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quinta-feira, 5 de março de 2015

Filme sobre Sabotage ganha sessões gratuitas em Curitiba e em várias cidades no Brasil

publicado: catraca livre
Exibições acontecem no Espaço Itaú de Cinema, nas unidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Curitiba e Salvador

Lançado no dia 23 de janeiro na cidade de São Paulo, em sessão que levou milhares de pessoas ao Parque Ibirapuera, o documentário "Sabotage: O Maestro do Canão" estreia no Espaço Itaú de Cinema de várias cidades do Brasil com entrada totalmente Catraca Livre. O primeiro dia de exibição acontece na quinta, dia 5, e segue até o dia 11 nas salas de cinema. Os ingressos são distribuídos uma hora antes de cada sessão.
O objetivo do filme é resgatar um pouco da singularidade musical e da versatilidade midiática de Sabotage, que se tornou admirado e querido em diversos meios e em pouco tempo se consagrou como um dos nomes mais importantes do rap nacional.
Costurando depoimentos de vários músicos e pessoas ligadas ao artista, o diretor Ivan lembra a figura essencial do rapper, assassinado aos 29 anos em 2003.
Espaço Itaú de Cinema - Curitiba
http://itaucinemas.com.br/pag/curitiba
Rua Professora Maria da Glória Saldanha Loyola, 731
Uberaba
Curitiba -diariamente de 5 (Qui) a 11/03 (Qua)às 19:40

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Em busca do equilíbrio, Criolo lança single e se diz feliz por estar vivo

Leonardo Rodrigues
Do UOL, em São Paulo
Robert Astley Sparke

Aos 39 anos, Criolo é um sujeito que prima pela gratidão. Dá graças ao rap, por ter lhe ensinado tudo na música, aos fãs, que abarrotam e dão ares messiânicos a suas apresentações, à chance de ter virado parceiro de ícones da MPB, como Milton Nascimento, Caetano e Tom Zé, e, principalmente, por estar vivo, em plena atividade.

"Segundo os noticiários do final da década de 1980, início da década de 1990, eu, um jovem que nasci onde nasci, com os pais que tinha, não passaria dos 13, por subnutrição, ou dos 17, por violência urbana. Isso para termos um pouco de poesia, para não falarmos de outra forma", afirma o músico, que recebeu a reportagem doUOL na sede de seu selo, Oloko Records, em uma pacata casa de vila na Vila Ipojuca, bairro da zona oeste de São Paulo.

Voz da renovação do rap na atualidade, Criolo lança nesta quarta (29) a primeira faixa de seu novo álbum, a incisiva "Convoque Seu Buda". Assim como versa na música, ele vive uma espécie de momento "zen", de busca constante pelo equilíbrio e pela comunhão das forças positivas. É essa a mensagem otimista por trás da faixa. Mas experimente dizer isso a ele.

"Isso aí é vocês que vão avaliar. A gente nunca sabe. Às vezes uma coisa que eu acredito que seja de um jeito você vai ouvir e enxergar de outro. Mas a ideia é de que todos nós temos uma força interna para gerar coisas boas", entende o mestre das rinhas de MCs e das relativizações.

Gravado logo após a Copa do Mundo, o terceiro disco cheio de Criolo dá continuidade às ideias do predecessor, "Nó na Orelha" (2011), que expandiu as fronteiras do rap e fez da antibalada "Não Existe Amor em SP" um hino contemporâneo. Os parceiros Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral ("sem eles o disco não existiria") estão novamente no comando da mesa de som –e também dos ensinamentos de vida.

Uma eventual responsabilidade de repetir o êxito do segundo disco é algo que simplesmente não pesa no ombros de Criolo. "É natural", como costuma sempre frisar. Com maior participação dos músicos, revela ele, o mix cederá espaço às rimas, ao reggae, ao samba, ao afrobeat e a tudo mais que caiba em seu intrincado --e por vezes indecifrável-- fluxo de consciência.

É um desafio cognitivo entrevistar a esfinge Criolo, que parece musicar a realidade até comentando sobre o tempo ou sobre si mesmo. "É muito louco. Porque cria-se a expectativa de que eu fale 'como eu estou bem' hoje. Mas, de dez anos para cá, o número de pessoas falando que eu sou extremamente estranho, errado, maluco, e tanta coisa que eu jamais imaginei de que eu seria taxado, aumentou. Então deixe que elas digam."

Leia os principais trechos da entrevista.

UOL - Quem é o seu Buda de "Convoque Seu Buda"? Por que convocá-lo?

Criolo - É uma paz interior. Procurar o equilíbrio, algo positivo dentro de você. Porque, se a gente for deixar se levar por tudo que está acontecendo todos os dias, só vai fortalecer as coisas negativas. A gente vai perder totalmente a esperança na humanidade.

A música ou o novo disco, então, vêm com uma mensagem otimista?

Não sei. Isso aí é vocês que vão avaliar. A gente nunca sabe. Às vezes uma coisa que eu acredito que seja de um jeito você vai ouvir e exergar de outro. Mas a ideia é de que todos nós temos uma força interna para gerar coisas boas.

O disco tem um conceito ou foi composto de forma natural?

Foi tudo natural. Mas acredito que o que contribui para ter uma unidade é a genialidade do Marcelo Cabral e do Daniel Ganjaman. Sem esses dois amigos, certeza absoluta de que não existiria esse disco.

Que tipo de contribuição eles dão?

Cresço muito como pessoa. A gente fica mais tempo com eles na estrada e com os músicos todos do que com a família. São bons amigos, me dão bons conselhos. E mostram onde eu posso melhorar. O que eu estou errando. O que eu estou devendo. O que posso melhorar no trabalho. No dia a dia. Além dessa contribuição de uma amizade sincera, a contribuição do modo como eles enxergam a música. Eles têm olhos muito diferentes.

Quais são as principais diferenças entre "Convoque Seu Buda" e o "Nó na Orelha"?

É justamente ter a felicidade de uma maior participação dos músicos. Além de ter o Marcelo e Daniel capitaneando a direção musical e norteando o lance, a gente teve um momento muito feliz de juntar a banda toda em estúdio e levantar coisas do zero. Todos juntos. Isso para mim foi muito importante. Principal lance desse disco.

E em termos de sonoridade, quais são as diferenças?

É difícil eu te falar isso. Mas houve a oportunidade de ter o sotaque do guitarrista, do Guilherme Held, que é maravilhoso. A oportunidade de ter o [percussionista] Maurício Badé tendo liberdade maior de atuação. O [saxofonista] Thiago França gentilmente participou dessa turma e concebeu arranjos maravilhosos. Sérgio Machado livre, livre com sua bateria. Tem mais temperos ali desses gênios. Desses caras que eu considero tanto.

A música "Convoque Seu Buda" tem uma letra direta, fala de "humilhação demais que não cabe nesse refrão". Foi uma preocupação falar assim nesse momento, em tempos de eleições?

Acontece naturalmente. A construção de texto se dá de modo natural. Às vezes vem dessa forma, direta. Às vezes vem com algum trocadilho. Ou com alguma coisa que você lembrou que sua mãe falou, alguma coisa que você escutou não sei onde. E, quando você vai ver, são um conjunto de coisas que estavam na sua cabeça e que saiu de outro jeito.

Além de se tornar cada vez mais eclético musicalmente, você vem fazendo parcerias com grandes nomes da música brasileira. Caetano, Ney, Milton, Tom Zé. O Criolo está se tornando "MPB"?

Deixo as pessoas à vontade para dar sua opinião. Acho que isso é o mais maravilhoso que existe. [Ser chamado de MPB] Não incomoda, imagina. É maravilhoso.

Você se formou no universo no rap de São Paulo, mas também ouvia MPB? Caetano, por exemplo?

O que todo o mundo escutava. O que tocava no rádio. O que era tema de novela. Nada, infelizmente, falo isso com pesar, de ter alguém que tivesse chegado em você e te dado dois, três discos de um cara. Ou te indicar. Ou te dar a fita cassete --na época, era a fita cassete. A gente não tinha essa felicidade, que muita gente tem. Hoje você conversa com um jovem, ou alguém da nossa idade, chegando aos 40. Ele sabe te falar o nome do álbum, o nome do baixista, do cara que produziu. E acho isso lindo. Um trabalho de pesquisa, mas que é natural. Já vem da cultura de uma pessoa. A gente escutava o que o rádio AM pegava. E mesmo assim não tinha muito tempo, porque tinha que fazer o carreto na feira, ou tinha que ajudar o pai não sei onde. Tinha que varrer a casa porque a mãe estava chegando do trabalho. Senão ela ficava louca. São rotinas diferentes para cada tipo de criança de cada lugar do Brasil.
O Milton é meu amigão. Ao mesmo tempo que é tudo isso e é meu colega, que eu dou um bom dia, boa tarde, boa noite, a gente conversa de alguma coisa. A gente celebra essa felicidade. Não só ele, mas Caetano também. É sempre uma festa quando encontro com Ney. São pessoas muito simples.Criolo

Você acabou de fazer uma turnê com o Milton Nascimento. O que você aprendeu com ele?

Olha que honra! A convite dele. Uma tour com Milton Nascimento. Um orixá (pausa). O que aprendi dele, logo de cara, é o quanto o ser humano pode ser solidário. A forma como ele deixa que as pessoas se aproximem dele. Onde já se viu? Eu, que nunca estudei música, que não sei tocar um instrumento, que desafino mil vezes num show de uma hora e meia, ter a honra de ser convidado por Milton Nascimento para tocar com ele? É ter a generosidade de perceber que as histórias também se encontram. E que música é também para celebrar encontros e passar essas histórias para frente. Possibilidades para frente.

Ney, Tom e Caetano também te passaram esse tipo de mensagem?

Cada um passa de um jeito. Mas isso também. E não só essa generosidade. A genialidade, a simplicidade deles. O modo como eles enxergam o mundo, como cada um conduziu sua vida. Uma vida de trabalho.

Milton Nascimento e Criolo (Rio de Janeiro - Setembro/2014)13 fotos8 / 13
12.set.2014 - Após o susto há duas semanas, Milton apareceu mais solto. Dançava com os movimentos limitados, mas, ainda assim, sorridente. Recebeu abraços e beijos de Criolo e da novata Julia Vargas, que fez participação especial no show -- e foi responsável por um dos pontos altos, ao soltar o vozeirão com o cantor em "Caxangá". Sobrou energia em um show sem percalços.André Lobo/UOL

Como foi ver o Milton passando mal ali do seu lado, em um show em São Paulo, que precisou ser interrompido?

Eu me senti triste, né? Em 50 anos de carreira dele isso nunca tinha acontecido. Eu estava ali do lado do mestre, vendo aquele senhor do mundo pedir uma pausa. Você respira fundo, procura ali naquela hora ver a melhor forma de não atrapalhar, já que tinha toda uma equipe cuidando dele do modo mais carinhoso possível.

Felizmente foi apenas um susto.

Ele está maravilhoso. Retomamos [a turnê] de um jeito lindo. Fomos ao Rio de Janeiro, depois viemos aqui para São Paulo, em dois dias. Foi muito maravilhoso. Você vê um homem daquele, com a idade que tem, por tudo que já passou na vida, abrir um sorriso e ficar olhando na agenda a data que ele tem para cantar, que a felicidade dele é estar no palco. É maravilhoso, uma lição de vida para todos nós.

O Milton é meu amigão. Ao mesmo tempo que é tudo isso, é meu colega, a quem eu dou um bom dia, boa tarde, boa noite, a gente conversa de alguma coisa. A gente celebra essa felicidade. Não só ele, mas Caetano também. É sempre uma festa quando encontro com Ney. São pessoas muito simples.

Você abriu o show do Stevie Wonder no ano passado, em São Paulo, e era impressionante ver sua entrega no palco. Em alguns momentos, parecia um transe, uma catarse.

Porque, cara, passei por umas coisas na vida muito… (pausa). Enfim. Todos os brasileiros têm uma história para contar. Isso não nos faz melhores nem piores do que ninguém. Nossa realidade vigente, na nação. Mas, cara, quando eu subo no palco, passa muita coisa na cabeça. Eu tenho 39 anos de idade agora. Segundo os noticiários do final da década de 1980, início da década de 1990, eu, um jovem que nasci onde nasci, com os pais que tinha, não passaria dos 13, por subnutrição, ou dos 17, por violência urbana. Isso para termos um pouco de poesia, para não falarmos de outra forma.

Chegar aos 39 anos de idade, poder subir em um palco, ser convidado para cantar sobretudo em um evento tão grande, com um grande mestre, maravilhoso, que tive a oportunidade de conhecer. Então emociona muito. Você tem que fazer valer o esforço de todas as pessoas que lhe estenderam a mão.

Quando foi lançado, o "Nó na Orelha" (2011), seu segundo disco, o primeiro a fazer grande sucesso, você já tinha 35 anos. Chegar a um auge artístico com essa idade trouxe alguma vantagem?

Não sei, porque talvez minha cabeça poderia estar melhor quando eu tinha 20. Não teria tanto contato com frustração e seria um jovem cheio de esperança. Teria escrito outras coisas, agido de outra forma. Teria dado outras cores à minha vida. Nunca dá para saber.

Em entrevista ao UOL em agosto você disse que precisava aprender a se comunicar melhor. Você tem pensado nisso?

Não. Foi só um papo que eu tive na época e que me veio em mente. Todas as vezes que as pessoas citam situações para determinados lances, eu falo essa real, né? Acho que todo o mundo tem que aprender a se comunicar melhor. Ou não. Ou todo o mundo tem que entender o outro como ele é. Já seria um bom caminho. Porque senão a gente vai ficar se cobrando sempre por uma questão do outro. O que é se comunicar melhor? Às vezes ficando em silêncio você acaba escolhido na dinâmica pra vaga na firma, né? Aquele que ficou em silêncio é o misterioso, incógnita, não deu bola fora. Vai da cara de quem está te avaliando. Porque, se formos pensar que, a todo segundo, você está sendo avaliado, aí fica meio triste o lance.

Tem gente que fala que você tem um papo meio maluco, né? Tem algo a dizer a essas pessoas?

Nada. Opinião delas. Só de saber que eu existo no cotidiano delas por cinco minutos a ponto de ela fazer uma análise sobre o meu psicológico é uma grande honra. Normal quem é?



Se você quiser desbravar o deserto, você tem que saber como é o deserto minimamente. Ou não, ou apenas ir, saber como é o deserto. Aí, quando você voltar desse deserto, se você voltar, você vai perceber que existem muitas coisas por lá e todas essas coisas são você. Agora, como a gente consegue transportar essa linha de pensamento para uma condição de como se enxerga a política hoje? Estamos em um deserto? É tudo coisa da nossa cabeça? Da cabeça de alguém que colocou na nossa cabeça, nas cabeças dos nossos pais? Onde eu estou nisso tudo?Criolo

Sua cabeça está melhor hoje?

Não sei, cara, como vou saber? É muito louco. Porque cria-se a expectativa de que eu fale "como eu estou bem" hoje. Mas, de dez anos para cá, o número de pessoas falando que eu sou extremamente estranho, errado, maluco, e tanta coisa que eu jamais imaginei de que eu seria taxado, aumentou. Então deixe que elas digam.

Bem, não sei quanto a mim, mas, pelo menos sobre você, as pessoas falam muito mais bem do que mal, não acha?

É uma grande honra. Agora, o que acontece com você acontece com alguém no mundo. O que acontece comigo acontece com alguém também. De repente, algo que para você é piada, para aquele seu irmão não é. Depende de como você está se enxergando. Porque todo o mundo acha que está tudo bem quando é para meter o pau em alguém. E não tem água, né? Você pode falar de todas as questões do planeta aqui comigo. Mas, se acabar a água, do que vai adiantar esse desdobramento mental?

Você é religioso?

Não sei lhe responder isso. Porque religião é um conjunto de leis e de normas de determinadas coisas. Mesmo dando a ideia de ser redundante. Uma vez eu perguntei para minha mãe: "mãe, qual é sua religião?". Ela falou: "eu gosto de gente". Eu procuro ser parecido com minha mãe, apesar de estar longe de ser. Procuro ser um pouco de dona Vilani e seu Cleon [nomes dos pais dele]. É porque esperança pode ser o produto mais caro do mercado. Porque faz com que a pessoa ainda tenha algum pingo de respiração. E, nisso, no decorrer da sua vida, ela vai consumir os produtos não duráveis. Mas esperança pode ser algo que vai tirar o garoto de um ambiente extremamente hostil, seja ele urbano ou mental, e essa esperança pode mover esse jovem para que ele procure um lugar melhor para se viver. Crie um ambiente melhor para se viver.

Você tem planos para continuar lançando discos ou mesmo parar?

Eu não penso nisso, não, cara. Eu lembro que uma das primeiras perguntas que me fizeram quando saiu o "Nó na Orelha", no dia que saiu, foi "como vai ser o próximo disco?". Como é que faz? Eu não sei.

Mas você quer continuar, não?

A gente não tem que querer, cara. Isso é uma parada muito louca de a gente absorver. A gente não tem que querer. Você sabe no papel da certidão de nascimento seu dia de nascimento. Mas ninguém falou o dia que expira a sua matéria nesta passagem pela vida. Então a gente pode viver devaneios, pode viver um querer. A gente pode experimentar para ter ao redor da gente um bom ambiente. Aquilo que nos faz feliz. Mas a gente não sabe, né?

Como é sua vida fora dos palcos e estúdios? A gente sabe muito pouco sobre ela.

Minha rotina é estar perto da minha família. É difícil eu falar assim para você: "pô, vou fazer uma viagem". É muito louco isso porque a gente nunca teve essa felicidade, essa oportunidade de fazer uma viagem, mesmo que seja de fim de semana. Ali pertinho, em um cantinho. A vida sempre foi meio dura pra gente. São culturas, né? Minha vida é muito simples. Gosto de ficar em casa. Gosto muito de encontrar com meu amigo Ricardo Rabelo, com o Nenê Partideiro, o Jefferson Santiago, Rogério Borges. Eles fazem um samba muito refinado lá na 27, e eu tenho alguns sambas também. Eles tiram aquele samba no cavaquinho, e a gente passa a tarde legal. Ficamos conversando sobre a vida, sobre as coisas. Vida muito simples. Um amigo ou outro me visita. Ou eu vou visitar alguém. 

A gente viveu nos últimos meses um momento de muito acirramento político, com as eleições. País dividido. Militantes de PT e PSDB brigando na rua. O Brasil precisa encontrar o equilíbrio e convocar seu Buda?

Eu vejo o quanto é bonito as pessoas acreditarem naquilo que elas acreditam. Eu concordando ou não. Porque é um problema meu eu concordar ou não. E eu devo respeitar a pessoa com sua concepção. Eu acho extremamente importante as pessoas se manifestarem. E depois contarem essa história para os filhos. Daqui a cinco anos, o cara pensar se faria diferente. Isso faz parte do crescimento humano. Da sua mente. De como você enxerga o mundo.

Mas você se identificou mais com algum candidato nas eleições? Dilma, Aécio?

Difícil te responder isso e extremamente simples também. É que, se você quiser desbravar o deserto, você tem que saber como é o deserto minimamente. Ou não, ou apenas ir, saber como é o deserto. Aí, quando você voltar desse deserto, se você voltar, você vai perceber que existem muitas coisas por lá e todas essas coisas são você. Agora, como a gente consegue transportar essa linha de pensamento para uma condição de como se enxerga a política hoje? Estamos em um deserto? É tudo coisa da nossa cabeça? Da cabeça de alguém que colocou na nossa cabeça, nas cabeças dos nossos pais? Onde eu estou nisso tudo?

O Brasil mudou muito desde 2004, quando você começou a fazer o álbum…

(Interrompendo) O que você acha que mudou?

O Brasil cresceu. As pessoas têm mais renda, mais oportunidades, mais chance de ascender socialmente. Você não pensa sobre isso?

A gente sempre pensa, né?

E acha que a vida está melhor?

Acho que não. Mas não é um "não" com peso, aplaudindo por ser uma resposta negativa. Mas é você saber reparar a proporção das coisas, de 2004 para 2014. Tudo aumentou em proporção. Não significa que essa melhora tenha atingido na proporção no quanto tudo aumentou.

Sua formação foi toda calcada no rap. Qual é a importância desse gênero hoje para você?

Tudo. O rap não só no momento da escrita. Mas o cara do bailinho, que me deu oportunidade de subir no palco e cantar na Associação de Moradores do Jardim Macaná, que foi a primeira vez que subi no palco para cantar um rap. Eu ia cantar no Ester Garcia, num bailinho de colégio, e o cara falou: "olha, o microfone você liga desse jeito". Você vê uma mesa de som, o cara mexendo no grave e no agudo. Tentando tirar uma microfonia de uma caixa de som que foi emprestada. Então não é só o texto. É a solidariedade. O suor de cada dia para conseguir uma oportunidade para cantar num bailinho de formatura no colégio. Então isso também faz parte do ensinamento.

Você está com mais público agora. O que esperar da nova turnê?

Não dá para saber, não, cara. Só na hora. Uma vez o Arthur Verocai lançou o disco dele, em 72, e ninguém gostou do disco. E foram descobrir o disco dele em 2002. E hoje todo o mundo ama o disco. Não dá para saber. É o que eu falo. Nós abrimos nosso coração, cantamos a coisa que está na nossa cabeça, no nosso coração. Mas não está em nossas mãos.

sábado, 2 de agosto de 2014

EMICIDA - Bom Moço

O bom moço do rap detona o preconceito dos colegas e o machismo no hip hop
Publicado: Revista Trip Texto: Pedro Alexandre Sanches | Fotos: >Jordi Burch
O rapaz abaixo é Leandro Roque de Oliveira, filho de dona Jacira. Ele jura ser um bom menino: não bebe, não fuma, sofreu bullying na infância por ser negro e pobre. Mas você o conhece por seu nome de guerra: Emicida, o matador de MCs. Apontado pela crítica como o mais importante nome do novo rap nacional, embarca este mês para rimar no prestigiado festival Coachella, na Califórnia. Mas parece que, quanto mais sucesso faz, menos é tolerado por seus colegas do rap

Jordi Burch

O rapper Emicida

O rap brasileiro não é mais o mesmo desde que um rapaz paulistano, autoapelidado Emicida, apareceu afrontando um punhado de dogmas que seus colegas mais velhos acalentaram ao longo das últimas duas décadas. Nascido há 25 anos no Jardim Fontales, na zona norte sul paulistana, Leandro Roque de Oliveira é ambicioso, gosta de fazer sucesso e afirma pensar estrategicamente cada novo passo de sua carreira.

Revelado como improvisador em batalhas de freestyle, pela rapidez de raciocínio e de rima que lhe valeu o codinome de “matador de MCs”, ele costuma aceitar de bom grado convites de impacto midiático, os mesmos que Mano Brown e os Racionais MCs se notabilizaram por recusar. Emicida atiça a intolerância de seus pares a cada vez que desobedece as normas do rap local, topando visitar o programa global de Jô Soares ou gravar rock adolescente com a banda NX Zero. “Traidor do rap” e “rapper de playboy” são acusações que ele já ouviu incontáveis vezes – seria Leandro não apenas “Emicida”, mas também um “rapcida” entranhado no hip hop paulistana?

Entre suas façanhas mais recentes estão ter sido escalado para tocar no festival californiano de rock Coachella (em 15 de abril) e o lançamento de Rua Augusta. A música aborda o cotidiano das prostitutas de calçada, sob um ponto de vista mais próximo delas que de seus potenciais fregueses. O vídeo segue o dia a dia de Rosana, uma prostituta real da Vila Mimosa, no centro do Rio de Janeiro.

“Eu vejo minha mãe e minhas irmãs nessas minas”, afirma Leandro, marido de Carolina e pai de Estela, 1 ano, divergindo da misoginia explícita do gangsta rap e de grupos brasileiros influenciados por aquela vertente. O exemplo, diz, vem de dentro de casa. A avó paterna foi assassinada pelo marido, seu avô, que comprara a futura esposa numa fazenda, quando ela tinha 12 anos. Alcoólatra, o pai de Leandro morreu cedo, como a maioria dos homens da família.

Tolerância e intolerância vivem em constante embate no mundo de Emicida
Evandro, seu irmão caçula, trabalha ao seu lado desde que Leandro virou Emicida e se destacou com as mixtapes Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe (2009) e Emicídio (2010), lançadas por sua produtora/gravadora/fábrica de CDs independentes, Laboratório Fantasma, localizada no bairro de Santana. Cada uma já vendeu cerca de 10 mil exemplares, produzidos e comercializados na base do faça-você-mesmo.

Traumas do passado e circunstâncias do presente fazem de Leandro um rapper que dribla o excesso em sexo, drogas & rock’n’roll, como a Trip verificou ao acompanhá-lo numa noite de show ao lado da banda mato-grossense de rock Macaco Bong, no Studio SP, casa de shows de bandas independentes na rua Augusta. “Não falo de crime, trato mulher com respeito, eu sou evangélico”, ele brinca. “Se não falasse tanto palavrão, ia ser gospel fácil.”
PATRULHA DOS PURISTAS
Na manhã seguinte ao show da madrugada na rua Augusta, Leandro e sua mãe, Jacira, levam a reportagem da Trip para conhecer a casa dela no bairro de Vila Cachoeira, na serra da Cantareira. Com Jacira, acostumou-se a ouvir MPB. Seu pai biológico era DJ de bailes black. E o padrasto, vindo do campo, o ensinou a gostar de moda de viola. Jacira levava os filhos pequenos a cultos evangélicos, menos para rezar e mais para filar refeições em tempos mais duros. Hoje Emicida afirma que absorveu dos sermões dos pastores o poder de persuasão que usaria mais tarde no freestyle. Para desespero dos puristas, Emicida é um rapper que valoriza música sertaneja, MPB, funk carioca e pagode.

Tolerância e intolerância vivem em constante embate no mundo de Emicida. Ora ele é patrulhado pelos puristas do rap, ora processa por discriminação racial um taxista que o chamou de “macaco”. Movimenta-se entre gêneros musicais e religiões. Ora ensaia discurso de respeito às mulheres, ora hesita em topar uma das propostas da Trip para a foto da capa, de vesti-lo numa camiseta com os dizeres: “Algumas pessoas são gays. Acostume-se”. Homossexualidade e homofobia são tabus ainda inexplorados pelo rap, e Leandro não peita a ousadia. “Todo mundo vai ver a foto, mas nem todo mundo vai ler a entrevista”, argumenta. Ainda assim, pede a camiseta de presente no fim do encontro, para, quem sabe, usá-la qualquer dia desses.

(A conversa começa dentro do carro, perto da meia-noite, no caminho entre o Laboratório Fantasma e o Studio SP.)

Jordi Burch

Emicida na casa de sua mãe, na Vila Cachoeira, periferia de São Paulo, com montanhas da Serra da Cantareira ao fundo

O que você sentiu gravando o vídeo de "Rua Augusta"?
A gente adquiriu uma frieza, mas quando entrou na casa da Rosana e começou a conviver com ela foi foda. Ela saía do emprego às nove da manhã. A gente queria filmar o dia a dia fora do prostíbulo. A coisa ficou família, uma mulher cuidando do seu filho. Era mais fácil pegar uma atriz e fazê-la fingir que era puta, pôr ela fazendo pole-dance.
[O carro passa pela Santa Ifigênia, rua comercial de São Paulo] Vila Mimosa é uma Santa Ifigênia do sexo, várias mulheres peladas, um bagulho pesado.

Por que pesado?
Você entra num lugar e vê umas tiazinhas de 60 anos e umas minas de 14, peladas. Várias minas tão bem loucas desde cedo, é droga pra caralho. É foda pra mim, eu fui criado por uma família de mulher, então vejo muito as angústias das mulheres. É minha mãe, minhas duas irmãs, cinco ou seis tias e minha avó. Todos os homens da minha família morreram, só tem o Evandro e alguns primos. Toda vez que vejo uma mina nessa situação, não vejo a parada rasa, a mina ali com uma roupa de puta. Imagino: “Quando acabar essa porra essa menina vai voltar pra onde?”. Sei lá se ela tem casa, família, se o pai bate nela ou abusa dela, se ela tá ali porque gosta ou porque precisa.

Muito do hip hop brasileiro foi desrespeitoso com as mulheres, por muito tempo. Por que você é diferente?
Eu vejo minha mãe e minhas irmãs nas minas. Então procuro respeitar. É a maior burrice, que vem de reproduzir uma cultura lá de fora, dos caras que chamam menina de puta, vadia. Parece que o rapper nasceu de inseminação artificial. [O carro entra na rua Augusta, Leandro aponta as meninas na calçada] Viu as meninas cheirando cocaína no meio da rua, aqui do lado? A Rosana contou uma pá de barato, sobre as minas que morreram. Falou de uma amiga dela que foi encontrada mutilada, esfaqueada, num hotel. A história mais triste que ela falou é que o nome dela realmente é Rosana.

Como assim?
Toda prostituta usa nome falso, mas ela usa o nome de verdade, por quê? “Porque toda semana eu vejo uma mina dessas ser morta. Se meu nome é Rosana e eu falar que chamo Natasha, como vão avisar meu filho que eu morri?”
(Emicida vai se preparar para o show. O novo encontro acontece na manhã seguinte, no Laboratório Fantasma. A conversa começa no carro, com a presença de sua mãe, e continua na casa de Jacira, na Vila Cachoeira.)

Como vai o Pai Leandro?
Pai Leandro vai ausente. Minha filha tá com 1 ano e 2 meses já, tá falando pra caralho, falando e correndo. Tá grandona.

Por que você foi pai tão jovem?
Por quê? Pobre acontece, né? No começo tomei maior sustão, mas pensei: “Não vai ser nada mais difícil do que eu já tenha visto nesta vida, então vamos aí”. Ela nasceu num momento complicadíssimo. Eu tinha condição de cuidar dela, mas não podia e não posso estar lá. Todo dia tem um mundão de coisa pra fazer.

"Rua Augusta" faz você pensar na sua filha também?
Tudo tá ligado. As angústias, sofrimentos, as metamorfoses das mulheres, é tudo muito parecido. A Rosana é uma mulher comum, e todas são. Da Rosana até a Lady Gaga, todas têm TPM, até a rainha Elizabeth. Os caras me zoam porque tenho uma filha: “Agora você vai pagar seus pecados, tudo que aprontou”.

Mas você parece ser um cara bem-comportado.
Eu sou um cara bem-comportado.

Ontem, no show, ofereciam cerveja e você recusava. Era porque estava trabalhando?
Não, eu sou assim. E você me pegou num dia bom, tem vários dias que os caras chegam com baseado desse tamanho. “Trouxe lá de Salvador pra você, é da pura.” “Não, cara, eu não fumo.” “Mas pega.” “Não.” [Jacira ri].

Você não fuma nem bebe nada?
Nada. Mas eu tenho um hábito bizarro, viajo pros lugares e trago sempre uma garrafa de cachaça. Guardo em casa. Outro dia, dei uma bicada numa que devia vir com caveira no rótulo, porque mata, o olho encheu de lágrima na hora. O que destruiu todos os homens da minha família foi a cachaça, tá ligado? Meu pai, meu tio, meu vô. Tenho trauma. Quando vejo as pessoas bebendo não vejo um bagulho de celebração. Eu vejo: essa porra vai matar você.

Isso vale pra outras drogas?
Também. Tenho a maior raiva de bêbado. Tipo ontem no show. Eu tava lá, colou uma mina e começou a cantar um refrão meu.

“Chamam mina de puta, vadia. Parece que o rapper nasceu de inseminação artificial”

Era uma loira?
É, a loira, tá ligado? Ela falou assim: “Por que você ficou tão marrento depois que foi no Jô Soares?”. Olhei pro meu camarada e falei alto: “A mina tá bem louca, entra na conversa dos outros e vem falar bosta pra mim”. E ela [faz voz bêbada]: “Eu não tô bem louca, não!”.

Ela foi embora depois?
Foi nada, mano, ficou me chamando pra ir pra casa dela. Grudou dum jeito... E aí começou a contar da vida dela, entrou numa deprê, sentou lá e começou a falar: “Eu tenho uma filha de 3 anos, meu marido me abandonou”. Aí, puta, mano, essas histórias me cortam o coração.

A bêbada chata vira um ser humano...
Vira um ser humano! Aí eu quis ouvir a história, puta que pariu, peguei um afeto por essa desgraçada. Tô com dó dela agora, tadinha.

Que rapper é esse que evita sexo, drogas e rock?
Total, não fala de crime, trata mulher com respeito. Eu sou... Eu sou evangélico. Sou gospel. Sou semievangélico, se eu não falasse tanto palavrão, ia ser gospel fácil. Mas a mina lá foi embora com outro, não tem nada a ver comigo. Eu sou só um símbolo que ela tá vendo, ela quer falar pras amigas que tá dando pra um cara que é famoso. É a mina que vai engravidar e vai ter uma pensão alimentícia do maluco.

Tem gente que vira artista por isso...
Sou friozão. Passo tranquilão no meio do inferno e saio do outro lado lá. Tenho um relacionamento difícil com várias pessoas por isso, inclusive com a minha mina. Vou num lugar, tá tendo o coquetel da revista Sexy, várias minas em trajes sumários. Só que eu tenho uma missão, sou um soldado. Não me perco no caminho. Esse negócio de Emicida só existe na cabeça das pessoas. Vejo como se eu trabalhasse pro Emicida. Não tem nada de vida de artista, ficar massageando o ego, “fui no Jô Soares”.

Cobram muito de você por isso?
É muito louco o impacto da Globo. Tem lugar que vou e as pessoas perguntam mais da Afrodite [cadela de Emicida] do que de mim, por causa do Jô Soares. O garçom lá em Santa Catarina: “Você mordeu o cachorro mesmo?”.

Você mordeu?
Mordi, cara. Minha mãe trabalhava de empregada doméstica, a gente não tinha grana pra nada. À tarde, o que tinha pra comer eram dois pães, que a gente cortava no meio e cada irmão comia metade. Um dia eu tava comendo e vendo TV, e a Afrodite veio e comeu num bocado só. Fiquei puto, puxei ela aqui e dei uma mordida nela. Aí comecei a refletir: caralho, que situação foda, você morder um cachorro porque ele comeu o único pedaço de pão que você tinha. Graças a Deus virou piada, mas foi foda. Por isso eu coloquei na capa do disco.

Arquivo pessoal


Leandro, Katiane, Evandro, dona Jacira e a cadela Afrodite, que foi mordida pelo futuro rapper na disputa por um pedaço de pão

Você sofria bullying na infância?
Sempre. Me zoavam porque eu não tinha pai, porque eu não tinha meias, porque eu era preto. Mesmo em escola de quebrada, tive o azar de ser o único negro. Até tinha outros, mas que não se comportavam como pretos, meninas que alisavam o cabelo. Era “cabelo de bombril”, “macaco”, até a professora dava risada.

Você conta que aprendeu a fazer rap com um pastor, quando era pequeno e frequentava a igreja.
É, eu venho dessa linhagem aí. Eu achava a macumba mais divertida, ficava ligado no batuque, mas o texto dos pastores influenciou meu freestyle, esse lance de persuadir as pessoas.

Jacira: Nós éramos integrantes da Igreja católica e do Movimento Sem-Terra. Já dormi muito em acampamento sem-terra com esses meninos. Eu era católica porque minha mãe era, toda a vida achei um saco. Um dia chutei o pau da barraca. Fazia parte do grupo Filhas de Maria, mandei todo mundo pra casa do caralho, tinha umas saias compridas, cortei e de cada saia fiz três. Aí fomos pra Universal.

Emicida: Assim que meu pai morreu a gente colava nesse bagulho, mais porque depois do culto sempre rolava um rango.

Jacira: O pai dele era disc jockey. Ele não conseguia baile pra fazer, começou a trabalhar como metalúrgico, depois a pegar ferro-velho na rua. Aí começou a beber.

Emicida: Colou nos espíritos sem luz.

Jacira: Logo a mãe dele faleceu. Meu sogro era muito violento, matou minha sogra. Tive uma cunhada que não morreu porque fugiu, mas abortou três vezes, porque meu cunhado chutava a barriga dela, coisas desse tipo.

E o seu padrasto?
Seu Eduardo é um maluco da hora. Tive meus desentendimentos com ele na adolescência, mas hoje o vejo na minha escola musical. Ele trouxe esses discos de moda de viola, por ser homem de campo. Só dei valor pra Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano quando conheci as paradas do seu Eduardo.

Qual é a história do Seu Eduardo com funerária?
Ele dava flores pra minha mãe, chegava todo dia com um maço de rosas, que homem romântico. Aí descobrimos que ele trabalhava na funerária, começamos a falar que ele arrancava flor do caixão... Minha escola musical foi essa aí, minha mãe escutava essas músicas de MPB, de dor de cotovelo. E as modas de viola do seu Eduardo eram sofridas pra caralho, mas tem a maior semelhança com o rap.

Você acha? Nunca imaginei.
Porra, os caras da moda de viola gostavam de dar umas ideias firmeza: “Mundo velho não tem jeito, já não endireita mais/ os filhos de hoje em dia já não obedecem os pais/ é o começo do fim, já estou vendo sinais/ metade da mocidade estão virando marginais” [versos de “A vaca foi pro brejo”, de Tião Carreiro & Pardinho]. Era uma coisa de alertar a sociedade, o rap também tinha essa postura.

Por que você gravou uma música com o NX Zero?
Porque eu gosto de NX Zero. Podem achar que traí o rap, mas eu gosto do NX Zero, eles me convidaram, qual o problema? Gravar com eles ampliou meu público, eu quero ser conhecido. Eu penso estrategicamente, não tenho culpa se os caras do rap não fazem isso. A gente tem três músicas de periferia hoje no Brasil: o rap, o funk e o tecnobrega do Pará. Um dia vai ter que unificar tudo isso, porque é tudo a mesma coisa, música de periferia.

Você faria um rap misturado com funk?
Faria. Nem toda letra de funk presta, mas o som do funk é bom, é cheio de batida, de batuque. Eu não acho ruim pensar minha carreira estrategicamente. O rap nacional nunca teve um boom comercial porque não tem um grupo de rap que seja autêntico e ao mesmo tempo seja comercialmente viável pras gravadoras. O único cara que foi longe foi o Marcelo D2. São Paulo é a terra do rap no Brasil, mas tirando Racionais não tem um grupo de expressão monstruosa. Os rappers que têm uma disseminação maior são todos do Rio, D2, Gabriel o Pensador, MV Bill. Um amigo da minha mãe falou: “O que eu gosto do seu rap é que ele foge desses racionaisismos”. Ele fala como se fosse uma religião, o “racionaisismo”. Os Racionais têm um peso ideológico foda pra nós, é a nossa história, mas até hoje o argumento mais forte deles é que não vão na mídia. E eu, cada vez que vou, sou apedrejado, como se eu fosse o Mano Brown, como se eu tivesse dito as coisas que ele diz. Nas favelas a regra é essa, os caras me cobravam: “Mas não tem o pacto dos rappers de não ir na mídia?”. Que pacto, mano?

Você acha que tem que ir à mídia?
Porra, lógico, cara. Você tem que ir onde tem respeito, onde as pessoas falam com você. Tipo, sou preto de favela, quero mudar essa situação e não vou lá falar com as pessoas do outro lado, vou ficar aqui reclamando? Nem fodendo.

"Podem achar que eu traí o rap, mas eu gosto do NX Zero, quero ser conhecido”

Você compra briga com o rap tradicional falando isso?
Não, eu compro uma briga com os caras hipócritas do rap tradicional. Todo mundo sabe que a coisa tem que andar e para isso acontecer a gente tem que dialogar. Você vive uma situação que te impulsiona a escrever uma música falando da pobreza. Assinou um contrato, vendeu disco, fez show, ganhou dinheiro. Na segunda parte, quando era necessário mostrar que conseguiu um progresso que não é do crime, você esconde aquilo e repete a dose da pobreza. As pessoas compram de novo, porque adoram o sofrimento, mas já não é a sua realidade, é mecânico. De repente, o rap virou um partido político.

De esquerda ou de direita?
De esquerda, mas que não funciona. Um mano meu diz que Karl Marx é foda, mas os marxistas são uma bosta. Aconteceu isso com o rap, a ideologia é foda, mas quem põe ela em prática tá fodendo ela.

Se olhar pelo ponto de vista deles, talvez entendam você como uma diluição do rap, "o cara se vendeu".
Sim, para algumas pessoas sim. A minha única diferença é que tenho esse pensamento estratégico muito bom. Tento construir coisas que gerem mais coisas pro próprio rap, embora eu não me sinta muito à vontade quando as pessoas obrigam a gente a estar vinculado ao social. Quem tem obrigação de mudar essa porra é o governo, não é grupo de rap.

Você fica à vontade tocando em clubes de playboy?
Eu vejo cara na internet dizendo que eu canto pros caras que me discriminaram a vida inteira. Isso é um argumento muito vazio. Sou filho adotivo dum branco. Minha mãe trampava de empregada, eu ia com ela lá nas mansões. Eu achava do caralho. Era favelado só durante a noite, durante o dia eu morava em casa de rico [risos]. Minha mãe trampou pra patrão cuzão, mas também pra arquiteto que deixava eu ficar desenhando. Via escultura, tinha livro pra caralho, podia ficar vendo TV a cabo.

Mas como é tocar para esse público?
Tem uns momentos que entro num conflito, mas sinto que esse conflito é por causa do rap, não por eu estar num lugar estranho. Não posso escolher quem compra meus CDs e vai no meu show. Se eu for tocar no Japão o que eu vou fazer? Vou mandar importar uns pretos? Durante muito tempo eu fiquei no maior pé-atrás pra falar do que faço, dizia “a gente lançou um CDzinho aí” como se tivesse pedindo pras pessoas olharem pra nós por essa ótica do sofrimento mesmo. Não, mano, a gente é foda, vai fazer um CD e ele vai vender no mínimo 20 mil cópias. Por quê? Porque a gente sabe trabalhar direito. Eu tinha medo de declarar isso, mas comecei a me livrar dessa parada. E os caras começaram a dizer que eu fiquei marrento. Porque fiquei famoso eu tô esnobe? Não é ser esnobe, eu falo do que faço. Aí me olham e me chamam de moleque de apartamento. Na cabeça de vários caras do rap, o rap que eu faço é de boy porque é inteligente.

Mas você reclamou que não tinha muitos pretos no show ontem.
Estranho muito mais pela plástica da coisa, porque a gente tá adequado a ver vários pretos num show de rap mesmo. Quando subo e vejo vários brancos me dá um baque, mas tiro maior onda, não é um bagulho que me agride. Duas horas antes eu tava na Transamérica cantando com NX Zero, tinha várias loirinhas gritando: “Emicida!”. Acho do caralho. Domingo a gente vai estar aqui na quebrada, no Cachoeirinha, no pé da favela. Ali vai ter boy, maloqueiro, ladrão, todo mundo vai. Tem gente que sai de Alphaville pra vir aqui, isso é do caralho.

O rap brasileiro nasceu lutando contra o racismo, mas era também misógino, homofóbico. Emicida é rapper, logo...
... Emicida é a contramão de várias dessas coisas aí. Mas, vou te falar uma parada, o rap não nasceu combatendo o racismo. O primeiro rap era de festa: “Fiquei sabendo, tem um tal de Pepeu/ que canta rap bem melhor do que eu”. Mas aí sabe o que aconteceu? Chegou NWA, Public Enemy, o rap gringo de protesto. Levou-se pra um lado consciente e daí foi pra um lado gangsta. Em 2000 veio o boom comercial com Jay-Z, rapper milionário. A gente tá sendo tão ridículo quanto os gringos, pegando o que há de pior no rap lá de fora, a casca. Rihanna apanha do namorado, quer processar, mas ela mesma se porta como puta. Do jeito que elas admitem ser tratadas, elas tão sendo agredidas de outra forma. Você cria uma sociedade doente.

Misoginia e homofobia foram importadas também ou a gente é assim?
Cara, isso não é do rap, vem da sociedade, e muito mais da sociedade de São Paulo. No Rio vejo mais respeito pelo homossexual, embora São Paulo tenha a maior Parada Gay do mundo. No resto do ano é notícia de agressão.

Você faria um rap sobre homofobia?
Nunca pensei nisso. Mas na verdade nunca fiz um rap falando nem de preconceito racial.

Mas você fala de preconceito racial da música "Quero Ver Quarta-Feira", com a Mart'nália.
Sim. Nenhum tipo de discriminação é novidade pras pessoas. Processei um maluco por racismo. Ele implorou, ajoelhou pra mim, e eu achei da hora [risos]. Depois não levei pra frente, ia ter que faltar nos shows pra pôr o cara na cadeia. Só a dor de cabeça que dei no filho da puta, de ver ele chorando, já deu a lição. Fora que a polícia não registra BO de racismo. Não registra porque é inafiançável, se registrar tem que prender e, se prender, tem que trabalhar.

Qual foi o caso?
Eu e a Carolina pegamos um táxi, descemos na rodoviária Tietê, fui pagar, o maluco falou que o dinheiro era falso. Dei outra nota, ele falou que era falsa. “Pô, mano, só tenho essas duas notas.” Ele começou a falar uma pá de bosta, a resmungar: “E aí, vai querer debater, macaco?”. O segurança da rodoviária disse: “Desce daí, eu vi, isso é racismo, você vai ser preso”.

O segurança era negro?
Não, era branco, é importante ressaltar. O polícia era preto, não ouviu porra nenhuma. Ficamos seis horas na delegacia, o maluco começou a implorar, falou que tinha um sobrinho que era preto. “Vamos fingir que não aconteceu nada.” “Não, vou te foder pra você aprender.” Aí ele ajoelhou e começou a chorar, minha mina chorando também: “Ele tá pedindo perdão”. Eu gosto, ele tem que ser colocado nessa posição mesmo, de humilhado. Pode crer, não somos racistas, não, como diz o livro do Ali Kamel...

Você diz que rap, funk e tecnobrega deveriam se unir. O preto, a mulher e o gay não deveriam trabalhar juntos contra o preconceito?
Total, você falou da melhor forma.

Defender a homossexualidade no rap é um tabu.
MV Bill já deu essa ideia, mas as pessoas fingem que não ouvem. Helião falou da burrice do rap em “O mensageiro”: “Vejo nos bailes rap milhares de pessoas/ não conquistamos o respeito, nem com festas boas”. Sei todos os raps de cor.

"Emicida" é "o matador de MCs". Você está comendo o rap por dentro?
Acho que sim, acho que a gente é a maior bandeira dessa revolução hoje. Eu sou o maior nome dessa nova fase, dessa nova safra do rap.

Você vai matar o rap?
O que os caras vão fazer da música deles eu não sei, mas eu vou cantar com [a sambista] Fabiana Cozza e me sinto pequeno. Não quero me sentir pequeno. Por isso falo que não sei se o que vou fazer vai ser chamado de rap ou se vai ser rap. Falam que Gabriel o Pensador não é rap. Pra mim é, e um dos mais fodas que tem. A favela adora ele, sabe por quê? Porque ele é sincero na música dele, não tá de patifaria.

Engraçado. Pra mim é como se ele soasse falso...
A imprensa espera o aval do rap de São Paulo sobre tudo que é feito de rap fora de São Paulo, e o rap de São Paulo não vai assumir que Gabriel o Pensador é foda. Todo mundo fala de preconceito de preto, mas propaga essa porra de piada de loira.

Olha, te digo que sou gay, mas tenho medo de falar isso pra vocês.
[Irônico] Não tava ligado nisso aí, não, mano, não olha mais pra mim! [Risos, Jacira gargalha.] Tenho vários camaradas que são gays. Se for com base nisso aí os caras que devia odiar são os héteros, que vivem fazendo bosta.

Para terminar, qual é a sua religião?
Sou uma mistura de todas. Admiro budismo. Respeito candomblé. Mas minha doutrina de vida é respeitar essas coisas todas. Se fosse ter uma religião, seria respeitar a natureza, interferir o mínimo possível no que tá ao meu redor.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O CANTOR MACAU FALA SOBRE SUA CARREIRA

publicado: revista Raça Brasil
Compositor da música "Olhos Coloridos" que virou sucesso na voz de Sandra de Sá, o cantor Macau fala sobre sua carreira nesta entrevista





Ele assina a música que se transformou no hino pop da negritude do Brasil. Aos 60 anos, e com mais de 200 obras no currículo, Macau comemora três décadas do lançamento de Olhos Coloridos, na voz deSandra de Sá. Mas o grande público ainda sabe pouco do artista que é autor da façanha de fazer uma canção valer mais que mil palavras. “A minha contribuição é a música. O meu trabalho é cheio de canções que mostram o sofrimento dos negros em suas várias formas. Em forma de poesia, de canção, eu escrevo a história, a luta e as conquistas do povo negro do meu país”, diz Macau.

Veja trechos da entrevista com o cantor Macau:

Macau, conte-nos um pouco de sua infância. Você vem de família pobre?

A minha infância foi normal na qualidade de negro pobre da favela. Fui criado pelos meus avós, na Favela da Praia do Pinto, hoje Condomínio Selva de Pedra, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Lá acontecia de tudo: brigas, tiros, invasão policial. Cresci vendo tudo isso. Meu avô era dono de uma birosca que promovia festas, cantorias, congada, caxambu, samba de terreiro. Tinha de tudo. Na fogueira assavam batatas-doces e carne. Nos fundos da casa, ou, melhor, do barraco, tinha um quintal enorme com árvores e frutas. Eu fui bem criado. Eles tinham dois filhos: eu era filho do Rui Xisto, o filho mais velho.

Como você foi apresentado ao mundo da música e se transformou em compositor?

Morando na Cruzada São Sebastião, criada por Dom Hélder Câmara. Na Cruzada estava instalada a Escola Santos Anjos, construída também por ele no terreno entre a Paróquia Santos Anjos e o Jardim de Alah. Minha avó sempre me levava à igreja. Fiz a primeira comunhão, fui coroinha, fiz parte do coral e me tornei coordenador do Grupo Jovem, no qual cuidei da área musical. Nessa época me tornei um músico, compus canções sacras e concorri no Festival de Música Sacra, em que ganhei o primeiro lugar com a música Eu preciso nascer novamente. Passei a conviver com a música na igreja, e com os amigos da Cruzada, tocando violão e compondo.

Suas experiências pessoais influenciaram nos versos de Olhos Coloridos?

Muito. É resultado de uma forte discriminação racial da qual fui vítima. Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de “nego abusado”, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era “sarará crioulo”.

Negro discriminando outro negro...

Mas não parou aí: fiquei horas no camburão com outras pessoas como se fôssemos lixo, um por cima dos outros, como lata de biscoito. Rodamos horas pela cidade até que resolveram nos levar para a delegacia para averiguação. Não havia nada que me mantivesse preso e, mesmo assim, só de madrugada fui liberado com a ajuda do padre Bruno Trombeta, da Pastoral Penal. Saí dali triste e revoltado, chocado e com forte depressão.

A música "Olhos Coloridos", sucesso na voz de Sandra de Sá, foi composta por Macau | FOTO: Divulgação
Foi logo depois que compôs seu belo hino-denúncia?

Não consegui ir para casa. Fui para a praia onde refleti sobre tudo que tinha acontecido comigo. Chorei muito olhando para o mar e foi aí que surgiu a primeira frase “os meus olhos coloridos me fazem refletir...”. Imediatamente fui para casa, peguei meu violão e, em poucos minutos, compus Olhos Coloridos. Ela veio de uma manifestação pessoal, uma expressão de revolta. Por isso minha música é subterrânea, é uma fusão afro-brasileira do meio ambiente em que vivo.

Sua música vem conscientizando e encantando gerações como hino pop da negritude, popularizada, sobretudo, na voz de uma diva da black music. Como é sua relação com Sandra de Sá?

Sandra de Sá gravou Olhos Coloridos pela primeira vez no LP Sandra Sá, em 1982, gravação original em que toquei meu violão, com arranjos de Serginho Trombone e produção de Durval Ferreira. Esse LP selou definitivamente a minha parceria com ela, que dura até hoje, sempre com Olhos Coloridos à frente de tudo. Em 1982, no LP Sandra de Sá & Banda Black Rio, a música foi gravada em uma versão que até hoje é executada nas rádios brasileiras. Houve novas versões em 1986, 1994, 2004, fora as inúmeras apresentações em que ela canta esta canção.

Se tivesse que compor uma canção para chamar a atenção da sociedade brasileira contemporânea sobre a questão racial,manteria a mesma letra de Olhos Coloridos?

Sim! Essa canção está cada vez mais atual, por incrível que pareça. Ela é o hino da juventude negra. Se tivesse que compor,agora, uma canção para chamar a atenção da sociedade, eu a comporia de novo.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pra Refletir: O Rappa - Tribunal de Rua


A viatura foi chegando devagar
E de repente, de repente resolveu me parar
Um dos caras saiu de lá de dentro
Já dizendo, ai compadre, você perdeu
Se eu tiver que procurar você ta fudido
Acho melhor você ir deixando esse flagrante comigo
No início eram três, depois vieram mais quatro
Agora eram sete samurais da extorsão
Vasculhando meu carro
Metendo a mão no meu bolso
Cheirando a minha mão.

De geração em geração
Todos no bairro já conhecem essa lição
Eu ainda tentei argumentar
Mas tapa na cara pra me desmoralizar.

Tapa na cara pra mostrar quem é que manda
Pois os cavalos corredores ainda estão na banca
Nesta cruzada de noite encruzilhada
Arriscando a palavra democrata
Como um santo graal
Na mão errada dos homens
Carregada de devoção.

De geração em geração
Todos no bairro já conhecem essa lição.

O cano do fuzil, refletiu o lado ruim do Brasil
Nos olhos de quem quer
E me viu o único civil rodeado de soldados
Como seu eu fosse o culpado
No fundo querendo estar
A margem do seu pesadelo
Estar acima do biótipo suspeito
Mesmo que seja dentro de um carro importado
Com um salário suspeito
Endossando a impunidade a procura de respeito.

Mas nesta hora só tem sangue quente
E quem tem costa quente
Pois nem sempre é inteligente
Peitar um fardado alucinado
Que te agride e ofende para te
Levar alguns trocados
Era só mais uma dura
Resquício de ditadura
Mostrando a mentalidade
De quem se sente autoridade
Nesse tribunal de rua.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Mano Brown:“Eu questiono porque não basta ser”

publicado: revista Cult



Foto: Daryan Dornelles

CULT: Qual sua memória musical mais antiga, o primeiro som que lembra que bateu forte quando era moleque?

MANO BROWN: Acho que foi aquele som que eu fiz “Vida Loka − Parte 1” [musica do disco Nada como um dia após o outro dia, de 2002] em cima, do Liverpool Express, “You are my love”. É um som que lembro que gostei há bastante tempo.

Que idade você tinha?

Tinha uns seis anos, estava no colégio interno, por isso que eu lembrei.

E que tipo de som rolava na sua casa? Era uma casa musical?

Na minha casa não tinha aparelho de som nessa fase, e eu estava no colégio interno. Quando voltei pra casa, minha mãe tinha um dois em um, era AM e toca-discos, pequenininho. Faz tempo isso aí… nos anos 70 a gente não tinha quase nada.

Com quantos anos você voltou pra casa?

Com oito e meio, quase nove.

E que extrato tira desse período de colégio interno?

Eu tenho TOC de arrumação até hoje [risos]. Se o tênis estiver torto, tenho que arrumar. A roupa, a toalha, a roupa de cama, tem que estar tudo dobrado. É herança de lá isso aí.

Por que o Pedro Paulo decidiu virar rapper?

Não foi bem uma decisão, começou como uma brincadeira. Eu estava sem fazer nada, desempregado e tal, e não tinha nada que chamasse a atenção de ninguém também. Quando começou essa onda de rap, nos bailes, a gente começou a ouvir falar nas rádios, e ouvi falar que estava tendo um concurso, mas não participei. Só fui participar do terceiro concurso, quando fiz minha primeira letra. Era uma grande brincadeira, coisa de festa, de moleque. Uma coisa de você poder subir no palco e chamar a atenção das minas, no máximo; não tinha uma pretensão de “ah, vou fazer a revolução”. Com dezessete pra dezoito anos você não pensa nessas coisas, não naquela época.

Quanto tempo depois surgiu o Mano Brown pra valer?

Não muito depois… Eu também não tinha muito a perder, e nem tinha pra onde ir, certo? Com a terceira música que fiz ganhei um concurso no salão, e despertou uma certa cobiça a partir daí, de pensar um pouco maior. Ganhar o concurso era pouca coisa mas também não era nada. Depois a gente estava na São Bento [estação do metrô de São Paulo que foi berço do hip hop brasileiro no final dos anos 1980] e fomos convidado pra entrar no lugar de um cara que tinha faltado na gravação de uma fita demo. Eu cantava sempre no latão da São Bento, comecei a fazer fama ali, aí o cara da demo chegou perguntando: “Quem são os caras do Capão que rimam pra caralho?”. Aí apontaram pra mim e foi assim que aconteceu. A gente foi num apartamento no Edifício Copan e chegando lá estavam o KL Jay, o Edi Rock, Os Gêmeos, que eram uma dupla de rap [famosa dupla de grafiteiros paulistanos], e a gente gravou aquela demo, que não foi pra frente. Na época eu cantava com o Ice Blue, e o Edi Rock e o KL Jay eram uma outra dupla.

E sua mãe? No começo ela gostava?

Escondi da minha mãe um bom tempo. Aí passou um tempão, apareci em casa com um disco gravado e mostrei pra ela, que nem sabia que eu cantava.

Você já tinha parado de estudar nessa época?

Já tinha. Fazia tempo.

Então não é que você estava trocando uma coisa pela outra…

É. Eu podia estar fazendo coisa errada, né? Daí eu fui gravar música. Quando minha mãe viu minha cara no disco, ela não acreditou.

Você achava que o Racionais chegaria onde está ou foi muito além?

Foi além, mas eu sabia que ia ser foda. Eu sabia como ia cantar cada ideia, tal batida, como ia parecer o som, só não sabia que ia ficar do tamanho que ficou. Eu sabia que quando a gente chegasse com aquela ideia, seríamos os primeiros, e que quando as pessoas parassem pra ouvir, não iam largar mais. E foi assim, mas não que nem é hoje, que realmente às vezes me assusta. Não esperava mesmo… mas lá atrás, em 90, sabia que não tinha ninguém como nós no Brasil. A gente não era nada mas a gente era diferente de todo mundo. Eu sabia que se levasse a sério, se desse continuidade, poderia ser alguma coisa, tinha essa noção.

E quanto tempo depois começou a ganhar dinheiro?

Eu vi dinheiro mesmo com “Homem na estrada”. Antes disso era couro de rato, trocando moedas. Os carros quebravam pra caralho, tudo o que ganhava, gastava. E o Brasil era difícil também. A gravadora era pequena, a gente vivia com problema financeiro sério, que nem o Santos [Futebol Clube, time do coração de Brown]. Quando lançamos “Homem na estrada” e “Fim de semana no parque” [do disco Raio-X Brasil, de 1993] que realmente virou outra coisa. Foi quando a gente mudou os temas, parei de falar só do movimento negro pra falar mais da periferia. Aí já estava perto do que calculei. Não onde está hoje, mas “Homem na estrada” estava perto do que eu calculei naquela época. Eu morava num barraquinho aqui nessa rua, numa casinha de um cômodo e meio. Um dia saí na rua e estava tocando “Fim de semana no parque” em três casas diferentes. Minha música… na minha rua… Alguma coisa estava errada, entendeu, ou estava começando a ficar certa. Ali cresceu.

E como vocês estão planejando comemorar os vinte e cinco anos do Racionais?

Eu não pensava em comemorar nada, mas também sou obrigado a reconhecer que vinte e cinco anos são vinte e cinco anos; vinte e seis já é outra fita, não é a mesma coisa. Então vamos comemorar, tá bom.

O disco novo do Racionais sai este ano ainda?

Eu tenho muita música fora do Racionais, e talvez tenha que apelar para esse arquivo para colocar no disco do grupo. Tem bastante música para o meu disco solo, algumas servem para o Racionais, mas vai contrariar muito a lógica.

Por quê? Seu disco solo está indo por outra linha?

Não quero ficar chato, morou?

Tem previsão de lançamento?

O Racionais está na frente, tem prioridade no momento. E o Racionais exige um pouco mais, vai precisar dar uma atenção.

Os outros integrantes do grupo também têm seus projetos solos. É bom pro Racionais em que sentido?

Fortalece o individual, fortalece a pessoa. E grupo é uma parada ótima para você esconder falhas também. Todo mundo é capaz de se sustentar fora do grupo. É bom isso, essa independência dos quatro.

E como está o esquema de produção hoje? Está mais fácil trabalhar, produzir, gravar, fazer show desde a abertura da Boogie Naipe Produções [escritório próprio criado em 2009 para cuidar da produção do grupo]?

Está mais organizado. Mais fácil não, a luta é a mesma, mas com mais organização você consegue enfrentar os adversários mais fortes. Os resultados são melhores. Por exemplo, a gente fez duas festas no Rio de Janeiro, na Fundição Progresso, com cinco mil pessoas cada. Mas a gente podia se foder também, podia não ir ninguém, mil pessoas só, fracasso. E fracassar no Rio decreta o fim, porque é dali para frente. Igual a São Paulo. São cidades formadoras de opinião, e só com organização você consegue fazer isso acontecer. O Racionais foi vítima de muita desorganização ao longo dos anos.

A ideia de centralizar é justamente pra não passar nervoso na mão dos outros?

Para organizar, na verdade. É um trabalho, eu gostaria que fosse aquela liberdade do começo, mas na verdade os tempos mudaram. Tem muita gente que espera por mim e espera de mim.

Isso te cansa? Às vezes queria ser só o Pedro Paulo?

Queria te responder com sinceridade, deixa eu pensar [pausa]. Às vezes sim, mas o Pedro Paulo talvez não estivesse vivo se não fosse o rap, então também não posso ter essa ingratidão. O Pedro Paulo está vivo até hoje por causa de rap. Quando eu conheci o rap, o Pedro Paulo estava fadado a morrer. E na verdade o Pedro Paulo nunca deixou de existir, mas ele poderia ter morrido em 1988.

No sentido de “era o rap ou o crime”?

É, exatamente. Não tinha para onde correr. O crime já estava virando uma coisa normal – meus amigos faziam parte daquilo. E, mano, se você vê os amigos em quem confia no barato, você acaba entrando. Se a primeira dá certo, você quer ir na segunda e aí você vai ficando frio, desacreditado, essa é a circunstância.

Você está mais confortável na posição de referência pra molecada da periferia…

Tem outras referências. Eu posso ser uma, mas tem muitas outras. Mais de cem, mil.

Isso te incomodava antes. Está mais tranquilo hoje em dia?

Não é que me incomodava, eu não gosto é da cegueira. Você tem que estar com a visão 3D, entendeu? Todas aquelas ideias do começo dos anos 1990 foram muito importantes, elas são importantes, mas dali pra frente é cada um com seus problemas. Não pode ter esse negócio de grupo de rap ser ONG. A responsabilidade é de todos. Cada um tem que ter responsabilidade sobre si, então se a gente ficar nessa ideia de paternalismo de novo, “ah, vem que eu te ajudo, te dou cesta básica, te dou leite…”, isso aí é o que já se faz. Isso está errado, entendeu? Tira as pessoas da condição de igualdade… A condição de igual, de se sentir igual, é que traz liberdade às pessoas. Mesmo que esteja duro, não posso me sentir menos do que você porque me deu um quilo de açúcar, que merda… Não tinha que estar ninguém dando açúcar pra ninguém. É o mínimo que tinha que ter.

Seu processo de composição mudou nesses vinte e cinco anos?

Eu componho aqui, com vinte caras fumando maconha e conversando junto. Já compus muita música também na cama da minha casa, sozinho. Componho de qualquer forma.

Mesmo com bagunça?

Bagunça vira música para mim, vira letra.

Você está satisfeito com as coisas que conquistou até agora?

Eu não sei o que eu conquistei. Eu sei o que eu fiz, eu estou bem, não me arrependo de nada não.

E no profissional?

No profissional dava para ter crescido mais, dado um passo além, mas era tudo muito atrasado, muito difícil aqui no Brasil. Era tudo muito turvo. Não tinha uma grande proposta que me confortasse. Tudo o que foi me oferecido ao longo da minha carreira foi perigoso. Não vinha dinheiro de uma fonte boa, tudo de fonte que eu não queria acumular.

Agora seria uma boa hora para…

Ó parceiro, vou te falar, hoje em dia já não penso nisso. Penso que eu preciso trabalhar, certo? Trabalhando eu como, bebo, durmo, visto e já era. Eu não penso na carga, no símbolo, no status de ficar rico. Mas sempre existiu essa possibilidade, e se eu não estou é porque não dei a atenção devida. Houve condições, mas não era aquele dinheiro que me orgulharia de ter ganhado. Eu prefiro vender sapatos, vender calça jeans, vender pão.

Trabalhar com coisas mais palpáveis?

Coisas que não sejam filosóficas, nem ideológicas.

Viver de arte é sofrido?

Não deveria ser. Por exemplo, se eu fosse um sambista, viveria de arte sem muita dor de cabeça, arte pela arte, e é muito respeitável por sinal, tá ligado? Como é o Fundo de Quintal, o Zeca [Pagodinho], o Revelação. São muito respeitáveis e não vivem nessa rota de colisão com filosofia. Eles vivem filosofias próprias, não deixaram que ninguém se apoderasse deles. Eles não quiseram ser a luz da humanidade. Houve ali um momento que foi colocado que o rap que tinha que ser a luz da quebrada, a luz da periferia, a luz dos caras. Uma coisa que veio de fora para dentro, que não foi denominada por nós. A mídia falou, a imprensa falou, os fãs falaram. Eu sempre gostei mais de ser o bandido do que ser o líder nas minhas músicas. Mais como um ombro do que como um mentor. Nada de ser mentor, sempre quis ser ombro, braço. Sempre quis ser braço.


Mano Brown durante o show do Racionais MC's na Virada Cultural de 2013 (Foto: Mumu Silva)

Você acha que isso podou o rap de certa forma, tirou a liberdade de experimentar outras coisas?

Sim, mas politicamente era prioridade na época. O rap foi usado, e o Racionais de certa forma também foram.

Com todo o cuidado que vocês tinham?

É, fomos usados pela revolução, pela causa, a gente se deixou usar, entende?

E os frutos disso nem sempre são bons?

O fruto disso é a oposição, hoje aparece uns caras dizendo que a gente é do governo, porque a gente participou daquilo que era uma prioridade na época. Hoje em dia eu não sei se é prioridade. Não sei se é prioridade reeleger o PT. Não é uma coisa que a gente está ali de corpo e alma, mas na época era. Faça ou morra, tá ligado? Era isso, questão de prioridade, de praticidade. Era necessário pôr alguém lá que falasse algumas coisas que a gente pensava, e esse alguém era o Lula.

E agora?

Agora somos acusados de ser “governo”. Eu já sabia que isso ia acontecer. Lógico que não esperava que viesse do Lobão, que era um cara que estava do mesmo lado naquela época. Eu não sei o que revoltou ele, com certeza não fui eu, não devo nada pra ele. Não faço parte do governo. Eu participei porque era prioridade para o povo negro que o Lula ganhasse.
E agora não é mais prioridade o PT ganhar?

Não, já não é prioridade. Eu acho que as pessoas têm o direito de questionar mesmo. Eu não vou me deixar cair nessa, de defender antigas filosofias. Eu acho que filosofia existe para ser questionada.

O Lula foi bom nos oito anos que ele…

Foi muito bom.

Por quê?

Eu acho que o mundo precisava disso, e o Brasil experimentou isso. O Obama ganhou lá; e o Lula tinha ganhado aqui, certo? Depois uma mulher foi presidente. Mudanças drásticas! Num país machista uma mulher ganhar. Num país racista um negro ganhar. Aí o Lula, que era um cara limitado, semianalfabeto − tinha essa lenda que o Lula era analfabeto − ganhou. Era impossível o Lula ganhar, entendeu? Ele tinha perdido três eleições direto. Eu participei de todas. Era prioridade o Lula ganhar porque em 2002 era outro Brasil. Era prioridade. Tinha que ganhar. Era vital.

E qual deveria ser nossa prioridade política agora? Isto é, a do povo que quer mudança.

O povo tem que tomar cuidado para não ser manipulado nesse ímpeto político. Querer mudança é muito importante, mas tem que tomar cuidado para não ser manipulado. Porque, realmente, o povo quando quer, muda mesmo. A lição que eu tirei dos protestos do ano passado foi a que existe um povo. Existe um perigo, que pode realmente invadir Brasília. Pode acontecer. Era uma lenda que você imaginava rolar na Argentina, mas no Brasil nunca. E o Brasil mostrou que se quiser, faz. Então é bom todos ficarem bem espertos com isso. Mas tem que tomar cuidado para o povo não ser manipulado, tirar um do cargo pra colocar outro no lugar, virar massa de manobra. Como o Racionais também pode ser, se nos deixarmos ser, entendeu?

Cada vez mais esportistas e artistas estão indo pra Brasília, se envolvendo na atuação política direta. Acha que é um caminho possível ou existem outros interesses envolvidos, como dinheiro?

Eu não acredito que ninguém faça mais nada só por dinheiro. Não é só o dinheiro que conta hoje. É influência, é fazer parte. As pessoas estão lutando pra fazer parte das coisas, né? Nos dias de hoje as lentes estão viradas para essas pessoas mesmo. Então está todo mundo olhando para elas, e a informação é muito rápida. Ter um dinheiro indevido na mão é muito perigoso para qualquer um: pra rapper, pra sambista, pra jogador… Não é só o dinheiro. É estar perto. Os cara chamam de network. É o caldeirão da bruxa. É o lobby, a antiga panela. Eu tenho um pouco de receio disso. Nunca quis estar perto do governo por isso. Fui chamado para muitas reuniões do governo e nunca fui em nenhuma. Não foi pra não se misturar mesmo… É que meu lugar não é lá, entendeu? Mas eu não escondo: a gente se posicionou a favor da eleição do Lula e ficou marcado por isso. Porque o Lula ganhou, fez a diferença e muita gente não gosta do que ele fez. Esses dias eu vi na internet: “É, o Mano Brown votou na Dilma!”. Eu votei na Dilma mesmo. Eu acho que oitenta e cinco porcento da população na época votou na Dilma, mas tem quarenta porcento que vai dizer agora que não votou… Como assim?

E votaria na Dilma de novo?

Questionaria. Ouviria os que estão em volta de mim. Eu ia parar para ouvir.

Em 2007, no “Roda Viva”, você disse que a maioria já estava a favor do povo, que a periferia é a maioria. Eu queria saber de você o que é que falta ainda? Se envolver em Brasília, criar um partido político?

É fazer muito mais fora de Brasília. A sociedade civil, as pessoas, os trabalhadores, os formadores de opinião, os jornalistas, os que fazem, os que escrevem, os que emitem opiniões, que têm contato com o público, eles têm força pra fazer o que o governo não faz. Verdade reta? É isso que tem que ser feito. Todo mundo sabe da sua obrigação. Esperar do governo é ultrapassado. Eu acho que o que tem que fazer é exigir do governo, não esperar. Se a sociedade souber o que quer, dificilmente vai ser enganada. Eu acho que o brasileiro flerta com muita coisa e não sabe exatamente o que quer. O brasileiro acabou de se descobrir, está consumindo pra caralho, está vivendo um momento que nunca viveu, entende? Se a sociedade quer mesmo lutar por hospital e escola, por que não se organiza pra pressionar o governo? Por que sobra para alguns caras, alguns estudantes, reclamarem disso? Porque o restante está acomodado.

Mas às vezes não é só uma faísca que precisa para fazer o acomodado se mexer?

Ah! Mas já tiveram várias faíscas. Está tendo faísca agora. Deve ter alguém que tá com o pé na vitrine agora, em algum lugar da cidade.

Mas não gera pressão?

É, tá, mas é isso mesmo? É hospital e escola? Ou são outras coisas e os cara querem pressionar o governo pra tumultuar? Qual o setor da sociedade que está preocupado com hospital e escola mesmo?

Você sentia que as manifestações batiam aqui? Que a molecada da periferia se ligava?

Olha, foi meio confuso… A gente ficava falando sobre isso aqui, se era certo ou não, se ia participar ou não. No começo parecia ser uma coisa bem clara, depois virou de muitos interesses. Muitas insatisfações até. Isso mostrou que o governo não estava tão bem quanto a gente pensava. Mas muitos motins pré-organizados surgiram, esperando pra poder pegar essa carona, e um movimento inocente foi manipulado.

A que conclusão vocês chegaram?

Que estava sendo manipulado. Que existiu uma pureza no começo, mas tinham manipuladores também. Nunca foi fácil, né?

Mas não é melhor isso do que nada?

Lógico. Para acordar, né? Acordou os que achavam que estavam protegidos… Se o povo quiser e tiver uma boa causa, ele vai pra rua e toma. Deu para ver isso. Agora, que não seja para agradar um setor, para tirar um do governo e colocar outro que é igual no lugar dele. Você vai continuar sendo peça.

O que você está achando do pleito desse ano? Acredita em algum candidato?

Eu vou aguardar um pouco…

Conversa com seus filhos sobre isso?

Meus filhos têm opinião formada. Inclusive, acho que eles são até mais informados do que eu sobre política. Eles estudam, né? Estão sempre em contato com estudantes… E no meio que a gente vive é fácil de se alienar, então ter dois filhos estudantes, traz informações a que você não tem acesso.

Como você separa o Pedro Paulo do Mano Brown dentro de casa?

Não existe mais separação… Eles são a mesma pessoa. O Pedro Paulo sem o Mano Brown não estaria vivo, já te falei isso. Eles têm que aceitar o Mano Brown de igual. É a mesma coisa. Eu consigo viver bem esse barato aí. É suave. Eu sou um cara comum em qualquer lugar, não só dentro da minha casa. Eu tenho minha opinião formada, e a teria de qualquer forma. Eu não pago de Mano Brown pra cima de ninguém.

Como a ausência da figura paterna influenciou sua vida?

Ah, aprendi a me defender bem… e que a vida é uma guerra. Não tive quem me protegesse. Vi que eu não era perfeito mesmo, por causa disso, né? Já tinha defeito na raiz. Então eu teria que me ajeitar na vida para ser alguma coisa, para conseguir alguma coisa. Eu tinha que melhorar muito como pessoa. Sempre soube que eu tinha muito defeito.

Você acha que isso te deixou mais arisco? Ou mais ressabiado com as coisas?

Não. Nem mais ressabiado nem mais arisco. Eu não sou nem tão arisco. Eu sou destemido. E não posso dizer que sou um cara ressabiado porque já fui traído. Eu sou um cara sem medo. Não tenho medo do futuro. Não tenho nem medo de ser traído. Eu só quero fazer o que eu faço e já era. Não tenho medo de nada.

Você já pensou em procurar seu pai? Como é que é isso pra você?

O meu pai talvez nem esteja mais vivo, né? Já faz tempo. Acho que meu pai não está vivo há muitos anos.

E isso influencia na criação dos seus filhos?

Meus filhos já nasceram numa casa com pai e mãe. Pai e mãe vividos, de vida sofrida mesmo. Então a gente soube mostrar pra eles que a vida não era um mar de rosas, que é difícil. Minha casa nunca foi de luxo, de coisas caras. É uma casa comum. Se você entrar na casa de qualquer pessoa aqui, é igual. Tem televisão, geladeira, sofá. Então eles foram criados de forma bem comum mesmo. Não teve esse lance de Brown.

Mas você faz questão de deixar o canal da comunicação aberto, especialmente com seu filho?

Eu falo com meu filho do mesmo jeito que eu falo com você. De homem pra homem. Minha filha sim, eu já trato com um pouco mais de cuidado, é mulher e tal… Mas ela é bastante inteligente também. É independente. Então tá suave.

Você pensa no futuro dos seus filhos?

Meus filhos têm que fazer as próprias vidas. Não penso no futuro. Eu não projeto as vidas deles.

Mas você se preocupa com o mundo que está deixando para eles, ou isso é problema deles também?

Problema deles também. Cada um com a sua missão. Não tem essa, eu aprendi que a gente tem que criar o filho para o mundo, e não para a gente. E tem que ser forte, que nem eu sou. Tem que ser guerreiro, saber que as coisas não são fáceis. Aqui é uma guerra.

O rap é um meio machista…

Mas está melhorando…

E muitas vezes quem segura a bronca são as mães, as mulheres, não é uma contradição?

O Brasil é machista, e o rap é retrato do Brasil. Feito para o brasileiro, certo? Machista. Ponto.

E você acha que tem melhorado por quê?

Porque as mulheres estão ocupando espaço. Não é que o homem está cedendo, ele está perdendo. A mulher está avançando. Mas quem cria os caras mimados, fracos, são elas, então as mulheres têm lá sua parcela de culpa dos caras serem assim. Elas estão ocupando espaço porque eles também não estão conseguindo segurar os ímpetos das mulheres. E as mulheres estão chegando. A nova ordem, né? Mulher liberta, né? Mulher moderna. Essa liberdade que estão loucas para ter, estão começando a construir agora.

E você acha bom ou ruim?

Acho bom. Sou a favor das mulheres! Desde que o mundo é mundo o homem esteve no comando da situação. Quem sabe com as mulheres mude. Mulher é mãe, é mais apegada à vida.

Acha que está na hora do rap nacional esquecer os Estados Unidos pra trilhar um caminho mais…

Difícil… Quase impossível.

Por quê?

Porque os Estados Unidos são a torre. O mundo está globalizado, então tudo tem influência americana. Não é só o brasileiro que segue, o mundo inteiro segue. E o negro brasileiro deve muito ao negro americano. Porque quando se fala de rap, se fala de negro, e foi baseado na postura do negro americano que o negro brasileiro começou a reivindicar coisas básicas.

A música negra americana é rica, mas a música negra brasileira é tão ou…

Mais… Mas aí é que está! O poder bélico. O negro americano sempre teve aquela postura combatível, passou a ter dos anos 1960 pra frente. Então isso serviu de inspiração para os negros daqui. Foi um canal pra trazer essa ideia de periferia também, de classe. Aí sai do quesito raça e vai pra classe. É praticamente impossível separar uma coisa da outra. Aí vira uma coisa politizada. Eu nunca abri mão da liberdade da música, de fazer música livre. Nunca gostei de ter que falar disso ou daquilo. Mas que serviu, serviu.

Lá atrás, você esperava gravar com o Jorge Ben um dia?

Esperava. Era uma meta. Eu quando quero uma coisa é foda.

No começo do Racionais vocês sampleavam o Jorge Ben, e muito tempo depois você gravou com ele. Acha que os grupos de hoje estão mais conectados com outros artistas? O Emicida gravou com os sambistas Juçara Marçal e Wilson das Neves recentemente, por exemplo.

É, mas o Emicida já vem com a grife de artista que a gente não tinha. O Emicida tem essa grife de artista. O cara é reconhecido pelos outros músicos. Ele foi reconhecido muito mais rapidamente do que a gente na época.

Mas por causa de vocês também, não?

Não. Por causa dele. Tem músicos da época dele que também ouviram a gente e não deram em nada. Foi inteligência dele. A gente não deu nada pra ele. Ele que aprendeu isso. Ponto dele.

Você acha que, com a ajuda da internet, ele conseguiu mudar o jogo do rap?

Ele é um bom jogador. É um cara que sobrevive, um cara forte, inteligente.

Nesse sentido, hoje, a música é mais democrática?

Completamente. Você consegue comunicar com as pessoas, com a sua rede. Eu sempre falei que periferia é massa, e essa massa existe, desde que você não negligencie e nem ignore, eles vão estar com você. É simples assim. Eu cantei para aquele povo que não tinha acesso à internet. Ele canta para o povo que já tem acesso à internet. Sou totalmente consciente da minha situação no jogo.

Gosta do disco do Criolo? Acha que ele é um cara que…

Inteligente.

Ele ter chegado em outros ouvidos acrescenta o que para o rap?

Ele não tem que acrescentar nada para o rap. Ele tem que acrescentar para as pessoas. O rap é só uma classe e eu não sou a favor de defender classes. O rap tem que servir e não ser servido. A gente não pode esperar, por exemplo, que quando o cara do rap chega lá em cima, que ele vá olhar para baixo e começar a ajudar. Não tem nada a ver! Não pode ser assim, não deve ser isso. Tem que ser forte o bastante pra chegar lá também. Não é chegar lá em cima e olhar para baixo para resgatar. Já está no trabalho, normalmente, o resgate.

Só de chegar lá, automaticamente já…

Automaticamente já vem um bolão de gente junto com você. Você já teve que construir para chegar lá. Você não chega lá e vai começar a resgatar um por um. Não dá para chegar lá assim.

Como é que você vê a indústria fonográfica no momento?

Existe um comércio sim, só que não é só a música, certo? Você tem que ter outras coisas para oferecer às pessoas. É som e imagem. Então já não é mais o fonográfico, já é um monte de coisa, já é uma calda longa. É a musica mais a imagem, mais a roupa, mais a pessoa, mais o posicionamento dela. É um monte de coisa. Já foi a época em que você vendia o CD e bastava. Hoje não basta mais. É muito pouco. Precisa de um monte de coisa. É um trabalho mesmo.

E vocês têm pensado nisso?

Tenho vivido isso. De 2002 a 2010 passamos uma crise profunda. Deu para aprender um pouco. Teve uma crise fodida, de realmente a moeda bater no fundo da lata. Da época, né? Eu vi o rap subir de novo de 2010 pra frente. Nesses últimos quatro anos foi o grande lance. Cresceu mais do que nos últimos vinte anos que antecederam.

Por quê?

Por essa visão profissional que está sendo instaurada agora. De que é um movimento estabelecido, de que tem que ser levado a serio, de que tem que ter compromisso com horário, organização. Não é só um discurso, não é mais aquele bagulho de adolescente. Agora são homens.

E tem uma história a ser respeitada…

Qual é o maior compromisso da “revolução”, entre aspas? É mostrar envolvimento, você pôr sua inteligência dentro dela, sua mão de obra, o conhecimento que você aprendeu naquela causa. Como é que você consegue mostrar isso? Quando a sua empresa vai bem, quando você paga as pessoas direito, quando você dá emprego para mais pessoas. Aí é trabalho! Não é movimento, onde um faz e fica um monte de gente sem condições de fazer nada. Tem que dar condições das pessoas fazerem para ganharem seu dinheiro. Esse é o momento que a gente está vivendo hoje. Essa é a maior evolução. Já não é revolução do discurso, das coisas abstratas, morou? É do trabalho. Se fosse no campo, seria enxada e terra. É na cidade. É trabalho. É envolvimento. É vida, sabe? E é ideologia também.

Então a expectativa para os próximos anos é boa?

Boa. Talvez melhor para os caras do que para mim, mas vai ser boa.

Melhor para o sangue novo que está chegando?

Com menos cobrança, menos questionamento. Uma visão mais ampla, mais livre.

Você sempre se questionou muito?

Eu questiono porque não basta ser.

Mas ultimamente você está mais de boa?

De boa mesmo nunca. Eu me questiono porque é fácil você parar no tempo. Então eu tenho que estar sempre procurando ser útil, né? Você tem que conseguir fazer sua parte, saber que muito mais gente vai ser beneficiada com aquela atitude que você tomou. Não uma atitude que vai fazer bem para você, encher seu ego. Então, o “revolucionário” tem que passar a ser útil. Parar de ser mentor dos comuns. Não! Vai crescer junto.
É essa revolução interna que você está passando agora?

É interna também, mas não é uma coisa que eu mudei. Nunca achei que o movimento tinha que ser uma ONG. Houve um momento em que a ideia da ONG era prioridade, mas na melhor oportunidade, o mais rápido possível, tem que deixar de ser ONG. É questão de sobrevivência. É que nem o lance de cotas. É polêmico, mas fundamental agora. Um dia vai deixar de ser. Vai chegar o dia em que o negro não vai precisar de cotas. As pessoas vão disputar a vaga de igual para igual. Naquele momento do rap era necessário ser uma ONG. Em 1992, não em 2014.

E a revolução vem de dentro?

Vem de dentro e de fora. A revolução está em volta de você. E dentro de você. Está acontecendo. Mas se você não fizer, alguém vai fazer de qualquer forma.

Esse novo momento do rap tem relação com vocês estarem mais abertos para falar com a imprensa?

Mas quem está mais aberto a falar com a imprensa?

Nós queremos te entrevistar faz tempo… É uma vontade não só da CULT, mas de toda imprensa…

Hoje mesmo eu fui convidado para fazer uma entrevista para o Estadão. E falei não.

A postura é a mesma de sempre ou…

Eu escolho com quem quero fazer e na época que quero fazer. Quando me é conveniente, eu faço.

Pode ser útil…

Considero útil. Mas eu sou imprensa também. Se quiser soltar uma nota agora eu solto, escrita por mim mesmo. Tenho cento e vinte mil seguidores no Instagram. Tem jornal que não tem tantos assinantes.

E serve para semear ideias?

Semear ideias eu já faço há muito tempo. Tem muita gente semeando ideias, todas dignas de serem ouvidas. Tem muita gente falando o que pensa e não é só o Brown, né? Senão vira chavão. Eu virei chavão dessas ideias, de ter que falar essas coisas. “É assunto de racismo? Chama o Brown.” De todas as palestras que teve sobre racismo nos últimos anos eu corri.

Mas mesmo assim o chavão continua?

É. Tem alguns encontros que já viraram chavão. Se eu for no movimento negro pra falar dos negros para os negros é fazer o de sempre. É fazer o óbvio. E dá pra viver de óbvio também, fingindo que está fazendo. Eu não quero isso, entendeu? Que evolução tem nisso? “Solta as músicas revolucionárias aí, Brown!” É assim? Oxe! Revolução é assim? Como assim? Tá louco? Não é assim não. Revolução de 2014 é o quê? É Regina Casé, tá ligado? Melhor programa [“Esquenta!”] da televisão brasileira hoje, querendo ou não. O movimento negro vai vomitar quando ler isso. É uma pessoa que vem lutando, vem disputando, vem acompanhando e chega um momento que faz um grande programa de TV, morou? Do jeito que as pessoas são, fazendo o que elas são, vivendo o que elas são. Não tenho vergonha de ninguém ali, tenho orgulho. Eu me vejo em todos eles ali.

O disco solo funciona pra isso, pra você se libertar?

Eu sou livre! Está fodido quem quiser me aprisionar. Quando falei que vou fazer soul music, vou fazer doa a quem doer. Não estou nem aí. Eu sou rebelado. Se falar de amor é rebelião, eu tô nessa, entendeu?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Elza Soares: "Eu vim do Planeta Racismo"

 
publicado: uol.com.br
No início este ando, Elza Soares estava deitada em uma maca a caminho da mesa de cirurgia, após anos sofrendo de dores na coluna e com dificuldades de locomoção. Foi a segunda tentativa cirúrgica de aplacar a fratura causada pela queda de cima de um palco, em 1999, agravada pelo uso do salto 15 e o gingado característico da paciente. Ao cogitar possíveis consequências da operação --perder os movimentos ou a fala, por exemplo-- prometeu a si mesma: "Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio Rodrigues".

O compositor gaúcho, cujo centenário se comemora neste 2014, foi autor do primeiro sucesso da cantora, "Se Acaso Você Chegasse", em 1960. Ele aparece emoldurado ao lado de Elza no palco do novo show dela, "Elza Canta Lupicínio", e norteia o repertório com as canções que popularizaram o termo "dor de cotovelo". Elza entra e sai do espetáculo com passos e movimentos curtos, sempre amparada por um ajudante. No centro do palco, senta-se em uma poltrona e dança nos limites do assento. Não há chororô. 

Com oito pinos nas costas, ela mantém a mesma média de 15 shows por mês, que se desdobram em outros dois espetáculos: "A Voz e a Máquina", em que duela com batidas eletrônicas de dois DJs; e a releitura de seu álbum clássico, "A Bossa Negra"(1961). "Me cansa ficar parada", ela diz, contando nos dedos mais um mês de recuperação, enquanto conversa com o UOL em um hotel em São Paulo, horas antes de sua apresentação no Sesc Santana, na zona norte de São Paulo.

No palco, fala do fatídico 7 a 1 que a seleção brasileira levou na semifinal da Copa do Mundo contra a Alemanha: "Parecia que os jogadores estavam com assaduras". Madrinha da Seleção de 1962 e ex-mulher de Mané Garrincha, ela também reclama sobre a torcida brasileira. "Teve muita gente [na Copa], mas o povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou. Futebol virou elite". E prevê uma goleada, sabe-se lá de quem, nas próximas eleições presidenciais. "O povo mais inocente que tem é o brasileiro."

No quarto de hotel, Elza não usa os enfeites brilhantes e a transparência dos vestidos de gala que traja no palco, mas não dispensa a maquiagem mais leve e os óculos escuros. A pele negra da carioca não mostra as rugas de seus 77 anos, e a cabeleira -- ou peruquinha, como ela chama-- fica entre o cacheado e o black power. A cantora, que em uma de suas primeiras aparições disse que tinha vindo do "planeta fome", também veio do "planeta racismo": "Escrever 'somos todos macacos' é fácil. Mas e dizer: 'Somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso".

"O povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Vai ter dinheiro como? Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7x1 outra vez" Elza Soares sobre o resultado da seleção na copa"


UOL - Como está o seu problema na coluna?
Elza Soares - Há alguns anos eu levei uma queda no Metropolitan (SP) durante um show. Eu caí do palco, de uma grande altura, e tive um achatamento na coluna. Tive uma fratura que não era preciso operar na época, mas tive que usar um colete para colocar no lugar. Mesmo assim, fiquei com meu bom salto 15, sambando que nem uma louca. Era só usar o colete, né? Até que há uns quatro anos eu comecei a sentir choque no corpo todo. Fiz uma viagem e, quando tentei sair do avião, não dava mais. Foi a primeira vez que usei cadeira de rodas. Cheguei em casa alucinada de dor, operei a cervical e parou o choque. Mas aí começou na lombar.

Quando foi a primeira operação?
Foi em 2012. Comecei a sentir a lombar, a ter choque e dor nos pés. O médico disse que tinha que operar a lombar. Coloquei oito pinos. Mas o mais triste foi antes. Ele disse: 'Olha, Elza, você sabe que, com essa operação, você pode ficar muda, perder a voz, pode morrer'. Morrer todo o mundo vai, mas ficar sem voz? 'Então não vou operar'. Mas ele insistiu. Assim que acabou a operação, gritei 'socorro' dentro do hospital. Pensei: 'Bom, estou gritando, então estou ótima'. Descobri que tenho vértebra de criança, então [os pinos nas costas] têm que ser aqueles parafuzinhos. Do cóccix até o pescoço, como o nome do disco [de 2002]. Tenho que ter cuidado, mas um cuidado mais ou menos, né? Não sou muito cuidadosa.

Quanto tempo falta para a recuperação?
A última operação foi em janeiro, já se passaram cinco meses. Disseram que demora seis meses. Estou esperando esse mêsinho. Não dá para sambar, é difícil. Mas também não dá para ficar sentada, que nem dondoca na cadeira, só fazendo caras e bocas, né?

O que você teve que deixar de fazer?
O salto, cara. O salto dói à beça. Tem um pouquinho ainda [mostra o sapato discreto, preto, com um salto do tipo tamanco], mas não dá para notar. Tive que parar de malhar, sempre malhei muito. Eu corria do Leme ao Posto 6 na areia. Sempre tive muito capricho com o corpo. Uma coisa meio masoquista.


Leonardo Soares/UOLElza: "Eu acho que cantar para mim ainda é remédio bom. Sem cantar eu não sei viver. É minha alegria. Em casa, eu fico nostálgica"

Sua maquiagem e suas roupas continuam exatamente iguais. Dá até para ver sua cicatriz.
Dá. Eu quero até que mostre. Acho importante. Tenho uma pele tão boa, que minha cicatriz ficou uma linhazinha só. As roupas lindas, maravilhosas, nunca, jamais [ficarei sem usar]. Meu perfume Dolce & Gabbana, que está acabando... Você merece, e eu mereço tudo isso.

E nos shows, houve alguma proibição?
Não, porque eu fico sentadinha, dou uma tremidinha, faço aquilo no ombro. Na cadeira eu danço. Tenha santa paciência, não aguento.

E você não diminuiu a agenda de shows.
Eu acho que cantar, para mim, ainda é remédio bom. Sem cantar eu não sei viver. É minha alegria. Em casa, eu fico nostálgica. Eu não saio à noite. Não é que eu não goste, mas eu nunca fui boêmia. Não tive esse prazer. Não bebo, não fumo. Não vou atrapalhar quem gosta da noite, né? Senão fica todo o mundo falando alto, e eu: 'Ai, me leva para casa'. Me cansa ficar parada.

Como Lupicínio Rodrigues voltou à sua vida neste momento? É um retorno ao início da carreira?
O Lupicínio me deu meu primeiro sucesso, "Se Acaso Você Chegasse". Ele me deu a chance de criar meus filhos, sair do barraquinho, viver um pouco melhor com um pouco mais de dignidade. Porque você sabe o quanto é difícil uma mulher pobre e negra chegar a esse patamar. Tem que lutar demais. Ganhei do Lupicínio o direito de sair daquela situação. Quando fui operar a coluna, não acreditava muito, estava indo para a mesa de cirurgia pensando: 'Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio. Ele vai me dar mais um sucesso'. Cheguei ao Rio, chamei o maestro Eduardo Neves, e começamos a montar o repertório. Foi quando fiquei um mês ouvindo Jamelão, o maior intérprete do Lupicínio. E chorando, hein? Música, se a gente não começar a cuidar, é que nem o futebol. Vai para o buraco.

Nossa entrevista estava, inicialmente, marcada para o dia do jogo do Brasil contra a Alemanha. Como você passou esse sufoco?
Foi triste. Chorei muito, fiquei louca. Nunca senti tanta saudade do Mané [Garrincha] como nesse dia. Não só da pessoa, mas do jogador que jogou por chuteiras e bandeiras, do grande jogador que morreu pobre. Você coloca um vídeo do Mané, você não quer tirar. Aqueles dribles dele... Em 1962, o Mané ganhou a Copa. Você vai à Suécia e vê que eles têm verdadeira loucura por ele.

Em 1962, você foi ao Chile como madrinha da seleção brasileira ao lado de Mané Garrincha.
E paguei o maior o mico. Cheguei com muito frio e a primeira-dama chilena me emprestou um casaco de vison. Fui eu com o casaco da mulher do presidente. Cheguei no estádio e fazia aquele calor incrível. Tirei o casaco, [o Brasil] fez o gol, e joguei o casaco para cima, mas ele não voltou. A gente [Garrincha e Elza] ainda estava só de namorico, aquele que você acha que pode dar certo. Quando o chileno [Eladio Rojas] cuspiu na cara dele, o Mané só levantou a perna e o jogador fingiu que caiu, e Mané foi expulso. Ao sair do campo, jogam uma pedra nele. Eu vi aquele sangue descendo, entrei no campo, soltaram aquelas cães, e eu correndo no estádio. Madrinha da seleção levando mordida de cachorro na bunda, veja só, aquele vexame.

E teve sua entrada no vestiário masculino da seleção.
Mas não vi ninguém pelado, acredita? Eu corri para ver o Mané, nem pensei que o pessoal estaria tomando banho, mas eu não vi nada. Que vergonha. Ele [Mané] tinha jurado em dar a Copa para mim. Foi lindinho ele. Depois disso...

Isso de ser madrinha se perdeu totalmente. Quem chega próximo dessa posição hoje? A Bruna Marquezine, namorada de Neymar?
É, né? Não sei, não. Ah, tadinha. Tem que estar no estádio, tem que estar presente. Sabe... tem que dar uma reviravolta nesse futebol brasileiro.

"Minha ostentação era simplesmente comer bem, descer do morro e dar uma vida melhor para meus filhos Elza Soares, sobre a origem humilde e o funk ostentação"

Por que chegamos a um resultado assim, como o 7 a 1 da Alemanha no Brasil?
Porque não teve povo. Teve muita gente, mas o povo que gosta de futebol não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. O povo mesmo, coitado, participou pela TV ou na areia de Copacabana. E chorando, né? Com esse salário, comprar um ingresso? Agora tem que fazer com que esses estádios maravilhosos e lindos fiquem acessíveis para esse povo. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Fico triste. E agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7 a 1 outra vez.

E, no caso das eleições, quem seria a Alemanha?
Nós, brasileiros, vamos à luta, mas nossas reivindicações estão completamente erradas. Não saímos às ruas com um objetivo. Saímos para quebradeira, para quebrar ônibus, que é do povo. Cada vez que se quebra um ônibus você deixou de ajudar um trabalhador que precisa daquilo. Acho que existe a necessidade de se ter alguém que fale pelo povo, mas alguém de verdade, não essa coisa de sair na rua sem saber por quem estão lutando. Acho indigno o salário de um médico, de um professor. Está na hora de buscar como uma meta: 'Eu quero isso'. O povo mais inocente que tem é o brasileiro. A gente usa muito o lado do coração, mas falta usar a cabeça. A gente perdoa muito e isso é muito negativo. O Brasil é o país da chance.

Você já sabe em quem vai votar?
Ainda não. Estou buscando alguém.

O que acha da presidente Dilma Rousseff?
Gosto dela como mulher. Achei que, quando ela entrasse, ia dar essa força. Mas tirando ela, quem mais tem? Quem está aí na frente é a Dilma. Eu não sei se tem outro candidato que tenha força para colocar esse país no lugar certo.

Em sua primeira aparição no programa de calouros de Ary Barroso, em 1953, você disse que vinha do "planeta fome". Aquilo abriria ainda mais a porta para a manifestação artística da favela e do subúrbio. E hoje esses artistas estão nos palcos com o discurso da ostentação.
Não sou contra, não. Sendo uma coisa boa, a gente aplaude. Agora, minha ostentação era simplesmente comer bem, descer do morro e dar uma vida melhor para meus filhos. Nunca tive isso. Quer dizer, comprei carros, morei bem, tive bens, mas não sei se saberia viver assim apenas.

Você também veio do "planeta racismo".
A fome é indecente, é indigna. A fome é uma coisa muito feia. O racismo você vai tirando aos poucos, a homofobia também, que é um absurdo. Agora a fome não te dá direito nem de falar, nem de dormir, nem de acordar. É muito triste. Só quem já passou por ela, sabe. Agora racismo só faz quem tem dinheiro.
Não nos livramos do racismo ainda?
Não. O racismo está por aí, pelas paredes. Ele está nas bananas. Mal sabem eles que banana é boa à beça.

E ainda teve o "somos todos macacos"...
(Interrompe) Escrever que 'somos todos macacos' é fácil, mas e dizer 'somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso. Macaco tudo bem. Pega um macaquinho e coloca no braço, mas quem não é negro, não é negro mesmo. E não aceita ser negro, como se ser negro fosse uma doença, como se gay fosse uma doença. Será que a gente vai se livrar disso um dia?