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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Eu acredito

Eu acredito
por Yaisa Carolina*
publicado: blogueirasnegras.org 

Eu acredito que há mudança, que há esperança, que há futuro, que há certezas, que há fé. Eu acredito que há vitórias, que há pessoas que acreditam no melhor não só apenas quando a bola rola.
Eu acredito que há avanços, acredito que há ainda mais espaços para ocupar. Que unir é ainda a melhor arma para vencer. Que a educação é o melhor jeito de crescer. Acredito que não há apenas uma fórmula de sabedoria, assim como há várias maneiras de se cultivar a cultura.
Que a aflição há de acabar, mas sem luta não há vitória. Temos que ter objetivos, maiores do que aqueles escritos nos livros. Acredito que a identidade vale mais do que o rótulo. Que a lei é falha, visto que foi idealizada por homens. Mas os mesmos homens que erram, podem acertar.
Acredito que nem tudo vem de cima, aqui embaixo temos o nosso dever. Acredito que lamentar não nos move. Mas acreditar em si mesmo faz o caminho até a montanha mais vantajosa.
Acredito que exista o caminho do bem, não acredito nas promessas de um mundo mais bonito. Mas sim em pessoas mais positivas.
Eu acredito nas diferenças, quando tratadas com igualdade, respeito.
Eu acredito em nós. Eu acredito na força da minha ancestralidade. Acredito no povo da pele preta. Eu acredito na gente.
A miséria, a mazela, a violência, a fome, o descaso, a impunidade, a indiferença, a descrença, a ignorância, a corrupção, são resultados de subtrações realizadas por nós. Se aprendermos a somar…
Nós temos um DNA marcado. Não temos escolha de cor. Mas temos opções de cota. Temos opções de ser ou estar. Só nós podemos avaliar o que é melhor pra gente mesmo. Acredito na voz. Não acredito na representação. Acredito que devemos ter o papel principal em nossas histórias.
Nossa história marcada pela oralidade. Está na hora de preencher os formulários em branco.
Acredito na escolha. Eu escolhi me mostrar sem medo, me identificar sem receio, a lutar pelo que vejo. A derrota se esconde naquele que não se assume. Eu escolhi fazer parte de uma vertente social que há anos caminha em prol de justiça. Mesmo sendo, em sua maioria, punida por ela. A justiça.
Eu faço parte da maioria. Eu sou a maioria. Nós somos a maioria. A repetição leva a perfeição.
A facilidade nem sempre é positiva. Eu acredito no merecimento. Eu creio na superação.
Eu acredito que no dia que eu deixar de acreditar o sentido da vida estará perdido.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Lispector.

Yaisa Carolina
Formada em Produção Cultural, Coordenadora de Cultura na Coordenadoria Extraordinária de Igualdade Racial de Macaé. Nasceu na casa de sua bisavó em Campos dos Goytacazes - RJ, desde cedo aprendeu que os valores que se aprende em família e a cor da sua pele, definem os caminhos. O samba, a cultura e as memórias são os compassos que te guiam nesse caminho com respeito a ancestralidade negra.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Unegro propõe debate sobre a vaga de Joaquim Barbosa


A presença do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte do país, em que pese todas as controvérsias que ele criou, é importante para os negros brasileiros e um representante da raça deve ser nomeado para seu lugar. Esta é a posição da União dos Negros pela Igualdade (Unegro) do Distrito Federal, ao anunciar mobilização do movimento negro para influenciar a presidenta Dilma Rousseff pela indicação de outro nome negro para ocupar a vaga de Barbosa.
A Unegro-DF anunciou vai buscar apoio de outras entidades para tentar influenciar na decisão da presidenta.“O ministro Joaquim Barbosa exerceu uma carreira muito controvertida no Supremo e, do ponto de vista do papel de juiz, deixou a desejar. Mas a sua presença ali foi emblemática para nós negros, muito representativa e nós achamos que a presidente Dilma deve seguir o mesmo pensamento do ex-presidente Lula indicar um negro para a vaga do Joaquim Barbosa”, afirmou Santa Alves, presidente da Unegro-DF (foto).

Ela anunciou que a entidade vai deflagrar esta semana um debate entre os representantes do movimento negro e dos movimentos sociais para buscar influenciar na decisão da presidenta.

O presidente da Confederação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) do Distrito Federal, Aldemir Domício, já anunciou que fará parte da mobilização pela manutenção de um representante negro no STF.

“A CTB vai se engajar nesta campanha. Nós entendemos que a presença de um negro no Supremo foi uma conquista histórica para um segmento social que representa mais da metade da população. E nós queremos manter esta conquista”, afirmou.

Outra entidade que quer debater o tema é a Comissão de Jornalista pela Igualdade Racial (Cojira), entidade ligada ao Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal. Internamente seus membros vêm debatendo o significado de um negro na mais alta corte do país. A entidade também defende a manutenção da conquista.

A decisão caberá a Dilma, que por sua vez deverá consultar o ministro Ricardo Lewandowski, que assumirá a presidência do Supremo após a saída de Barbosa no final deste mês.

Da Redação em Brasília
Fonte: Brasil Notícia

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Consumo infantil e a mãe negra

Por: Luciane Reis
publicado: blogueirasnegras.org


Por já nascer à parte de uma sociedade racializada, a criança negra cresce aprendendo a valorizar algumas características que são idealizadas e quase sempre não dizem respeito à sua identidade. Ela aprende não apenas a conviver com a sociedade, mas também a viver no intuito de ter aquilo que essa apresenta como um ideal de vida, de beleza e de comportamento. Ao ter contato cada vez mais constante com diversos estímulos que chegam por diferentes meios: televisão, rádio, internet ou passados através de programas de televisão, músicas, filmes e claro pela propaganda, esses indivíduos têm acesso a dados culturais que acabam por alterar alguns dos instintos mais fortes do ser humano, tais como o desejo de aceitação social e a necessidade de autorrealização independente de como esta é apresentada.

As crianças negras aprendem a ser consumidoras de maneira muito delicada. Isso se dá principalmente por meio da observação do comportamento das pessoas que as cercam e da influência proveniente das propagandas, uma das principais formas de contato com os diversos produtos, ideologias, comportamentos e serviços existentes no mercado. Para se construir uma propaganda que consiga interagir com as crianças e influenciá-las é preciso pensar em como “alcançá-las”. Os comerciais de televisão voltados para o público infantil contam com uma mistura de imagens, cores, sons e movimentos que prende a atenção das crianças, especialmente as menores. Os desafios de ser mãe de uma criança negra começam quando esses recursos não visibilizam a presença de seu filho. Dela é exigido negociar concepções diante de uma mídia que se pauta pelos ditames do comércio e da publicidade, pouco interessada em questões como a da discriminação do negro ou das consideradas minorias.

Para uma mãe negra, fica a tarefa diária de não somente educar seus filhos para um consumo consciente, como também atuar contra discursos que perpetuam ideologias e que se mantêm até hoje através da “venda” da representação negra nos meios de comunicação como produto a ser consumido e não como consumidor, vide os anúncios de jornal do tempo da escravidão e a forma de tomada de referências negra. Fazer uma criança entender que a sua imagem, mesmo não estando presente nestes meios, não tira dela sua beleza e orgulho, é uma tarefa heróica e que somente mães de crianças violentadas diariamente pelo racismo tem a dimensão. Por se tratar de pessoas em formação, a ausência delas na mídia pode causar danos à identidade racial e à auto-estima. A política de invisibilidade de crianças negras, usada pela mídia brasileira, serve indiretamente de suporte para a ideologia do branqueamento tão naturalizada nos dias de hoje. As propagandas de produtos infantis, salvo raras exceções, não têm contemplado adequadamente a representação negra.

As propagandas infantis sejam elas exibidas na TV aberta, fechada ou impressa acabam por fazer crer a uma pessoa desavisada estar em um país europeu e nórdico tal a profusão de crianças loiras. O professor Hélio Santos (2000, p. XX) é assertivo: “nada contra os loiros, mas tudo contra a loirice”. Partindo dessa máxima, podemos pensar sobre a prática costumeira adotada no Brasil de representação ínfima do contingente negro que é minoria ao olhar da mídia, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. É sabido que o momento entre a infância e a pré–adolescência constitui a fase de construção da identificação dos indivíduos quando se estabelecem seus valores, conceitos, modelos e padrões estéticos. Neste sentido, a tarefa de ser uma mãe negra se torna mais delicada pela ausência de crianças negras no conjunto da mídia e em especial na propaganda, espaço que acaba por induzir os indivíduos dessa categoria a se entender como subcidadãos e subconsumidores, independentemente da sua capacidade de consumo.

O racismo existente no Brasil não poupa a infância. Na verdade, é nessa fase que ele ganha corpo e consegue novos adeptos. A propaganda pode transmitir para as crianças negras a interiorização de um lugar social delimitado e com horizontes claramente marcados. Construir a auto-estima de crianças, onde a cor de sua pele resume a impertinência de sua presença em um lugar onde somente branco e rico seriam bem-vindos é uma tarefa árdua. A criança negra na mídia brasileira é uma criança sem nome ou rosto, rejeitada pela cor, o que de forma abstrata registra a desigualdade de maneira poderosa para resumir a racialização de classe da sociedade brasileira.

Não temos dúvida de que as crianças negras de hoje têm uma realidade diferente das do passado, inclusive com maior poder de compra e o direito de teoricamente serem livres. Mas essa “liberdade” não lhes proporciona o direito de ser tratadas igual a todas as outras crianças. Diferenças como a cor de sua pele e a classe social onde estão inseridas determinam suas realidades que, muitas vezes, está impregnada de preconceito. Essas chamadas diferenças, fruto do reflexo social presente nos meios de consumo, são fatores que determinam quais dificuldades serão enfrentadas. São tarefas detectadas muito cedo por suas mães de forma dolorosa nas campanhas, nas compras de produtos infantis diários onde as crianças inteligentes, aventureiras, fortes, saudáveis, amadas e felizes; aquelas que consomem toddynho ou nescau – são todas brancas. A realidade é que as crianças negras são ainda invisíveis ao universo do consumo, o que pode parecer óbvio, dada a sobreposição da desigualdade de classe à desigualdade racial no País: negros ainda são mais pobres que brancos, um fato que alimenta intermináveis controvérsias para segmentos privilegiados sobre as causas da desigualdade, onde estes têm dúvida se seriam de renda ou racial.

As crianças negras não são invisíveis apenas nos meios de comunicação, mas em escolas, hospitais ou espaços de lazer, isto é, como futuros cidadãos e cidadãs em uma sociedade que se define como livre do racismo. Quando se é criança, a defesa de seu espaço se dá através da inferiorização do outro, onde ela se coloca como superior, tendo como base alguma característica que a distingue, passando a se sentir inatingível aos ataques de seus colegas. Isso ocorre com frequência na relação entre crianças brancas e negras: a primeira se elevando e a segundo se retraindo e se auto-desvalorizando. (O racismo na construção das mensagens publicitárias, isto é, a supervalorização da representação branca em detrimento da negra, contribui para a propagação de preconceitos, atingindo crianças negras e brancas em suas atitudes e comportamentos, alargando a incidência do racismo para as futuras gerações) A maneira de construção midiática brasileira contribui para que essas simplesmente adquiram preconceitos da mesma maneira que aprendem outras atitudes e comportamentos, partilhados pela sociedade como um todo.

A baixa autoestima detectada em crianças e pré-adolescentes negros em grande medida pode também ser atribuída a esta invisibilidade nas propagandas, pois a contrapartida esperada numa sociedade de consumo é que a aquisição de bens e serviços dêem aos indivíduos uma sensação de satisfação) advinda dos comerciais de produtos/marcas. Não podemos dizer que em pleno século XXI, não tenhamos conquistado o papel de consumidor ativo na sociedade. Mas mesmo tendo sido percebidos pelo mercado, isso não promove tratamento igual aos brancos nos veículos de comunicação. Os pequenos avanços adquiridos ainda não conseguem fazer com que a cor da pele não seja importante para o reconhecimento do outro como semelhante. É isso que chamamos racismo: descrição do outro como um dessemelhante e abjeto pela cor de seu corpo.
Numa sociedade marcadamente racista e que se vê como uma democracia racial, um sujeito inimaginável pelo consumo é reiteradamente excluído por meio de sua cor e traços. Para esse sujeito ser reconhecido, é preciso antes ser perceptível à ordem dominante, ou seja, algo precisa ser reavaliado. A publicidade infantil age do mesmo modo, ao fazer com que uma criança antes de entender o sentido político do racismo, seja alvo de uma rejeição que resume sua existência. À mãe negra cabe então a tarefa de contribuir para que, mesmo diante de toda rejeição a seu corpo, as crianças negras não percam antes do tempo a ingenuidade infantil que em breve será vencida pela observação cotidiana de práticas racistas. Com o tempo, a criança sem nome e com somente cor diante da mídia brasileira encontrará outro grupo para traduzir sua experiência de sentir-se desprezível que não será mais porque é uma criança em um ambiente de adultos, mas um adolescente, um homem ou um velho negro em um mundo cuja ordem do consumo e da lei é, ainda, branca.

OS NEGROS, A CIDADANIA, A ECONOMIA E A ESCRAVIDÃO. PARA NÃO ESQUECER


DAVIS SENA FILHO
publicado:brasil247.com

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus

Tem um pensamento que eu gosto muito. Mais do que gostar, eu acredito neste pensamento, porque, para mim, ele significa a verdade. "Raça não existe; o que existe é a espécie humana". Quando o homem, ou melhor, a humanidade se organizou em sociedades. Quando ela passou a dominar a agricultura e, conseqüentemente, construir cidades para alojar milhares ou milhões de pessoas, a luta pelo controle político e pela hegemonia econômica recrudesceu. Desta luta deriva todo tipo de preconceito, inclusive o pior deles: o racismo.

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus. O racista nega a vida e reafirma a indiferença, a desigualdade social e a violência. A pobreza material de grande parte dos povos da África negra e do povo brasileiro é intrínseca ao racismo. Eu quero afirmar, sem dúvida alguma, que a miséria material do nosso povo tem como raiz o racismo. Este sentimento, além de ser comportamental e cultural, o é também de fundo econômico, o que o torna intolerável para as pessoas civilizadas e de filosofia humanista e democrática.

Quando os ancestrais do povo brasileiro foram escravizados em um tempo de cinco séculos pelas potências colonialistas, o trabalho humano escravo foi visto como solução para que os colonizadores europeus pudessem ocupar os territórios por eles conquistados, além de desenvolver suas economias e, por conseguinte, disputar o mercado, em seus diferentes setores, pois a corrida pela hegemonia econômica e militar se encontrava em um processo de disputa entre a Inglaterra, a França, a Espanha, a Holanda e Portugal, dentre outros países, que buscavam riquezas, com o objetivo de colonizar terras e dominar os oceanos.

Com a explosão demográfica no continente europeu e o fim da Idade Média, considerada a era mais sombria das sociedades ocidentais, iniciou-se o ciclo das grandes navegações. Historiadores afirmam que foi a opção e a realidade encontrada pelos governos das potências européias, para que a Europa não sucumbisse economicamente e seus povos não ficassem sem espaço para desenvolver suas atividades econômicas, principalmente a agricultura, razão pela qual foi efetivado o sistema de escravidão, com a cumplicidade entre os europeus e suas diversas nacionalidades, com apoio, inclusive, da Igreja da época, bem como de agentes africanos que participavam do tráfico negreiro.

A escravidão de africanos começou no Brasil ainda em meados do século XVI. Duarte Coelho, donatário da Capitania Hereditária de Pernambuco, solicitou, em 1539, ao rei de Portugal a isenção de impostos de "peças" africanas. As "peças", na verdade, eram os escravos. Grandes extensões de terras e agricultura baseada na monocultura de cana-de-açúcar, que propiciou ao Brasil colonial o Ciclo do Açúcar, foram as primeiras razões dos colonizadores para que o comércio de homens, mulheres e crianças negros se perpetuasse até o ano de 1888, quando oficialmente foi abolida a escravidão no Brasil.

O tráfico de escravos foi um comércio tão lucrativo que somente acabou em âmbito mundial em 1865. A partir deste ano, o Brasil se tornou o único no mundo ocidental a possuir escravidão institucionalizada. Essa realidade impedia a chegada de imigrantes que preferiam outros países das Américas. Enquanto o mundo se transformava por meio da revolução industrial, as nossas elites, principalmente os cafeicultores paulistas, insistiam, teimavam com o sistema de escravidão, o que prejudicou, sobremaneira o Brasil nos fóruns internacionais, bem como a sua economia, que, baseada na mão-de-obra escrava, não conseguia competir, satisfatoriamente, com os países, inclusive muitos da América do Sul, que pagavam salários aos trabalhadores, principalmente aos imigrantes europeus que tinham conhecimento técnico para exercer suas funções nas fábricas e no campo.

O Brasil foi o último País a dar fim ao comércio de escravos, além de Cuba, que, apesar de ter escravidão em seu território, a ilha caribenha era usada mesmo como entreposto de escravos, que eram distribuídos pelo Caribe, América do Norte e América Central. Países escravagistas como a Inglaterra, a França, a Espanha e a Holanda tinham grandes interesses econômicos nessas regiões. A presença da Espanha na América do Sul também era muito forte, bem como Portugal, pequeno país ibérico, mas que se tornou potência marítima, que, através do tempo, transformou o Brasil colonizado por ele em um País continental.

A escravidão dos negros africanos era uma escravidão essencialmente mercantilista. Sempre houve escravidão no mundo. A humanidade sempre pecou no que concerne a explorar à própria humanidade. Os países muito antigos, as sociedades antigas, os do tempo de Jesus Cristo e os de tempos anteriores ao do Filho de Deus escravizavam, mas, geralmente, eram troféus, os quinhões dos vencedores de guerras. Eram militares e civis que perderam guerras e pagaram com o preço alto da escravidão.

Por seu turno, a escravidão dos negros não tinha razões outras que não apenas a comercialização de seres humanos, por cerca de 400 anos, no mundo ocidental, que já tinha passado pelo Renascimento e se preparava para entrar no mundo moderno, que se iniciou, primeiramente, com as grandes navegações. O sentimento, realmente, é de vergonha. Não minha vergonha, não sua vergonha, não a vergonha dos milhões de negros brasileiros, mas daqueles que enriqueceram e conquistaram terras com a morte e a escravidão de milhões e milhões de homens e mulheres, que morriam nos navios negreiros, em cerca de 40%, vítimas de maus tratos, de todo tipo de doença, além de serem jogados aos mares, como punição ou por causa da fiscalização do exército e da marinha ingleses, cujo governo, no ano de 1806 para 1807, decidiu dar fim ao tráfico de escravos. A Inglaterra era a potência mundial daquela época.

Portugal, que edificou uma nação importante em termos mundiais na América do Sul, foi o maior mercador de escravos de todos os tempos, no que tange aos interesses especificamente comerciais e econômicos. O Brasil, além de ser o último País a libertar os escravos, foi também o destino de três milhões e 600 mil escravos, dos dez milhões que chegaram vivos e foram trazidos para as Américas. Como se percebe, o Brasil, nos séculos da escravatura, foi responsável por 36% de todo comércio escravagista em âmbito mundial. São realmente números assombrosos.

A escravidão dos negros foi e ainda o é a maior diáspora da história da humanidade. Se a comunidade negra internacional fosse rica e controlasse as mídias, a imprensa comercial e privada, os bancos e as terras evidentemente que essa dolorosa história nunca deixaria de ser comentada, nunca seria esquecida, bem como o genocídio dos índios de todas as Américas nunca ficaria relegado a um segundo plano. Como se observa, a divulgação política da escravidão e dos massacres e genocídios dos negros e dos índios são também questões econômicas e financeiras, além de morais e de justiça, que nunca foi feita, e considero que nunca o será.

Os escravocratas nunca ganharam tanto dinheiro. A comercialização de pessoas era mais lucrativa do que a estratificação, a agricultura, a pecuária e a pesca. A indústria praticamente não existia, porque começou a se desenvolver na segunda metade do século 19, quando a Inglaterra começou — por questões econômicas e não morais —, que isto fique registrado, a perseguir e a afundar navios, boicotar economias e agredir militarmente os países que insistiam em traficar seres humanos com finalidade comercial. Era o início da industrialização, quando surgiu, de forma incipiente, a classe operária, melhor qualificada, sem direitos trabalhistas, contudo, assalariada, valores baixíssimos, trabalhadores explorados, porém, reitero, assalariados.

Os negros africanos, cujos filhos e descendentes são brasileiros, desembarcavam nos portos da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Depois da chegada, eles eram espalhados, "distribuídos" por todo o País. Trabalhavam na mineração, na lavoura, na pecuária, nas instituições governamentais, nas ruas e nas casas residenciais. Eles estavam presentes no dia a dia da vida brasileira e ajudaram, indubitavelmente, a construir o Brasil de hoje, País que tem um PIB de R$ 3,675 trilhões, segundo o IBGE, e que atualmente tem influência planetária. Sem sombra de dúvida, a plural e multirracial sociedade brasileira deve muito aos homens e mulheres negros que trabalharam, arduamente, sendo que milhares pagaram com a própria morte, como vítimas que foram da terrível e inominável escravidão.

Os negros, os cidadãos negros foram heróis da Guerra de Canudos e da Guerra do Paraguai e não receberam retorno algum, a não ser o abandono do estado e da sociedade brasileiros. Foram morar nos morros da Favela e da Providência, as primeiras favelas deste País. As desigualdades sociais são gritantes. A miséria e a pobreza, históricas, são a razão da prostituição, do tráfico e da violência. São essências da degeneração familiar e, consequentemente, da sociedade.

Os negros, observemos, pertencem às camadas mais pobres da sociedade brasileira, as que estão em risco constante de ser vítimas de todo tipo de miséria humana e de ignorância. O ignaro é mais perigoso que o marginal, porque ele é parte de milhares, quiçá milhões, e por isso se anulam as condições para que as nossas cidades e o País se desenvolvam, de maneira equânime, justa e democrática. Não há paz se não existir justiça social. Os governos, em todas as esferas, têm de deixar de ser patrimonialistas. O estado tem de ser devolvido ao povo e não continuar a servir à pequena parcela da sociedade, que há séculos confunde e mistura os interesses do estado com os interesses privados — particulares. É uma luta árdua, perene e constante.

Os governos trabalhistas de Lula e agora o de Dilma Rousseff têm lutado e conseguido mudar o quadro social e econômico das classes sociais carentes e populares. É uma revolução da grandeza da que o presidente Getúlio Vargas realizou em 1930 e depois em 1950, quando o Brasil deixou de ser rural e passou a ser urbano, por meio da industrialização, da organização do serviço público de forma centralizada, em âmbito federal, e da criação de meios de fiscalização das receitas públicas, bem como dos serviços de arrecadação de tributos do estado nacional, além da criação de estatais como a CSN, a Vale do Rio Doce (os neoliberais só querem chamá-la de Vale) e a Petrobras.

Os programas de Lula incluíram 42 milhões de brasileiros na classe média (quase a população da Argentina) e tiraram 36 milhões da pobreza. E grande parte dessa gente brasileira, caro leitor, é formada por brasileiros de etnia negra. É uma revolução ou não é? Só para ficar nisso, porque esse governo trabalhista fez muito mais, como, por exemplo, fortalecer nosso mercado interno ao ponto de o Brasil praticamente não sentir a crise econômica e financeira que aconteceu no mundo em 2008, apesar de a imprensa de negócios privados não reconhecer e por isso mentir e manipular, porque a verdade é que ela se tornou porta-voz dos trustes internacionais e nacionais, ponta-de-lança dos interesses da classe social que habita o pico da pirâmide social, além de se transformar em um partido de direita — o Partido da Imprensa. Se há alguma dúvida, basta pesquisar para confirmar o que eu afirmo e o que eu escrevo nesta tribuna chamada Palavra Livre.

O estado democrático de direito, conforme reza a Constituição de 1988, é o agente que determina as políticas públicas, no que é relativo à saúde, à educação, à moradia, à segurança e à luta para favorecer a distribuição de renda e a geração de empregos. Todas essas coisas boas são desejos dos brasileiros, principalmente os negros e os índios que ainda não foram resgatados historicamente e socialmente. O Brasil tem de continuar a ser dos brancos, dos amarelos, dos vermelhos e dos negros. Contudo, sabemos que a grande parcela negra da população tem de ser ouvida por todos os segmentos da sociedade, bem como ser alvo de políticas públicas positivas que garantam a inclusão dos negros (e também dos índios) no mercado de trabalho e nas escolas.

Até hoje, em pleno século 20, parte significativa do povo brasileiro não tem acesso a benefícios sociais e ao direito de ter uma vida de melhor qualidade. Os negros continuam a ter os piores empregos, a morar nas periferias, nas favelas, nas comunidades pobres. Seus empregos são os mais insalubres, os mais perigosos e mal pagos. Continuam a ser vítimas do pior sentimento dentre os piores sentimentos que é o racismo, porque, como cidadão negro, ele é medido por sua cor, por seu cabelo, por suas características físicas e não pela sua conduta, pela sua competência, pelo seu caráter, digo melhor, bom caráter, pelo seu coração. Os indivíduos são pertencentes à espécie humana. Raça é terminologia superada, que somente os desinformados, os ignorantes, os preconceituosos e os racistas insistem em assim se comportar. Comportar-se mal.

É um direito inalienável do homem e da mulher, independentemente de sua origem e cor, ter suas cidadanias ratificadas e reiteradas pelo estado e pela sociedade a qual pertencem. Ser cidadão não se reduz a pagar impostos. Ser cidadão é também saber de seus direitos e, dentre um elenco de direitos, é não ser humilhado ou esquecido ou relegado por sua condição social e por sua cor de pele e etnia. Os negros estão para sempre, eternamente, na história do Brasil e do seu povo. Ele é parte dele. Ele é o povo, e o Brasil é de todos e para todos os brasileiros.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Nasci negra depois dos 30

por*:
Shirlene Marques
publicado: http://blogueirasnegras.org
2014 é o ano do meu nascimento. Durante três décadas, ou desde o que dia em que tenho lembranças de quem fui ou tornei-me a ser, fui “morena clara”, morena e também achei-me branca. Mas, eu negra? Não,não… Ouvia frases do tipo: “olha que morena mais bonitinha”.

Como todo ser humano que se constitui dentro do seu meio, fui educada como sendo branca, de religião católica. E assim saí da infância lutando para negar marcas genéticas, como o tipo de cabelo. Cabelo este que eu considerava ruim e difícil de manter-se domado, dominado. Afinal, os outros reproduziam e insistiam: “cabelo ruim é assim mesmo”.

Quando a idade de mocinha foi chegando, achava-me feia e escondia-me em mim. Porém quando o som dos tambores ecoava através dos grupos afrobaianos, que eu via na televisão, sentia fortaleza e atração. Naquele tempo, eu menina-moça morava à beira do rio São Francisco, nascida em terras baianas de Juazeiro e crescendo em terras pernambucanas de Petrolina. Missas e alisamentos colocavam a herança negra bem longe de mim; era mundo de apreciação.

Mas o gosto pela música vindo da minha Bahia, onde foi gerada e recebida, ecoava em minha alma e me trazia sensação de ligação e de que querer chegar mais perto. Mas eu? Negra não! A música era deles, dos negros lá de Salvador.

No crescimento do corpo físico e desejo de crescimento intelectual sigo para capital Recife, desejando cursar Jornalismo. Os olhos abrem-se para novos “mundos” representados em sons, em textos, em gente. Era maracatu, coco, ciranda, afoxé,frevo…Todo som que ecoava em mim. Conquistando-me… Religando-me. Mas eu? Negra não!

Na minha mente já estava plantada a certeza de uma forte identificação com o mundo negro; gostava do som dos tambores, vibrava ao ver negros engajados na política e em causas sociais; ficava feliz quando uma negra (o) conseguia sua ascensão conquistada com esforço e educação. Mas e eu? Sim, sim, a morena do curso. Vinda do interior, de escola pública e cursando Jornalismo numa Universidade Federal. Estava num lugar para brancos e “ricos”, “mérito” para brancos, as cotas não existiam.

Os primeiros anos na capital também marcaram a minha vida na busca por uma religiosidade mais profunda. Foram tempos de andanças e de buscas… Neste tempo, começaram a nascer as mudanças. Era tempo de ser gerada, chamada… Os dogmas do catolicismo já não me pertenciam. Abraço o espiritismo kardecista que me mostrou a imensidão do mundo espiritual. E eu? Morena, não católica.

Religiões afro-brasileiras, não, não. Não poderiam fazer parte de mim. Religiões como o candomblé era espaço para eles, os negros, as negras. Tinha respeito e admiração por aquele mundo. E eu? Divulgava já com orgulho: Sou branca, mas minha alma é negra.

E em meio aos vendavais encontrei o candomblé ou o candomblé encontrou-me. Fui iniciada aos 34 anos, adentrando em novos espaços, que já conhecia de longe, de tempo atrás. Encontrei pertença, riqueza; a ligação estava concluída. Mas, e eu? Não podia ser a negra que queria. Minha pele não era preta, preta como a deles.

Durante 30 anos fui ensinada a ser “morena”, num panorama de sociedade e de conhecimento que vivi. Minha cabeça encheu-se dúvidas, as quais foram sanadas com leituras que me trouxeram uma grande resposta, que antes eu não buscava; afinal, eu não era negra. Eis que as respostas chegaram: a denominação de uma pele morena, no Brasil, é usada para camuflar a pertença à raça negra, de ter o sangue negro no corpo.

Tenho nariz achatado, cabelo crespo, lábios grossos, sangue negro em minhas veias, não pele negra, tão negra como a lua, eis-me aqui nascida negra. Nascimento que não foi forçado como na cesárea. Foi parto natural, parto amadurecido, parto que esperou tantos anos, filho mais que desejado. Foi gestado e alimentado com leitura, pois nasceu um tempo em busca da cura física que foi transformada em tempo de alimento.

Nasci negra em meio à busca da cura física. Nasci negra e agora como uma criança tenho desejos infinitos de entender este meu mundo negro. Cada dia tem sido posto para grande descobertas, momentos do passado que tento entender, pessoas e fatos que tento entender. Encantamento com a vida nova. Braços vão sendo apresentados a mim, mãos me ensinam a caminhar, pessoas maravilhosas vão me guiando. E como toda criança, vou enchendo meu coração de sonhos e ficando feliz com os presentes que me chegam (amig@s, espaços de aprendizagem, leituras).

sábado, 21 de junho de 2014

Sociedade capitalista, racismo e sexismo: a importância da autocrítica feminista

por: Marjorie Chaves
publicado: blogueirasnegras.org

À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de textos feministas ou de ganhos com o movimento feminista por igualdade no mercado de trabalho, o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva.bell hooks
Não há capitalismo sem racismo.
Malcolm X

Não há luta antirracista e antissexista fora da luta de classes. Pesquisas que sintetizam informações estatísticas desagregadas em gênero e raça como o Anuário das Mulheres Brasileiras (2011) evidenciam a situação de indigência e pobreza vivida por mulheres negras e a sua concentração em postos de trabalhado vulneráveis como o trabalho doméstico e o de cuidados em regiões metropolitanas e Distrito Federal. Os recentes estudos sobre relações de gênero no mundo do trabalho pouco têm avançado em considerar a questão racial como um dos principais elementos na distribuição de lugares e papéis sociais que constituem as desigualdades na sociedade capitalista.

Esse silenciamento pode ser explicado pela maneira como vem se consolidando os estudos feministas e de gênero nas universidades brasileiras com produções teóricas cada vez mais sofisticadas e distanciadas da realidade de mulheres pobres e racializadas que compõem parte significativa da força de trabalho. Para bell hooks (1984),“tem sido mais fácil para as mulheres brancas que não vivenciam opressão de raça ou classe se concentrarem exclusivamente no gênero”.

Nas décadas de 1970 e 1980 feministas negras como Angela Davis, bell hooks e Lélia Gonzalez já apontavam que a luta antirracista é indissolúvel da luta de classes. A recusa de feministas em reconhecer outras experiências de mulheres (que não as brancas, universitárias e de classe média) suprimiu a conexão entre raça e classe, escamoteando a situação de privilégio de um seleto grupo de mulheres forjado pelo discurso da “opressão comum”.

Nancy Fraser (2009) lembra o quanto o feminismo prosperou no momento da ascensão do neoliberalismo em que as reivindicações por justiça foram substituídas em função do reconhecimento da identidade e da diferença, reprimindo a memória de um igualitarismo social. A promessa emancipatória do feminismo, aos poucos deu lugar aos interesses individuais de mulheres privilegiadas que almejavam a igualdade com os homens de sua classe. As lutas feministas foram facilmente cooptadas pelo pensamento burguês a medida que mulheres brancas foram beneficiadas pelo movimento.

O capitalismo não cria desigualdades raciais e de gênero, ele as apropria. O racismo e o sexismo operam de modo a criar disputas dentro da própria classe trabalhadora gerando privilégios na competição por ocupações do mercado de trabalho. A divisão sexual do trabalho (HIRATA; KERGOAT, 2007) em que há, supostamente, trabalhos de mulheres e trabalhos de homens, sendo os desses últimos mais valorizados, não funciona da mesma maneira para todas as mulheres. A experiência de mulheres negras na diáspora é a experiência do trabalho, sempre estivemos nas ruas oferecendo todo tipo de serviço.

Cada vez que mais e mais mulheres passaram a ocupar o mercado de trabalho, foi preciso que outras assegurassem seu trabalho doméstico criando uma subdivisão de classe no interior da divisão sexual do trabalho (ÁVILA, 2010). A delegação de tarefas, além de não proporcionar a divisão igualitária do trabalho reprodutivo entre homens e mulheres, perpetua as desigualdades entre mulheres, assim como as desigualdades raciais, já que são as mulheres negras que historicamente ocupam o lugar do trabalho doméstico remunerado.

Se a autocrítica faz parte da ação e da elaboração teórica dos feminismos como alguém pode considerar a si mesmo como feminista sendo liberal e racista? Muitas organizações contemporâneas de mulheres negras sequer utilizam o termo “feminismo” para designar sua prática política. No entanto, o que costumamos nomear de prática feminista negra ou pensamento negro feminista é o conhecimento gerado a partir da própria experiência em resposta às opressões que interseccionam gênero, raça, classe e sexualidade (COLLINS, 2012), afirmando um posicionamento crítico ao feminismo hegemônico que pouco tem nos representado. É necessário refletir sobre qual emancipação queremos, pois as lutas antissexistas e antirracistas por si só não abalam as estruturas do capitalismo que, por seu oportunismo sistemático, apropria-se das desigualdades raciais e de gênero para acirrar a exploração econômica e fragmentar todas as formas de resistência.

Referências:

ÁVILA, Maria Betânia. Divisões e tensões em torno do tempo do trabalho doméstico no cotidiano. Revista do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero. Edição especial – Tema: Trabalho e Gênero. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2010. p.67-76.

COLLINS, Patricia Hill. Rasgos distintivos del pensamiento feminista negro. In: JABARDO, Mercedes (Ed.). Feminismos negros: uma antología. España: Traficantes de Sueños, 2012. p. 99 a 134.

DIEESE. Anuário das mulheres brasileiras. São Paulo: DIEESE, 2011.

FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações. Londrina, v. 14, n. 2, p. 11-22, jul./dez. 2009.

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. São Paulo, Cadernos de pesquisa, v. 37, n. 132, set.-dez. 2007, p. 595-609.

HOOKS, bell. Feminist Theory: from margin to center. Boston and Brooklyn: South End Press Classics, 1984.

Nasce Machado de Assis - 21/06/1839

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a Repúblicasubstituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época.

Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Os biógrafos notam que, interessado pela boemia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual. Para isso, assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras.
Sua extensa obra constitui-se de nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).Este romance é posto ao lado de todas suas produções posteriores, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes a sua segunda fase, em que se notam traços de pessimismo e ironia, embora não haja rompimento de resíduos românticos. Dessa fase, os críticos destacam que suas melhores obras são as da Trilogia Realista. Sua primeira fase literária é constituída de obras como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, onde notam-se características herdadas do Romantismo, ou "convencionalismo", como prefere a crítica moderna.

Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileirasdo século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros.Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nasce o Célebre Poeta, Advogado, Intelectual, Luiz Gama- 21/06/1830

Luiz Gama: 130 anos depois de sua morte, a luta contra o racismo continua!
por: Diego Pereira de Siqueira* -

O Brasil é um país sem memória, é o que muitos dizem. Anestesiados pelo futebol, o carnaval e o Big Brother, os escândalos de corrupção se sucedem um após o outro, sem que a maioria do povo sequer se lembre do nome dos envolvidos. O mesmo se pode dizer das nossas figuras “históricas”.

Mas acho que isso não é por acaso. Pelo contrário, tem a ver com o modo como foi sendo construído o Estado brasileiro ao longo dos anos. Desde o famoso “grito da independência”, o povo foi sistematicamente afastado do poder. A ele, só cabia obedecer e aplaudir os “heróis da pátria”, todos saídos da elite branca e escravocrata: Pedro I e Pedro II, Caxias, Bento Gonçalves, Tamandaré, todos eles perfeitos representantes dessa elite, sem nada que os identificasse com a massa do povo.

Pelo contrário, gente como Caxias foram canonizados como heróis justamente por seu papel em reprimir revoltas populares e matar pretos. Pessoas que se levantavam contra as injustiças da época, a infâmia da escravidão e ousavam se levantar contra os monstruosos privilégios dessa elite, além da perseguição que eram vítimas em vida, recebiam ainda outro castigo: o esquecimento, o desaparecimento dentro da história oficial, aonde só cabiam os “grandes”.

Luiz Gama, o negro escravo que chegou a advogado, é um dos maiores exemplos disso. Morreu há exatos 130 anos, no dia 24 de agosto de 1882, na miséria absoluta, depois de uma vida inteira dedicada à luta contra a escravidão. E lutou não suplicando para a boa vontade e compaixão dos senhores escravocratas, e sim apelando à dignidade do escravo e para o direito moral da revolta contra a degradação da escravidão. É dele a célebre frase “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Trazia o senso de revolta no seu sangue: nascido em Salvador, sua mãe, Luiza Mahin, era uma ex-escrava, que sobrevivia de vender doces e foi uma das líderes da célebre Revolta dos Malês, rebelião de escravos muçulmanos de Salvador. Sufocada a revolta, Luiza Mahin teve que fugir de Salvador,indo para o sul e depois desaparecendo de qualquer registro oficial, sem nunca ter reencontrado o filho. Este, algum tempo depois, foi vendido pelo próprio pai, para saldar uma dívida de jogo. Pelas próprias leis da época, isso também era ilegal, pois Luiz Gama nasceu livre, filho de uma escrava alforriada. Mas, como sempre, a lei não estava do lado dos mais fracos.

Após quase uma década de servidão para uma família remediada de São Paulo, Luiz Gama conseguiu sua liberdade. Passou a viver de pequenos serviços, enquanto estudava direito e passou a desenvolver sua militância a favor da abolição. Isso na década de 1840, quando essa causa estava longe de ser uma causa popular, contando com pouquíssimas adesões entre a gente “instruída” da época, mesmo entre os republicanos. Usando de seus conhecimentos em direito, aproveitava cada brecha na legislação escravista da época para defender o interesse de seus clientes, escravos que buscavam comprar sua liberdade. Por suas próprias contas, ele ajudou a libertar mais de 500 escravos através de processos legais.

Precisamente por conhecer tão bem as leis e o sistema judiciário da época, Luiz Gama não nutria nenhuma ilusão a respeito das instituições, e sabia que a verdadeira libertação só poderia se dar com a luta militante dos próprios escravos. Não se deixava seduzir pelas pregações hipócritas dos moralistas de então, que criticavam a violência dos escravos até mais do que a violência própria gerada pelos senhores de escravos. Grande polemista, Luiz Gama deixou, em centenas de discursos e cartas, um retrato vívido da condição degradante a que eram submetidos os seres humanos que se viam nessa condição, e concluía daí o direito moral à revolta: “Milhões de homens livres, nascidos como feras ou como anjos, nas fúlgidas areias da África, roubados e escravizados, azorragados, mutilados, arrastados neste país clássico da sagrada liberdade, assassinados impunemente, sem direitos, sem família, sem pátria, sem religião, vendidos como bestas, espoliados em seu trabalho, transformados em máquinas, condenados à luta d todas as horas e de todos os dias, de todos os momentos, em proveito de especuladores cínicos, de ladrões impudicos, de salteadores sem nome ... Quando, porém, por uma força invencível, por um ímpeto indomável, por um movimento soberano do instinto revoltado, levantam-se como a razão, e matam o senhor, como Lusbel mataria Deus, são metidos no cárcere; e aí a virtude exaspera-se, a piedade contrai-se, a liberdade confrange-se, a indignação referve, o patriotismo arma-se”.

Ao longo da sua vida, recebeu várias ameaças de morte, vindas dos escravocratas que não conseguiam suportar a necessidade desse “preto” vir a ameaçar as suas “propriedades”. Mas isso não o impedia de continuar sua luta, ao mesmo tempo contra todo o sistema socioeconômico da escravidão e pela liberdade e dignidade individual da população escravizada. Já no final da sua vida, ao lado de Antonio Bento, funda o clube abolicionista, precursor do grupo Caifazes, um movimento que se poderia dizer partidário do método da ação direta e da desobediência civil: Através de uma vasta rede de contatos, ele se infiltravam nas fazendas e convenciam os escravos a fugir, alojando-os depois em igrejas ou em casas de simpatizantes. Depois, eles seguiam para Santos, ajudados por ferroviários simpatizantes da causa, até serem alojados no quilombo de Jabaquara, onde podiam seguir para outro local onde pudessem se estabelecer definitivamente.

O seu inspirador e patrono era Luiz Gama, que ainda na velhice não se assustava diante do uso de métodos “radicais” para combater a escravidão e toda a instituição da qual era a base. No entanto, não pôde viver para ver a realização de seu maior objetivo: morreu na sua casa, localizada no bairro do Brás, aos 58 anos, deixando para seus filhos nenhum centavo em bens materiais, mas uma história de lutas e sacrifícios em beneficio de uma causa. Seis anos depois, a instituição da escravidão, moribunda e já não mais interessante do ponto de vista econômico, foi formalmente abolida, não por um ato de bondade de outra figura oficial, a princesa Isabel, mas sim pela luta dos próprios escravos e de seus aliados entre a população. Quando a História for escrita do jeito que deve ser, serão figuras como Luiz Gama que serão lembrados, e não os hipócritas da conciliação e da sociedade “oficial”.
A luta continua!

*texto publicado em 24 /08/2012 no site: lsr-cit.org

JUSTIÇA SELETIVA CONDENA MAIS NEGROS E POBRES

por. Mônica Francisco*
publicado:www.Brasil247.com
Mônica Francisco, em artigo publicado no Jornal do Brasil, fala sobre a impunidade brasileira e o tratamento severo aos pequenos delitos praticados por negros e pobres, enquanto grandes atos de corrupção, conhecidos como crimes do colarinho branco, são tratados com menor rigor e recebem maior tolerância social: “Gritamos por redução da maioridade penal mas votamos naqueles que matam por roubar dinheiro da educação, saúde, dinheiro nosso e do nosso trabalho, nosso sangue”

O tratamento diferenciado aos diversos autores de crimes, oferecendo rigorosidade e penas severas a infrações leves, entretanto, praticada por uma população, em geral, negra e vinda de territórios populares, enquanto outros, empresários, articulados ou ligados a atores de posse de respeito e zelo social de outros indivíduos pertencentes a diversos níveis de poder, são absolvidos ou tratados com respeito e privilégio pela justiça brasileira, é tema de artigo publicado no Jornal do Brasil escrito por Mônica Francisco, representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ: “Somos implacáveis quando vemos um jovem negro cometer delitos. (...) Mas quando assistimos à sanha criminosa de empreiteiras e políticos, expostos pela própria polícia, mídia e justiça, nos limitamos a dizer que não vai dar em nada, que tudo acaba em pizza, e o tudo acaba em pizza vira mantra para não nos darmos conta de que somos cada vez mais aborrecidos, mas condescendentes com os poderosos e extremamente severos com os mais fracos”.

Monica traz ainda, enquanto exemplo da disparidade jurídica no Brasil, o cenário atual nas carceragens brasileiras e a passividade social com que esse tema é tratado, assim como os crimes de colarinho branco: “Os números da população carcerária nos deveriam causar constrangimento, sim porque eles não são o resultado de eficácia na aplicação da justiça e sim nosso atestado de falência no que diz respeito a ela” e completa: “Os crimes, sim crimes praticados por doleiros, empreiteiros, empresários, os famosos crimes do colarinho branco, nos afrontam cotidianamente e convivemos com eles com a mesma passividade com a qual convivemos com os números alarmantes de negros ou não brancos jovens que são mortos de forma extremamente violenta anualmente neste país”.

Leia a seguir o artigo completo.
Por *Mônica Francisco para o Jornal do Brasil

As empreiteiras, a Justiça e a impunidade

Ao ouvir o senso comum nas ruas e nas vielas das favelas, bares, "tendinhas", esquinas ou outra roda de conversa qualquer onde o assunto seja a tão propalada e desejada justiça, vem logo a célebre frase: "Cadeia é para pobre, preto e favelado."

Em seguida um sem número de exemplos vêm como enxurrada: corruptos que recebem tratamento privilegiado desde a suspeita até o momento que culmina com o breve ato da prisão. Algemas, exposição vexatória, algum "carimbo" especial deixado por alguma utilização de força "desproporcional" não cabem nesta "agenda".

Sabe-se exatamente qual será o futuro do pretenso ato de fazer justiça e dar uma satisfação à sociedade. Tudo isso acaba com um arquivamento aqui, uma pessoa que era ligada a tal político ou empreiteiro, empresário ou afins e que fazia tudo sem conhecimento da vítima injustiçada e caluniada. Tudo ficará esclarecido e nada terão contra o dito cidadão de bem que confiou, pobre coitado, em algum assessor, conselheiro ou vice-presidente que não devia. Filme trash, repetido com direito a infindáveis releituras.

À classe dominante, dita culta, letrada e de fina cepa, ainda que conquistada de maneira duvidosa, não cabem muitos destes exemplos. Donos de empreiteiras enchem os jornais e noticiários diariamente.

Os números da população carcerária nos deveriam causar constrangimento, sim porque eles não são o resultado de eficácia na aplicação da justiça e sim nosso atestado de falência no que diz respeito a ela. Já escrevi aqui e torno a repetir que a prisão brasileira é monocromática majoritariamente, ou quando não, com algumas nuances sempre para cima, sempre em um tom a "mais".

Somos a quarta maior população carcerária do mundo, perdendo somente para Estados Unidos, China e Rússia. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, temos mais de quinhentas mil pessoas presas no Brasil.

Os crimes, sim crimes praticados por doleiros, empreiteiros, empresários, os famosos crimes do colarinho branco, nos afrontam cotidianamente e convivemos com eles com a mesma passividade com a qual convivemos com os números alarmantes de negros ou não brancos jovens que são mortos de forma extremamente violenta anualmente neste país.

Somos implacáveis quando vemos um jovem negro cometer delitos, não me refiro aqui a crimes mais graves, falo de pequenos delitos.A sanha por justiça se manifesta de forma primitiva e vamos às raias da loucura para vingarmos o crime pela sensação de impunidade, mas quando assistimos à sanha criminosa de empreiteiras e políticos, expostos pela própria polícia, mídia e justiça, nos limitamos a dizer que não vai dar em nada, que tudo acaba em pizza, e o tudo acaba em pizza vira mantra para não nos darmos conta de que somos cada vez mais aborrecidos, mas condescendentes com os poderosos e extremamente severos com os mais fracos.

Gritamos por redução da maioridade penal mas votamos naqueles que matam por roubar dinheiro da educação, saúde, dinheiro nosso e do nosso trabalho, nosso sangue. Parafraseando o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) que cunhou a frase "ou o Brasil acaba com as saúvas ou as saúvas acabam com o Brasil", por conta de uma praga das danadinhas que ameaçava as grandes plantações, ou acabamos com a corrupção endêmica ou ela acabará conosco como nação.

As favelas e áreas periféricas do Rio de Janeiro conhece bem todos os impactos causados pelas grandes empreiteiras e muitas delas envolvidas em escândalos públicos. Escrevo esse artigo com a notícia de que a soltura dos envolvidos na Operação Lava-Jato não acontecerá como anunciado nesta segunda-feira, 19 de maio.

Que nossos magistrados com mão tão pesada para punir os menos afortunados, tenham serenidade e bom senso, e mais do que isso, humanidade para entender onde de fato está o mal do Brasil, quem de fato é a personificação do mal neste país e onde ele se manifesta de forma tão ou mais cruel do que nos becos e vielas da favela ou das grandes periferias deste país.

Me parece que o mal veste terno e tem classe, ah, e tem dinheiro para comprar o que eles entendem ser sua própria justiça. Que nossos magistrados possam mostrar-lhes que justiça e honra não se vendem. De verdade, torço pra isso.

Não podemos mais continuar compactuando de forma passiva e quase que hipnótica com estas práticas que nos afrontam diariamente. Rios de dinheiro para empreiteiras e hospitais completamente sucateados, escolas em situação vergonhosa e sem falar no déficit de moradias para as camadas mais baixas da população. Queremos ver a cadeia menos monocromática e tão diversa como o país, precisamos da cura, ou a corrupção nos consumirá como uma peste.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.

Um herói a ser seguido - Steve Biko

Stephen Bantu Biko (18 de dezembro de 1946 - 12 de setembro de 1977) era um ativista anti-apartheid da África do Sul na década de 1960 e 1970.
    Líder estudantil, fundou o Movimento da Conciência Negra (Black Consciousness Movement), que capacitava e mobilizava grande parte da população negra urbana. Desde sua morte sob custódia da polícia, ele foi chamado de mártir de um movimento anti-apartheid. Enquanto vivia, seus escritos e ativismo tentou capacitar as pessoas negras, e era famoso por seu slogan "black is beautiful", que o próprio descreveu como: "você está bem como você é, comece a olhar para si mesmo como um ser humano".

    Mesmo que Biko nunca tenha sido um membro do Congresso Nacional Africano (ANC), foi incluído no panteão dos heróis de luta, indo tão londe como a utilização de sua imafem para cartazes de camapanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse a respeito de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid".

    Mesmo que Biko nunca foi membro do Congresso Nacional Africano (ANC), ANC incluiu-o no panteão dos heróis de luta, indo tão longe como a utilização de sua imagem para cartazes de campanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid."

    Stephen Bantu Biko é filho de Mzingayi Mathew e Alice 'Mamcete' Biko, nascido em Ginsberg Township, na atual província do Cabo Oriental da África do Sul. Seu pai era funcionário do governo, enquanto sua mãe fez o trabalho doméstico em casas de brancos. O terceiro de quatro filhos, Biko cresceu com sua irmã mais velha, Bukelwa; seu irmão mais velho, Khaya; e sua irmã mais nova, Bobandile. Em 1950, com 4 anos, Biko sofreu a perda de seu pai, que estava estudando direito.

    Steve era um Xjosa. Além de Xhosa, ele falava fluênte inglês e africâner. Quando criança, ele estudou na Brownlee Primary School e Charles Morgan Higher Primary School. Foi enviado para Lovedale High School em 1964, um internato de prestígio em Alice Eastern Cape, onde seu irmão mais velho, Khaya, anteriormente havia estudado. Durante a era do apartheid, sem liberdade de associação protetora para Sul-africanos não-brancos, Biko foi expulso de Lovedale por suas opiniões políticas,e seu irmão foi preso por sua suposta associação com Poqo (agora conhecido como Azaniam People's Liberation Army). Depois de ser expulso, se formou mais tarde na St. Francis College, uma instituição católica romana em Miriannhill, Natal.

    Ele estudou para ser médico na Universidade Médica de Natal.

    Biko se casou com Ntsiki Mashalaba em 1970. Eles tiveram dois filhos juntos: Nkosinathi, nascido em 1971, e Samora.

    Ele também tinha dois filhos com a Dra. Mamphela Ramphele, uma ativista de destaque dentro do BCM: a filha, Lerato, nascida em 1974, que morreu de pneumonia quando ela tinha apenas dois meses de idade, e um filho, Hlumelo, que nasceu em 1978 após a morte de seu pai.

    Biko também teve uma filha com Lorraine Tabane, chamada Motlatsi, nascida em maio de 1977.

    Ele foi envolvido com a multirracial União Nacional dos Estudantes Sul-Africanos, mas depois que se convenceu que era negro, decidiu que precisava de uma organização própria, e ajudou a fundar a Organização dos Estudantes Sul-Africanos (SASO), cuja ageda incluiu auto-suficiência política e da inificação de estudades universitários em uma "conciência negra". Em 1968, Biko foi o primeiro presidente negro eleir. SASO evoluiu para o Movimento de Conciência Negra influente (BCM) e também estava envolvido com a Federação Mundial dos Estudantes Cristãos.

    No início de 1970, Biko tornou-se uma figura-chave no momento Durban. Em 1972, ele foi expulso da Universidade de Natal por causa de suas atividades políticas e tornou-se presidente honorário da Convenção do Povo Negro. Ele foi "banido" pelo governo do apartheid em fevereiro de 1973, ou seja, ele não estava autorizado a falar com mais do que uma pessoa, impossibilitando assim que ele falasse em público, era restrito à cidade distrito judiciário do Rei William e não poderia escrever publicamente ou falar com a mídia. Também foi proibido citar qualquer coisa que ele disse, incluindo discursos ou conversas simples.

    Quando Biko foi "banido", o seu movimento dentro do país estava restrito ao Cabo Oriental, onde ele nasceu. Depois de voltar paralá, ele formou uma série de organizações de base com base na noção de auto-suficiência: Zanempilo, o Fundo Fiduciário Zimele (que ajudou a apoiar ex-presos políticos e suas famílias).

    Apesar da representação do governo do apartheid, Biko e o BCM desempenharam um papel significativo na organização dos protestos que culminou com a Revolta de Soweto de 16 de junho de 1976. Na sequência da revolta, que foi recebido som uma mão pesada pela força de seguranaça, as utoridades começaram a alvejar Biko ainda mais.

    Em 18 de agosto de 1977, Biko foi preso em uma barreira policial e interrogado por oficiais da polícia. Esse interrogatório ocorreu na sala de polícia 619 do Edifício Sanlam em Port Elizabeth. O interrogatório durou 22 horas e incluiu tortura e espancamentos, resultando em coma. Ele sofreu ferimento na cabela quanto estava sob custódia policial na delegacia Walmer, em um subúrbio de Port Elizabeth, e foi acorrentado a uma grade de uma janela durante um dia.

    Em 11 de setembro de 1977, a polícia carregou-o nas costas de um Land Rover, nu e contido em algemas para levá-lo para uma prisão com instalações hospitalares. Ele estava quase morto devido às lesões anteriores. Ele morreou logo após a chegada na prisão, em 12 de setembro. A polícia alegou que sua morte foi um resultado de uma greve de fome prolongada, mas a autópsia revelou múltiplas contusões e escoriações e que ele finalmente sucumbiu a uma hemorragia cerebral maciça dos ferimentos na cabeça, que muitos vieram como evidência forte que ele havia sido brutalmente agredido por seus captores. Em seguida, Donald Woods, jornalista, editor e amigo de Biko, junto com Helen Zille, mais tarde líder do partido político da aliança democrática, expuseram a verdade por trás da morte de Steve.

    Por causa de sua grande visibilidade, a notícia da morte de Biko se espalhou rapidamente, divulgando a natureza repressiva do governo do apartheid. Seu funeral foi assistido por mais de 10.000 pessoas, incluindo numerosos embaixadores e outros diplomatas dos Estados Unidos e Europa Ocidental. O liberal branco jornalista sul-africano Donald Woods, amigo pessoal de Biko, fotografou seus ferimentos no necrotério. Woods foi mais tarde forçado a fugir da África do Sul para a Inglaterra, e fez campanha contra o apartheid e divulgou mais ainda a vida e a morte de Biko, escrevendo muitos artigos de jornal e autor do livro "Biko" que mais tarde foi transformado em filme de nome "Freedom Cry".

    Depois de um inquérito com 15 dias em 1978, um juiz magistrado disse que não havia provas suficientes para acusar os oficiais de homicídio, pois não havia testemunhas. Em 2 de fevereiro de 1978, com base ans provas dadas no inquérito, o procurador-geral do Cabo Oriental declarou que não iria processar os policiais. Em 28 de julho de 1979, o advogado da família Biko anunciou que o governo Sul-Africano teria que pagar 78 milhões de dólares em compensação pela morte de Biko.

    Em outubro de 2003, o Ministério da Justiça Sul-Africano anunciou que os cinco policiais acusados de matar Biko não seriam processados judicialmente por causa do limite de tempo para a acusação tinha decorrido e por causa da insuficiência de provas.

    Um ano após sua morte, alguns de seus escritos foram recolhidos e lançado sob o título "Eu escrevo o que eu gosto".

    Como Frantz Fanon, Biko originalmente estudou medicina e, como Fanon, Biko desenvolveu uma intensa preocupação para o desenvolvimento da conciência negra, como a solução para as lutas existenciais que a existência forma, tanto como um ser humando como um africano. Biko, portanto, pode ser visto como um seguidor de Fanon e Aimé Césaire.

    Biko viu a luta pela conciência africana como tendo duas fases: "libertação psicológica" e "libertação física". A influência não-violenta de Gandhi e Martin Luther King sobre Biko é então suspeito, como Biko sabia que por sua luta para dar lugar a libertação física, era necessário que ele existisse dentro das realidades políticas do governo do apartheid, e não-violência a ser bisto mais como uma tática de uma convicção pessoal.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Dados de homicídios de jovens no país não constrangem sociedade

José JuniorJosé Junior
Os dados sobre homicídios de jovens no Brasil nos envergonham, mas não constrangem a sociedade a ir para a beira do abismo e erguer um cinturão de proteção.
Meu trabalho no AfroReggae começou em 1993. Naquele tempo eu era um jovem com sonhos e uma enorme urgência de poder ver cada um deles realizados. Sabia que queria construir um trabalho social de referência, sabia que era possível, que podia e tinha capacidade, mas não sabia como poderia fazer.
Eu era muito jovem, tinha meus sonhos e minhas urgências, mas o que tive naqueles tempos foi a sorte de conseguir gente para me apoiar, me estimular e para dizer "vá em frente", e até mesmo gente para, vez ou outra, eu poder procurar e dizer que estava com meus problemas e não estava conseguindo resolvê-los.
Não me sentia sozinho mergulhado em um mundo complicado de se entender. Tive gente como Waly Salomão e Lorenzo Zanetti, por exemplo, que estavam sempre por perto para darem dicas e se, por acaso, eu fosse muito próximo ao abismo, davam um jeito de estenderem suas mãos.
A galera de hoje não é diferente. O pulso deles é forte como o meu em 1993. Os sonhos existem, a vontade e a urgência de conseguirem construir suas vidas é real, mas eles estão sem uma mão especial para, que na hora que se aproximem do abismo, não caiam.

A vontade e a urgência dos jovens de hoje para conseguirem construir suas vidas é real, mas eles estão sem uma mão especial para que na hora que se aproximem do abismo não caiamJosé Junior, coordenador-executivo do AfroReggae, sobre a presença de jovens em contato com crime e violência.
E não dá para ser qualquer mão. Tem que ser uma mão que entenda o movimento e o momento do jovem. É da natureza da idade chegar bem próximo ao abismo. Esse risco cria adrenalina, o mistério cria expectativa, mas o limite do abismo é que começa a ser o problema.
Há muitos jovens caindo no abismo do tráfico, das drogas e do roubo pois, quando se aproximaram do abismo, não tiveram uma mão para segurar firme e evitar a queda.
Tenho a certeza de que hoje a sociedade olha para os jovens, sobretudo negros, pobres e favelados e, de certa forma, lava as mãos e deixa que prossigam em direção às suas quedas, sem uma preocupação real e humana de que podemos e devemos apoiar esses jovens e dar suporte a eles.
Os dados sobre homicídios de jovens no Brasil nos envergonham, mas não constrangem a sociedade a ir para a beira do abismo e erguer um cinturão de proteção.
A grande maioria dos presos brasileiros tem, no máximo, 25 anos e está vivendo sua fase mais criativa encarcerada em cadeias que são um verdadeiro filme de terror.
Tenho a certeza de que hoje a sociedade olha para os jovens, sobretudo negros, pobres e favelados e, de certa forma, lava as mãos e deixa que prossigam em direção às suas quedasJosé Junior, coordenador-executivo do Afroreggae, sobre jovens moradores das periferias
As crianças, adolescentes e jovens estão largando a escola e todo mundo está cuidando de suas vidas, sem perceber que cada dia mais o número de jovens que chegam perto do abismo é maior.
O Brasil precisa ter um compromisso social com seus jovens. Os brasileiros precisam garantir proteção ao jovem, sem querer cortar sonhos e aventuras, e ter a generosidade de estar por perto quando um deles for em direção ao abismo, não para criticar ou para punir, mas para conversar sobre outro caminho possível.
O dia a dia do AfroReggae e o meu circulam em abismos perigosos, em situações difíceis, em histórias pesadas, mas nós vamos lá, pois o que bate na nossa alma é uma enorme vontade de salvar gente que desde que nasceu não conheceu oportunidades, chances ou teve a possibilidade de achar que podia sonhar com um mundo diferente.
Trabalhar no AfroReggae é, sem dúvida nenhuma, estar próximo dos abismos e não ter qualquer restrição de estender a mão e dizer para o jovem que ele pode ter outra história, e que nós queremos e vamos estar ao lado dele para reescrever esta história.
Nestes 21 anos de trabalho, já estive em abismos difíceis. Já salvei muitos da morte, do crime e da violência, mas isso só foi possível pois também fui salvo de quedas lá no passado.
Estou convidando vocês a virem para o AfroReggae, os abismos não param de crescer e está faltando gente para ajudar. E é muito triste perder jovens que caem por falta de apoio, ajuda e compreensão.
Este convite é para já. Pense e aceite. Sua vida vai ser bem diferente quando você descobrir que também pode ser uma mão nos abismos que não param de sugar brasileiros.
publicado: uol.com.br

terça-feira, 17 de junho de 2014

Lei que oficializa Hino à Negritude é sancionada


De autoria do professor Eduardo de Oliveira, o hino foi criado há 70 anos e agora fará parte de cerimônias voltadas à população negra

“Fica oficializado, no território nacional, o Hino à Negritude, de autoria do professor Eduardo de Oliveira”. É o que dispõe a lei nº 12.981/2014, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff no dia 28 de maio. A partir da publicação, o Hino passa a ser entoado em eventos oficiais relacionadas ao tema.

O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados no fim de maio. Na ocasião, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) promoveram um ato em Brasília, para celebrar a conquista.

As muitas tentativas realizadas por Eduardo de Oliveira, ex-membro do CNPIR já falecido, para aprovação do “Hino à Negritude” remontam aos anos sessenta e na homenagem prestada sua execução contagiante dava provas de força e a atualidade.

Para a ministra Luiza Bairros, “vários autores já destacaram o papel que museus, censos e hinos podem cumprir no fortalecimento da identidade nacional. O poeta e professor Eduardo Oliveira, com uma visão pluralista e abrangente, teve a sensibilidade de perceber isso e persistir no reconhecimento de sua valiosa contribuição, durante décadas de ativismo”.

“Pois que as páginas da História/ São galardões aos negros de altivez” são versos do refrão do Hino à Negritude. A homenagem prestada pela SEPPIR/CNPIR ao autor, com a unanimidade de todos os oradores, cumpriu também o papel de reconhecimento público a um “negro de altivez”, a que se destinam as páginas da história.



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Lei de cotas no serviço público entra em vigor

Publicado:Agencia Brasil
Medida sancionada por Dilma foi publicada no Diário Oficial da União desta terça-feira e tem vigência pelo prazo de 10 anos

Já está em vigor a lei que reserva aos negros 20% das vagas de concursos públicos da União. A lei, sancionada pela presidente Dilma Rousseff nesta segunda-feira (10), no Palácio do Planalto, em evento que contou com a presença de personalidades negras, foi publicada no Diário Oficial da União desta terça-feira e tem vigência pelo prazo de 10 anos.

Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Rousseff durante cerimônia de sanção da lei sobre cotas no serviço público federal

No evento dessa segunda-feira, Dilma disse esperar que a medida sirva de exemplo para a adoção de normas similares nos demais Poderes, entes federados e na iniciativa privada.

“Esta é a segunda lei que eu tenho a honra de promulgar com ações afirmativas, para fechar um fosso secular de direitos e oportunidades engendrados pela escravidão e continuados pelo racismo, ainda existente entre negros e brancos em nosso país”, disse, em referência à Lei de Cotas para as universidades federais.

A lei, originada em um projeto do Executivo enviado por Dilma em novembro do ano passado, foi aprovada pelo Senado no último dia 20. Além da administração pública federal, a nova lei se aplica a autarquias, fundações e empresas públicas, além de sociedades de economia mista.

Universidades: MEC espera atingir meta de cotas nas federais antes de 2016

Segundo o texto da lei, poderão concorrer na reserva para candidatos negros todas as pessoas que se autodeclararem pretas ou pardas na inscrição para o concurso público, seguindo o quesito de cor ou raça utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).Os candidatos negros concorrerão concomitantemente às vagas reservadas e às vagas destinadas à ampla concorrência, de acordo com a sua classificação no concurso.

Segundo Dilma, o sistema que está sendo implantado “assegura que o mérito continua a ser condição necessária para ingresso dos candidatos”, sendo que a lei altera “apenas a ordem de classificação, privilegiando os candidatos negros”.

De acordo com a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, a mudança é um passo importante na superação das desigualdades raciais e vai garantir a participação da população negra em funções mais valorizadas. Ela citou como exemplo a Lei de Cotas nas universidades, que determinou que, a partir de 2013, parte das vagas em universidades federais sejam ocupadas por ex-estudantes de escolas públicas, com reserva de vagas para estudantes pretos, pardos e indígenas.

Para Luiza Bairros, depois de garantir que as pessoas que sofrem preconceito pudessem ter mais oportunidades de entrar no ensino superior, era necessário dar condições de acesso a empregos que exigem maior qualificação. “A discriminação é maior quanto mais valorizada é a ocupação, o que nos obriga a tomar dentro do mercado medidas para corrigir esse tipo de distorção”, disse a ministra a Agência Brasil, em entrevista pouco antes da sanção da lei.

Segundo Luiza Bairros, o governo optou pelo envio do projeto com urgência para que a proposta não ficasse parada no Congresso. “Em função de existirem em tramitação várias propostas sobre a população negra e igualdade racial, se deixássemos ao sabor de processo de discussão do Parlamento, poderia demorar”. A ministra espera que o apoio “suprapartidário” que levou à aprovação da lei seja “um indicativo de aceitação que ela tem no conjunto da sociedade brasileira”.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Primeiro negro do STF, Pedro Lessa sofria ataques de Epitácio Pessoa

publicado: folhadesaopaulo.com.br

Se a chegada de um negro à presidência do Supremo Tribunal Federal foi motivo de celebração em 2012, quando Joaquim Barbosa assumiu o cargo, a ascendência negra do primeiro ministro era tabu. O mineiro Pedro Lessa é apontado como o primeiro negro do STF, onde ficou de 1907 a 1921, quando morreu.

O segundo foi Hermenegildo de Barros, ministro de 1917 a 1931. Barbosa, que na semana passada anunciou que vai se aposentar em junho, foi o terceiro a ser ministro, mas o primeiro a virar presidente.

A Folha teve acesso a um baú de cartas de Lessa, sob a guarda da bisneta Lúcia Lessa, 72. Os documentos, inéditos, serão doados à Fundação Casa de Rui Barbosa. Rui Barbosa, que foi seu amigo e o chamava de o "juiz mais completo", enviou telegrama à família na ocasião de sua morte, em 1921. O rascunho da resposta dos parentes estava mantido até hoje em segredo.
Reprodução/STF

Pedro Augusto Carneiro Lessa

Coube ao genro Francisco Solano enviá-la: "Das manifestações que temos recebido, nenhuma nos tocou tão fundo o coração como as palavras de Vossa Excelência, nenhuma honrou mais, nem tanto, a memória do meu sogro".

Há ainda correspondências do Barão do Rio Branco, do romancista Coelho Neto, fundador da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras, do jurista e também imortal Clóvis Beviláqua, de Amadeu Amaral (também da ABL) e do ex-deputado Plínio Barreto.

Nos papéis não há menção à ascendência negra de Lessa, e era proibido falar do assunto na própria família.

O ex-presidente Epitácio Pessoa debochava dos traços negros de Lessa, a quem acusou certa vez de "falar grosso para disfarçar a ignorância com o mesmo desastrado ardil com que raspa a cabeça para dissimular a carapinha".

Só na adolescência suas bisnetas souberam algo a respeito da cor do bisavô. "Uma vez minha irmã perguntou à minha mãe se ele era negro. Minha mãe tentou desconversar. Só com o tempo fomos entendendo isso", conta Lúcia.

No livro "História do Supremo Tribunal Federal", Lessa é descrito pela historiadora Leda Boechat como o primeiro de pele negra a assumir uma cadeira: era, disse ela, um "mulato claro". A questão da cor o levava, mesmo que inconscientemente, a ser ríspido com os colegas.

Em 6 de setembro de 1910, Lessa foi recebido como membro da Academia. Um dia depois, recebeu bilhete de Coelho Neto lamentando ter perdido a posse. Saudou o "formosíssimo discurso" de Lessa, mas confessou que um desarranjo intestinal o "fez perder a admirável festa de seu triumpho": "Foi pena".

A passagem de Lessa pela Academia teve um momento histórico, o famoso discurso de recepção a Alfredo Pujol, em 1919. O poeta Roberto Moreira então enviou-lhe uma carta: "A parte relativa ao Pujol é viva, espirituosa, comovente e justa, nosso amigo teve o elogio que merecia".

RAIO-X
Pedro Lessa (1859-1921)
Nomeado, em outubro de 1907, ministro do Supremo Tribunal Federal. Tomou posse em 20 de novembro seguinte
Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras
Editoria de Arte/Folhapress