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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Papo de Ubaldo

publicado: Carta na Escola

Em narrativas tão orais que podemos quase escutar os personagens ao nosso ouvido, o escrito nos leva 
à complexidade do Brasil

Por Leda Cartum
João Ubaldo Ribeiro era baiano e sergipano, escritor e jornalista, era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas se entediava com o “papo de literatura”. Nem para lá nem para cá, esse que foi considerado um dos maiores escritores brasileiros de seu tempo, falecido dia 18 de julho, vítima de embolia pulmonar, adotou uma postura anti-intelectual e, às grandes discussões metafísicas preferia as conversas descompromissadas nos botecos do Leblon. Como deixou claro em seu discurso de posse na ABL, “sou apenas um romancista, um contador de histórias”. João Ubaldo nasceu em 1941, na ilha de Itaparica, na Bahia, mas mudou-se aos 2 meses para Sergipe, e ali passou toda a infância. Foi, desde pequeno, um grande leitor, incentivado pelo pai – tanto que aos 6 anos, mesmo sem entender nada, já lia Hamlet. Estudou direito na Universidade Federal da Bahia, onde foi colega de Glauber Rocha: juntos, os dois editaram revistas e jornais culturais, além de participarem de movimentos estudantis.

É a partir dessa história que Ubaldo se tornou escritor, tendo já seu segundo livro, Sargento Getúlio (1972), premiado com o Jabuti de Revelação de Autor. Mas, mesmo que tenha sido ele próprio quem traduziu alguns de seus livros para o inglês – caso raro de escritor que traduz a própria obra –, declarava, sem cerimônias: “Eu não sei nada o suficiente para escrever além de Itaparica, minha terra. Aquele universo de Itaparica me absorve inteiramente”.

Realmente, o fato de ter suas obras adaptadas para televisão, cinema e teatro, e traduzidas para línguas como alemão, finlandês, holandês ou hebraico, sendo conhecidas no mundo inteiro, não contradiz a veia regionalista que atravessa esses livros. A ilha natal de João Ubaldo torna-se, em seus romances e crônicas, um microcosmo onde o mundo todo acontece: desde os causos de oradores locais até experiências genéticas em laboratório.

Mas é importante lembrar que chamar a sua literatura de regionalista não significa associá-la ao exotismo pitoresco da ideia de “cor local” que essa palavra já caracterizou. Aqui, o romance regionalista do Nordeste é o ponto de partida para reflexões que abrangem toda a história brasileira, na sua complexidade: em meio a narrativas tão orais que podemos quase escutar o personagem falando ao nosso ouvido, nascem críticas políticas e sociais que colocam em jogo as questões fundamentais de um país subdesenvolvido e cheio de injustiças e desigualdades. Embates morais, engajamento político, dilemas metafísicos recheiam livros que, ao mesmo tempo, são muito claros e habitados por personagens típicos do povo brasileiro. Esse olhar tão particular, dialogando com autores como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, levou João Ubaldo a ser apadrinhado pelo grande Jorge Amado, que o considerava “um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, entre os maiores ficcionistas contemporâneos do mundo inteiro”.

Seu livro mais extenso, tido como um clássico e mesmo um épico dentro da literatura nacional, surgiu, segundo o próprio Ubaldo, de uma provocação singela. Como ele conta, Viva o Povo Brasileiro (1984) começou a ser escrito porque seu então editor fez uma brincadeira, dizendo que “vocês, escritores brasileiros, só fazem esses livrinhos fininhos para ler na ponte aérea, que a gente traça num instante”: imediatamente, João Ubaldo tomou para si o desafio de compor um livro que parasse em pé. E foi muito bem-sucedido: com 640 páginas, essa foi a obra que consagrou o escritor – chamado por Haroldo de Campos de “desmedido, exorbitante, caudaloso romance-rio de Ubaldo”, é um livro que se dedica a quatro séculos da história do Brasil, misturando personagens fictícios a fatos históricos, viajando de Itaparica ao Rio de Janeiro, São Paulo e até Lisboa. É uma investigação da construção da identidade nacional, que passa por episódios como a invasão holandesa, a chegada da família real portuguesa, até outros mais recentes do século XX, como o Estado Novo e a ditadura militar. A partir da ideia de que “não existem fatos, só existem histórias”, que consta na epígrafe de Viva o Povo Brasileiro, Ubaldo desentranha o país e nos faz conhecê-lo a partir da perspectiva de seus personagens.

Além de seus dez romances, dos livros de contos e dos infantojuvenis, João Ubaldo também foi um grande cronista. Suas colaborações para jornais renderam diversas coletâneas de livros de crônicas, em que conhecemos a intimidade e as opiniões do escritor, que conversa conosco como se estivéssemos sentados com ele numa mesa de bar. Sempre com um humor muito característico, é nesses textos que ele confessa, por exemplo, que não entende nada de processo criativo e que, muitas vezes, não consegue aturar a tagarelice de seus próprios personagens. É também ali que ele nos conta suas anedotas da vida boêmia, transcrevendo detalhadamente os diálogos que surgem entre uma cerveja e outra, e que podem conter um retrato mais fiel do país e de seus habitantes do que muitos livros didáticos.

Hoje, pouco depois de sua morte aos 73 anos, podemos confirmar: João Ubaldo Ribeiro, ganhador do maior prêmio da língua portuguesa, o Prêmio Camões, coloca-se como um dos imortais de nossa literatura. Se, como dizia o autor, “um país sem seus livros, suas canções, seu cinema, suas pinturas e esculturas não é um país, é apenas um conglomerado de vizinhos malsatisfeitos”, João Ubaldo foi um daqueles que colaboraram para nos tornar muito mais do que esses vizinhos desagradáveis: é um dos artistas que compuseram e compõem o que chamamos de Brasil.

Paulo Lins: "O Brasil é um país em guerra"

Escritor de "Cidade de Deus" defende discurso de Luiz Ruffato em Frankfurt e diz que sua declaração sobre racismo foi mal interpretada por jornal
por Deustche Welle — publicado - carta capital
Paulo Lins

Não foi só Paulo Lins que ganhou o mundo. O escritor levou junto com ele uma parte muito importante de sua história, o violento bairro onde cresceu no subúrbio carioca. Seu primeiro romance, Cidade de Deus, lançado em 1997, foi um sucesso literário internacional graças à bem-sucedida adaptação cinematográfica do cineasta Fernando Meireles.

O sucesso do livro levou Lins por outros caminhos, mas sempre seguindo sua paixão: a escrita. Desde o lançamento de Cidade de Deus, ele escreveu diversos roteiros para o cinema e a televisão, onde também atuou como diretor. Um caminho trilhado desde a infância, quando escrever era o maior prazer do menino que observava a violência, o tráfico e os intensos conflitos sociais da periferia.

Lançado recentemente na Alemanha, seu mais recente livro, Desde que o samba é samba, procura resgatar momentos da formação cultural brasileira através do samba e da umbanda. Com um enredo que mistura ação, aventura, sexo, violência e amor, o autor conta uma história ficcional com personagens reais, envolvidos na fundação do primeiro bloco de Carnaval da escola de samba Deixa Falar.

Depois do lançamento do livro em Frankfurt, ele partiu em uma série de leituras por algumas das mais importantes cidades alemãs. Em entrevista à DW Brasil, Lins falou sobre racismo, violência, política e sua paixão pelo samba e pela umbanda.

DW Brasil: Como surgiu a ideia para o seu mais recente livro, "Desde que o samba é samba"?

Paulo Lins: Queria escrever sobre como o negro se inseriu na sociedade brasileira. Depois de 400 anos de escravidão, deveria ter sido por meio do mercado de trabalho, mas isso não aconteceu. Essa inserção se deu através da cultura, mais especificamente do samba e da umbanda. No entanto, a cultura negra só ganhou força quando começou a ser organizada em um grande centro urbano, no caso o Rio de Janeiro.

Foi um longo processo de pesquisa?

Meu trabalho de ficção sempre parte de um extenso trabalho de pesquisa. Foram cinco anos de pesquisa e mais cinco para escrever o livro. Eu pesquisei sobre o samba e a umbanda e contratei duas historiadoras para fazerem a pesquisa sobre a época e sua situação política. Parti desses dados históricos para construir uma história de ficção cheia de ação e aventura, mas sobretudo esse é um livro de amor. Não só entre os personagens, mas amor ao samba e à umbanda. Acredito que esse é um romance que vai mostrar um Brasil que muito pouca gente conhece.

Você tem uma relação forte com o samba?

Minha primeira relação com a arte foi fazendo samba, aprendendo a tocar, a sambar e, sobretudo, a escrever. Eu sempre escrevi. Comecei corrigindo letras de samba-enredo para os sambistas e acabei fazendo os meus próprios sambas. "Estou" escritor, mas sou sambista de coração.

Qual a importância do samba e da umbanda na emancipação do negro no Brasil?

Em toda a periferia carioca, os sambistas e as mães de santo eram líderes de suas comunidades, Eles eram muito respeitados. Quando os negros começaram a votar, os políticos tiveram que negociar votos com esses líderes culturais e religiosos. A cultura se tornou poder político.

Como você vê a situação dos negros no Brasil hoje?

Já existe uma maior inserção na sociedade, mas ainda há muitas dificuldades e racismo. A polícia ainda mata muitos negros, principalmente jovens. O Brasil é um país em guerra. Morre muito mais gente no Brasil do que no Oriente Médio, na briga entre muçulmanos e judeus.

Você acredita que houve discriminação na seleção dos autores para a Feira do Livro de Frankfurt?

Eu dei uma entrevista no Brasil para um jornal alemão e disse que havia racismo no Brasil, mas eu não estava me referindo à seleção. Queria dizer que os negros não estão em posições de destaque, mas em classe classes sociais inferiores. Essa lista é o resultado disso. A maioria dos escritores no Brasil são brancos, como a maioria dos médicos, empresários e políticos. Existem grandes escritores negros no Brasil, mas a seleção foi um reflexo do nosso mercado literário.

O que você achou do polêmico discurso do Luiz Ruffato na abertura da feira?

Eu defendi o Rufatto. Ele abriu e eu encerrei a feira, fazendo do discurso dele minhas palavras. A verdade tem que ser dita para podermos mudar. O Brasil é um país com tantas injustiças sociais e violência. Isso precisa ser dito e discutido.

Quando "Desde que o samba é samba" foi lançado no Brasil, você também recebeu críticas por divulgar que Ismael Silva era homossexual.

Acho bom o Brasil saber que o pai do samba era homossexual. O Brasil é um país homofóbico, que não aceita os homossexuais. Essa informação não era importante para a história do samba, mas fiz questão de colocar em prol da liberdade sexual, para que as pessoas não sejam assassinadas pela sua sexualidade. Mostrar que o pai do samba era homossexual foi uma atitude política.

Como está sendo seu giro pela Alemanha?

Fui muito bem recebido pelos organizadores, público e imprensa, não só em Frankfurt, mas também em Hamburgo e Colônia. Essa é minha terceira visita ao país. Os alemães gostam muito dos brasileiros. Sinto-me muito querido aqui. Amo Berlim. Acho que a cidade é o futuro da Europa. Estou muito feliz por estar aqui.
Autoria Marco Sanchez
Edição Alexandre Schossler

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O poeta da Cidade

publicado:Revista Cult
Entrevista Revista Cult

Num intervalo de suas férias em Paraty, Paulo Lins conversou com a CULT sobre seus trabalhos e a relação íntima com o samba e a favelaPatrícia HomsiHá muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou. Só se foi quando o dia clareou”, dizia Paulinho da Viola em “Eu canto samba”. “O samba é uma tradição passada de pai para filho, o samba está na alma. Dentro do coração das crianças, na velha guarda, nas comunidades, nas ruas, nas esquinas, nos botecos, onde sempre esteve e de onde nunca saiu”, explica o escritor Paulo Lins, enquanto procurava melhorar o sinal de seu celular andando pelas ruas de Parati.
Nascido no bairro do Estácio, berço do samba e ambiente de seu segundo livro, Desde que o samba é samba, Paulo Lins é um dos quatro filhos de Amélia Maria Lins e Antônio de Souza Lins. Foi criado em meio ao samba do bairro e a histórias ouvidas em roda na casa dos pais. Ele aponta esse passado cultural como uma grande influência em seu trabalho. “Não tinha televisão, que era uma coisa muito rara. A hora em que a gente se reunia era a hora de contar histórias. Quando acabava, eu torcia para chegar o outro dia, para ouvir mais histórias”.
Os contos sobre folclore, marinheiros, assombrações, tradições africanas e o passado dos pais na Bahia trilharam o caminho de Paulo. Desde menino, o gosto pela redação e o bom desempenho em português chamaram atenção. Já na época em que morava na Cidade de Deus, corrigia algumas letras de samba das escolas. “Eu comecei a datilografar as letras dos sambistas. Depois, a corrigir o português. Mudava um versinho ali, um aqui, até fazer samba enredo”, relembra. Mais tarde, o escritor chegou a ganhar um bloco na comunidade.
Autor de Cidade de Deus e Desde que o samba é samba, Paulo foi influenciado por diversos ambientes contrastantes como o das escolas de samba – onde conheceu o burburinho e as personalidades da favela –, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – na qual estudou Letras – e das ruas da Cidade de Deus, para onde se mudou com 6 anos. Mais do que simples influência, o escritor utiliza histórias de suas raízes e de sua tradição como um meio de incitar discussão entre os leitores, de chamar atenção ao ambiente político e social das favelas do Rio de Janeiro e do Brasil. Essa preocupação política move as palestras e discursos de Paulo, estando fortemente associada a sua participação na recente Feira de Frankfurt. “O Brasil está precisando falar sobre política, sobre os problemas do país. O Rio de Janeiro está uma bagunça. A situação dos desmandos, as escolas públicas, saúde, corrupção, poder oligárquico, de forças antigas que querem tratar o Brasil como província… Isso deve ser discutido. Não podemos nos esquecer de falar sobre o lado social. Não se pode querer só ganhar dinheiro”.
Envolvido atualmente com projetos cinematográficos e televisivos, Paulo Lins acredita que essas novas áreas de atuação surgiram a partir da temática com que trabalha. Os novos projetos, segundo o autor, fazem parte de uma demanda do povo brasileiro pela demonstração dessa crua realidade da favela brasileira. “O cinema, por exemplo, me procurou. Eu nunca tinha pensado em fazer roteiro”, explica. Os roteiros, porém, já lhe renderam prêmios, como o de Quase dois irmãos, dirigido por Lúcia Murat. A história de uma negociação entre amigos de infância – um senador, e o outro, traficante – teve roteiro premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Na época do lançamento de Cidade de Deus, temas como o da desigualdade social, violência, racismo e condição do pobre no Brasil, sempre presentes na produção do escritor, tiveram sua discussão alavancada. “Isso depois veio para a arte, para a música, para todo o lugar. Tomou conta. E Cidade de Deus fez parte desse processo”.
Cidade de Deus
Interessado em poesia e literatura desde cedo, Paulo Lins começou a escrever ainda no curso de Letras. Antes mesmo de se formar, já lançara um livro independente de poesia, área de maior interesse do autor. “Meu negócio era poesia. Eu militava na poesia. O romance era mais para estudo, é claro, e deleite”.
A oportunidade de escrever em prosa sobre a favela veio durante uma pesquisa antropológica coordenada por Alba Zaluar. Paulo se misturava aos sambistas, aos bandidos, a todos os moradores da Cidade de Deus, sendo responsável pela pesquisa etnográfica da violência na favela. Cidade de Deus começou como uma “narrativa literária” sobre a violência, escrita como parte da pesquisa de Alba. “Não era um romance, porque eu nunca tinha escrito romance… Era muito novo! Eu nem estava pensando em escrever livro, não tinha pretensão de ser escritor”, esclarece.
O primeiro passo foi dado pela própria Alba Zaluar, que enviou os esboços a Roberto Schwarz, crítico e professor aposentado de Teoria Literária. Schwarz incentivou a continuação do projeto; entretanto, ainda havia praticamente todo o romance a ser escrito. “Acho que comecei a escrever em 86, mas levei mais uns dez anos nessa ‘aventura literária’, como disse o Roberto”, lembra Paulo. No início, Cidade de Deus seria um livro de prosa, sim, porém voltado aos estudantes de antropologia e sociologia. Paulo “pensava nos estudantes. A princípio, era um projeto bem universitário, para a Academia, para lançar dois mil, três mil exemplares”. O sucesso foi além das expectativas acadêmicas do autor.
Logo após o lançamento, Cidade de Deus preenchera uma demanda da própria universidade, anteriormente interessada no estudo da criminalidade. O livro foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. No início, as universidades estrangeiras se interessaram pelo tema. Como explica Paulo, “tendo livros traduzidos nessas línguas, o acesso é garantido em boa parte da Europa e da África, onde muitos falam inglês e francês, e também na América Latina, que fala espanhol”.
Mas é com a chegada do filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles, que Cidade de Deus atinge países que, segundo o autor, não têm tradição de ler literatura brasileira. O filme foi indicado ao Oscar nas categorias de Direção, Edição, Roteiro Adaptado e Fotografia, além de ter sido eleito um dos 100 melhores filmes da história pela revista Time. “O audiovisual, todo mundo vê. Com o sucesso do filme, o livro foi traduzido na Estônia, Polônia, Coréia, Japão…”.
Como todo criador, Paulo Lins enxerga sua criação de maneira única: “Eu gosto do filme, tenho críticas, lógico, mas gosto muito do filme. Ao longo dos anos, eu já gostei, já não gostei, já gostei mais, já gostei menos… É uma relação familiar”, brinca o escritor.
Na favela
Além das críticas com intuito de “golpe publicitário”, do “fala-fala”, como ironiza Paulo, a repercussão do filme e do livro na Cidade de Deus foi boa. “Todo mundo gostou. Meus amigos na Cidade de Deus continuam os mesmos”, completa. Desde que se formou em Letras, Paulo saiu da Cidade de Deus. Já morou em Angra, Mogi Mirim, Espírito Santo, e atualmente mora em São Paulo. Aliás, o carioca revela um amor por São Paulo, especialmente pelo bairro de Perdizes, por onde anda “para cima e para baixo”. “Eu adoro São Paulo, porque é onde muitos dos meus amigos moram. É claro que ninguém gosta do lado ruim, do trânsito, por exemplo, mas o lado bom é muito bom”.
Apesar da paixão por São Paulo, o escritor sempre volta ao antigo bairro cuja história guiou sua carreira. “Eu sou um ‘filho da ponte’”, brinca, referindo-se à ponte aérea Rio-São Paulo. “Costumo ir visitar os meus amigos. Vou lá quando tem uma festinha”. E completa: “Na verdade, não adianta morar num lugar paradisíaco se você não tem amigos por lá”.
Quanto às histórias contadas no livro, não havia impedimentos entre os moradores da favela: “A maioria já não existia mais, na verdade. Como o livro se passa nos anos 1980, não houve problema”. No entanto, o contato com a violência e a criminalidade é constante. “Quem nasce na favela geralmente tem relação com bandido. Às vezes, é seu vizinho, é da sua cor, geralmente é negro, nordestino. É igual você. Mesmo que não se conheça nenhum, é algo próximo. Um sujeito com quem você estudou na escola, por exemplo, que mais tarde vira bandido…”.
Debate
O contato e a reflexão sobre problemas como a violência e a desigualdade da Cidade de Deus de Paulo Lins ultrapassam os limites das favelas. A discussão invadiu grandes eventos literários como a Feira de Frankfurt, realizada em 2013. O discurso de abertura do escritor Luiz Ruffato, que tratou dos problemas sociais do Brasil, corrobora a ideia de Paulo sobre a importância de se conversar sobre política em qualquer ambiente cultural. Em sua fala, que fechou o evento, Paulo Lins reiterou o discurso do amigo e chamou atenção às dificuldades e injustiças sociais do país, resgatando um poema de sua autoria: “Fui feto feio feito no ventre do Brasil/ Estou pronto para matar, já que sempre estive para morrer” diziam os primeiros versos.
“Foi uma participação política”, resumiu Paulo sobre a Feira. “Não dá para falar sobre outra coisa. Hoje se discute isso com as crianças… Eu dei palestras nas periferias de São Paulo, em favelas, em fábricas de cultura, e falei para esses jovens tudo o que disse na Feira. O assunto está no botequim, nos bares, nas feiras. Vai além das universidades”.
Entre os compromissos com a editora e com a organização da Feira, Paulo Lins acredita que a confraternização com os escritores também serviu de espaço para mais debates: “No final do dia, tinha um bar em que toda a rapaziada se encontrava. Eu tomo cerveja toda terça-feira com o Marçal Aquino, estou sempre com o Marcelino Freire, o Luiz Ruffato é meu camarada, conheço a Alice Ruiz há 30 anos, o Ferréz é meu parceiro, meu amigo. A maioria é de amigos meus. Estamos discutindo literatura e política, mesmo entre aqueles com quem eu não tenho intimidade. Porque eu conheço as obras dessas pessoas”. Entre amigos, Paulo Lins conta que se sentiu em plena Mercearia São José, na Vila Madalena, em São Paulo. O clima brasileiro da “Merça”, como o bar foi apelidado pelo escritor, se instalou em Frankfurt.
Guerra cultural
Paulo Lins considera essa discussão da Feira de Frankfurt e de tantas outras aqui no Brasil, como a de Manaus, Votuporanga, São Paulo ou Petrópolis, muito oportuna. Para ele, cultura e poder se misturam, já que o povo detém a cultura e é por meio desta que o poder político se aproxima da população.
“A cultura é motivo de guerra até hoje”, argumenta Paulo. Citando o conflito entre muçulmanos e judeus israelenses e a perseguição de evangélicos e católicos às religiões e aos costumes africanos, o escritor vê as intolerâncias religiosas e culturais como uma tentativa de dominação e imposição de hábitos. Paulo ainda relembra a aproximação entre políticos e líderes comunitários a partir do momento em que o negro ganha o direito ao voto. Estes líderes, que possuíam influência perante toda comunidade, eram sambistas e mães de santo, perseguidos pela polícia numa época em que tocar pandeiro e praticar capoeira era crime.
A criminalização da capoeira, do samba e da umbanda uniu as práticas, fazendo com que o nascimento e desenvolvimento de cada uma delas se confunda na história das outras. Por esta razão, Paulo, filho de Iemanjá, Ogum e Xangô, recorreu à umbanda durante um bloqueio criativo, no processo de produção de Desde que o samba é samba, lançado quase quinze anos depois de sua estreia na literatura em prosa, com Cidade de Deus.
Paulo Lins frequentara terreiros de umbanda na infância, mas decidiu voltar por convite do amigo, Sombrinha, músico e fundador do grupo Fundo de Quintal. Para escrever Desde que o samba é samba, o autor pesquisou massivamente o samba, assunto central do livro. O conhecimento sobre a umbanda, porém, veio direto das fontes, de Zé Pelintra e Maria Padilha, mais precisamente, as entidades que conversaram com Paulo no centro.
A umbanda é uma religião aberta a várias outras crenças, sendo ela, inclusive, uma derivação do catolicismo e do candomblé. O escritor, que atualmente frequenta centros, diz crer em todas as religiões. “Eu gosto muito de conhecer culturas. Gosto particularmente da cultura africana”.
Desde que o samba é samba
Assim como a umbanda dá espaço a ritmos e culturas plurais, o samba, que se consolidou nos mesmos ambientes da religião africana, também se apropria e se transforma conforme o tempo e as influências. O pagode é um exemplo disso: “Pagode é samba. Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz são todos sambistas. Separar pagode de samba é equivocado. Desde que o samba começou sempre houve mudanças, variações, como no jazz, por exemplo, em toda música”.
Para Paulo, estas variações e até mesmo os novos movimentos musicais, como o funk, que nasceu nas favelas – “no jeito de cantar, de falar que a rapaziada usa” – só fortaleceram o samba. “A cultura só acaba se o povo acabar. Ela não se perde enquanto se configurar como tradição, só agrega”. A música é parte importante da inspiração do escritor, que possui preferências amplas: de Criolo a Nando Reis, de Martinho da Vila a Otto.
Paulo até se arrisca na percussão, “tudo no batuque”, como brinca, e costuma fazer letras com o amigo, Marcelo Yuka, ex-integrante da banda O Rappa, atualmente na F.UR.T.O. “Na verdade, eu vivo o mundo musical dele. Ele é poeta e nós discutimos música e poesia. A gente faz uma ‘baguncinha’ quando se encontra”.
Projetos
Além de companheiro de composições, Marcelo Yuka também foi um dos envolvidos nos projetos de Paulo Lins além da literatura. O escritor dirigiu o clipe “Minha alma (A paz que eu não quero)”, d’O Rappa, na época em que o amigo ainda era baterista, e “Não se preocupe comigo”, da F.UR.T.O. No intervalo entre Cidade de Deus e Desde que o samba é samba, Paulo se envolveu com o cinema e com a produção televisiva. “O pessoal pensava que eu não iria escrever outro livro, mas eu estava ocupado com outros projetos”.
O primeiro convite veio do cineasta Cacá Diegues, com quem Paulo Lins trabalhou no roteiro de Orfeu, de 1999. Depois vieram os roteiros de alguns episódios de Cidade dos homens e trabalhos com a roteirista e diretora Kátia Lund, bem como com Lúcia Murat. A pressão pela produção do segundo livro foi preenchida pelo escritor com projetos ligados à temática, porém utilizando outros formatos artísticos. “Toda a relação com o tema da Cidade de Deus é muito natural. Todos os trabalhos me puxaram para isso”.
Contratado pela rede Globo como roteirista na época de produção da série baseada em Cidade de Deus, Cidade dos homens, Paulo Lins se envolveu com Luiz Fernando Carvalho no projeto da série Suburbia, que tratava especificamente de uma pessoa com quem o diretor “teve uma relação de mãe e filho”, que trabalhara na casa dele. A história possibilitou a discussão de diversos temas do interesse de Paulo, como o racismo, a exclusão social, o abandono, a violência e até mesmo os reflexos da escravidão. A relação da empregada doméstica, inserida quase maternalmente na casa onde trabalha, é, como avalia Paulo “uma das facetas mais feias do Brasil”. “Mas ninguém quer falar nisso, porque grande parte da classe média está envolvida”. O assunto, no entanto, seguia raramente discutido, até a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) das Domésticas, regulamentada no ano passado.
Essa exploração da doméstica, para o escritor, chega a remontar o período de escravidão. “Depois da abolição da escravidão, o negro não se inseriu por completo na sociedade. Quando acaba a escravidão, o negro já se torna marginal. É um processo natural. Até hoje é assim”. Inconformado com o tratamento do negro, especificamente da mulher negra e pobre que se torna empregada doméstica, Paulo conta: “Os próprios bandidos falam: sabe por que eu te assalto? Porque, quando eu era pequenininho, a minha mãe tinha que trabalhar cuidando de você. Você tinha duas mães, e eu não tinha nenhuma”.
O sucesso de Suburbia trouxe a Paulo mais projetos na televisão, como o que está trabalhando em Parati, durante suas férias, ou melhor, as férias de seu filho, João, de 8 anos, e da filha, Mariana, de 24 anos. “Eu não tenho férias! Trabalho de onde for”. Envolvido num projeto de novela, linguagem à qual não está acostumado, o escritor diz estar fazendo seu “dever de casa”, lendo muitos capítulos de autores consagrados, pesquisando e anotando ideias. No dia anterior ao que conversou com a CULT, Paulo trabalhou desde o final da tarde e por toda a madrugada. “Mas eu gosto, é um prazer!”. Além disso, os passeios com os filhos lhe tomaram o resto do dia. “Fui à praia, passeei… Começo na hora em que dá para começar, não é?”. Preocupado com a educação dos filhos, o pai admite ter incentivado a leitura de todos eles. “Tem que ficar atento, senão o bicho pega!”. Além dos dois que viajaram para Parati com Paulo, ainda há Frederico, de 32 anos, que é produtor cultural.
Apesar dos trabalhos audiovisuais, Paulo Lins ainda é um apaixonado por poesia. O escritor está lançando um livro de poesia sobre o lixo, concebido junto a Maurício Carneiro, Eduardo Lima e Beo da Silva, “a 8 mãos”. “Era um projeto para criança, depois se tornou adulto, agora eu já nem sei para quem ele é”. Misturando projetos de televisão, cinema, literatura ou até teatro, Paulo faz questão de escrever sem parar, “o que der na telha”.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Onde nascem os medos

Maria Rita

Maria Rita*

Uma das épocas mais deliciosas da vida é a primeira infância, vamos para a escola pelos nossos coleguinhas, pela “tia”, pelos desenhos, pelas brincadeiras, pelas estorinhas.
Como uma criança negra e gorda as brincadeiras nem sempre eram as mais divertidas, não preciso explicar que eu era praticamente um alvo pintado em branco e vermelho, mas de alguma forma eram situações contornáveis, embora fossem me afetar no futuro, não me limitavam, não me impediam de rir de outras antas situações e momentos. O mesmo já não aconteceu com as inocentes historinhas contadas pelas “tias”. Em 1985 existia a famigerada hora da estorinha, escolhíamos um livrinho ou a professora trazia a estória para compartilhar. Depois de Ou Isto ou Aquilo, Mãe que faz e acontece, A curiosidade premiada, eis que um dia foi compartilhada uma estória diferente.



Na maioria das estórias personagens branquinhos circulavam por mundos fantásticos, tudo era um mundo lindo e maravilhoso de aventuras, desventuras e diversão. Até que a estória diferente surgiu. Logo nos primeiros momentos do contar a minha atenção foi fisgado, o personagem principal da história se chamava Negrinho. Mas diferente de todas as outras historinhas a criança deste conto não brincava, ela estranhamente trabalhava e apanhava.
“E vou falar de um escravinho mais negro que carvão chamado exatamente de Negrinho. Não conhecia pai ou mãe e dizia que Nossa Senhora era sua madrinha. Apanhava do patrão e do filho que não era brincadeira.”
trecho de Negrinho do Pastoreio – Cecilia Meireles
Conforme a estória avançava a percepção de que Negrinho do Pastoreio não era uma criança feliz ia tomando conta do meu imaginário. Negrinho não era livre, ele tinha umdono, ele não era nem do pai, nem da mãe dele, era como se ele fosse um cachorro ou um gatinho.

Um belo dia Negrinho do pastoreio comete um erro, um erro que merece uma punição. Um estancieiro vizinho do Dono do Negrinho faz um desafio relacionado a um cavalo Baio. O negrinho deve apostar uma corrida montado neste cavalo e ele perde, e o castigo vem, não aquele esperado, de sentar num cantinho e pensar no que fez, ele “leva uma surra que eu vou te contar”. Como se não bastasse, delegam ao Negrinho então nesta mesma noite tomar conta dos animais do seu dono (pastorear), mas ele estava cansado, machucado e então dorme e perde os animais. Ele apanha novamente e desta vez ele é pendurado de cabeça pra baixo em cima de um formigueiro. As formigas então o devoraram. Neste ponto da história meu horror já era máximo, mas de alguma forma ficaria pior quando o Negrinho voltava a aparecer para o seu algoz.
O negrinho do Pastoreio é uma lenda afro-cristã muito contada no século XIX, que foi um pouco modificada no livro “Como Nascem as Estrelas” de Cecilia Meireles. Pode parecer um estória como outra qualquer, mas não sei se por identificação ou se porque a estória é realmente horrível e traumática (pelo menos para uma criança de 6 anos foi) mas eu tenho um absurdo medo de formigas até hoje, não importa o tamanho delas, não importa se estão sozinhas ou se existe um formigueiro, elas são seres malignos comedores de crianças.
Acredito que a intensão pedagógica desta leitura fosse só para trabalhar uma lenda, ou inserir o contexto da morte na vida de crianças tão pequenas, mas naquele momento não foi observada as especificidades de todos os alunos presentes. Tratar uma sala de aula toda como se ali houvessem personagens hegemônicos não configura de forma alguma a melhor metodologia de ensino.
Apesar deste fato ter ocorrido a mais de 20 anos, outros tantos aconteceram durante a minha vida acadêmica. Seria despreparo dos profissionais encarregados da minha educação, ou um despreparo de todo o sistema de ensino? Fico com a segunda opção. Se professores não percebem um aluno negro em sua sala de aula, o que dizer de alunos homo ou transexuais?
A escola atual ainda não está preparada para acolher a todos, ainda não sabe como humanizar a educação.
Quantos de nós carregam este tipo de lembrança amarga na memória? Me congela a alma o tempo todo a possibilidade do meu filho ser exposto a esse tipo de “estorinha”. Até quando o negro vai aparecer no contexto acadêmico apenas como escravo? Aparentemente o único momento na história da humanidade que tivemos alguma participação (neste caso até protagonismo, e esse eu dispensava).
Existem tantas outras lendas, tantos contos, tantos momentos históricos onde o negro não apenas está presente mas é herói, porque não estudar aquilo é positivo, aquilo que traz orgulho.
Pra quem quer uma alternativa as histórias de escravidão, existe por ai uma série de livros com histórias e lendas africanas que valem a pena:

Três contos africanos de adivinhação
Reconta três histórias vindas da literatura oral nigeriana . A ideia vai para além do cotar histórias, o livro desafia o leitor a solucionar enigmas que são apresentados as personagens antes do final da história. Os textos são resgates de narrativas africanas, cuja literatura tem como um dos propósitos transmitir ensinamentos de ética para uma boa convivência

Sikulume
São sete histórias africanas passadas num ambiente místico repleto de lendas e personagens fantásticos, tudo isso a partir do local de origem de seus ancestrais.
São histórias de amor, de coragem , superação e rola histórinha de terror também, mas ainda assim vale a pena. Sikulume pode ser visto como um resgate identitário e agente de formação de leitores afro-brasileiros.

 
Contos Africanos para Crianças Brasileiras
O Livro trás duas histórias de Uganda adaptados para leitores brasileiros, o primeiro fala sobre a inimizade do gato e do rato e o segundo fala sobre porque os jabuti tem o casco rachado.
O Livro ainda propõe que as crianças pesquisem outras versões da história para que reconheçam a riqueza e a diversidade das histórias.
Felizmente também existem filmes como Kirikou e a feiticeira e o incrível Contos da Noite(onde embora os personagens não tenham um tom de pele, a identificação, pelo menos em casa, foi imediata)
Histórias positivas são importantes, não devemos subestimar que identificação é necessária e influencia para o bem e para o mal. Por menos crianças com medo de seus destinos por serem aquilo que são, e pois mais estórias que nos deem prazer de ouvir.

Maria Rita*
Criei e escrevo o True Love, blog sobre cultura lésbica. Sou ,Gorda, Lésbica, Mãe, Balzaquiana e Baixinha. Apaixonada por café da manhã, livros e trilhas sonoras. Tenho medo de formigas e mortes idiotas. – “Coração de águia , inquietude de passarinho”

sábado, 21 de junho de 2014

Sociedade capitalista, racismo e sexismo: a importância da autocrítica feminista

por: Marjorie Chaves
publicado: blogueirasnegras.org

À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de textos feministas ou de ganhos com o movimento feminista por igualdade no mercado de trabalho, o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva.bell hooks
Não há capitalismo sem racismo.
Malcolm X

Não há luta antirracista e antissexista fora da luta de classes. Pesquisas que sintetizam informações estatísticas desagregadas em gênero e raça como o Anuário das Mulheres Brasileiras (2011) evidenciam a situação de indigência e pobreza vivida por mulheres negras e a sua concentração em postos de trabalhado vulneráveis como o trabalho doméstico e o de cuidados em regiões metropolitanas e Distrito Federal. Os recentes estudos sobre relações de gênero no mundo do trabalho pouco têm avançado em considerar a questão racial como um dos principais elementos na distribuição de lugares e papéis sociais que constituem as desigualdades na sociedade capitalista.

Esse silenciamento pode ser explicado pela maneira como vem se consolidando os estudos feministas e de gênero nas universidades brasileiras com produções teóricas cada vez mais sofisticadas e distanciadas da realidade de mulheres pobres e racializadas que compõem parte significativa da força de trabalho. Para bell hooks (1984),“tem sido mais fácil para as mulheres brancas que não vivenciam opressão de raça ou classe se concentrarem exclusivamente no gênero”.

Nas décadas de 1970 e 1980 feministas negras como Angela Davis, bell hooks e Lélia Gonzalez já apontavam que a luta antirracista é indissolúvel da luta de classes. A recusa de feministas em reconhecer outras experiências de mulheres (que não as brancas, universitárias e de classe média) suprimiu a conexão entre raça e classe, escamoteando a situação de privilégio de um seleto grupo de mulheres forjado pelo discurso da “opressão comum”.

Nancy Fraser (2009) lembra o quanto o feminismo prosperou no momento da ascensão do neoliberalismo em que as reivindicações por justiça foram substituídas em função do reconhecimento da identidade e da diferença, reprimindo a memória de um igualitarismo social. A promessa emancipatória do feminismo, aos poucos deu lugar aos interesses individuais de mulheres privilegiadas que almejavam a igualdade com os homens de sua classe. As lutas feministas foram facilmente cooptadas pelo pensamento burguês a medida que mulheres brancas foram beneficiadas pelo movimento.

O capitalismo não cria desigualdades raciais e de gênero, ele as apropria. O racismo e o sexismo operam de modo a criar disputas dentro da própria classe trabalhadora gerando privilégios na competição por ocupações do mercado de trabalho. A divisão sexual do trabalho (HIRATA; KERGOAT, 2007) em que há, supostamente, trabalhos de mulheres e trabalhos de homens, sendo os desses últimos mais valorizados, não funciona da mesma maneira para todas as mulheres. A experiência de mulheres negras na diáspora é a experiência do trabalho, sempre estivemos nas ruas oferecendo todo tipo de serviço.

Cada vez que mais e mais mulheres passaram a ocupar o mercado de trabalho, foi preciso que outras assegurassem seu trabalho doméstico criando uma subdivisão de classe no interior da divisão sexual do trabalho (ÁVILA, 2010). A delegação de tarefas, além de não proporcionar a divisão igualitária do trabalho reprodutivo entre homens e mulheres, perpetua as desigualdades entre mulheres, assim como as desigualdades raciais, já que são as mulheres negras que historicamente ocupam o lugar do trabalho doméstico remunerado.

Se a autocrítica faz parte da ação e da elaboração teórica dos feminismos como alguém pode considerar a si mesmo como feminista sendo liberal e racista? Muitas organizações contemporâneas de mulheres negras sequer utilizam o termo “feminismo” para designar sua prática política. No entanto, o que costumamos nomear de prática feminista negra ou pensamento negro feminista é o conhecimento gerado a partir da própria experiência em resposta às opressões que interseccionam gênero, raça, classe e sexualidade (COLLINS, 2012), afirmando um posicionamento crítico ao feminismo hegemônico que pouco tem nos representado. É necessário refletir sobre qual emancipação queremos, pois as lutas antissexistas e antirracistas por si só não abalam as estruturas do capitalismo que, por seu oportunismo sistemático, apropria-se das desigualdades raciais e de gênero para acirrar a exploração econômica e fragmentar todas as formas de resistência.

Referências:

ÁVILA, Maria Betânia. Divisões e tensões em torno do tempo do trabalho doméstico no cotidiano. Revista do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero. Edição especial – Tema: Trabalho e Gênero. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2010. p.67-76.

COLLINS, Patricia Hill. Rasgos distintivos del pensamiento feminista negro. In: JABARDO, Mercedes (Ed.). Feminismos negros: uma antología. España: Traficantes de Sueños, 2012. p. 99 a 134.

DIEESE. Anuário das mulheres brasileiras. São Paulo: DIEESE, 2011.

FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações. Londrina, v. 14, n. 2, p. 11-22, jul./dez. 2009.

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. São Paulo, Cadernos de pesquisa, v. 37, n. 132, set.-dez. 2007, p. 595-609.

HOOKS, bell. Feminist Theory: from margin to center. Boston and Brooklyn: South End Press Classics, 1984.

Nasce Machado de Assis - 21/06/1839

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a Repúblicasubstituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época.

Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Os biógrafos notam que, interessado pela boemia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual. Para isso, assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras.
Sua extensa obra constitui-se de nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).Este romance é posto ao lado de todas suas produções posteriores, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes a sua segunda fase, em que se notam traços de pessimismo e ironia, embora não haja rompimento de resíduos românticos. Dessa fase, os críticos destacam que suas melhores obras são as da Trilogia Realista. Sua primeira fase literária é constituída de obras como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, onde notam-se características herdadas do Romantismo, ou "convencionalismo", como prefere a crítica moderna.

Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileirasdo século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros.Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nasce o Célebre Poeta, Advogado, Intelectual, Luiz Gama- 21/06/1830

Luiz Gama: 130 anos depois de sua morte, a luta contra o racismo continua!
por: Diego Pereira de Siqueira* -

O Brasil é um país sem memória, é o que muitos dizem. Anestesiados pelo futebol, o carnaval e o Big Brother, os escândalos de corrupção se sucedem um após o outro, sem que a maioria do povo sequer se lembre do nome dos envolvidos. O mesmo se pode dizer das nossas figuras “históricas”.

Mas acho que isso não é por acaso. Pelo contrário, tem a ver com o modo como foi sendo construído o Estado brasileiro ao longo dos anos. Desde o famoso “grito da independência”, o povo foi sistematicamente afastado do poder. A ele, só cabia obedecer e aplaudir os “heróis da pátria”, todos saídos da elite branca e escravocrata: Pedro I e Pedro II, Caxias, Bento Gonçalves, Tamandaré, todos eles perfeitos representantes dessa elite, sem nada que os identificasse com a massa do povo.

Pelo contrário, gente como Caxias foram canonizados como heróis justamente por seu papel em reprimir revoltas populares e matar pretos. Pessoas que se levantavam contra as injustiças da época, a infâmia da escravidão e ousavam se levantar contra os monstruosos privilégios dessa elite, além da perseguição que eram vítimas em vida, recebiam ainda outro castigo: o esquecimento, o desaparecimento dentro da história oficial, aonde só cabiam os “grandes”.

Luiz Gama, o negro escravo que chegou a advogado, é um dos maiores exemplos disso. Morreu há exatos 130 anos, no dia 24 de agosto de 1882, na miséria absoluta, depois de uma vida inteira dedicada à luta contra a escravidão. E lutou não suplicando para a boa vontade e compaixão dos senhores escravocratas, e sim apelando à dignidade do escravo e para o direito moral da revolta contra a degradação da escravidão. É dele a célebre frase “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Trazia o senso de revolta no seu sangue: nascido em Salvador, sua mãe, Luiza Mahin, era uma ex-escrava, que sobrevivia de vender doces e foi uma das líderes da célebre Revolta dos Malês, rebelião de escravos muçulmanos de Salvador. Sufocada a revolta, Luiza Mahin teve que fugir de Salvador,indo para o sul e depois desaparecendo de qualquer registro oficial, sem nunca ter reencontrado o filho. Este, algum tempo depois, foi vendido pelo próprio pai, para saldar uma dívida de jogo. Pelas próprias leis da época, isso também era ilegal, pois Luiz Gama nasceu livre, filho de uma escrava alforriada. Mas, como sempre, a lei não estava do lado dos mais fracos.

Após quase uma década de servidão para uma família remediada de São Paulo, Luiz Gama conseguiu sua liberdade. Passou a viver de pequenos serviços, enquanto estudava direito e passou a desenvolver sua militância a favor da abolição. Isso na década de 1840, quando essa causa estava longe de ser uma causa popular, contando com pouquíssimas adesões entre a gente “instruída” da época, mesmo entre os republicanos. Usando de seus conhecimentos em direito, aproveitava cada brecha na legislação escravista da época para defender o interesse de seus clientes, escravos que buscavam comprar sua liberdade. Por suas próprias contas, ele ajudou a libertar mais de 500 escravos através de processos legais.

Precisamente por conhecer tão bem as leis e o sistema judiciário da época, Luiz Gama não nutria nenhuma ilusão a respeito das instituições, e sabia que a verdadeira libertação só poderia se dar com a luta militante dos próprios escravos. Não se deixava seduzir pelas pregações hipócritas dos moralistas de então, que criticavam a violência dos escravos até mais do que a violência própria gerada pelos senhores de escravos. Grande polemista, Luiz Gama deixou, em centenas de discursos e cartas, um retrato vívido da condição degradante a que eram submetidos os seres humanos que se viam nessa condição, e concluía daí o direito moral à revolta: “Milhões de homens livres, nascidos como feras ou como anjos, nas fúlgidas areias da África, roubados e escravizados, azorragados, mutilados, arrastados neste país clássico da sagrada liberdade, assassinados impunemente, sem direitos, sem família, sem pátria, sem religião, vendidos como bestas, espoliados em seu trabalho, transformados em máquinas, condenados à luta d todas as horas e de todos os dias, de todos os momentos, em proveito de especuladores cínicos, de ladrões impudicos, de salteadores sem nome ... Quando, porém, por uma força invencível, por um ímpeto indomável, por um movimento soberano do instinto revoltado, levantam-se como a razão, e matam o senhor, como Lusbel mataria Deus, são metidos no cárcere; e aí a virtude exaspera-se, a piedade contrai-se, a liberdade confrange-se, a indignação referve, o patriotismo arma-se”.

Ao longo da sua vida, recebeu várias ameaças de morte, vindas dos escravocratas que não conseguiam suportar a necessidade desse “preto” vir a ameaçar as suas “propriedades”. Mas isso não o impedia de continuar sua luta, ao mesmo tempo contra todo o sistema socioeconômico da escravidão e pela liberdade e dignidade individual da população escravizada. Já no final da sua vida, ao lado de Antonio Bento, funda o clube abolicionista, precursor do grupo Caifazes, um movimento que se poderia dizer partidário do método da ação direta e da desobediência civil: Através de uma vasta rede de contatos, ele se infiltravam nas fazendas e convenciam os escravos a fugir, alojando-os depois em igrejas ou em casas de simpatizantes. Depois, eles seguiam para Santos, ajudados por ferroviários simpatizantes da causa, até serem alojados no quilombo de Jabaquara, onde podiam seguir para outro local onde pudessem se estabelecer definitivamente.

O seu inspirador e patrono era Luiz Gama, que ainda na velhice não se assustava diante do uso de métodos “radicais” para combater a escravidão e toda a instituição da qual era a base. No entanto, não pôde viver para ver a realização de seu maior objetivo: morreu na sua casa, localizada no bairro do Brás, aos 58 anos, deixando para seus filhos nenhum centavo em bens materiais, mas uma história de lutas e sacrifícios em beneficio de uma causa. Seis anos depois, a instituição da escravidão, moribunda e já não mais interessante do ponto de vista econômico, foi formalmente abolida, não por um ato de bondade de outra figura oficial, a princesa Isabel, mas sim pela luta dos próprios escravos e de seus aliados entre a população. Quando a História for escrita do jeito que deve ser, serão figuras como Luiz Gama que serão lembrados, e não os hipócritas da conciliação e da sociedade “oficial”.
A luta continua!

*texto publicado em 24 /08/2012 no site: lsr-cit.org