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quarta-feira, 18 de março de 2015

Centro Cultural Humaitá construindo sua Sede

Adegmar José da Silva, o Candiero, circula sob o vão do viaduto do Capanema: projeto será realizado pelo Centro Cultural Humaitá “na raça” em até três anos. | Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
 publicado:gazeta do povo


Centro de cultura afrobrasileira vai ocupar, com escolas de arte e biblioteca, espaço abandonado sob o Viaduto do Capanema
Um dos espaços urbanos mais degradados de Curitiba, o vão sob o Viaduto do Capanema entre os trilhos do trem e a Avenida Omar Sabbag, está em vias de renascer.
A prefeitura concedeu o uso do espaço ao Centro Cultural Humaitá (CCH), uma entidade que atua há treze anos na pesquisa da arte e cultura afro-brasileira através de projetos sociais.
O acordo prevê um prazo de um ano para que o CCH apresente o projeto da revitalização do local com o plano de custeio e alvará de construção. O grupo terá três anos para concluir as obras e será responsável pela manutenção, segurança e encargos tributários do imóvel.
No próximo sábado (21), a prefeitura e voluntários do CCH vão iniciar um mutirão para a limpeza do espaço, que nos últimos anos tem servido como casa precária para moradores de rua e mocó para usuários de drogas. O projeto da reforma já foi encomendado ao arquiteto Homero Réboli, que não vai cobrar nada pelo trabalho.
Segundo o atual presidente do CCH, Adegmar José da Silva –o Candiero –, a ideia é criar um centro que disponha de teatro, uma biblioteca temática, oficinas e escola de arte, música, capoeira, esportes, vivências culturais, exposições e eventos abertos à comunidade todos os dias da semana.
Para Candiero, o centro terá a missão de unir dois extremos: cultura ancestral e cultura digital. “A ideia é criar um ponto de convergência entre a rua e a academia, entre a cultura popular e a erudita. Usar um espaço no coração da cidade para valorizar e dar visibilidade à história e cultura afrobrasileira em Curitiba e no Paraná”, disse.
“É um espaço histórico de convergência da cidade”
Presidente do Centro Cultural Humaitá, o ativista social e mestre de capoeira Adegmar José da Silva, o Candiero, afirma que a instalação do centro cultural no Capanema vai ajudar a dar visibilidade à presença do negro na formação da identidade curitibana. Leia a matéria completa
Para financiar a primeira fase do projeto, o CCH articula o lançamento de uma campanha de financiamento coletivo. “É uma estratégia possível para iniciar o trabalho até que a gente consiga parceiros públicos e privados, que só vão investir depois que a nossa estrutura estiver funcionando.”
Vila Tassi
Candiero observa que a localização da futura sede do CCH tem um forte significado para a comunidade negra de Curitiba. “Aqui ficavam as três arvores da antiga Vila Tassi, onde os ferroviários faziam seus batuques no fins de tarde. Foi o berço do samba em Curitiba, que deu origem à escola de samba Colorado e à bateria Boca Negra. Maé da Cuíca morava a cem metros daqui”, ressalta.
Ele avalia que a concessão do imóvel foi uma vitória obtida “pelo cansaço”. O primeiro pedido do uso do espaço foi feto em 2001 pelo rapper Don Joey, com inspiração no uso deste tipo de construção outras cidades. Desde então, o grupo protocolou pedidos todos os anos, todos negados. “Em 2014, o grupo perdeu o espaço que tinha na reitoria da UFPR, e essa necessidade fez com que uníssemos as forças para turbinar o pedido. Ligávamos toda a semana para a prefeitura e agora conseguimos ”, disse.

*21 de março é o dia em que será dado o pontapé inicial da reforma, um mutirão de limpeza promovido pela prefeitura e voluntários. O Humaitá tem prazo de três anos para concluir as obras.

 

sábado, 25 de outubro de 2014

CARTA DO MOVIMENTO NEGRO BRASILEIRO -

A eleição presidencial de 2014 é um momento singular da vida política do Brasil, especialmente para a população negra. Não podemos permitir retrocessos e nem a volta dos grupos conservadores e contrários às ações afirmativas.
É preciso garantir o emprego e ascensão econômica, política e social da população negra. Trata-se de medida fundamental de combate ao racismo e às desigualdades sociais.
por isso defendemos mais investimentos e melhoria da qualidade do ensino público e do Sistema Único de Saúde, tendo em vista o avanço das ações afirmativas na educação e na saúde.

O Pré-Sal é importante para o desenvolvimento do País e deve ser estrategicamente utilizado para a melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro. Por isso, apoiamos a decisão do Governo Federal de destinar recursos do Pré-Sal para o financiamento e melhoria da educação e da saúde.
O extermínio seletivo da juventude negra é uma questão aguda a ser enfrentada e resolvida de forma consistente e imediata. Exigimos ações decisivas a fim de extirpar as causas e efeitos desse fenômeno nefasto em nossa sociedade.

Defendemos uma reforma política democrática e com a efetiva participação do povo e que resulte no aumento significativo da presença negra no Executivo e no Legislativo.
Defendemos o recorte orçamentário exclusivo para o fomento e preservação da cultura negra, bem como a democratização dos meios de comunicação, incentivo à produção artística e audiovisual da cultura afro-brasileira.

É necessário acelerar o processo de titulação das terras quilombolas e demais segmentos da população negra, nas áreas urbanas e rurais do País, assim como garantir a implementação de políticas públicas nas comunidades reconhecidas e tituladas, assegurando as condições necessárias para o nosso desenvolvimento.

Defendemos a continuidade das ações e programas que asseguram o fortalecimento da agricultura familiar, bem como a ampliação e o aperfeiçoamento de medidas que assegurem o atendimento qualificado da população negra.
A intolerância religiosa contra as religiões de matriz africana é uma afronta à democracia e aos direitos humanos consagrados na Constituição Brasileira. Defendemos o Estado Laico, a liberdade religiosa e o respeito aos povos e comunidades tradicionais de matriz africana.

É preciso garantir a aprovação de novo marco legal que proteja os direitos fundamentais dos Povos de Terreiros, povos e comunidades tradicionais de matriz africana, quilombolas, indígenas, ciganos e demais comunidades tradicionais.
O racismo, a pobreza e o machismo impactam a cidadania das mulheres negras e as mantêm em situação cotidiana de violências física e psicológica.
Entendemos que o Programa de Governo iniciado em 2003, com o Presidente Lula, é fortemente comprometido com a pauta política do movimento negro brasileiro, motivo pelo qual as organizações signatárias desta carta apoiam a reeleição da Presidenta Dilma Rousseff.

ACBANTU – Associação Nacional Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu
APNs – Agentes de Pastoral Negro do Brasil
ARATAMA – Articulação Amazônica de Povos Tradicionais de Matriz Africana
BLOCO AFRO ILÊ AIYÊ
BLOCO AFRO OLODUM
CCN – Centro de Cultura Negra do Maranhão.
CENARAB – Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira
CEN – COLETIVO DE ENTIDADE NEGRA
CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Entidades Negras Rurais Quilombolas
CONERUQ – Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão
CONEN – COORDENAÇÃO NACIONAL DAS ENTIDADES NEGRAS
ENEGRECER – Coletivo Nacional da Juventude Negra
FALA PRETA – ORGANIZAÇÃO DE MULHERES NEGRAS
FÓRUM AMAZÔNIA NEGRA
FÓRUM DE MULHERES NEGRAS
FÓRUM NACIONAL DE JUVENTUDADE NEGRA
MALUNGU – Coordenação das Associações das Comunidades Remanescente de Quilombo do Pará
MUDA – Movimento Umbanda do Amanhã
REDE NACIONAL DE RELIGIÕES AFROBRASILEIRAS E SAÚDE
REDE KÔDYA – Rede de Comunidades Organizadas da Diáspora Africana pelo Direito Humano à Alimentação.
SOCIEDADE PROTETORA DOS DESVALIDOS
UNEGRO – UNIÃO DE NEGROS PELA IGUALDADE”

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Aimé Césaire - e a Negritude

Aimé Fernand David Césaire (Basse-Pointe, Martinica, 26 de junho de 1913 — Fort-de-France, 17 de abril de 2008) foi um poeta, dramaturgo, ensaísta e político da negritude.
Além de ser um dos mais importantes poetas surrealistas no mundo inteiro, inclusive no dizer do líder deste movimento, Breton, Aimé Césaire foi, juntamente ao Presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor, o ideólogo do conceito de negritude, sendo a sua obra marcada pela defesa de suas raízes africanas.
Filho de um pequeno funcionário e uma costureira, tendo sido um estudante brilhante na Martinica, departamento ultramarino insular francês no Caribe, Césaire conquistou uma bolsa de estudos no Liceu Louis Le Grand, em Paris. Estudante em Paris, junto a outros estudantes, entre ele Léopold Sédar Senghor, funda o jornal L'Étudiant noir " (O Estudante negro), no ano de 1934. Nas páginas deste jornal aparece pela primeira vez o conceito de "negritude", formulando dentro da própria França uma crítica à opressão cultural do sistema colonial francês, não sendo propriamente um projeto político 1 .

Já tendo iniciado a produção da sua obra "Cahier d'un Retour au Pays Natal", casa-se em 1937 e regressa à Martinica em 1939, onde leciona na área de Letras, na qual se formou. Na martinica funda a revista "Tropiques", com um projeto de reapropriação do patrimônio cultural martiniquês.

Tendo Breton passado pela Martinica durante a II Grande Guerra, conhece a poesia, fica fascinado com a poesia de Césaire, e prefacia o livro "Les Armes Miraculeuses" (As Armas Miraculosas) de 1941.

Unido agora ao Surrealismo, Césaire viaja ao Haiti como adido cultural, e sua estada lá passará a marcar sua obra, inspirando-se no único país que conquistou a sua independência através de uma revolução feita por escravos negros.

Retornando à Martinica, embora o centro de sua vida fosse, então, a vida literária, foi pressionado pelas lideranças comunistas, que viam nele um símbolo. A partir daí, foi presidente da câmara (prefeito) de Fort-de-France e deputado, entre 1945 e 2001 e fundador de um partido chamado "progressista", decidido a instaurar a autonomia e um socialismo independente na Martinica, contrário ao comunismo tendente ao colonialismo de Stálin.

Em 1946, o político Césaire seria o relator da lei que elevava à categoria de Departamentos Franceses várias das suas colônias ultramarinas.

Em 1950, funda, em Paris, a revista "Presences Africaines "(Presença Africana), onde publica "Discurso sobre o colonialismo ", tecendo uma dura crítica ao colonialismo e ao racismo europeu, comparando-os ao nazismo, e conclamando os intelectuais europeus a se manifestarem sobre o assunto.

Sempre próxima do Surrealismo, embora mais precisa e concisa, portanto mais racional na construção do texto, a partir de um dado momento, a obra de Césaire era considerada por ele próprio mais influenciada por Rimbaud e Lautréamont, precursores do Surrealismo, além de Mallarmé e a poesia negra dos EUA  .

Sua obra foi traduzida para várias línguas como o inglês, o alemão, o espanhol, etc, sendo sua obra reconhecida através de vários colóquios organizados no mundo inteiro.
Œuvres complètes (três volumes), Fort-de-France, 1976.
Poesia
Cahier d'un retour au pays natal, Paris, 1939
Les Armes miraculeuses 1946
Soleil cou coupé 1947
Corps perdu (desenhos de Picasso), Paris, 1950
Ferrements, Paris, 1960
Cadastre, Paris, 1961
Moi, laminaire, Paris, 1982
La Poésie, Paris, 1994
Teatro
Et les chiens se taisaient, Paris, 1958
La Tragédie du roi Christophe, París, 1963
Une saison au Congo, París, 1966
Une tempête, d'après 'La Tempête de William Shakespeare: adaptation pour un théâtre nègre), París, 1969
Ensaios
Esclavage et colonisation, París, 1948.
Discours sur le colonialisme, Paris, 1955.
Discours sur la négritude, 1950
História
Toussaint Louverture, La révolution Française et le problème colonial, París, 1962
Aimé Césaire, Paris, "Les Voix de l'écriture", 1994
Sobre Aimé Césaire 
CAILLER, Bernadette. Proposition poétique: une lecture de l'œuvre d'Aimé Césaire, Sherbrooke (Québec), 1976.
CARPENTIER, Gilles. Scandale de bronze: lettre à Aimé Césaire, París, 1994.
CONFIANT, Raphaël. Aimé Césaire. Une traversée paradoxale du siècle, Paris, 1994.
DELAS, Daniel. Portrait littéraire, Paris, 1991.
HALE, Thomas A. Les écrits d'Aimé Césaire, Bibliographie commentée, en “Etudes françaises”, t. XIV, n° 3-4, Montréal, 1978.
HENANE, René. Aimé Césaire, le chant blessé: biologie et poétique, Paris, 2000.
HOUNTONDJI, Victor M. Le Cahier d'Aimé Césaire. Eléments littéraires et facteurs de révolution, Paris, 1993.
KESTELOOT, Lilyan. Aimé Césaire, París, 1979.
LEBRUN, Annie. Pour Aimé Césaire, París, 1994.
LEINER, Jacqueline. Aimé Césaire: le terreau primordial, Tübingen, 1993.
LOUIS, Patrice. Aimé Césaire. Rencontre avec un nègre fondamental, París, 2004.
MALELA, Buata B., Les écrivains afro-antillais à Paris (1920-1960). Stratégies et postures identitaires, Paris, Karthala, coll. Lettres du Sud, 2008.
MALELA, Buata B., Aimé Césaire. Le fil et la trame: critique et figuration de la colonialité du pouvoir, Paris, Anibwe, 2009.
MBOM, Clément. Le Théâtre d'Aimé Césaire ou La primauté de l'universalité humaine, Paris, 1979.
MOTOUSSAM, Ernest. Aimé Césaire: député à l'Assemblée nationale, 1945-1993, Paris 1993.
NGAL, Georges. Aimé Césaire, un homme à la recherche d'une patrie, Paris, 1994.
NNE ONYEOZIRI, Gloria. La Parole poétique d'Aimé Césaire: essai de sémantique littéraire, Paris, 1992.
OWUSU-SARPONG, Albert. Le Temps historique dans l'œuvre théâtrale d'Aimé Césaire, Sherbrooke (Québec), 1986.
SONGOLO, Aliko. Aimé Césaire: une poétique de la découverte, Paris, 1985.
TOUMSON, Roger e HENRY-VALMORE, Simonne. Aimé Césaire, le nègre inconsolé, Paris, 1994.
TOWA, Marcien. Poésie de la négritude: approche structuraliste, Sherbrooke (Québec), 1983.
Obras coletivas
TSHITENGE Lubabu Muitibile K. (editor). Césaire et Nous. Une rencontre entre l'Afrique et les Amériques au XXIe Siècle , Bamako, 2004.
Centre césairien d'études et de recherches. Aimé Césaire. Une pensée pour le XXIe S. , Paris, 2003.
Aimé Césaire ou l'Athanor d'un alchimiste: Atas do primeiro encontro internacional sobre a obra literária de Aimé Césaire, Paris, 21-23 de novembro de 1985, Paris, 1987.
Aimé Césaire, n° especial 832-833, Paris, 1998.
Césaire 70, trabalhos reunidos e apresentados por Mbwil a Mpaang e Martin Steins, París, 2004.
LEINER, Jacqueline (editor). Soleil éclaté: mélanges offerts à Aimé Césaire à l'occasion de son soixante-dixième anniversaire, Tübingen, 1985.
THEBIA-MELSAN, Annick e LAMOUREUX, Gérard (editores). Aimé Césaire, pour regarder le siècle en face, París, 2000.
TOUMSO, Roger e LEIER, Jacqueline (editor). Aimé Césaire, du singulier à l'universel (Atas do encontro internacional de Fort-de-France, 28-30 de junho de 1993), n° especial de ”Œuvres et Critiques”, 1994.
Filmografia a respeito do autor
1976: Martinique, Aimé Césaire, un homme une terre (52mn — documentário de Sarah Maldoror escrito por Michel Leiris), CRS, “Les amphis de la cinquième”
1986: Miami, Martinique, Aimé Césaire, le masque des mots (52mn — documentário de Sarah Maldoror)
1994: Aimé Césaire, une voix pour l'histoire (quatro partes), de Euzhan Palcy

terça-feira, 16 de setembro de 2014

“Luta contra racismo é necessariamente luta de classe”, diz Edson

publicado: geledes.org.br


O militante do movimento negro e também historiador se refere ao tema da Conferência “Democracia e Desenvolvimento sem racismo: Por um Brasil Afirmativo”. Apesar dos 10 anos de avanços após a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), que promove a Conferência, o movimento negro aponta para uma guinada no debate sobre conceitos e temas caros à população negra como economia e democracia, mas que ainda não têm recebido a devida atenção do movimento.

“É um tema muito caro para nós da Unegro. Porque obriga o movimento negro, a partir de seu olhar, pensar na nação. Você não discute desenvolvimento e democracia pensando somente em uma parcela da sociedade. Portanto, obriga o movimento a avançar na pauta que é exclusivamente racial e pensar como maioria populacional já que somos 50,6% da nação e pouco temos contribuído para a estratégia nacional”, explicou.

Democracia sob a ótica do movimento negro
Discutir a questão racial de uma forma mais abrangente é um dos objetivos da Unegro durante a Conferência.”Nos acreditamos que o movimento negro sairá com um nível maior de entendimento, de como estruturar sua luta daqui para frente. Não vamos ficar presos ao campo da política publica e ao campo da denúncia. Vamos pensar um pouco o Brasil. Porém, com uma limitação obviamente porque o movimento social negro nunca fez essa reflexão. Se tem é algo individual, isolado. O movimento negro tem uma dificuldade crônica, por exemplo, de discutir um tema como Economia e de considerar esse debate importante para a questão. O movimento também subestima a discussão da democracia também, entende democracia de uma maneira muito limitada”, pondera Edson França que acredita que o racismo não será combatido somente com políticas públicas. “Nos temos que construir uma nação diferente, mais inclusiva, são outras dimensões de luta, de reivindicação de construção”, completa.

O principal gargalho do movimento negro é a representatividade nos espaços de representação: “Temos direito ao voto e tudo aquilo que a democracia formal oferece à população negra. Mas, precisamos avançar na representação de negros e negras nos espaços de poder. Vamos chamar a atenção, para um maior envolvimento do movimento com a reforma política, por exemplo”.

A sub-representação da população negra é absolutamente evidente. Apenas 8% dos parlamentares brasileiros são negros. Dos atuais 40 ministérios do Governo Dilma, somente um é liderado por uma mulher negra, que é justamente a Seppir. Das 50 maiores estatais brasileiras, apenas uma delas tem um negro na presidência.

Cotas

Outro ponto que será amplamente debatido na conferência são cotas raciais e sociais. Edson lembra que ainda não é uma luta vencida. “Apesar de haver uma lei federal, não temos em todos os estados, em todos os municípios. Além disso, precisamos dar condições aos estudantes que entram a partir da lei de cotas. Não adianta ter cota e não ter dinheiro para a condução ou para as refeições. Então é preciso consolidar essas políticas”, avalia.

A violência contra a juventude negra também é um tema bastante caro à Conferência. “Estamos com um problema grave que seremos cobrados pelos historiadores no futuro, que é o extermínio da juventude negra. A presidenta Dilma, inclusive, reconheceu esse problema recentemente”, destaca Edson, referindo-se ao assassinato do estudante Douglas Rodrigues, 17 anos, no domingo (27/10) por um policial militar na zona norte de São Paulo.

A questão quilombola também será abordada pelos militantes da Unegro durante a Conferência. “Atualmente, existem 2600 comunidades quilombolas. Dessas, nem uma dezena chegou a ser reconhecida. Tivemos um retrocesso”, lamenta Edson. Segundo o presidente da Unegro, a judicialização dos processos é o maior impeditivo para a regularização dos territórios quilombolas.

Deborah Moreira
Da redação do Vermelho

sábado, 13 de setembro de 2014

Dilma pretende ampliar programa de combate à violência contra negros

Da Agência Brasil Edição: Fernando Fraga
foto:arquivo Edson França
A candidata à reeleição Dilma Rousseff afirmou hoje (13) que pretende ampliar o programa de combate à violência contra jovens negros. Dilma reuniu-se neste sábado (13) com integrantes do Movimento Negro, em Nova Lima (MG).

Durante o encontro, a candidata afirmou que a promessa será cumprida por meio da ampliação do atual Programa Juventude Viva. Segundo Dilma, além da política pública, a construção de valores também fará parte da proposta.

"O Brasil precisa de valores, se não tivermos a cultura de valores criamos a cultura do confronto e da violência. Nesse caso em que a pessoa que falou um imenso preconceito contra o negro teve sua casa queimada, isso também não é correto. Isso é a perda de valores civilizatórios", declarou a candidata.

Além da proteção aos jovens negros, Dilma voltou a defender a criminalizarão da homofobia e garantiu que vai continuar o combate à violência contra as mulheres. "Não se pode matar, praticar violência e dano físico ou agressão por conta da orientação sexual de uma pessoa”, disse.

Dilma também lembrou de outras ações afirmativas, como a Lei das Cotas nas universidades e a norma que reserva 20% das vagas em concursos públicos para candidatos negros. "Me orgulho muito da Lei de Cotas nas universidades, que garante que as universidades que eram eminentemente brancas tenham agora, progressivamente, a cor do Brasil, que é essa miscigenação que nós representamos e essa diversidade racial. Da mesma forma eu me orgulho também da lei que garantiu para o serviço público federal que 20% têm de começar a ser preenchido por população afrodescendente", disse.

Segundo Dilma, a Lei dos Royalties, que destina parte dos ganhos para a educação, também vai trazer benefícios ao movimento negro. "Pois vocês fiquem sabendo que ela é estratégica, sim, porque ela vai mudar esse país nós próximos dez anos, porque foi o movimento social, o movimento dos negros, das mulheres, dos sindicatos, dos jovens, que construíram essa possibilidade fantástica que é transformar petróleo em educação", concluiu.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Presidenta da Unegro sofre abuso da Polícia Militar

por: Dennis de Oliveira
publicado: revista Fórum

O episódio abaixo, relatado por uma dirigente do movimento negro de São Paulo, é uma demonstração de que a democracia e o Estado de direito ainda não chegaram para negros, negras e moradores de periferia. Prevalece ainda uma ação policial típica de ditadura militar, com abordagens que desrespeitam os direitos humanos e seletivas pela cor da pele. Pior ainda que as reações destes agentes quando os cidadãos simplesmente exigem o cumprimento dos seus direitos demonstram não um “despreparo” mas sim uma concepção autoritária e violenta de trato com as pessoas, inclusive mulheres.

Mais preocupante ainda é o fato de que esta prática policial que tem sido a principal responsável pelo genocídio da juventude negra, expresso nos assassinatos de Cláudias e desaparecimento de Amarildos nas periferias afora do Brasil, recebe apoio de parcela significativa da sociedade. Era o caso da sociedade civil se mobilizar contra esta atitude que em nada combina com a democracia. Afinal democracia não se resume apenas e tão somente a ter eleições de tempos em tempos, coisa que acontecia também na ditadura militar, e nem tampouco apenas liberdade de expressão para os donos dos grandes meios de comunicação, mas respeito aos direitos de todos os cidadãos, independente da sua origem, classe e etnia. A tolerância e até mesmo o apoio a este tipo de procedimento tem garantido eleição de parlamentares que formam “bancadas da bala” ou governadores e prefeitos que ainda insistem na proposta de tratar o problema da segurança com mais violência. Por isto, em nome da defesa da democracia plena e dos direitos humanos, repudiamos veemente esta ação da Polícia Militar bem como exigimos pronta apuração e punição dos responsáveis.

Hoje pela manhã pude sentir o racismo de sua forma mais letal, letal porque quando não exterminam o jovem negro, exterminam sua auto estima com uma abordagem violenta, preconceituosa, racista mesmo. A primeira pergunta que fazem ao jovem NEGRO com a ARMA EM PUNHO e se ele tem passagem pela policia. Cenas como essa acontecem a todo momento protagonizada pela famigerada Policia Militar do Estado de São Paulo que com a justificativa de estar investigando denuncia de roubo de carro nos pararam dessa forma. E foi assim que aconteceu hoje pela manhã qdo fomos abordados por policias militares que ao ver o carro passar dirigido por um jovem negro, e portanto um suspeito de estar num carro roubado, não perceberam a minha presença e quando perceberam pra não perder a oportunidade de exercer o seu poder de policia solicitou minha saída do carro enquanto abordavam o Keniuata da forma que citei, passado o impacto daquela abordagem truculenta, peguei o celular pra anotar os dados policiais e da viatura, quanto o sargento indignado me disse de forma grosseira, qual era o motivo de estar anotando os dados, respondi que co mo cidadã tenho o direito de anotar dados quando sou abordada, inconformado começou a me pressionar e como eu respondia que tinha meu direito como cidadã de anotar, ficou mais transtornado e agiu como se estivesse interrogando uma pessoa acusada de roubo, gritava que não era bandido que estava fazendo o trabalho dele e que nos estavamos influenciados pela mídia que queria manchar a imagem da policia etc, é que iria fazer o papel dele de policia iria registrar também a minha abordagem no Copon, ordenou que eu entregasse meu documento para consulta e entreguei a eles e decidi não mais falar nada pque o registro da ocorrência no Copon, daria maior veracidade ao que pretendo fazer com essa ação que sofremos. Eles continuaram nos constrangendo dizendo que iriam fazer o papel deles de policia e revistaram o carro de ponta a ponta, chegaram ao absurdo de pegar um pano e usar a gasolina do recipiente da partida do carro para limpar e anotar o chassi do carro, quase no final dessa tortura se identificaram dizendo que eu não precisava ter me dado ao trabalho de fotografar, devolveram os documentos reafirmaram que não tinham, agido de forma desrespeitosa conosco e que podemos contar sempre com o trabalho da POLICIA MILITAR. Honestamente a indignação e revolta e pouco pra descrever o sinto ao ser confrontada com a realidade dos jovens negros e mães negras que são humilhados e tratados com racismo por essa corporação, pra eles o fato de sermos negros (as) justifica o tipo de abordagem que fazem, legitimados pelo RACISMO INSTITUCIONAL. Eu reafirmo meu compromisso pela luta, CONTRA O GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA E PELA DESMILITARIZAÇÃO DA POLICIA E DO ESTADO. – Rosa Maria Anacleto, presidenta da União de Negros pela Igualdade de São Paulo (Unegro/SP)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Folha, cotas e a jogada de marketing

publicado: revista Fórum
por: Dennis de Oliveira


O jornal Folha de S. Paulo lançou uma campanha publicitária semana passada e, entre as várias peças, há uma que destaca o posicionamento do jornal contra as cotas raciais. Posicionamento compartilhado por uma modelo negra. Esta peça publicitária do jornal despertou a revolta de várias lideranças do movimento negro, principalmente nas redes sociais.

Gerar polêmicas é uma velha estratégia da Folha de S. Paulo. Neste caso, há uma bem inteligente montagem que acabou por transferir a polêmica para dentro do movimento negro. E exatamente este o objetivo da estratégia de marketing do jornal. E como foi feito isto?

1o.) Usando a polêmica das cotas raciais. Que o jornal é contra as cotas raciais, até o mundo mineral (como costuma dizer o jornalista Mino Carta) sabe. Isto já foi expresso em editoriais. Por si só, isto é explosivo, pois é um assunto que ainda gera polêmicas imensas. Se há quase um consenso de que existe racismo no Brasil, ainda existem muitas resistências em enfrentar o racismo por meio de políticas públicas específicas. Isto porque há uma apropriação ideológica do sentido de racismo como uma mera manifestação pontual de comportamentos desviantes. Assim, racismo é alguém ofender ou agredir racialmente uma pessoa, mas não uma instituição (como a universidade pública) dificultar o ingresso de negros e negras nas suas fileiras.

2o.) Usando uma mulher negra para ser contra as cotas. Aí entra a grande jogada esperta da Folha: ao colocar isto, ela passa a mensagem de que não é consenso entre os negros e negras a defesa das cotas e que ela, a Folha, está acima de “clivagens raciais” e representa também a opinião de negros e negras que são contra as cotas. Em outras palavras, que a Folha é “mais tolerante racialmente” que o próprio movimento negro que “não admitiria” negros e negras contra as cotas.

E tem sido justamente isto o que ela tem conseguido quando se observa a polêmica radicalizada nas redes sociais, chegando ao nível da ofensa pessoal, com relação a este assunto.

A mesma estratégia o jornal utilizou no tema do massacre do Estado de Israel na Faixa de Gaza. Publicou um artigo de Ricardo Bonalume, que defende a criação de um estado único pluriétnico na região, com judeus e palestinos (o que implicaria no fim do Estado de Israel) e isto gerou polêmicas acirradas entre os leitores, na coluna da ombudsman e, finalmente, foi coroada com um artigo-resposta do cônsul de Israel no domingo.

Imaginem como o jornal foi falado neste tempo todo. É exatamente este o objetivo.

Neste debate todo, sempre se ressalta o tal direito de opinião, liberdade de expressão, etc. É muito positivo que a reivindicação de direitos esteja presente nos debates. Entretanto, penso que em alguns momentos, confunde-se “direito” com “desejo”. Nem todo desejo se configura em um direito legítimo. Você pode desejar que determinada pessoa não expresse sua opinião, mas não tem o direito de silenciá-la. Ou então você pode desejar que todos concordem com você, mas não tem o direito de ofender as pessoas que discordem ou ainda falsear informações para sustentar uma posição. Isto é importante principalmente para quem expressa publicamente posições via órgãos de comunicação ou redes sociais.

No caso da Folha de S. Paulo, o jornal tem todo o direito de expressar suas posições. Não tem o direito, entretanto, de se apresentar falsamente como um jornal plural quando se percebe a prioridade dada a determinadas fontes, a certas pautas, a angular os assuntos por meio de manchetes editorializadas.

E, nós, do movimento negro, é importante entendermos estas estratégias de marketing das empresas de comunicação. Para justamente não fazer o jogo que elas querem que a gente faça.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Unegro completa 26 anos de luta por uma sociedade livre do racismo


A entidade fundada em Salvador, na Bahia, nasceu em pleno processo de redemocratização do país e busca combater o racismo e toda forma de discriminação e opressão social. Edson falou sobre as importantes conquistas da Unegro ao longo destes 26 anos e enfatizou a inclusão da juventude negra no ensino universitário. Ele comparou a presença dos negros nos congressos da UNE há 26 anos e agora, que, devido aos programas sociais, aumentou consideravelmente. “Incluir a população negra é incluir a população na nação”, afirmou. Apesar de jovem, a Unegro já conta com uma série de batalhas vencidas, na guerra diária contra o racismo. A entidade desempenhou papel importante na construção do I Encontro Nacional de Entidades Negras; no Congresso Continental dos Povos Negros das Américas, encontros nacionais de mulheres negras, trabalhadores e sindicalistas anti-racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), entre outras iniciativas. Edson também ressalta a luta de classes um dos pontos centrais do combate ao racismo da Unegro. Para ele, o preconceito está diretamente ligado ao sistema capitalista vigente que é opressor e excludente. Ele ressalta que apesar de estar em sintonia com o movimento negro de um modo geral, a Unegro se destaca justamente por não deixar de lado a questão da luta de classes.


Na ocasião, Edson também falou sobre a conjuntura política brasileira, os avanços sociais conquistados nos últimos 12 anos, de governos Lula e Dilma e a campanha presidencial que já começou. 


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Unegro propõe debate sobre a vaga de Joaquim Barbosa


A presença do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte do país, em que pese todas as controvérsias que ele criou, é importante para os negros brasileiros e um representante da raça deve ser nomeado para seu lugar. Esta é a posição da União dos Negros pela Igualdade (Unegro) do Distrito Federal, ao anunciar mobilização do movimento negro para influenciar a presidenta Dilma Rousseff pela indicação de outro nome negro para ocupar a vaga de Barbosa.
A Unegro-DF anunciou vai buscar apoio de outras entidades para tentar influenciar na decisão da presidenta.“O ministro Joaquim Barbosa exerceu uma carreira muito controvertida no Supremo e, do ponto de vista do papel de juiz, deixou a desejar. Mas a sua presença ali foi emblemática para nós negros, muito representativa e nós achamos que a presidente Dilma deve seguir o mesmo pensamento do ex-presidente Lula indicar um negro para a vaga do Joaquim Barbosa”, afirmou Santa Alves, presidente da Unegro-DF (foto).

Ela anunciou que a entidade vai deflagrar esta semana um debate entre os representantes do movimento negro e dos movimentos sociais para buscar influenciar na decisão da presidenta.

O presidente da Confederação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) do Distrito Federal, Aldemir Domício, já anunciou que fará parte da mobilização pela manutenção de um representante negro no STF.

“A CTB vai se engajar nesta campanha. Nós entendemos que a presença de um negro no Supremo foi uma conquista histórica para um segmento social que representa mais da metade da população. E nós queremos manter esta conquista”, afirmou.

Outra entidade que quer debater o tema é a Comissão de Jornalista pela Igualdade Racial (Cojira), entidade ligada ao Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal. Internamente seus membros vêm debatendo o significado de um negro na mais alta corte do país. A entidade também defende a manutenção da conquista.

A decisão caberá a Dilma, que por sua vez deverá consultar o ministro Ricardo Lewandowski, que assumirá a presidência do Supremo após a saída de Barbosa no final deste mês.

Da Redação em Brasília
Fonte: Brasil Notícia

sábado, 21 de junho de 2014

Sociedade capitalista, racismo e sexismo: a importância da autocrítica feminista

por: Marjorie Chaves
publicado: blogueirasnegras.org

À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de textos feministas ou de ganhos com o movimento feminista por igualdade no mercado de trabalho, o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva.bell hooks
Não há capitalismo sem racismo.
Malcolm X

Não há luta antirracista e antissexista fora da luta de classes. Pesquisas que sintetizam informações estatísticas desagregadas em gênero e raça como o Anuário das Mulheres Brasileiras (2011) evidenciam a situação de indigência e pobreza vivida por mulheres negras e a sua concentração em postos de trabalhado vulneráveis como o trabalho doméstico e o de cuidados em regiões metropolitanas e Distrito Federal. Os recentes estudos sobre relações de gênero no mundo do trabalho pouco têm avançado em considerar a questão racial como um dos principais elementos na distribuição de lugares e papéis sociais que constituem as desigualdades na sociedade capitalista.

Esse silenciamento pode ser explicado pela maneira como vem se consolidando os estudos feministas e de gênero nas universidades brasileiras com produções teóricas cada vez mais sofisticadas e distanciadas da realidade de mulheres pobres e racializadas que compõem parte significativa da força de trabalho. Para bell hooks (1984),“tem sido mais fácil para as mulheres brancas que não vivenciam opressão de raça ou classe se concentrarem exclusivamente no gênero”.

Nas décadas de 1970 e 1980 feministas negras como Angela Davis, bell hooks e Lélia Gonzalez já apontavam que a luta antirracista é indissolúvel da luta de classes. A recusa de feministas em reconhecer outras experiências de mulheres (que não as brancas, universitárias e de classe média) suprimiu a conexão entre raça e classe, escamoteando a situação de privilégio de um seleto grupo de mulheres forjado pelo discurso da “opressão comum”.

Nancy Fraser (2009) lembra o quanto o feminismo prosperou no momento da ascensão do neoliberalismo em que as reivindicações por justiça foram substituídas em função do reconhecimento da identidade e da diferença, reprimindo a memória de um igualitarismo social. A promessa emancipatória do feminismo, aos poucos deu lugar aos interesses individuais de mulheres privilegiadas que almejavam a igualdade com os homens de sua classe. As lutas feministas foram facilmente cooptadas pelo pensamento burguês a medida que mulheres brancas foram beneficiadas pelo movimento.

O capitalismo não cria desigualdades raciais e de gênero, ele as apropria. O racismo e o sexismo operam de modo a criar disputas dentro da própria classe trabalhadora gerando privilégios na competição por ocupações do mercado de trabalho. A divisão sexual do trabalho (HIRATA; KERGOAT, 2007) em que há, supostamente, trabalhos de mulheres e trabalhos de homens, sendo os desses últimos mais valorizados, não funciona da mesma maneira para todas as mulheres. A experiência de mulheres negras na diáspora é a experiência do trabalho, sempre estivemos nas ruas oferecendo todo tipo de serviço.

Cada vez que mais e mais mulheres passaram a ocupar o mercado de trabalho, foi preciso que outras assegurassem seu trabalho doméstico criando uma subdivisão de classe no interior da divisão sexual do trabalho (ÁVILA, 2010). A delegação de tarefas, além de não proporcionar a divisão igualitária do trabalho reprodutivo entre homens e mulheres, perpetua as desigualdades entre mulheres, assim como as desigualdades raciais, já que são as mulheres negras que historicamente ocupam o lugar do trabalho doméstico remunerado.

Se a autocrítica faz parte da ação e da elaboração teórica dos feminismos como alguém pode considerar a si mesmo como feminista sendo liberal e racista? Muitas organizações contemporâneas de mulheres negras sequer utilizam o termo “feminismo” para designar sua prática política. No entanto, o que costumamos nomear de prática feminista negra ou pensamento negro feminista é o conhecimento gerado a partir da própria experiência em resposta às opressões que interseccionam gênero, raça, classe e sexualidade (COLLINS, 2012), afirmando um posicionamento crítico ao feminismo hegemônico que pouco tem nos representado. É necessário refletir sobre qual emancipação queremos, pois as lutas antissexistas e antirracistas por si só não abalam as estruturas do capitalismo que, por seu oportunismo sistemático, apropria-se das desigualdades raciais e de gênero para acirrar a exploração econômica e fragmentar todas as formas de resistência.

Referências:

ÁVILA, Maria Betânia. Divisões e tensões em torno do tempo do trabalho doméstico no cotidiano. Revista do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero. Edição especial – Tema: Trabalho e Gênero. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2010. p.67-76.

COLLINS, Patricia Hill. Rasgos distintivos del pensamiento feminista negro. In: JABARDO, Mercedes (Ed.). Feminismos negros: uma antología. España: Traficantes de Sueños, 2012. p. 99 a 134.

DIEESE. Anuário das mulheres brasileiras. São Paulo: DIEESE, 2011.

FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações. Londrina, v. 14, n. 2, p. 11-22, jul./dez. 2009.

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. São Paulo, Cadernos de pesquisa, v. 37, n. 132, set.-dez. 2007, p. 595-609.

HOOKS, bell. Feminist Theory: from margin to center. Boston and Brooklyn: South End Press Classics, 1984.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nasce o Célebre Poeta, Advogado, Intelectual, Luiz Gama- 21/06/1830

Luiz Gama: 130 anos depois de sua morte, a luta contra o racismo continua!
por: Diego Pereira de Siqueira* -

O Brasil é um país sem memória, é o que muitos dizem. Anestesiados pelo futebol, o carnaval e o Big Brother, os escândalos de corrupção se sucedem um após o outro, sem que a maioria do povo sequer se lembre do nome dos envolvidos. O mesmo se pode dizer das nossas figuras “históricas”.

Mas acho que isso não é por acaso. Pelo contrário, tem a ver com o modo como foi sendo construído o Estado brasileiro ao longo dos anos. Desde o famoso “grito da independência”, o povo foi sistematicamente afastado do poder. A ele, só cabia obedecer e aplaudir os “heróis da pátria”, todos saídos da elite branca e escravocrata: Pedro I e Pedro II, Caxias, Bento Gonçalves, Tamandaré, todos eles perfeitos representantes dessa elite, sem nada que os identificasse com a massa do povo.

Pelo contrário, gente como Caxias foram canonizados como heróis justamente por seu papel em reprimir revoltas populares e matar pretos. Pessoas que se levantavam contra as injustiças da época, a infâmia da escravidão e ousavam se levantar contra os monstruosos privilégios dessa elite, além da perseguição que eram vítimas em vida, recebiam ainda outro castigo: o esquecimento, o desaparecimento dentro da história oficial, aonde só cabiam os “grandes”.

Luiz Gama, o negro escravo que chegou a advogado, é um dos maiores exemplos disso. Morreu há exatos 130 anos, no dia 24 de agosto de 1882, na miséria absoluta, depois de uma vida inteira dedicada à luta contra a escravidão. E lutou não suplicando para a boa vontade e compaixão dos senhores escravocratas, e sim apelando à dignidade do escravo e para o direito moral da revolta contra a degradação da escravidão. É dele a célebre frase “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Trazia o senso de revolta no seu sangue: nascido em Salvador, sua mãe, Luiza Mahin, era uma ex-escrava, que sobrevivia de vender doces e foi uma das líderes da célebre Revolta dos Malês, rebelião de escravos muçulmanos de Salvador. Sufocada a revolta, Luiza Mahin teve que fugir de Salvador,indo para o sul e depois desaparecendo de qualquer registro oficial, sem nunca ter reencontrado o filho. Este, algum tempo depois, foi vendido pelo próprio pai, para saldar uma dívida de jogo. Pelas próprias leis da época, isso também era ilegal, pois Luiz Gama nasceu livre, filho de uma escrava alforriada. Mas, como sempre, a lei não estava do lado dos mais fracos.

Após quase uma década de servidão para uma família remediada de São Paulo, Luiz Gama conseguiu sua liberdade. Passou a viver de pequenos serviços, enquanto estudava direito e passou a desenvolver sua militância a favor da abolição. Isso na década de 1840, quando essa causa estava longe de ser uma causa popular, contando com pouquíssimas adesões entre a gente “instruída” da época, mesmo entre os republicanos. Usando de seus conhecimentos em direito, aproveitava cada brecha na legislação escravista da época para defender o interesse de seus clientes, escravos que buscavam comprar sua liberdade. Por suas próprias contas, ele ajudou a libertar mais de 500 escravos através de processos legais.

Precisamente por conhecer tão bem as leis e o sistema judiciário da época, Luiz Gama não nutria nenhuma ilusão a respeito das instituições, e sabia que a verdadeira libertação só poderia se dar com a luta militante dos próprios escravos. Não se deixava seduzir pelas pregações hipócritas dos moralistas de então, que criticavam a violência dos escravos até mais do que a violência própria gerada pelos senhores de escravos. Grande polemista, Luiz Gama deixou, em centenas de discursos e cartas, um retrato vívido da condição degradante a que eram submetidos os seres humanos que se viam nessa condição, e concluía daí o direito moral à revolta: “Milhões de homens livres, nascidos como feras ou como anjos, nas fúlgidas areias da África, roubados e escravizados, azorragados, mutilados, arrastados neste país clássico da sagrada liberdade, assassinados impunemente, sem direitos, sem família, sem pátria, sem religião, vendidos como bestas, espoliados em seu trabalho, transformados em máquinas, condenados à luta d todas as horas e de todos os dias, de todos os momentos, em proveito de especuladores cínicos, de ladrões impudicos, de salteadores sem nome ... Quando, porém, por uma força invencível, por um ímpeto indomável, por um movimento soberano do instinto revoltado, levantam-se como a razão, e matam o senhor, como Lusbel mataria Deus, são metidos no cárcere; e aí a virtude exaspera-se, a piedade contrai-se, a liberdade confrange-se, a indignação referve, o patriotismo arma-se”.

Ao longo da sua vida, recebeu várias ameaças de morte, vindas dos escravocratas que não conseguiam suportar a necessidade desse “preto” vir a ameaçar as suas “propriedades”. Mas isso não o impedia de continuar sua luta, ao mesmo tempo contra todo o sistema socioeconômico da escravidão e pela liberdade e dignidade individual da população escravizada. Já no final da sua vida, ao lado de Antonio Bento, funda o clube abolicionista, precursor do grupo Caifazes, um movimento que se poderia dizer partidário do método da ação direta e da desobediência civil: Através de uma vasta rede de contatos, ele se infiltravam nas fazendas e convenciam os escravos a fugir, alojando-os depois em igrejas ou em casas de simpatizantes. Depois, eles seguiam para Santos, ajudados por ferroviários simpatizantes da causa, até serem alojados no quilombo de Jabaquara, onde podiam seguir para outro local onde pudessem se estabelecer definitivamente.

O seu inspirador e patrono era Luiz Gama, que ainda na velhice não se assustava diante do uso de métodos “radicais” para combater a escravidão e toda a instituição da qual era a base. No entanto, não pôde viver para ver a realização de seu maior objetivo: morreu na sua casa, localizada no bairro do Brás, aos 58 anos, deixando para seus filhos nenhum centavo em bens materiais, mas uma história de lutas e sacrifícios em beneficio de uma causa. Seis anos depois, a instituição da escravidão, moribunda e já não mais interessante do ponto de vista econômico, foi formalmente abolida, não por um ato de bondade de outra figura oficial, a princesa Isabel, mas sim pela luta dos próprios escravos e de seus aliados entre a população. Quando a História for escrita do jeito que deve ser, serão figuras como Luiz Gama que serão lembrados, e não os hipócritas da conciliação e da sociedade “oficial”.
A luta continua!

*texto publicado em 24 /08/2012 no site: lsr-cit.org

Um herói a ser seguido - Steve Biko

Stephen Bantu Biko (18 de dezembro de 1946 - 12 de setembro de 1977) era um ativista anti-apartheid da África do Sul na década de 1960 e 1970.
    Líder estudantil, fundou o Movimento da Conciência Negra (Black Consciousness Movement), que capacitava e mobilizava grande parte da população negra urbana. Desde sua morte sob custódia da polícia, ele foi chamado de mártir de um movimento anti-apartheid. Enquanto vivia, seus escritos e ativismo tentou capacitar as pessoas negras, e era famoso por seu slogan "black is beautiful", que o próprio descreveu como: "você está bem como você é, comece a olhar para si mesmo como um ser humano".

    Mesmo que Biko nunca tenha sido um membro do Congresso Nacional Africano (ANC), foi incluído no panteão dos heróis de luta, indo tão londe como a utilização de sua imafem para cartazes de camapanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse a respeito de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid".

    Mesmo que Biko nunca foi membro do Congresso Nacional Africano (ANC), ANC incluiu-o no panteão dos heróis de luta, indo tão longe como a utilização de sua imagem para cartazes de campanha nas primeiras eleições não-raciais da África do Sul em 1994. Nelson Mandela disse de Biko: "Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid."

    Stephen Bantu Biko é filho de Mzingayi Mathew e Alice 'Mamcete' Biko, nascido em Ginsberg Township, na atual província do Cabo Oriental da África do Sul. Seu pai era funcionário do governo, enquanto sua mãe fez o trabalho doméstico em casas de brancos. O terceiro de quatro filhos, Biko cresceu com sua irmã mais velha, Bukelwa; seu irmão mais velho, Khaya; e sua irmã mais nova, Bobandile. Em 1950, com 4 anos, Biko sofreu a perda de seu pai, que estava estudando direito.

    Steve era um Xjosa. Além de Xhosa, ele falava fluênte inglês e africâner. Quando criança, ele estudou na Brownlee Primary School e Charles Morgan Higher Primary School. Foi enviado para Lovedale High School em 1964, um internato de prestígio em Alice Eastern Cape, onde seu irmão mais velho, Khaya, anteriormente havia estudado. Durante a era do apartheid, sem liberdade de associação protetora para Sul-africanos não-brancos, Biko foi expulso de Lovedale por suas opiniões políticas,e seu irmão foi preso por sua suposta associação com Poqo (agora conhecido como Azaniam People's Liberation Army). Depois de ser expulso, se formou mais tarde na St. Francis College, uma instituição católica romana em Miriannhill, Natal.

    Ele estudou para ser médico na Universidade Médica de Natal.

    Biko se casou com Ntsiki Mashalaba em 1970. Eles tiveram dois filhos juntos: Nkosinathi, nascido em 1971, e Samora.

    Ele também tinha dois filhos com a Dra. Mamphela Ramphele, uma ativista de destaque dentro do BCM: a filha, Lerato, nascida em 1974, que morreu de pneumonia quando ela tinha apenas dois meses de idade, e um filho, Hlumelo, que nasceu em 1978 após a morte de seu pai.

    Biko também teve uma filha com Lorraine Tabane, chamada Motlatsi, nascida em maio de 1977.

    Ele foi envolvido com a multirracial União Nacional dos Estudantes Sul-Africanos, mas depois que se convenceu que era negro, decidiu que precisava de uma organização própria, e ajudou a fundar a Organização dos Estudantes Sul-Africanos (SASO), cuja ageda incluiu auto-suficiência política e da inificação de estudades universitários em uma "conciência negra". Em 1968, Biko foi o primeiro presidente negro eleir. SASO evoluiu para o Movimento de Conciência Negra influente (BCM) e também estava envolvido com a Federação Mundial dos Estudantes Cristãos.

    No início de 1970, Biko tornou-se uma figura-chave no momento Durban. Em 1972, ele foi expulso da Universidade de Natal por causa de suas atividades políticas e tornou-se presidente honorário da Convenção do Povo Negro. Ele foi "banido" pelo governo do apartheid em fevereiro de 1973, ou seja, ele não estava autorizado a falar com mais do que uma pessoa, impossibilitando assim que ele falasse em público, era restrito à cidade distrito judiciário do Rei William e não poderia escrever publicamente ou falar com a mídia. Também foi proibido citar qualquer coisa que ele disse, incluindo discursos ou conversas simples.

    Quando Biko foi "banido", o seu movimento dentro do país estava restrito ao Cabo Oriental, onde ele nasceu. Depois de voltar paralá, ele formou uma série de organizações de base com base na noção de auto-suficiência: Zanempilo, o Fundo Fiduciário Zimele (que ajudou a apoiar ex-presos políticos e suas famílias).

    Apesar da representação do governo do apartheid, Biko e o BCM desempenharam um papel significativo na organização dos protestos que culminou com a Revolta de Soweto de 16 de junho de 1976. Na sequência da revolta, que foi recebido som uma mão pesada pela força de seguranaça, as utoridades começaram a alvejar Biko ainda mais.

    Em 18 de agosto de 1977, Biko foi preso em uma barreira policial e interrogado por oficiais da polícia. Esse interrogatório ocorreu na sala de polícia 619 do Edifício Sanlam em Port Elizabeth. O interrogatório durou 22 horas e incluiu tortura e espancamentos, resultando em coma. Ele sofreu ferimento na cabela quanto estava sob custódia policial na delegacia Walmer, em um subúrbio de Port Elizabeth, e foi acorrentado a uma grade de uma janela durante um dia.

    Em 11 de setembro de 1977, a polícia carregou-o nas costas de um Land Rover, nu e contido em algemas para levá-lo para uma prisão com instalações hospitalares. Ele estava quase morto devido às lesões anteriores. Ele morreou logo após a chegada na prisão, em 12 de setembro. A polícia alegou que sua morte foi um resultado de uma greve de fome prolongada, mas a autópsia revelou múltiplas contusões e escoriações e que ele finalmente sucumbiu a uma hemorragia cerebral maciça dos ferimentos na cabeça, que muitos vieram como evidência forte que ele havia sido brutalmente agredido por seus captores. Em seguida, Donald Woods, jornalista, editor e amigo de Biko, junto com Helen Zille, mais tarde líder do partido político da aliança democrática, expuseram a verdade por trás da morte de Steve.

    Por causa de sua grande visibilidade, a notícia da morte de Biko se espalhou rapidamente, divulgando a natureza repressiva do governo do apartheid. Seu funeral foi assistido por mais de 10.000 pessoas, incluindo numerosos embaixadores e outros diplomatas dos Estados Unidos e Europa Ocidental. O liberal branco jornalista sul-africano Donald Woods, amigo pessoal de Biko, fotografou seus ferimentos no necrotério. Woods foi mais tarde forçado a fugir da África do Sul para a Inglaterra, e fez campanha contra o apartheid e divulgou mais ainda a vida e a morte de Biko, escrevendo muitos artigos de jornal e autor do livro "Biko" que mais tarde foi transformado em filme de nome "Freedom Cry".

    Depois de um inquérito com 15 dias em 1978, um juiz magistrado disse que não havia provas suficientes para acusar os oficiais de homicídio, pois não havia testemunhas. Em 2 de fevereiro de 1978, com base ans provas dadas no inquérito, o procurador-geral do Cabo Oriental declarou que não iria processar os policiais. Em 28 de julho de 1979, o advogado da família Biko anunciou que o governo Sul-Africano teria que pagar 78 milhões de dólares em compensação pela morte de Biko.

    Em outubro de 2003, o Ministério da Justiça Sul-Africano anunciou que os cinco policiais acusados de matar Biko não seriam processados judicialmente por causa do limite de tempo para a acusação tinha decorrido e por causa da insuficiência de provas.

    Um ano após sua morte, alguns de seus escritos foram recolhidos e lançado sob o título "Eu escrevo o que eu gosto".

    Como Frantz Fanon, Biko originalmente estudou medicina e, como Fanon, Biko desenvolveu uma intensa preocupação para o desenvolvimento da conciência negra, como a solução para as lutas existenciais que a existência forma, tanto como um ser humando como um africano. Biko, portanto, pode ser visto como um seguidor de Fanon e Aimé Césaire.

    Biko viu a luta pela conciência africana como tendo duas fases: "libertação psicológica" e "libertação física". A influência não-violenta de Gandhi e Martin Luther King sobre Biko é então suspeito, como Biko sabia que por sua luta para dar lugar a libertação física, era necessário que ele existisse dentro das realidades políticas do governo do apartheid, e não-violência a ser bisto mais como uma tática de uma convicção pessoal.