre o outro. Ao compreender esses fatos, surge a necessidade de construir uma identidade global com uma articulação que pudesse permitir ter uma maior visibilidade desta situação em toda região.

Essas mulheres internacionalizaram o debate que faz surgir o movimento das mulheres afro-latinas e caribenhas, contribuindo desta maneira para a criação da maior antena preta feminista. Essa união permitiu a aproximação de profissionais de comunicação, cultura, acadêmicos e áreas afins que hegemonizaram a luta negra na diáspora de forma continental. A partir desta articulação, em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, realizou-se o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, do qual decorreram duas decisões: a criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas e a definição do 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha. Data que nos dias de hoje, temos orgulho em comemorar.

O 25 de Julho internacionaliza o feminismo negro via aglutinação da resistência das mulheres negras à cidadania nas regiões em que vivem, principalmente as opressões de gênero e étnico-raciais. Desta forma, essa data amplia e fortalece as organizações e identidade das mulheres negras, que vem construindo estratégias para o enfrentamento do racismo e do sexismo. Essa não é uma data qualquer para nós mulheres negras, ele significa o rompimento com um feminismo que nunca nos contemplou. Resgata a luta das mulheres negras da diáspora, iniciada ainda na década 70, através das feministas negras em pontos diferentes da diáspora.

Comemorar o 25 de julho é celebrar e reverenciar a elaboração de novas perspectivas feministas, em especial da introdução da diferença na teoria feminista tradicional. Afinal não podemos esquecer que o feminismo que ressurgiu na década de 1970, afirmava uma identidade feminina homogênea, logo não se conseguia identificar e visibilizar demandas específicas de mulheres que sofriam com a intersecção de diversas condições como, gênero, raça, classe, etnia, orientação sexual e religiosidade.

Fortalecer o 25 de julho é dá visibilidade e energia a emancipação das mulheres negras de um feminismo que colocava a opressão de gênero como fator opressor prioritário para as mulheres, sem levar em conta as demandas das mulheres negras. É fortalecer a emancipação de um feminismo que não conseguia abarcar as diferenças entre estas ou seja, o olhar para as múltiplas experiências e identidades femininas.

Empoderar essa data é contribuir na luta histórica de mulheres que foram e são protagonistas no pautar e exigir de seus países o atendimento de demandas que nos dias de hoje melhora a qualidade de vida da população negra é lutar pela garantia e ampliação do acesso a direitos já conquistados, principalmente na construção enquanto continente de afros descendentes como uma nação transnacional. É nessa construção coletiva que precisamos acreditar quando reverenciamos o 25 de julho, dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha.

Luciane Reis é Historiadora.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Rede de Mulheres Negras no dia da Mulher Negra convida

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O padrão de beleza negra ideal


por: Amanda Beatriz*
publicado:blogueirasnegras.org


Tudo começou por causa de uma foto. Enviei o arquivo com a imagem de meus priminhos para várias páginas destinadas a divulgação da “beleza negra” em uma famosa rede social. Entretanto, para minha surpresa, nenhuma delas demonstrou interesse pelas crianças ou, sequer, retornou a mensagem.

Este fato chamou minha atenção e a suposta “rejeição fotográfica” surtiu efeito contrário. Em vez de me deixar ressentida, me fez refletir acerca do porquê desta atitude.

No primeiro momento, relatei as impressões do ocorrido aos administradores das respectivas fanpages e critiquei o modelo de beleza comumente reconhecido e divulgado. Mais uma vez, outra surpresa: tive pouquíssimo retorno. Para ser objetiva, somente três moderadores responderam o inbox. Em seguida, me peguei bastante pensativa, analisando todo aquele discurso ideológico veiculado por trás das fotos de negras consideradas “belíssimas”. E, é claro, lembrei-me também do perfil de mulher comumente celebrado nos posts que estampam nosso feed de notícias.

Daí, pude perceber que – lamentavelmente – as imagens contempladas traduzem a investida sistemática da sociedade racista com o propósito de reforçar o “embranquecimento” do negro. E ainda endosso: este movimento é decorrente do processo de negação da identidade étnico-racial a que a população preta foi submetida ao longo da História brasileira. É notório, na maioria das fotos em circulação na internet, que o interesse se dá apenas na promoção estética da “negra ideal”.

Por negra ideal se entende aquela que foi socialmente aceita porque é dotada de características fenotípicas em conformidade aos padrões eurocêntricos. É a preta alta, de lábio fino, nariz estreito, cabelo liso, rosto delgado e tom de pele claro (na maioria das vezes); uma negra considerada exótica em relação aos padrões vigentes. Essa sim, é a que tem espaço garantido nas páginas de beleza étnica da internet. E ponto final! É a #pretinhaestilosa, a #negralinda, a #pretinhapoderosa…

Afinal de contas, a beleza dos cânones bem “representaria” as demais. Linda mesmo “seriam” Beyoncé, Rihanna, Taís Araújo, Isabel Fillardis, Camila Pitanga, Valéria Valenssa, Cris Viana, Sheron Meneses, Juliana Alves, Quitéria Chagas, Ilde Silva, entre outras divas. E todas estas mulheres – de fato – são belíssimas.
Desejo ressaltar que, em momento algum, o propósito do texto é de ofendê-las ou a intenção das palavras é a de desqualificar a notável beleza que essas negras detêm. O objetivo da argumentação é somente o de lançar as bases para construção da seguinte linha reflexiva: por que somente o perfil deste tipo de preta é o socialmente aceitável e também o único a ser legitimamente considerado bonito?

Onde estão as outras mulheres, por vezes gordas; de estatura baixa ou mediana; rosto redondo; cabelo crespo e/ou encaracolado; olhos castanho-escuros; lábios grossos e de “nariz negro” (leia-se, no contexto explanado, “nariz feio”)? É esta a negra que cumpre dupla jornada de trabalho; que enfrenta, por dia, mais de quatro horas em seu deslocamento moradia-emprego e que possui, em média, baixo grau de escolaridade e limitado poder aquisitivo. Consequentemente, esta preta não preenche os requisitos necessários para merecer despontar em uma página de beleza na internet.

É óbvio que esta mulher não atende ao “padrão FIFA de qualidade” tanto no plano físico quanto no social! Assim, ela acaba por angariar a reprovação tácita do coletivo, visto que se torna indigna de ser admirada. Nessa altura do campeonato, paira no ar a seguinte pergunta: por que seria tão pioneiro e arrojado divulgar sua imagem nas redes sociais?

Desafio o leitor a se indagar a respeito!

Se a identidade étnico-racial da beleza negra é composta por negras X e negras Y, por que vemos propagado apenas um desdobramento possível do todo? Se X e Y são biunívocas, se o todo é belo, se X é bela e admirada, por que Y ainda é ignorada e esquecida? Por que Y ainda é considerada feia e não habilitada para ser vista e compartilhada amplamente no Facebook?

Nossos gostos e desejos são construídos simbolicamente com base em padrões sociais desenhados sob a égide da cultura. É um processo lento, inconsciente e complexo. Eles se revelam, por exemplo, no desejo sistemático pela loira (na maioria dos casos)… Verificam-se ainda na reprodução standard eurocêntrica insculpida na figura do negro exótico e assim por diante.

Quantas vezes, sem perceber, corrobora-se esse comportamento que reforça a negação de nossa identidade, escamoteando a fenotipia negra para se enxergar inserida nessa sociedade racista? Quantas vezes a negra “Y” se perde no processo de empoderamento da completude estética identitária da mulher negra?

Portanto, cara leitora, ao longo de nosso processo de autoaceitação e de exercício reflexivo-político acerca do que é se enxergar negra – sem deixar de render créditos às “negras ideais” (lembrando a você que por ideal se define o contexto já apresentado) – vamos aprender a nos deleitar com a beleza da mulher preta do nosso dia-a-dia.
Tão bela quanto à negra X é a preta de tranças, a mulher Black Power, àquela de nariz negro, a preta gorda e a mulher do cabelo crespo, curto e encaracolado! É maravilhosa a nossa pretinha de lábio grosso e de pele escura! Lindas somos todas nós, as negras reais.

Que a beleza da negra Y, a da negra real, a de Lupitas Niong’o e de Nayaras Justino possa, efetivamente, ser tão valorizada quanto à das negras X. Um brinde à tão desmerecida, porém não menos bela, negra real!Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.

Amanda Beatriz*

É estudante de Direito; negra em construção; mulher em intenso processo de individuação; humanista por excelência e partidária inveterada de um mundo em que todas as pessoas, sem distinção, sejam respeitadas em sua plenitude de autonomia e escolha.