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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Em busca do equilíbrio, Criolo lança single e se diz feliz por estar vivo

Leonardo Rodrigues
Do UOL, em São Paulo
Robert Astley Sparke

Aos 39 anos, Criolo é um sujeito que prima pela gratidão. Dá graças ao rap, por ter lhe ensinado tudo na música, aos fãs, que abarrotam e dão ares messiânicos a suas apresentações, à chance de ter virado parceiro de ícones da MPB, como Milton Nascimento, Caetano e Tom Zé, e, principalmente, por estar vivo, em plena atividade.

"Segundo os noticiários do final da década de 1980, início da década de 1990, eu, um jovem que nasci onde nasci, com os pais que tinha, não passaria dos 13, por subnutrição, ou dos 17, por violência urbana. Isso para termos um pouco de poesia, para não falarmos de outra forma", afirma o músico, que recebeu a reportagem doUOL na sede de seu selo, Oloko Records, em uma pacata casa de vila na Vila Ipojuca, bairro da zona oeste de São Paulo.

Voz da renovação do rap na atualidade, Criolo lança nesta quarta (29) a primeira faixa de seu novo álbum, a incisiva "Convoque Seu Buda". Assim como versa na música, ele vive uma espécie de momento "zen", de busca constante pelo equilíbrio e pela comunhão das forças positivas. É essa a mensagem otimista por trás da faixa. Mas experimente dizer isso a ele.

"Isso aí é vocês que vão avaliar. A gente nunca sabe. Às vezes uma coisa que eu acredito que seja de um jeito você vai ouvir e enxergar de outro. Mas a ideia é de que todos nós temos uma força interna para gerar coisas boas", entende o mestre das rinhas de MCs e das relativizações.

Gravado logo após a Copa do Mundo, o terceiro disco cheio de Criolo dá continuidade às ideias do predecessor, "Nó na Orelha" (2011), que expandiu as fronteiras do rap e fez da antibalada "Não Existe Amor em SP" um hino contemporâneo. Os parceiros Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral ("sem eles o disco não existiria") estão novamente no comando da mesa de som –e também dos ensinamentos de vida.

Uma eventual responsabilidade de repetir o êxito do segundo disco é algo que simplesmente não pesa no ombros de Criolo. "É natural", como costuma sempre frisar. Com maior participação dos músicos, revela ele, o mix cederá espaço às rimas, ao reggae, ao samba, ao afrobeat e a tudo mais que caiba em seu intrincado --e por vezes indecifrável-- fluxo de consciência.

É um desafio cognitivo entrevistar a esfinge Criolo, que parece musicar a realidade até comentando sobre o tempo ou sobre si mesmo. "É muito louco. Porque cria-se a expectativa de que eu fale 'como eu estou bem' hoje. Mas, de dez anos para cá, o número de pessoas falando que eu sou extremamente estranho, errado, maluco, e tanta coisa que eu jamais imaginei de que eu seria taxado, aumentou. Então deixe que elas digam."

Leia os principais trechos da entrevista.

UOL - Quem é o seu Buda de "Convoque Seu Buda"? Por que convocá-lo?

Criolo - É uma paz interior. Procurar o equilíbrio, algo positivo dentro de você. Porque, se a gente for deixar se levar por tudo que está acontecendo todos os dias, só vai fortalecer as coisas negativas. A gente vai perder totalmente a esperança na humanidade.

A música ou o novo disco, então, vêm com uma mensagem otimista?

Não sei. Isso aí é vocês que vão avaliar. A gente nunca sabe. Às vezes uma coisa que eu acredito que seja de um jeito você vai ouvir e exergar de outro. Mas a ideia é de que todos nós temos uma força interna para gerar coisas boas.

O disco tem um conceito ou foi composto de forma natural?

Foi tudo natural. Mas acredito que o que contribui para ter uma unidade é a genialidade do Marcelo Cabral e do Daniel Ganjaman. Sem esses dois amigos, certeza absoluta de que não existiria esse disco.

Que tipo de contribuição eles dão?

Cresço muito como pessoa. A gente fica mais tempo com eles na estrada e com os músicos todos do que com a família. São bons amigos, me dão bons conselhos. E mostram onde eu posso melhorar. O que eu estou errando. O que eu estou devendo. O que posso melhorar no trabalho. No dia a dia. Além dessa contribuição de uma amizade sincera, a contribuição do modo como eles enxergam a música. Eles têm olhos muito diferentes.

Quais são as principais diferenças entre "Convoque Seu Buda" e o "Nó na Orelha"?

É justamente ter a felicidade de uma maior participação dos músicos. Além de ter o Marcelo e Daniel capitaneando a direção musical e norteando o lance, a gente teve um momento muito feliz de juntar a banda toda em estúdio e levantar coisas do zero. Todos juntos. Isso para mim foi muito importante. Principal lance desse disco.

E em termos de sonoridade, quais são as diferenças?

É difícil eu te falar isso. Mas houve a oportunidade de ter o sotaque do guitarrista, do Guilherme Held, que é maravilhoso. A oportunidade de ter o [percussionista] Maurício Badé tendo liberdade maior de atuação. O [saxofonista] Thiago França gentilmente participou dessa turma e concebeu arranjos maravilhosos. Sérgio Machado livre, livre com sua bateria. Tem mais temperos ali desses gênios. Desses caras que eu considero tanto.

A música "Convoque Seu Buda" tem uma letra direta, fala de "humilhação demais que não cabe nesse refrão". Foi uma preocupação falar assim nesse momento, em tempos de eleições?

Acontece naturalmente. A construção de texto se dá de modo natural. Às vezes vem dessa forma, direta. Às vezes vem com algum trocadilho. Ou com alguma coisa que você lembrou que sua mãe falou, alguma coisa que você escutou não sei onde. E, quando você vai ver, são um conjunto de coisas que estavam na sua cabeça e que saiu de outro jeito.

Além de se tornar cada vez mais eclético musicalmente, você vem fazendo parcerias com grandes nomes da música brasileira. Caetano, Ney, Milton, Tom Zé. O Criolo está se tornando "MPB"?

Deixo as pessoas à vontade para dar sua opinião. Acho que isso é o mais maravilhoso que existe. [Ser chamado de MPB] Não incomoda, imagina. É maravilhoso.

Você se formou no universo no rap de São Paulo, mas também ouvia MPB? Caetano, por exemplo?

O que todo o mundo escutava. O que tocava no rádio. O que era tema de novela. Nada, infelizmente, falo isso com pesar, de ter alguém que tivesse chegado em você e te dado dois, três discos de um cara. Ou te indicar. Ou te dar a fita cassete --na época, era a fita cassete. A gente não tinha essa felicidade, que muita gente tem. Hoje você conversa com um jovem, ou alguém da nossa idade, chegando aos 40. Ele sabe te falar o nome do álbum, o nome do baixista, do cara que produziu. E acho isso lindo. Um trabalho de pesquisa, mas que é natural. Já vem da cultura de uma pessoa. A gente escutava o que o rádio AM pegava. E mesmo assim não tinha muito tempo, porque tinha que fazer o carreto na feira, ou tinha que ajudar o pai não sei onde. Tinha que varrer a casa porque a mãe estava chegando do trabalho. Senão ela ficava louca. São rotinas diferentes para cada tipo de criança de cada lugar do Brasil.
O Milton é meu amigão. Ao mesmo tempo que é tudo isso e é meu colega, que eu dou um bom dia, boa tarde, boa noite, a gente conversa de alguma coisa. A gente celebra essa felicidade. Não só ele, mas Caetano também. É sempre uma festa quando encontro com Ney. São pessoas muito simples.Criolo

Você acabou de fazer uma turnê com o Milton Nascimento. O que você aprendeu com ele?

Olha que honra! A convite dele. Uma tour com Milton Nascimento. Um orixá (pausa). O que aprendi dele, logo de cara, é o quanto o ser humano pode ser solidário. A forma como ele deixa que as pessoas se aproximem dele. Onde já se viu? Eu, que nunca estudei música, que não sei tocar um instrumento, que desafino mil vezes num show de uma hora e meia, ter a honra de ser convidado por Milton Nascimento para tocar com ele? É ter a generosidade de perceber que as histórias também se encontram. E que música é também para celebrar encontros e passar essas histórias para frente. Possibilidades para frente.

Ney, Tom e Caetano também te passaram esse tipo de mensagem?

Cada um passa de um jeito. Mas isso também. E não só essa generosidade. A genialidade, a simplicidade deles. O modo como eles enxergam o mundo, como cada um conduziu sua vida. Uma vida de trabalho.

Milton Nascimento e Criolo (Rio de Janeiro - Setembro/2014)13 fotos8 / 13
12.set.2014 - Após o susto há duas semanas, Milton apareceu mais solto. Dançava com os movimentos limitados, mas, ainda assim, sorridente. Recebeu abraços e beijos de Criolo e da novata Julia Vargas, que fez participação especial no show -- e foi responsável por um dos pontos altos, ao soltar o vozeirão com o cantor em "Caxangá". Sobrou energia em um show sem percalços.André Lobo/UOL

Como foi ver o Milton passando mal ali do seu lado, em um show em São Paulo, que precisou ser interrompido?

Eu me senti triste, né? Em 50 anos de carreira dele isso nunca tinha acontecido. Eu estava ali do lado do mestre, vendo aquele senhor do mundo pedir uma pausa. Você respira fundo, procura ali naquela hora ver a melhor forma de não atrapalhar, já que tinha toda uma equipe cuidando dele do modo mais carinhoso possível.

Felizmente foi apenas um susto.

Ele está maravilhoso. Retomamos [a turnê] de um jeito lindo. Fomos ao Rio de Janeiro, depois viemos aqui para São Paulo, em dois dias. Foi muito maravilhoso. Você vê um homem daquele, com a idade que tem, por tudo que já passou na vida, abrir um sorriso e ficar olhando na agenda a data que ele tem para cantar, que a felicidade dele é estar no palco. É maravilhoso, uma lição de vida para todos nós.

O Milton é meu amigão. Ao mesmo tempo que é tudo isso, é meu colega, a quem eu dou um bom dia, boa tarde, boa noite, a gente conversa de alguma coisa. A gente celebra essa felicidade. Não só ele, mas Caetano também. É sempre uma festa quando encontro com Ney. São pessoas muito simples.

Você abriu o show do Stevie Wonder no ano passado, em São Paulo, e era impressionante ver sua entrega no palco. Em alguns momentos, parecia um transe, uma catarse.

Porque, cara, passei por umas coisas na vida muito… (pausa). Enfim. Todos os brasileiros têm uma história para contar. Isso não nos faz melhores nem piores do que ninguém. Nossa realidade vigente, na nação. Mas, cara, quando eu subo no palco, passa muita coisa na cabeça. Eu tenho 39 anos de idade agora. Segundo os noticiários do final da década de 1980, início da década de 1990, eu, um jovem que nasci onde nasci, com os pais que tinha, não passaria dos 13, por subnutrição, ou dos 17, por violência urbana. Isso para termos um pouco de poesia, para não falarmos de outra forma.

Chegar aos 39 anos de idade, poder subir em um palco, ser convidado para cantar sobretudo em um evento tão grande, com um grande mestre, maravilhoso, que tive a oportunidade de conhecer. Então emociona muito. Você tem que fazer valer o esforço de todas as pessoas que lhe estenderam a mão.

Quando foi lançado, o "Nó na Orelha" (2011), seu segundo disco, o primeiro a fazer grande sucesso, você já tinha 35 anos. Chegar a um auge artístico com essa idade trouxe alguma vantagem?

Não sei, porque talvez minha cabeça poderia estar melhor quando eu tinha 20. Não teria tanto contato com frustração e seria um jovem cheio de esperança. Teria escrito outras coisas, agido de outra forma. Teria dado outras cores à minha vida. Nunca dá para saber.

Em entrevista ao UOL em agosto você disse que precisava aprender a se comunicar melhor. Você tem pensado nisso?

Não. Foi só um papo que eu tive na época e que me veio em mente. Todas as vezes que as pessoas citam situações para determinados lances, eu falo essa real, né? Acho que todo o mundo tem que aprender a se comunicar melhor. Ou não. Ou todo o mundo tem que entender o outro como ele é. Já seria um bom caminho. Porque senão a gente vai ficar se cobrando sempre por uma questão do outro. O que é se comunicar melhor? Às vezes ficando em silêncio você acaba escolhido na dinâmica pra vaga na firma, né? Aquele que ficou em silêncio é o misterioso, incógnita, não deu bola fora. Vai da cara de quem está te avaliando. Porque, se formos pensar que, a todo segundo, você está sendo avaliado, aí fica meio triste o lance.

Tem gente que fala que você tem um papo meio maluco, né? Tem algo a dizer a essas pessoas?

Nada. Opinião delas. Só de saber que eu existo no cotidiano delas por cinco minutos a ponto de ela fazer uma análise sobre o meu psicológico é uma grande honra. Normal quem é?



Se você quiser desbravar o deserto, você tem que saber como é o deserto minimamente. Ou não, ou apenas ir, saber como é o deserto. Aí, quando você voltar desse deserto, se você voltar, você vai perceber que existem muitas coisas por lá e todas essas coisas são você. Agora, como a gente consegue transportar essa linha de pensamento para uma condição de como se enxerga a política hoje? Estamos em um deserto? É tudo coisa da nossa cabeça? Da cabeça de alguém que colocou na nossa cabeça, nas cabeças dos nossos pais? Onde eu estou nisso tudo?Criolo

Sua cabeça está melhor hoje?

Não sei, cara, como vou saber? É muito louco. Porque cria-se a expectativa de que eu fale "como eu estou bem" hoje. Mas, de dez anos para cá, o número de pessoas falando que eu sou extremamente estranho, errado, maluco, e tanta coisa que eu jamais imaginei de que eu seria taxado, aumentou. Então deixe que elas digam.

Bem, não sei quanto a mim, mas, pelo menos sobre você, as pessoas falam muito mais bem do que mal, não acha?

É uma grande honra. Agora, o que acontece com você acontece com alguém no mundo. O que acontece comigo acontece com alguém também. De repente, algo que para você é piada, para aquele seu irmão não é. Depende de como você está se enxergando. Porque todo o mundo acha que está tudo bem quando é para meter o pau em alguém. E não tem água, né? Você pode falar de todas as questões do planeta aqui comigo. Mas, se acabar a água, do que vai adiantar esse desdobramento mental?

Você é religioso?

Não sei lhe responder isso. Porque religião é um conjunto de leis e de normas de determinadas coisas. Mesmo dando a ideia de ser redundante. Uma vez eu perguntei para minha mãe: "mãe, qual é sua religião?". Ela falou: "eu gosto de gente". Eu procuro ser parecido com minha mãe, apesar de estar longe de ser. Procuro ser um pouco de dona Vilani e seu Cleon [nomes dos pais dele]. É porque esperança pode ser o produto mais caro do mercado. Porque faz com que a pessoa ainda tenha algum pingo de respiração. E, nisso, no decorrer da sua vida, ela vai consumir os produtos não duráveis. Mas esperança pode ser algo que vai tirar o garoto de um ambiente extremamente hostil, seja ele urbano ou mental, e essa esperança pode mover esse jovem para que ele procure um lugar melhor para se viver. Crie um ambiente melhor para se viver.

Você tem planos para continuar lançando discos ou mesmo parar?

Eu não penso nisso, não, cara. Eu lembro que uma das primeiras perguntas que me fizeram quando saiu o "Nó na Orelha", no dia que saiu, foi "como vai ser o próximo disco?". Como é que faz? Eu não sei.

Mas você quer continuar, não?

A gente não tem que querer, cara. Isso é uma parada muito louca de a gente absorver. A gente não tem que querer. Você sabe no papel da certidão de nascimento seu dia de nascimento. Mas ninguém falou o dia que expira a sua matéria nesta passagem pela vida. Então a gente pode viver devaneios, pode viver um querer. A gente pode experimentar para ter ao redor da gente um bom ambiente. Aquilo que nos faz feliz. Mas a gente não sabe, né?

Como é sua vida fora dos palcos e estúdios? A gente sabe muito pouco sobre ela.

Minha rotina é estar perto da minha família. É difícil eu falar assim para você: "pô, vou fazer uma viagem". É muito louco isso porque a gente nunca teve essa felicidade, essa oportunidade de fazer uma viagem, mesmo que seja de fim de semana. Ali pertinho, em um cantinho. A vida sempre foi meio dura pra gente. São culturas, né? Minha vida é muito simples. Gosto de ficar em casa. Gosto muito de encontrar com meu amigo Ricardo Rabelo, com o Nenê Partideiro, o Jefferson Santiago, Rogério Borges. Eles fazem um samba muito refinado lá na 27, e eu tenho alguns sambas também. Eles tiram aquele samba no cavaquinho, e a gente passa a tarde legal. Ficamos conversando sobre a vida, sobre as coisas. Vida muito simples. Um amigo ou outro me visita. Ou eu vou visitar alguém. 

A gente viveu nos últimos meses um momento de muito acirramento político, com as eleições. País dividido. Militantes de PT e PSDB brigando na rua. O Brasil precisa encontrar o equilíbrio e convocar seu Buda?

Eu vejo o quanto é bonito as pessoas acreditarem naquilo que elas acreditam. Eu concordando ou não. Porque é um problema meu eu concordar ou não. E eu devo respeitar a pessoa com sua concepção. Eu acho extremamente importante as pessoas se manifestarem. E depois contarem essa história para os filhos. Daqui a cinco anos, o cara pensar se faria diferente. Isso faz parte do crescimento humano. Da sua mente. De como você enxerga o mundo.

Mas você se identificou mais com algum candidato nas eleições? Dilma, Aécio?

Difícil te responder isso e extremamente simples também. É que, se você quiser desbravar o deserto, você tem que saber como é o deserto minimamente. Ou não, ou apenas ir, saber como é o deserto. Aí, quando você voltar desse deserto, se você voltar, você vai perceber que existem muitas coisas por lá e todas essas coisas são você. Agora, como a gente consegue transportar essa linha de pensamento para uma condição de como se enxerga a política hoje? Estamos em um deserto? É tudo coisa da nossa cabeça? Da cabeça de alguém que colocou na nossa cabeça, nas cabeças dos nossos pais? Onde eu estou nisso tudo?

O Brasil mudou muito desde 2004, quando você começou a fazer o álbum…

(Interrompendo) O que você acha que mudou?

O Brasil cresceu. As pessoas têm mais renda, mais oportunidades, mais chance de ascender socialmente. Você não pensa sobre isso?

A gente sempre pensa, né?

E acha que a vida está melhor?

Acho que não. Mas não é um "não" com peso, aplaudindo por ser uma resposta negativa. Mas é você saber reparar a proporção das coisas, de 2004 para 2014. Tudo aumentou em proporção. Não significa que essa melhora tenha atingido na proporção no quanto tudo aumentou.

Sua formação foi toda calcada no rap. Qual é a importância desse gênero hoje para você?

Tudo. O rap não só no momento da escrita. Mas o cara do bailinho, que me deu oportunidade de subir no palco e cantar na Associação de Moradores do Jardim Macaná, que foi a primeira vez que subi no palco para cantar um rap. Eu ia cantar no Ester Garcia, num bailinho de colégio, e o cara falou: "olha, o microfone você liga desse jeito". Você vê uma mesa de som, o cara mexendo no grave e no agudo. Tentando tirar uma microfonia de uma caixa de som que foi emprestada. Então não é só o texto. É a solidariedade. O suor de cada dia para conseguir uma oportunidade para cantar num bailinho de formatura no colégio. Então isso também faz parte do ensinamento.

Você está com mais público agora. O que esperar da nova turnê?

Não dá para saber, não, cara. Só na hora. Uma vez o Arthur Verocai lançou o disco dele, em 72, e ninguém gostou do disco. E foram descobrir o disco dele em 2002. E hoje todo o mundo ama o disco. Não dá para saber. É o que eu falo. Nós abrimos nosso coração, cantamos a coisa que está na nossa cabeça, no nosso coração. Mas não está em nossas mãos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A HISTÓRIA DO CANTOR E ATIVISTA FELA KUTI

publicado: Revista Raça Brasil
TEXTO: Alexandre de Maio | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira
O cantor e ativista nigeriano Fela Kuti | FOTO: Divulgação
Fela Anikulapo Ransome Kuti nasceu na Nigéria, em 1938, em uma família de classe média do estado de Ogun, cujos membros eram bastante articulados, social e politicamente. Vem de berço a atuação explosiva e transformadora de Fela Kuti que, aos 20 anos, foi morar em Londres para, a princípio, estudar medicina. Na capital, inglesa, porém, enveredou para o curso de música no Trinity College of Music, onde criou a banda Koola Lobitos com um novo estilo de som, o Afrobeat, uma reunião dos elementos do jazz, do rock psicodélico e do Highlife, originário da África Ocidental.

Em 1963, já casado com Remilekum (Remi) Taylor, Fela voltou para a Nigéria e começou a trabalhar como produtor de rádio, em paralelo com as atividades da banda. No final dos anos 60, ele e a Koola Lobitos voltaram aos Estados Unidos. O músico passou a ter contato com o Movimento Black Power e com as músicas de James Brown. Pronto! O movimento negro e suas ideias passaram a influenciar fortemente as canções e a visão política de Fela Kuti. Uma combinação pra lá de explosiva! Nessa mesma época a Koola Lobitos foi rebatizada e ganhou o nome de Nigeria 70.

Uma nova república

Sem visto de trabalho, Fela e os membros da banda foram obrigados a deixar o solo americano, não sem antes realizar uma sessão de gravação em Los Angeles que, mais tarde se tornaria o álbum The '69 Los Angeles Sessions. Revolucionado pelas ideias de Malcolm X, o musico volta para a Nigéria e funda a República Kalakuta, uma pequena comunidade, com um estúdio de gravação, onde os mais chegados podiam viver em harmonia. Fela chegou a declarar que Kalakuta era um Estado independente da Nigéria.

Nessa época se apresentava numa casa que ele próprio criou e mudou seu nome do meio para "Anikulapo" (que significa "aquele que carrega a morte no bolso") . A cada gravação o tom político das letras crescia e sua popularidade aumentava em toda a Africa. Fela gravava sua musica em Pidgin, uma espécie de dialeto usado para ser entendido em todo o continente, baseado em inglês.

Sua fama aumentava e o governo começava a se incomodar e os ataques a Kalakuta eram comuns. A perseguição policial era intensa. Em 1977 ele lançou a musica Zombie onde comparava os soldados nigerianos a zumbis, o sucesso do álbum se traduziu numa brutal invasão de mais mil soldados onde Fela foi espancado, sua mãe morta, a República Kalakuta incendiada e seu estúdio destruído junto com centenas de horas de gravações.


Album The '69 Los Angeles Sessions | FOTO: Divulgação


Fela que quase morreu na ocasião, enviou o caixão de sua mãe para os militares e escreveu duas canções "Coffin for Head of State" e "Unknown Soldier". Em 1978 casou-se com vinte e sete mulheres, muitas delas entre suas vocalistas e dançarinas e fez dois grande shows, em um deles as confusões o levaram a ser proibido de entrar em Gana, no outro toda sua banda o abandonou.

Fela não desistia e montou seu próprio partido chamado Movimento do Povo e 1979 se candidatou a presidente da Nigeria que amargava mais de 10 anos sem eleições, mas sua candidatura foi recusada. Abalado criou a banda Egypt 80 e continuou a gravar e a incomodar a política do país, em 84 foi preso e acusado pelo governo militar por lavagem de dinheiro. Foi solto 20 meses depois e se separou de 12 esposas, continuou gravando e viajando e politicamente ativo.

Em 1989 lançou o álbum Antiapartheid "Beasts of No Nation" que exibe em sua capa o Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o primeiro-ministro da África do Sul P.W. Botha com caninos pingando sangue.

No anos 90 começou a se espalhar o boato que teria AIDS e em 3 de Agosto de 1997 Olikoye Ransome-Kuti, seu irmão anunciou sua morte causada pelo Sarcoma de Kaposi em decorrência do vírus da AIDS. Seu enterro foi marcado pela presença de mais de um milhão de pessoas.

Fela foi um ícone da luta contra os regimes ditatoriais da continente africano. Criativo, competente, Kuti colocou a musica Nigeriana no topo, polêmico defendia o pan-africanismo e hoje sua figura influencia e inspira ativistas no mundo inteiro.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O pensar musicado de Criolo

Em entrevista exclusiva, o compositor reflete sobre as manifestações recentes e sobre a sua produção musicalpor: *Marcus Preto é jornalista
Fotos: Patricia Araujo
publicado: Revista Cult

O papo é reto, mas vem por linhas sempre tortuosas e inesperadas. Kleber Cavalcante Gomes, 38 anos – conhecido artisticamente como Criolo – não poupa o interlocutor. Faz questão de tirá-lo da zona de conforto, do raciocínio convencional, da discussão viciada. É assim quando canta e é assim quando fala, como se pode notar na entrevista a seguir.

Alguém pode argumentar que isso é coisa de quem está enfeitiçado com o sucesso recente, que lhe subiu à cabeça. Não. Criolo já era desse jeitinho na entrevista que eu mesmo fiz com ele semanas antes do estouro, às vésperas do lançamento de Nó na orelha (2011), álbum que o revelou para além do universo do rap.

A história ficou bem conhecida. Após duas décadas dedicadas ao rap, Criolo Doido (como assinava então) decidiu que estava na hora de parar com a música. Mas tinha algumas canções – não apenas rap, mas também samba, bolero, balada. O baixista Marcelo Cabral ficou maravilhado com o material e, junto com Daniel Ganjaman (do coletivo Instituto), produziu as faixas. E aquele que seria o canto do cisne de Kleber Gomes na música se tornou o começo de uma história.

Criolo e seu Nó na orelha acabaram por criar uma ponte entre o rap e outras facções da música popular brasileira. Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento e Ney Matogrosso, para falar apenas nos medalhões, se interessaram por sua música. Mais do que isso: misturaram-se a ele, cada um ao seu modo.

A música “Não existe amor em SP” poderia ter se tornado um hino das manifestações políticas recentes, mas extrapolou esse status. Quase como um organismo racional, ajudou a organizar as ideias e intenções que essas mesmas manifestações teriam. Fez que se levantasse a questão fundamental: por que não existe amor em SP? Ou no Rio? Ou em Brasília? Ou em qualquer canto do Brasil? Que tal mudar isso tudo?

Mais do que dar as respostas, Criolo ilumina as questões.

CULT – A canção “Não existe amor em SP” acabou por se tornar um hino. Ela também provocou reações nas pessoas, e muitas quiseram provar que “existe, sim, amor em SP”.

Criolo – Olha, eu acredito que em cada lugar tem alguém com coração. Para cada mil sem coração, existe um com coração. E esse um tem o poder de dar a redenção para os outros mil. Não estou falando desse coração romântico. Falo de alguém que se permite viver, sofrer, enxergar o sofrimento do viver e a beleza que é respirar. Então, acredito que chegou o momento em que essas pessoas se encontraram. Sou apenas mais uma dessas pessoas, mesmo que ainda capenga, mesmo que ainda cheio de situações a serem vistas e revistas. Assim como é cada poeta. É da essência das pessoas querer contribuir, querer fazer parte de algo sem exigir qualquer luz de protagonismo. Já ouviu falar naquele lance de que uma andorinha não faz verão? A andorinha não tem nome, é a espécie. Assim somos nós.

Mas, no caso de “Não existe amor em SP”, essa andorinha fez muito verão. Virou um símbolo, puxou toda uma revoada para junto dela.

Quando você vê os pássaros no ar, tem a impressão de que é um triângulo, de que um está na frente dos outros. Não. Quando o primeiro se cansa, vai lá para trás e vem outro ocupar a dianteira. É muita ingenuidade do poeta, ou do marceneiro, achar que aquilo que ele criou e dividiu com o mundo ainda é ele.

Como você entendeu as manifestações recentes? Penso que esse tempo que nos separa delas é importante na avaliação, porque, no calor da hora, tudo era confuso demais. E o que valia na véspera soava como um equívoco completo no dia seguinte.

É. É o organismo vivo. Você está lidando com pessoas, desejos, frustração, esperança. E ninguém ainda achou o ovo de Colombo do pensar humano. Mas o que acontece agora é algo inédito. As pessoas acham confuso, mas o que está acontecendo é o mais límpido possível.

Límpido? Por quê?

Sim! Porque todo mundo está falando. Não é mais só uma pessoa falando e uma massa humana assinando embaixo. Nessa massa humana, cada um está falando de suas questões. Para mim, isso não é confuso. Deixa a situação mais límpida. A gente está acostumado com aquele lance de saber quem é o cabeça, qual a fala, a frase. Agora, todo mundo está falando. Todo mundo está pondo a sua frase. Cada um com sua vivência, sob sua ótica. Uns entendendo, outros nem tanto. Mas, independentemente disso, e antes de querer tirar a força do que aconteceu no Brasil nesses últimos meses, é preciso entender que, de uma forma ou de outra, todos se movimentaram. E só isso já é fato para entrar nos livros de história. Não precisa de enfeites.

Enfeites?

É. Porque a história exige enfeites. Mais do que um barroco, existe uma necessidade de um rococó para justificar determinadas situações. E o que aconteceu foi justamente a mão na madeira para se fazer o móvel, a mão no barro para se fazer a escultura. Então, há de se valorizar essa situação e as instâncias de roda de conversa em um botequim, em uma biqueira, em uma casa de família, em uma repartição pública ou em um gabinete. Não podemos tirar a força do que aconteceu. As canções e os poemas viram mero detalhe quando você vê o jovem indo para a rua. Ele é a canção, a poesia, a força de um país. Você vê uma pessoa falando: “saia daqui que eu não gosto de você”. Quer mais sinceridade do que isso? Eu já havia dito isso, e o rap nacional já diz há 30 anos: não subestime a nossa juventude, não rotule a nossa juventude. Porque a juventude é livre, despida de determinados protocolos. E as pessoas se conhecem e se conectam por afinidade.



O modo como o governo lidou com o que aconteceu nas ruas foi adequado?

Quem sou eu para falar do governo, eu que não sou letrado?

Quem disse que precisa ser letrado para falar do governo?

O sistema disse.

Precisamos obedecer ao sistema?

A gente depende dele. Vai falar para um garoto que mora lá no meu bairro se, na hora de entregar um currículo, ele não tem que ter o segundo grau e falar duas línguas para ser um simples limpador de rua. Não venha com essa, não, porque isso é coisa de quem não precisa de dinheiro. Que pode se dar ao deleite. Maquiavel é um cara de sacada. Mal sabia ele que seria um divisor de águas. Porque quando eu procurava emprego (porque agora eu sou vagabundo de carteira assinada), eu implorava. Não tinha o segundo grau completo. Quando tinha o segundo grau completo, eu implorava porque não tinha o nível universitário. Aí, depois, eu implorava porque eu não sabia inglês e espanhol. Olha que jogo bonito. Olha que interessante. Porque eu cresço quando a Dona Vilani, minha mãe, me faz uma tapioca de manhã.
Você foi um dos primeiros artistas a fazer uma ponte entre o universo real do rap e os outros gêneros musicais, as outras classes sociais e os outros ouvidos e corações.
É muito simples. Se cada uma dessas pessoas pensarem na cor azul, todos iremos pensar na cor azul, mas cada um em sua nuance de azul. É só isso. O verbo é falho. Clarice [Lispector] já tinha gritado isso. Você já observou um jardim? O que é um jardim pra você? Já reparou que é a mão do homem moldando a natureza ao seu bel prazer? Todos os dias nós nos moldamos. Com ou sem querer. Não existe resposta para o seu questionamento porque não existe resposta para a vida. Apenas vivemos. E, nesse balbucio entre alma e carcaça, tentamos fazer o melhor que podemos fazer.

Você se vê nesse papel de ponte?
Eu? Vou repetir o que lhe falei três anos atrás: sou o equívoco, mas um equívoco com reticências.

Por que um equívoco?

Meu berço é o rap, sou filho de preto nordestino. Filho de benzedeira que, com 50 anos de idade, se formou em Filosofia. E eu digo que ela é filósofa não pelo diploma. Ninguém é filósofo porque fez Filosofia. Ela é filósofa porque sabe viver a vida. Por si só, todo mundo é um filósofo. Dona Vilani me ensinou isso. É a potencialidade humana. Os quereres, as inteligências, sobretudo as potencialidades. O problema são as potencialidades. Quando as descubro, não sei o que faço. E quando faço, me questiono. O grande lance é se questionar. Porque é tudo muito frágil. O pensar é frágil. O devaneio é forte. Eu sou filho de um senhor que foi metalúrgico a vida toda. E de uma senhora que foi rodomoça, servia cafezinho nas viagens de ônibus. Depois, foi empregada doméstica no Rio de Janeiro. Depois, lavadeira. E, com 40 anos de idade, voltou a estudar. E era benzedeira do bairro por mais de dez anos. E hoje tem mais de oito títulos. Então, essa incógnita já existe no seio de minha família há muitos anos.

E você?

Eu sou o mais fraquinho da turma. Cresci em um ambiente extremamente hostil, no extremo sul da Zona Sul da cidade de São Paulo. Vi gente morrer na minha frente, de morte matada. Vi amigos me estenderem a mão em um pronto-socorro do meu bairro – eu sabendo que a pessoa ia morrer. Precisei de hospital público e não tive. Senti dor, passei fome. Mas lhe digo isso com coração aberto, não para glamourizar uma história. Eu lhe digo isso para implorar às nossas autoridades que não deixem isso acontecer.

Você acha que a situação está melhorando?

Não. Nós nunca vamos ter o número real de quantas pessoas são assassinadas. Nós nunca vamos ter o número real de quantos pais de família perderam seus empregos. Nós nunca vamos ter o número real de nada. Porque saber das coisas é um poder absurdo. Por isso que nossa juventude está na rua. Meu amigo, você pode assassinar uma pessoa dando um tiro na cabeça dela. Mas também pode assassinar uma pessoa acabando com toda a sua ideologia.





Você considera que seu primeiro disco foi devidamente compreendido?

Eu não tenho a pretensão de que as pessoas me compreendam. Isso aí é se achar demais. Meu desejo é dividir o meu pensar. Isso para mim já é tudo. O que vai acontecer é da natureza. Meu desejo é que as pessoas me permitam esse processo de comunicação – que nem sempre é comunicação, porque eu me expressar não significa que eu me comuniquei.

Eu tenho a impressão que você cria essa comunicação não apenas com as ferramentas lógicas e racionais, mas também por meio da intuição. Uma comunicação entre o seu inconsciente e o das pessoas.

Acredito que exista intuição. Mas também existe o sol quando bate na sua pele. Você sente o calor. Do mesmo jeito que existe dor quando um cassetete lhe pega a costela. Existe intuição e existe reação. Não no sentido de um rancor, mas no sentido de dar a volta por cima. Sou filho de cearenses que fugiram, no início da década de 70, da seca e da fome. Chegaram aqui em plena ditadura e foram morar em um porão. Existe, então, viver a sua realidade em sua cidade. Existe você envelhecer em sua cidade. E existe tentar compreender o porquê de algumas coisas, embora a gente nunca vá saber, porque é a mesma coisa que achar a galinha dos ovos de ouro. Somos não sei quantos bilhões na nossa espécie e sabemos também que são de cinco a dez corporações que mandam no planeta. E eu vou morrer, meu neto e meu bisneto vão morrer, e isso não vai mudar. Ou será que vai mudar? Mas o que é que muda? E quem muda? É a mesma coisa que você reclamar do tempo sobre suas rugas. O tempo está parado, é você que passa.

O disco novo está pronto?
Não.
Mas está bem encaminhado? Ou ainda está na sua cabeça?
Muita coisa na cabeça. E muita coisa na mente. Porque eu acho que “cabeça” e “mente” são compartimentos diferentes no mesmo espaço físico. Na mente, talvez pelo processo de ainda mastigar algumas coisas. E, na cabeça, com algumas coisas já mastigadas, outras por mastigar e outras que iremos cuspir. Muita coisa na cabeça: as canções antigas do Ainda há tempo[álbum de estreia], do Nó na orelha, e as canções que _z de três anos para cá. E sempre me perguntando: “Será que realmente existe a necessidade. De quem é a necessidade de outro disco?”

Não é uma necessidade sua?
Eu tenho vontade de dividir o meu pensar. E o meu pensar vem musicado. Mas o que isso representa para tudo o que está em torno da música? Para tudo o que está em torno de quem vive música e de quem trabalha com música? Aí, é outra questão. Eu tenho o desejo de dividir o meu pensar. Enxergar um artista em um CD é muito pouco. Para cada compositor, para cada músico, para o vocalista existe um universo. Um universo que gira em torno desse ser. E ele, por si só, já é outro universo.

Você criou uma relação, inclusive afetiva, com outros nomes que fizeram a história da música e da sociedade brasileira, como Milton Nascimento e Caetano Veloso. Como essa relação se dá?

São pessoas extremamente generosas, inteligentes, doces. A sensibilidade fez com que eles passassem por décadas, e todas as gerações, de um jeito ou de outro, não perdem contato com eles. Eu sempre procuro preservar o pouquinho de colegas que tenho. Fico na minha. Olha, cara, vou te falar um lance: estou tentando entender o que está acontecendo. Que maravilhoso isso das pessoas me darem a oportunidade de eu me manifestar. Porque é o povo que põe a comida na minha mesa. Porque, até então, com 30 anos de idade, eu vivia dependendo da minha mãe e do meu pai. Por isso que eu fiz [canta]: “Eu não tenho casa/ Eu moro em casa de mãe”. Por isso eu fiz: “Às quatro da manhã ele acordou / Tomou café sem pão e foi à rua por o bloco pra desfilar / Atravessou o morro”. E eu não estou falando só de dinheiro.

Graças a sua visibilidade, outros artistas ligados a você também se tornaram mais visíveis, como foi o caso de Kiko Dinucci, Pagode da 27, Rodrigo Campos…
[interrompendo] O Rodrigo Campos. Eu queria deixar sublinhado isso. Que saia na matéria. O Rodrigo Campos é de uma elegância pungente. Mas eu também queria sublinhar aqui um cara muito especial que eu tenho guardado no meu coração. E que é um grande artista: o [saxofonista] Thiago França. Ele ultrapassou a barreira do instrumento. O Thiago França por si só é um instrumento.


O Thiago já estava com você no começo dessa transformação, quando você decidiu que ia parar de fazer música e registrar um disco de canções, por brincadeira…
Ele é maravilhoso! Marcelo Cabral, esplendoroso. Daniel Ganjaman é esplendoroso. Eu tenho o luxo de andar com esses caras. Tem o Mauricio, fundador do Mestre Ambrósio. Quando eu subo no palco e faço referência a esses caras, tem gente que acha que eu estou fazendo média. Mas é porque não conhece a história de vida de cada um deles. Do mesmo jeito que eu falei que sou café com leite lá em casa, eu sou café com leite quando subo no palco. Eu tenho o [guitarrista] Guilherme Held, que é pupilo do Lanny Gordin [guitarrista dos discos tropicalistas]. O negócio é pesado. Estou falando de Lanny Gordin! E você sabe muito bem quem é Lanny Gordin e sua importância.

Quem mais?

Kiko Dinucci é um dos grandes escritores de nossa geração. E, ao mesmo tempo que Chico [Buarque] me acena, Mano Brown está no meu DVD. Pô, cara, eu peço desculpa então se está todo mundo errado. Mas, ao mesmo tempo, eu não quero glamourizar isso. Eu não quero paetês.

Sua mãe é benzedeira. Tem um Deus aí envolvido. Como ele chega a você?
Tem um Deus. Mas e se for com outro nome? E se fosse pedra? E se fosse luz? E se fosse gelo? Minha guerra já está comigo, é interna: [canta] “Pare de correr pra aprender a andar/ Eu falei demais / Pare de falar pra poder dizer / Que eu cuspi no amor / Pra depois de amor vir a padecer / Eu reclamei demais e aprendi a viver depois que morri / E fui pro inferno bater um papo com o cão / Onde ele disse que não era pra eu estar ali / Mas como assim, então? / Gelo no inferno eu colhi / E corri / Corri demais”. É uma dízima periódica, porque a vida é isso. Nossos questionamentos são dízimas periódicas porque fazem parte da essência da fome da alma humana. Se é que o humano tem alma. Porque nós somos uma espécie no meio de 300 milhões de espécies e estamos acabando com tudo. Será que a gente tem alma? Por isso que digo que dessa ponte que você disse que eu construí, eu estou na água. Mergulhei e tenho inveja dos peixes.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Com canções de Chiquinha Gonzaga, espetáculo chega a Curitiba

Silvana Marques/Divulgação / O espetáculo tem apresentações nos dias 9 e 10 de agosto, no Teatro Guaíra O espetáculo tem apresentações nos dias 9 e 10 de agosto, no Teatro Guaíra
publicado: gazeta do povo

A comédia musical “Forrobodó - Um Choro na Cidade Nova” tem apresentações nos dias 9 e 10 de agosto, no Teatro Guaíra.
O espetáculo que teve sua última encenação, em 1995, ganhou uma nova montagem em julho deste ano.
Na versão anterior, procurava-se reconstituir o estilo ingênuo e pitoresco de uma época do teatro carioca, agora, o musical está renovado e mais musical.
Do musical participa a atriz Juliana Aves.

Em Cartaz: O Samba

Em cartaz apenas hoje em Curitiba, documentário investiga a mais brasileira das manifestações culturais
Divulgação / Martinho da Vila conduz a narrativa do longa franco-suíço
publicado: gazeta do povo - 28-07-2014

A música tem lugar fundamental na produção do documentarista franco-suíço Georges Gachot. O Samba – em cartaz no Espaço Itaú, em Curitiba , às 19 horas, dentro da Mostra Imovison 25 Anos– é seu terceiro filme sobre a música brasileira depois de Maria Bethânia: Música É Perfume (2005) e Rio Sonata (2010), com Nana Caymmi. O documentário mostra o samba sem cair nos lugares-comuns. Com proposta abrangente e tom de reportagem, o gênero musical é apresentado enquanto cultura, linguagem e estilo de vida.

Muito além da sensualidade da dança, observa outros aspectos do fenômeno, dando destaque às letras, à dimensão social, à melancolia.

Gachot faz de Martinho da Vila o condutor da narrativa e esboça, de passagem, um retrato do cantor e compositor. Martinho brilha pela espontaneidade e pelas observações precisas que faz sobre o gênero musical e sua história. Enquanto isso, canta músicas com aquela voz inconfundível, mansa e cheia de meneios.

Intérpretes como Ney Matogrosso, Leci Brandão e Moyseis Marques dão belos depoimentos. Apesar de a escola de samba Vila Isabel ser outro foco da reportagem, o Carnaval não ocupa o centro das atenções. Gachot percebeu que o samba ultrapassa o hedonismo carnavalesco e insistiu em mostrar a escola como um microcosmo, como o lugar em que o samba é parte da identidade das pessoas.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pra Refletir: O Rappa - Tribunal de Rua


A viatura foi chegando devagar
E de repente, de repente resolveu me parar
Um dos caras saiu de lá de dentro
Já dizendo, ai compadre, você perdeu
Se eu tiver que procurar você ta fudido
Acho melhor você ir deixando esse flagrante comigo
No início eram três, depois vieram mais quatro
Agora eram sete samurais da extorsão
Vasculhando meu carro
Metendo a mão no meu bolso
Cheirando a minha mão.

De geração em geração
Todos no bairro já conhecem essa lição
Eu ainda tentei argumentar
Mas tapa na cara pra me desmoralizar.

Tapa na cara pra mostrar quem é que manda
Pois os cavalos corredores ainda estão na banca
Nesta cruzada de noite encruzilhada
Arriscando a palavra democrata
Como um santo graal
Na mão errada dos homens
Carregada de devoção.

De geração em geração
Todos no bairro já conhecem essa lição.

O cano do fuzil, refletiu o lado ruim do Brasil
Nos olhos de quem quer
E me viu o único civil rodeado de soldados
Como seu eu fosse o culpado
No fundo querendo estar
A margem do seu pesadelo
Estar acima do biótipo suspeito
Mesmo que seja dentro de um carro importado
Com um salário suspeito
Endossando a impunidade a procura de respeito.

Mas nesta hora só tem sangue quente
E quem tem costa quente
Pois nem sempre é inteligente
Peitar um fardado alucinado
Que te agride e ofende para te
Levar alguns trocados
Era só mais uma dura
Resquício de ditadura
Mostrando a mentalidade
De quem se sente autoridade
Nesse tribunal de rua.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Mano Brown:“Eu questiono porque não basta ser”

publicado: revista Cult



Foto: Daryan Dornelles

CULT: Qual sua memória musical mais antiga, o primeiro som que lembra que bateu forte quando era moleque?

MANO BROWN: Acho que foi aquele som que eu fiz “Vida Loka − Parte 1” [musica do disco Nada como um dia após o outro dia, de 2002] em cima, do Liverpool Express, “You are my love”. É um som que lembro que gostei há bastante tempo.

Que idade você tinha?

Tinha uns seis anos, estava no colégio interno, por isso que eu lembrei.

E que tipo de som rolava na sua casa? Era uma casa musical?

Na minha casa não tinha aparelho de som nessa fase, e eu estava no colégio interno. Quando voltei pra casa, minha mãe tinha um dois em um, era AM e toca-discos, pequenininho. Faz tempo isso aí… nos anos 70 a gente não tinha quase nada.

Com quantos anos você voltou pra casa?

Com oito e meio, quase nove.

E que extrato tira desse período de colégio interno?

Eu tenho TOC de arrumação até hoje [risos]. Se o tênis estiver torto, tenho que arrumar. A roupa, a toalha, a roupa de cama, tem que estar tudo dobrado. É herança de lá isso aí.

Por que o Pedro Paulo decidiu virar rapper?

Não foi bem uma decisão, começou como uma brincadeira. Eu estava sem fazer nada, desempregado e tal, e não tinha nada que chamasse a atenção de ninguém também. Quando começou essa onda de rap, nos bailes, a gente começou a ouvir falar nas rádios, e ouvi falar que estava tendo um concurso, mas não participei. Só fui participar do terceiro concurso, quando fiz minha primeira letra. Era uma grande brincadeira, coisa de festa, de moleque. Uma coisa de você poder subir no palco e chamar a atenção das minas, no máximo; não tinha uma pretensão de “ah, vou fazer a revolução”. Com dezessete pra dezoito anos você não pensa nessas coisas, não naquela época.

Quanto tempo depois surgiu o Mano Brown pra valer?

Não muito depois… Eu também não tinha muito a perder, e nem tinha pra onde ir, certo? Com a terceira música que fiz ganhei um concurso no salão, e despertou uma certa cobiça a partir daí, de pensar um pouco maior. Ganhar o concurso era pouca coisa mas também não era nada. Depois a gente estava na São Bento [estação do metrô de São Paulo que foi berço do hip hop brasileiro no final dos anos 1980] e fomos convidado pra entrar no lugar de um cara que tinha faltado na gravação de uma fita demo. Eu cantava sempre no latão da São Bento, comecei a fazer fama ali, aí o cara da demo chegou perguntando: “Quem são os caras do Capão que rimam pra caralho?”. Aí apontaram pra mim e foi assim que aconteceu. A gente foi num apartamento no Edifício Copan e chegando lá estavam o KL Jay, o Edi Rock, Os Gêmeos, que eram uma dupla de rap [famosa dupla de grafiteiros paulistanos], e a gente gravou aquela demo, que não foi pra frente. Na época eu cantava com o Ice Blue, e o Edi Rock e o KL Jay eram uma outra dupla.

E sua mãe? No começo ela gostava?

Escondi da minha mãe um bom tempo. Aí passou um tempão, apareci em casa com um disco gravado e mostrei pra ela, que nem sabia que eu cantava.

Você já tinha parado de estudar nessa época?

Já tinha. Fazia tempo.

Então não é que você estava trocando uma coisa pela outra…

É. Eu podia estar fazendo coisa errada, né? Daí eu fui gravar música. Quando minha mãe viu minha cara no disco, ela não acreditou.

Você achava que o Racionais chegaria onde está ou foi muito além?

Foi além, mas eu sabia que ia ser foda. Eu sabia como ia cantar cada ideia, tal batida, como ia parecer o som, só não sabia que ia ficar do tamanho que ficou. Eu sabia que quando a gente chegasse com aquela ideia, seríamos os primeiros, e que quando as pessoas parassem pra ouvir, não iam largar mais. E foi assim, mas não que nem é hoje, que realmente às vezes me assusta. Não esperava mesmo… mas lá atrás, em 90, sabia que não tinha ninguém como nós no Brasil. A gente não era nada mas a gente era diferente de todo mundo. Eu sabia que se levasse a sério, se desse continuidade, poderia ser alguma coisa, tinha essa noção.

E quanto tempo depois começou a ganhar dinheiro?

Eu vi dinheiro mesmo com “Homem na estrada”. Antes disso era couro de rato, trocando moedas. Os carros quebravam pra caralho, tudo o que ganhava, gastava. E o Brasil era difícil também. A gravadora era pequena, a gente vivia com problema financeiro sério, que nem o Santos [Futebol Clube, time do coração de Brown]. Quando lançamos “Homem na estrada” e “Fim de semana no parque” [do disco Raio-X Brasil, de 1993] que realmente virou outra coisa. Foi quando a gente mudou os temas, parei de falar só do movimento negro pra falar mais da periferia. Aí já estava perto do que calculei. Não onde está hoje, mas “Homem na estrada” estava perto do que eu calculei naquela época. Eu morava num barraquinho aqui nessa rua, numa casinha de um cômodo e meio. Um dia saí na rua e estava tocando “Fim de semana no parque” em três casas diferentes. Minha música… na minha rua… Alguma coisa estava errada, entendeu, ou estava começando a ficar certa. Ali cresceu.

E como vocês estão planejando comemorar os vinte e cinco anos do Racionais?

Eu não pensava em comemorar nada, mas também sou obrigado a reconhecer que vinte e cinco anos são vinte e cinco anos; vinte e seis já é outra fita, não é a mesma coisa. Então vamos comemorar, tá bom.

O disco novo do Racionais sai este ano ainda?

Eu tenho muita música fora do Racionais, e talvez tenha que apelar para esse arquivo para colocar no disco do grupo. Tem bastante música para o meu disco solo, algumas servem para o Racionais, mas vai contrariar muito a lógica.

Por quê? Seu disco solo está indo por outra linha?

Não quero ficar chato, morou?

Tem previsão de lançamento?

O Racionais está na frente, tem prioridade no momento. E o Racionais exige um pouco mais, vai precisar dar uma atenção.

Os outros integrantes do grupo também têm seus projetos solos. É bom pro Racionais em que sentido?

Fortalece o individual, fortalece a pessoa. E grupo é uma parada ótima para você esconder falhas também. Todo mundo é capaz de se sustentar fora do grupo. É bom isso, essa independência dos quatro.

E como está o esquema de produção hoje? Está mais fácil trabalhar, produzir, gravar, fazer show desde a abertura da Boogie Naipe Produções [escritório próprio criado em 2009 para cuidar da produção do grupo]?

Está mais organizado. Mais fácil não, a luta é a mesma, mas com mais organização você consegue enfrentar os adversários mais fortes. Os resultados são melhores. Por exemplo, a gente fez duas festas no Rio de Janeiro, na Fundição Progresso, com cinco mil pessoas cada. Mas a gente podia se foder também, podia não ir ninguém, mil pessoas só, fracasso. E fracassar no Rio decreta o fim, porque é dali para frente. Igual a São Paulo. São cidades formadoras de opinião, e só com organização você consegue fazer isso acontecer. O Racionais foi vítima de muita desorganização ao longo dos anos.

A ideia de centralizar é justamente pra não passar nervoso na mão dos outros?

Para organizar, na verdade. É um trabalho, eu gostaria que fosse aquela liberdade do começo, mas na verdade os tempos mudaram. Tem muita gente que espera por mim e espera de mim.

Isso te cansa? Às vezes queria ser só o Pedro Paulo?

Queria te responder com sinceridade, deixa eu pensar [pausa]. Às vezes sim, mas o Pedro Paulo talvez não estivesse vivo se não fosse o rap, então também não posso ter essa ingratidão. O Pedro Paulo está vivo até hoje por causa de rap. Quando eu conheci o rap, o Pedro Paulo estava fadado a morrer. E na verdade o Pedro Paulo nunca deixou de existir, mas ele poderia ter morrido em 1988.

No sentido de “era o rap ou o crime”?

É, exatamente. Não tinha para onde correr. O crime já estava virando uma coisa normal – meus amigos faziam parte daquilo. E, mano, se você vê os amigos em quem confia no barato, você acaba entrando. Se a primeira dá certo, você quer ir na segunda e aí você vai ficando frio, desacreditado, essa é a circunstância.

Você está mais confortável na posição de referência pra molecada da periferia…

Tem outras referências. Eu posso ser uma, mas tem muitas outras. Mais de cem, mil.

Isso te incomodava antes. Está mais tranquilo hoje em dia?

Não é que me incomodava, eu não gosto é da cegueira. Você tem que estar com a visão 3D, entendeu? Todas aquelas ideias do começo dos anos 1990 foram muito importantes, elas são importantes, mas dali pra frente é cada um com seus problemas. Não pode ter esse negócio de grupo de rap ser ONG. A responsabilidade é de todos. Cada um tem que ter responsabilidade sobre si, então se a gente ficar nessa ideia de paternalismo de novo, “ah, vem que eu te ajudo, te dou cesta básica, te dou leite…”, isso aí é o que já se faz. Isso está errado, entendeu? Tira as pessoas da condição de igualdade… A condição de igual, de se sentir igual, é que traz liberdade às pessoas. Mesmo que esteja duro, não posso me sentir menos do que você porque me deu um quilo de açúcar, que merda… Não tinha que estar ninguém dando açúcar pra ninguém. É o mínimo que tinha que ter.

Seu processo de composição mudou nesses vinte e cinco anos?

Eu componho aqui, com vinte caras fumando maconha e conversando junto. Já compus muita música também na cama da minha casa, sozinho. Componho de qualquer forma.

Mesmo com bagunça?

Bagunça vira música para mim, vira letra.

Você está satisfeito com as coisas que conquistou até agora?

Eu não sei o que eu conquistei. Eu sei o que eu fiz, eu estou bem, não me arrependo de nada não.

E no profissional?

No profissional dava para ter crescido mais, dado um passo além, mas era tudo muito atrasado, muito difícil aqui no Brasil. Era tudo muito turvo. Não tinha uma grande proposta que me confortasse. Tudo o que foi me oferecido ao longo da minha carreira foi perigoso. Não vinha dinheiro de uma fonte boa, tudo de fonte que eu não queria acumular.

Agora seria uma boa hora para…

Ó parceiro, vou te falar, hoje em dia já não penso nisso. Penso que eu preciso trabalhar, certo? Trabalhando eu como, bebo, durmo, visto e já era. Eu não penso na carga, no símbolo, no status de ficar rico. Mas sempre existiu essa possibilidade, e se eu não estou é porque não dei a atenção devida. Houve condições, mas não era aquele dinheiro que me orgulharia de ter ganhado. Eu prefiro vender sapatos, vender calça jeans, vender pão.

Trabalhar com coisas mais palpáveis?

Coisas que não sejam filosóficas, nem ideológicas.

Viver de arte é sofrido?

Não deveria ser. Por exemplo, se eu fosse um sambista, viveria de arte sem muita dor de cabeça, arte pela arte, e é muito respeitável por sinal, tá ligado? Como é o Fundo de Quintal, o Zeca [Pagodinho], o Revelação. São muito respeitáveis e não vivem nessa rota de colisão com filosofia. Eles vivem filosofias próprias, não deixaram que ninguém se apoderasse deles. Eles não quiseram ser a luz da humanidade. Houve ali um momento que foi colocado que o rap que tinha que ser a luz da quebrada, a luz da periferia, a luz dos caras. Uma coisa que veio de fora para dentro, que não foi denominada por nós. A mídia falou, a imprensa falou, os fãs falaram. Eu sempre gostei mais de ser o bandido do que ser o líder nas minhas músicas. Mais como um ombro do que como um mentor. Nada de ser mentor, sempre quis ser ombro, braço. Sempre quis ser braço.


Mano Brown durante o show do Racionais MC's na Virada Cultural de 2013 (Foto: Mumu Silva)

Você acha que isso podou o rap de certa forma, tirou a liberdade de experimentar outras coisas?

Sim, mas politicamente era prioridade na época. O rap foi usado, e o Racionais de certa forma também foram.

Com todo o cuidado que vocês tinham?

É, fomos usados pela revolução, pela causa, a gente se deixou usar, entende?

E os frutos disso nem sempre são bons?

O fruto disso é a oposição, hoje aparece uns caras dizendo que a gente é do governo, porque a gente participou daquilo que era uma prioridade na época. Hoje em dia eu não sei se é prioridade. Não sei se é prioridade reeleger o PT. Não é uma coisa que a gente está ali de corpo e alma, mas na época era. Faça ou morra, tá ligado? Era isso, questão de prioridade, de praticidade. Era necessário pôr alguém lá que falasse algumas coisas que a gente pensava, e esse alguém era o Lula.

E agora?

Agora somos acusados de ser “governo”. Eu já sabia que isso ia acontecer. Lógico que não esperava que viesse do Lobão, que era um cara que estava do mesmo lado naquela época. Eu não sei o que revoltou ele, com certeza não fui eu, não devo nada pra ele. Não faço parte do governo. Eu participei porque era prioridade para o povo negro que o Lula ganhasse.
E agora não é mais prioridade o PT ganhar?

Não, já não é prioridade. Eu acho que as pessoas têm o direito de questionar mesmo. Eu não vou me deixar cair nessa, de defender antigas filosofias. Eu acho que filosofia existe para ser questionada.

O Lula foi bom nos oito anos que ele…

Foi muito bom.

Por quê?

Eu acho que o mundo precisava disso, e o Brasil experimentou isso. O Obama ganhou lá; e o Lula tinha ganhado aqui, certo? Depois uma mulher foi presidente. Mudanças drásticas! Num país machista uma mulher ganhar. Num país racista um negro ganhar. Aí o Lula, que era um cara limitado, semianalfabeto − tinha essa lenda que o Lula era analfabeto − ganhou. Era impossível o Lula ganhar, entendeu? Ele tinha perdido três eleições direto. Eu participei de todas. Era prioridade o Lula ganhar porque em 2002 era outro Brasil. Era prioridade. Tinha que ganhar. Era vital.

E qual deveria ser nossa prioridade política agora? Isto é, a do povo que quer mudança.

O povo tem que tomar cuidado para não ser manipulado nesse ímpeto político. Querer mudança é muito importante, mas tem que tomar cuidado para não ser manipulado. Porque, realmente, o povo quando quer, muda mesmo. A lição que eu tirei dos protestos do ano passado foi a que existe um povo. Existe um perigo, que pode realmente invadir Brasília. Pode acontecer. Era uma lenda que você imaginava rolar na Argentina, mas no Brasil nunca. E o Brasil mostrou que se quiser, faz. Então é bom todos ficarem bem espertos com isso. Mas tem que tomar cuidado para o povo não ser manipulado, tirar um do cargo pra colocar outro no lugar, virar massa de manobra. Como o Racionais também pode ser, se nos deixarmos ser, entendeu?

Cada vez mais esportistas e artistas estão indo pra Brasília, se envolvendo na atuação política direta. Acha que é um caminho possível ou existem outros interesses envolvidos, como dinheiro?

Eu não acredito que ninguém faça mais nada só por dinheiro. Não é só o dinheiro que conta hoje. É influência, é fazer parte. As pessoas estão lutando pra fazer parte das coisas, né? Nos dias de hoje as lentes estão viradas para essas pessoas mesmo. Então está todo mundo olhando para elas, e a informação é muito rápida. Ter um dinheiro indevido na mão é muito perigoso para qualquer um: pra rapper, pra sambista, pra jogador… Não é só o dinheiro. É estar perto. Os cara chamam de network. É o caldeirão da bruxa. É o lobby, a antiga panela. Eu tenho um pouco de receio disso. Nunca quis estar perto do governo por isso. Fui chamado para muitas reuniões do governo e nunca fui em nenhuma. Não foi pra não se misturar mesmo… É que meu lugar não é lá, entendeu? Mas eu não escondo: a gente se posicionou a favor da eleição do Lula e ficou marcado por isso. Porque o Lula ganhou, fez a diferença e muita gente não gosta do que ele fez. Esses dias eu vi na internet: “É, o Mano Brown votou na Dilma!”. Eu votei na Dilma mesmo. Eu acho que oitenta e cinco porcento da população na época votou na Dilma, mas tem quarenta porcento que vai dizer agora que não votou… Como assim?

E votaria na Dilma de novo?

Questionaria. Ouviria os que estão em volta de mim. Eu ia parar para ouvir.

Em 2007, no “Roda Viva”, você disse que a maioria já estava a favor do povo, que a periferia é a maioria. Eu queria saber de você o que é que falta ainda? Se envolver em Brasília, criar um partido político?

É fazer muito mais fora de Brasília. A sociedade civil, as pessoas, os trabalhadores, os formadores de opinião, os jornalistas, os que fazem, os que escrevem, os que emitem opiniões, que têm contato com o público, eles têm força pra fazer o que o governo não faz. Verdade reta? É isso que tem que ser feito. Todo mundo sabe da sua obrigação. Esperar do governo é ultrapassado. Eu acho que o que tem que fazer é exigir do governo, não esperar. Se a sociedade souber o que quer, dificilmente vai ser enganada. Eu acho que o brasileiro flerta com muita coisa e não sabe exatamente o que quer. O brasileiro acabou de se descobrir, está consumindo pra caralho, está vivendo um momento que nunca viveu, entende? Se a sociedade quer mesmo lutar por hospital e escola, por que não se organiza pra pressionar o governo? Por que sobra para alguns caras, alguns estudantes, reclamarem disso? Porque o restante está acomodado.

Mas às vezes não é só uma faísca que precisa para fazer o acomodado se mexer?

Ah! Mas já tiveram várias faíscas. Está tendo faísca agora. Deve ter alguém que tá com o pé na vitrine agora, em algum lugar da cidade.

Mas não gera pressão?

É, tá, mas é isso mesmo? É hospital e escola? Ou são outras coisas e os cara querem pressionar o governo pra tumultuar? Qual o setor da sociedade que está preocupado com hospital e escola mesmo?

Você sentia que as manifestações batiam aqui? Que a molecada da periferia se ligava?

Olha, foi meio confuso… A gente ficava falando sobre isso aqui, se era certo ou não, se ia participar ou não. No começo parecia ser uma coisa bem clara, depois virou de muitos interesses. Muitas insatisfações até. Isso mostrou que o governo não estava tão bem quanto a gente pensava. Mas muitos motins pré-organizados surgiram, esperando pra poder pegar essa carona, e um movimento inocente foi manipulado.

A que conclusão vocês chegaram?

Que estava sendo manipulado. Que existiu uma pureza no começo, mas tinham manipuladores também. Nunca foi fácil, né?

Mas não é melhor isso do que nada?

Lógico. Para acordar, né? Acordou os que achavam que estavam protegidos… Se o povo quiser e tiver uma boa causa, ele vai pra rua e toma. Deu para ver isso. Agora, que não seja para agradar um setor, para tirar um do governo e colocar outro que é igual no lugar dele. Você vai continuar sendo peça.

O que você está achando do pleito desse ano? Acredita em algum candidato?

Eu vou aguardar um pouco…

Conversa com seus filhos sobre isso?

Meus filhos têm opinião formada. Inclusive, acho que eles são até mais informados do que eu sobre política. Eles estudam, né? Estão sempre em contato com estudantes… E no meio que a gente vive é fácil de se alienar, então ter dois filhos estudantes, traz informações a que você não tem acesso.

Como você separa o Pedro Paulo do Mano Brown dentro de casa?

Não existe mais separação… Eles são a mesma pessoa. O Pedro Paulo sem o Mano Brown não estaria vivo, já te falei isso. Eles têm que aceitar o Mano Brown de igual. É a mesma coisa. Eu consigo viver bem esse barato aí. É suave. Eu sou um cara comum em qualquer lugar, não só dentro da minha casa. Eu tenho minha opinião formada, e a teria de qualquer forma. Eu não pago de Mano Brown pra cima de ninguém.

Como a ausência da figura paterna influenciou sua vida?

Ah, aprendi a me defender bem… e que a vida é uma guerra. Não tive quem me protegesse. Vi que eu não era perfeito mesmo, por causa disso, né? Já tinha defeito na raiz. Então eu teria que me ajeitar na vida para ser alguma coisa, para conseguir alguma coisa. Eu tinha que melhorar muito como pessoa. Sempre soube que eu tinha muito defeito.

Você acha que isso te deixou mais arisco? Ou mais ressabiado com as coisas?

Não. Nem mais ressabiado nem mais arisco. Eu não sou nem tão arisco. Eu sou destemido. E não posso dizer que sou um cara ressabiado porque já fui traído. Eu sou um cara sem medo. Não tenho medo do futuro. Não tenho nem medo de ser traído. Eu só quero fazer o que eu faço e já era. Não tenho medo de nada.

Você já pensou em procurar seu pai? Como é que é isso pra você?

O meu pai talvez nem esteja mais vivo, né? Já faz tempo. Acho que meu pai não está vivo há muitos anos.

E isso influencia na criação dos seus filhos?

Meus filhos já nasceram numa casa com pai e mãe. Pai e mãe vividos, de vida sofrida mesmo. Então a gente soube mostrar pra eles que a vida não era um mar de rosas, que é difícil. Minha casa nunca foi de luxo, de coisas caras. É uma casa comum. Se você entrar na casa de qualquer pessoa aqui, é igual. Tem televisão, geladeira, sofá. Então eles foram criados de forma bem comum mesmo. Não teve esse lance de Brown.

Mas você faz questão de deixar o canal da comunicação aberto, especialmente com seu filho?

Eu falo com meu filho do mesmo jeito que eu falo com você. De homem pra homem. Minha filha sim, eu já trato com um pouco mais de cuidado, é mulher e tal… Mas ela é bastante inteligente também. É independente. Então tá suave.

Você pensa no futuro dos seus filhos?

Meus filhos têm que fazer as próprias vidas. Não penso no futuro. Eu não projeto as vidas deles.

Mas você se preocupa com o mundo que está deixando para eles, ou isso é problema deles também?

Problema deles também. Cada um com a sua missão. Não tem essa, eu aprendi que a gente tem que criar o filho para o mundo, e não para a gente. E tem que ser forte, que nem eu sou. Tem que ser guerreiro, saber que as coisas não são fáceis. Aqui é uma guerra.

O rap é um meio machista…

Mas está melhorando…

E muitas vezes quem segura a bronca são as mães, as mulheres, não é uma contradição?

O Brasil é machista, e o rap é retrato do Brasil. Feito para o brasileiro, certo? Machista. Ponto.

E você acha que tem melhorado por quê?

Porque as mulheres estão ocupando espaço. Não é que o homem está cedendo, ele está perdendo. A mulher está avançando. Mas quem cria os caras mimados, fracos, são elas, então as mulheres têm lá sua parcela de culpa dos caras serem assim. Elas estão ocupando espaço porque eles também não estão conseguindo segurar os ímpetos das mulheres. E as mulheres estão chegando. A nova ordem, né? Mulher liberta, né? Mulher moderna. Essa liberdade que estão loucas para ter, estão começando a construir agora.

E você acha bom ou ruim?

Acho bom. Sou a favor das mulheres! Desde que o mundo é mundo o homem esteve no comando da situação. Quem sabe com as mulheres mude. Mulher é mãe, é mais apegada à vida.

Acha que está na hora do rap nacional esquecer os Estados Unidos pra trilhar um caminho mais…

Difícil… Quase impossível.

Por quê?

Porque os Estados Unidos são a torre. O mundo está globalizado, então tudo tem influência americana. Não é só o brasileiro que segue, o mundo inteiro segue. E o negro brasileiro deve muito ao negro americano. Porque quando se fala de rap, se fala de negro, e foi baseado na postura do negro americano que o negro brasileiro começou a reivindicar coisas básicas.

A música negra americana é rica, mas a música negra brasileira é tão ou…

Mais… Mas aí é que está! O poder bélico. O negro americano sempre teve aquela postura combatível, passou a ter dos anos 1960 pra frente. Então isso serviu de inspiração para os negros daqui. Foi um canal pra trazer essa ideia de periferia também, de classe. Aí sai do quesito raça e vai pra classe. É praticamente impossível separar uma coisa da outra. Aí vira uma coisa politizada. Eu nunca abri mão da liberdade da música, de fazer música livre. Nunca gostei de ter que falar disso ou daquilo. Mas que serviu, serviu.

Lá atrás, você esperava gravar com o Jorge Ben um dia?

Esperava. Era uma meta. Eu quando quero uma coisa é foda.

No começo do Racionais vocês sampleavam o Jorge Ben, e muito tempo depois você gravou com ele. Acha que os grupos de hoje estão mais conectados com outros artistas? O Emicida gravou com os sambistas Juçara Marçal e Wilson das Neves recentemente, por exemplo.

É, mas o Emicida já vem com a grife de artista que a gente não tinha. O Emicida tem essa grife de artista. O cara é reconhecido pelos outros músicos. Ele foi reconhecido muito mais rapidamente do que a gente na época.

Mas por causa de vocês também, não?

Não. Por causa dele. Tem músicos da época dele que também ouviram a gente e não deram em nada. Foi inteligência dele. A gente não deu nada pra ele. Ele que aprendeu isso. Ponto dele.

Você acha que, com a ajuda da internet, ele conseguiu mudar o jogo do rap?

Ele é um bom jogador. É um cara que sobrevive, um cara forte, inteligente.

Nesse sentido, hoje, a música é mais democrática?

Completamente. Você consegue comunicar com as pessoas, com a sua rede. Eu sempre falei que periferia é massa, e essa massa existe, desde que você não negligencie e nem ignore, eles vão estar com você. É simples assim. Eu cantei para aquele povo que não tinha acesso à internet. Ele canta para o povo que já tem acesso à internet. Sou totalmente consciente da minha situação no jogo.

Gosta do disco do Criolo? Acha que ele é um cara que…

Inteligente.

Ele ter chegado em outros ouvidos acrescenta o que para o rap?

Ele não tem que acrescentar nada para o rap. Ele tem que acrescentar para as pessoas. O rap é só uma classe e eu não sou a favor de defender classes. O rap tem que servir e não ser servido. A gente não pode esperar, por exemplo, que quando o cara do rap chega lá em cima, que ele vá olhar para baixo e começar a ajudar. Não tem nada a ver! Não pode ser assim, não deve ser isso. Tem que ser forte o bastante pra chegar lá também. Não é chegar lá em cima e olhar para baixo para resgatar. Já está no trabalho, normalmente, o resgate.

Só de chegar lá, automaticamente já…

Automaticamente já vem um bolão de gente junto com você. Você já teve que construir para chegar lá. Você não chega lá e vai começar a resgatar um por um. Não dá para chegar lá assim.

Como é que você vê a indústria fonográfica no momento?

Existe um comércio sim, só que não é só a música, certo? Você tem que ter outras coisas para oferecer às pessoas. É som e imagem. Então já não é mais o fonográfico, já é um monte de coisa, já é uma calda longa. É a musica mais a imagem, mais a roupa, mais a pessoa, mais o posicionamento dela. É um monte de coisa. Já foi a época em que você vendia o CD e bastava. Hoje não basta mais. É muito pouco. Precisa de um monte de coisa. É um trabalho mesmo.

E vocês têm pensado nisso?

Tenho vivido isso. De 2002 a 2010 passamos uma crise profunda. Deu para aprender um pouco. Teve uma crise fodida, de realmente a moeda bater no fundo da lata. Da época, né? Eu vi o rap subir de novo de 2010 pra frente. Nesses últimos quatro anos foi o grande lance. Cresceu mais do que nos últimos vinte anos que antecederam.

Por quê?

Por essa visão profissional que está sendo instaurada agora. De que é um movimento estabelecido, de que tem que ser levado a serio, de que tem que ter compromisso com horário, organização. Não é só um discurso, não é mais aquele bagulho de adolescente. Agora são homens.

E tem uma história a ser respeitada…

Qual é o maior compromisso da “revolução”, entre aspas? É mostrar envolvimento, você pôr sua inteligência dentro dela, sua mão de obra, o conhecimento que você aprendeu naquela causa. Como é que você consegue mostrar isso? Quando a sua empresa vai bem, quando você paga as pessoas direito, quando você dá emprego para mais pessoas. Aí é trabalho! Não é movimento, onde um faz e fica um monte de gente sem condições de fazer nada. Tem que dar condições das pessoas fazerem para ganharem seu dinheiro. Esse é o momento que a gente está vivendo hoje. Essa é a maior evolução. Já não é revolução do discurso, das coisas abstratas, morou? É do trabalho. Se fosse no campo, seria enxada e terra. É na cidade. É trabalho. É envolvimento. É vida, sabe? E é ideologia também.

Então a expectativa para os próximos anos é boa?

Boa. Talvez melhor para os caras do que para mim, mas vai ser boa.

Melhor para o sangue novo que está chegando?

Com menos cobrança, menos questionamento. Uma visão mais ampla, mais livre.

Você sempre se questionou muito?

Eu questiono porque não basta ser.

Mas ultimamente você está mais de boa?

De boa mesmo nunca. Eu me questiono porque é fácil você parar no tempo. Então eu tenho que estar sempre procurando ser útil, né? Você tem que conseguir fazer sua parte, saber que muito mais gente vai ser beneficiada com aquela atitude que você tomou. Não uma atitude que vai fazer bem para você, encher seu ego. Então, o “revolucionário” tem que passar a ser útil. Parar de ser mentor dos comuns. Não! Vai crescer junto.
É essa revolução interna que você está passando agora?

É interna também, mas não é uma coisa que eu mudei. Nunca achei que o movimento tinha que ser uma ONG. Houve um momento em que a ideia da ONG era prioridade, mas na melhor oportunidade, o mais rápido possível, tem que deixar de ser ONG. É questão de sobrevivência. É que nem o lance de cotas. É polêmico, mas fundamental agora. Um dia vai deixar de ser. Vai chegar o dia em que o negro não vai precisar de cotas. As pessoas vão disputar a vaga de igual para igual. Naquele momento do rap era necessário ser uma ONG. Em 1992, não em 2014.

E a revolução vem de dentro?

Vem de dentro e de fora. A revolução está em volta de você. E dentro de você. Está acontecendo. Mas se você não fizer, alguém vai fazer de qualquer forma.

Esse novo momento do rap tem relação com vocês estarem mais abertos para falar com a imprensa?

Mas quem está mais aberto a falar com a imprensa?

Nós queremos te entrevistar faz tempo… É uma vontade não só da CULT, mas de toda imprensa…

Hoje mesmo eu fui convidado para fazer uma entrevista para o Estadão. E falei não.

A postura é a mesma de sempre ou…

Eu escolho com quem quero fazer e na época que quero fazer. Quando me é conveniente, eu faço.

Pode ser útil…

Considero útil. Mas eu sou imprensa também. Se quiser soltar uma nota agora eu solto, escrita por mim mesmo. Tenho cento e vinte mil seguidores no Instagram. Tem jornal que não tem tantos assinantes.

E serve para semear ideias?

Semear ideias eu já faço há muito tempo. Tem muita gente semeando ideias, todas dignas de serem ouvidas. Tem muita gente falando o que pensa e não é só o Brown, né? Senão vira chavão. Eu virei chavão dessas ideias, de ter que falar essas coisas. “É assunto de racismo? Chama o Brown.” De todas as palestras que teve sobre racismo nos últimos anos eu corri.

Mas mesmo assim o chavão continua?

É. Tem alguns encontros que já viraram chavão. Se eu for no movimento negro pra falar dos negros para os negros é fazer o de sempre. É fazer o óbvio. E dá pra viver de óbvio também, fingindo que está fazendo. Eu não quero isso, entendeu? Que evolução tem nisso? “Solta as músicas revolucionárias aí, Brown!” É assim? Oxe! Revolução é assim? Como assim? Tá louco? Não é assim não. Revolução de 2014 é o quê? É Regina Casé, tá ligado? Melhor programa [“Esquenta!”] da televisão brasileira hoje, querendo ou não. O movimento negro vai vomitar quando ler isso. É uma pessoa que vem lutando, vem disputando, vem acompanhando e chega um momento que faz um grande programa de TV, morou? Do jeito que as pessoas são, fazendo o que elas são, vivendo o que elas são. Não tenho vergonha de ninguém ali, tenho orgulho. Eu me vejo em todos eles ali.

O disco solo funciona pra isso, pra você se libertar?

Eu sou livre! Está fodido quem quiser me aprisionar. Quando falei que vou fazer soul music, vou fazer doa a quem doer. Não estou nem aí. Eu sou rebelado. Se falar de amor é rebelião, eu tô nessa, entendeu?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Divina Diva -Nina Simone

Nina em 1965
Informação geral
Nome completo Eunice Kathleen Waymon
Também conhecido(a) como Nina Simone
Nascimento 21 de fevereiro de 1933
Local de nascimento Tryon, Carolina do Norte
Estados Unidos
Data de morte 21 de abril de 2003 (70 anos)
Local de morte Carry-le-Rouet, Provence-Alpes-Côte d'Azur
França
Gênero(s) gospel, folk, jazz, R&B, soul,blues
Instrumento(s) voz, piano


Eunice Kathleen Waymon mais conhecida pelo seu nome artístico, Nina Simone (Tryon, 21 de fevereiro de 1933 – Carry-le-Rouet, 21 de abril de 2003) foi uma grande pianista, cantora e compositora americana. O nome artístico foi adotado aos 20 anos, para que pudesse cantar Blues, nos cabarés de Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City, escondida de seus pais( a mãe ministra metodista e o pai barbeiro). "Nina" veio de pequena ("little one") e "Simone" foi uma homenagem à grande atriz do cinema francêsSimone Signoret, sua preferida.

Nina Simone, quando jovem foi impedida a ingressar em um conservatório de música na Filadélfia, mesmo tendo afrontado o racismo e cursado piano clássico na severa Juilliard School, em Nova York. Também se destacou e foi perseguida por abraçar publicamente todo tipo de o combate ao racismo. Seu envolvimento era tal, que chegou a cantar no enterro do pacifista Martin Luther King. Casada com um policial nova-iorquino, Nina também sofreu com a violência do marido, que a espancava. E tudo isso, dizia ela, que tinha acontecido, as portas tinham se fechado, por ser negra.


Depois de fracassar na tentativa de ser uma grande concertista através do conservatório, Nina permaneceu algum tempo em Nova Yorque até ir para Atlantic City e, nessa cidade, trabalhando como pianista em um bar, foi obrigada a cantar para não perder o emprego, e tocar piano era o que ela fazia. Tornou-se Nina Simone, como se batizou naquela ocasião. Cantou músicas clássicas e imortalizou hits como "Feeling Good", "Aint Got No - I Got Life", "I Wish I Know How It Would Feel To Be Free", e "Here Comes The Sun", além de "My Baby Just Cares For Me" que gravou e foi trilha sonora de um anúncio televisivo de perfume francês.

Em um breve contato com sua obra, aqueles que não a conhecem percebem logo a diversidade de estilos pelos quais Nina Simone se aventurou, desde o gospel, passando pelo soul, blues, folk e jazz. Foi uma das primeiras artistas negras a ingressar na renomada Juilliard School of Music, em Nova Iorque. Sua canção “Mississippi Goddamn” tornou-se um hino ativista da causa negra e fala sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham em 1963.

Ao se apresentar num evento militar em Forte Dix, New Jersey, em 1971, em plena Guerra do Vietnã, Nina Simone deu voz àqueles que eram contrários ao conflito, quando cantou um poema em que Deus é chamado de assassino, após 18 minutos poderosos de My Sweet Lord, de George Harrrison.

Nina esteve duas vezes no Brasil, gravou com Maria Bethânia e seu último show ocorreu em 1997 no Metropolitan. Era uma intérprete visceral, compositora inspirada e tocava piano com energia e perfeição. Morreu enquanto dormia em Carry-le-Rouet em 2003.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Vida de Jimi Hendrix antes da fama chega aos cinemas

                                                                                    
O cantor Andre Benjamin como Jimi Hendrix no filme 'Jimi: All Is by My Side'
por*FERNANDA EZABELLA

Foi uma mulher branca, de sotaque inglês burguês e então namorada do Rolling Stone Keith Richards que instigou o tímido e nada ambicioso Jimmy James a virar Jimi Hendrix (e o levou a sua primeira viagem de ácido).
O impacto da modelo Linda Keith na vida do guitarrista americano domina o começo da cinebiografia de seus anos pré-fama, "Jimi: All Is by My Side", estrelado com incrível semelhança por André Benjamin, da banda Outkast.
"É como perguntar para onde eu iria se tivesse uma nave espacial, para Marte ou Vênus?", ele diz a Linda (Imogen Poots) ao ser questionado sobre o que faria se tivesse seu próprio grupo. "Minha voz é terrível", continua, em outra cena, ao se recusar a cantar. "A voz de Bob Dylan também é, e ele está indo bem", responde a amiga.
"Jimi: All Is by My Side", exibido no Festival de Los Angeles e com estreia prevista para setembro nos EUA, tem direção e roteiro de John Ridley, ganhador do Oscar pelo roteiro de "12 Anos de Escravidão", o qual também coproduziu. Ridley se interessou em fazer o filme há quase uma década, ao descobrir uma canção rara de Hendrix chamada "Sending my Love to Linda", que o inspirou a pesquisar sobre esta "mulher misteriosa".
Linda apresentou Hendrix (1942-1970) ao baixista Chas Chandler (Andrew Buckley), que deixou o grupo Animals para virar seu agente e o levar para a Inglaterra. A história corre em 1966 e termina com a volta aos EUA para o Monterey Pop Festival, em 1967.
Em Londres, Hendrix é questionado por Michael X por que só anda com brancos, rouba um show de Eric Clapton e causa ciúmes em Richards. Ele também aparece de bobs e batendo na nova namorada, a ruiva Kathy Etchingham, além de declamar discursos viajandões repletos de analogias com cores.
Benjamin, sem dúvida a melhor parte do filme, aprendeu a tocar guitarra como Hendrix, canhoto numa guitarra para destro (sua primeira, aliás, foi presente de Linda, com as iniciais de Keith Richards). Mas sua performance vem com uma desvantagem: a família de Hendrix não liberou nenhuma canção. No filme, ele canta Dylan, Muddy Waters, "Hound Dog" e "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".
Os administradores do patrimônio de Hendrix, liderados por Janie Hendrix (meia-irmã), são conhecidos pela rigidez e afirmam que só vão liberar as músicas quando tiverem participação total no filme. Por décadas, diversas produções acabaram engavetadas, como uma de Paul Greengrass, cinco anos atrás.
No mês passado, o projeto voltou à tona, mas com novo diretor à frente, o roteirista Ol Parker ("O Exótico Hotel Marigold"), que teria finalmente se acertado com Janie. Anthony Mackie ("Guerra ao Terror") fará o guitarrista na história sobre seus nove últimos dias de vida.
Publicado*: folha.com.br

domingo, 22 de junho de 2014

Para ouvir o Haiti

publicado: gazeta do povo - 21/06
Músicos haitianos fundaram em Curitiba o grupo Recif, que pretende mostrar a cultura do país por meio do compas, seu ritmo mais tradicional
Entre os muitos percalços que os haitianos vêm encontrando ao se instalarem no Brasil nos últimos anos, o não reconhecimento de suas habilidades e talentos pode ser o pior – pelo menos para os jovens músicos do Haiti que fundaram em Curitiba o grupo Recif, em janeiro deste ano.
A banda foi criada com um propósito defendido de forma apaixonada por seus 18 integrantes: mostrar, por meio de um gênero tradicional do Haiti, o compas, uma faceta cultural do país caribenho que a maioria dos brasileiros não conhece.
A ideia também é um desafio ao preconceito. “Há pessoas no Brasil que acham que os haitianos e o povo negro não conhecem nada, não têm nada de bom para oferecer. Por isso, nos tratam mal. Mas temos talentos escondidos”, explica Evens Mondesir, um dos cantores do grupo, que se apresenta neste domingo, às 19 horas, na Pulse.
O nome da banda vem da palavra recife, em francês, e é uma espécie de resposta a esse menosprezo percebido pelos haitianos. Na metáfora do grupo, o recife é o obstáculo que surpreende o navio de cruzeiro e o afunda. Em outros termos, é um fator que pega de surpresa alguém que se considera em uma posição de superioridade.
“Todo o povo haitiano é um recife. Se você conhecer a história da independência do Haiti da França, verá que somos o primeiro povo negro livre, que venceu o exército francês, o maior do mundo na época”, explica o guitarrista, compositor e arranjador Amos Saint-Juste, líder do grupo.
Compas
As armas do Recif, no entanto, são canções solares, dançantes, tocadas com alegria pelos seus integrantes, que já se conheciam no Haiti – a maioria é da região de Gonaives, cidade do norte do país. As letras falam de temas como amizade, como em “Mwen La Toujou”, uma das músicas tocadas pelo grupo, que também está criando suas próprias composições.
O compas é um gênero popular cheio de síncopas, derivado do méringue, um ritmo haitiano de raiz. Ficou conhecido nos anos 1950 por meio do músico Nemours Jean-Baptiste (1918-1985), e divide as atenções dos haitianos com a invasão do zouk, outro estilo caribenho de sucesso massivo, originário de Guadalupe.
No Recif, é tocado com guitarras (Saint-Juste e Elysée Succes), contrabaixo (Bertrode Darius), teclados (Gédéon Sajous e Abdias Marcelin), bateria (Harry Mervil e Mdjy Oscar) e percussões (Becken Noel, Claudin Presendieu e Dieucene Archelus). Completam o grupo os cantores Sonel Mondesir, Evens Mondesir, Daniel Felice e Berthony Pierre, além de Ezechiel Charles, Huguenson Jean, Pierre-Michel Jean e Reginald Elysee, em funções administrativas.
Os integrantes do grupo entraram no Brasil com visto, favorecidos pelo acordo diplomático firmado com o país caribenho. Têm ensino superior e trabalham em áreas variadas. O principal objetivo é viver de música. “Tem gente que vem para trabalhar na construção civil. A maioria do povo brasileiro pensa que todos vêm para isso. Mas também temos uma cultura para mostrar”, diz Saint-Juste, que estuda violão no Conservatório de MPB. “É isso que vamos explorar”, completa Evens.