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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Ator salva filme sobre Arthur Bispo do Rosário


publicado: gazeta do povo

A cinebiografia O Senhor do Labirinto, sobre o artista plástico Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), uma das estreias de hoje nos cinemas, não prima pela ambição. Pouco inventiva, limita-se a apresentar os fatos mais relevantes da vida do esquizofrênico que passou cerca de cinco décadas internado na colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro.

Felizmente, Bispo do Rosário é um personagem fascinante. Tomado por uma obsessão religiosa que o fazia crer ser uma representação de Jesus, criou uma obra plástica intrigante, cheia de força expressiva, que acabou reconhecida fora do Brasil.

A partir da sucata disponível no manicômio, inventou um mundo paralelo voltado a Deus povoado por peças como mantos minuciosamente bordados, estandartes e miniaturas. Ao desconstruir os objetos originais, gesto de desconstrução simbólica do mundo dos homens “normais”, gerou significados.
Trabalhando isolado em sua cela, ele se esquivou da truculência do sistema manicomial de então, em que práticas como o eletrochoque mal aplicado eram usuais. A arte o “redimiu” da desrazão do mundo, permitiu que o artista afrontasse a loucura.

Apesar do academicismo na forma de narrar, a extraordinária atuação do gaúcho Flávio Bauraqui (que encarna um Bispo do Rosário muito convincente, sem recorrer a estereótipos do louco como esgares e outros cacoetes) salva o filme.




quarta-feira, 30 de julho de 2014

Ocupado por artistas, prédio abandonado no centro de SP tem shows, oficinas e arte

Cerca de 80 artistas ocuparam o prédio desde o dia 1º de maio; lugar tornou-se residência artística e centro cultural
matéria:Gabriel Nanbu
publicado:virgula.uol.com.br

Se você estiver nos arredores do metrô Anhangabaú, em São Paulo, é possível que ouça sons de guitarra e bateria vindo de algum lugar ali por perto. Se seguir o barulho, encontrará a fachada de um prédio velho e destruído na Rua do Ouvidor, nº 63. As apresentações de música que ocorrem no porão do edifício, geralmente às quintas, são só uma das atividades que vêm acontecendo por lá desde o último dia 1º de maio. Naquele Dia do Trabalho, um grupo de cerca de 80 artistas – pintores, desenhistas, cineastas, músicos, fotógrafos, atores, dançarinos – ocupou o local, até então abandonado, e o transformou em um efervescente centro cultural.

"Pegamos um prédio que estava há nove anos ocioso e o revitalizamos. A gente ocupou com a intenção de transformá-lo em uma residência artística e um centro cultural", diz a figurinistaGicodéllic (na foto aqui embaixo, de amarelo), do Androides Andróginos, coletivo que articulou a ocupação.



A programação da Ouvidor 63, voltada para quem quer que tenha interesse, é afixada na entrada do prédio e postada no Facebook. Nos últimos três meses, têm rolado oficinas diversas (de edição de vídeo a dança com bambolê), exibição de filmes (Cineclube Inferno, no terceiro andar; não espere assistir a Os Vingadores por lá) e apresentações performáticas, dramáticas e musicais. O edifício serve, ainda, como lugar de dormir e trabalhar para uma galera de talento com projetos em desenvolvimento.

A reportagem do Virgula Inacreditável subiu os 13 andares do edifício (exercício da semana). Os novos habitantes da Ouvidor, 63 deram um senhor talento no lugar. Limparam as salas, consertaram encanamentos, mexeram na fiação elétrica e decoraram as paredes com desenhos bacanas (com isso, também gastaram uma grana).

Pelos cantos, há som de gente fazendo música, instalações de arte, araras de roupa. Entre janelas de vidro quebrado com vista para a Praça da Bandeira, lêem-se frases pichadas na parede: "A revolução sexual começa pelo cu", "O homem é a cura do homem".

Conversamos com alguns artistas do rolê. Um pintor, Augusto Amaral (o cara da foto no começo da reportagem), nos impressionou bastante. Ele nos recebeu em seu ateliê/ dormitório, no terceiro andar, e mostrou quadros e seu caderno de desenhos. Com influência de pintores clássicos e de ilustrações de HQ, ele cria coisas de fazer cair o queixo.

"A ideia é ter um lugar de pensamento aberto que atenda à arte de forma inteligente e com real qualidade. Não é para ter Naldo aqui. Deixa o Naldo lá fora. Nós corremos atrás de caras como Van Gogh e Elis Regina e fazemos acontecer de forma colaborativa. Deveriam copiar esse modelo em outros lugares", disse Augusto, antes oferecer um pedaço de chocolate.

O futuro da ocupação artística, no entanto, é incerta. A Ouvidor 63 recebeu, há duas semanas, uma notificação de reintegração de posse e agora estuda uma forma de revertê-la na Justiça. O imóvel pertence ao Governo do Estado, mas não é utilizado por ele desde a década de 80. Contatada pela reportagem, a Secretaria de Planejamento, responsável pelo edifício, informou que a destinação do prédio está "sendo estudada pelo Conselho do Patrimônio Imobiliário".



Pedro Marini (foto acima), baixista da banda gaúcha Picanha de Chernobill e organizador dos eventos no porão da Ouvidor 63, se mostra cético quanto a continuidade da ocupação. "Algumas pessoas já saíram do prédio com medo de terem seus materiais de trabalho confiscados em uma futura reintegração de posse feita pela polícia. Muitos não querem mesmo pagar para ver. Não sabemos o que fazer", disse.

O músico foi um dos que participaram do ato de 1º de maio e organizou a vinda de um ônibus com cerca de 30 artistas de Porto Alegre para participar do projeto. "O prédio estava condenado, sem fio elétrico, sem encanamento, sem nada. Tinha só o esqueleto. A gente investiu grana e energia para melhorar o edifício", disse. "Eu me emociono todo dia que subo e desço essas escadas. Você se depara com caras com muito talento, mas que estariam dormindo em praça se não estivessem aqui".

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Solano Trindade - Conversa

Solano Trindade (poemas e cantos)

CONVERSA

- Eita negro!

quem foi que disse

que a gente não é gente?

quem foi esse demente,

se tem olhos não vê…

- Que foi que fizeste mano

pra tanto falar assim?

- Plantei os canaviais do nordeste

- E tu, mano, o que fizeste?

Eu plantei algodão

nos campos do sul

pros homens de sangue azul

que pagavam o meu trabalho

com surra de cipó-pau.

- Basta, mano,

pra eu não chorar,

E tu, Ana,

Conta-me tua vida,

Na senzala, no terreiro

- Eu…

cantei embolada,

pra sinhá dormir,

fiz tranças nela,

pra sinhá sair,

tomando cachaça,

servi de amor,

dancei no terreiro,

pra sinhozinho,

apanhei surras grandes,

sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa

tu tens pra contar…

não conta mais nada,

pra eu não chorar -

E tu, Manoel,

que andaste a fazer

- Eu sempre fui malandro

Ó tia Maria,

gostava de terreiro,

como ninguém,

subi para o morro,

fiz sambas bonitos,

conquistei as mulatas

bonitas de lá…

Eita negro!

- Quem foi que disse

que a gente não é gente?

Quem foi esse demente,

se tem olhos não vê.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ciclo de Leituras Ebulição Marginal



Nelson Triunfo, pioneiro do movimento hip hop no Brasil, na rua 24 de Maio, em São Paulo
Nascido nos guetos norte-americanos em meados da década de 1970, o hip hop é uma cultura que se estabelece sobre quatro elementos distintos: o rap, o grafite, o break e o MC (mestre de cerimônias). Há ainda um quinto elemento, já amplamente disseminado pelo movimento criado por Afrika Bambaataa: o conhecimento, ou a sabedoria. O Ciclo de Leituras Ebulição Marginal, que começa hoje (21) em Curitiba, utiliza o hip hop para despertar o interesse literário em jovens das periferias.

Em sua segunda edição, a programação é composta por encontros de mediação de leitura e apresentações culturais ligadas à produção artística da periferia. A intenção é revelar conexões entre a literatura e os elementos do hip hop, especialmente o rap – que, do inglês, significa “ritmo e poesia”. “Se pensarmos que é poesia, o rap também é literatura. É um link direto”, diz Anna Carolina Azevedo, idealizadora do ciclo. “Nossa intenção é tornar esses meninos atentos a isso, ao fato de que existe poesia dentro do movimento hip hop e, a partir desse lugar que é tão comum para eles, partir para saltos maiores”.

Para Anna Carolina, dessa forma é possível chegar a outros tipos de leituras, aos cânones e a outros gêneros, mas a primeira aproximação se dá por meio do rap e de referências da literatura marginal contemporânea, como Paulo Lins e Férrez. Neste ano, toda a programação do ciclo é baseada nos sentidos que se desprendem da palavra “marginal”. “Entendemos o termo ‘marginal’ como algo que está fora de um círculo, de um centro”, explica a idealizadora.

Além de rodas de leitura, sessões de grafitagem, batalhas de rimas e de break, oficinas de poesia e saraus literários, também há espaço reservado para o Manguebeat, movimento de contracultura do Recife da década de 1990, e para a censura à época da ditadura militar. Ambos momentos marginais, segundo Anna Carolina. “A literatura durante a ditadura militar, se pensarmos em Rubem Fonseca e Ignacio de Loyola Brandão, corria fora da elite militar – e, por isso, era marginal. E o nordeste, onde aconteceu o Manguebeat, é a margem do Brasil e em si já é uma periferia”.

Do underground literário de Curitiba, o poeta Marcos Prado será homenageado em rodas de leitura e discussões. “Ele foi um cara que morreu muito jovem, aos 35 anos. Em vida produziu incessantemente, mas não fazia parte das instituições oficiais de cultura da cidade”, considera. A obra do autor, assim como todo o legado do movimento hip hop e da literatura marginal, são as bases para a realização do projeto, que busca desmistificar a ideia de que a literatura está reservada apenas para uma parcela da sociedade. “Formando leitores, formamos cidadãos mais sensíveis e mais atentos àquilo que gira em torno deles, às nuances sutis do cotidiano”.

Ciclo de Leituras Ebulição Marginal
Onde: Espaço da Leitura Eucaliptos (R. Pastor Antonio Polito, 2200, Alto Boqueirão – Curitiba/PR)
Quando: 21/07 a 26/07, às 9h30, 14h30 e 19h30
Quanto: grátis
Info.: (41) 3286-2931

Programação:

21 de julho, segunda – feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – Rua, Ritmo e Poesia.
19h30 – Exibição do Ebulição Marginal 2013 + Apresentação Teatral do grupo de teatro juventude, com peça inspirada na obra de Ferréz.

22 de julho, terça-feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – A margem da ditadura, literatura no período militar
19h30 – Exibição do Ebulição Marginal 2013 + Roda de leitura em cinema – O Bandido da Luz Vermelha.

23 de julho, quarta-feira:
9h30 – Oficina de poesia Marcos Prado.
14h30 – Roda de leitura – Na periferia do Brasil: O movimento Manguebeat
19h30 – Papo Cabeça – Arte na Periferia

24 de julho, quinta-feira:
9h30 – Roda de leitura – Grafias Urbanas
14h30 – Roda de leitura – Arte e Guerra de Banksy.
19h30 – Filme Cidade Cinza

25 de julho, sexta-feira:
9h30 – Oficina de Poesia Marcos Prado
14h30 – Roda de leitura + Palestra sobre Marcos Prado, com participações de Sérgio Viralobos e Mônica Berger.

26 de julho, sábado:
14h30 – Batalha Ebulição Marginal: Competição de breaking, rima e grafite.
19h30 – Show da banda The Old Street + Inverso: O Som da Poesia Marginal com Zirigdun Pfóin + Apresentações de Rap Freestyle (inscrições feitas na hora)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A enxurrada babélica do rap africano

No começo dos anos 2000, o rap foi enxertado no continente africano. A juventude senegalesa, malinesa, congolesa, marfinense e sul-africana, que nele encontra um modo de expressar suas revoltas e frustrações, inventa suas próprias tendências derivadas e impõe sua credibilidade musical até mesmo nos Estados Unidos.

por Jean Christophe Servant
publicado: diplomatique.org.br



E essa música tem o poder de reunir em torno dos seus temas, jovens vindos de diferentes horizontes sociais, e até mesmo de apagar suas diferenças étnicas. O rap é a rua que fala. E, mais do que nunca, é do interesse dos nossos chefes de Estado ouvi-lo com atenção”. Este comentário é dos rappers reunidos em torno de um projeto da Da Hop1, a primeira coletânea de rap senegalês. Esta música suscita a paixão dos jovens africanos de 15 a 25 anos, os quais compõem metade da população do continente negro. O que no começo dos anos 1990 era uma simples moda que agitava a burguesia local tornou-se “um verdadeiro modo de vida”.

O sucesso pan-africano do grupo congolês Bisso Na Bisso, liderado por Passi, o brazzavillense de Sarcelles (cidade da periferia de Paris), ilustra este fenômeno social por meio do seu título subversivo: Dans la peau d’un chef(que pode ser traduzido por “Tomando o lugar de um chefe”). Do zairense Koffi Olomide (o primeiro africano a ter lotado o Palais Omnisports de Paris-Bercy em fevereiro de 2000) ao marfinense Meiway, não se contam mais os astros da música popular africana que interpretam duos com rapperscom o objetivo de aumentar sua popularidade. Dacar, que contaria mil grupos de rap, é considerada até mesmo nos Estados Unidos como a nova capital deste gênero musical. Mas ela já enfrenta a concorrência de outras metrópoles, como Dar ES-Salaam.

Muito distante do Senegal apaixonado pela sopi (mudança, em dialeto wolof), que vivenciou a ascensão de Abdoulaye Wade à presidência, em abril de 2000, como se esta fosse a sua própria vitória, a capital da Tanzânia abriga dois estúdios de gravação dedicados ao rap, além de uma centena de grupos. “Os modelos e o pouco material necessário agradaram imediatamente à juventude local”, explica Thomas Gesthuizen, 27 anos, criador de um site na Internet dedicado às músicas urbanas africanas2. “No começo, é verdade que essa música estava limitada aos círculos de pessoas que tinham condições para comprar as mais recentes novidades norte-americanas. Desde então, ela passou a alcançar todas as classes sociais, e, sobretudo, um número crescente de intérpretes vem se conscientizando de que as suas próprias tradições musicais podem ser uma fonte fantástica de criação”.

Após terem bebido nas fontes dos repertórios do rock e da música latina (anos 1960), do funk, do soul e do reggae (anos 1970-1980), os novos sincretismos inventados pela geração que apareceu na esteira da cúpula de La Baule (1990) e do fim do apartheid, mestiçaram novos sons afro-americanos com ritmos africanos, e, ao mesmo tempo, tentaram recuperar o tempo perdido. De fato, desde o lançamento no mercado internacional, em 1995, do álbum dos dacarenses do grupo Positive Black Soul, os observadores da música africana deploravam uma fase de vacas magras. Quando não era “esbranquiçado” por um produtor europeu, o rap continental quase sempre se parecia com uma adaptação de uma música ocidental recitada em versão vernaculista. Mas esses mimetismos desmedidos deram lugar para uma fervilhante nebulosa de novos conjuntos que souberam finalmente combinar as raízes com a modernidade. De uma ponta à outra do continente, a enxurrada “babélica” (do swahili ao wolof, passando pelo ashanti, o fon, o xhosa, o bamiléké, o haoussa, sem esquecer o francês, o broken englishe o português) corre aos sons de arranjos que mesclam músicas tradicionais com sonoridades eletrônicas.

Enquanto os artistas da nova geração têm os ouvidos voltados para as produções do Norte, os seus textos são firmemente ancorados na realidade do seu país. A pobreza, o desemprego, e também o meio-ambiente, os conflitos étnicos, a corrupção, a Aids, entre outros, constituem um elenco de males recorrentes sobre os quais esta cena, incentivada pelo crescimento acelerado da sociedade civil, enxerta novas palavras, diferentes construções de frases, passos de dança e expressões, os quais logo são retomados pela rua. A tal ponto que as autoridades da ilha de Zanzibar (Tanzânia) proibiram a programação no rádio de grupos de rap às vésperas das eleições gerais de 29 de outubro de 2000.

Conforme expressam os malineses do grupo Rage (Raiva), a música carrega as aspirações e as reivindicações da juventude: “É verdade que aqui não tem conjuntos habitacionais nem cidades-dormitórios, nem guetos como nos ‘States’. Não atiramos uns nos outros. Mas a corrupção, as tramoias, as autoridades que não estão nem aí com nada, e a pobreza, estão bem presentes. Não há sistema social para cuidar dos mais pobres. São sempre os mesmos que se empanturram. Os cupins que se alimentam nos cofres do Estado. Além disso, o que rola na escola é desolador. Nos últimos seis ou sete anos, os jovens desistiram de assistir às aulas. É de se perguntar quem irá dirigir o país dentro de dez a quinze anos”.

Na Costa do Marfim, este ponto de vista é compartilhado pela geração “zouglou”, uma vertente musical que, na sombra do rap, também mistura dança e comentários mordazes. Inspirado no alloucou, um ritmo bétéconstruído sobre acordes sintéticos e elaborado por artistas “meio furiosos, meio alegres” oriundos de bairros da periferia de Abidjã (sobretudo em Yopougon – onde várias dezenas de pessoas foram massacradas após a eleição presidencial contestada de 17 de outubro de 2000 –, Adjame e Abobo), o zouglou tornou-se popular em meados dos anos 1990, por ocasião da onda de contestação estudantil contra o ex-presidente Henri Konan Bédié3.

Cinco anos depois, essa música, junto com o famoso reggae marfinense (popularizado por artistas como Alpha Blondy e Tiken Jah Fakoly) serviu como trilha sonora quando os amotinados liderados pelo general Robert Gueï expulsaram “Konan o Bárbaro” da presidência. Contudo, para Soum Bill, o líder do grupo de zouglou Les Salopards (Os escrotos), “Nós não podemos nos deixar levar pela histeria dos militares. Todo mundo aplaudiu os soldados, é um fato, mas agora nós precisamos seguir falando nas desigualdades. Sob o pretexto de lutar contra a insegurança em Abidjã, os soldados insistem em reprimir de maneira indiscriminada a população inteira. Ora, se há ladrões e bandidos em nossa volta é o sistema que deve ser acusado. Não o povo”.

Em meio às camadas mais pobres da sua sociedade, a África do Sul do pós-apartheid também assistiu ao surgimento de múltiplas vertentes musicais. Em cinco anos, o país alçou-se ao 22º lugar mundial na indústria da música e o setor fornece trabalho para vinte mil assalariados. O kwaito, oriundo das townships (favelas) de Johanesburgo, é uma mistura extremamente alegre de palavras que vão desde o licencioso até o social, carregadas por um incrível gombô4 de músicas “ocidentais” (house de Chicago, jungle londrina, ragga jamaicano). No espaço de oito anos, ele tornou-se a incontestável trilha sonora da juventude sul-africana. O kwaito está presente em todos os anúncios publicitários, seja na campanha de prevenção da Aids, seja na luta contra a circulação de armas leves, e os seus astros são os ídolos da população mais pobre.“É uma música baseada na energia do seu tempo, a da juventude do pós-apartheid que expressa sua liberdade e sua excitação, pois tudo lhe parece novo”, explica Thandiswa, do famoso grupo Bongo Maffin.

Nem por isso o kwaito se esquece da sua missão principal: “O kwaito é o som do gueto. Nós vivemos na rua, caminhamos na rua, sabemos o que é legal nesse lugar, e o que não está certo, e mesmo se fomos arrebatados pela nova África do Sul, nós jamais nos submeteremos ao poder”, explica Fresh, o disc-jóquei estrela da rádio YFM de Johanesburgo.

Aexpansão dessa música vinda dos bairros mais pobres de Soweto gerou uma proliferação de clichês do “music business”: brigas e acertos de contas entre artistas, tsotsi(delinquentes) transformados em produtores, contratos fechados no último momento, concertos de risco em meio a eflúvios de dagga(maconha)... Vale lembrar que esse mercado é dos mais lucrativos. Graças ao enorme impacto do kwaito (os seus artistas mais importantes podem alcançar até 500.000 discos vendidos), mais de um terço da música comprada pelos sul-africanos, hoje é produzida localmente. Assim, na redação do webzine sul-africano Rage5, dedicado às novas músicas urbanas, os especialistas avaliam que o kwaito e o zouglou são as “verdadeiras alternativas africanas ao rap estadunidense”.

A era dos griots de Estado está mesmo encerrada. Difundidos pela explosão das rádios privadas6 (Radio Nostalgie na Costa do Marfim, Sept no Senegal, YFM na África do Sul, Uhuru FM na Tanzânia) e pelos recém-implantados canais de TV (MCM Africa e LC2), os novos porta-vozes da sociedade civil africana devem prestar contas apenas àquele que contribuiu para o seu sucesso: o povo. Apesar da pirataria e das condições de trabalho geralmente precárias (existem poucos sindicatos de artistas e há uma grande escassez de entidades de proteção e cobrança dos direitos autorais, exceto nos países da África anglófona), a invasão está apenas começando.

Rebatendo aqueles que criticam a “globalização” da música africana, Gesthuizen afirma: “Para os rappersafricanos, ao contrário, essa fusão é a prova manifesta de que a sua cultura pode adaptar-se ao século XXI. Além do mais, ela confere um embasamento verdadeiramente universal às suas críticas”.

Jean Christophe Servant é jornalista e autor, com Anne-Cécile Robert, de Afriques, années zéro (Nantes, L'Atlante, 2008).
Ilustração: Renato Alarcão

1 Da Hop (abreviação de Dacar hip-hop), disco produzido por Jojoli/Delabel (o selo de Youssou N’Dour), abril de 2000.
2 Segundo o site Africanhiphop.com.
3 Ler Tiemoko Coulibaly, “La classe politique ivoirienne se cherche”, Le Monde diplomatique, outubro de 2000.
4 Mistura, molho (gíria comum aos países da África Ocidental).
5 www.rage.co.za, é também no endereço www.africaserver.nl/rumba-kali
6 Ler Jacques Soncin, “Radios privées em liberte”, Manière de voir, nº 51, maio de 2000, p. 46.