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segunda-feira, 21 de julho de 2014

A enxurrada babélica do rap africano

No começo dos anos 2000, o rap foi enxertado no continente africano. A juventude senegalesa, malinesa, congolesa, marfinense e sul-africana, que nele encontra um modo de expressar suas revoltas e frustrações, inventa suas próprias tendências derivadas e impõe sua credibilidade musical até mesmo nos Estados Unidos.

por Jean Christophe Servant
publicado: diplomatique.org.br



E essa música tem o poder de reunir em torno dos seus temas, jovens vindos de diferentes horizontes sociais, e até mesmo de apagar suas diferenças étnicas. O rap é a rua que fala. E, mais do que nunca, é do interesse dos nossos chefes de Estado ouvi-lo com atenção”. Este comentário é dos rappers reunidos em torno de um projeto da Da Hop1, a primeira coletânea de rap senegalês. Esta música suscita a paixão dos jovens africanos de 15 a 25 anos, os quais compõem metade da população do continente negro. O que no começo dos anos 1990 era uma simples moda que agitava a burguesia local tornou-se “um verdadeiro modo de vida”.

O sucesso pan-africano do grupo congolês Bisso Na Bisso, liderado por Passi, o brazzavillense de Sarcelles (cidade da periferia de Paris), ilustra este fenômeno social por meio do seu título subversivo: Dans la peau d’un chef(que pode ser traduzido por “Tomando o lugar de um chefe”). Do zairense Koffi Olomide (o primeiro africano a ter lotado o Palais Omnisports de Paris-Bercy em fevereiro de 2000) ao marfinense Meiway, não se contam mais os astros da música popular africana que interpretam duos com rapperscom o objetivo de aumentar sua popularidade. Dacar, que contaria mil grupos de rap, é considerada até mesmo nos Estados Unidos como a nova capital deste gênero musical. Mas ela já enfrenta a concorrência de outras metrópoles, como Dar ES-Salaam.

Muito distante do Senegal apaixonado pela sopi (mudança, em dialeto wolof), que vivenciou a ascensão de Abdoulaye Wade à presidência, em abril de 2000, como se esta fosse a sua própria vitória, a capital da Tanzânia abriga dois estúdios de gravação dedicados ao rap, além de uma centena de grupos. “Os modelos e o pouco material necessário agradaram imediatamente à juventude local”, explica Thomas Gesthuizen, 27 anos, criador de um site na Internet dedicado às músicas urbanas africanas2. “No começo, é verdade que essa música estava limitada aos círculos de pessoas que tinham condições para comprar as mais recentes novidades norte-americanas. Desde então, ela passou a alcançar todas as classes sociais, e, sobretudo, um número crescente de intérpretes vem se conscientizando de que as suas próprias tradições musicais podem ser uma fonte fantástica de criação”.

Após terem bebido nas fontes dos repertórios do rock e da música latina (anos 1960), do funk, do soul e do reggae (anos 1970-1980), os novos sincretismos inventados pela geração que apareceu na esteira da cúpula de La Baule (1990) e do fim do apartheid, mestiçaram novos sons afro-americanos com ritmos africanos, e, ao mesmo tempo, tentaram recuperar o tempo perdido. De fato, desde o lançamento no mercado internacional, em 1995, do álbum dos dacarenses do grupo Positive Black Soul, os observadores da música africana deploravam uma fase de vacas magras. Quando não era “esbranquiçado” por um produtor europeu, o rap continental quase sempre se parecia com uma adaptação de uma música ocidental recitada em versão vernaculista. Mas esses mimetismos desmedidos deram lugar para uma fervilhante nebulosa de novos conjuntos que souberam finalmente combinar as raízes com a modernidade. De uma ponta à outra do continente, a enxurrada “babélica” (do swahili ao wolof, passando pelo ashanti, o fon, o xhosa, o bamiléké, o haoussa, sem esquecer o francês, o broken englishe o português) corre aos sons de arranjos que mesclam músicas tradicionais com sonoridades eletrônicas.

Enquanto os artistas da nova geração têm os ouvidos voltados para as produções do Norte, os seus textos são firmemente ancorados na realidade do seu país. A pobreza, o desemprego, e também o meio-ambiente, os conflitos étnicos, a corrupção, a Aids, entre outros, constituem um elenco de males recorrentes sobre os quais esta cena, incentivada pelo crescimento acelerado da sociedade civil, enxerta novas palavras, diferentes construções de frases, passos de dança e expressões, os quais logo são retomados pela rua. A tal ponto que as autoridades da ilha de Zanzibar (Tanzânia) proibiram a programação no rádio de grupos de rap às vésperas das eleições gerais de 29 de outubro de 2000.

Conforme expressam os malineses do grupo Rage (Raiva), a música carrega as aspirações e as reivindicações da juventude: “É verdade que aqui não tem conjuntos habitacionais nem cidades-dormitórios, nem guetos como nos ‘States’. Não atiramos uns nos outros. Mas a corrupção, as tramoias, as autoridades que não estão nem aí com nada, e a pobreza, estão bem presentes. Não há sistema social para cuidar dos mais pobres. São sempre os mesmos que se empanturram. Os cupins que se alimentam nos cofres do Estado. Além disso, o que rola na escola é desolador. Nos últimos seis ou sete anos, os jovens desistiram de assistir às aulas. É de se perguntar quem irá dirigir o país dentro de dez a quinze anos”.

Na Costa do Marfim, este ponto de vista é compartilhado pela geração “zouglou”, uma vertente musical que, na sombra do rap, também mistura dança e comentários mordazes. Inspirado no alloucou, um ritmo bétéconstruído sobre acordes sintéticos e elaborado por artistas “meio furiosos, meio alegres” oriundos de bairros da periferia de Abidjã (sobretudo em Yopougon – onde várias dezenas de pessoas foram massacradas após a eleição presidencial contestada de 17 de outubro de 2000 –, Adjame e Abobo), o zouglou tornou-se popular em meados dos anos 1990, por ocasião da onda de contestação estudantil contra o ex-presidente Henri Konan Bédié3.

Cinco anos depois, essa música, junto com o famoso reggae marfinense (popularizado por artistas como Alpha Blondy e Tiken Jah Fakoly) serviu como trilha sonora quando os amotinados liderados pelo general Robert Gueï expulsaram “Konan o Bárbaro” da presidência. Contudo, para Soum Bill, o líder do grupo de zouglou Les Salopards (Os escrotos), “Nós não podemos nos deixar levar pela histeria dos militares. Todo mundo aplaudiu os soldados, é um fato, mas agora nós precisamos seguir falando nas desigualdades. Sob o pretexto de lutar contra a insegurança em Abidjã, os soldados insistem em reprimir de maneira indiscriminada a população inteira. Ora, se há ladrões e bandidos em nossa volta é o sistema que deve ser acusado. Não o povo”.

Em meio às camadas mais pobres da sua sociedade, a África do Sul do pós-apartheid também assistiu ao surgimento de múltiplas vertentes musicais. Em cinco anos, o país alçou-se ao 22º lugar mundial na indústria da música e o setor fornece trabalho para vinte mil assalariados. O kwaito, oriundo das townships (favelas) de Johanesburgo, é uma mistura extremamente alegre de palavras que vão desde o licencioso até o social, carregadas por um incrível gombô4 de músicas “ocidentais” (house de Chicago, jungle londrina, ragga jamaicano). No espaço de oito anos, ele tornou-se a incontestável trilha sonora da juventude sul-africana. O kwaito está presente em todos os anúncios publicitários, seja na campanha de prevenção da Aids, seja na luta contra a circulação de armas leves, e os seus astros são os ídolos da população mais pobre.“É uma música baseada na energia do seu tempo, a da juventude do pós-apartheid que expressa sua liberdade e sua excitação, pois tudo lhe parece novo”, explica Thandiswa, do famoso grupo Bongo Maffin.

Nem por isso o kwaito se esquece da sua missão principal: “O kwaito é o som do gueto. Nós vivemos na rua, caminhamos na rua, sabemos o que é legal nesse lugar, e o que não está certo, e mesmo se fomos arrebatados pela nova África do Sul, nós jamais nos submeteremos ao poder”, explica Fresh, o disc-jóquei estrela da rádio YFM de Johanesburgo.

Aexpansão dessa música vinda dos bairros mais pobres de Soweto gerou uma proliferação de clichês do “music business”: brigas e acertos de contas entre artistas, tsotsi(delinquentes) transformados em produtores, contratos fechados no último momento, concertos de risco em meio a eflúvios de dagga(maconha)... Vale lembrar que esse mercado é dos mais lucrativos. Graças ao enorme impacto do kwaito (os seus artistas mais importantes podem alcançar até 500.000 discos vendidos), mais de um terço da música comprada pelos sul-africanos, hoje é produzida localmente. Assim, na redação do webzine sul-africano Rage5, dedicado às novas músicas urbanas, os especialistas avaliam que o kwaito e o zouglou são as “verdadeiras alternativas africanas ao rap estadunidense”.

A era dos griots de Estado está mesmo encerrada. Difundidos pela explosão das rádios privadas6 (Radio Nostalgie na Costa do Marfim, Sept no Senegal, YFM na África do Sul, Uhuru FM na Tanzânia) e pelos recém-implantados canais de TV (MCM Africa e LC2), os novos porta-vozes da sociedade civil africana devem prestar contas apenas àquele que contribuiu para o seu sucesso: o povo. Apesar da pirataria e das condições de trabalho geralmente precárias (existem poucos sindicatos de artistas e há uma grande escassez de entidades de proteção e cobrança dos direitos autorais, exceto nos países da África anglófona), a invasão está apenas começando.

Rebatendo aqueles que criticam a “globalização” da música africana, Gesthuizen afirma: “Para os rappersafricanos, ao contrário, essa fusão é a prova manifesta de que a sua cultura pode adaptar-se ao século XXI. Além do mais, ela confere um embasamento verdadeiramente universal às suas críticas”.

Jean Christophe Servant é jornalista e autor, com Anne-Cécile Robert, de Afriques, années zéro (Nantes, L'Atlante, 2008).
Ilustração: Renato Alarcão

1 Da Hop (abreviação de Dacar hip-hop), disco produzido por Jojoli/Delabel (o selo de Youssou N’Dour), abril de 2000.
2 Segundo o site Africanhiphop.com.
3 Ler Tiemoko Coulibaly, “La classe politique ivoirienne se cherche”, Le Monde diplomatique, outubro de 2000.
4 Mistura, molho (gíria comum aos países da África Ocidental).
5 www.rage.co.za, é também no endereço www.africaserver.nl/rumba-kali
6 Ler Jacques Soncin, “Radios privées em liberte”, Manière de voir, nº 51, maio de 2000, p. 46.


terça-feira, 15 de julho de 2014

Eu vi a África além dos preconceitos

Um economista brasileiro relata reunião em que continente articulou ampliação das mudanças que vive – ainda que Ocidente não enxergue…
publicado:portalafrica.com.br

Foto: Garota em Luanda, capital de Angola. Sinal de mudanças: desde 2006, país atrai dezenas de milhares de portugueses, que fogem da crise europeia e buscam trabalho.
A África continua a ser apresentada como o continente da violência e da miséria. A realidade é que ambas as avaliações são corretas, mas enganadoras. Primeiro, porque francamente não é um privilégio africano, as tensões estão se avolumando por toda a parte, e a miséria acumulada em outros continentes é imensa, sem falar da nova miséria nos Estados Unidos e na Europa. Segundo, porque ao lado da pesada herança, há um movimento pujante de transformações. Há inclusive, movimento recente, estudos científicos sobre por quê o jornalismo a respeito do continente insiste sempre na visão simplificada de pobreza e desgoverno, como se o prisma impossibilitasse uma compreensão das mudanças.

A revista Economist (2/3/2013) lançou um relatório especial interessante, Emerging Africa, referindo-se não mais a um continente desesperado, mas esperançoso (A Hopeful Continent). A economia está crescendo a um ritmo de quase 6% ao ano, os investimentos diretos externos subiram de 15 bilhões de dólares em 2002 para 46 bilhões em 2012. O comércio com a China saltou de 11 bilhões para 166 bilhões de dólares em uma década. Com a crise financeira mundial, muitos capitais estão fugindo da especulação ou do baixíssimo rendimento dos títulos públicos, e buscando novas oportunidades. Um continente que cresce rapidamente e pode rentabilizar investimentos atrai mais do que o marasmo dos países ricos.

Em termos institucionais, praticamente todos os países da região estão dotados de mecanismos democráticos, frágeis como em toda parte, mas progredindo. A base de impostos é ainda muito pequena, mas aumentando, o que permite a expansão de serviços públicos. A corrupção nos grandes contratos continua forte, mas estamos aprendendo a ver as coisas melhor, com os dados de James Henry, amplamente divulgados pelo Economist (16/2/2013). No mundo, são 20 trilhões de dólares em paraísos fiscais – dinheiro de drogas, evasão fiscal, tráfego de armas, corrupção – cerca de um terço do PIB mundial. As três principais praças de dinheiro ilegal são Delaware e Miami, nos Estados Unidos, e Londres. Os 28 principais bancos mundiais, os “sistemicamente significativos”, estão respondendo a processos por fraude, lavagem de dinheiro e outros crimes, e são basicamente europeus e norte-americanos. Barclays, HSBC, UBS, Goldman & Sachs… O Brasil, aliás, contribui com 520 bilhões de dólares em dinheiro ilegal no exterior, 25% do PIB brasileiro, coisa que deveria deixar o STF sonhando um pouco mais alto. Não é privilégio da África, e obviamente os montantes não se comparam.

Confirma as novas esperanças a reunião anual conjunta da Comissão Econômica da África e da União Africana, em Abidjan, capital da Costa do Marfim, nos dias 26 e 27 de março de 2013. Presentes 54 países africanos, 40 ministros de economia, 15 presidentes de bancos centrais. Só africanos. Uma reunião sem palestras, apenas intervenções curtas de tomada de posição. Na pauta, uma visão geral que podemos chamar de África para os africanos, Africa First, uma tomada de consciência do valor que representam os seus recursos naturais, que vão do petróleo até as suas imensas reservas em solo e água, e da necessidade de repensar o conjunto dos relacionamentos para dentro e para fora do continente.

A ordem não é mais o “ajuste estrutural”, como foi ditado pelo FMI e países dominantes, e sim a “transformação estrutural.” Numa era de sede planetária por recursos naturais, a África se vê com muita capacidade financeira. Inicialmente utilizados para um consumo de luxo por elites, gradualmente estão sendo deslocados para lançar os fundamentos de uma nova capacidade econômica. Infraestruturas, banda larga generalizada, educação, e produção local. Em particular, está sendo discutida uma industrialização centrada no aproveitamento dos próprios recursos naturais que geraram estas capacidades financeiras. Ligar a agro-exportação ou a extração mineral a exigências de investimentos locais a jusante e a montante, dinamizando fornecedores locais e agregando valor aos produtos transformados.

Criou-se uma articulação entre três instituições de primeira importância, a Comissão Econômica para a África (UNECA), a União Africana (UA) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). Junta-se assim a capacidade de informação e análise, a base política e a capacidade financeira. Ou seja, criou-se, incorporando iniciativas anteriores como a NEPAD, um instrumento de orientação pan-africana das iniciativas de cada país. Isto é vital para um continente onde as infraestruturas e circuitos comerciais nasceram fragmentados e centrífugos, cada país dispondo por exemplo de uma ferrovia ligando a região de exploração de recursos com o porto de exportação, mas com quase nenhuma articulação interna. Isto é familiar para o Brasil, onde praticamente todas as capitais são portuárias, e onde nos falta ainda uma ligação decente transcontinental, no momento em que a bacia econômica do mundo está se deslocando para o Pacífico. Aliás a América Latina também pode ser vista, neste sentido, como um subcontinente oco, com um miolo relativamente vazio.

Foram aprovados nove eixos que deverão orientar o desenvolvimento econômico e social nesta década: apoio técnico à política macro-econômica; integração regional das infraestruturas e trocas comerciais; tecnologias para a apropriação dos recursos naturais africanos de maneira sustentável (African Mining Vision entre outros); aprimoramento e gestão em rede dos sistemas estatísticos para monitorar a formulação de políticas; desenvolvimento das capacidades institucionais; desenvolvimento de subprogramas de promoção e inclusão da mulher nas atividades econômicas e sociais; organização de subprogramas integrados para as cinco regiões que compõem o continente (Central, Norte, Sul, Leste, Oeste); investimento na capacidade de planejamento e administração nos países membros; políticas de desenvolvimento social, com particular atenção para as políticas de emprego e voltadas à juventude.

As propostas culminaram na aprovação oficial na reunião de Abidjan, mas haviam sido amplamente negociadas com todos os países da região. Segundo o documento aprovado, “o consenso nas visões que emergem é que tornou-se imperativo para a África usar o crescimento atual como plataforma para uma ampla transformação estrutural. Para fazê-lo, deverá empoderar-se para contar a sua própria história, e a sua política de desenvolvimento deverá colocar Africa First. Isto também significa uma contínua e estreita colaboração entre as três instituições pan-africanas, ADB, AU e ECA, para assegurar coerência e sinergia na implementação do programa.”

Interessante notar que havia na reunião apenas alguns convidados não africanos, dos quais dois brasileiros: Glauco Arbix, presidente da FINEP, particularmente interessante para as políticas de inovação que os africanos querem dinamizar, e eu que escrevo estas linhas, como convidado especial, pelo interesse dos ministros em ouvirem como o Brasil articula políticas econômicas e sociais. Francamente, como trabalhei sete anos em diversos países da África, tentando ampliar capacidades estatísticas e de planejamento, já tinha visto muitas reuniões “decisivas” e pouco transformadoras. Na minha compreensão e conhecimento, aqui realmente estamos assistindo a algo novo. Sobretudo porque, além de discursos e compromissos, geraram-se instituições de gestão das resoluções, não criando novas burocracias, mas articulando as três instituições que no contexto africano demonstraram a sua capacidade.

Presa na herança estrutural terrível do passado, peão de interesses mundiais contraditórios na guerra fria, manobrada e fragmentada por interesses neocoloniais, apropriada e corrompida por corporações transnacionais, a África não tem caminho fácil nem rápido pela frente. Mas a nova consciência do seu peso, da sua importância e dos seus direitos, no momento em que as economias dominantes estão enredadas com as suas próprias desgraças, abre sim muita esperança. É a ideia de uma África emergente.

* Ladislau Dowbor é economista e professor titular no Departamento de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um herói a ser seguido - Steve Biko

Stephen Bantu Biko (18 de dezembro de 1946 - 12 de setembro de 1977) era um ativista anti-apartheid da África do Sul na década de 1960 e 1970.
    Líder estudantil, fundou o Movimento da Conciência Negra (Black Consciousness Movement), que capacitava e mobilizava grande parte da população negra urbana. Desde sua morte sob custódia da polícia, ele foi chamado de mártir de um movimento anti-apartheid. Enquanto vivia, seus escritos e ativismo tentou capacitar as pessoas negras, e era famoso por seu slogan "black is beautiful", que o próprio descreveu como: "você está bem como você é, comece a olhar para si mesmo como um ser humano".

    Mesmo que Biko nunca tenha sido um membro do Congresso Nacional Africano (ANC), foi incluído no panteão dos heróis de luta, indo tão londe como a utilização de sua imafem para cartazes de camapanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse a respeito de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid".

    Mesmo que Biko nunca foi membro do Congresso Nacional Africano (ANC), ANC incluiu-o no panteão dos heróis de luta, indo tão longe como a utilização de sua imagem para cartazes de campanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid."

    Stephen Bantu Biko é filho de Mzingayi Mathew e Alice 'Mamcete' Biko, nascido em Ginsberg Township, na atual província do Cabo Oriental da África do Sul. Seu pai era funcionário do governo, enquanto sua mãe fez o trabalho doméstico em casas de brancos. O terceiro de quatro filhos, Biko cresceu com sua irmã mais velha, Bukelwa; seu irmão mais velho, Khaya; e sua irmã mais nova, Bobandile. Em 1950, com 4 anos, Biko sofreu a perda de seu pai, que estava estudando direito.

    Steve era um Xjosa. Além de Xhosa, ele falava fluênte inglês e africâner. Quando criança, ele estudou na Brownlee Primary School e Charles Morgan Higher Primary School. Foi enviado para Lovedale High School em 1964, um internato de prestígio em Alice Eastern Cape, onde seu irmão mais velho, Khaya, anteriormente havia estudado. Durante a era do apartheid, sem liberdade de associação protetora para Sul-africanos não-brancos, Biko foi expulso de Lovedale por suas opiniões políticas,e seu irmão foi preso por sua suposta associação com Poqo (agora conhecido como Azaniam People's Liberation Army). Depois de ser expulso, se formou mais tarde na St. Francis College, uma instituição católica romana em Miriannhill, Natal.

    Ele estudou para ser médico na Universidade Médica de Natal.

    Biko se casou com Ntsiki Mashalaba em 1970. Eles tiveram dois filhos juntos: Nkosinathi, nascido em 1971, e Samora.

    Ele também tinha dois filhos com a Dra. Mamphela Ramphele, uma ativista de destaque dentro do BCM: a filha, Lerato, nascida em 1974, que morreu de pneumonia quando ela tinha apenas dois meses de idade, e um filho, Hlumelo, que nasceu em 1978 após a morte de seu pai.

    Biko também teve uma filha com Lorraine Tabane, chamada Motlatsi, nascida em maio de 1977.

    Ele foi envolvido com a multirracial União Nacional dos Estudantes Sul-Africanos, mas depois que se convenceu que era negro, decidiu que precisava de uma organização própria, e ajudou a fundar a Organização dos Estudantes Sul-Africanos (SASO), cuja ageda incluiu auto-suficiência política e da inificação de estudades universitários em uma "conciência negra". Em 1968, Biko foi o primeiro presidente negro eleir. SASO evoluiu para o Movimento de Conciência Negra influente (BCM) e também estava envolvido com a Federação Mundial dos Estudantes Cristãos.

    No início de 1970, Biko tornou-se uma figura-chave no momento Durban. Em 1972, ele foi expulso da Universidade de Natal por causa de suas atividades políticas e tornou-se presidente honorário da Convenção do Povo Negro. Ele foi "banido" pelo governo do apartheid em fevereiro de 1973, ou seja, ele não estava autorizado a falar com mais do que uma pessoa, impossibilitando assim que ele falasse em público, era restrito à cidade distrito judiciário do Rei William e não poderia escrever publicamente ou falar com a mídia. Também foi proibido citar qualquer coisa que ele disse, incluindo discursos ou conversas simples.

    Quando Biko foi "banido", o seu movimento dentro do país estava restrito ao Cabo Oriental, onde ele nasceu. Depois de voltar paralá, ele formou uma série de organizações de base com base na noção de auto-suficiência: Zanempilo, o Fundo Fiduciário Zimele (que ajudou a apoiar ex-presos políticos e suas famílias).

    Apesar da representação do governo do apartheid, Biko e o BCM desempenharam um papel significativo na organização dos protestos que culminou com a Revolta de Soweto de 16 de junho de 1976. Na sequência da revolta, que foi recebido som uma mão pesada pela força de seguranaça, as utoridades começaram a alvejar Biko ainda mais.

    Em 18 de agosto de 1977, Biko foi preso em uma barreira policial e interrogado por oficiais da polícia. Esse interrogatório ocorreu na sala de polícia 619 do Edifício Sanlam em Port Elizabeth. O interrogatório durou 22 horas e incluiu tortura e espancamentos, resultando em coma. Ele sofreu ferimento na cabela quanto estava sob custódia policial na delegacia Walmer, em um subúrbio de Port Elizabeth, e foi acorrentado a uma grade de uma janela durante um dia.

    Em 11 de setembro de 1977, a polícia carregou-o nas costas de um Land Rover, nu e contido em algemas para levá-lo para uma prisão com instalações hospitalares. Ele estava quase morto devido às lesões anteriores. Ele morreou logo após a chegada na prisão, em 12 de setembro. A polícia alegou que sua morte foi um resultado de uma greve de fome prolongada, mas a autópsia revelou múltiplas contusões e escoriações e que ele finalmente sucumbiu a uma hemorragia cerebral maciça dos ferimentos na cabeça, que muitos vieram como evidência forte que ele havia sido brutalmente agredido por seus captores. Em seguida, Donald Woods, jornalista, editor e amigo de Biko, junto com Helen Zille, mais tarde líder do partido político da aliança democrática, expuseram a verdade por trás da morte de Steve.

    Por causa de sua grande visibilidade, a notícia da morte de Biko se espalhou rapidamente, divulgando a natureza repressiva do governo do apartheid. Seu funeral foi assistido por mais de 10.000 pessoas, incluindo numerosos embaixadores e outros diplomatas dos Estados Unidos e Europa Ocidental. O liberal branco jornalista sul-africano Donald Woods, amigo pessoal de Biko, fotografou seus ferimentos no necrotério. Woods foi mais tarde forçado a fugir da África do Sul para a Inglaterra, e fez campanha contra o apartheid e divulgou mais ainda a vida e a morte de Biko, escrevendo muitos artigos de jornal e autor do livro "Biko" que mais tarde foi transformado em filme de nome "Freedom Cry".

    Depois de um inquérito com 15 dias em 1978, um juiz magistrado disse que não havia provas suficientes para acusar os oficiais de homicídio, pois não havia testemunhas. Em 2 de fevereiro de 1978, com base ans provas dadas no inquérito, o procurador-geral do Cabo Oriental declarou que não iria processar os policiais. Em 28 de julho de 1979, o advogado da família Biko anunciou que o governo Sul-Africano teria que pagar 78 milhões de dólares em compensação pela morte de Biko.

    Em outubro de 2003, o Ministério da Justiça Sul-Africano anunciou que os cinco policiais acusados de matar Biko não seriam processados judicialmente por causa do limite de tempo para a acusação tinha decorrido e por causa da insuficiência de provas.

    Um ano após sua morte, alguns de seus escritos foram recolhidos e lançado sob o título "Eu escrevo o que eu gosto".

    Como Frantz Fanon, Biko originalmente estudou medicina e, como Fanon, Biko desenvolveu uma intensa preocupação para o desenvolvimento da conciência negra, como a solução para as lutas existenciais que a existência forma, tanto como um ser humando como um africano. Biko, portanto, pode ser visto como um seguidor de Fanon e Aimé Césaire.

    Biko viu a luta pela conciência africana como tendo duas fases: "libertação psicológica" e "libertação física". A influência não-violenta de Gandhi e Martin Luther King sobre Biko é então suspeito, como Biko sabia que por sua luta para dar lugar a libertação física, era necessário que ele existisse dentro das realidades políticas do governo do apartheid, e não-violência a ser bisto mais como uma tática de uma convicção pessoal.