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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Grande prêmio do cinema brasileiro consagra Faroeste Cabocl

Longa-metragem de René Sampaio levou sete estatuetas na maior premiação do cinema nacional

Publicado:Correio Brasiliense

Faroeste Caboclo venceu nas categorias: melhor filme, roteiro adaptado, trilha sonora original, som, fotografia, ator e montagem ficção
Em cerimônia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro na noite desta terça (26/8), foram anunciados os vencedores da 13ª edição do Grande Prêmio brasileiro. E o grande vencedor tem sotaque brasiliense: Faroeste caboclo, de René Sampaio, levou para casa sete prêmios Grande Otelo, incluindo os de filme, ator (Fabrício Boliviera) e roteiro adaptado.
O diretor René Sampaio se disse “surpreso, mas nem tanto” e lembrou que o filme é “muito pessoal” e começou quando ele tinha 14 anos de idade e ouvia a música de Renato Russo nas rádios de Brasília.
Emocionado e muito aplaudido pelo público, Fabrício Boliveira recebeu o prêmio de melhor ator das mãos dos experientes cineastas Luiz Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues.

Ao agradecer pelo o prêmio de trilha sonora, Philippe Seabra, da banda Plebe Rude, lembrou a amizade com Renato Russo, compositor da música que originou o premiado roteiro do longa. “Fiquei preocupado ao ser convidado para o filme por ser amigo do Renato Russo e porque podia ser mais um caso de um aproveitador da obra de Renato, mas não era”, disse Seabra.

Mais Brasília

Renato Russo também foi lembrado na premiação quando a atriz Bianca Comporato recebeu o prêmio de atriz coadjuvante por Somos tão jovens. Ela interpreta Carmem Tereza Manfredini, irmã de Renato, a quem dedicou o prêmio.
Novidade

Uma das novidades do ano foi a inclusão da categoria melhor longa de comédia, vencido por Cine Holliúdi. O diretor Halder Gomes lembrou mestres do humor em seu agradecimento, começando por Grande Otelo passando por Renato Aragão, Chico Anysio e outros.

Confira os vencedores
Filme: Faroeste caboclo
Direção: Bruno Barreto (Flores raras)
Atriz: Glória Pires (Flores raras)
Ator: Fabrício Boliveira (Faroeste caboclo)
Ator Coadjuvante: Wagner Moura (Serra pelada)
Atriz Coadjuvante: Bianca Comporato (Somos tão jovens)
Fotografia: Gustavo Hadba (Faroeste caboclo)
Longa-metragem de ficção pelo voto popular: Cine Holliúdi, de Halder Gomes
Longa-metragem documentário pelo voto popular: Elena, de Petra Costa
Longa-metragem estrangeiro pelo voto popular: Django Livre, de Quentin Tarantino
Longa-metragem documentário: Luz do Tom, de Nelson Pereira dos Santos
Longa-metragem infantil: Meu pé de laranja lima, de Marcos Bernstein
Longa-metragem de animação: Uma história de amor e fúria, de Luiz Bolognesi
Longa estrangeiro: Django Livre, de Quentin Tarantino
Longa de comédia: Cine Holliúdi, de Halder Gomes
Som: Leandro Lima, Mirian Biderman, Ricardo Chuí e Paulo Gama (Faroeste caboclo)
Trilha sonora original: Philippe Seabra (Faroeste Caboclo)
Trilha sonora: Paulo Jobim (Luz do Tom)
Curta-metragem: Flerte, de Hsu Chien
Curta-metragem documentário: A guerra dos gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça
Curta-metragem animação: O menino que sabia voar, de Douglas Alves Ferreira
Direção de Arte: José Joaquim Salles (Flores Raras)
Maquiagem: Siva Rama Terra(Serra Pelada)
Figurino: Marcelo Pires (Flores Raras)
Efeito Visual: Bruno Monteiro (Uma história de amor e fúria) e Robson Sartori (Serra pelada)
Montagem ficção: Márcio Hashimoto (Faroeste caboclo)
Montagem documentário: Marília Moraes e Tina Baz (Elena)
Roteiro Original: Kleber Mendonça Filho (O som ao redor)
Roteiro Adaptado: Marcos Bernstein e Victor Atherino (Faroeste caboclo)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O poeta da Cidade

publicado:Revista Cult
Entrevista Revista Cult

Num intervalo de suas férias em Paraty, Paulo Lins conversou com a CULT sobre seus trabalhos e a relação íntima com o samba e a favelaPatrícia HomsiHá muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou. Só se foi quando o dia clareou”, dizia Paulinho da Viola em “Eu canto samba”. “O samba é uma tradição passada de pai para filho, o samba está na alma. Dentro do coração das crianças, na velha guarda, nas comunidades, nas ruas, nas esquinas, nos botecos, onde sempre esteve e de onde nunca saiu”, explica o escritor Paulo Lins, enquanto procurava melhorar o sinal de seu celular andando pelas ruas de Parati.
Nascido no bairro do Estácio, berço do samba e ambiente de seu segundo livro, Desde que o samba é samba, Paulo Lins é um dos quatro filhos de Amélia Maria Lins e Antônio de Souza Lins. Foi criado em meio ao samba do bairro e a histórias ouvidas em roda na casa dos pais. Ele aponta esse passado cultural como uma grande influência em seu trabalho. “Não tinha televisão, que era uma coisa muito rara. A hora em que a gente se reunia era a hora de contar histórias. Quando acabava, eu torcia para chegar o outro dia, para ouvir mais histórias”.
Os contos sobre folclore, marinheiros, assombrações, tradições africanas e o passado dos pais na Bahia trilharam o caminho de Paulo. Desde menino, o gosto pela redação e o bom desempenho em português chamaram atenção. Já na época em que morava na Cidade de Deus, corrigia algumas letras de samba das escolas. “Eu comecei a datilografar as letras dos sambistas. Depois, a corrigir o português. Mudava um versinho ali, um aqui, até fazer samba enredo”, relembra. Mais tarde, o escritor chegou a ganhar um bloco na comunidade.
Autor de Cidade de Deus e Desde que o samba é samba, Paulo foi influenciado por diversos ambientes contrastantes como o das escolas de samba – onde conheceu o burburinho e as personalidades da favela –, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – na qual estudou Letras – e das ruas da Cidade de Deus, para onde se mudou com 6 anos. Mais do que simples influência, o escritor utiliza histórias de suas raízes e de sua tradição como um meio de incitar discussão entre os leitores, de chamar atenção ao ambiente político e social das favelas do Rio de Janeiro e do Brasil. Essa preocupação política move as palestras e discursos de Paulo, estando fortemente associada a sua participação na recente Feira de Frankfurt. “O Brasil está precisando falar sobre política, sobre os problemas do país. O Rio de Janeiro está uma bagunça. A situação dos desmandos, as escolas públicas, saúde, corrupção, poder oligárquico, de forças antigas que querem tratar o Brasil como província… Isso deve ser discutido. Não podemos nos esquecer de falar sobre o lado social. Não se pode querer só ganhar dinheiro”.
Envolvido atualmente com projetos cinematográficos e televisivos, Paulo Lins acredita que essas novas áreas de atuação surgiram a partir da temática com que trabalha. Os novos projetos, segundo o autor, fazem parte de uma demanda do povo brasileiro pela demonstração dessa crua realidade da favela brasileira. “O cinema, por exemplo, me procurou. Eu nunca tinha pensado em fazer roteiro”, explica. Os roteiros, porém, já lhe renderam prêmios, como o de Quase dois irmãos, dirigido por Lúcia Murat. A história de uma negociação entre amigos de infância – um senador, e o outro, traficante – teve roteiro premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Na época do lançamento de Cidade de Deus, temas como o da desigualdade social, violência, racismo e condição do pobre no Brasil, sempre presentes na produção do escritor, tiveram sua discussão alavancada. “Isso depois veio para a arte, para a música, para todo o lugar. Tomou conta. E Cidade de Deus fez parte desse processo”.
Cidade de Deus
Interessado em poesia e literatura desde cedo, Paulo Lins começou a escrever ainda no curso de Letras. Antes mesmo de se formar, já lançara um livro independente de poesia, área de maior interesse do autor. “Meu negócio era poesia. Eu militava na poesia. O romance era mais para estudo, é claro, e deleite”.
A oportunidade de escrever em prosa sobre a favela veio durante uma pesquisa antropológica coordenada por Alba Zaluar. Paulo se misturava aos sambistas, aos bandidos, a todos os moradores da Cidade de Deus, sendo responsável pela pesquisa etnográfica da violência na favela. Cidade de Deus começou como uma “narrativa literária” sobre a violência, escrita como parte da pesquisa de Alba. “Não era um romance, porque eu nunca tinha escrito romance… Era muito novo! Eu nem estava pensando em escrever livro, não tinha pretensão de ser escritor”, esclarece.
O primeiro passo foi dado pela própria Alba Zaluar, que enviou os esboços a Roberto Schwarz, crítico e professor aposentado de Teoria Literária. Schwarz incentivou a continuação do projeto; entretanto, ainda havia praticamente todo o romance a ser escrito. “Acho que comecei a escrever em 86, mas levei mais uns dez anos nessa ‘aventura literária’, como disse o Roberto”, lembra Paulo. No início, Cidade de Deus seria um livro de prosa, sim, porém voltado aos estudantes de antropologia e sociologia. Paulo “pensava nos estudantes. A princípio, era um projeto bem universitário, para a Academia, para lançar dois mil, três mil exemplares”. O sucesso foi além das expectativas acadêmicas do autor.
Logo após o lançamento, Cidade de Deus preenchera uma demanda da própria universidade, anteriormente interessada no estudo da criminalidade. O livro foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. No início, as universidades estrangeiras se interessaram pelo tema. Como explica Paulo, “tendo livros traduzidos nessas línguas, o acesso é garantido em boa parte da Europa e da África, onde muitos falam inglês e francês, e também na América Latina, que fala espanhol”.
Mas é com a chegada do filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles, que Cidade de Deus atinge países que, segundo o autor, não têm tradição de ler literatura brasileira. O filme foi indicado ao Oscar nas categorias de Direção, Edição, Roteiro Adaptado e Fotografia, além de ter sido eleito um dos 100 melhores filmes da história pela revista Time. “O audiovisual, todo mundo vê. Com o sucesso do filme, o livro foi traduzido na Estônia, Polônia, Coréia, Japão…”.
Como todo criador, Paulo Lins enxerga sua criação de maneira única: “Eu gosto do filme, tenho críticas, lógico, mas gosto muito do filme. Ao longo dos anos, eu já gostei, já não gostei, já gostei mais, já gostei menos… É uma relação familiar”, brinca o escritor.
Na favela
Além das críticas com intuito de “golpe publicitário”, do “fala-fala”, como ironiza Paulo, a repercussão do filme e do livro na Cidade de Deus foi boa. “Todo mundo gostou. Meus amigos na Cidade de Deus continuam os mesmos”, completa. Desde que se formou em Letras, Paulo saiu da Cidade de Deus. Já morou em Angra, Mogi Mirim, Espírito Santo, e atualmente mora em São Paulo. Aliás, o carioca revela um amor por São Paulo, especialmente pelo bairro de Perdizes, por onde anda “para cima e para baixo”. “Eu adoro São Paulo, porque é onde muitos dos meus amigos moram. É claro que ninguém gosta do lado ruim, do trânsito, por exemplo, mas o lado bom é muito bom”.
Apesar da paixão por São Paulo, o escritor sempre volta ao antigo bairro cuja história guiou sua carreira. “Eu sou um ‘filho da ponte’”, brinca, referindo-se à ponte aérea Rio-São Paulo. “Costumo ir visitar os meus amigos. Vou lá quando tem uma festinha”. E completa: “Na verdade, não adianta morar num lugar paradisíaco se você não tem amigos por lá”.
Quanto às histórias contadas no livro, não havia impedimentos entre os moradores da favela: “A maioria já não existia mais, na verdade. Como o livro se passa nos anos 1980, não houve problema”. No entanto, o contato com a violência e a criminalidade é constante. “Quem nasce na favela geralmente tem relação com bandido. Às vezes, é seu vizinho, é da sua cor, geralmente é negro, nordestino. É igual você. Mesmo que não se conheça nenhum, é algo próximo. Um sujeito com quem você estudou na escola, por exemplo, que mais tarde vira bandido…”.
Debate
O contato e a reflexão sobre problemas como a violência e a desigualdade da Cidade de Deus de Paulo Lins ultrapassam os limites das favelas. A discussão invadiu grandes eventos literários como a Feira de Frankfurt, realizada em 2013. O discurso de abertura do escritor Luiz Ruffato, que tratou dos problemas sociais do Brasil, corrobora a ideia de Paulo sobre a importância de se conversar sobre política em qualquer ambiente cultural. Em sua fala, que fechou o evento, Paulo Lins reiterou o discurso do amigo e chamou atenção às dificuldades e injustiças sociais do país, resgatando um poema de sua autoria: “Fui feto feio feito no ventre do Brasil/ Estou pronto para matar, já que sempre estive para morrer” diziam os primeiros versos.
“Foi uma participação política”, resumiu Paulo sobre a Feira. “Não dá para falar sobre outra coisa. Hoje se discute isso com as crianças… Eu dei palestras nas periferias de São Paulo, em favelas, em fábricas de cultura, e falei para esses jovens tudo o que disse na Feira. O assunto está no botequim, nos bares, nas feiras. Vai além das universidades”.
Entre os compromissos com a editora e com a organização da Feira, Paulo Lins acredita que a confraternização com os escritores também serviu de espaço para mais debates: “No final do dia, tinha um bar em que toda a rapaziada se encontrava. Eu tomo cerveja toda terça-feira com o Marçal Aquino, estou sempre com o Marcelino Freire, o Luiz Ruffato é meu camarada, conheço a Alice Ruiz há 30 anos, o Ferréz é meu parceiro, meu amigo. A maioria é de amigos meus. Estamos discutindo literatura e política, mesmo entre aqueles com quem eu não tenho intimidade. Porque eu conheço as obras dessas pessoas”. Entre amigos, Paulo Lins conta que se sentiu em plena Mercearia São José, na Vila Madalena, em São Paulo. O clima brasileiro da “Merça”, como o bar foi apelidado pelo escritor, se instalou em Frankfurt.
Guerra cultural
Paulo Lins considera essa discussão da Feira de Frankfurt e de tantas outras aqui no Brasil, como a de Manaus, Votuporanga, São Paulo ou Petrópolis, muito oportuna. Para ele, cultura e poder se misturam, já que o povo detém a cultura e é por meio desta que o poder político se aproxima da população.
“A cultura é motivo de guerra até hoje”, argumenta Paulo. Citando o conflito entre muçulmanos e judeus israelenses e a perseguição de evangélicos e católicos às religiões e aos costumes africanos, o escritor vê as intolerâncias religiosas e culturais como uma tentativa de dominação e imposição de hábitos. Paulo ainda relembra a aproximação entre políticos e líderes comunitários a partir do momento em que o negro ganha o direito ao voto. Estes líderes, que possuíam influência perante toda comunidade, eram sambistas e mães de santo, perseguidos pela polícia numa época em que tocar pandeiro e praticar capoeira era crime.
A criminalização da capoeira, do samba e da umbanda uniu as práticas, fazendo com que o nascimento e desenvolvimento de cada uma delas se confunda na história das outras. Por esta razão, Paulo, filho de Iemanjá, Ogum e Xangô, recorreu à umbanda durante um bloqueio criativo, no processo de produção de Desde que o samba é samba, lançado quase quinze anos depois de sua estreia na literatura em prosa, com Cidade de Deus.
Paulo Lins frequentara terreiros de umbanda na infância, mas decidiu voltar por convite do amigo, Sombrinha, músico e fundador do grupo Fundo de Quintal. Para escrever Desde que o samba é samba, o autor pesquisou massivamente o samba, assunto central do livro. O conhecimento sobre a umbanda, porém, veio direto das fontes, de Zé Pelintra e Maria Padilha, mais precisamente, as entidades que conversaram com Paulo no centro.
A umbanda é uma religião aberta a várias outras crenças, sendo ela, inclusive, uma derivação do catolicismo e do candomblé. O escritor, que atualmente frequenta centros, diz crer em todas as religiões. “Eu gosto muito de conhecer culturas. Gosto particularmente da cultura africana”.
Desde que o samba é samba
Assim como a umbanda dá espaço a ritmos e culturas plurais, o samba, que se consolidou nos mesmos ambientes da religião africana, também se apropria e se transforma conforme o tempo e as influências. O pagode é um exemplo disso: “Pagode é samba. Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz são todos sambistas. Separar pagode de samba é equivocado. Desde que o samba começou sempre houve mudanças, variações, como no jazz, por exemplo, em toda música”.
Para Paulo, estas variações e até mesmo os novos movimentos musicais, como o funk, que nasceu nas favelas – “no jeito de cantar, de falar que a rapaziada usa” – só fortaleceram o samba. “A cultura só acaba se o povo acabar. Ela não se perde enquanto se configurar como tradição, só agrega”. A música é parte importante da inspiração do escritor, que possui preferências amplas: de Criolo a Nando Reis, de Martinho da Vila a Otto.
Paulo até se arrisca na percussão, “tudo no batuque”, como brinca, e costuma fazer letras com o amigo, Marcelo Yuka, ex-integrante da banda O Rappa, atualmente na F.UR.T.O. “Na verdade, eu vivo o mundo musical dele. Ele é poeta e nós discutimos música e poesia. A gente faz uma ‘baguncinha’ quando se encontra”.
Projetos
Além de companheiro de composições, Marcelo Yuka também foi um dos envolvidos nos projetos de Paulo Lins além da literatura. O escritor dirigiu o clipe “Minha alma (A paz que eu não quero)”, d’O Rappa, na época em que o amigo ainda era baterista, e “Não se preocupe comigo”, da F.UR.T.O. No intervalo entre Cidade de Deus e Desde que o samba é samba, Paulo se envolveu com o cinema e com a produção televisiva. “O pessoal pensava que eu não iria escrever outro livro, mas eu estava ocupado com outros projetos”.
O primeiro convite veio do cineasta Cacá Diegues, com quem Paulo Lins trabalhou no roteiro de Orfeu, de 1999. Depois vieram os roteiros de alguns episódios de Cidade dos homens e trabalhos com a roteirista e diretora Kátia Lund, bem como com Lúcia Murat. A pressão pela produção do segundo livro foi preenchida pelo escritor com projetos ligados à temática, porém utilizando outros formatos artísticos. “Toda a relação com o tema da Cidade de Deus é muito natural. Todos os trabalhos me puxaram para isso”.
Contratado pela rede Globo como roteirista na época de produção da série baseada em Cidade de Deus, Cidade dos homens, Paulo Lins se envolveu com Luiz Fernando Carvalho no projeto da série Suburbia, que tratava especificamente de uma pessoa com quem o diretor “teve uma relação de mãe e filho”, que trabalhara na casa dele. A história possibilitou a discussão de diversos temas do interesse de Paulo, como o racismo, a exclusão social, o abandono, a violência e até mesmo os reflexos da escravidão. A relação da empregada doméstica, inserida quase maternalmente na casa onde trabalha, é, como avalia Paulo “uma das facetas mais feias do Brasil”. “Mas ninguém quer falar nisso, porque grande parte da classe média está envolvida”. O assunto, no entanto, seguia raramente discutido, até a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) das Domésticas, regulamentada no ano passado.
Essa exploração da doméstica, para o escritor, chega a remontar o período de escravidão. “Depois da abolição da escravidão, o negro não se inseriu por completo na sociedade. Quando acaba a escravidão, o negro já se torna marginal. É um processo natural. Até hoje é assim”. Inconformado com o tratamento do negro, especificamente da mulher negra e pobre que se torna empregada doméstica, Paulo conta: “Os próprios bandidos falam: sabe por que eu te assalto? Porque, quando eu era pequenininho, a minha mãe tinha que trabalhar cuidando de você. Você tinha duas mães, e eu não tinha nenhuma”.
O sucesso de Suburbia trouxe a Paulo mais projetos na televisão, como o que está trabalhando em Parati, durante suas férias, ou melhor, as férias de seu filho, João, de 8 anos, e da filha, Mariana, de 24 anos. “Eu não tenho férias! Trabalho de onde for”. Envolvido num projeto de novela, linguagem à qual não está acostumado, o escritor diz estar fazendo seu “dever de casa”, lendo muitos capítulos de autores consagrados, pesquisando e anotando ideias. No dia anterior ao que conversou com a CULT, Paulo trabalhou desde o final da tarde e por toda a madrugada. “Mas eu gosto, é um prazer!”. Além disso, os passeios com os filhos lhe tomaram o resto do dia. “Fui à praia, passeei… Começo na hora em que dá para começar, não é?”. Preocupado com a educação dos filhos, o pai admite ter incentivado a leitura de todos eles. “Tem que ficar atento, senão o bicho pega!”. Além dos dois que viajaram para Parati com Paulo, ainda há Frederico, de 32 anos, que é produtor cultural.
Apesar dos trabalhos audiovisuais, Paulo Lins ainda é um apaixonado por poesia. O escritor está lançando um livro de poesia sobre o lixo, concebido junto a Maurício Carneiro, Eduardo Lima e Beo da Silva, “a 8 mãos”. “Era um projeto para criança, depois se tornou adulto, agora eu já nem sei para quem ele é”. Misturando projetos de televisão, cinema, literatura ou até teatro, Paulo faz questão de escrever sem parar, “o que der na telha”.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

RUTH DE SOUZA FALA SOBRE SUA CARREIRA


publicado: revista Raça Brasil

Entre existir e ser notado há uma única diferença: a coragem. Coragem é aquilo que faz com que uma pessoa subverta a ordem, desobedeça as regras, rasgue os dogmas e aja. Assim fez Ruth de Souza, que ressignificou a presença da mulher negra no mundo das artes cênicas. Ela ousou ver mais do que estava à mostra e desbravou horizontes até então desconhecidos para a maioria das atrizes negras brasileiras. Historicamente, a mulher negra de sucesso faz da audácia e do novo sua bandeira. Nestaentrevista, nada mais justo que recordar algumas revoluções que uma profissional negra precisou enfrentar para obter êxitos que ainda hoje ecoam na arte - mais precisamente na televisão e no teatro. Foram mudanças que, de uma forma ou de outra, influenciaram a vida e a obra das gerações seguintes. Ela poderia ter sido mais uma que não se libertou dos serviços domésticos, no entanto encontrou neles a matéria-prima de seu talento. Foi a primeira negra a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, está na TV globo desde que a emissora foi inaugurada, e ainda hoje se destaca pelo longo currículo, feito que pouquíssimos profissionais tem a honra de alcançar. Ruth recebeu a equipe da Raça Brasil no apartamento onde vive, na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo um pouco debilitada fisicamente, mostrou que a cabeça continua atuante como sempre. Com bom humor e irreverência ela falou sobre sua trajetória profissional, racismo e os estereótipos que os negros enfrentam na carreira de ator.

Veja trechos da entrevista com Ruth de Souza

Sua trajetória profissional já é bastante conhecida. E pessoalmente, quem é Ruth de Souza? 

Alguém simples que adora as pessoas, gosta de fazer amigos e de manter os amigos. Sou eu, Ruth.

A senhora é uma atriz que trafega aparentemente à margem das querelas estéticas que sempre marcaram a teledramaturgia. Fale um pouco sobre sua infância e suas heranças culturais.

O meu trabalho é uma espécie de terapia. Adoro trabalhar, bom seria se todos fossem assim. Meu pai era analfabeto, era lavrador no interior de Minas Gerais. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro, mas fui para Minas ainda pequenininha. Quando meu pai morreu, voltamos para o Rio e minha mãe foi trabalhar como lavadeira para sustentar a casa.

Qual foi a primeira personagem que a senhora interpretou?

Eu fiz uma velhinha. Na época eu tinha 18 anos e interpretei uma velhinha caquética igual eu estou agora (risos). Era a história do imperador do Haiti. Atravessei o palco do Theatro Municipal com uma trouxinha nas costas. 

"Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um" 
| FOTO: Kadão Costa/Estúdio Líquido

É verdade que você foi a primeira atriz negra a pisar no palco do Municipal?
verdade, eu fui a primeira atriz negra.

E como a senhora se sente quanto a esse pioneirismo?

Foi uma responsabilidade muito grande, e ao mesmo tempo me encheu de orgulho. Era uma fase muito difícil para o ator, muito difícil para o negro. Não havia negro na TV, só havia o Grande otelo fazendo comédia. 

Qual foi a personagem que mais marcou sua vida e que fez seu coração bater mais forte?

Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um. Gostei muito de fazer na TV a “Cabana do Pai Tomás”, “ossos do Barão”, onde eu fazia a neta de um barão e “Sinhá Moça”, que foi um grande sucesso. Já no cinema foi muito bom fazer “Filhas do Vento”. 

A senhora já viveu alguma situação de racismo em sua vida ou em sua carreira?

Senti que em alguns papéis eu tive que cobrar, aquela coisa que o papel tem que ser assim e que negro fala assado. Me lembro de uma vez que o diretor da Companhia Cinematográfica Vera Cruz me disse que eu era muito magra para interpretar uma escrava de fazenda, na época eu pesava 45 quilos. Ele tinha a concepção que a negra tinha que ser gorda risonha e ser boa de fogão. Logo após esse trabalho, fui interpretar outra personagem com o mesmo nome da anterior, aí perguntei ao diretor: “Por que toda vez eu tenho que fazer um personagem de nome Bastiana? Porque toda negra se chama Bastiana, ele respondeu. Eu disse: Não. Eu me chamo Ruth”. Eles estavam habituados ao negro na fazenda e à negra dentro da cozinha. Mas sofrer discriminação eu não sofri, sempre tive uma postura que me ajudou muito. Às vezes nossa gente tem certas posturas que não ajudam muito.

Como a senhora avalia o trabalho dos nossos autores de novelas, hoje, especialmente os que rejeitam os personagens negros? O negro brasileiro recebe os papéis que merece nas telinhas?

Não, de jeito nenhum. Agora, por acaso, o Lázaro está conseguindo, a Camila e a Taís também. Está aí o meu orgulho de ter começado a abrir caminho para essa família toda, tanto que eu recebi uma homenagem da Academia de Cinema. Na ocasião, chamaram todos os atores jovens para me homenagear, me deu um acesso de choro... Foi tão lindo saber que eu abri o caminho para todos aqueles que estavam ali presentes.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Especialistas avaliam que há racismo na produção audiovisual brasileira

publicado: agência brasil

A baixa participação de mulheres negras* no cinema nacional é consequência de um elemento estrutural na sociedade brasileira: o racismo. A avaliação é do cineasta Joel Zito Araújo, que comentou pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) sobre os filmes brasileiros de maior bilheteria entre os anos de 2002 e 2012. Para a diretora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Irene Ferraz, a escolaridade e o acesso a recursos para a produção audiovisual poderiam reverter esse quadro.

O estudo A Cara do Cinema Nacional constatou que nenhum dos 218 longas-metragens nacionais de maior bilheteria analisados no período contou com uma mulher negra na direção ou no roteiro. A presença delas nas telas também é baixa: atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal desses filmes.

Segundo Araújo, que é P.H.D. pela Universidade de São Paulo (USP), aliado ao racismo, que invisibiliza produtores negros no cenário nacional, o padrão estético das produções atuais ainda está calçado em ideias do período colonial, provocando distorções em todas as artes, inclusive no cinema. “A supremacia branca, o reforço da representação dos brancos como uma 'natural' representação do humano é chave para tudo isso. O negro representa o outro, o feio, o pobre, o excluído, a minoria não desejada.” Por isso, segundo ele, não está nas telas.

A opinião do cineasta é a mesma da coautora da pesquisa da Uerj, a doutoranda Verônica Toste, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp). Ela lembra que o Estatuto da Igualdade Racialtratou de prever a igualdade de oportunidades em produções audiovisuais, mas as leis são vagas e insuficientes para mudar a cara do cinema. “O Brasil tem uma legislação para tratar dessa situação, de conferir oportunidades iguais, no entanto, ela é burlada, sem fiscalização.” Verônica defende a distribuição de recursos do audiovisual para realizadores negros.

A diretora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Irene Ferraz, reconhece que é baixa a presença de pessoas pretas e pardas em posições de mais visibilidade e prestígio no cinema, como o elenco, a direção e a produção de roteiros. Para ela, o problema começa na formação. “O cinema é uma arte muito complexa, envolve uma indústria, precisa de editais, recursos, se você tem uma escolaridade, chegará lá. Acontece que, na nossa sociedade, o negro está excluído em várias áreas”, avaliou, em relação à subrepresentação. “O cinema reflete o que é a sociedade”, completou.

O presidente do Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual, Luiz Antonio Gerace, não vê como um problema a ausência de mulheres negras no cinema. Segundo ele, a exclusão pode diminuir a partir do maior acesso a cursos de audiovisual. “É verdade que as mulheres ocupam mais os cargos de assistente de figurino e camareira do que direção e roteiro. Mas se fizer faculdade, por exemplo, vai ter a mesma chance que os outros.”

O argumento da educação, no entanto, é frágil, na avaliação de Joel Araújo. Para ele, a solução passa por políticas públicas. “Cabe à Ancine [Agência Nacional do Cinema] buscar meios para resolver essa distorção profunda. E não ficar esperando que uma futura desejada educação de qualidade para todos extermine o nosso racismo estrutural”, destacou.

Procurada pela Agência Brasil, a Ancine, que tem a função de fomentar e regular o setor, informou que “não opina sobre conteúdo dos filmes ou elenco”. Já o Ministério da Cultura informou ter investido R$ 5,1 milhões em editais de produção audiovisual este ano. Desse total, R$ 2,8 milhões foram destinados a jovens realizadores negros, cuja contratação foi feita em 2012.

* Convencionou-se chamar de negros a soma dos grupos populacionais preto e pardo, seguindo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE)

Pesquisa revela que mulheres negras estão fora do cinema nacional

publicado: agência Brasil
As mulheres negras* não estão nas telas de cinema, nem atrás das câmeras. Pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) mostra que pretas e pardas não figuraram nos filmes nacionais de maior bilheteria. Apesar de ser a maior parte da população feminina do país (51,7%), as negras apareceram em menos de dois a cada dez longas metragens entre os anos de 2002 e 2012. Além disso, atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal de filmes nacionais. Nesse período, nenhum dos mais de 218 filmes nacionais de maior bilheteria teve uma mulher negra na direção ou como roteirista.
Coordenada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Uerj, um dos mais renomados centros de estudos de ciência política na América Latina, a pesquisa A Cara do Cinema Nacional sugere que as produções para as telonas não refletem a realidade do país, uma vez que 53% dos brasileiros se autodeclaram pretos ou pardos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O prejuízo, na avaliação das autoras do estudo, é a influência de determinados valores sobre a audiência.
“Pelos dados, a população brasileira é diversa, mas essa diversidade não se transpõe para ambientes de poder e com maior visibilidade”, disse uma das autoras, a mestranda Marcia Rangel Candido. Ela acrescenta que, além da “total exclusão” nos cargos técnicos, a representação no elenco está limitada a estereótipos associadas à pobreza e à criminalidade. “As mulheres brancas exercem vários tipo de emprego, são de várias classes sociais, a diversidade é maior”, destaca.
A doutoranda Verônica Toste, coautora da pesquisa, diz que a baixa representatividade de mulheres em postos mais altos do cinema - elas ocupam 14% dos cargos de direção e 26% dos postos de roteiristas entre os filmes mais vistos -, além da invisibilidade das negras no elenco, são distorções da sociedade. “A ausência de mulheres, principalmente as negras, nesses papéis gera baixa representação e reproduz uma visão irreal do Brasil.” De acordo com a pesquisa, nenhuma das diretoras ou das roteiristas entre os filmes pesquisados era negra.
Para chegar ao perfil racial, a pesquisa comparou imagens de 939 atores, 412 roteiristas e 226 diretores de filmes, excluindo documentários e filmes infantis. “Usamos um modelo de identificação em que o pesquisador é que define o grupo racial ao qual pertence o sujeito”, esclareceu Marcia. Na classificação, para a comparação, foi utilizada uma escala de fotos de oito indivíduos, do mais branco para o mais preto, estabelecida em trabalhos científicos anteriores.
A lista dos filmes mais vistos no período é da Agência Nacional do Cinema (Ancine), organização que, na avaliação do premiado cineasta negro Joel Zito Araújo, deveria ter um papel ativo na promoção da diversidade no audiovisual. Ao avaliar a pesquisa do Iesp, ele disse que a agência precisa atuar. “Somente quem governa, que tem poder de criar políticas públicas, é que pode criar paradigmas para a nação e resolver essa profunda distorção”, disse.
Apesar de ter a função de fomentar e regular o setor, procurada, a Ancine informou que “não opina sobre conteúdo dos filmes, elenco ou qualquer coisa do tipo”.

* Convencionou-se chamar negros a soma dos grupos populacionais preto e pardo, seguindo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Gratidão Lupita Nyong’o

por* Hanayrá Negreiros
publicado:blogueirasnegras.org
Para mim esse texto é um agradecimento meu à Lupita Nyong’o.

Faz tempo que eu não escrevo, tinha perdido a vontade, ou talvez não tivesse nenhum assunto que me fizesse pensar com as palavras, até conhecer a Lupita, moça preta, da pele bem escura, que conseguiu mostrar a nossa beleza pro mundo. Obrigada Lupita!

A conheci no Pinterest, site de referências de imagens, onde a gente consegue montar painéis com diferentes temas, no meu caso, gosto muito e estudo a estética da mulher negra, e comecei a ver nesse site muitas fotos dessa até então desconhecida moça. De primeira, achei ela linda e com um tipo físico parecido com o meu, o que me animou bastante! Eu ainda nem tinha assistido 12 Anos de Escravidão e já gostava dela, gostava porque ela era colorida, literalmente, começando pelo tom de pele, que diga-se de passagem, a gente não vê muito por aí estampado em revistas de moda, nem em comerciais de TV, nem em nada, e depois por ela se permitir ser colorida, ela usava cores alegres, que contrastavam com a pretura da sua pele, nas roupas, nas maquiagens.

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.

A falta de mulheres parecidas com a gente, na mídia, seja ela TV, revistas e o que mais possa servir para ajudar a formar uma identidade estética negra, (não para seguirmos à risca, porque eu realmente acredito que não será uma revista que vai me falar o que usar), nos anula enquanto mulheres e consumidoras. E com certeza o Oscar de Lupita representa muito mais do que o resultado de uma linda atuação, representa uma mudança não só estética, mas política também.

E com a falta de tudo isso, acredito que não só pra mim, mas para muitas outras mulheres negras, tanto com a pele escura feita a dela, ou mais clara (porque temos vários tons), a chegada da Lupita, de alguma forma, nos fez sentir assim, representadas. Como se Lupita dissesse por nós – “olha, a gente tá aqui também!”

Porém, toda essa minha gratidão, só poderia ser completa pelo que Lupita representa não só pela beleza dela, ou pelas roupas e maquiagens que ela usa, mas pelo discurso dela também, por ela dizer que não há vergonha na nossa beleza, que somos bonitas também. Imagino quantas meninas negras se sentiram mais felizes vendo uma Lupita, vendo uma Alek Wek, e outras mulheres negras que nos representam. E já aviso, precisamos de mais pretas nas TVs, nos filmes, nas passarelas, espero que não pare na Lupita. Isso me faz pensar nas outras mulheres negras que vieram antes de Lupita ou Alek, me faz pensar em Carolina Maria de Jesus, que com suas palavras e jeito de contar o que se passava na favela, fez com a enxergassem, como mulher, preta e periférica. Recentemente, li um texto publicado aqui no BN escrito por Dulci Lima em homenagem ao centenário de Carolina, onde é contada a importância dessa mulher para nossa sociedade. E penso, como me sinto também agradecida por poder ler o que essa mulher se pôs a escrever.

Penso também em Zezé Motta, Ruth de Souza e tantas outras mulheres, que vieram antes, e que de alguma forma também ajudaram na minha formação enquanto mulher preta. O meu muito obrigada!

Por hora fico por aqui, pensando nos próximos textos a serem escritos e nos próximos batons coloridos a serem usados, porque como bem disse uma vez, uma moça bem preta e bonita “não existe vergonha na beleza negra”.

Hanayrá Negreiros é formada em Moda, adora escrever sobre estética da mulher negra, costurar e fazer ilustrações. Não vive sem um doce, chocolate de preferência!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Vida de Jimi Hendrix antes da fama chega aos cinemas

                                                                                    
O cantor Andre Benjamin como Jimi Hendrix no filme 'Jimi: All Is by My Side'
por*FERNANDA EZABELLA

Foi uma mulher branca, de sotaque inglês burguês e então namorada do Rolling Stone Keith Richards que instigou o tímido e nada ambicioso Jimmy James a virar Jimi Hendrix (e o levou a sua primeira viagem de ácido).
O impacto da modelo Linda Keith na vida do guitarrista americano domina o começo da cinebiografia de seus anos pré-fama, "Jimi: All Is by My Side", estrelado com incrível semelhança por André Benjamin, da banda Outkast.
"É como perguntar para onde eu iria se tivesse uma nave espacial, para Marte ou Vênus?", ele diz a Linda (Imogen Poots) ao ser questionado sobre o que faria se tivesse seu próprio grupo. "Minha voz é terrível", continua, em outra cena, ao se recusar a cantar. "A voz de Bob Dylan também é, e ele está indo bem", responde a amiga.
"Jimi: All Is by My Side", exibido no Festival de Los Angeles e com estreia prevista para setembro nos EUA, tem direção e roteiro de John Ridley, ganhador do Oscar pelo roteiro de "12 Anos de Escravidão", o qual também coproduziu. Ridley se interessou em fazer o filme há quase uma década, ao descobrir uma canção rara de Hendrix chamada "Sending my Love to Linda", que o inspirou a pesquisar sobre esta "mulher misteriosa".
Linda apresentou Hendrix (1942-1970) ao baixista Chas Chandler (Andrew Buckley), que deixou o grupo Animals para virar seu agente e o levar para a Inglaterra. A história corre em 1966 e termina com a volta aos EUA para o Monterey Pop Festival, em 1967.
Em Londres, Hendrix é questionado por Michael X por que só anda com brancos, rouba um show de Eric Clapton e causa ciúmes em Richards. Ele também aparece de bobs e batendo na nova namorada, a ruiva Kathy Etchingham, além de declamar discursos viajandões repletos de analogias com cores.
Benjamin, sem dúvida a melhor parte do filme, aprendeu a tocar guitarra como Hendrix, canhoto numa guitarra para destro (sua primeira, aliás, foi presente de Linda, com as iniciais de Keith Richards). Mas sua performance vem com uma desvantagem: a família de Hendrix não liberou nenhuma canção. No filme, ele canta Dylan, Muddy Waters, "Hound Dog" e "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".
Os administradores do patrimônio de Hendrix, liderados por Janie Hendrix (meia-irmã), são conhecidos pela rigidez e afirmam que só vão liberar as músicas quando tiverem participação total no filme. Por décadas, diversas produções acabaram engavetadas, como uma de Paul Greengrass, cinco anos atrás.
No mês passado, o projeto voltou à tona, mas com novo diretor à frente, o roteirista Ol Parker ("O Exótico Hotel Marigold"), que teria finalmente se acertado com Janie. Anthony Mackie ("Guerra ao Terror") fará o guitarrista na história sobre seus nove últimos dias de vida.
Publicado*: folha.com.br