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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Traços em negrito: beleza negra além dos traços finos

Por Jarid Arraes
publicado: revista Fórum
O padrão ocidental de beleza é obviamente racista – um fato inevitavelmente observado em todos os contextos relacionados a aparência física. São raras as celebrações da negritude, sobretudo quando as pessoas em questão são mulheres. Infelizmente, é muito comum passar as páginas de revistas e catálogos de cosméticos ou assistir programas inteiros de televisão sem encontrar representações de mulheres negras como belas, nem mesmo nos comerciais e propagandas. E apesar de haver alguns exemplos de mulheres negras famosas no Brasil e no mundo que são consideradas lindas, a beleza negra presenciada na mídia parece, na maioria das vezes, se enquadrar nos específicos critérios dos “traços finos”.
São cabelos que até podem ser cacheados – mas nunca armados -, lábios que não devem ser muito grossos e narizes afilados e “delicados”. Só assim as mulheres negras estarão dentro do padrão de beleza. Esse filtro, no entanto, é extremamente excludente: no Brasil e no mundo, há muitas etnias e variações genéticas que resultam em traços distintos, que claramente não podem ser todos compatíveis com o que a sociedade considera bonito. Essa separação do que é permitido no mundo da beleza acaba gerando uma hierarquização da própria negritude, discriminando aquelas que possuem cabelos crespos e volumosos, mas dando permissões limitadas às mulheres negras de rosto mais fino e cabelos com cachos mais definidos.

A cultura dos “traços finos” é uma tentativa de “higienização” de todo um grupo racial que já há muitos séculos é retratado como indesejável. A expressão livre e desimpedida da negritude é repudiada e, portanto, sua aparência física também é podada e as mulheres cujos traços não são finos acabam sendo hostilizadas. Aquelas que conseguem enfrentar os parâmetros da indústria da beleza e amam suas características físicas, sem recorrer a modificações corporais como rinoplastias e alisamentos, são verdadeiras guerreiras que resistem fortemente para manter a autoestima. Essas mulheres, que passo a passo buscam a politização e o fortalecimento da percepção de si, levam suas características faciais e corporais a um patamar transformador que repercute em todas as esferas sociais. É a resistência e o empoderamento dessas mulheres que criam caminhos por onde a desintegração do racismo pode trilhar e acontecer.

Com essa importante reflexão, é possível virar a mesa e jogar com as palavras originalmente usadas para oprimir. Ao invés de reproduzir a ideia dos “traços finos” desejáveis, deve entrar em cena a exaltação dos “traços em negrito“: fortes, escuros e evidentes. A beleza da negritude, afinal, pode e deve existir em muitos tons, tamanhos e pluralidades.
Foto:Tredência Modas

sábado, 2 de agosto de 2014

A MODA AFRO-BRASILEIRA

publicado: Raça Brasil
TEXTO: Maurício Pestana | FOTOS: Arthur Viana e Divulgação | Adaptação web: David Pereira

A designer baiana, Goya Lopes | FOTO: Arthur Viana e Divulgação

A designer baiana Goya Lopes está fazendo história ao redor do mundo com suas criações. A cada ano, ela se renova nas coleções, que, além de um olhar bem atual, traz em destaque o contexto étnico afro-brasileiro. Goya estudou design durante três anos na Itália, onde também cursou litografia. De volta ao Brasil, iniciou a criação de um produto com status de peça única e que transmitisse não só o lado estético, mas, sobretudo, a cultura afro-brasileira.

O projeto Didara (‘bom’, em iorubá), existe há 11 anos com esse ideal. As cores fortes como amarelo, laranja, vermelho e belos motivos afros dão um tom especial e uma característica única em seu trabalho. Nesta entrevista, a artista-estilista fala sobre o panorama da moda no Brasil que, cada vez mais, ganha status de cultura. “O mundo inteiro sabe que a moda também é cultura. Até o governo tem reconhecido isso, a prova é o setorial de moda do Ministério da Cultura (Minc)”, afirma.

Como está o atual momento da moda no Brasil, com tanto destaque na mídia?

O momento atual é muito importante porque a moda está sendo reconhecida como cultura e é fundamental esse reconhecimento. O mundo inteiro sabe que a moda também é cultura. Até o governo tem reconhecido isso, a prova é o setorial de moda do Ministério da Cultura (Minc). Nós podemos pensar e começar a trabalhar como políticas públicas para a moda como cultura. É a coisa mais importante!

E como a moda afro-brasileira está inserida nesse contexto?

A moda afro-brasileira também está sendo vista como parte dessa cultura. É fundamental que nesse momento em que se está pensando na moda como cultura, pensarmos também em como trabalhar e pensar, realmente, como reconhecer a moda afro-brasileira, quem são os seus atores, quem somos nós nesse momento. Para tal, é necessário reconhecer e mapear esses atores.



Nós podemos pensar e começar a trabalhar como políticas públicas para a moda como cultura | FOTO: Arthur Viana e Divulgação


Você é, talvez, a maior representante dessa moda afro-brasileira e que leva esse conceito para diversas áreas da sociedade. As pessoas gostam de vestir o seu trabalho. Isso sempre foi assim ou houve alguma resistência?

O início do meu trabalho foi um projeto de design. Ele nasceu direcionado a um público-alvo: o turista. Eu precisava construir um padrão e, para isso, era necessário, antes de tudo, ter um espaço, então construí isso tendo como laboratório o Pelourinho. Não só para a Bahia e para os baianos, mas, principalmente, para todas as pessoas que visitam a Bahia, ávidas por uma lembrança cultural. Coloquei-me num local adequado para que eu pudesse construir isso. Meu trabalho foi construído ao longo de 25 anos, não só na Bahia, mas em nível de interagir com todas as pessoas que passassem pela Bahia, inicialmente no Pelourinho e, depois, no aeroporto de Salvador.

Esse trabalho já consegue ser aceito e ter espaço garantido na sociedade brasileira?

A moda afro-brasileira ainda está muito longe de ser aceita dentro de um processo, porque ela exige uma produção, uma promoção, uma resposta positiva da mídia. A moda da diáspora étnica, da matriz africana, no mundo inteiro não tem essa resposta. Não é só a questão do trabalho, do talento, mas ela tem que ter uma resposta positiva em se tratando de resultado de venda, de mercado e de aceitação da mídia. Mas hoje, acredito que estamos numa situação bem melhor porque podemos trabalhar dentro do Brasil com a questão cultural e, principalmente, existe um potencial muito grande dentro da economia criativa. Hoje se acredita que seja uma mola propulsora no desenvolvimento. Então, por que não se trabalhar dessa maneira? Acredito que existe muita dificuldade, mas existe também uma grande possibilidade que é através da economia criativa.


O fato do Brasil, principalmente São Paulo e Rio e Janeiro, ter se tornado nos últimos anos parte do circuito mundial da moda tem ajudado a moda afro-brasileira?

Todo esse crescimento da moda afro-brasileira não está dentro deste contexto. É necessário, mais do que nunca, pensar em uma maneira de se organizar a moda brasileira dentro deste contexto, do que está acontecendo nesse circuito. Ela não existe! O que existe são atores isolados como eu, como outros que se falam e se apresentam, mas não existe, de fato, a moda afro-brasileira num contexto de Brasil e nem no contexto de fora. Porém, existe todo um potencial muito grande que é necessário se mobilizar para que isso aconteça. É necessário criar estratégias. O principal é formar um grupo unido para que se possa se apresentar isso. A moda no Brasil cresce, mas sem estratégia para a moda afro-brasileira.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O padrão de beleza negra ideal


por: Amanda Beatriz*
publicado:blogueirasnegras.org


Tudo começou por causa de uma foto. Enviei o arquivo com a imagem de meus priminhos para várias páginas destinadas a divulgação da “beleza negra” em uma famosa rede social. Entretanto, para minha surpresa, nenhuma delas demonstrou interesse pelas crianças ou, sequer, retornou a mensagem.

Este fato chamou minha atenção e a suposta “rejeição fotográfica” surtiu efeito contrário. Em vez de me deixar ressentida, me fez refletir acerca do porquê desta atitude.

No primeiro momento, relatei as impressões do ocorrido aos administradores das respectivas fanpages e critiquei o modelo de beleza comumente reconhecido e divulgado. Mais uma vez, outra surpresa: tive pouquíssimo retorno. Para ser objetiva, somente três moderadores responderam o inbox. Em seguida, me peguei bastante pensativa, analisando todo aquele discurso ideológico veiculado por trás das fotos de negras consideradas “belíssimas”. E, é claro, lembrei-me também do perfil de mulher comumente celebrado nos posts que estampam nosso feed de notícias.

Daí, pude perceber que – lamentavelmente – as imagens contempladas traduzem a investida sistemática da sociedade racista com o propósito de reforçar o “embranquecimento” do negro. E ainda endosso: este movimento é decorrente do processo de negação da identidade étnico-racial a que a população preta foi submetida ao longo da História brasileira. É notório, na maioria das fotos em circulação na internet, que o interesse se dá apenas na promoção estética da “negra ideal”.

Por negra ideal se entende aquela que foi socialmente aceita porque é dotada de características fenotípicas em conformidade aos padrões eurocêntricos. É a preta alta, de lábio fino, nariz estreito, cabelo liso, rosto delgado e tom de pele claro (na maioria das vezes); uma negra considerada exótica em relação aos padrões vigentes. Essa sim, é a que tem espaço garantido nas páginas de beleza étnica da internet. E ponto final! É a #pretinhaestilosa, a #negralinda, a #pretinhapoderosa…

Afinal de contas, a beleza dos cânones bem “representaria” as demais. Linda mesmo “seriam” Beyoncé, Rihanna, Taís Araújo, Isabel Fillardis, Camila Pitanga, Valéria Valenssa, Cris Viana, Sheron Meneses, Juliana Alves, Quitéria Chagas, Ilde Silva, entre outras divas. E todas estas mulheres – de fato – são belíssimas.
Desejo ressaltar que, em momento algum, o propósito do texto é de ofendê-las ou a intenção das palavras é a de desqualificar a notável beleza que essas negras detêm. O objetivo da argumentação é somente o de lançar as bases para construção da seguinte linha reflexiva: por que somente o perfil deste tipo de preta é o socialmente aceitável e também o único a ser legitimamente considerado bonito?

Onde estão as outras mulheres, por vezes gordas; de estatura baixa ou mediana; rosto redondo; cabelo crespo e/ou encaracolado; olhos castanho-escuros; lábios grossos e de “nariz negro” (leia-se, no contexto explanado, “nariz feio”)? É esta a negra que cumpre dupla jornada de trabalho; que enfrenta, por dia, mais de quatro horas em seu deslocamento moradia-emprego e que possui, em média, baixo grau de escolaridade e limitado poder aquisitivo. Consequentemente, esta preta não preenche os requisitos necessários para merecer despontar em uma página de beleza na internet.

É óbvio que esta mulher não atende ao “padrão FIFA de qualidade” tanto no plano físico quanto no social! Assim, ela acaba por angariar a reprovação tácita do coletivo, visto que se torna indigna de ser admirada. Nessa altura do campeonato, paira no ar a seguinte pergunta: por que seria tão pioneiro e arrojado divulgar sua imagem nas redes sociais?

Desafio o leitor a se indagar a respeito!

Se a identidade étnico-racial da beleza negra é composta por negras X e negras Y, por que vemos propagado apenas um desdobramento possível do todo? Se X e Y são biunívocas, se o todo é belo, se X é bela e admirada, por que Y ainda é ignorada e esquecida? Por que Y ainda é considerada feia e não habilitada para ser vista e compartilhada amplamente no Facebook?

Nossos gostos e desejos são construídos simbolicamente com base em padrões sociais desenhados sob a égide da cultura. É um processo lento, inconsciente e complexo. Eles se revelam, por exemplo, no desejo sistemático pela loira (na maioria dos casos)… Verificam-se ainda na reprodução standard eurocêntrica insculpida na figura do negro exótico e assim por diante.

Quantas vezes, sem perceber, corrobora-se esse comportamento que reforça a negação de nossa identidade, escamoteando a fenotipia negra para se enxergar inserida nessa sociedade racista? Quantas vezes a negra “Y” se perde no processo de empoderamento da completude estética identitária da mulher negra?

Portanto, cara leitora, ao longo de nosso processo de autoaceitação e de exercício reflexivo-político acerca do que é se enxergar negra – sem deixar de render créditos às “negras ideais” (lembrando a você que por ideal se define o contexto já apresentado) – vamos aprender a nos deleitar com a beleza da mulher preta do nosso dia-a-dia.
Tão bela quanto à negra X é a preta de tranças, a mulher Black Power, àquela de nariz negro, a preta gorda e a mulher do cabelo crespo, curto e encaracolado! É maravilhosa a nossa pretinha de lábio grosso e de pele escura! Lindas somos todas nós, as negras reais.

Que a beleza da negra Y, a da negra real, a de Lupitas Niong’o e de Nayaras Justino possa, efetivamente, ser tão valorizada quanto à das negras X. Um brinde à tão desmerecida, porém não menos bela, negra real!Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.

Amanda Beatriz*

É estudante de Direito; negra em construção; mulher em intenso processo de individuação; humanista por excelência e partidária inveterada de um mundo em que todas as pessoas, sem distinção, sejam respeitadas em sua plenitude de autonomia e escolha.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Amor e Luta: A mulher negra que sempre fui e não sabia

por Neiriele Marques*
publicado:blogueirasnegras.org
Quem me conhece sabe das minhas dificuldades em escrever. Meu negócio é falar. Sempre tive muito receio em escrever sobre minha própria história, mesmo não sabendo o motivo. Porém, Maria Carolina de Jesus tem soprado veementemente em meu ouvido que o fizesse. Não sei se ficará bom, mas, faço e publicizo.

Vinha no ônibus lendo o livro da SPM\PR “Mulheres Negras Contam sua História” e o primeiro texto traz a redação de uma companheira que faz parte do sindicato das trabalhadoras domésticas da Bahia. E ela trazia que luta e escreve para que jovens tenham um futuro diferente e pautado na dignidade. Fechei o livro e caminhei sobre a linha da minha própria vida.

Sou baiana, de Eunapólis, todavia, cresci em Tailândia, no estado do PA. Tenho hoje 25 anos e tive todo o conforto que os meus pais podiam me ofertar na primeira infância. Meu pai, um homem branco de olhos claros e cabelos escorridos trabalhava como gerente de serraria e por isso, tínhamos uma vida confortável. Só que aos finais de semana sempre tinha um churrasco em casa e meus pais sempre terminavam brigando. Vi minha mãe lutando com o meu pai várias vezes e os gritos eram atordoantes. Não sei como, mas, o meu pai começou a frenquentar o AA, que momentos de alegria poderia ver em minha casa. Só que não! Foi ai que ele, o meu pai, descobriu os cabarés da cidade. E para encurtar a história, ele saiu de casa, minha mãe após 17 anos como dona de casa, foi trabalhar como doméstica. Foram as primeiras visitas das necessidades em nossa porta.

Viemos a primeira vez para o ES. Moramos em um barraco que quando ventava, balançava todo. Eu, minha mãe e meu irmão, nem dormíamos de medo. Como foram difíceis aqueles anos. Sobrevivemos na base de muito trabalho de minha mãe em um supermercado. Um dia o telefone toca na casa de uma tia. O meu pai depois de quase dois anos sente saudades e pede que voltássemos. Largamos o pouco que tínhamos e fomos estrada a fora de rodoviária em rodoviária até chegar ao Pará novamente.

Meu pai não morava mais em uma casa de uma vila de serraria. Agora ele tinha uma casa no melhor bairro da cidade. E como ela era linda e grande! Nada se parecia com o barraco que ameaçava cair no ES! Não durou uma semana para que o meu pai nos abandonasse com R$ 14, 00, um frango na geladeira e a promessa de voltar no fim de semana. Dia esse que após 13 anos não chegou… A partir daí vieram as complicações de fato. Minha mãe cai em depressão, temos todos os móveis levados pela loja que não foi paga, a ex que meu pai vivia e era a dona da casa, passa a nos ameaçar de despejo e o fazia com frequência com a presença da polícia e o advogado alegou a minha mãe que o macho dela só saiu de casa por incompetência dela e a fome fazia parte de todo esse cenário. Para aliviar as dores estomacais, cozinhávamos mamão verde com sal em um fogareiro caseiro para durar mais um dia. Minha mãe até tentou voltar trabalhar como doméstica, só que não tinha forças. Eu e meu irmão assumimos as rédeas. Ele com quinze anos e eu doze. Lembro de um dia que ele se escondeu debaixo da cama para não ir trabalhar durante a madrugada. Levou um tremenda surra. Ele ajudante de padeiro e eu ajudante de cozinha de beira de estrada de um posto de gasolina. Não podia mais freqüentar a escola. Por este trabalho receberia R$ 20,00 semanais, uma refeição diária (essa que era levada e partilhada com a família) e várias cantadas de homens nojentos. Às vezes a minha chefe me liberava mais cedo para eu acompanhar o grupo de evangelização da igreja que fazíamos parte e às vezes me deixava ir à escola. Como era triste essas idas a escola! Nessa época eu tinha SOMENTE um calçado cheio de prego e que me fazia andar quicando por conta disso. Isso quando não quebrava mais alguma parte dele no caminho. Para que este fato não acontecesse, ia descalça para a escola e no portão da escola o colocava e saia quicando pátio a fora. As roupas eram de doação, então, sempre maior do que meu número. Parecia que eu tinha uns 40 anos!

A casa foi tomada e precisamos nos mudar. Com a ajuda da família fomos morar com uma tia na Bahia. Que alivio! Minha mãe trabalhava em casa de família de segunda a segunda, dormindo no trampo por R$ 150, 00. Às vezes eu ia pra lá e pra ir aprendendo o ofício também. Eu e meu irmão já íamos pra escola novamente. Parti a vender bolo na rua com uma prima no horário vespertino. Nesse período o meu pai nos ligou uma única vez pra dizer que sentia saudades e nunca mais escutei a sua voz.

Como o dinheiro tava curto, mãe parte para a capital do ES para trabalhar na casa de família e logo depois caiu em depressão. Eu, com os meus quatorze anos, assumi a responsabilidade de tocar a história. Larguei os estudos, vim para cuidar dela e comecei a trabalhar como babá nos fins de semana. Depois fui contratada para ficar integralmente. Eu e minha patroa realizamos o acordo de me liberar para estudar em algum turno. No ano seguinte, após entrar em um projeto de indicação para uma escola da Prefeitura, pois, a escola pública do bairro nobre não me aceitou por alegar que eu era muito velha para a série e ainda queria estudar no turno diurno! Eu já tinha 15 anos e estava na 6ª serie. Ainda bem que não fui para essa escola. Fui para uma outra, onde os professores, logo no fim do primeiro bimestre me indicaram para um provão e adiantei uma série. Nem sabia o que estava acontecendo. Mas, o melhor ainda estar por vir. No último ano do fundamental realizei várias provas para escolas particulares. Sugestão de uma das professoras! Passei com louvor e bolsa em várias nas melhores escolas de Vitória. Pude escolher para onde queria ir e partir. Estudei e fui preparada para o vestibular. Mesmo sem saber para quê era isso. Continuava como babá e governanta de um apartamento e no início, com uma folga mensal.

Não me divertia, namorava ou qualquer coisa usual de uma jovem. Aliás, eu nem sabia o que era ser jovem. Não me sentia, não agia e nem imagina o que era ser isso na vida. Sempre saia com meus patrões para onde quer que fossem. Algumas vezes, as colegas de sala do fundamental me carregavam e como eu me sentia estranha perto delas. Elas tão vivas e intensas e eu assustada com o mundo. Um dia na escola de ensino médio uma garota perguntou se era verdade que eu trabalhava como babá e após confirmar, nunca mais falou comigo.

O meu cabelo vivia alisado e preso. Os meus cachos eram vergonha para mim… Era uma carga muito pesada. Em nada eu parecia com as meninas da escola. Sempre fiz amizade fácil e tava rodeada de gente, só que o meu forte era jogar com os meninos qualquer esporte que me colocasse a frente. Eu não me sentia pertencente a nada. Me sentia flutuante. Sem um espelho social para olhar e me enxergar.

Aos 20 anos no 3º ano do ensino médio, eu era a mais velha da turma. Vi uma matéria na TV com um grupo de assistentes sociais, pesquisei e realizei metade das provas nas faculdades particulares para tal profissão. Que fracasso! Até como suplente eu ficava ruim na classificação. Sai das cadeiras da frente e fui para a turma do fundão.

Minha rotina diária era trabalho e escola. Só! Mais nada! Da escola para o trabalho e do trabalho para a escola. Se me atrasava um pouco, o celular que ganhei para o trabalho, logo tocava. E mesmo com minha auto estima lá embaixo, passei no vestibular da Federal! Que dia mais feliz! A irmã de uma amiga ligou e eu sai atordoada pela rua tentado pegar um ônibus ou uma lan house para ver o meu nome classificado. Minha família fez tanta festa. Sem sabermos o que isso poderia significar, comemoramos!

UFES… o grande machado! Foi após romper com o espaço da universidade que as correntes foram cortadas. Depois de dois anos, num período que sai da casa que trabalhava e fui me sustentar sendo garçonete e voltar a casa da família, larguei o ofício de empregada doméstica e passei a ser bolsista de Extensão Universitária para receber R$ 360,00! Aos longos dos meus 22 anos eu pude me sentir jovem! Tinha tempo para pintar a universidade de povo. Logo fui fisgada pelo Movimento Negro e pude perceber o que era ser jovem, mulher e negra. Tomei consciência do que aconteceu e ocorre com os meus irmãos. Que quantas Neirieles estão limpando bunda de neném ou servindo mesas por ai sem perspectiva nenhuma de futuro. Que meu cabelo crespo é lindo e é como a música que gosto. Só serve com o volume alto! Foram 4 anos de muita peleja e aperto e diante disso, como ter outras mulheres negras, na mesma condição que você, faz com que o caminho fique mais suave. Compartilhamos as dores e alegrias daquela instituição. Individualmente a minha história poderia ser mais uma, porém, ela é o resultado do fruto de anos e anos da luta de meu povo. Devo isso a Aqualtune, a Carolina de Jesus, as Célias, Ivalnis, Zélias e Marias.

Hoje, fazendo parte do Fórum Estadual e Nacional da Juventude Negra e diante de toda a mobilização para o II ENJUNE, percebo que nós mulheres negras precisamos falar e escrever sobre a sua história para que outras jovens e mulheres se percebam como tais e se juntem a nós pelo fim das opressões.

Neiriele Marques*

Neiriele Marques nasceu na cidade de Eunápolis - BA, em 04 de novembro de 1988. Cresceu em Tailândia - PA, porém, é no Espírito Santo que vive nos últimos anos e onde descobri-se jovem, mulher e negra. É integrante do Coletivo de Mulheres Negras Aqualtune e uma das coordenadoras do Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito Santo. Formou-se em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo e desenvolve atividades profissionais na área racial.