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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um em cada dez homicídios em Curitiba é cometido por adolescente

Baixo porcentual de participação de jovens nesses crimes vai na contramão da defesa pela redução da maioridade penalAniele Nascimento/Gazeta do Povo / Fachada do Cense São Francisco, em Piraquara, o mais antigo centro de internação de adolescentes do Paraná
Fachada do Cense São Francisco, em Piraquara, o mais antigo centro de internação de adolescentes do Paraná

Com uma taxa de 25,2 homicídios por 100 mil habitantes, o Brasil é o 16.º país mais violento do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Os adolescentes, entretanto, não são os principais responsáveis por esse quadro. De 2012 até setembro de 2014, 136 homicídios e latrocínios foram imputados a menores de 18 anos em Curitiba – apenas 8,7 % do total de casos da cidade. Em todo o país, esse porcentual foi de 3% em 2012 – último ano com dados disponíveis. 
Quando comparados com os crimes de menor potencial, o total de homicídios também é reduzido. Entre janeiro e setembro deste ano, a Vara do Adolescente de Curitiba analisou 52 assassinatos cujos autores são menores – 13 vezes menos do que a soma de casos de furto (192) e tráfico de drogas (483). Os 136 homicídios contabilizados pela Gazeta do Povo são aqueles imputados a adolescentes após a conclusão da investigação e remissão para a Justiça e não apenas casos em que o menor é apontado como autor no momento do registro policial.
Mas mesmo diante desses números, por que, então, a redução da maioridade penal é tão discutida no país? Segundo a promotora da Vara do Adolescente em Conflito com a Lei, Danielle Cavali Tuoto, a resposta pode estar nos casos emblemáticos e na desinformação. “O adolescente apreendido por homicídio sofre restrição de liberdade provisória. Depois, é internado e só sai antes de três anos se uma equipe técnica julgar que ele tem condições para isso. O adulto homicida sem antecedentes e com bom comportamento, ganha liberdade em um ano.”
Casos como os assassinatos do universitário Victor Hugo Deppman e da dentista Cinthya Magali Moutinho de Souza – ambos mortos por adolescentes prestes a completar a maioridade penal em São Paulo – e mais recentemente o do segurança da boate Rancho Brasil, em Curitiba, também reforçam o clamor social em torno da questão. “A política referente ao tratamento penal dos crimes cometidos por adolescentes não deu resultado e tem provocado um aumento acentuado na criminalidade. Por isso, defendo a redução da maioridade penal para maiores de 16 anos”, argumenta o procurador do Ministério Público do Paraná e ex-secretário de Segurança Pública do estado, Cid Vasques.
O procurador de Justiça Olympio de Sá Sotto Maior Neto, por sua vez, questiona esses argumentos. “A sociedade tem duas opções: resgatar o jovem ou entregá-lo definitivamente à criminalidade ao encarcerá-lo em penitenciárias. A adolescência é a fase de formação para nossos filhos, mas para os dos outros, principalmente aqueles de famílias menos favorecidas, a infração torna-se questão de má índole.”
Alçadas à condição de “masmorras” pelo próprio ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, as penitenciárias brasileiras têm números até piores do que centros de socioeducação para adolescentes. Segundo a Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Paraná (Seju), a reincidência no sistema prisional do estado é de 40%.
Baixar a maioridade penal virou bandeira política
Ao todo, 32 propostas de redução da maioridade penal tramitam ou já tramitaram pelo Congresso Nacional. A primeira delas data de 1989, menos de um ano após a promulgação da Constituição Federal, que garante a inimputabilidade aos menores de 18 anos. Uma das Propostas de Emenda à Constituição (PEC) é de autoria do senador Aloysio Nunes (PSDB) – atual candidato à vice-presidência pela chapa de Aécio Neves (PSDB), que também consta na lista de proponentes da PEC.
Apesar de o projeto ter sido rejeitado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), ele consta no programa político de Aécio Neves e virou, inclusive, tema central na busca do tucano pelo apoio da ex-senadora Marina Silva (PSB), derrota no primeiro turno das eleições presidenciais.
As tentativas de redução da imputabilidade penal concentram-se, principalmente, na alteração da redação do artigo 228 da Constituição, que estabelece a legislação especial para menores de 18 anos. Essa cláusula, entretanto, é considerada pétrea e poderia ser alterada somente mediante uma Assembleia Nacional Constituinte.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Juventude negra e gestores públicos discutem a violência como maior obstáculo para promover avanços

Grafiteiro trabalha no painel comemorativo do Dia Mundial da Juventude no muro da Casa da ONU, cujo tema este ano é “Juventude Negra contra o Racismo e pela Paz”. Foto: PNUD

A Casa das Nações Unidas no Brasil – Complexo Sergio Vieira de Mello – teve nesta terça-feira (12) um dia de portas abertas aos jovens do Distrito Federal para comemorar o Dia Internacional da Juventude. Grafiteiros do entorno do DF fizeram, em um dos muros internos do complexo, um painel sobre o tema Juventude Negra contra o Racismo e pela Paz. Em paralelo, lideranças da juventude negra do DF e gestores públicos participaram de um debate para discutir o que é, hoje, a principal preocupação dos jovens brasileiros: a violência.

Os números justificam essa preocupação. Segundo estimativas de População Residente do Datasus/Ministério da Saúde de 2012, o Brasil tem 52,2 milhões de jovens e 30 mil foram vítimas de homicídio naquele ano, o que corresponde a mais da metade dos homicídios no país inteiro (53,38%). Dentre as vítimas, 77,02% são negras. O número de homicídios de jovens negros é três vezes maior que de jovens brancos.

“O tema escolhido para a mobilização realizada no dia de hoje é uma resposta à principal preocupação identificada pelos jovens brasileiros: a violência. No Brasil, existem mais de 50 milhões de pessoas com idades entre 15 e 29 anos. Os avanços na economia do país repercutiram em melhor qualidade de vida para esses jovens, que têm maior acesso ao ensino superior e profissionalizante bem como ao mercado de trabalho”, disse o coordenador residente do Sistema ONU no Brasil, Jorge Chediek, durante a inauguração do painel Juventude Negra contra o Racismo e pela Paz. “No entanto, os dados mostram que a violência pode constituir uma barreira relevante para a realização dos sonhos desses jovens”, concluiu.

O ensino superior entrou no universo dos jovens; cada vez mais jovens estão inseridos no mercado formal de trabalho. Segundo a Agenda Juventude Brasil, pesquisa realizada pela Secretaria Nacional da Juventude (SNJ), “esta geração é bem mais escolarizada que as precedentes, mais de 50% chegou ao Ensino Médio, enquanto este nível de escolaridade foi alcançado por apenas 25% de seus pais”.

Mas o maior acesso à educação e ao trabalho, mesmo com todos os problemas ainda enfrentados, não tem necessariamente funcionado como fator de redução de danos. O número de mortes entre esses jovens negros continua aumentando.

O aumento no acesso à educação e ao trabalho deixa o jovem menos exposto à violência? Esta foi uma das perguntas debatidas no encontro. Para os participantes, a promoção do acesso à educação e ao trabalho seria insuficiente e os dados apontam uma forte presença do racismo.

“O aprendizado não se dá somente no ambiente escolar, mas ingressar nesse espaço (a universidade) não foi fácil. Permanecer também não foi fácil, com professores falando para mim que ali não era meu lugar”, disse Davidson Pereira de Souza, recém-formado em jornalismo. “É preciso mostrar para a sociedade que você dá conta.”

O representante da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Felipe Freitas, diz que “é preciso tirar essas pessoas do alvo da violência. É preciso discutir novos modelos de segurança pública”.

Para os participantes, os meios de comunicação tendem a reforçar o estigma sobre a juventude negra, atuando na manutenção do imaginário coletivo que retira a identidade inerente do povo negro, reforça os signos da exclusão e autoriza a violência aos corpos negros. “E é essa desidentificação do negro que abre portas para uma série de exclusões e alijamento social”, disse Big Richard, apresentador, sociólogo e membro da Nação Hip Hop Brasil, abrindo a discussão.

Juventude Negra e a ONU

Uma das conclusões do grupo de debates é a de que a forma como a sociedade trata os homicídios e a violência contra a juventude negra – o fenômeno de naturalização dos fatos – evidencia um grave problema enfrentado por estes jovens: a existência do racismo em nossa sociedade até os dias atuais.

De acordo com dados do IBGE obtidos a partir do Censo 2010, o Brasil é o país do mundo com o maior número de afrodescendentes, equivalente a 100 milhões de pessoas, mas ainda enfrenta o racismo e a intolerância herdada de seu passado colonial. “Não dá para fazer esssa discussão sem pautar a questão do racismo institucional”, disse Élida Miranda, integrante do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE) e da ONG Geledés.

Ao serem questionados se o racismo é que cria as desigualdade, os participantes afirmaram que o racismo cria como seu principal produto a desigualdade, mas a desumanização. “No hip-hop a gente diz que redução de danos é não matar os manos”, diz Larissa Borges, coordenadora articulação da Secretaria Naiconal da Juventude (SNJ). “O Estatuto da Juventude reafirma o direito de ser jovem, especialmente o direito da experimentação e da autonomia, para que a juventud epossa construir novas perspectivas de existência”.

“Na atual agenda da ONU, a juventude é uma prioridade”, disse Ana Inés Mulleady, representante adjunta do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), agência líder das Nações Unidas no Grupo Assessor da ONU sobre Juventude, composto por nove organismos do Sistema ONU no Brasil – o PNUD, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a Organização Internacional de Trabalho (OIT), o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) e o Programa de Voluntários das Nações Unidas (UNV), pela Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) e por organizações da sociedade civil representadas pelo CONJUVE.

“As jovens negras são atingidas de forma específica pelo racismo e pelo sexismo. Essas desigualdades limitam as condições e as oportunidades para que elas possam viver, participar e decidir plenamente sobre as suas próprias vidas”, disse a representante da ONU Mulheres Brasil, Nadie Gasman. “Contudo, elas são a nova geração de mulheres negras – aquelas cujo legado é repleto de histórias de resistências e de lutas que mudaram o Brasil positivamente. As jovens estão fazendo a diferença. Estão organizadas e construindo uma nova realidade país afora por meio da valorização das mulheres negras.”

O representante do UNFPA, Harold Robinson, destacou que “jovens negros e negras têm direito à uma vida digna sem discriminação, livre do racismo e da violência, com oportunidades iguais de acesso à educação, saúde de qualidade e emprego decente”. Segundo ele, “é preciso investir na juventude, por meio de politicas, programas e ações multisetoriais que previnam mortes prematuras por causas evitáveis, criem espaços de participação para jovens e assegurem seu pleno desenvolvimento, sobretudo no atual contexto de final do bônus demográfico”. 

O representante do UNODC no Brasil, Rafael Franzini, também participou dos eventos desta terça-feira. “O fato de que os homicídios são a principal causa de morte de jovens no Brasil torna ainda mais urgente o trabalho das agências da ONU junto ao governo brasileiro, para promover o desenvolvimento de políticas públicas que protejam os jovens e reduzam suas situações de vulnerabilidade, oferecendo oportunidades de acesso à educação, capacitação e informação que proporcionem as condições necessárias para que eles possam realizar todo o seu potencial”, disse.

Juventude Negra pela Paz

A agenda contra a violência, o racismo e o genocídio contra a juventude negra tem movido governo, sociedade civil e demais organizações de diversas formas. A realização desse debate na Casa da ONU e a inauguração do painel em grafite representa um fato positivo e histórico.

Promovida pelo Grupo Assessor da ONU sobre Juventude e com apoio de diversos organismos do Sistema ONU no Brasil, a iniciativa teve como objetivo trazer à luz os problemas decorrentes do ciclo de violência no qual a juventude negra é inserida, bem como seus reflexos na vida familiar, nos estudos, no trabalho, na saúde, na vida afetiva e todas as demais dimensões da vida desses jovens e suas famílias, inclusive em suas escolhas.

O painel inaugurado hoje no Complexo Sergio Vieira de Mello, em Brasília, foi elaborado por por jovens artistas do entorno do DF e que participaram do coletivo Jovens de Expressão, apoiado pela ONU. Assim com o debate e a ampla repercussão nas mídias sociais do Sistema ONU, o painel fica como um marco do início desse esforço de mobilização rumo à paz e ao combate à discriminação e ao racismo contra a juventude negra.

“A gente trouxe para a figura do jovem o colorido; a gente quis trazer destaque para o personagem principal, o próprio jovem negro. Quisemos trazer para esse painel esse jovem se apropriando ou indicando os caminhos que podem ser tomados para que eles tenham melhor qualidade de vida, disse Vinícius Rodrigues, representando os jovens grafiteiros. Lapixa, como é conhecido pelos colegas, foi um dos jovens que colheram os frutos do projeto Jovem de Expressão.

A atividade é também preparativo para o lançamento, em novembro deste ano, de uma campanha do Sistema ONU no Brasil como parte da programação das Nações Unidas para a Década dos Afrodescendentes.

Década de Povos Afrodescendentes

A Década Internacional de Povos Afrodescendentes foi criada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2013, sob o lema “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. Abrange o período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024. Dá seguimento aos esforços dos Estados-Membros das Nações Unidas de enfrentar o racismo, a discriminação e o preconceito racial e tem como objetivo dar efetividade a compromissos internacionais contra o racismo, entre eles a Declaração e o Plano de Ação de Durban.

Considera que, apesar de ações para proibir a discriminação e a segregação racial, milhões de seres humanos continuam sendo vítimas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerâncias correlatas, inclusive suas manifestações contemporâneas, algumas das quais tomam formas violentas. De acordo com a resolução de criação da Década Internacional de Povos Afrodescendentes, “os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e têm o potencial de contribuir construtivamente para o desenvolvimento e o bem-estar de suas sociedades, e que qualquer doutrina de superioridade racial é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa e deve ser rejeitada, juntamente com teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas”.
Saiba tudo sobre as ações deste ano em www.onu.org.br/especial/juventudenegra

DIA INTERNACIONAL DA JUVENTUDE

Foto: Robson B. Pinheiro; Arte: PNUD Brasil
publicado:onu.org.br
Você sabia que entre as as principais preocupações dos jovens brasileiros estão a segurança e a violência?
Isso não é por acaso: os homicídios são hoje a principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos no Brasil. Essa estatística atinge especialmente os jovens negros – o número de homicídios é três vezes maior do que de jovens brancos.
No dia em que comemoramos o Dia Internacional da Juventude, as Nações Unidas no Brasil promovem a ação ‘Juventude Negra contra o Racismo e pela Paz’. #DiadaJuventude #ONUeJovens

quarta-feira, 30 de julho de 2014

ONU CRIA A DÉCADA DO AFRODESCENDENTE





publicado: Revista Raça Brasil
ONU cria a Década do Afrodescendente | Foto: Shutterstock

A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução contra o racismo e a discriminação racial, propondo o período de 2013 a 2022 como a Década do Afrodescendente, fato que pode aprofundar, de forma mais efetiva, os debates e a concretização em relação aos direitos da populaçãoafrodescendente.

Segundo a Seppir, a resolução aprovada solicita que se comece um processo de interlocução com os países integrantes, com o objetivo de debater a implantação da década, além de conferir maior visibilidade do tema em fóruns internacionais. A resolução ainda faz recomendações aos cerca de 200 países integrantes a adotar diretrizes políticas a fim de atender demandas da população negra ao redor do mundo.


sábado, 19 de julho de 2014

RUANDA:O genocídio programado e a cegueira internacional

RUANDA


publicado: diplomatique.org.br


Os indícios de que uma solução final estava sendo planejada eram claros já em 1993. Mesmo assim, a comunidade internacional fechou os olhos, manteve o apoio ao regime responsável pelo genocídio e retirou a força de paz da ONU durante os massacres
por Colette Braeckman

Um milhão de mortos em cem dias sem o mundo ficar sabendo de nada? Desde a independência, em 1962, quem se interessava por Ruanda sabia que o fogo não estava extinto. Ainda em 1959, os hutus,1 apoiados pelos belgas que apostaram no fato de serem eles a maioria étnica, expulsaram do país mais de 300 mil tútsis. Desde outubro de 1990, data da entrada na guerra da Frente Patriótica Ruandesa (FPR) – organização político-militar que lutava pelo retorno dos exilados e cujos membros, refugiados em Uganda, se expressavam em inglês –, cada investida dela significava novo massacre de tútsis.

Em agosto de 1993, por pressão dos investidores, foram assinados acordos de paz em Arusha, na Tanzânia. Previam a organização de um governo de transição, no qual a FPR seria representada ao lado da oposição política, com a garantia de uma força de paz da ONU. Na época, só os diplomatas estrangeiros se mostraram otimistas, e a tal ponto que os países membros do Conselho de Segurança consideraram suficiente dotar Ruanda de um destacamento de 2.548 homens (em vez dos 4.500 reivindicados pelo general canadense Romeo Dallaire, comandante da Missão das Nações Unidas em Ruanda – Minuar), e limitar sua ação ao capítulo VI da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força. É verdade que Ruanda, país pobre e aparentemente desprovido de interesse estratégico, sofreu o contragolpe da derrota dos Estados Unidos, alguns meses antes, na Somália, e ninguém, exceto os belgas e os franceses, queria realmente se comprometer.2

Indicadores preocupantes

No entanto, não faltavam indicadores preocupantes: em julho de 1993, os radicais do regime tinham-se cotizado para lançar a Rádio e Televisão das Mil Colinas, que criticava os acordos de paz e transmitia propaganda rancorosa contra a FPR, os tútsis em geral e o contingente belga, acusado de parcialidade a favor da FPR. A partir de fevereiro de 1993, dezenas de milhares de jovens hutus foram recrutados e, em campos que podiam ser vistos da estrada, foram treinados no manejo de armas de fogo e facões. Como os cooperantes militares belgas e franceses, que mantinham seus governos informados do menor movimento de tropas, poderiam ter ignorado essa mobilização?
Nessa mesma época, créditos concedidos pelo Banco Mundial foram desviados para comprar armas de fogo e enxadas. Graças aos fundos avalizados pelo Crédit Lyonnais, o Egito efetuou várias remessas de armas e munições. Em outubro de 1993, no Burundi, o assassinato, por militares tútsis, de Melchior Ndadaye, presidente hutu legalmente eleito, contribuiu para agravar a tensão em Ruanda.
Em janeiro de 1994, as desconfianças transformaram-se em certeza, quando um informante confirmou à Minuar que todos os tútsis haviam sido devidamente recenseados. Descreveu o treinamento dos interhahamwe (os que matam em conjunto), a formação de depósitos de armas e munições, e forneceu a prova de suas declarações ao conduzir os capacetes azuis a um subsolo, na sede do partido presidencial, transformado em esconderijo de armas. Enfatizou também as ameaças que pesavam sobre os capacetes azuis belgas.

Mas o telegrama em código que o general Dallaire enviou a Nova York em 15 de janeiro, pedindo autorização para desmantelar os esconderijos de armas, não obteve a resposta esperada: o Departamento de Operações de Manutenção da Paz, dirigido na época por Kofi Annan, proibiu qualquer ação.3 No máximo, os embaixadores ocidentais apresentaram o problema ao presidente Juvenal Habyarimana, e este, embora negando a realidade dos fatos..., fez com que fossem distribuídas armas em todas as comunas do país.

Início do genocídio

Apesar das advertências formuladas em fevereiro, em Kigali, por Willy Claes, ministro belga das Relações Exteriores; apesar do assassinato de Félicien Gatabazi, ministro de Obras Públicas e dirigente do Partido Social-Democrata; apesar da correspondência endereçada ao general Dallaire por vários oficiais superiores, denunciando um “plano maquiavélico”; e apesar da multiplicação dos atentados e do crescimento, quase tangível, da violência, nada mudou. O mandato da Minuar não foi modificado, e o Conselho de Segurança contentou-se, em 17 de fevereiro, em expressar sua “preocupação”.

Em 6 de abril de 1994, o atentado contra o avião do presidente Habyarimana (cujos autores e mandantes não foram identificados até hoje) marcou o início do genocídio. Uma campanha de assassinatos programados, visando personalidades hutus moderadas e simples cidadãos tútsis – operação planejada durante meses e rigorosamente executada – foi apresentada como “a expressão da cólera popular” em consequência da morte do chefe de Estado. Nesse momento, as forças da ONU estavam dispersas pelo país, faltavam munições e efetivos e, quando o general Dallaire e seu adjunto Luc Marchal foram informados, na manhã de 7 de abril, que dez capacetes azuis belgas, encarregados da proteção do primeiro-ministro, estavam em dificuldade em Kigali, nem foi colocada a questão de ir em seu socorro.

Enquanto os cadáveres eram recolhidos pelos caminhões da limpeza pública, as equipes de matadores percorriam a cidade e o general Dallaire pedia reforços; tratava-se sobretudo de evacuar os estrangeiros. Com esse objetivo, os franceses despacharam 450 homens, os belgas enviaram 450 paraquedistas e 500 outros ao Quênia, 80 italianos se juntaram à operação, enquanto 250 rangers norte-americanos se instalaram no Burundi. Se tivessem juntado seus esforços aos da Minuar, essas tropas ocidentais provavelmente teriam conseguido deter os massacres em Kigali, silenciar a rádio extremista e impor um cessar-fogo. Mas, por ordem de seus governos, essas forças limitaram-se à missão de retirada dos cidadãos estrangeiros, abandonando os civis tútsis, inclusive casais mistos, funcionários de embaixadas, dentre os quais o pessoal do Centro Cultural francês, e dezenas de tútsis que tinham procurado a proteção da ONU. Os capacetes azuis também foram abandonados à sua sorte. Por ordem do presidente François Mitterrand, os franceses cuidaram, no entanto, de retirar a viúva do presidente Habyarimana, que pertencia ao clã dos radicais, e transportar para local seguro algumas personalidades do regime.

“Genocídio”: termo proibido

Ruanda não estava ainda no extremo abandono: em 12 de abril, o ministro Willy Claes, traumatizado pelo assassinato dos dez capacetes azuis, anunciou ao secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, que o contingente belga da Minuar ia ser retirado, e lançou-se numa ação diplomática para persuadir outros países a fazer o mesmo.

Justamente nessa época, o representante de Ruanda, ligado aos extremistas, tinha assento no Conselho de Segurança como membro não permanente; representantes de seu governo eram recebidos oficialmente em Paris, e a França, através de Goma (na República do Congo), ao norte do Lago Kivu, continuava sua remessa de armas. Quanto aos norte-americanos e aos britânicos, foi com empenho que se opuseram ao reforço dos efetivos da Minuar, como se a única urgência fosse nada fazer. A secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, cuidou de proibir o uso do termo “genocídio”, pois este tem como consequência a obrigação de intervenção e, no final de abril, Boutros Boutros-Ghali ainda falava de “guerra civil”. Em 21 de abril, a resolução 912 do Conselho de Segurança optou por uma redução da força da ONU em Ruanda, que passaria a contar com menos de 500 capacetes azuis. Estes estavam desprovidos de alimentos, de munição, de veículos e até de água potável, impotentes para ir em socorro dos civis que clamavam por proteção ou assistência, ainda que tenham realizado com coragem e êxito numerosas operações de retirada da população.

Quando a imprensa se interessou por Ruanda, foi para filmar, a partir de Uganda, os corpos que boiavam no Lago Vitória, ou para seguir o êxodo em massa de hutus que, concluído o crime, fugiram para a Tanzânia para escapar de represálias.

Intervenção francesa

Bem antes, Philippe Gaillard, dos Médicos sem Fronteiras, e em nome da Comissão Internacional da Cruz Vermelha – cuja direção e doentes foram massacrados em Butare4 – assim como o próprio general Dallaire, multiplicaram depoimentos comoventes e pedidos de ajuda. Foi preciso esperar até 11 e 12 de maio para que o comissário da ONU para Direitos Humanos, José Ayala Lasso, presente no local, utilizasse afinal o termo genocídio. Nesse momento, a imprensa, em sua grande maioria, ainda falava em “massacres interétnicos”, em “lutas tribais”. Enquanto a matança era encomendada e organizada pelo governo provisório empossado após a morte de Habyarimana, Ruanda era descrito como um “Estado em falência”, mergulhado numa espécie de anomia bárbara. Como se fosse preciso a qualquer preço transpor o clichê da Somália para esse país muito hierarquizado, no qual os cidadãos têm o hábito de obedecer às ordens vindas de cima...

Só em junho é que a tragédia começou a comover a opinião pública. O Conselho de Segurança, apesar da oposição norte-americana, acabou por votar a favor de uma Minuar 2 reforçada, mas a ONU não encontrava nem os homens, nem o dinheiro, necessários para organizar essa missão. Os Estados Unidos, consultados para fornecer veículos e blindados, queriam ser pagos previamente... Quanto à FPR, ela avançava lentamente, com mais determinação para Kigali, acuando seus adversários e as vítimas destes. Considerava que uma intervenção estrangeira seria inútil naquele momento, não somente porque a maioria dos tútsis já estava morta, mas sobretudo porque não pretendia ver a vitória lhe ser usurpada. Foi então que a França tomou a dianteira: em 22 de junho, obteve do Conselho de Segurança a autorização para lançar uma operação apoiada pelo capítulo 7, que autoriza o recurso à força.

Se era tarde demais para salvar centenas de milhares de civis desaparecidos durante as primeiras semanas do genocídio, e se somente 10 a 15 mil pessoas puderam ser recolhidas nos campos de Nyarushishi e Bisesero, ainda era possível tentar salvar a posição do governo interino. Este recebeu os franceses com entusiasmo, esperando que a Operação Turquesa impedisse o avanço da FPR e impusesse uma negociação na base de uma partilha do território. Mas o avanço rápido das tropas da FPR e, finalmente, a comoção da opinião pública conseguiram dividir o governo francês. Contra os militares que queriam “quebrar as pernas da FPR” e não escondiam sua solidariedade com seus ex-irmãos de armas hutus “francófonos”, que eles formaram e equiparam, o primeiro-ministro Edouard Balladur decidiu reduzir as ambições dos militares da Operação Turquesa. Obrigados a entrar em contato com a FPR, os militares franceses tiveram que se contentar em criar, no oeste do país, uma “zona humanitária segura” para a qual convergiram todos os grupos extremistas, assim como o governo interino, abrangendo dessa forma milhões de civis hutus.

Impunidade dos responsáveis pelo genocídio

Nessa zona, os franceses foram impotentes para impedir inúmeros massacres, mas recusavam-se a desarmar militares e milicianos. Deixaram de prender os responsáveis pelo genocídio que, em seguida, se refugiaram no Zaire (atual República Democrática do Congo), e não proibiram as transmissões rancorosas da Rádio das Mil Colinas. Os franceses, que trouxeram helicópteros de combate, aviões Jaguar e Mirage, uma centena de blindados e morteiros, mas muito poucos caminhões e medicamentos, viram-se impotentes diante da epidemia de cólera que se iniciou em Goma e atingiu mais de 40 mil refugiados hutus.

Nesse momento, atraída ao local pela presença francesa, pelas facilidades de comunicação e finalmente sensibilizada pela tragédia ruandesa, a imprensa compareceu e as associações humanitárias também. O novo poder instalou-se num verdadeiro deserto: os funcionários do Estado fugiram, levando dossiês, veículos e depósitos bancários. Trezentos mil órfãos vagavam pelo país. Mas a comunidade internacional mostrou-se contrária à intervenção e à ajuda à FPR, uns denunciando o “duplo genocídio”, outros exigindo que o regime desse “garantias de reconciliação”, enquanto os corpos ainda jaziam nas valas.

Na realidade, apesar de suas boas relações com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, a FPR pagava o preço por ter conquistado o poder num país francófono, sem a aprovação das ex-potências coloniais.

Luta entre anglófonos e francófonos
A presença nos campos de Kivu de mais de 2 milhões de refugiados hutus, cercados pelos autores do genocídio e alimentados pela ajuda humanitária, iria por muito tempo desestabilizar a região. Em outubro de 1996, depois de ter pedido em vão ao Alto Comissariado para os Refugiados (Acnur) e às outras agências da ONU para afastar da fronteira de seu país a ameaça que esses campos representavam, Paul Kagame, que dirigia a FPR, lançou uma ofensiva destinada a obrigar o retorno dos refugiados ruandeses e a dispersar os outros através do imenso Zaire (que em seguida se tornou República Democrática do Congo).

Impotente para evitar um genocídio programado e anunciado, a comunidade internacional assistia a um novo episódio da tragédia: depois de sete meses, o marechal Josef Désiré Mobutu, apoiado até o fim pelos franceses, foi derrubado por Laurent Désiré Kabila e seus aliados ruandeses e ugandenses. Até que, em 1998, começou uma nova guerra, continuando os ruandeses na perseguição dos interhahamwe em fuga e, de passagem, pilhando, com seus aliados ugandenses, os recursos do Congo. Ao milhão de mortos do genocídio iriam se juntar mais de 3 milhões de vítimas congolesas, elas também esquecidas, presas na armadilha da guerra, da pilhagem dos recursos naturais e de uma surda luta de influência entre francófonos e anglófonos, visando o controle do coração da África.

Colette Braeckman

jornalista, Le Soir (Bruxelas).

1Hutus, grupo pastoril e guerreiro que compartilha com os tútsis os territórios africanos do Burundi e de Ruanda.

2Lynda Melvern, A People Betrayed: The Role of the West in the Rwanda’s Genocide, Zed books, Londres, 2000; e Gérard Prunier, Histoire d’un génocide, edições Dagorno, 1997.

3Romeo Dallaire, J’ai serré la main du Diable: La faillite de l’humanité au Rwanda, La Libre Expression, Montreal, 2003.

4Allison Desforges, “Aucun témoin ne doit survivre: Génocide au Rwanda”, relatório redigido por Human Rights Watch, Federação Internacional dos Direitos Humanos, Paris, 1999.

Publicado originalmente em 1º de abril de 2004.