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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Um Egito Negro incomoda muita gente

por:Charô Nunes
A lista de mulheres reais egípcias representadas por atrizes brancas é praticamente infindável. Pensemos apenas nas cleópatras desde Helen Gardner, Theda Bara e Claudette Colbert. Passando por Vivien Leigh e Sophia Loren, Lyz Taylor e Monica Bellucci até Kate Perry e agora… Angelina Jolie, que já foi mostrada como uma blackface sempre é bom lembrar. O produtor do filme declarou que a atriz tem o ~visual perfeito~ insistindo na farsa de que Cleópatra era branca. Bastante apropriado agora que foi comprovado que a rainha era de fato ~negra~. Sigamos.

Há quem diga com bastante cinismo que pensar num Antigo Egito Negro é ~tudo confusão com os núbios~, uma civilização negra também próxima ao Nilo. ~Não eram negros, mas brancos de pele morena~. Sim, nesses termos e com essas palavras, pode pesquisar. Parece coisa do século 19 mas não é. Um erro dessa natureza e magnitude não acontece por má fé ou ignorância, só a irresponsabilidade intelectual e o racismo explicam. A proposta aqui é outra, tomar como ponto de partida essencial A origem dos antigos egípcios de Cheikh Anta Diop, texto que integra a coleção História Geral da África(Unesco).

Ali são reunidos relatos dos historiadores clássicos que descreveram um povo negro.Também são mostradas evidências sobre a proximidade entre o antigo idioma egípcio e o walaf, de origem senegalesa e ainda em uso. E o mais importante, Diop explica que os antigos egípcios representaram a si mesmos imagética e literalmente como um povo negro por meio da palavra <3 KMT<3 que significa nada menos que preto como carvão, coisa mais que linda. Daí teria surgido a personagem bíblica de Cam. Apesar de tantas evidências…

Um Egito Negro incomoda muita gente porque a África é um continente de conquistas e feitos, onde se produziu e se produz arte, ciência, tecnologia, filosofia. Porque é fonte de orgulho, de deleite. A solução para esse incômodo foi espalhar por aí que a Antiga Grécia é o berço de nossa civilização, esquecendo que tudo aquilo que os gregos produziram não foi um milagre que aconteceu por geração espontânea. Que é impossível deixar pra lá que a África e em especial o Antigo Egito (que até mesmo para os antigos gregos era uma antiga civilização) tem um papel mais que central nessa estória.

Uma pista muito simples nos oferece a magnitude do problema. Foram os antigos egípcios que inventaram uma das primeiras mídias portáteis do mundo, o papiro. Não por caso Alexandria tinha uma das maiores bibliotecas do mundo antigo. Mas teria sido um grego Calímaco durante uma viagem à cidade egípcia que ~inventou~ o primeiro sistema de catalogação de livros, muito similar ao que é usado pela biblioteca do congresso norte-americano e que foi utilizado por Roma. Mais uma vez, o Egito Antigo Negro e portanto a África tem seu conhecimento extirpado para outro continente e se tornam apenas uma citação. O nome disso pra mim é roubo.

Usurpar patrimônio africano não basta, também é necessário embranquecer seus sujeitos. Tanto na série José do Egito (atualmente em reprise pela Record) quanto em Êxodo: Deuses e Reis as personagens são majoritariamente brancas. Os realizadores são incapazes de reconhecer que todo um complexo sistema de crenças, filosofia, arte, arquitetura, astronomia e medicina são coisas de preto. Qualquer movimento diferente disso, mesmo a simples hipótese de que os antigos egípcios era negros, é vandalismo demais para aguentar.

O que acontece em José do Egito não é nenhuma novidade, o racismo não precisa inventar a roda. As personagens masculinas retratando antigos egípcios quase sempre sãoblackfaces como é o caso do novo Ramsés de Ridley Scott em Êxodo: Deuses e Reis. O ator escalado para o papel é ninguém menos que Joel Edgerton que até onde sei, tem olhos azuis , é loiro. A solução foi reeditar a maquiagem usada pelo russo Yul Brynner emOs dez mandamentos, com muita cobertura de pele para sugerir o bronzeado de quem passa muito tempo tomando sol, jamais um tom de pele indiscutivelmente negro.

Também é esperado que o faraó seja amargurado e invejoso, jamais um grande estadista e estrategista. Contra o único deus possível, à imagem e semelhança de um homem branco, um líder negro se torna herege, um perdedor. Por outro lado, também é quase certeza que a educação egípcia de Moisés seja menosprezada, algo que está em completa oposição ao deus verdadeiro. As entidades egípcias e sua influência precisam ser destruídas, pelo menos em tese, para que apareça um novo deus em quem se pode acreditar.

Para Hollywood também é perfeitamente possível que a realeza egípcia seja branca, enquanto assassinos, ladrões e populares são negros, vide Êxodo: Deuses e Reis. O que está por trás dessa manobra é a ideia racista de que a nobreza egípcia não poderia ser africana mesmo que inexistam evidências de que a origem desses indivíduos, nobres ou plebeus, esteja fora da África. Aliás, ainda que se reconheça que nessa sociedade pessoas de diferentes tons de pele conviveram, não há registros de que houvesse qualquer segregação motivada pela cor da pele.

As antigas mulheres egípcias são todo um caso a parte, tanto no cinema e na televisão. Sempre muito brancas, de acordo com um padrão de beleza racista, delicado como porcelana. No contexto de uma civilização do deserto, a sugestão sexista é a de que o território da mulher não a cidade como acontece com muitas personagens femininas deJosé do Egito. Também é comum que seu papel político seja diminuído à intrigas motivadas pelo amor e pela paixão ao exemplo de Nefertari em Os dez mandamentos. Uma das maiores rainhas egípcias parece não ter nada mais a fazer do que sentir ciúmes de Moisés.

Para Ridley Scott, a rainha negra que adotou Moisés (Tuya) é a atriz Sigourney Weaver. Antes que me digam que estou de implicância, até mesmo a Disney Dreamworks a retratou como negra. O recado de Hollywood é cristalino – não há espaço para todas as atrizes como Viola Davis cuja atuação provocaria lágrimas e ranger de dentes mas seria fundamental para o empoderamento de mulheres negras como eu e você que também somos deusas e rainhas. Na verdade não precisamos pensar muito. Termino com a lembrança e a ótima sensação proporcionada pela Cleópatra interpretada por Gina Torres em Xena.
Referências
História Geral da África, Unesco
Cleópatra era descendente de africanos
Hollywood likes to pretend that ancient Egypt was full of white people
Hermes the Egyptian, the impact of Ancient Egypt on Greek Philosophy against Hellenocentrism, against Afrocentrism in defence of the Greek Miracle
Ancient Libraries of Greece and Rome

Charô Nunes
Olá, meu nome é Charô, escrevo sobre cultura e sociedade no blog Indigestivos Oneirophanta.

domingo, 17 de agosto de 2014

A História da África nos bancos escolares.

Representações e imprecisões na literatura didática 
*por Anderson Ribeiro Oliva

  A aprovação da lei 10639/03, que tornou obrigatório o ensino da História da África e dos afrodescendentes, gerou nos meios escolares e acadêmicos algumas inquietações e muitas dúvidas. Como ensinar o que não se conhece? Para além das interrogações, a lei revela algo que os especialistas em História da África vêm alertando há certo tempo: “esquecemos” de estudar o Continente africano. A partir dessas constatações, o presente artigo tem como objetivo maior analisar a forma como a História da África e os africanos foram representados em um dos poucos livros didáticos de História elaborados no país que abordam a África com um capítulo específico. As muitas críticas e curtos elogios devem ser entendidos não como desconsideração ao trabalho do autor, mas como um alerta: devemos voltar nossos olhares para a África, pela sua relevância incontestável como palco das ações humanas e pelas profundas relações que guardamos com aquele Continente por meio do mundo chamado Atlântico. Não costumo iniciar minhas reflexões com perguntas diretas, já que as mesmas exigem respostas diretas. E efetivamente esta não é uma qualidade que carrego. Porém, neste momento, é difícil encontrar outra forma de chamar a atenção do leitor, provavelmente professor de História. Por isso vamos a ela: “O que sabemos sobre a África?” 
Talvez as respostas sofram algumas variações, na densidade e na substância de conteúdo, dependendo para quem ou onde a pergunta seja proferida. Acredito, no entanto, que o silêncio ou as lembranças e imagens marcadas por estereótipos preconceituosos vão se tornar ponto comum na fala daqueles que se atreverem a tentar formular alguma resposta. Atrevimento sim! Quantos de nós estudamos a África quando transitávamos pelos bancos das escolas? Quantos tiveram a disciplina História da África nos cursos de História? Quantos livros, ou textos, lemos sobre a questão? Tirando as breves incursões pelos programas do National Geographic ou Discovery Channel, ou ainda pelas imagens chocantes de um mundo africano em agonia, da AIDS que se alastra, da fome que esmaga, das etnias que se enfrentam com grande violência ou dos safáris e animais exóticos, o que sabemos sobre a África? Paremos por aqui. Ou melhor, iniciemos tudo aqui.

sábado, 19 de julho de 2014

RUANDA:O genocídio programado e a cegueira internacional

RUANDA


publicado: diplomatique.org.br


Os indícios de que uma solução final estava sendo planejada eram claros já em 1993. Mesmo assim, a comunidade internacional fechou os olhos, manteve o apoio ao regime responsável pelo genocídio e retirou a força de paz da ONU durante os massacres
por Colette Braeckman

Um milhão de mortos em cem dias sem o mundo ficar sabendo de nada? Desde a independência, em 1962, quem se interessava por Ruanda sabia que o fogo não estava extinto. Ainda em 1959, os hutus,1 apoiados pelos belgas que apostaram no fato de serem eles a maioria étnica, expulsaram do país mais de 300 mil tútsis. Desde outubro de 1990, data da entrada na guerra da Frente Patriótica Ruandesa (FPR) – organização político-militar que lutava pelo retorno dos exilados e cujos membros, refugiados em Uganda, se expressavam em inglês –, cada investida dela significava novo massacre de tútsis.

Em agosto de 1993, por pressão dos investidores, foram assinados acordos de paz em Arusha, na Tanzânia. Previam a organização de um governo de transição, no qual a FPR seria representada ao lado da oposição política, com a garantia de uma força de paz da ONU. Na época, só os diplomatas estrangeiros se mostraram otimistas, e a tal ponto que os países membros do Conselho de Segurança consideraram suficiente dotar Ruanda de um destacamento de 2.548 homens (em vez dos 4.500 reivindicados pelo general canadense Romeo Dallaire, comandante da Missão das Nações Unidas em Ruanda – Minuar), e limitar sua ação ao capítulo VI da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força. É verdade que Ruanda, país pobre e aparentemente desprovido de interesse estratégico, sofreu o contragolpe da derrota dos Estados Unidos, alguns meses antes, na Somália, e ninguém, exceto os belgas e os franceses, queria realmente se comprometer.2

Indicadores preocupantes

No entanto, não faltavam indicadores preocupantes: em julho de 1993, os radicais do regime tinham-se cotizado para lançar a Rádio e Televisão das Mil Colinas, que criticava os acordos de paz e transmitia propaganda rancorosa contra a FPR, os tútsis em geral e o contingente belga, acusado de parcialidade a favor da FPR. A partir de fevereiro de 1993, dezenas de milhares de jovens hutus foram recrutados e, em campos que podiam ser vistos da estrada, foram treinados no manejo de armas de fogo e facões. Como os cooperantes militares belgas e franceses, que mantinham seus governos informados do menor movimento de tropas, poderiam ter ignorado essa mobilização?
Nessa mesma época, créditos concedidos pelo Banco Mundial foram desviados para comprar armas de fogo e enxadas. Graças aos fundos avalizados pelo Crédit Lyonnais, o Egito efetuou várias remessas de armas e munições. Em outubro de 1993, no Burundi, o assassinato, por militares tútsis, de Melchior Ndadaye, presidente hutu legalmente eleito, contribuiu para agravar a tensão em Ruanda.
Em janeiro de 1994, as desconfianças transformaram-se em certeza, quando um informante confirmou à Minuar que todos os tútsis haviam sido devidamente recenseados. Descreveu o treinamento dos interhahamwe (os que matam em conjunto), a formação de depósitos de armas e munições, e forneceu a prova de suas declarações ao conduzir os capacetes azuis a um subsolo, na sede do partido presidencial, transformado em esconderijo de armas. Enfatizou também as ameaças que pesavam sobre os capacetes azuis belgas.

Mas o telegrama em código que o general Dallaire enviou a Nova York em 15 de janeiro, pedindo autorização para desmantelar os esconderijos de armas, não obteve a resposta esperada: o Departamento de Operações de Manutenção da Paz, dirigido na época por Kofi Annan, proibiu qualquer ação.3 No máximo, os embaixadores ocidentais apresentaram o problema ao presidente Juvenal Habyarimana, e este, embora negando a realidade dos fatos..., fez com que fossem distribuídas armas em todas as comunas do país.

Início do genocídio

Apesar das advertências formuladas em fevereiro, em Kigali, por Willy Claes, ministro belga das Relações Exteriores; apesar do assassinato de Félicien Gatabazi, ministro de Obras Públicas e dirigente do Partido Social-Democrata; apesar da correspondência endereçada ao general Dallaire por vários oficiais superiores, denunciando um “plano maquiavélico”; e apesar da multiplicação dos atentados e do crescimento, quase tangível, da violência, nada mudou. O mandato da Minuar não foi modificado, e o Conselho de Segurança contentou-se, em 17 de fevereiro, em expressar sua “preocupação”.

Em 6 de abril de 1994, o atentado contra o avião do presidente Habyarimana (cujos autores e mandantes não foram identificados até hoje) marcou o início do genocídio. Uma campanha de assassinatos programados, visando personalidades hutus moderadas e simples cidadãos tútsis – operação planejada durante meses e rigorosamente executada – foi apresentada como “a expressão da cólera popular” em consequência da morte do chefe de Estado. Nesse momento, as forças da ONU estavam dispersas pelo país, faltavam munições e efetivos e, quando o general Dallaire e seu adjunto Luc Marchal foram informados, na manhã de 7 de abril, que dez capacetes azuis belgas, encarregados da proteção do primeiro-ministro, estavam em dificuldade em Kigali, nem foi colocada a questão de ir em seu socorro.

Enquanto os cadáveres eram recolhidos pelos caminhões da limpeza pública, as equipes de matadores percorriam a cidade e o general Dallaire pedia reforços; tratava-se sobretudo de evacuar os estrangeiros. Com esse objetivo, os franceses despacharam 450 homens, os belgas enviaram 450 paraquedistas e 500 outros ao Quênia, 80 italianos se juntaram à operação, enquanto 250 rangers norte-americanos se instalaram no Burundi. Se tivessem juntado seus esforços aos da Minuar, essas tropas ocidentais provavelmente teriam conseguido deter os massacres em Kigali, silenciar a rádio extremista e impor um cessar-fogo. Mas, por ordem de seus governos, essas forças limitaram-se à missão de retirada dos cidadãos estrangeiros, abandonando os civis tútsis, inclusive casais mistos, funcionários de embaixadas, dentre os quais o pessoal do Centro Cultural francês, e dezenas de tútsis que tinham procurado a proteção da ONU. Os capacetes azuis também foram abandonados à sua sorte. Por ordem do presidente François Mitterrand, os franceses cuidaram, no entanto, de retirar a viúva do presidente Habyarimana, que pertencia ao clã dos radicais, e transportar para local seguro algumas personalidades do regime.

“Genocídio”: termo proibido

Ruanda não estava ainda no extremo abandono: em 12 de abril, o ministro Willy Claes, traumatizado pelo assassinato dos dez capacetes azuis, anunciou ao secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, que o contingente belga da Minuar ia ser retirado, e lançou-se numa ação diplomática para persuadir outros países a fazer o mesmo.

Justamente nessa época, o representante de Ruanda, ligado aos extremistas, tinha assento no Conselho de Segurança como membro não permanente; representantes de seu governo eram recebidos oficialmente em Paris, e a França, através de Goma (na República do Congo), ao norte do Lago Kivu, continuava sua remessa de armas. Quanto aos norte-americanos e aos britânicos, foi com empenho que se opuseram ao reforço dos efetivos da Minuar, como se a única urgência fosse nada fazer. A secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, cuidou de proibir o uso do termo “genocídio”, pois este tem como consequência a obrigação de intervenção e, no final de abril, Boutros Boutros-Ghali ainda falava de “guerra civil”. Em 21 de abril, a resolução 912 do Conselho de Segurança optou por uma redução da força da ONU em Ruanda, que passaria a contar com menos de 500 capacetes azuis. Estes estavam desprovidos de alimentos, de munição, de veículos e até de água potável, impotentes para ir em socorro dos civis que clamavam por proteção ou assistência, ainda que tenham realizado com coragem e êxito numerosas operações de retirada da população.

Quando a imprensa se interessou por Ruanda, foi para filmar, a partir de Uganda, os corpos que boiavam no Lago Vitória, ou para seguir o êxodo em massa de hutus que, concluído o crime, fugiram para a Tanzânia para escapar de represálias.

Intervenção francesa

Bem antes, Philippe Gaillard, dos Médicos sem Fronteiras, e em nome da Comissão Internacional da Cruz Vermelha – cuja direção e doentes foram massacrados em Butare4 – assim como o próprio general Dallaire, multiplicaram depoimentos comoventes e pedidos de ajuda. Foi preciso esperar até 11 e 12 de maio para que o comissário da ONU para Direitos Humanos, José Ayala Lasso, presente no local, utilizasse afinal o termo genocídio. Nesse momento, a imprensa, em sua grande maioria, ainda falava em “massacres interétnicos”, em “lutas tribais”. Enquanto a matança era encomendada e organizada pelo governo provisório empossado após a morte de Habyarimana, Ruanda era descrito como um “Estado em falência”, mergulhado numa espécie de anomia bárbara. Como se fosse preciso a qualquer preço transpor o clichê da Somália para esse país muito hierarquizado, no qual os cidadãos têm o hábito de obedecer às ordens vindas de cima...

Só em junho é que a tragédia começou a comover a opinião pública. O Conselho de Segurança, apesar da oposição norte-americana, acabou por votar a favor de uma Minuar 2 reforçada, mas a ONU não encontrava nem os homens, nem o dinheiro, necessários para organizar essa missão. Os Estados Unidos, consultados para fornecer veículos e blindados, queriam ser pagos previamente... Quanto à FPR, ela avançava lentamente, com mais determinação para Kigali, acuando seus adversários e as vítimas destes. Considerava que uma intervenção estrangeira seria inútil naquele momento, não somente porque a maioria dos tútsis já estava morta, mas sobretudo porque não pretendia ver a vitória lhe ser usurpada. Foi então que a França tomou a dianteira: em 22 de junho, obteve do Conselho de Segurança a autorização para lançar uma operação apoiada pelo capítulo 7, que autoriza o recurso à força.

Se era tarde demais para salvar centenas de milhares de civis desaparecidos durante as primeiras semanas do genocídio, e se somente 10 a 15 mil pessoas puderam ser recolhidas nos campos de Nyarushishi e Bisesero, ainda era possível tentar salvar a posição do governo interino. Este recebeu os franceses com entusiasmo, esperando que a Operação Turquesa impedisse o avanço da FPR e impusesse uma negociação na base de uma partilha do território. Mas o avanço rápido das tropas da FPR e, finalmente, a comoção da opinião pública conseguiram dividir o governo francês. Contra os militares que queriam “quebrar as pernas da FPR” e não escondiam sua solidariedade com seus ex-irmãos de armas hutus “francófonos”, que eles formaram e equiparam, o primeiro-ministro Edouard Balladur decidiu reduzir as ambições dos militares da Operação Turquesa. Obrigados a entrar em contato com a FPR, os militares franceses tiveram que se contentar em criar, no oeste do país, uma “zona humanitária segura” para a qual convergiram todos os grupos extremistas, assim como o governo interino, abrangendo dessa forma milhões de civis hutus.

Impunidade dos responsáveis pelo genocídio

Nessa zona, os franceses foram impotentes para impedir inúmeros massacres, mas recusavam-se a desarmar militares e milicianos. Deixaram de prender os responsáveis pelo genocídio que, em seguida, se refugiaram no Zaire (atual República Democrática do Congo), e não proibiram as transmissões rancorosas da Rádio das Mil Colinas. Os franceses, que trouxeram helicópteros de combate, aviões Jaguar e Mirage, uma centena de blindados e morteiros, mas muito poucos caminhões e medicamentos, viram-se impotentes diante da epidemia de cólera que se iniciou em Goma e atingiu mais de 40 mil refugiados hutus.

Nesse momento, atraída ao local pela presença francesa, pelas facilidades de comunicação e finalmente sensibilizada pela tragédia ruandesa, a imprensa compareceu e as associações humanitárias também. O novo poder instalou-se num verdadeiro deserto: os funcionários do Estado fugiram, levando dossiês, veículos e depósitos bancários. Trezentos mil órfãos vagavam pelo país. Mas a comunidade internacional mostrou-se contrária à intervenção e à ajuda à FPR, uns denunciando o “duplo genocídio”, outros exigindo que o regime desse “garantias de reconciliação”, enquanto os corpos ainda jaziam nas valas.

Na realidade, apesar de suas boas relações com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, a FPR pagava o preço por ter conquistado o poder num país francófono, sem a aprovação das ex-potências coloniais.

Luta entre anglófonos e francófonos
A presença nos campos de Kivu de mais de 2 milhões de refugiados hutus, cercados pelos autores do genocídio e alimentados pela ajuda humanitária, iria por muito tempo desestabilizar a região. Em outubro de 1996, depois de ter pedido em vão ao Alto Comissariado para os Refugiados (Acnur) e às outras agências da ONU para afastar da fronteira de seu país a ameaça que esses campos representavam, Paul Kagame, que dirigia a FPR, lançou uma ofensiva destinada a obrigar o retorno dos refugiados ruandeses e a dispersar os outros através do imenso Zaire (que em seguida se tornou República Democrática do Congo).

Impotente para evitar um genocídio programado e anunciado, a comunidade internacional assistia a um novo episódio da tragédia: depois de sete meses, o marechal Josef Désiré Mobutu, apoiado até o fim pelos franceses, foi derrubado por Laurent Désiré Kabila e seus aliados ruandeses e ugandenses. Até que, em 1998, começou uma nova guerra, continuando os ruandeses na perseguição dos interhahamwe em fuga e, de passagem, pilhando, com seus aliados ugandenses, os recursos do Congo. Ao milhão de mortos do genocídio iriam se juntar mais de 3 milhões de vítimas congolesas, elas também esquecidas, presas na armadilha da guerra, da pilhagem dos recursos naturais e de uma surda luta de influência entre francófonos e anglófonos, visando o controle do coração da África.

Colette Braeckman

jornalista, Le Soir (Bruxelas).

1Hutus, grupo pastoril e guerreiro que compartilha com os tútsis os territórios africanos do Burundi e de Ruanda.

2Lynda Melvern, A People Betrayed: The Role of the West in the Rwanda’s Genocide, Zed books, Londres, 2000; e Gérard Prunier, Histoire d’un génocide, edições Dagorno, 1997.

3Romeo Dallaire, J’ai serré la main du Diable: La faillite de l’humanité au Rwanda, La Libre Expression, Montreal, 2003.

4Allison Desforges, “Aucun témoin ne doit survivre: Génocide au Rwanda”, relatório redigido por Human Rights Watch, Federação Internacional dos Direitos Humanos, Paris, 1999.

Publicado originalmente em 1º de abril de 2004.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

OS NEGROS, A CIDADANIA, A ECONOMIA E A ESCRAVIDÃO. PARA NÃO ESQUECER


DAVIS SENA FILHO
publicado:brasil247.com

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus

Tem um pensamento que eu gosto muito. Mais do que gostar, eu acredito neste pensamento, porque, para mim, ele significa a verdade. "Raça não existe; o que existe é a espécie humana". Quando o homem, ou melhor, a humanidade se organizou em sociedades. Quando ela passou a dominar a agricultura e, conseqüentemente, construir cidades para alojar milhares ou milhões de pessoas, a luta pelo controle político e pela hegemonia econômica recrudesceu. Desta luta deriva todo tipo de preconceito, inclusive o pior deles: o racismo.

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus. O racista nega a vida e reafirma a indiferença, a desigualdade social e a violência. A pobreza material de grande parte dos povos da África negra e do povo brasileiro é intrínseca ao racismo. Eu quero afirmar, sem dúvida alguma, que a miséria material do nosso povo tem como raiz o racismo. Este sentimento, além de ser comportamental e cultural, o é também de fundo econômico, o que o torna intolerável para as pessoas civilizadas e de filosofia humanista e democrática.

Quando os ancestrais do povo brasileiro foram escravizados em um tempo de cinco séculos pelas potências colonialistas, o trabalho humano escravo foi visto como solução para que os colonizadores europeus pudessem ocupar os territórios por eles conquistados, além de desenvolver suas economias e, por conseguinte, disputar o mercado, em seus diferentes setores, pois a corrida pela hegemonia econômica e militar se encontrava em um processo de disputa entre a Inglaterra, a França, a Espanha, a Holanda e Portugal, dentre outros países, que buscavam riquezas, com o objetivo de colonizar terras e dominar os oceanos.

Com a explosão demográfica no continente europeu e o fim da Idade Média, considerada a era mais sombria das sociedades ocidentais, iniciou-se o ciclo das grandes navegações. Historiadores afirmam que foi a opção e a realidade encontrada pelos governos das potências européias, para que a Europa não sucumbisse economicamente e seus povos não ficassem sem espaço para desenvolver suas atividades econômicas, principalmente a agricultura, razão pela qual foi efetivado o sistema de escravidão, com a cumplicidade entre os europeus e suas diversas nacionalidades, com apoio, inclusive, da Igreja da época, bem como de agentes africanos que participavam do tráfico negreiro.

A escravidão de africanos começou no Brasil ainda em meados do século XVI. Duarte Coelho, donatário da Capitania Hereditária de Pernambuco, solicitou, em 1539, ao rei de Portugal a isenção de impostos de "peças" africanas. As "peças", na verdade, eram os escravos. Grandes extensões de terras e agricultura baseada na monocultura de cana-de-açúcar, que propiciou ao Brasil colonial o Ciclo do Açúcar, foram as primeiras razões dos colonizadores para que o comércio de homens, mulheres e crianças negros se perpetuasse até o ano de 1888, quando oficialmente foi abolida a escravidão no Brasil.

O tráfico de escravos foi um comércio tão lucrativo que somente acabou em âmbito mundial em 1865. A partir deste ano, o Brasil se tornou o único no mundo ocidental a possuir escravidão institucionalizada. Essa realidade impedia a chegada de imigrantes que preferiam outros países das Américas. Enquanto o mundo se transformava por meio da revolução industrial, as nossas elites, principalmente os cafeicultores paulistas, insistiam, teimavam com o sistema de escravidão, o que prejudicou, sobremaneira o Brasil nos fóruns internacionais, bem como a sua economia, que, baseada na mão-de-obra escrava, não conseguia competir, satisfatoriamente, com os países, inclusive muitos da América do Sul, que pagavam salários aos trabalhadores, principalmente aos imigrantes europeus que tinham conhecimento técnico para exercer suas funções nas fábricas e no campo.

O Brasil foi o último País a dar fim ao comércio de escravos, além de Cuba, que, apesar de ter escravidão em seu território, a ilha caribenha era usada mesmo como entreposto de escravos, que eram distribuídos pelo Caribe, América do Norte e América Central. Países escravagistas como a Inglaterra, a França, a Espanha e a Holanda tinham grandes interesses econômicos nessas regiões. A presença da Espanha na América do Sul também era muito forte, bem como Portugal, pequeno país ibérico, mas que se tornou potência marítima, que, através do tempo, transformou o Brasil colonizado por ele em um País continental.

A escravidão dos negros africanos era uma escravidão essencialmente mercantilista. Sempre houve escravidão no mundo. A humanidade sempre pecou no que concerne a explorar à própria humanidade. Os países muito antigos, as sociedades antigas, os do tempo de Jesus Cristo e os de tempos anteriores ao do Filho de Deus escravizavam, mas, geralmente, eram troféus, os quinhões dos vencedores de guerras. Eram militares e civis que perderam guerras e pagaram com o preço alto da escravidão.

Por seu turno, a escravidão dos negros não tinha razões outras que não apenas a comercialização de seres humanos, por cerca de 400 anos, no mundo ocidental, que já tinha passado pelo Renascimento e se preparava para entrar no mundo moderno, que se iniciou, primeiramente, com as grandes navegações. O sentimento, realmente, é de vergonha. Não minha vergonha, não sua vergonha, não a vergonha dos milhões de negros brasileiros, mas daqueles que enriqueceram e conquistaram terras com a morte e a escravidão de milhões e milhões de homens e mulheres, que morriam nos navios negreiros, em cerca de 40%, vítimas de maus tratos, de todo tipo de doença, além de serem jogados aos mares, como punição ou por causa da fiscalização do exército e da marinha ingleses, cujo governo, no ano de 1806 para 1807, decidiu dar fim ao tráfico de escravos. A Inglaterra era a potência mundial daquela época.

Portugal, que edificou uma nação importante em termos mundiais na América do Sul, foi o maior mercador de escravos de todos os tempos, no que tange aos interesses especificamente comerciais e econômicos. O Brasil, além de ser o último País a libertar os escravos, foi também o destino de três milhões e 600 mil escravos, dos dez milhões que chegaram vivos e foram trazidos para as Américas. Como se percebe, o Brasil, nos séculos da escravatura, foi responsável por 36% de todo comércio escravagista em âmbito mundial. São realmente números assombrosos.

A escravidão dos negros foi e ainda o é a maior diáspora da história da humanidade. Se a comunidade negra internacional fosse rica e controlasse as mídias, a imprensa comercial e privada, os bancos e as terras evidentemente que essa dolorosa história nunca deixaria de ser comentada, nunca seria esquecida, bem como o genocídio dos índios de todas as Américas nunca ficaria relegado a um segundo plano. Como se observa, a divulgação política da escravidão e dos massacres e genocídios dos negros e dos índios são também questões econômicas e financeiras, além de morais e de justiça, que nunca foi feita, e considero que nunca o será.

Os escravocratas nunca ganharam tanto dinheiro. A comercialização de pessoas era mais lucrativa do que a estratificação, a agricultura, a pecuária e a pesca. A indústria praticamente não existia, porque começou a se desenvolver na segunda metade do século 19, quando a Inglaterra começou — por questões econômicas e não morais —, que isto fique registrado, a perseguir e a afundar navios, boicotar economias e agredir militarmente os países que insistiam em traficar seres humanos com finalidade comercial. Era o início da industrialização, quando surgiu, de forma incipiente, a classe operária, melhor qualificada, sem direitos trabalhistas, contudo, assalariada, valores baixíssimos, trabalhadores explorados, porém, reitero, assalariados.

Os negros africanos, cujos filhos e descendentes são brasileiros, desembarcavam nos portos da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Depois da chegada, eles eram espalhados, "distribuídos" por todo o País. Trabalhavam na mineração, na lavoura, na pecuária, nas instituições governamentais, nas ruas e nas casas residenciais. Eles estavam presentes no dia a dia da vida brasileira e ajudaram, indubitavelmente, a construir o Brasil de hoje, País que tem um PIB de R$ 3,675 trilhões, segundo o IBGE, e que atualmente tem influência planetária. Sem sombra de dúvida, a plural e multirracial sociedade brasileira deve muito aos homens e mulheres negros que trabalharam, arduamente, sendo que milhares pagaram com a própria morte, como vítimas que foram da terrível e inominável escravidão.

Os negros, os cidadãos negros foram heróis da Guerra de Canudos e da Guerra do Paraguai e não receberam retorno algum, a não ser o abandono do estado e da sociedade brasileiros. Foram morar nos morros da Favela e da Providência, as primeiras favelas deste País. As desigualdades sociais são gritantes. A miséria e a pobreza, históricas, são a razão da prostituição, do tráfico e da violência. São essências da degeneração familiar e, consequentemente, da sociedade.

Os negros, observemos, pertencem às camadas mais pobres da sociedade brasileira, as que estão em risco constante de ser vítimas de todo tipo de miséria humana e de ignorância. O ignaro é mais perigoso que o marginal, porque ele é parte de milhares, quiçá milhões, e por isso se anulam as condições para que as nossas cidades e o País se desenvolvam, de maneira equânime, justa e democrática. Não há paz se não existir justiça social. Os governos, em todas as esferas, têm de deixar de ser patrimonialistas. O estado tem de ser devolvido ao povo e não continuar a servir à pequena parcela da sociedade, que há séculos confunde e mistura os interesses do estado com os interesses privados — particulares. É uma luta árdua, perene e constante.

Os governos trabalhistas de Lula e agora o de Dilma Rousseff têm lutado e conseguido mudar o quadro social e econômico das classes sociais carentes e populares. É uma revolução da grandeza da que o presidente Getúlio Vargas realizou em 1930 e depois em 1950, quando o Brasil deixou de ser rural e passou a ser urbano, por meio da industrialização, da organização do serviço público de forma centralizada, em âmbito federal, e da criação de meios de fiscalização das receitas públicas, bem como dos serviços de arrecadação de tributos do estado nacional, além da criação de estatais como a CSN, a Vale do Rio Doce (os neoliberais só querem chamá-la de Vale) e a Petrobras.

Os programas de Lula incluíram 42 milhões de brasileiros na classe média (quase a população da Argentina) e tiraram 36 milhões da pobreza. E grande parte dessa gente brasileira, caro leitor, é formada por brasileiros de etnia negra. É uma revolução ou não é? Só para ficar nisso, porque esse governo trabalhista fez muito mais, como, por exemplo, fortalecer nosso mercado interno ao ponto de o Brasil praticamente não sentir a crise econômica e financeira que aconteceu no mundo em 2008, apesar de a imprensa de negócios privados não reconhecer e por isso mentir e manipular, porque a verdade é que ela se tornou porta-voz dos trustes internacionais e nacionais, ponta-de-lança dos interesses da classe social que habita o pico da pirâmide social, além de se transformar em um partido de direita — o Partido da Imprensa. Se há alguma dúvida, basta pesquisar para confirmar o que eu afirmo e o que eu escrevo nesta tribuna chamada Palavra Livre.

O estado democrático de direito, conforme reza a Constituição de 1988, é o agente que determina as políticas públicas, no que é relativo à saúde, à educação, à moradia, à segurança e à luta para favorecer a distribuição de renda e a geração de empregos. Todas essas coisas boas são desejos dos brasileiros, principalmente os negros e os índios que ainda não foram resgatados historicamente e socialmente. O Brasil tem de continuar a ser dos brancos, dos amarelos, dos vermelhos e dos negros. Contudo, sabemos que a grande parcela negra da população tem de ser ouvida por todos os segmentos da sociedade, bem como ser alvo de políticas públicas positivas que garantam a inclusão dos negros (e também dos índios) no mercado de trabalho e nas escolas.

Até hoje, em pleno século 20, parte significativa do povo brasileiro não tem acesso a benefícios sociais e ao direito de ter uma vida de melhor qualidade. Os negros continuam a ter os piores empregos, a morar nas periferias, nas favelas, nas comunidades pobres. Seus empregos são os mais insalubres, os mais perigosos e mal pagos. Continuam a ser vítimas do pior sentimento dentre os piores sentimentos que é o racismo, porque, como cidadão negro, ele é medido por sua cor, por seu cabelo, por suas características físicas e não pela sua conduta, pela sua competência, pelo seu caráter, digo melhor, bom caráter, pelo seu coração. Os indivíduos são pertencentes à espécie humana. Raça é terminologia superada, que somente os desinformados, os ignorantes, os preconceituosos e os racistas insistem em assim se comportar. Comportar-se mal.

É um direito inalienável do homem e da mulher, independentemente de sua origem e cor, ter suas cidadanias ratificadas e reiteradas pelo estado e pela sociedade a qual pertencem. Ser cidadão não se reduz a pagar impostos. Ser cidadão é também saber de seus direitos e, dentre um elenco de direitos, é não ser humilhado ou esquecido ou relegado por sua condição social e por sua cor de pele e etnia. Os negros estão para sempre, eternamente, na história do Brasil e do seu povo. Ele é parte dele. Ele é o povo, e o Brasil é de todos e para todos os brasileiros.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um herói a ser seguido - Steve Biko

Stephen Bantu Biko (18 de dezembro de 1946 - 12 de setembro de 1977) era um ativista anti-apartheid da África do Sul na década de 1960 e 1970.
    Líder estudantil, fundou o Movimento da Conciência Negra (Black Consciousness Movement), que capacitava e mobilizava grande parte da população negra urbana. Desde sua morte sob custódia da polícia, ele foi chamado de mártir de um movimento anti-apartheid. Enquanto vivia, seus escritos e ativismo tentou capacitar as pessoas negras, e era famoso por seu slogan "black is beautiful", que o próprio descreveu como: "você está bem como você é, comece a olhar para si mesmo como um ser humano".

    Mesmo que Biko nunca tenha sido um membro do Congresso Nacional Africano (ANC), foi incluído no panteão dos heróis de luta, indo tão londe como a utilização de sua imafem para cartazes de camapanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse a respeito de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid".

    Mesmo que Biko nunca foi membro do Congresso Nacional Africano (ANC), ANC incluiu-o no panteão dos heróis de luta, indo tão longe como a utilização de sua imagem para cartazes de campanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid."

    Stephen Bantu Biko é filho de Mzingayi Mathew e Alice 'Mamcete' Biko, nascido em Ginsberg Township, na atual província do Cabo Oriental da África do Sul. Seu pai era funcionário do governo, enquanto sua mãe fez o trabalho doméstico em casas de brancos. O terceiro de quatro filhos, Biko cresceu com sua irmã mais velha, Bukelwa; seu irmão mais velho, Khaya; e sua irmã mais nova, Bobandile. Em 1950, com 4 anos, Biko sofreu a perda de seu pai, que estava estudando direito.

    Steve era um Xjosa. Além de Xhosa, ele falava fluênte inglês e africâner. Quando criança, ele estudou na Brownlee Primary School e Charles Morgan Higher Primary School. Foi enviado para Lovedale High School em 1964, um internato de prestígio em Alice Eastern Cape, onde seu irmão mais velho, Khaya, anteriormente havia estudado. Durante a era do apartheid, sem liberdade de associação protetora para Sul-africanos não-brancos, Biko foi expulso de Lovedale por suas opiniões políticas,e seu irmão foi preso por sua suposta associação com Poqo (agora conhecido como Azaniam People's Liberation Army). Depois de ser expulso, se formou mais tarde na St. Francis College, uma instituição católica romana em Miriannhill, Natal.

    Ele estudou para ser médico na Universidade Médica de Natal.

    Biko se casou com Ntsiki Mashalaba em 1970. Eles tiveram dois filhos juntos: Nkosinathi, nascido em 1971, e Samora.

    Ele também tinha dois filhos com a Dra. Mamphela Ramphele, uma ativista de destaque dentro do BCM: a filha, Lerato, nascida em 1974, que morreu de pneumonia quando ela tinha apenas dois meses de idade, e um filho, Hlumelo, que nasceu em 1978 após a morte de seu pai.

    Biko também teve uma filha com Lorraine Tabane, chamada Motlatsi, nascida em maio de 1977.

    Ele foi envolvido com a multirracial União Nacional dos Estudantes Sul-Africanos, mas depois que se convenceu que era negro, decidiu que precisava de uma organização própria, e ajudou a fundar a Organização dos Estudantes Sul-Africanos (SASO), cuja ageda incluiu auto-suficiência política e da inificação de estudades universitários em uma "conciência negra". Em 1968, Biko foi o primeiro presidente negro eleir. SASO evoluiu para o Movimento de Conciência Negra influente (BCM) e também estava envolvido com a Federação Mundial dos Estudantes Cristãos.

    No início de 1970, Biko tornou-se uma figura-chave no momento Durban. Em 1972, ele foi expulso da Universidade de Natal por causa de suas atividades políticas e tornou-se presidente honorário da Convenção do Povo Negro. Ele foi "banido" pelo governo do apartheid em fevereiro de 1973, ou seja, ele não estava autorizado a falar com mais do que uma pessoa, impossibilitando assim que ele falasse em público, era restrito à cidade distrito judiciário do Rei William e não poderia escrever publicamente ou falar com a mídia. Também foi proibido citar qualquer coisa que ele disse, incluindo discursos ou conversas simples.

    Quando Biko foi "banido", o seu movimento dentro do país estava restrito ao Cabo Oriental, onde ele nasceu. Depois de voltar paralá, ele formou uma série de organizações de base com base na noção de auto-suficiência: Zanempilo, o Fundo Fiduciário Zimele (que ajudou a apoiar ex-presos políticos e suas famílias).

    Apesar da representação do governo do apartheid, Biko e o BCM desempenharam um papel significativo na organização dos protestos que culminou com a Revolta de Soweto de 16 de junho de 1976. Na sequência da revolta, que foi recebido som uma mão pesada pela força de seguranaça, as utoridades começaram a alvejar Biko ainda mais.

    Em 18 de agosto de 1977, Biko foi preso em uma barreira policial e interrogado por oficiais da polícia. Esse interrogatório ocorreu na sala de polícia 619 do Edifício Sanlam em Port Elizabeth. O interrogatório durou 22 horas e incluiu tortura e espancamentos, resultando em coma. Ele sofreu ferimento na cabela quanto estava sob custódia policial na delegacia Walmer, em um subúrbio de Port Elizabeth, e foi acorrentado a uma grade de uma janela durante um dia.

    Em 11 de setembro de 1977, a polícia carregou-o nas costas de um Land Rover, nu e contido em algemas para levá-lo para uma prisão com instalações hospitalares. Ele estava quase morto devido às lesões anteriores. Ele morreou logo após a chegada na prisão, em 12 de setembro. A polícia alegou que sua morte foi um resultado de uma greve de fome prolongada, mas a autópsia revelou múltiplas contusões e escoriações e que ele finalmente sucumbiu a uma hemorragia cerebral maciça dos ferimentos na cabeça, que muitos vieram como evidência forte que ele havia sido brutalmente agredido por seus captores. Em seguida, Donald Woods, jornalista, editor e amigo de Biko, junto com Helen Zille, mais tarde líder do partido político da aliança democrática, expuseram a verdade por trás da morte de Steve.

    Por causa de sua grande visibilidade, a notícia da morte de Biko se espalhou rapidamente, divulgando a natureza repressiva do governo do apartheid. Seu funeral foi assistido por mais de 10.000 pessoas, incluindo numerosos embaixadores e outros diplomatas dos Estados Unidos e Europa Ocidental. O liberal branco jornalista sul-africano Donald Woods, amigo pessoal de Biko, fotografou seus ferimentos no necrotério. Woods foi mais tarde forçado a fugir da África do Sul para a Inglaterra, e fez campanha contra o apartheid e divulgou mais ainda a vida e a morte de Biko, escrevendo muitos artigos de jornal e autor do livro "Biko" que mais tarde foi transformado em filme de nome "Freedom Cry".

    Depois de um inquérito com 15 dias em 1978, um juiz magistrado disse que não havia provas suficientes para acusar os oficiais de homicídio, pois não havia testemunhas. Em 2 de fevereiro de 1978, com base ans provas dadas no inquérito, o procurador-geral do Cabo Oriental declarou que não iria processar os policiais. Em 28 de julho de 1979, o advogado da família Biko anunciou que o governo Sul-Africano teria que pagar 78 milhões de dólares em compensação pela morte de Biko.

    Em outubro de 2003, o Ministério da Justiça Sul-Africano anunciou que os cinco policiais acusados de matar Biko não seriam processados judicialmente por causa do limite de tempo para a acusação tinha decorrido e por causa da insuficiência de provas.

    Um ano após sua morte, alguns de seus escritos foram recolhidos e lançado sob o título "Eu escrevo o que eu gosto".

    Como Frantz Fanon, Biko originalmente estudou medicina e, como Fanon, Biko desenvolveu uma intensa preocupação para o desenvolvimento da conciência negra, como a solução para as lutas existenciais que a existência forma, tanto como um ser humando como um africano. Biko, portanto, pode ser visto como um seguidor de Fanon e Aimé Césaire.

    Biko viu a luta pela conciência africana como tendo duas fases: "libertação psicológica" e "libertação física". A influência não-violenta de Gandhi e Martin Luther King sobre Biko é então suspeito, como Biko sabia que por sua luta para dar lugar a libertação física, era necessário que ele existisse dentro das realidades políticas do governo do apartheid, e não-violência a ser bisto mais como uma tática de uma convicção pessoal.