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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Caminhos de resistência: reconhecer-se negra

Luma Oliveira
Luma Oliveira*
publicado: blogueiranegras.org

Faz muito tempo que gostaria de compartilhar um pouco da minha história, que não é só minha, mas de várias outras mulheres negras. Uma história cujos caminhos não foram fáceis, mas sim cruéis e dolorosos. Muitas vezes nos sentimos sem força para percorre-lo, ficamos nos perguntando se terá de fato um fim, sem as angústias cotidianas e marcas que o racismo deixa para além de nossa pele, estou falando de um caminho e uma história cheia de reticências para nós. Antes que eu comece, quero perguntar para você, mulher negra que está lendo agora: quanto tempo levou para que você se reconhecesse como NEGRA? Pense um pouco e depois pensaremos juntas acerca desta questão.

Vamos lá pra nossa história. Bem, agora estou na casa dos vinte de idade (21), fico recordando por várias vezes como aconteceu e começou o processo desencadeador para que eu pudesse gritar ao mundo: sou negra! A gente sabe (nós, mulheres negras) desde que nascemos, geralmente, sempre fazem questão de destacar em nossa aparência qualquer traço/característica que nos remeta ao branco, nos fazendo odiar qualquer característica de África que possa surgir desde os nossos olhos até a pele. Sou de uma família que fazia questão de exaltar os antepassados de todas as nacionalidades possíveis, menos a nossa ascendência negra e até mesmo indígena, que temos por parte das duas famílias inclusive. Eu ouvia vários relatos, especulações sobre a presença européia, principalmente de dizerem “seu tataravô era português”, “sua tataravó tinha o cabelo liso”, “fulano era loiro”, mas nunca ouvi falar nada sobre a parte negra e indígena da família. Da parte do meu pai, a família é toda negra, pouca coisa ele mesmo sabe sobre ela, visto que meus avós faleceram quando ele era uma criança. Os meus tios mais velhos que chegaram à conhecê-los falam de suas características, dentre elas, alguns fazem questão de falar sobre os cabelos da minha avó paterna, dizendo que lembram pouco, mas têm quase certeza que ele eram lisos. Essas incertezas permeadas de “certezas” trabalhadas no estereótipo europeu é que carreguei por um longo tempo da minha vida, e carrego até hoje, não posso negar. Sendo assim, ficaria cada vez mais difícil me orgulhar ou sequer lembrar de onde vim, quem eu poderia ser – minha construção ficava cada vez mais lenta- embora essas questões e características se façam presentes entre a minha família, há algumas pessoas que sabem e destacam histórias e cores sobre minha africanidade, mas demorou muito para que eu pudesse e quisesse contar ao mundo essa parte da história.

Imersa nesse contexto, sempre fui cheia de incertezas e só quis acreditar naquilo que seria mais agradável para a sociedade, naquilo que fazem todos os dias as meninas pretas acreditarem: que nós somos “exóticas”, “devemos nos orgulhar dos traços brancos”, “quanto mais traço branco, mais bonita”, etc. Fatores que colaboraram ainda mais para que eu pudesse esconder minha cor e identidade. Falava aos quatro ventos quando alguém perguntava sobre meus traços, das histórias europeias que me contavam, mas era evidente que minha vida não tinha apenas uma face. Tentava negar até as últimas consequências qualquer semelhança e identidade negra que pudesse haver em mim, lembro da minha infância, início de adolescência e não foram fases muito diferentes.

Um segundo processo foi querer esconder meus cabelos do mundo, para isso utilizava qualquer processo que necessitasse para vê-lo liso. Progressiva, alisamento, chapinha e eram processos sofridos. Já tive muitos problemas por isso, cheguei até a não sair de casa, caso não conseguisse sair com os cabelos lisos por preguiça de fazer alguns dos processos, falta de dinheiro ou algo que me impedisse de alisar os cabelos. Muita gente pode achar que quando cito “cabelos” estou falando de algo fútil e sem importância, mas não estou: estou falando de “ser”, resistência, história e identidade. Acredito que nunca usei meus cachos antes da ruptura que em breve vou contar pra vocês, só usava os cabelos lisos e o mesmo processo se arrastou para todas as mulheres negras de minha família: primas, tias, irmã, menos para minha mãe que é branca. Por falar nela, não devo esquecer de destacar: em meio aos meus devaneios escrevendo esse texto, carrego na lembrança o tratamento que me davam ao ser vista com minha mãe, tratamento dado até hoje. Muita gente acha estranho quando digo que ela é minha mãe biológica, fazem colocações racistas, colocações que faziam desde que eu era criança, mas hoje sei muito bem me defender e resistir, naquela época não. Hoje vejo e lembro da dor que isso me causava, não só a mim quanto à minha irmã, que também passou por isso.

Após querer camuflar meus cabelos, o outro processo era querer exaltar e ficar procurando na frente do espelho qualquer traço branco que eu pudesse tentar enxergar, traços dos quais as revistas, televisão e novelas me faziam lembrar constantemente. E cada traço identificado era uma festa, cada estratégia utilizada era uma vitória. Cada vez mais eu deixava de ser eu, de ser exatamente quem eu era, e passava a ser aquilo que esperavam de mim, aquilo que me causava vergonha era preciso ficar na gaveta. Na adolescência, eu nunca fui a garota que alguém queria namorar, nunca fui a garota elogiada, no início da adolescência comecei a querer ser amada, e eu via quem eram as pessoas amadas nos meios em que convivia, e de todas as diferenças, estava um ponto comum entre elas: eram todas brancas. Quando você está passando de uma fase pra outra, principalmente nessa, a mente e o corpo são um turbilhão de sensações. Quando paro pra pensar em tudo isso, vejo e entendo a importância em construir a auto-estima das crianças negras desde o berço, penso que se talvez isso tivesse acontecido, eu teria conseguido resolver vários processos de outras maneiras. O racismo iria doer, ele sempre dói, anula e machuca de alguma maneira, não posso negar, mas as estratégias como podemos enfrentá-lo, se trabalhada nossa auto-estima, podem tentar, tentar mas não vão nos destruir, não mesmo. Se um dia pensar em ter filhxs, acredito que é um dos ensinamentos que aprendi e vejo junto às mulheres negras que quero tornar como um dos ensinamentos primeiros da vida de uma criança.

Após me anular por anos, tentar atingir um padrão que estava bem longe do meu e negar toda a minha ancestralidade, veio então com mais clareza o que era o feminismo. Sempre tive uma criação e presenças femininas em minha vida, femininas e feministas. Mas não o feminismo que está na academia e notas de rodapé, mas o feminismo da faca que corta a carne, das mulheres nordestinas, negras, da periferia, aquelas que não tiveram oportunidade de frequentar universidades. Estou falando de mulheres não só do meu sangue, mas também aquelas que compartilharam conosco o cotidiano de muita luta por uma vida sem violência, luta por liberdade. Acredito que meus primeiros contatos com o feminismo, foi o trabalho feito em casa com as mulheres de suas vidas que fazem parte da minha, sobretudo, mãe e irmã. Foi no meio de relatos, experiências, diálogos, luta conjunta e todo esse processo é que me formei, não sabíamos ao certo naquele tempo o que era feminismo, apesar de ouvirmos falar esse nome na TV, mas a gente já vivia o feminismo, que anos depois veio ganhar nome. A luta feminista junto à essas mulheres foi libertadora, e não foi uma liberdade individual, foi um processo coletivo de luta, desconstruções de pensamentos, aceitação de nós mesmas, de luta constante de nós por nós. Em meio a essa efervescência de ideias, identidades e vivência é que fomos nos desconstruindo e construindo cada canto que precisasse. Foi por meio do feminismo que me reconheci pela primeira vez como negra, que não me bastou mais chamarem-me de “morena”, “mulata” ou “café com leite” ; foi aí que eu aprendi a gritar, viver e resistir: SOU PRETA!

Foi uma ruptura que me abriu um mundo, não menos doloroso – contudo, com mais força para que eu conseguisse compreender e enxergar o verdadeiro sentido da resistência. Não aceitei mais as palavras usadas como bem entendem para negarem nossa cor e identidade, não aceitei mais que tentassem mandar direta ou indiretamente em como meus cabelos deveriam ficar: é, resolvi soltá-los e libertá-los junto comigo. Hoje “ostento”, saio por aí balançando-os sem medo e sou adepta da frase “quanto mais volume, mais poder”. Não quero mais saber de um só lado da moeda, não quero mais que minha imagem seja apagada, minha história descrita e escrita pelo lado que a sociedade aceitou, quero ela escrita com toda tinta preta que merece. Antes de soltar os cabelos, vieram outras mulheres que também foram fazendo-o, e aos poucos fui entendendo, sentindo e dizendo NÃO para toda sociedade racista que por anos tentou me matar. Foi um processo que vivi com minha irmã, uma das pessoas que mais me ensinaram e aprendi, igual à frase da música “1 de julho” que diz: eu vejo que aprendi, o quanto te ensinei. Hoje desfilo a minha cor em meio ao racismo, que tentou por tantas vezes me apagar. Tenho orgulho da minha história, luta… na verdade, de NOSSA história e luta. Não deixo mais ninguém usar de “eufemismos” para falar da minha cor, minha pele preta é minha essência, meu poema.

Doeu muito me esconder por tanto tempo, não ter forças suficientes para tentar lutar. A luta contra o racismo e suas raízes fincadas na sociedade é diária, ela continua doendo. Primeiro tentam te anular, mesmo você tentando chegar ao que esperam de você, não é isso que te dará algum ponto de paz. Depois, se você tentar existir e resistir, tentarão derrubar você das piores maneiras possíveis. A dor não passa, a dor não diminui – você sente e vê o racismo o tempo inteiro. Da hora que acorda até a hora que consegue encostar a cabeça no travesseiro. Para muitos, nossa luta, nossas história e resistência são exagero, para muitos isso não passa de “qualquer coisa” – agora, para quem sente desde que nasceu as correntes do racismo, a gente não está falando de qualquer coisa – estamos falando do direito de viver. Voltando à pergunta inicial, sabe quanto tempo demorei para reconhecer-me negra? 18 anos da minha vida! Sabe o que isso significa pra mim? Anos tentando buscar e entender quem eu era, quem eu queria ser. Anos sem poder levantar da cama e me sentir feliz por ser quem eu era, imersa em fantasmas e histórias mal contadas. Foram anos difíceis, não que agora esteja tudo mais fácil, porque não está. Continua doendo, continua me cortando dia após dia. Enxergo com mais clareza o que eu fechava os olhos para não crer, enxergo e sinto a cada esquina o peso do machismo e racismo sobre mim, mas e o que eu aprendi no caminho? No caminho conheci gente, fortaleci os meus laços, vi de que lado quero sambar, qual é o lado em que vou lutar. Aprendi que ouvir é uma das armas mais preciosas de luta, reconhecer-me negra é uma arma revolucionária. E a gente tem que sonhar, lutar e tentar todos os dias existir – lutar por um mundo preto. Quero que um dia as meninas pretas não demorem tanto quanto eu, quero que as meninas pretas se enxerguem em cores, amores e poesia. Quero as mulheres pretas na luta, olhando seu reflexo e dizendo: SOU PRETA! Não houve nada mais libertador na minha vida do que sentir-me e reconhecer-me: nem morena, nem mulata: SOU NEGRA! Apesar de toda luta e espinhos por esses caminhos de resistência, que a gente tenha ainda umas as outras para nos fortalecer, seja no sangue à poesia:

“Disseram-te ontem, menina preta
Que tu não servia pra casar
Venderam tua imagem pros turistas
Dizendo que teus quadris só servem pra sambar
Ensinaram-te, menina preta
Desde o berço,
A teus cabelos desprezar
Fazer progressiva, chapinha e teu afro alisar
Nunca teve, menina preta
Uma boneca da tua cor
Diziam que boneca loura era a única
Que merecia o teu amor
Fiz estes versos, menina preta
Para teu black libertar
Que da solidão desta cidade, tu não sejas mais refém
Que os teus quadris dancem quando tu quiser
Não para agradar turista, carregando etiqueta de passista
A poesia pra menina preta,
Tem seu som, tua cor
Força e garra, te libertando das amarras
E mostrando o quão bela tu és
Não te envergonhe nunca da sua história
Saiba que nestes versos
Estão luta, liberdade e por ti amor
Voe, sonhe, pise no chão, terreiro, na rua e realize,
Faça dessas letras a tua caneta com tinta preta
Inspire-se nessas linhas tortas,
E escreva agora a tua própria história…”

Luma de Lima Oliveira*
feminista, negra, poeta, socialista, periférica, educadora popular, estudante de Letras e blogueira no Entre Luma e Frida.

Onde nascem os medos

Maria Rita

Maria Rita*

Uma das épocas mais deliciosas da vida é a primeira infância, vamos para a escola pelos nossos coleguinhas, pela “tia”, pelos desenhos, pelas brincadeiras, pelas estorinhas.
Como uma criança negra e gorda as brincadeiras nem sempre eram as mais divertidas, não preciso explicar que eu era praticamente um alvo pintado em branco e vermelho, mas de alguma forma eram situações contornáveis, embora fossem me afetar no futuro, não me limitavam, não me impediam de rir de outras antas situações e momentos. O mesmo já não aconteceu com as inocentes historinhas contadas pelas “tias”. Em 1985 existia a famigerada hora da estorinha, escolhíamos um livrinho ou a professora trazia a estória para compartilhar. Depois de Ou Isto ou Aquilo, Mãe que faz e acontece, A curiosidade premiada, eis que um dia foi compartilhada uma estória diferente.



Na maioria das estórias personagens branquinhos circulavam por mundos fantásticos, tudo era um mundo lindo e maravilhoso de aventuras, desventuras e diversão. Até que a estória diferente surgiu. Logo nos primeiros momentos do contar a minha atenção foi fisgado, o personagem principal da história se chamava Negrinho. Mas diferente de todas as outras historinhas a criança deste conto não brincava, ela estranhamente trabalhava e apanhava.
“E vou falar de um escravinho mais negro que carvão chamado exatamente de Negrinho. Não conhecia pai ou mãe e dizia que Nossa Senhora era sua madrinha. Apanhava do patrão e do filho que não era brincadeira.”
trecho de Negrinho do Pastoreio – Cecilia Meireles
Conforme a estória avançava a percepção de que Negrinho do Pastoreio não era uma criança feliz ia tomando conta do meu imaginário. Negrinho não era livre, ele tinha umdono, ele não era nem do pai, nem da mãe dele, era como se ele fosse um cachorro ou um gatinho.

Um belo dia Negrinho do pastoreio comete um erro, um erro que merece uma punição. Um estancieiro vizinho do Dono do Negrinho faz um desafio relacionado a um cavalo Baio. O negrinho deve apostar uma corrida montado neste cavalo e ele perde, e o castigo vem, não aquele esperado, de sentar num cantinho e pensar no que fez, ele “leva uma surra que eu vou te contar”. Como se não bastasse, delegam ao Negrinho então nesta mesma noite tomar conta dos animais do seu dono (pastorear), mas ele estava cansado, machucado e então dorme e perde os animais. Ele apanha novamente e desta vez ele é pendurado de cabeça pra baixo em cima de um formigueiro. As formigas então o devoraram. Neste ponto da história meu horror já era máximo, mas de alguma forma ficaria pior quando o Negrinho voltava a aparecer para o seu algoz.
O negrinho do Pastoreio é uma lenda afro-cristã muito contada no século XIX, que foi um pouco modificada no livro “Como Nascem as Estrelas” de Cecilia Meireles. Pode parecer um estória como outra qualquer, mas não sei se por identificação ou se porque a estória é realmente horrível e traumática (pelo menos para uma criança de 6 anos foi) mas eu tenho um absurdo medo de formigas até hoje, não importa o tamanho delas, não importa se estão sozinhas ou se existe um formigueiro, elas são seres malignos comedores de crianças.
Acredito que a intensão pedagógica desta leitura fosse só para trabalhar uma lenda, ou inserir o contexto da morte na vida de crianças tão pequenas, mas naquele momento não foi observada as especificidades de todos os alunos presentes. Tratar uma sala de aula toda como se ali houvessem personagens hegemônicos não configura de forma alguma a melhor metodologia de ensino.
Apesar deste fato ter ocorrido a mais de 20 anos, outros tantos aconteceram durante a minha vida acadêmica. Seria despreparo dos profissionais encarregados da minha educação, ou um despreparo de todo o sistema de ensino? Fico com a segunda opção. Se professores não percebem um aluno negro em sua sala de aula, o que dizer de alunos homo ou transexuais?
A escola atual ainda não está preparada para acolher a todos, ainda não sabe como humanizar a educação.
Quantos de nós carregam este tipo de lembrança amarga na memória? Me congela a alma o tempo todo a possibilidade do meu filho ser exposto a esse tipo de “estorinha”. Até quando o negro vai aparecer no contexto acadêmico apenas como escravo? Aparentemente o único momento na história da humanidade que tivemos alguma participação (neste caso até protagonismo, e esse eu dispensava).
Existem tantas outras lendas, tantos contos, tantos momentos históricos onde o negro não apenas está presente mas é herói, porque não estudar aquilo é positivo, aquilo que traz orgulho.
Pra quem quer uma alternativa as histórias de escravidão, existe por ai uma série de livros com histórias e lendas africanas que valem a pena:

Três contos africanos de adivinhação
Reconta três histórias vindas da literatura oral nigeriana . A ideia vai para além do cotar histórias, o livro desafia o leitor a solucionar enigmas que são apresentados as personagens antes do final da história. Os textos são resgates de narrativas africanas, cuja literatura tem como um dos propósitos transmitir ensinamentos de ética para uma boa convivência

Sikulume
São sete histórias africanas passadas num ambiente místico repleto de lendas e personagens fantásticos, tudo isso a partir do local de origem de seus ancestrais.
São histórias de amor, de coragem , superação e rola histórinha de terror também, mas ainda assim vale a pena. Sikulume pode ser visto como um resgate identitário e agente de formação de leitores afro-brasileiros.

 
Contos Africanos para Crianças Brasileiras
O Livro trás duas histórias de Uganda adaptados para leitores brasileiros, o primeiro fala sobre a inimizade do gato e do rato e o segundo fala sobre porque os jabuti tem o casco rachado.
O Livro ainda propõe que as crianças pesquisem outras versões da história para que reconheçam a riqueza e a diversidade das histórias.
Felizmente também existem filmes como Kirikou e a feiticeira e o incrível Contos da Noite(onde embora os personagens não tenham um tom de pele, a identificação, pelo menos em casa, foi imediata)
Histórias positivas são importantes, não devemos subestimar que identificação é necessária e influencia para o bem e para o mal. Por menos crianças com medo de seus destinos por serem aquilo que são, e pois mais estórias que nos deem prazer de ouvir.

Maria Rita*
Criei e escrevo o True Love, blog sobre cultura lésbica. Sou ,Gorda, Lésbica, Mãe, Balzaquiana e Baixinha. Apaixonada por café da manhã, livros e trilhas sonoras. Tenho medo de formigas e mortes idiotas. – “Coração de águia , inquietude de passarinho”

terça-feira, 1 de julho de 2014

Amor e Luta: A mulher negra que sempre fui e não sabia

por Neiriele Marques*
publicado:blogueirasnegras.org
Quem me conhece sabe das minhas dificuldades em escrever. Meu negócio é falar. Sempre tive muito receio em escrever sobre minha própria história, mesmo não sabendo o motivo. Porém, Maria Carolina de Jesus tem soprado veementemente em meu ouvido que o fizesse. Não sei se ficará bom, mas, faço e publicizo.

Vinha no ônibus lendo o livro da SPM\PR “Mulheres Negras Contam sua História” e o primeiro texto traz a redação de uma companheira que faz parte do sindicato das trabalhadoras domésticas da Bahia. E ela trazia que luta e escreve para que jovens tenham um futuro diferente e pautado na dignidade. Fechei o livro e caminhei sobre a linha da minha própria vida.

Sou baiana, de Eunapólis, todavia, cresci em Tailândia, no estado do PA. Tenho hoje 25 anos e tive todo o conforto que os meus pais podiam me ofertar na primeira infância. Meu pai, um homem branco de olhos claros e cabelos escorridos trabalhava como gerente de serraria e por isso, tínhamos uma vida confortável. Só que aos finais de semana sempre tinha um churrasco em casa e meus pais sempre terminavam brigando. Vi minha mãe lutando com o meu pai várias vezes e os gritos eram atordoantes. Não sei como, mas, o meu pai começou a frenquentar o AA, que momentos de alegria poderia ver em minha casa. Só que não! Foi ai que ele, o meu pai, descobriu os cabarés da cidade. E para encurtar a história, ele saiu de casa, minha mãe após 17 anos como dona de casa, foi trabalhar como doméstica. Foram as primeiras visitas das necessidades em nossa porta.

Viemos a primeira vez para o ES. Moramos em um barraco que quando ventava, balançava todo. Eu, minha mãe e meu irmão, nem dormíamos de medo. Como foram difíceis aqueles anos. Sobrevivemos na base de muito trabalho de minha mãe em um supermercado. Um dia o telefone toca na casa de uma tia. O meu pai depois de quase dois anos sente saudades e pede que voltássemos. Largamos o pouco que tínhamos e fomos estrada a fora de rodoviária em rodoviária até chegar ao Pará novamente.

Meu pai não morava mais em uma casa de uma vila de serraria. Agora ele tinha uma casa no melhor bairro da cidade. E como ela era linda e grande! Nada se parecia com o barraco que ameaçava cair no ES! Não durou uma semana para que o meu pai nos abandonasse com R$ 14, 00, um frango na geladeira e a promessa de voltar no fim de semana. Dia esse que após 13 anos não chegou… A partir daí vieram as complicações de fato. Minha mãe cai em depressão, temos todos os móveis levados pela loja que não foi paga, a ex que meu pai vivia e era a dona da casa, passa a nos ameaçar de despejo e o fazia com frequência com a presença da polícia e o advogado alegou a minha mãe que o macho dela só saiu de casa por incompetência dela e a fome fazia parte de todo esse cenário. Para aliviar as dores estomacais, cozinhávamos mamão verde com sal em um fogareiro caseiro para durar mais um dia. Minha mãe até tentou voltar trabalhar como doméstica, só que não tinha forças. Eu e meu irmão assumimos as rédeas. Ele com quinze anos e eu doze. Lembro de um dia que ele se escondeu debaixo da cama para não ir trabalhar durante a madrugada. Levou um tremenda surra. Ele ajudante de padeiro e eu ajudante de cozinha de beira de estrada de um posto de gasolina. Não podia mais freqüentar a escola. Por este trabalho receberia R$ 20,00 semanais, uma refeição diária (essa que era levada e partilhada com a família) e várias cantadas de homens nojentos. Às vezes a minha chefe me liberava mais cedo para eu acompanhar o grupo de evangelização da igreja que fazíamos parte e às vezes me deixava ir à escola. Como era triste essas idas a escola! Nessa época eu tinha SOMENTE um calçado cheio de prego e que me fazia andar quicando por conta disso. Isso quando não quebrava mais alguma parte dele no caminho. Para que este fato não acontecesse, ia descalça para a escola e no portão da escola o colocava e saia quicando pátio a fora. As roupas eram de doação, então, sempre maior do que meu número. Parecia que eu tinha uns 40 anos!

A casa foi tomada e precisamos nos mudar. Com a ajuda da família fomos morar com uma tia na Bahia. Que alivio! Minha mãe trabalhava em casa de família de segunda a segunda, dormindo no trampo por R$ 150, 00. Às vezes eu ia pra lá e pra ir aprendendo o ofício também. Eu e meu irmão já íamos pra escola novamente. Parti a vender bolo na rua com uma prima no horário vespertino. Nesse período o meu pai nos ligou uma única vez pra dizer que sentia saudades e nunca mais escutei a sua voz.

Como o dinheiro tava curto, mãe parte para a capital do ES para trabalhar na casa de família e logo depois caiu em depressão. Eu, com os meus quatorze anos, assumi a responsabilidade de tocar a história. Larguei os estudos, vim para cuidar dela e comecei a trabalhar como babá nos fins de semana. Depois fui contratada para ficar integralmente. Eu e minha patroa realizamos o acordo de me liberar para estudar em algum turno. No ano seguinte, após entrar em um projeto de indicação para uma escola da Prefeitura, pois, a escola pública do bairro nobre não me aceitou por alegar que eu era muito velha para a série e ainda queria estudar no turno diurno! Eu já tinha 15 anos e estava na 6ª serie. Ainda bem que não fui para essa escola. Fui para uma outra, onde os professores, logo no fim do primeiro bimestre me indicaram para um provão e adiantei uma série. Nem sabia o que estava acontecendo. Mas, o melhor ainda estar por vir. No último ano do fundamental realizei várias provas para escolas particulares. Sugestão de uma das professoras! Passei com louvor e bolsa em várias nas melhores escolas de Vitória. Pude escolher para onde queria ir e partir. Estudei e fui preparada para o vestibular. Mesmo sem saber para quê era isso. Continuava como babá e governanta de um apartamento e no início, com uma folga mensal.

Não me divertia, namorava ou qualquer coisa usual de uma jovem. Aliás, eu nem sabia o que era ser jovem. Não me sentia, não agia e nem imagina o que era ser isso na vida. Sempre saia com meus patrões para onde quer que fossem. Algumas vezes, as colegas de sala do fundamental me carregavam e como eu me sentia estranha perto delas. Elas tão vivas e intensas e eu assustada com o mundo. Um dia na escola de ensino médio uma garota perguntou se era verdade que eu trabalhava como babá e após confirmar, nunca mais falou comigo.

O meu cabelo vivia alisado e preso. Os meus cachos eram vergonha para mim… Era uma carga muito pesada. Em nada eu parecia com as meninas da escola. Sempre fiz amizade fácil e tava rodeada de gente, só que o meu forte era jogar com os meninos qualquer esporte que me colocasse a frente. Eu não me sentia pertencente a nada. Me sentia flutuante. Sem um espelho social para olhar e me enxergar.

Aos 20 anos no 3º ano do ensino médio, eu era a mais velha da turma. Vi uma matéria na TV com um grupo de assistentes sociais, pesquisei e realizei metade das provas nas faculdades particulares para tal profissão. Que fracasso! Até como suplente eu ficava ruim na classificação. Sai das cadeiras da frente e fui para a turma do fundão.

Minha rotina diária era trabalho e escola. Só! Mais nada! Da escola para o trabalho e do trabalho para a escola. Se me atrasava um pouco, o celular que ganhei para o trabalho, logo tocava. E mesmo com minha auto estima lá embaixo, passei no vestibular da Federal! Que dia mais feliz! A irmã de uma amiga ligou e eu sai atordoada pela rua tentado pegar um ônibus ou uma lan house para ver o meu nome classificado. Minha família fez tanta festa. Sem sabermos o que isso poderia significar, comemoramos!

UFES… o grande machado! Foi após romper com o espaço da universidade que as correntes foram cortadas. Depois de dois anos, num período que sai da casa que trabalhava e fui me sustentar sendo garçonete e voltar a casa da família, larguei o ofício de empregada doméstica e passei a ser bolsista de Extensão Universitária para receber R$ 360,00! Aos longos dos meus 22 anos eu pude me sentir jovem! Tinha tempo para pintar a universidade de povo. Logo fui fisgada pelo Movimento Negro e pude perceber o que era ser jovem, mulher e negra. Tomei consciência do que aconteceu e ocorre com os meus irmãos. Que quantas Neirieles estão limpando bunda de neném ou servindo mesas por ai sem perspectiva nenhuma de futuro. Que meu cabelo crespo é lindo e é como a música que gosto. Só serve com o volume alto! Foram 4 anos de muita peleja e aperto e diante disso, como ter outras mulheres negras, na mesma condição que você, faz com que o caminho fique mais suave. Compartilhamos as dores e alegrias daquela instituição. Individualmente a minha história poderia ser mais uma, porém, ela é o resultado do fruto de anos e anos da luta de meu povo. Devo isso a Aqualtune, a Carolina de Jesus, as Célias, Ivalnis, Zélias e Marias.

Hoje, fazendo parte do Fórum Estadual e Nacional da Juventude Negra e diante de toda a mobilização para o II ENJUNE, percebo que nós mulheres negras precisamos falar e escrever sobre a sua história para que outras jovens e mulheres se percebam como tais e se juntem a nós pelo fim das opressões.

Neiriele Marques*

Neiriele Marques nasceu na cidade de Eunápolis - BA, em 04 de novembro de 1988. Cresceu em Tailândia - PA, porém, é no Espírito Santo que vive nos últimos anos e onde descobri-se jovem, mulher e negra. É integrante do Coletivo de Mulheres Negras Aqualtune e uma das coordenadoras do Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito Santo. Formou-se em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo e desenvolve atividades profissionais na área racial.