Mostrando postagens com marcador direitos civis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador direitos civis. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Angela Davis critica ausência de negros no poder e na televisão no Brasil

publicado: agencia Brasil
A filósofa, escritora, professora e ativista norte-americana Angela Davis criticou hoje (25) a ausência de negros nos espaços de poder e nos meios de comunicação no Brasil. "Não posso falar com autoridade no Brasil, mas às vezes não é preciso ser especialista para perceber que alguma coisa está errada em um país cuja maioria é negra e a representação é majoritariamente branca", disse. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da população brasileira (50,7%) é negra.

Angela Davis integrou o grupo Panteras Negras e o Partido Comunista dos Estados Unidos e chegou a constar na lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI (agência federal de investigação dos Estados Unidos). Ela foi presa na década de 1970 e inspirou a campanha Libertem Angela Davis, que angariou apoiadores em todo o mundo.

Apesar da constatação, Angela fez um alerta: "Não significa somente trazer pessoas negras para a esfera do poder, mas garantir que essas pessoas vão romper com os espaços de poder e não simplesmente se encaixar nesses espaços". A ativista citou o caso dos Estados Unidos, em que houve época em que não havia político negro e que atualmente é presidido por um negro, Barack Obama. "O que mudou?", perguntou, sem responder. "Quantos senadores negros há no Brasil? Se olharmos para o Senado não saberíamos que os negros constituem mais de 50% da população brasileira", disse, em participação no Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra. "Sempre assisto TV no Brasil para ver como o país se representa e a TV brasileira nunca permitiu que se pensasse que a população é majoritariamente negra".

Angela voltou a comentar o conflito na Faixa de Gaza, entre Israel e Palestina. "Temos que reconhecer Israel como único Estado colonizador do século 21 que continua a se expandir. Da mesma forma que desafiamos o apartheid [na África do Sul], temos que lutar contra oapartheid israelense. Vidas de crianças estão sendo destruídas em Gaza", disse. "Temos que expressar nossa solidariedade ao povo da Palestina”.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Novo colonialismo na África: Europeus, americanos e chineses se apoderam das riquezas africanas

Por: Jornal La Tribune - Argélia

Na República Centro-Africana, enquanto a mídia se concentra nos riscos de um conflito religioso atualmente em curso entre muçulmanos e cristãos que se massacram a tiros e machadadas, está em curso uma dilapidação das riquezas do país. E tudo acontece longe dos olhares curiosos dos jornalistas e da maioria dos especialistas em assuntos africanos.
Para o comum dos mortais, a República Centro-Africana é apenas uma vasta área florestal, com uma população muito pobre. Ignora-se, como acontece em geral quando se trata de países africanos, a existência de grandes riquezas naturais. Este país de seis milhões de habitantes transborda de petróleo, diamantes e outros recursos naturais. Tesouros que suscitam a cobiça dos países desenvolvidos.

Soldados franceses estacionados na República Centro Africana participam de cerimônia militar em Bangui
A França, que se recusou a intervir no país quando o presidente deposto, François Bozizé, lhe pediu (em dezembro de 2012), acabou por enviar soldados (em dezembro de 2013), quando a crise em Bangui (a capital) assumiu contornos de guerra religiosa entre a minoria muçulmana, que assumiu o poder pela primeira vez em março de 2013, e a maioria cristã, que clama ter sido alvo de genocídio por parte dos rebeldes da Séléka (coligação entre partidos políticos e forças rebeldes).
Oficialmente, o presidente francês, François Hollande, alegou razões humanitárias para justificar o envio de 1600 soldados para Bangui, onde vive grande número de cidadãos franceses.

Garoto centro africano se refugia dentro de carro incendiado em conflito na capital Bangui
Quem chega primeiro às riquezas?
Essa intervenção foi vista por alguns como um ato de neocolonialismo por parte da França, tal como as também recentes intervenções no Mali e na Líbia. Outros consideraram que a ação era necessária, para evitar novo genocídio em solo africano, como o de Ruanda, há 20 anos.

A presença francesa na antiga colônia foi saudada por alguns centro-africanos que consideraram que os soldados franceses em Bangui iriam dar um apoio significativo à missão africana de manutenção da paz no país. Desde a independência, em 1960, ele já passou por seis golpes de Estado.

O caráter supostamente filantrópico da intervenção francesa esconde, no entanto, objetivos econômicos e geoestratégicos. Objetivos traçados, no entanto, longe do conceito neocolonialista avançado por alguns analistas obcecados pela ideologia, numa época em que nada se sobrepõe ao poder do dinheiro e à guerra já pouco disfarçada pelo controle das riquezas do planeta.

Soldado francês ordena ao homem que largue sua arma improvisada.
 que está em questão em Bangui não é salvar os centro-africanos de um genocídio étnico-religioso, à semelhança do que também nos tentam fazer crer no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo, no Darfur e em outros países africanos. O que está em causa é saber quem vai chegar primeiro às riquezas do subsolo desses países.
A súbita decisão por parte de Paris de enviar tropas à República Centro-Africana visa, efetivamente, obstruir a presença chinesa, que começou a se reforçar na era de Bozizé (no poder entre março de 2003 e março de 2013).
É isso que justifica a recusa do governo francês em dar suporte a Bosizé no momento em que ele estava prestes a ser derrubado por uma coligação supostamente heterogênea, a Séléka. Paris, que sempre apoiara Bozizé, abandonou-o devido ao namoro cada vez mais assumido desse líder africano com o gigante chinês. A China injetou milhões de dólares na República Centro-Africana para garantir sua presença cada vez maior nos negócios de Bangui.


Familiares de mortos durante conflitos religiosos na periferia de Bangui lamentam suas perdas
Interesses franceses na África
A estratégia chinesa na República Centro-Africana já deu bons frutos, bem como em vários outros países africanos nos quais Pequim conseguiu abocanhar uma boa fatia da exploração dos recursos naturais em troca de uma assistência ao desenvolvimento local. Essa assistência aconteceu sobretudo na construção de estradas em regiões remotas e na edificação de escolas e na implementação de outros serviços públicos.
“A França tem interesses na República Centro-Africana. Atualmente, controla a economia do país e de tudo o que se passa nele. A holding francesa Bolloré controla completamente a logística e o transporte fluvial do país. O grupo Castel impera no mercado de bebidas e do açúcar. A multinacional CFAO domina o comércio de veículos. A France Telecom entrou na dança em 2007. O gigante nuclear Areva está presente no país, embora oficialmente ainda esteja em fase de prospeção. A petrolífera Total tem reforçado a hegemonia no controle das reservas e na comercialização de petróleo, mas tem de negociar com a camaronesa Tradex, especializada no comércio de produtos petrolíferos”, afirmam analistas africanos, entre eles a agência de notícias Bêafrika Sango, órgão de informação independente sediado em Bangui.

Mais de cem mil pessoas obrigadas a abandonar suas casas pelos terroristas acamparam ao redor do aeroporto de Bangui, capital da República Centro Africana
O ímpeto da atitude francesa, bem como o envolvimento do presidente dos EUA, Barack Obama, nos acontecimentos de Bangui, são indícios dos grandes interesses econômicos e geo-estratégicos que estão em jogo neste momento na República Centro-Africana.
No início de dezembro, Washington forneceu apoio logístico e financeiro à França e à União Africana, para que a intervenção militar acontecesse; a 10 de janeiro, o então presidente centro-africano, Michel Djotodia, e o primeiro-ministro renunciaram aos cargos, por pressão da França e do Chade.

Um homem passa informações a soldado francês sobre o paradeiro e os esconderijos de membros das organizações terroristas

Essa mesma política desencadeada por potências europeias e os Estados Unidos não se desenrolam apenas na República Centro-Africana: os vizinhos Sudão do Sul e a República Democrática do Congo passam por crises semelhantes que abalam a estabilidade política e minam a segurança, devido a essa luta renhida pelo controle dos recursos naturais africanos.
Nos três países há importantes grupos rebeldes apoiados por países estrangeiros que tanto lhes fornecem ajuda humanitária como militar e financeira. A atual guerra civil, que na aparência é um conflito entre cristãos e muçulmanos, pode durar muito tempo, mantendo a instabilidade em toda a sub-região da África Equatorial.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Aumento do tempo de internação de jovens em conflito com a lei é criticado




por:Elaine Patricia Cruz - Repórter da Agência Brasil Edição: Stênio Ribeiro

Especialistas criticaram o relatório que prevê mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A proposta deve ser discutida e votada pela Câmara dos Deputados em breve e estipula aumento de três para até oito anos do período de internação dos adolescentes, de 16 a 18 anos, que praticarem ato infracional equiparado a crime hediondo, tais como tortura e tráfico de drogas.
Durante o debate, no Instituto Sedes Sapientiae, zona oeste da capital paulista, para discutir os avanços e desafios dos 24 anos da promulgação do ECA, os especialistas condenaram a proposta prevista no relatório do deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP). Em seu site, o deputado defendeu a medida. “O plenário da Câmara deve reproduzir o sentimento da nação, que está indignada com essa questão da impunidade. Muitos adolescentes têm plena ciência do ato infracional que estão praticando e muitas vezes ficam internados por apenas um ano”, disse.

Mas, para o juiz Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, que integra a Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo, o aumento da pena não resolve o problema. “O que resolve a longo prazo é a prevenção. E, no caso de adolescentes, instituições de segregação e as unidades de internação com bom atendimento e bom serviço, ampliando seu trabalho, e com políticas públicas visando também as famílias. É preciso cuidar, não punir”.
Opinião semelhante foi manifestada pelo advogado Ariel de Castro Alves, do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente. Alves disse que a proposta fere o princípio constitucional da brevidade. “Tem um princípio do estatuto que é o da brevidade das medidas socioeducativas. Oito anos [de internação] para um jovem de 16 anos representa 50% de seu tempo de vida. Fere esse princípio que está na Constituição. Essa é uma forma de tentar driblar a questão da redução da maioridade penal, que é inconstitucional”. Alves disse não ser contrário ao debate ou reavaliação do tempo de ressocialização, que foi definido na década de 90, “mas não com essa finalidade”.

A psicóloga Paula Saretta de Andrade e Silva reclamou que questões como essas são discutidas ou viram leis sem embasamento teórico ou estatístico que possam justificá-las. “As pessoas se posicionam sem nenhum dado relevante ou científico. Não há estatísticas para se falar. Se se comparar com vários outros países que fizeram isso, não tem dado certo. Por que olhamos para casos isolados, como se em todos os cantos houvessem adolescentes com esse mesmo perfil [de cometer crimes considerados hediondos]? Não estamos olhando para a grande massa de adolescentes que estão presos. Tem aquelas pessoas que argumentam que os adolescentes estão perdendo muito pouco, ou que três anos [de internação] é muito pouco. Perder a juventude é uma perda muito grande, que nunca mais terá recuperação. Isso não é uma questão de números. O grande problema é se olhar só para dados isolados. É preciso olhar para a população em geral”.

Para Ariel Alves, a legislação atual referente às crianças e adolescentes, embora tenha representado grande avanço no país, precisa ser, de fato, efetivada. Ponto que também foi defendido pelo juiz. “Uma das dificuldades do ECA é que não aprendemos ainda a trabalhar de forma multidisciplinar. A política educacional deve estar ligada à política de saúde e de assistência social, por exemplo”, citou o juiz Carvalho durante o debate.

“A integração operacional e multidisciplinar nem sempre ocorre. A maior parte das crianças em abrigos estão lá por problemas de alcoolismo de seus pais”, ressaltou. Segundo ele, o ECA ainda apresenta muitas falhas provocadas pela falta de implementação e efetividade. “Casos recentes que tiveram grande repercussão, como o assassinato do menino Bernardo Boldrini, em abril, no Rio Grande do Sul; as denúncias de exploração sexual infantil durante a Copa do Mundo; e a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que absolveu o fazendeiro Geraldo Brambilla, de 79 anos, acusado de estupro e exploração sexual de vulneráveis, ao considerar que o réu foi induzido a erro quanto à idade das vítimas e que elas já eram 'prostitutas'; demonstram o quanto a proteção integral das crianças e adolescentes no Brasil ainda é uma utopia”, disse o advogado.


sábado, 19 de julho de 2014

RUANDA:O genocídio programado e a cegueira internacional

RUANDA


publicado: diplomatique.org.br


Os indícios de que uma solução final estava sendo planejada eram claros já em 1993. Mesmo assim, a comunidade internacional fechou os olhos, manteve o apoio ao regime responsável pelo genocídio e retirou a força de paz da ONU durante os massacres
por Colette Braeckman

Um milhão de mortos em cem dias sem o mundo ficar sabendo de nada? Desde a independência, em 1962, quem se interessava por Ruanda sabia que o fogo não estava extinto. Ainda em 1959, os hutus,1 apoiados pelos belgas que apostaram no fato de serem eles a maioria étnica, expulsaram do país mais de 300 mil tútsis. Desde outubro de 1990, data da entrada na guerra da Frente Patriótica Ruandesa (FPR) – organização político-militar que lutava pelo retorno dos exilados e cujos membros, refugiados em Uganda, se expressavam em inglês –, cada investida dela significava novo massacre de tútsis.

Em agosto de 1993, por pressão dos investidores, foram assinados acordos de paz em Arusha, na Tanzânia. Previam a organização de um governo de transição, no qual a FPR seria representada ao lado da oposição política, com a garantia de uma força de paz da ONU. Na época, só os diplomatas estrangeiros se mostraram otimistas, e a tal ponto que os países membros do Conselho de Segurança consideraram suficiente dotar Ruanda de um destacamento de 2.548 homens (em vez dos 4.500 reivindicados pelo general canadense Romeo Dallaire, comandante da Missão das Nações Unidas em Ruanda – Minuar), e limitar sua ação ao capítulo VI da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força. É verdade que Ruanda, país pobre e aparentemente desprovido de interesse estratégico, sofreu o contragolpe da derrota dos Estados Unidos, alguns meses antes, na Somália, e ninguém, exceto os belgas e os franceses, queria realmente se comprometer.2

Indicadores preocupantes

No entanto, não faltavam indicadores preocupantes: em julho de 1993, os radicais do regime tinham-se cotizado para lançar a Rádio e Televisão das Mil Colinas, que criticava os acordos de paz e transmitia propaganda rancorosa contra a FPR, os tútsis em geral e o contingente belga, acusado de parcialidade a favor da FPR. A partir de fevereiro de 1993, dezenas de milhares de jovens hutus foram recrutados e, em campos que podiam ser vistos da estrada, foram treinados no manejo de armas de fogo e facões. Como os cooperantes militares belgas e franceses, que mantinham seus governos informados do menor movimento de tropas, poderiam ter ignorado essa mobilização?
Nessa mesma época, créditos concedidos pelo Banco Mundial foram desviados para comprar armas de fogo e enxadas. Graças aos fundos avalizados pelo Crédit Lyonnais, o Egito efetuou várias remessas de armas e munições. Em outubro de 1993, no Burundi, o assassinato, por militares tútsis, de Melchior Ndadaye, presidente hutu legalmente eleito, contribuiu para agravar a tensão em Ruanda.
Em janeiro de 1994, as desconfianças transformaram-se em certeza, quando um informante confirmou à Minuar que todos os tútsis haviam sido devidamente recenseados. Descreveu o treinamento dos interhahamwe (os que matam em conjunto), a formação de depósitos de armas e munições, e forneceu a prova de suas declarações ao conduzir os capacetes azuis a um subsolo, na sede do partido presidencial, transformado em esconderijo de armas. Enfatizou também as ameaças que pesavam sobre os capacetes azuis belgas.

Mas o telegrama em código que o general Dallaire enviou a Nova York em 15 de janeiro, pedindo autorização para desmantelar os esconderijos de armas, não obteve a resposta esperada: o Departamento de Operações de Manutenção da Paz, dirigido na época por Kofi Annan, proibiu qualquer ação.3 No máximo, os embaixadores ocidentais apresentaram o problema ao presidente Juvenal Habyarimana, e este, embora negando a realidade dos fatos..., fez com que fossem distribuídas armas em todas as comunas do país.

Início do genocídio

Apesar das advertências formuladas em fevereiro, em Kigali, por Willy Claes, ministro belga das Relações Exteriores; apesar do assassinato de Félicien Gatabazi, ministro de Obras Públicas e dirigente do Partido Social-Democrata; apesar da correspondência endereçada ao general Dallaire por vários oficiais superiores, denunciando um “plano maquiavélico”; e apesar da multiplicação dos atentados e do crescimento, quase tangível, da violência, nada mudou. O mandato da Minuar não foi modificado, e o Conselho de Segurança contentou-se, em 17 de fevereiro, em expressar sua “preocupação”.

Em 6 de abril de 1994, o atentado contra o avião do presidente Habyarimana (cujos autores e mandantes não foram identificados até hoje) marcou o início do genocídio. Uma campanha de assassinatos programados, visando personalidades hutus moderadas e simples cidadãos tútsis – operação planejada durante meses e rigorosamente executada – foi apresentada como “a expressão da cólera popular” em consequência da morte do chefe de Estado. Nesse momento, as forças da ONU estavam dispersas pelo país, faltavam munições e efetivos e, quando o general Dallaire e seu adjunto Luc Marchal foram informados, na manhã de 7 de abril, que dez capacetes azuis belgas, encarregados da proteção do primeiro-ministro, estavam em dificuldade em Kigali, nem foi colocada a questão de ir em seu socorro.

Enquanto os cadáveres eram recolhidos pelos caminhões da limpeza pública, as equipes de matadores percorriam a cidade e o general Dallaire pedia reforços; tratava-se sobretudo de evacuar os estrangeiros. Com esse objetivo, os franceses despacharam 450 homens, os belgas enviaram 450 paraquedistas e 500 outros ao Quênia, 80 italianos se juntaram à operação, enquanto 250 rangers norte-americanos se instalaram no Burundi. Se tivessem juntado seus esforços aos da Minuar, essas tropas ocidentais provavelmente teriam conseguido deter os massacres em Kigali, silenciar a rádio extremista e impor um cessar-fogo. Mas, por ordem de seus governos, essas forças limitaram-se à missão de retirada dos cidadãos estrangeiros, abandonando os civis tútsis, inclusive casais mistos, funcionários de embaixadas, dentre os quais o pessoal do Centro Cultural francês, e dezenas de tútsis que tinham procurado a proteção da ONU. Os capacetes azuis também foram abandonados à sua sorte. Por ordem do presidente François Mitterrand, os franceses cuidaram, no entanto, de retirar a viúva do presidente Habyarimana, que pertencia ao clã dos radicais, e transportar para local seguro algumas personalidades do regime.

“Genocídio”: termo proibido

Ruanda não estava ainda no extremo abandono: em 12 de abril, o ministro Willy Claes, traumatizado pelo assassinato dos dez capacetes azuis, anunciou ao secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, que o contingente belga da Minuar ia ser retirado, e lançou-se numa ação diplomática para persuadir outros países a fazer o mesmo.

Justamente nessa época, o representante de Ruanda, ligado aos extremistas, tinha assento no Conselho de Segurança como membro não permanente; representantes de seu governo eram recebidos oficialmente em Paris, e a França, através de Goma (na República do Congo), ao norte do Lago Kivu, continuava sua remessa de armas. Quanto aos norte-americanos e aos britânicos, foi com empenho que se opuseram ao reforço dos efetivos da Minuar, como se a única urgência fosse nada fazer. A secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, cuidou de proibir o uso do termo “genocídio”, pois este tem como consequência a obrigação de intervenção e, no final de abril, Boutros Boutros-Ghali ainda falava de “guerra civil”. Em 21 de abril, a resolução 912 do Conselho de Segurança optou por uma redução da força da ONU em Ruanda, que passaria a contar com menos de 500 capacetes azuis. Estes estavam desprovidos de alimentos, de munição, de veículos e até de água potável, impotentes para ir em socorro dos civis que clamavam por proteção ou assistência, ainda que tenham realizado com coragem e êxito numerosas operações de retirada da população.

Quando a imprensa se interessou por Ruanda, foi para filmar, a partir de Uganda, os corpos que boiavam no Lago Vitória, ou para seguir o êxodo em massa de hutus que, concluído o crime, fugiram para a Tanzânia para escapar de represálias.

Intervenção francesa

Bem antes, Philippe Gaillard, dos Médicos sem Fronteiras, e em nome da Comissão Internacional da Cruz Vermelha – cuja direção e doentes foram massacrados em Butare4 – assim como o próprio general Dallaire, multiplicaram depoimentos comoventes e pedidos de ajuda. Foi preciso esperar até 11 e 12 de maio para que o comissário da ONU para Direitos Humanos, José Ayala Lasso, presente no local, utilizasse afinal o termo genocídio. Nesse momento, a imprensa, em sua grande maioria, ainda falava em “massacres interétnicos”, em “lutas tribais”. Enquanto a matança era encomendada e organizada pelo governo provisório empossado após a morte de Habyarimana, Ruanda era descrito como um “Estado em falência”, mergulhado numa espécie de anomia bárbara. Como se fosse preciso a qualquer preço transpor o clichê da Somália para esse país muito hierarquizado, no qual os cidadãos têm o hábito de obedecer às ordens vindas de cima...

Só em junho é que a tragédia começou a comover a opinião pública. O Conselho de Segurança, apesar da oposição norte-americana, acabou por votar a favor de uma Minuar 2 reforçada, mas a ONU não encontrava nem os homens, nem o dinheiro, necessários para organizar essa missão. Os Estados Unidos, consultados para fornecer veículos e blindados, queriam ser pagos previamente... Quanto à FPR, ela avançava lentamente, com mais determinação para Kigali, acuando seus adversários e as vítimas destes. Considerava que uma intervenção estrangeira seria inútil naquele momento, não somente porque a maioria dos tútsis já estava morta, mas sobretudo porque não pretendia ver a vitória lhe ser usurpada. Foi então que a França tomou a dianteira: em 22 de junho, obteve do Conselho de Segurança a autorização para lançar uma operação apoiada pelo capítulo 7, que autoriza o recurso à força.

Se era tarde demais para salvar centenas de milhares de civis desaparecidos durante as primeiras semanas do genocídio, e se somente 10 a 15 mil pessoas puderam ser recolhidas nos campos de Nyarushishi e Bisesero, ainda era possível tentar salvar a posição do governo interino. Este recebeu os franceses com entusiasmo, esperando que a Operação Turquesa impedisse o avanço da FPR e impusesse uma negociação na base de uma partilha do território. Mas o avanço rápido das tropas da FPR e, finalmente, a comoção da opinião pública conseguiram dividir o governo francês. Contra os militares que queriam “quebrar as pernas da FPR” e não escondiam sua solidariedade com seus ex-irmãos de armas hutus “francófonos”, que eles formaram e equiparam, o primeiro-ministro Edouard Balladur decidiu reduzir as ambições dos militares da Operação Turquesa. Obrigados a entrar em contato com a FPR, os militares franceses tiveram que se contentar em criar, no oeste do país, uma “zona humanitária segura” para a qual convergiram todos os grupos extremistas, assim como o governo interino, abrangendo dessa forma milhões de civis hutus.

Impunidade dos responsáveis pelo genocídio

Nessa zona, os franceses foram impotentes para impedir inúmeros massacres, mas recusavam-se a desarmar militares e milicianos. Deixaram de prender os responsáveis pelo genocídio que, em seguida, se refugiaram no Zaire (atual República Democrática do Congo), e não proibiram as transmissões rancorosas da Rádio das Mil Colinas. Os franceses, que trouxeram helicópteros de combate, aviões Jaguar e Mirage, uma centena de blindados e morteiros, mas muito poucos caminhões e medicamentos, viram-se impotentes diante da epidemia de cólera que se iniciou em Goma e atingiu mais de 40 mil refugiados hutus.

Nesse momento, atraída ao local pela presença francesa, pelas facilidades de comunicação e finalmente sensibilizada pela tragédia ruandesa, a imprensa compareceu e as associações humanitárias também. O novo poder instalou-se num verdadeiro deserto: os funcionários do Estado fugiram, levando dossiês, veículos e depósitos bancários. Trezentos mil órfãos vagavam pelo país. Mas a comunidade internacional mostrou-se contrária à intervenção e à ajuda à FPR, uns denunciando o “duplo genocídio”, outros exigindo que o regime desse “garantias de reconciliação”, enquanto os corpos ainda jaziam nas valas.

Na realidade, apesar de suas boas relações com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, a FPR pagava o preço por ter conquistado o poder num país francófono, sem a aprovação das ex-potências coloniais.

Luta entre anglófonos e francófonos
A presença nos campos de Kivu de mais de 2 milhões de refugiados hutus, cercados pelos autores do genocídio e alimentados pela ajuda humanitária, iria por muito tempo desestabilizar a região. Em outubro de 1996, depois de ter pedido em vão ao Alto Comissariado para os Refugiados (Acnur) e às outras agências da ONU para afastar da fronteira de seu país a ameaça que esses campos representavam, Paul Kagame, que dirigia a FPR, lançou uma ofensiva destinada a obrigar o retorno dos refugiados ruandeses e a dispersar os outros através do imenso Zaire (que em seguida se tornou República Democrática do Congo).

Impotente para evitar um genocídio programado e anunciado, a comunidade internacional assistia a um novo episódio da tragédia: depois de sete meses, o marechal Josef Désiré Mobutu, apoiado até o fim pelos franceses, foi derrubado por Laurent Désiré Kabila e seus aliados ruandeses e ugandenses. Até que, em 1998, começou uma nova guerra, continuando os ruandeses na perseguição dos interhahamwe em fuga e, de passagem, pilhando, com seus aliados ugandenses, os recursos do Congo. Ao milhão de mortos do genocídio iriam se juntar mais de 3 milhões de vítimas congolesas, elas também esquecidas, presas na armadilha da guerra, da pilhagem dos recursos naturais e de uma surda luta de influência entre francófonos e anglófonos, visando o controle do coração da África.

Colette Braeckman

jornalista, Le Soir (Bruxelas).

1Hutus, grupo pastoril e guerreiro que compartilha com os tútsis os territórios africanos do Burundi e de Ruanda.

2Lynda Melvern, A People Betrayed: The Role of the West in the Rwanda’s Genocide, Zed books, Londres, 2000; e Gérard Prunier, Histoire d’un génocide, edições Dagorno, 1997.

3Romeo Dallaire, J’ai serré la main du Diable: La faillite de l’humanité au Rwanda, La Libre Expression, Montreal, 2003.

4Allison Desforges, “Aucun témoin ne doit survivre: Génocide au Rwanda”, relatório redigido por Human Rights Watch, Federação Internacional dos Direitos Humanos, Paris, 1999.

Publicado originalmente em 1º de abril de 2004.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

18 de Julho - Dia Internacional de Nelson Mandela -


publicado: http://www.portalangop.co.ao

Luanda - Assinala-se hoje, 18 de Julho, pela quinta vez, o Dia Internacional Nelson Mandela, instituído em Novembro de 2009 pela Assembleia-geral da ONU, devido à contribuição do ex-presidente sul-africano para a cultura da paz e da liberdade.

Por consenso dos 192 países membros, a ONU determinou que, a partir de 2010, se passe a celebrar o Dia Internacional Nelson Mandela, na data do aniversário do dirigente negro que, em 1993, partilhou o Prémio Nobel da Paz com o seu compatriota sul-africano Frederik de Klerk.

A Assembleia-geral decidiu assim reconhecer a contribuição fundamental de Mandela, para a resolução dos conflitos, a liberdade no mundo e a promoção das boas relações entre todos os grupos étnicos.

Reconheceu também a dedicação de Mandela ao serviço da humanidade da resolução de conflitos, relações entre raças, promoção e protecção dos direitos humanos, reconciliação, igualdade entre os sexos e os direitos das crianças e de outros grupos vulneráveis.

Na mensagem do ano transacto, por ocasião da data, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, considerou Nelson Mandela “um combatente da liberdade, um prisioneiro político, um pacifista e um presidente. Curador de nações e mentor para gerações (…) Nelson Mandela é um símbolo vivo de sabedoria, coragem e integridade”.

"O próprio Nelson Mandela disse certa vez: Nós podemos mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Está em nossas mãos fazer a diferença”, cita o Secretário-geral, apelando às pessoas a tornar realidade esta mensagem.

No documento Ban Ki-Moon diz que “a melhor forma de agradecer Nelson Mandela pelo seu trabalho é agir e inspirar a mudança”.

Nelson Rolihlahla Mandela nasceu no dia 18 de Julho de 1918 na cidade de Transkei, é filho de Henry Mgadla Mandela e Noseki Fanny. Coordenou, em 1961, uma campanha de sabotagem contra alvos militares e do governo e viajou para a Argélia para treinamento paramilitar.

Em Agosto de 1962, Nelson Mandela foi preso após informações da CIA à polícia sul-africana, sendo sentenciado a cinco anos de prisão por viajar ilegalmente ao exterior e incentivar greves.
Em 1964 foi condenado a prisão perpétua por sabotagem (o que Mandela admitiu) e por conspirar para ajudar outros países a invadir a África do Sul (o que Mandela nega).
No decorrer dos 27 anos que ficou preso, Mandela se tornou de tal modo associado à oposição ao apartheid que o clamor "Libertem Nelson Mandela" se tornou o lema das campanhas anti-apartheid em vários países.

Durante os anos 70, ele recusou uma revisão da pena e, em 1985, não aceitou a liberdade condicional em troca de não incentivar a luta armada.

Mandela continuou na prisão até Fevereiro de 1990, quando a campanha do ANC e a pressão internacional conseguiram que ele fosse libertado em 11 de Fevereiro, aos 72 anos, por ordem do presidente Frederik Willem de Klerk.

Em 1993 Nelson Mandela candidatou-se à presidência da África do Sul e foi eleito, exercendo o cargo de 1994 a 1999.

Como presidente do ANC (de Julho de 1991 a Dezembro de 1997) e primeiro presidente negro da África do Sul (de Maio de 1994 a Junho de 1999), Mandela comandou a transição do regime de minoria, o apartheid, ganhando respeito internacional pela sua luta em prol da reconciliação interna e externa.

Após o fim do mandato de presidente, Mandela recebeu muitas distinções no exterior, incluindo a Ordem de St. John, da Rainha Elizabeth 2ª, a medalha presidencial da Liberdade, de George W. Bush, o Bharat Ratna (a distinção mais alta da Índia) e a Ordem do Canadá.

Nelson Mandela recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias à Cooperação Internacional (1992), Ordem de Mérito do Reino Unido (1995), Prémio Lenin da Paz (1962), Prémio Internacional Simón Bolívar (1983) e Prémio Nacional da Paz (1995)

Em 2003, Mandela fez alguns pronunciamentos, atacando a política externa do presidente norte-americano Bush. Ao mesmo tempo, ele anunciou o seu apoio à campanha de arrecadação de fundos contra a AIDS chamada "46664" - seu número na época em que esteve na prisão.

Em Junho de 2004, aos 85 anos, Mandela anunciou a sua retirada da vida pública.

Morte

No dia 5 de Dezembro de 2013 o presidente sul-africano Jacob Zuma anunciou a morte do seu antecessor: "A nação perde o seu maior líder", completando: "Ainda que soubéssemos que esse dia iria chegar, nada pode diminuir o nosso sentimento de perda profunda"; declarando luto nacional.

No anúncio presidencial, feito pela televisão, Zuma disse: "Ele está agora a descansar. Ele está agora em paz. A nossa nação perdeu o seu maior filho. O nosso povo perdeu um pai".

Na página oficial de Mandela, na rede social Facebook, foi colocada uma mensagem sua, de 1996, em várias línguas - inclusive em português, dizendo: "A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade."

Como seu epitáfio, Mandela havia um dia declarado que gostaria de ter escrito somente: "Aqui jaz um homem que cumpriu o seu dever na Terra".

Funeral

Após o anúncio da morte do líder, uma multidão se aglomerou diante da porta de sua casa em Joanesburgo, bem como diante da sua antiga residência em Soweto. Já no dia 6 os bancos do país fecharam as suas portas em sinal de luto, e o arcebispo emérito Desmond Tutu o homenageava em cerimônia religiosa.

De acordo com as tradições Xhosa, um membro masculino deve permanecer ao lado do corpo durante o funeral; este papel coube ao neto mais velho, Mandla Mandela.

A cerimônia religiosa foi efetuada no antigo Soccer City, celebrada no dia 10 de Dezembro de 2013.


terça-feira, 15 de julho de 2014

Lázaro Ramos: Momento de Ajuste

Lázaro Ramos percebeu em si próprio as mesmas questões que ecoaram nas ruas
Texto: Pedro Só | Fotos: jorge bispo
publicado: revista Trip



Um dos atores mais populares e elogiados de sua geração, Lázaro Ramos, 35 anos, percebeu que estava vivendo pessoalmente a mesma angústia que detonou as manifestações de rua no Brasil em junho de 2013. assim como todo o país, em 2014 ele parou para ver a Copa e se emocionar com momentos como o choro do goleiro Júlio César. Nas próximas páginas, um papo sobre tudo: infância em Salvador, racismo, teatro, primeira vez, casamento, religião, política, celebridade – e a busca por um sentido na profissão: “Não quero ficar obsoleto”

“A grande alegria de trabalhar é poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas andarem com as próprias pernas. pagar plano de saúde, ajudar um primo na faculdade”

“Alguém nos ajude, Lázaro, a entender...” A frase do cantor Criolo sobre a ascensão da classe C no país foi ao ar em março de 2013 no programa Espelho, que Lázaro Ramos comanda no Canal Brasil há nove temporadas. Por caprichos internéticos, um ano depois, trecho dessa entrevista foi viralizado nas redes sociais, enfatizando o discurso aparentemente desconexo do rapper paulistano. Mas, para além do meme repetido com efeito humorístico, há uma discussão séria e central entre os interesses e a trajetória do politizado ator baiano de 35 anos, reconhecido como um dos melhores e mais populares de sua geração.

Filho de um namoro de Carnaval entre Célia, empregada doméstica morta em 1999, e Ivan, ex-operador de máquinas do polo petroquímico de Camaçari, hoje com 59 anos, ele passou a infância na casa da madrinha, Helenita, de 90 anos.

A convivência com o pai era boa e constante, nos fins de semana. “Como funcionário de Camaçari, ele não levava vida de luxo, mas todo sábado tinha almoço em restaurante, nunca faltou presente de aniversário ou Natal. Aí veio o Collor...”. Sob nova realidade econômica, Lázaro saiu da escola particular para a pública. Depois, aos 14 anos, foi morar com o pai – sem restaurante no sábado.

O adolescente Lázaro fez teatro na escola pública, a Anísio Teixeira. Como só podia frequentar o curso de teatro quem fizesse um outro curso profissionalizante, ele foi cursar patologia clínica. Um emprego no Hospital Ramiro de Azevedo o ajudou a dar apoio à mãe, que sofria de uma doença degenerativa limitadora dos movimentos, em seus últimos anos de vida. A morte dela abalou Lázaro, mas não o impediu de, pouco mais de um ano depois, em 2000, ganhar projeção nacional ao lado dos amigos Wagner Moura e Vladimir Brichta com uma montagem de A máquina, de João Falcão.

Na TV, que o cooptou depois que protagonizou o filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, em 2002, ele foi conquistando espaços com competência e versatilidade. Em Elas por elas(2012), quebrou barreiras como o primeiro protagonista negro de uma novela. Hoje vive o guru pop Brian Benson, em Geração Brasil. Mas o cinema é sua área de atuação mais frequente. Está em cartaz com O vendedor de passados (direção de Lula Buarque de Holanda), baseado no romance do angolano José Eduardo Agualusa. Em breve será visto também em O Grande Kilapy (de Zezé Gamboa), coprodução Brasil-Portugal-Angola, em que interpreta um malandro africano. Em 2015, estará em O grande circo místico, sob a direção de Cacá Diegues.

Outro projeto que gera muita expectativa é Acorda Brasil (cujo título pode ser mudado ainda), dirigido por Sergio Machado. Baseado na experiência do maestro Silvio Bacarelli na favela de Heliópolis, em São Paulo, o filme obrigou Lázaro a contracenar com adolescentes inexperientes e dar vazão à inquietude que rege sua carreira. Lázaro diz que as grandes transformações que teve enquanto ator “vieram de provocações que os filmes lhe fizeram: Madame Satã, O homem que copiava, Cidade Baixa, Ó paí, ó...”. Ser colocado à prova, no abismo, dá medo. Mas traz recompensas definitivas. “Esse medo está aqui em mim, mas ao mesmo tempo tem o sagrado do teatro, que fala: ‘Se joga no abismo, rei! Vá lá! Você não tem nada a perder!’. E aí tem que tirar uma coragem do [põe a mão na boca e fala baixinho] cu pra poder seguir, bicho! Porque dá um medo, rapaz! Mas é bom! É isso que mantém a gente vivo.”

"As grandes transformações da que tive enquanto ator vieram de provocações que os filmes fizeram: Madame Satã, Cidade Baixa..."

Morando no Rio de Janeiro há 14 anos, casado com a atriz Taís Araújo – um relacionamento iniciado há quase dez anos, com oito meses de interrupção em 2008 – e pai de João Vicente, 3 anos, Lázaro não se contenta em apenas atuar. Em 2010, lançou o livro infantil A Menina Sentada (depois adaptado para o teatro). Em 2011, dirigiu a peça Namíbia, não!(de Aldri Anunciação) e, no começo deste ano, estreou a peça As Pocorotas, também voltada para crianças. Tem lido livros técnicos sobre roteiro, já com alguns projetos cinematográficos em mente. E sem esquecer as convicções políticas.

Que passam por ideias como as do sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, entrevistado por Lázaro neste ano no programa Espelho. O autor deBatalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? questiona a classificação estabelecida a partir de critérios estritamente econômicos. “Ele fala: ‘Peraí! Vamos ver! O que é a ascensão da classe C? Que valor é esse que a gente teve agora?’. Eu gostaria de avisar a todos: para você que não entendeu o Criolo, veja a entrevista do Jessé.”

Vamos do começo, sua infância. Sua mãe era empregada doméstica, certo? Sim. Minha mãe trabalhava, minha família toda, então a maioria das crianças foi criada por uma mulher chamada Helenita, que todo mundo chama de Dindinha e que fez 90 anos há duas semanas. Uma mulher que nunca teve filhos, mas pegava os sobrinhos e sobrinhos-netos e criava, dava educação. Minha mãe trabalhava numa vizinha ao lado. Tive muito contato com essa patroa, os netos da patroa. Claro que com os limites de um filho de empregada.

A Dindinha criou você? Isso. A mãe tava ali próxima, mas Dindinha foi a grande educadora da família toda.

Vocês ainda têm contato? Sim, e ajudo, ela é minha família. A grande alegria que eu tenho, de poder trabalhar com frequência, é poder participar, poder potencializar minha família, colaborar pras pessoas caminharem com suas próprias pernas. Felizmente eu tenho a possibilidade de fazer isso hoje. Pagar plano de saúde, poder ajudar um primo na faculdade.

Você diria que teve uma infância feliz? Tive uma infância feliz, muito protegida, numa casa com quintal. Mas fui um menino criado dentro de casa, a gente não podia sair, as crianças brincavam com a gente no quintal de Dindinha. Era tudo muito regrado, não tinha palavrão, não tinha essa de escolher o que comer. Ao mesmo tempo, dava muita autoestima, e isso foi muito legal. Eu fui perder a inocência sobre a dureza da vida quando saí da casa dela. Aí que eu fui entender mais ou menos como era o mundo. Mas lá era assim, autoestima, me chamavam de capaz, me estimulavam, uma família de pessoas bem-humoradas, minha mãe inclusive. No túmulo da minha mãe tem a frase “Nunca esqueceremos seu sorriso”, que é uma frase marcante, né? Engraçado que até hoje encontro gente que foi amigo ou amiga da minha mãe e fala sempre isso: “Sua mãe era muito engraçada”. Isso contamina a família, me contaminou também.

E como eram as questões materiais? Tinha presente de aniversário, Natal? Tem duas fases. A fase farta é quando meu pai era do polo petroquímico de Camaçari, operador de máquinas. Não era uma vida com luxo, mas tinha presente de aniversário, ir a um restaurante todo sábado. Aí veio o [Fernando] Collor e muda tudo: saí de escola particular e fui pra escola pública... sou filho da época da inflação. Dinheiro era um negócio que perdia o valor rapidamente, a gente saía do banco e ia correndo comprar as coisas. Depois do Collor, cortamos todos os supérfluos, não tinha restaurante, virou outra vida.

Em que bairro você morava? Na Federação era a casa de Dindinha. E no Garcia ficava a casa do meu pai, com quem fui morar aos 14 anos. Ele ainda não era casado, mas ele já tinha a casa dele e tal. Meus pais nunca foram casados, sou filho de namoro de Carnaval: nasci em novembro, nove meses depois do Carnaval. Sou escorpião.

E a relação com seu pai foi boa? Sempre foi muito boa. Meu pai é um homem que passou por uma grande transformação. Ele nunca foi um homem afetivo, era mais disciplinador, muito correto, muito justo, eu tinha medo dele. Mais adulto, quando saí de casa e fui seguir a vida, a gente foi criando uma relação afetiva que eu nem sei o que é que disparou. Hoje a gente é amigo, tem uma relação que não é nem parecida com o que era na infância. Meu pai não queria que eu fosse ator. Muitos anos depois ele veio me dizer: era medo, imagina profissão de ator, vai sobreviver como? De quê? Ele sempre quis que eu fizesse

 escola técnica.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Viva Rosa Parks! Nos EUA, lei que proíbe segregação racial completa meio século


publicado:gazeta.com.br

Costureira negra Rosa Parks, que recusou ceder lugar no ônibus para um branco, é lembrada como símbolo da luta por igualdade
O “não” dela mudou a história dos EUA. Rosa Parks, a costureira negra de Mont­­gomery, no estado do Ala­­ba­­ma, que se negou em 1955 a ceder lugar no ônibus para um branco, é um dos símbolos do movimento que deu força à comunidade afro-americana para brigar por igualdade.

A lei de Direitos Civis que proibiu a discriminação nos EUA completou ontem meio século. Foi uma das maiores conquistas do movimento baseado na ação pacífica e na voz de líderes como Martin Luther King e Rosa Parks.


Na cidade de Montgomery, núcleo desse movimento histórico, o vigia do cemitério de Oakwood guarda exemplos dessa história.

“Nessa região, só há afro-americanos enterrados. [As cores] não podiam se misturar”, explica diante das sepulturas mais rústicas, nas quais estão os corpos de escravos do século 19 e de “cidadãos de segunda” do século 20.

No segregado sul do país, os negros nasciam em hospitais separados, não podiam estudar nas escolas dos brancos, nem viajar sentados, nem comer em restaurantes, nem usar o mesmo banheiro público.

Os pais de Linda Brown, uma menina de sete anos do Kansas, não aceitavam que a filha viajasse diariamente até uma afastada escola para negros pois dispunham de uma instituição pública no bairro em que viviam (mas que era para brancos).

O caso dos Brown chegou ao Supremo Tribunal e, em 1954, a máxima instância judicial dos Estados Unidos deu razão ao casal: haver escolas só para brancos e outras só para negros era inconstitucional.

Conquistas

Em pouco mais de uma década, os afro-americanos, por meio dos advogados da Associação Nacional para o Avanço de Gente de Cor (NAACP, na sigla em inglês), conseguiram que a justiça desbancasse as escolas segregadas, além dos ônibus, as estações e os trabalhos reservados aos brancos. Martin Luther King Jr. foi testemunha das grandes mudanças legislativas e premiado com o Nobel da Paz, mas também acabaria morto com um tiro em 1968, aos 39 anos.