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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Encontro internacional de graffiti: arte de rua deixa sua marca em Curitiba

publicado: fundação cultural de Curitiba

Curitiba recebe, entre os dias 10 e 12 de abril (sexta-feira a domingo), a quarta edição do STREET OF STYLES – ENCONTRO INTERNACIONAL DE GRAFFITI. O evento é apoiado pela Fundação Cultural de Curitiba e reúne cerca de 250 escritores de graffiti de 16 estados brasileiros e 16 países. Eles participam de palestras, workshops e intervenções nos bairros da cidade, entre outras atividades ligadas a esse universo. O evento também promove campeonato de skate, paredão de escalada, batalhas de breaking, batalha de sketch e shows musicais.
O projeto Street of Styles tem como objetivo proporcionar um acesso livre à cultura popular em Curitiba, transformando muros da cidade em galerias de arte a céu aberto. O evento também promove um intenso intercâmbio cultural, além de respeito à cidadania, ao diálogo e à igualdade social.
O Street of Styles é realizado pela Capsula Graffiti e produzido por Michael Devis e Neto Vettorello, junto com uma equipe curadoria que se renova a cada ano.
Workshops - Três oficinas gratuitas, limitadas a 30 vagas cada, serão oferecidas pelo evento. Cada uma será ministrada por um artista diferente. Um deles é TINHO, de São Paulo, um dos pioneiros do graffiti brasileiro – atua desde 1988.
Outro é BIGOD, da Bahia, envolvido com arte de rua desde 1998. O artista e ativista ACME, do Rio de Janeiro, ministra a outra oficina. Ele já expôs na Europa e em outros países da América Latina. Os workshops acontecem no Portal do Futuro do Bairro Novo.
Música - Além dos encontros e oficinas, o Street of Styles também terá dois palcos instalados, nos quais acontecem duas amostras da cena black music de Curitiba.
Um deles será apresentado pelo movimento I LOV E CWBEATS , no Portal do Futuro do Bairro Novo. Outro fica por conta da BOOMBOX – KEEP IT REAL, no CAIC Bairro Novo (Escola Guilherme Lacerda Braga Sobrinho).

STREET OF STYLES - ENCONTRO INTERNACIONAL DE GRAFFITI
Data: 10 a 12 de abril (sexta-feira a domingo)
Locais: Portal do Futuro Bairro Novo (Rua Marcolina Caetana Chaves, 150, Sítio Cercado) | CAIC Bairro Novo – Escola Guilherme Lacerda Braga Sobrinho (Rua Pastor Waldomiro Bileski, 71, Sítio Cercado) 
Informações:streetofstyles.com

quarta-feira, 18 de março de 2015

Centro Cultural Humaitá construindo sua Sede

Adegmar José da Silva, o Candiero, circula sob o vão do viaduto do Capanema: projeto será realizado pelo Centro Cultural Humaitá “na raça” em até três anos. | Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
 publicado:gazeta do povo


Centro de cultura afrobrasileira vai ocupar, com escolas de arte e biblioteca, espaço abandonado sob o Viaduto do Capanema
Um dos espaços urbanos mais degradados de Curitiba, o vão sob o Viaduto do Capanema entre os trilhos do trem e a Avenida Omar Sabbag, está em vias de renascer.
A prefeitura concedeu o uso do espaço ao Centro Cultural Humaitá (CCH), uma entidade que atua há treze anos na pesquisa da arte e cultura afro-brasileira através de projetos sociais.
O acordo prevê um prazo de um ano para que o CCH apresente o projeto da revitalização do local com o plano de custeio e alvará de construção. O grupo terá três anos para concluir as obras e será responsável pela manutenção, segurança e encargos tributários do imóvel.
No próximo sábado (21), a prefeitura e voluntários do CCH vão iniciar um mutirão para a limpeza do espaço, que nos últimos anos tem servido como casa precária para moradores de rua e mocó para usuários de drogas. O projeto da reforma já foi encomendado ao arquiteto Homero Réboli, que não vai cobrar nada pelo trabalho.
Segundo o atual presidente do CCH, Adegmar José da Silva –o Candiero –, a ideia é criar um centro que disponha de teatro, uma biblioteca temática, oficinas e escola de arte, música, capoeira, esportes, vivências culturais, exposições e eventos abertos à comunidade todos os dias da semana.
Para Candiero, o centro terá a missão de unir dois extremos: cultura ancestral e cultura digital. “A ideia é criar um ponto de convergência entre a rua e a academia, entre a cultura popular e a erudita. Usar um espaço no coração da cidade para valorizar e dar visibilidade à história e cultura afrobrasileira em Curitiba e no Paraná”, disse.
“É um espaço histórico de convergência da cidade”
Presidente do Centro Cultural Humaitá, o ativista social e mestre de capoeira Adegmar José da Silva, o Candiero, afirma que a instalação do centro cultural no Capanema vai ajudar a dar visibilidade à presença do negro na formação da identidade curitibana. Leia a matéria completa
Para financiar a primeira fase do projeto, o CCH articula o lançamento de uma campanha de financiamento coletivo. “É uma estratégia possível para iniciar o trabalho até que a gente consiga parceiros públicos e privados, que só vão investir depois que a nossa estrutura estiver funcionando.”
Vila Tassi
Candiero observa que a localização da futura sede do CCH tem um forte significado para a comunidade negra de Curitiba. “Aqui ficavam as três arvores da antiga Vila Tassi, onde os ferroviários faziam seus batuques no fins de tarde. Foi o berço do samba em Curitiba, que deu origem à escola de samba Colorado e à bateria Boca Negra. Maé da Cuíca morava a cem metros daqui”, ressalta.
Ele avalia que a concessão do imóvel foi uma vitória obtida “pelo cansaço”. O primeiro pedido do uso do espaço foi feto em 2001 pelo rapper Don Joey, com inspiração no uso deste tipo de construção outras cidades. Desde então, o grupo protocolou pedidos todos os anos, todos negados. “Em 2014, o grupo perdeu o espaço que tinha na reitoria da UFPR, e essa necessidade fez com que uníssemos as forças para turbinar o pedido. Ligávamos toda a semana para a prefeitura e agora conseguimos ”, disse.

*21 de março é o dia em que será dado o pontapé inicial da reforma, um mutirão de limpeza promovido pela prefeitura e voluntários. O Humaitá tem prazo de três anos para concluir as obras.

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A subversão dos Racionais MC’s




Considerado o nome mais importante do rap brasileiro, grupo paulistano lança disco depois de 12 anos sem um álbum de inéditas Publicado gazeta do povo - em 03/12/2014 | Rafael Rodrigues Costa

O recém-lançado Cores & Valores, sexto disco de estúdio do Racionais MC’s, veio à luz na semana passada já cercado por uma expectativa pesada .

O quarteto paulistano se tornou o mais emblemático grupo de rap brasileiro ao ganhar uma projeção enorme nos anos 1990, se valendo de métodos independentes e músicas com denúncias fortes da desigualdade e do racismo, dotadas de uma lucidez que não apenas elevou os rappers a porta-vozes da juventude pobre e negra brasileira, mas que também foi legitimada e investigada por críticos e acadêmicos.

Disco
Cores & Valores
Racionais MC’s. Independente/Boogie Naipe. R$ 9,99 (digital, no Google Play Música) e R$ 23,90 (CD).

Opinião

Novo disco mostra que grupo não pretende reverenciar o passado

Com uma linguagem por vezes cifrada e ideias densas nas entrelinhas, pode ser que o novo disco não se comunique imediatamente com quem esperava a volta dos Racionais MC’s como eram conhecidos. Mas uma mensagem parece clara: o grupo, embora tenha gravado faixas de tom memorialista como “Quanto Vale o Show”, não pretende reverenciar o próprio passado e entregar aos fãs só aquilo que eles querem ouvir.

Neste sentido, é uma pequena subversão os rappers gravarem um disco de meia hora depois de 12 anos, e uma ousadia levarem diferentes afetos e dimensões mais sensíveis à sua música depois de se firmarem como gurus com um discurso mais direto. Cores & Valores, ainda que aparentemente mais despretensioso e até pop quando traz uma balada romântica, por exemplo, busca o risco, e não a comodidade do status de ícone que os Racionais MC’s conquistaram (talvez, até em parte devido ao silêncio do grupo nesse período em que tanta coisa mudou não apenas no rap). No caso deles, isso é importante para que não se tornem caricaturas de si mesmos. E para que as expectativas diante do próximo disco, que não deve demorar, sejam ainda maiores.

Depois do álbum Nada Como Um Dia Após O Outro Dia (2002), no entanto, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e o DJ KL Jay entraram em um hiato de novas criações.

Foram 12 anos em que o grupo se absteve de fazer novos comentários sobre a realidade que havia retratado com tanta contundência desde o fim da década de 1980. Considerado o nome mais importante do rap brasileiro, grupo paulistano lança disco depois de 12 anos sem um álbum de inéditas Publicado em 03/12/2014 | Rafael Rodrigues Costa

Isso em pleno período de mudanças na arena política e na sociedade brasileira – em especial, nas periferias das grandes cidades que sempre foram o objeto de sua obra.

A curiosidade sobre o que os Racionais teria a dizer depois de tanto tempo ultrapassou os círculos do rap.

A resposta, um disco fugidio, fragmentado e ambíguo, subverte as expectativas por um trabalho mais concreto e de leitura fácil.

Em pouco mais de meia hora, os Racionais, envoltos por uma sonoridade pesada e francamente aberta a tendências mais recentes do rap norte-americano, dão recados em faixas que chegam a ter menos de um minuto (um choque para fãs apegados a narrativas e crônicas de discos anteriores que chegavam a durar em torno de dez minutos). E se permitem dedicar faixas de pegada pop para falar, por exemplo, de amor (“Eu Te Proponho”), citando Gilberto Gil e Cassiano.

Mas essa é a impressão superficial. Acontece que Brown, Blue, Edi Rock e parceiros como Negreta (do também paulistano Rosana Bronks) estão dizendo mais com menos palavras, em sintonia com a urgência dos tempos digitais.

Os temas (e Ice Blue já disse que, apesar da chegada da tevê, do computador e do micro-ondas, a periferia continua sofrendo com os mesmos problemas) seguem orbitando o universo de denúncia do grupo, que ainda fala sobre racismo e desigualdade – “a fábrica que exporta criminalidade” (“Mal e Bem”).

Os Racionais seguem provocando, de forma parecida com o não menos legítimo funk ostentação, ao lembrar que os bens de luxo nas vitrines dos shoppings, embora destinados a outro segmento da sociedade, podem ser fortemente desejados pelos moleques “de pé no chão, mal vestidos, sem comer” que os cercam do lado de fora (“Eu Compro”); retratam a mentalidade do crime com uma verossimilhança sempre inquietante (“A Escolha que Eu Fiz”); e denunciam a criminalização do rap e da população pobre ao contar, de seu ponto de vista, o que aconteceu na Virada Cultural de São Paulo em 2007, quando o público de seu show entrou em choque com a polícia na Praça da Sé (“A Praça”). São os mesmos Racionais, 12 anos depois. Mais maduros, talvez.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Cultura negra ainda encontra dificuldade de reconhecimento pelo Estado

Da Agência Brasil Edição: Marcos Chagas

Cultura negra ainda tem dificuldade de ser reconhecida no BrasilMarcello Casal Jr/Agência Brasil

As culturas de matriz africana no país ainda têm dificuldades para fazer valer seus direitos de reconhecimento por parte do Estado. Durante seminário promovido pela Fundação Cultural Palmares, os debates focaram a necessidade de se aliar políticas públicas efetivas de preservação da cultura e da memória, assim como o direito à cidadania das comunidades negras. O evento contou com a parceria da Defensoria Pública da União.

Para o defensor público Carlos Eduardo Paz, do grupo de trabalho Quilombola, Cidadania, Cultura e Identidade, essas comunidades não estão realmente salvaguardadas pelo Poder Público. "A lei, muitas vezes, não tem dispositivos que atendam a todas as especificidades de cada comunidade, com seus problemas mais pontuais”. Ele acrescentou que as leis de salvaguarda da cultura negra em vigor “não dão conta da totalidade da realidade".

Essa situação de falta de políticas públicas é compartilhada por um íider jongueira, Alessandra Ribeiro Martins, da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, na Fazenda Roseiras, em Campinas, São Paulo. Ela destaca que as políticas criadas devem estar mais presentes nas comunidades. "A Fazenda Roseiras é um importante espaço simbólico de preservação dos costumes e da memória negra para o país, por defender essa e muitas manifestações de origem africana”.

A professora Elaine Monteiro, da Universidade Federal Fluminense e coordenadora do Pontão de Cultura do Jongo, concorda com a postura de Alessandra Martins. O Pontão é um programa de salvaguarda de patrimônio cultural de natureza imaterial que tem como proposta articular e fortalecer as comunidades jongueiras, além de atender às demandas dessas comunidades para a criação de políticas públicas que contemplem suas necessidades. "Eu enxergo a situação atual de reconhecimento dessas comunidades como um paradoxo.”

O reconhecimento dessa população como patrimônio imaterial não representa, necessariamente, a melhoria de qualidade de vida dss pessoas, adverte Elaine. “Vê-se, por exemplo, esses mesmos detentores [de saberes ancestrais] morrerem de fome e a falta de reconhecimento daquela população no próprio bairro onde moram", disse a professora.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Solano Trindade - Conversa

Solano Trindade (poemas e cantos)

CONVERSA

- Eita negro!

quem foi que disse

que a gente não é gente?

quem foi esse demente,

se tem olhos não vê…

- Que foi que fizeste mano

pra tanto falar assim?

- Plantei os canaviais do nordeste

- E tu, mano, o que fizeste?

Eu plantei algodão

nos campos do sul

pros homens de sangue azul

que pagavam o meu trabalho

com surra de cipó-pau.

- Basta, mano,

pra eu não chorar,

E tu, Ana,

Conta-me tua vida,

Na senzala, no terreiro

- Eu…

cantei embolada,

pra sinhá dormir,

fiz tranças nela,

pra sinhá sair,

tomando cachaça,

servi de amor,

dancei no terreiro,

pra sinhozinho,

apanhei surras grandes,

sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa

tu tens pra contar…

não conta mais nada,

pra eu não chorar -

E tu, Manoel,

que andaste a fazer

- Eu sempre fui malandro

Ó tia Maria,

gostava de terreiro,

como ninguém,

subi para o morro,

fiz sambas bonitos,

conquistei as mulatas

bonitas de lá…

Eita negro!

- Quem foi que disse

que a gente não é gente?

Quem foi esse demente,

se tem olhos não vê.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Debate sobre cultura da diáspora negra abre Festival Latinidades


publicado:agencia Brasil

A edição de 2014 do Festival Latinidades começou hoje (23) com um debate sobre as origens da cultura negra e as características da literatura da diáspora – a vinda de negros africanos para a América Latina e o Caribe a partir do século 15, que é a ênfase do encontro deste ano.

Na abertura festival de mulheres negras latino-americanas e caribenhas, a escritora costa-riquenha Shirley Campbell falou sobre as diferenças entre a arte africana e a da diáspora e sobre as raízes que compartilham. “A arte africana é muito ligada a manifestações sobre descrições do cotidiano. A da diáspora, por outro lado, fala sobre a interação da arte negra com outras comunidades."

No caso da literatura negra latino-americana e caribenha, explicou Shirley, as artes são uma função social e o artista tem a responsabilidade de dar voz àqueles que não têm. "Os artistas da diáspora negra interpretam o sentir comum e o expressam com suas habilidades individuais.”

Para a escritora, apesar dessa diferença, as mulheres negras da África, da América Latina e do Caribe têm uma conexão primordial, que é a base na memória de antepassados e na manutenção de conhecimentos e crenças tradicionais. Shirley Cambell foi uma das participantes do primeiro debate do Festival Latinidades, que contou também com a presença das escritoras brasileiras Inaldete Pinheiro e Nina Silva. Na plateia, estavam as autoras Conceição Evaristo e Priscila Preta, muito aplaudidas pelos presentes, apesar de não participarem do debate.

“O movimento de mulheres negras faz que as suas identidades sejam faladas por suas próprias bocas e não pelas de outros. Há uma sintonia entre as vozes [da América Latina, do Caribe e da África], pois há raízes profundas, mantidas por espiritualidade, memória e genética. Somos uma grande rede e nos retroalimentamos por meio de conhecimento, experiências e dizeres”, disse Nina Silva.

A programação desta tarde prevê uma performance às 15h, no auditório do Museu Nacional da República, em homenagem ao centenário da escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, autora do livro Quarto de Despejo, conferência de abertura do festival, com o tema Diálogos Afro-Atlânticos, às 16h, e o espetáculo de abertura, , às 20h, na Sala Plínio Marcos, na Funarte.

O festival, que vai até segunda-feira (28), terá inda debates sobre temas diversos, oficinas, lançamento de livros, conferências, exibição de filmes e programação musical.Para sexta-feira (26), está previsto um sarau no espaço externo do Museu Nacional. No sábado (26) e no domingo (27), haverá shows a partir das 19h. A programação completa pode ser acessada na página do evento na internet.

Ser preto tá na moda?

por Mara Gomes*
publicado: blogueirasnegras.org

Precisamos falar sobre apropriação de cultura.

“Se cantar pra boy é evolução, eu vou morrer conservador.”
Eduardo, ex Facção central.

Aconteceu com o rock, com o jazz, com o samba, agora está acontecendo aos poucos com o pagode, com o funk e com o rap. Parece até que é um caminho natural da cultura negra, parece comum assistirmos o que é produzido pelos nossos, ser de alguma forma “silenciosa” e sorrateira, apropriado pelos mais favorecidos (brancos, classe média e alta) e transformado em algo embranquecido, folclórico, afastado de suas raízes. A apropriação de cultura é uma questão que deve ser levada a sério, mas ainda não é. Ainda só prestamos atenção quando algo muito “grande” acontece, ou seja, uma black face ali, um debochezinho aqui ou um show de artista negro pra um público completamente branco e rico, mas não deve ser assim. A ofensa não deve ser só levada a sério quando é direta, deve ser levada a sério também quando é indireta, quando tenta ser invisível.

O maior problema da apropriação de cultura é que ela, como qualquer mecanismo racista, tem o propósito de excluir o negro dos espaços, dar um novo formato pra sua identidade, limitar sua maneira de se expressar, criando uma nova cultura mais acessível e mais comerciável. Esse mecanismo faz o trabalho de substituir, de uma forma esdrúxula e direta, o negro pelo branco, um branco que vai buscar fazer exatamente o que o negro faz, mas com o bônus da cor que é mais aceitável e que deixa tudo mais bonito. Assim, sempre com o propósito de comercializar, a apropriação de cultura facilita a passagem pela mídia, a comercialização da cultura fica mais fácil, o capital corre tranquilamente.

Dessa forma ela exclui e invisibiliza o negro e o favelado , tornando esse processo cada vez mais engenhoso e que acontece por baixo dos panos, um racismo disfarçado de moda, de apreciação. Às vezes nós negros somos enganados com isso, pois essa apropriação tem diversas faces. Pra escurecer um pouquinho vou lançar um breve exemplo disso: podemos pensar na chegada de Elvis Presley na música americana. Ignorando toda a questão do artista e seu talento, não precisamos fazer muita força pra perceber que existia toda uma lógica de mercado por trás do surgimento desse ícone. O modo que ele dançava, o jeito que ele cantava, era um estilo completamente influenciado pela cultura negra e por artistas negros, artistas que obviamente causavam grande fervor na época como Little Richard e Chubby Checker, dentre outros.

Os brancos incomodados com o talento que os negros tinham e com o efeito que causavam nos jovens da época decidiram criar um ícone só deles que pudesse abafar esse fervor todo que a música negra causava. Funcionou muito bem, por isso hoje chamam Elvis de rei do rock-and-roll ignorando toda a história negra que existiu antes dele e isso é, sem dúvida, apropriação de cultura seguida da disseminação de uma história embranquecida.

Mas vamos falar um pouco do que está acontecendo agora, especificamente na cena musical brasileira. O maior exemplo de apropriação de cultura pode ser observado em alguns bailes funk que acontecem dentro das favelas hoje, direcionados apenas pra elite branca com ingressos custando 150 reais ou mais. O funk que era visto pela mídia como uma cultura que não presta, hoje atrai a classe média em peso, a ponto de saírem das suas casas bem localizadas e confortáveis para invadirem a periferia. Do outro lado, vemos também alguns artistas renomados como Seu Jorge, que recentemente fez um show em uma festa chamada VIP, onde a elite coxinha se reuniu para assistir o jogo de Brasil e México. Os ingressos custavam até 1000 reais e o único negro no lugar era o artista. Outro caso é o artista Criolo (ex Doido), que fez um show só para artistas da Globo onde o valor dos ingressos beirava os 200 reais.

Daí surge à questão: o negro só é moda quando vira produto? O rapper Criolo não representa o rap nacional e dentro da favela são raras as pessoas que conhecem seu trabalho. Mas o discurso dele, as músicas, todo o repertório é construído em cima de um cotidiano de favela, de empoderamento do povo negro. O mesmo acontece com o Seu Jorge. Por que o negro favelado não pode assistir aos seus shows e por que essa mensagem não chega mais até esse determinado grupo? Porque a música que eles produzem virou consumo apenas para a classe média branca?

Grande parte dessa classe média branca que invade a favela e faz aparições em shows de artistas negros acha o negro muito agradável para conviver, “tem amigos negros”, mas só quando esse negro serve pra alguma coisa, quando ele é “útil”. Quando acham que podem fazer uso da arte que esse negro produz, quando esse negro é uma peça de entretenimento e também quando podem usufruir do seu trabalho braçal – a maneira mais antiga de exploração – porque afinal de contas precisa do porteiro, do motorista, da empregada sempre a postos pra ajudar no que for preciso.

A questão é que escutar Criolo, Seu Jorge, usar dreads, turbante, ir em baile funk na favela, todas essas coisas não fazem ninguém menos racista e precisamos abrir os nossos olhos pra isso. Estamos afundados nesse processo todo. Nosso papel enquanto negras e negros é tentar ao máximo valorizar a nossa cultura de raiz, propagar o amor a nossa raça, se incluir e criar espaços afrocentrados, juntar forças e nos abraçar uns aos outros. Essa é a única arma, esse é o único jeito de lutar contra esse sistema que tenta nos esmagar todos os dias.

Precisamos acima de tudo perceber que o racismo continua impregnado dentro desses movimentos que dizem que “o preto está na moda”. Só porque a classe média branca gosta do que o negro produz não quer dizer que ela gosta de conviver com o negro nos seus espaços diários, que ela não pratique racismo todo o dia com seu porteiro, com sua empregada. A questão pontual é essa: porque o negro não está na moda quando o assunto é o extermínio da juventude negra? Por que não está na moda quando as nossas estatísticas de desemprego, população carcerária, população de rua, subempregos é mais alta? Por isso a apropriação de cultura não é bonita, não me agrada, não é um elogio, é um processo racista que infelizmente não nos damos conta por completo ainda. No entanto precisamos, precisamos muito falar mais sobre isso.

Referências

Criolo: http://www.rapnacionaldownload.com.br/novidades/criolo-ex-doido-faz-show-rio-com-ingresso-caro-e-cheio-de-celebridades/
Seu Jorge: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/seu-jorge-na-festa-da-copa-dos-coxinhas/
baile funk: http://revistadonna.clicrbs.com.br/2013/11/02/no-rio-de-janeiro-ingresso-para-baile-funk-na-favela-custa-no-minimo-r-150/
jovens brancas funkeiras classe média: http://revistadonna.clicrbs.com.br/2014/05/30/thamires-tancredi-de-iniciante-a-hard-as-funkeiras-que-vao-estar-no-baile-da-favorita/Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.

Mara Gomes* é estudante de psicologia, apaixonadíssima por quatro efes: Feminismo, Filosofia, Foucault e Frida Kahlo. Administra a página A Mulher negra e o Feminismo e alimenta ainda aquele velho sonho de mudar o mundo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ciclo de Leituras Ebulição Marginal



Nelson Triunfo, pioneiro do movimento hip hop no Brasil, na rua 24 de Maio, em São Paulo
Nascido nos guetos norte-americanos em meados da década de 1970, o hip hop é uma cultura que se estabelece sobre quatro elementos distintos: o rap, o grafite, o break e o MC (mestre de cerimônias). Há ainda um quinto elemento, já amplamente disseminado pelo movimento criado por Afrika Bambaataa: o conhecimento, ou a sabedoria. O Ciclo de Leituras Ebulição Marginal, que começa hoje (21) em Curitiba, utiliza o hip hop para despertar o interesse literário em jovens das periferias.

Em sua segunda edição, a programação é composta por encontros de mediação de leitura e apresentações culturais ligadas à produção artística da periferia. A intenção é revelar conexões entre a literatura e os elementos do hip hop, especialmente o rap – que, do inglês, significa “ritmo e poesia”. “Se pensarmos que é poesia, o rap também é literatura. É um link direto”, diz Anna Carolina Azevedo, idealizadora do ciclo. “Nossa intenção é tornar esses meninos atentos a isso, ao fato de que existe poesia dentro do movimento hip hop e, a partir desse lugar que é tão comum para eles, partir para saltos maiores”.

Para Anna Carolina, dessa forma é possível chegar a outros tipos de leituras, aos cânones e a outros gêneros, mas a primeira aproximação se dá por meio do rap e de referências da literatura marginal contemporânea, como Paulo Lins e Férrez. Neste ano, toda a programação do ciclo é baseada nos sentidos que se desprendem da palavra “marginal”. “Entendemos o termo ‘marginal’ como algo que está fora de um círculo, de um centro”, explica a idealizadora.

Além de rodas de leitura, sessões de grafitagem, batalhas de rimas e de break, oficinas de poesia e saraus literários, também há espaço reservado para o Manguebeat, movimento de contracultura do Recife da década de 1990, e para a censura à época da ditadura militar. Ambos momentos marginais, segundo Anna Carolina. “A literatura durante a ditadura militar, se pensarmos em Rubem Fonseca e Ignacio de Loyola Brandão, corria fora da elite militar – e, por isso, era marginal. E o nordeste, onde aconteceu o Manguebeat, é a margem do Brasil e em si já é uma periferia”.

Do underground literário de Curitiba, o poeta Marcos Prado será homenageado em rodas de leitura e discussões. “Ele foi um cara que morreu muito jovem, aos 35 anos. Em vida produziu incessantemente, mas não fazia parte das instituições oficiais de cultura da cidade”, considera. A obra do autor, assim como todo o legado do movimento hip hop e da literatura marginal, são as bases para a realização do projeto, que busca desmistificar a ideia de que a literatura está reservada apenas para uma parcela da sociedade. “Formando leitores, formamos cidadãos mais sensíveis e mais atentos àquilo que gira em torno deles, às nuances sutis do cotidiano”.

Ciclo de Leituras Ebulição Marginal
Onde: Espaço da Leitura Eucaliptos (R. Pastor Antonio Polito, 2200, Alto Boqueirão – Curitiba/PR)
Quando: 21/07 a 26/07, às 9h30, 14h30 e 19h30
Quanto: grátis
Info.: (41) 3286-2931

Programação:

21 de julho, segunda – feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – Rua, Ritmo e Poesia.
19h30 – Exibição do Ebulição Marginal 2013 + Apresentação Teatral do grupo de teatro juventude, com peça inspirada na obra de Ferréz.

22 de julho, terça-feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – A margem da ditadura, literatura no período militar
19h30 – Exibição do Ebulição Marginal 2013 + Roda de leitura em cinema – O Bandido da Luz Vermelha.

23 de julho, quarta-feira:
9h30 – Oficina de poesia Marcos Prado.
14h30 – Roda de leitura – Na periferia do Brasil: O movimento Manguebeat
19h30 – Papo Cabeça – Arte na Periferia

24 de julho, quinta-feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – Arte e Guerra de Banksy.
19h30 – Filme Cidade Cinza

25 de julho, sexta-feira:
9h30 – Oficina de Poesia Marcos Prado
14h30 – Roda de leitura + Palestra sobre Marcos Prado, com participações de Sérgio Viralobos e Mônica Berger.

26 de julho, sábado:
14h30 – Batalha Ebulição Marginal: Competição de breaking, rima e grafite.
19h30 – Show da banda The Old Street + Inverso: O Som da Poesia Marginal com Zirigdun Pfóin + Apresentações de Rap Freestyle (inscrições feitas na hora)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Eu acredito

Eu acredito
por Yaisa Carolina*
publicado: blogueirasnegras.org 

Eu acredito que há mudança, que há esperança, que há futuro, que há certezas, que há fé. Eu acredito que há vitórias, que há pessoas que acreditam no melhor não só apenas quando a bola rola.
Eu acredito que há avanços, acredito que há ainda mais espaços para ocupar. Que unir é ainda a melhor arma para vencer. Que a educação é o melhor jeito de crescer. Acredito que não há apenas uma fórmula de sabedoria, assim como há várias maneiras de se cultivar a cultura.
Que a aflição há de acabar, mas sem luta não há vitória. Temos que ter objetivos, maiores do que aqueles escritos nos livros. Acredito que a identidade vale mais do que o rótulo. Que a lei é falha, visto que foi idealizada por homens. Mas os mesmos homens que erram, podem acertar.
Acredito que nem tudo vem de cima, aqui embaixo temos o nosso dever. Acredito que lamentar não nos move. Mas acreditar em si mesmo faz o caminho até a montanha mais vantajosa.
Acredito que exista o caminho do bem, não acredito nas promessas de um mundo mais bonito. Mas sim em pessoas mais positivas.
Eu acredito nas diferenças, quando tratadas com igualdade, respeito.
Eu acredito em nós. Eu acredito na força da minha ancestralidade. Acredito no povo da pele preta. Eu acredito na gente.
A miséria, a mazela, a violência, a fome, o descaso, a impunidade, a indiferença, a descrença, a ignorância, a corrupção, são resultados de subtrações realizadas por nós. Se aprendermos a somar…
Nós temos um DNA marcado. Não temos escolha de cor. Mas temos opções de cota. Temos opções de ser ou estar. Só nós podemos avaliar o que é melhor pra gente mesmo. Acredito na voz. Não acredito na representação. Acredito que devemos ter o papel principal em nossas histórias.
Nossa história marcada pela oralidade. Está na hora de preencher os formulários em branco.
Acredito na escolha. Eu escolhi me mostrar sem medo, me identificar sem receio, a lutar pelo que vejo. A derrota se esconde naquele que não se assume. Eu escolhi fazer parte de uma vertente social que há anos caminha em prol de justiça. Mesmo sendo, em sua maioria, punida por ela. A justiça.
Eu faço parte da maioria. Eu sou a maioria. Nós somos a maioria. A repetição leva a perfeição.
A facilidade nem sempre é positiva. Eu acredito no merecimento. Eu creio na superação.
Eu acredito que no dia que eu deixar de acreditar o sentido da vida estará perdido.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Lispector.

Yaisa Carolina
Formada em Produção Cultural, Coordenadora de Cultura na Coordenadoria Extraordinária de Igualdade Racial de Macaé. Nasceu na casa de sua bisavó em Campos dos Goytacazes - RJ, desde cedo aprendeu que os valores que se aprende em família e a cor da sua pele, definem os caminhos. O samba, a cultura e as memórias são os compassos que te guiam nesse caminho com respeito a ancestralidade negra.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lázaro Ramos: Momento de Ajuste

Lázaro Ramos percebeu em si próprio as mesmas questões que ecoaram nas ruas
Texto: Pedro Só | Fotos: jorge bispo
publicado: revista Trip



Um dos atores mais populares e elogiados de sua geração, Lázaro Ramos, 35 anos, percebeu que estava vivendo pessoalmente a mesma angústia que detonou as manifestações de rua no Brasil em junho de 2013. assim como todo o país, em 2014 ele parou para ver a Copa e se emocionar com momentos como o choro do goleiro Júlio César. Nas próximas páginas, um papo sobre tudo: infância em Salvador, racismo, teatro, primeira vez, casamento, religião, política, celebridade – e a busca por um sentido na profissão: “Não quero ficar obsoleto”

“A grande alegria de trabalhar é poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas andarem com as próprias pernas. pagar plano de saúde, ajudar um primo na faculdade”

“Alguém nos ajude, Lázaro, a entender...” A frase do cantor Criolo sobre a ascensão da classe C no país foi ao ar em março de 2013 no programa Espelho, que Lázaro Ramos comanda no Canal Brasil há nove temporadas. Por caprichos internéticos, um ano depois, trecho dessa entrevista foi viralizado nas redes sociais, enfatizando o discurso aparentemente desconexo do rapper paulistano. Mas, para além do meme repetido com efeito humorístico, há uma discussão séria e central entre os interesses e a trajetória do politizado ator baiano de 35 anos, reconhecido como um dos melhores e mais populares de sua geração.

Filho de um namoro de Carnaval entre Célia, empregada doméstica morta em 1999, e Ivan, ex-operador de máquinas do polo petroquímico de Camaçari, hoje com 59 anos, ele passou a infância na casa da madrinha, Helenita, de 90 anos.

A convivência com o pai era boa e constante, nos fins de semana. “Como funcionário de Camaçari, ele não levava vida de luxo, mas todo sábado tinha almoço em restaurante, nunca faltou presente de aniversário ou Natal. Aí veio o Collor...”. Sob nova realidade econômica, Lázaro saiu da escola particular para a pública. Depois, aos 14 anos, foi morar com o pai – sem restaurante no sábado.

O adolescente Lázaro fez teatro na escola pública, a Anísio Teixeira. Como só podia frequentar o curso de teatro quem fizesse um outro curso profissionalizante, ele foi cursar patologia clínica. Um emprego no Hospital Ramiro de Azevedo o ajudou a dar apoio à mãe, que sofria de uma doença degenerativa limitadora dos movimentos, em seus últimos anos de vida. A morte dela abalou Lázaro, mas não o impediu de, pouco mais de um ano depois, em 2000, ganhar projeção nacional ao lado dos amigos Wagner Moura e Vladimir Brichta com uma montagem de A máquina, de João Falcão.

Na TV, que o cooptou depois que protagonizou o filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, em 2002, ele foi conquistando espaços com competência e versatilidade. Em Elas por elas(2012), quebrou barreiras como o primeiro protagonista negro de uma novela. Hoje vive o guru pop Brian Benson, em Geração Brasil. Mas o cinema é sua área de atuação mais frequente. Está em cartaz com O vendedor de passados (direção de Lula Buarque de Holanda), baseado no romance do angolano José Eduardo Agualusa. Em breve será visto também em O Grande Kilapy (de Zezé Gamboa), coprodução Brasil-Portugal-Angola, em que interpreta um malandro africano. Em 2015, estará em O grande circo místico, sob a direção de Cacá Diegues.

Outro projeto que gera muita expectativa é Acorda Brasil (cujo título pode ser mudado ainda), dirigido por Sergio Machado. Baseado na experiência do maestro Silvio Bacarelli na favela de Heliópolis, em São Paulo, o filme obrigou Lázaro a contracenar com adolescentes inexperientes e dar vazão à inquietude que rege sua carreira. Lázaro diz que as grandes transformações que teve enquanto ator “vieram de provocações que os filmes lhe fizeram: Madame Satã, O homem que copiava, Cidade Baixa, Ó paí, ó...”. Ser colocado à prova, no abismo, dá medo. Mas traz recompensas definitivas. “Esse medo está aqui em mim, mas ao mesmo tempo tem o sagrado do teatro, que fala: ‘Se joga no abismo, rei! Vá lá! Você não tem nada a perder!’. E aí tem que tirar uma coragem do [põe a mão na boca e fala baixinho] cu pra poder seguir, bicho! Porque dá um medo, rapaz! Mas é bom! É isso que mantém a gente vivo.”

"As grandes transformações da que tive enquanto ator vieram de provocações que os filmes fizeram: Madame Satã, Cidade Baixa..."

Morando no Rio de Janeiro há 14 anos, casado com a atriz Taís Araújo – um relacionamento iniciado há quase dez anos, com oito meses de interrupção em 2008 – e pai de João Vicente, 3 anos, Lázaro não se contenta em apenas atuar. Em 2010, lançou o livro infantil A Menina Sentada (depois adaptado para o teatro). Em 2011, dirigiu a peça Namíbia, não!(de Aldri Anunciação) e, no começo deste ano, estreou a peça As Pocorotas, também voltada para crianças. Tem lido livros técnicos sobre roteiro, já com alguns projetos cinematográficos em mente. E sem esquecer as convicções políticas.

Que passam por ideias como as do sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, entrevistado por Lázaro neste ano no programa Espelho. O autor deBatalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? questiona a classificação estabelecida a partir de critérios estritamente econômicos. “Ele fala: ‘Peraí! Vamos ver! O que é a ascensão da classe C? Que valor é esse que a gente teve agora?’. Eu gostaria de avisar a todos: para você que não entendeu o Criolo, veja a entrevista do Jessé.”

Vamos do começo, sua infância. Sua mãe era empregada doméstica, certo? Sim. Minha mãe trabalhava, minha família toda, então a maioria das crianças foi criada por uma mulher chamada Helenita, que todo mundo chama de Dindinha e que fez 90 anos há duas semanas. Uma mulher que nunca teve filhos, mas pegava os sobrinhos e sobrinhos-netos e criava, dava educação. Minha mãe trabalhava numa vizinha ao lado. Tive muito contato com essa patroa, os netos da patroa. Claro que com os limites de um filho de empregada.

A Dindinha criou você? Isso. A mãe tava ali próxima, mas Dindinha foi a grande educadora da família toda.

Vocês ainda têm contato? Sim, e ajudo, ela é minha família. A grande alegria que eu tenho, de poder trabalhar com frequência, é poder participar, poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas caminharem com suas próprias pernas. Felizmente eu tenho a possibilidade de fazer isso hoje. Pagar plano de saúde, poder ajudar um primo na faculdade.

Você diria que teve uma infância feliz? Tive uma infância feliz, muito protegida, numa casa com quintal. Mas fui um menino criado dentro de casa, a gente não podia sair, as crianças brincavam com a gente no quintal de Dindinha. Era tudo muito regrado, não tinha palavrão, não tinha essa de escolher o que comer. Ao mesmo tempo, dava muita autoestima, e isso foi muito legal. Eu fui perder a inocência sobre a dureza da vida quando saí da casa dela. Aí que eu fui entender mais ou menos como era o mundo. Mas lá era assim, autoestima, me chamavam de capaz, me estimulavam, uma família de pessoas bem-humoradas, minha mãe inclusive. No túmulo da minha mãe tem a frase “Nunca esqueceremos seu sorriso”, que é uma frase marcante, né? Engraçado que até hoje encontro gente que foi amigo ou amiga da minha mãe e fala sempre isso: “Sua mãe era muito engraçada”. Isso contamina a família, me contaminou também.

E como eram as questões materiais? Tinha presente de aniversário, Natal? Tem duas fases. A fase farta é quando meu pai era do polo petroquímico de Camaçari, operador de máquinas. Não era uma vida com luxo, mas tinha presente de aniversário, ir a um restaurante todo sábado. Aí veio o [Fernando] Collor e muda tudo: saí de escola particular e fui pra escola pública... sou filho da época da inflação. Dinheiro era um negócio que perdia o valor rapidamente, a gente saía do banco e ia correndo comprar as coisas. Depois do Collor, cortamos todos os supérfluos, não tinha restaurante, virou outra vida.

Em que bairro você morava? Na Federação era a casa de Dindinha. E no Garcia ficava a casa do meu pai, com quem fui morar aos 14 anos. Ele ainda não era casado, mas ele já tinha a casa dele e tal. Meus pais nunca foram casados, sou filho de namoro de Carnaval: nasci em novembro, nove meses depois do Carnaval. Sou escorpião.

E a relação com seu pai foi boa? Sempre foi muito boa. Meu pai é um homem que passou por uma grande transformação. Ele nunca foi um homem afetivo, era mais disciplinador, muito correto, muito justo, eu tinha medo dele. Mais adulto, quando saí de casa e fui seguir a vida, a gente foi criando uma relação afetiva que eu nem sei o que é que disparou. Hoje a gente é amigo, tem uma relação que não é nem parecida com o que era na infância. Meu pai não queria que eu fosse ator. Muitos anos depois ele veio me dizer: era medo, imagina profissão de ator, vai sobreviver como? De quê? Ele sempre quis que eu fizesse

 escola técnica.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Elza Soares: "Eu vim do Planeta Racismo"

 
publicado: uol.com.br
No início este ando, Elza Soares estava deitada em uma maca a caminho da mesa de cirurgia, após anos sofrendo de dores na coluna e com dificuldades de locomoção. Foi a segunda tentativa cirúrgica de aplacar a fratura causada pela queda de cima de um palco, em 1999, agravada pelo uso do salto 15 e o gingado característico da paciente. Ao cogitar possíveis consequências da operação --perder os movimentos ou a fala, por exemplo-- prometeu a si mesma: "Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio Rodrigues".

O compositor gaúcho, cujo centenário se comemora neste 2014, foi autor do primeiro sucesso da cantora, "Se Acaso Você Chegasse", em 1960. Ele aparece emoldurado ao lado de Elza no palco do novo show dela, "Elza Canta Lupicínio", e norteia o repertório com as canções que popularizaram o termo "dor de cotovelo". Elza entra e sai do espetáculo com passos e movimentos curtos, sempre amparada por um ajudante. No centro do palco, senta-se em uma poltrona e dança nos limites do assento. Não há chororô. 

Com oito pinos nas costas, ela mantém a mesma média de 15 shows por mês, que se desdobram em outros dois espetáculos: "A Voz e a Máquina", em que duela com batidas eletrônicas de dois DJs; e a releitura de seu álbum clássico, "A Bossa Negra"(1961). "Me cansa ficar parada", ela diz, contando nos dedos mais um mês de recuperação, enquanto conversa com o UOL em um hotel em São Paulo, horas antes de sua apresentação no Sesc Santana, na zona norte de São Paulo.

No palco, fala do fatídico 7 a 1 que a seleção brasileira levou na semifinal da Copa do Mundo contra a Alemanha: "Parecia que os jogadores estavam com assaduras". Madrinha da Seleção de 1962 e ex-mulher de Mané Garrincha, ela também reclama sobre a torcida brasileira. "Teve muita gente [na Copa], mas o povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou. Futebol virou elite". E prevê uma goleada, sabe-se lá de quem, nas próximas eleições presidenciais. "O povo mais inocente que tem é o brasileiro."

No quarto de hotel, Elza não usa os enfeites brilhantes e a transparência dos vestidos de gala que traja no palco, mas não dispensa a maquiagem mais leve e os óculos escuros. A pele negra da carioca não mostra as rugas de seus 77 anos, e a cabeleira -- ou peruquinha, como ela chama-- fica entre o cacheado e o black power. A cantora, que em uma de suas primeiras aparições disse que tinha vindo do "planeta fome", também veio do "planeta racismo": "Escrever 'somos todos macacos' é fácil. Mas e dizer: 'Somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso".

"O povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Vai ter dinheiro como? Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7x1 outra vez" Elza Soares sobre o resultado da seleção na copa"


UOL - Como está o seu problema na coluna?
Elza Soares - Há alguns anos eu levei uma queda no Metropolitan (SP) durante um show. Eu caí do palco, de uma grande altura, e tive um achatamento na coluna. Tive uma fratura que não era preciso operar na época, mas tive que usar um colete para colocar no lugar. Mesmo assim, fiquei com meu bom salto 15, sambando que nem uma louca. Era só usar o colete, né? Até que há uns quatro anos eu comecei a sentir choque no corpo todo. Fiz uma viagem e, quando tentei sair do avião, não dava mais. Foi a primeira vez que usei cadeira de rodas. Cheguei em casa alucinada de dor, operei a cervical e parou o choque. Mas aí começou na lombar.

Quando foi a primeira operação?
Foi em 2012. Comecei a sentir a lombar, a ter choque e dor nos pés. O médico disse que tinha que operar a lombar. Coloquei oito pinos. Mas o mais triste foi antes. Ele disse: 'Olha, Elza, você sabe que, com essa operação, você pode ficar muda, perder a voz, pode morrer'. Morrer todo o mundo vai, mas ficar sem voz? 'Então não vou operar'. Mas ele insistiu. Assim que acabou a operação, gritei 'socorro' dentro do hospital. Pensei: 'Bom, estou gritando, então estou ótima'. Descobri que tenho vértebra de criança, então [os pinos nas costas] têm que ser aqueles parafuzinhos. Do cóccix até o pescoço, como o nome do disco [de 2002]. Tenho que ter cuidado, mas um cuidado mais ou menos, né? Não sou muito cuidadosa.

Quanto tempo falta para a recuperação?
A última operação foi em janeiro, já se passaram cinco meses. Disseram que demora seis meses. Estou esperando esse mêsinho. Não dá para sambar, é difícil. Mas também não dá para ficar sentada, que nem dondoca na cadeira, só fazendo caras e bocas, né?

O que você teve que deixar de fazer?
O salto, cara. O salto dói à beça. Tem um pouquinho ainda [mostra o sapato discreto, preto, com um salto do tipo tamanco], mas não dá para notar. Tive que parar de malhar, sempre malhei muito. Eu corria do Leme ao Posto 6 na areia. Sempre tive muito capricho com o corpo. Uma coisa meio masoquista.


Leonardo Soares/UOLElza: "Eu acho que cantar para mim ainda é remédio bom. Sem cantar eu não sei viver. É minha alegria. Em casa, eu fico nostálgica"

Sua maquiagem e suas roupas continuam exatamente iguais. Dá até para ver sua cicatriz.
Dá. Eu quero até que mostre. Acho importante. Tenho uma pele tão boa, que minha cicatriz ficou uma linhazinha só. As roupas lindas, maravilhosas, nunca, jamais [ficarei sem usar]. Meu perfume Dolce & Gabbana, que está acabando... Você merece, e eu mereço tudo isso.

E nos shows, houve alguma proibição?
Não, porque eu fico sentadinha, dou uma tremidinha, faço aquilo no ombro. Na cadeira eu danço. Tenha santa paciência, não aguento.

E você não diminuiu a agenda de shows.
Eu acho que cantar, para mim, ainda é remédio bom. Sem cantar eu não sei viver. É minha alegria. Em casa, eu fico nostálgica. Eu não saio à noite. Não é que eu não goste, mas eu nunca fui boêmia. Não tive esse prazer. Não bebo, não fumo. Não vou atrapalhar quem gosta da noite, né? Senão fica todo o mundo falando alto, e eu: 'Ai, me leva para casa'. Me cansa ficar parada.

Como Lupicínio Rodrigues voltou à sua vida neste momento? É um retorno ao início da carreira?
O Lupicínio me deu meu primeiro sucesso, "Se Acaso Você Chegasse". Ele me deu a chance de criar meus filhos, sair do barraquinho, viver um pouco melhor com um pouco mais de dignidade. Porque você sabe o quanto é difícil uma mulher pobre e negra chegar a esse patamar. Tem que lutar demais. Ganhei do Lupicínio o direito de sair daquela situação. Quando fui operar a coluna, não acreditava muito, estava indo para a mesa de cirurgia pensando: 'Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio. Ele vai me dar mais um sucesso'. Cheguei ao Rio, chamei o maestro Eduardo Neves, e começamos a montar o repertório. Foi quando fiquei um mês ouvindo Jamelão, o maior intérprete do Lupicínio. E chorando, hein? Música, se a gente não começar a cuidar, é que nem o futebol. Vai para o buraco.

Nossa entrevista estava, inicialmente, marcada para o dia do jogo do Brasil contra a Alemanha. Como você passou esse sufoco?
Foi triste. Chorei muito, fiquei louca. Nunca senti tanta saudade do Mané [Garrincha] como nesse dia. Não só da pessoa, mas do jogador que jogou por chuteiras e bandeiras, do grande jogador que morreu pobre. Você coloca um vídeo do Mané, você não quer tirar. Aqueles dribles dele... Em 1962, o Mané ganhou a Copa. Você vai à Suécia e vê que eles têm verdadeira loucura por ele.

Em 1962, você foi ao Chile como madrinha da seleção brasileira ao lado de Mané Garrincha.
E paguei o maior o mico. Cheguei com muito frio e a primeira-dama chilena me emprestou um casaco de vison. Fui eu com o casaco da mulher do presidente. Cheguei no estádio e fazia aquele calor incrível. Tirei o casaco, [o Brasil] fez o gol, e joguei o casaco para cima, mas ele não voltou. A gente [Garrincha e Elza] ainda estava só de namorico, aquele que você acha que pode dar certo. Quando o chileno [Eladio Rojas] cuspiu na cara dele, o Mané só levantou a perna e o jogador fingiu que caiu, e Mané foi expulso. Ao sair do campo, jogam uma pedra nele. Eu vi aquele sangue descendo, entrei no campo, soltaram aquelas cães, e eu correndo no estádio. Madrinha da seleção levando mordida de cachorro na bunda, veja só, aquele vexame.

E teve sua entrada no vestiário masculino da seleção.
Mas não vi ninguém pelado, acredita? Eu corri para ver o Mané, nem pensei que o pessoal estaria tomando banho, mas eu não vi nada. Que vergonha. Ele [Mané] tinha jurado em dar a Copa para mim. Foi lindinho ele. Depois disso...

Isso de ser madrinha se perdeu totalmente. Quem chega próximo dessa posição hoje? A Bruna Marquezine, namorada de Neymar?
É, né? Não sei, não. Ah, tadinha. Tem que estar no estádio, tem que estar presente. Sabe... tem que dar uma reviravolta nesse futebol brasileiro.

"Minha ostentação era simplesmente comer bem, descer do morro e dar uma vida melhor para meus filhos Elza Soares, sobre a origem humilde e o funk ostentação"

Por que chegamos a um resultado assim, como o 7 a 1 da Alemanha no Brasil?
Porque não teve povo. Teve muita gente, mas o povo que gosta de futebol não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. O povo mesmo, coitado, participou pela TV ou na areia de Copacabana. E chorando, né? Com esse salário, comprar um ingresso? Agora tem que fazer com que esses estádios maravilhosos e lindos fiquem acessíveis para esse povo. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Fico triste. E agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7 a 1 outra vez.

E, no caso das eleições, quem seria a Alemanha?
Nós, brasileiros, vamos à luta, mas nossas reivindicações estão completamente erradas. Não saímos às ruas com um objetivo. Saímos para quebradeira, para quebrar ônibus, que é do povo. Cada vez que se quebra um ônibus você deixou de ajudar um trabalhador que precisa daquilo. Acho que existe a necessidade de se ter alguém que fale pelo povo, mas alguém de verdade, não essa coisa de sair na rua sem saber por quem estão lutando. Acho indigno o salário de um médico, de um professor. Está na hora de buscar como uma meta: 'Eu quero isso'. O povo mais inocente que tem é o brasileiro. A gente usa muito o lado do coração, mas falta usar a cabeça. A gente perdoa muito e isso é muito negativo. O Brasil é o país da chance.

Você já sabe em quem vai votar?
Ainda não. Estou buscando alguém.

O que acha da presidente Dilma Rousseff?
Gosto dela como mulher. Achei que, quando ela entrasse, ia dar essa força. Mas tirando ela, quem mais tem? Quem está aí na frente é a Dilma. Eu não sei se tem outro candidato que tenha força para colocar esse país no lugar certo.

Em sua primeira aparição no programa de calouros de Ary Barroso, em 1953, você disse que vinha do "planeta fome". Aquilo abriria ainda mais a porta para a manifestação artística da favela e do subúrbio. E hoje esses artistas estão nos palcos com o discurso da ostentação.
Não sou contra, não. Sendo uma coisa boa, a gente aplaude. Agora, minha ostentação era simplesmente comer bem, descer do morro e dar uma vida melhor para meus filhos. Nunca tive isso. Quer dizer, comprei carros, morei bem, tive bens, mas não sei se saberia viver assim apenas.

Você também veio do "planeta racismo".
A fome é indecente, é indigna. A fome é uma coisa muito feia. O racismo você vai tirando aos poucos, a homofobia também, que é um absurdo. Agora a fome não te dá direito nem de falar, nem de dormir, nem de acordar. É muito triste. Só quem já passou por ela, sabe. Agora racismo só faz quem tem dinheiro.
Não nos livramos do racismo ainda?
Não. O racismo está por aí, pelas paredes. Ele está nas bananas. Mal sabem eles que banana é boa à beça.

E ainda teve o "somos todos macacos"...
(Interrompe) Escrever que 'somos todos macacos' é fácil, mas e dizer 'somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso. Macaco tudo bem. Pega um macaquinho e coloca no braço, mas quem não é negro, não é negro mesmo. E não aceita ser negro, como se ser negro fosse uma doença, como se gay fosse uma doença. Será que a gente vai se livrar disso um dia?

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Especialistas avaliam que há racismo na produção audiovisual brasileira

publicado: agência brasil

A baixa participação de mulheres negras* no cinema nacional é consequência de um elemento estrutural na sociedade brasileira: o racismo. A avaliação é do cineasta Joel Zito Araújo, que comentou pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) sobre os filmes brasileiros de maior bilheteria entre os anos de 2002 e 2012. Para a diretora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Irene Ferraz, a escolaridade e o acesso a recursos para a produção audiovisual poderiam reverter esse quadro.

O estudo A Cara do Cinema Nacional constatou que nenhum dos 218 longas-metragens nacionais de maior bilheteria analisados no período contou com uma mulher negra na direção ou no roteiro. A presença delas nas telas também é baixa: atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal desses filmes.

Segundo Araújo, que é P.H.D. pela Universidade de São Paulo (USP), aliado ao racismo, que invisibiliza produtores negros no cenário nacional, o padrão estético das produções atuais ainda está calçado em ideias do período colonial, provocando distorções em todas as artes, inclusive no cinema. “A supremacia branca, o reforço da representação dos brancos como uma 'natural' representação do humano é chave para tudo isso. O negro representa o outro, o feio, o pobre, o excluído, a minoria não desejada.” Por isso, segundo ele, não está nas telas.

A opinião do cineasta é a mesma da coautora da pesquisa da Uerj, a doutoranda Verônica Toste, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp). Ela lembra que o Estatuto da Igualdade Racialtratou de prever a igualdade de oportunidades em produções audiovisuais, mas as leis são vagas e insuficientes para mudar a cara do cinema. “O Brasil tem uma legislação para tratar dessa situação, de conferir oportunidades iguais, no entanto, ela é burlada, sem fiscalização.” Verônica defende a distribuição de recursos do audiovisual para realizadores negros.

A diretora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Irene Ferraz, reconhece que é baixa a presença de pessoas pretas e pardas em posições de mais visibilidade e prestígio no cinema, como o elenco, a direção e a produção de roteiros. Para ela, o problema começa na formação. “O cinema é uma arte muito complexa, envolve uma indústria, precisa de editais, recursos, se você tem uma escolaridade, chegará lá. Acontece que, na nossa sociedade, o negro está excluído em várias áreas”, avaliou, em relação à subrepresentação. “O cinema reflete o que é a sociedade”, completou.

O presidente do Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual, Luiz Antonio Gerace, não vê como um problema a ausência de mulheres negras no cinema. Segundo ele, a exclusão pode diminuir a partir do maior acesso a cursos de audiovisual. “É verdade que as mulheres ocupam mais os cargos de assistente de figurino e camareira do que direção e roteiro. Mas se fizer faculdade, por exemplo, vai ter a mesma chance que os outros.”

O argumento da educação, no entanto, é frágil, na avaliação de Joel Araújo. Para ele, a solução passa por políticas públicas. “Cabe à Ancine [Agência Nacional do Cinema] buscar meios para resolver essa distorção profunda. E não ficar esperando que uma futura desejada educação de qualidade para todos extermine o nosso racismo estrutural”, destacou.

Procurada pela Agência Brasil, a Ancine, que tem a função de fomentar e regular o setor, informou que “não opina sobre conteúdo dos filmes ou elenco”. Já o Ministério da Cultura informou ter investido R$ 5,1 milhões em editais de produção audiovisual este ano. Desse total, R$ 2,8 milhões foram destinados a jovens realizadores negros, cuja contratação foi feita em 2012.

* Convencionou-se chamar de negros a soma dos grupos populacionais preto e pardo, seguindo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE)