Mostrando postagens com marcador afrodescendentes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador afrodescendentes. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Edital apoia projetos de enfrentamento às desigualdades raciais nas escolas

As inscrições para o “Edital Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra” estão abertas até 10 de outubro. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento e a implementação de práticas inspiradoras de gestão escolar que busquem elevar resultados educacionais dos jovens negros e das jovens negras

O Edital resulta de parceria o Baobá, o Instituto Unibanco, a Universidade de São Carlos e o CEERT

As inscrições para o “Edital Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra” estão abertas até 10 de outubro. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento e a implementação de práticas inspiradoras de gestão escolar que busquem elevar resultados educacionais dos jovens negros e das jovens negras

O Edital resulta de parceria o Baobá, o Instituto Unibanco, a Universidade de São Carlos e o CEERT

A sua escola ou organização não governamental implementa ou deseja implementar ações para enfrentar as desigualdades raciais? Se a resposta for positiva, sua instituição pode se qualificar para concorrer a um apoio financeiro e técnico ao inscrever um projeto no Edital Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra. As inscrições ficam abertas até 10 de outubro de 2014.


O Edital visa contribuir para o desenvolvimento e a implementação de práticas inspiradoras de gestão escolar que busquem elevar resultados educacionais de jovens negros e negras. A iniciativa é do ‘Baobá – Fundo para Equidade Racial’, do Instituto Unibanco e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com a colaboração técnica do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT).

Os organizadores justificam o Edital afirmando que o ensino médio tem se mostrado um gargalo para que jovens negros avancem em sua educação, exigindo esforços focados na construção da equidade racial também na escola. O entendimento é de que essa construção envolve diversas dimensões, entre as quais a da melhoria dos resultados educacionais desse público específico, do combate ao abandono, do desempenho e da defasagem entre idade e série.

“Para alcançarmos melhores resultados educacionais para todos os alunos e todas as alunas, a gestão escolar necessita criar condições de equidade e valorizar a diversidade, apoiando a construção da identidade e do pertencimento das novas gerações de afrodescendentes. Deve contribuir ainda para a redefinição das relações raciais entre estudantes, assim como entre estudantes e professores, através do (re)conhecimento, sobretudo pelos jovens negros e negras, de sua origem, história e cultura nos conteúdos curriculares e nos processos de ensino-aprendizagem”, informam representantes do Baobá

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ministério da Cultura discute criação de museu da memória afrodescendente

Helena Martins - Repórter da Agência Brasil Edição: Stênio Ribeiro
O seminário Rumo ao Museu Nacional da Memória Afrodescendente, em curso na Fundação Cultural Palmares, em Brasília, discute o desafio de contar a trajetória do negro no país. Segundo o presidente da fundação, Hilton Cobra, essa história tem sido negada nos relatos oficiais. Por isso, é necessário reunir vestígios e conhecimentos, e construir um museu que seja capaz não apenas de relembrar, mas de atualizar o passado à luz dos desafios do presente.

O projeto do Museu Nacional da Memória Afrodescendente está a cargo do Ministério da Cultura, e ao participar do seminário, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, disse que a expectativa é que o espaço seja inaugurado em três ou quatro anos. Para tanto, um terreno de 65 mil metros quadrados na capital foi doado pelo governo do Distrito Federal. Instituições vinculadas ao ministério, como a Fundação Casa de Rui Barbosa, organizaram-se em grupo e discutem a proposta museológica. Além disso, a ministra adiantou que está sendo preparado um edital para o desenho arquitetônico.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, a instalação é um “passo extremamente importante para que possamos contar a nossa história”. Ela acredita que o museu incentivará pesquisas sobre a temática. Nesse sentido, a secretária de Educação Continuada, Alfabetização e Inclusão do Ministério da Educação, Macaé Evaristo, acredita que o museu poderá contribuir para a garantia do ensino da história e da cultura dos africanos e dos afrodescendentes, conforme determina a legislação.

Ao todo, existem 16 museus no Brasil que tratam especificamente da questão racial. Mesmo assim, a avaliação dos participantes do seminário, que segue até amanhã (28), é que falta um órgão que tenha capacidade de expressar a relevância da negritude, em nível nacional, para a constituição da história do país. Essa lacuna, eles esperam superar com a construção do museu nacional. “Não existe uma nação rica e desenvolvida sem a preservação de suas matrizes culturais”, afirmou o presidente da Fundação Cultural Palmares.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Pegava livros no lixo: ex-catador de Brasília conta como virou médico

Cícero Batista venceu a pobreza e se formou em medicina
O dia seis de junho de 2014 é uma data muito importante para Cícero Pereira Batista, 33. É data da sua formatura, quando ele fez o "Juramento de Hipócrates" e jurou fidelidade à medicina. O diploma na tão sonhada carreira foi um investimento de quase oito anos da vida do ex-catador.

Natural de Taguatinga, cidade satélite a 22,8 km de Brasília, Cícero nasceu em família pobre e precisou de muita perseverança para alcançar a formação em uma das carreiras mais concorridas nos vestibulares. Ele só começou a fazer a graduação aos 26 anos.

"Minha família era muito pobre. Já passei fome e pegava comida e livros do lixo. Para ganhar algum dinheiro eu vigiava carro, vendia latinha. Foi tudo muito difícil pra mim, mas chegar até aqui é uma sensação incrível de alívio. Eu conseguir superar todas as minhas dificuldades. A sensação é de que posso tudo! A educação mudou minha vida, me tirou da miséria extrema", conta Cícero.

Arquivo pessoal Não há desculpa para não seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoa Cícero Pereira Batista, 33, ex-catador que virou médico
O histórico familiar de Cícero é complicado: órfão de pai desde os três anos e com mãe alcoólatra, o médico tinha dez irmãos. Dois dos irmãos foram assassinados.

Quando tinha 5 anos, o menino pegava o que podia ser útil no lixo. Inclusive livros, apesar de não saber ler. Com o tempo, conta o ex-catador, eles foram servindo de inspiração. Ficava mais feliz quando encontrava títulos de biologia, ciências. Certa vez encontrou alguns volumes da Enciclopédia Barsa e "descobriu Pedro Álvares Cabral, a literatura, a geografia".

Cícero é o único da família que concluiu o ensino médio e a graduação. Para ele, a educação era a única saída: "Diante da minha situação social eu não tinha escolha. Era estudar ou estudar para conseguir sair da miséria extrema". Ele terminou o ensino fundamental na escola pública em 1997 -- na época as séries iam do 1º ao 8º ano. Entre 1998 e 2001, fez o ensino médio integrado com curso técnico em enfermagem.
Ajuda dos professores e colegas

"Quando eu fazia o ensino médio técnico eu morava em Taguatinga e estudava na Ceilândia. Não tinha dinheiro para o transporte e nem para a comida. Andava uns 20 km, 30 km a pé. Muitas vezes eu desmaiava de fome na sala de aula", explica.

Ao perceber as dificuldades do rapaz, professores e colegas começaram a organizar doações para Cícero de dinheiro, vale-transporte e mesmo comida. "Eu era orgulhoso e nem sempre queria aceitar, mas, devido à situação, não tinha jeito. Eu tinha muita vergonha, mas nunca deixei de estudar", conta.

Na época da faculdade, Cícero também recebeu abrigo de um amigo quando passou em medicina numa instituição particular em 2006 em Araguari (MG), a 391 km de Brasília. "Frequentava as aulas durante a semana em Minas e aos finais de semana vinha para Brasília para trabalhar. Era bem corrido", diz. Ele conseguiu segurar as contas por um ano e meio. "Eu ganhava cerca de RS 1.300 e pagava RS 1.400 [de mensalidade]. Até cheguei a pedir o Fies [Fundo de Financiamento Estudantil] por seis meses, mas no fim as contas foram apertando ainda mais e parei".

Arquivo pessoalA educação mudou minha vida, me tirou da miséria extremaCícero Pereira Batista, 33, ex-catador que se formou em medicina

Ao voltar para Brasília decidiu fazer Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para conseguir uma bolsa do Prouni (Programa Universidade para Todos). Estudou por conta própria, fez a prova no final de 2007 e conseguiu uma bolsa integral em uma universidade particular de Paracatu (MG), a 237,7 km de Brasília. Foram mais seis meses -- e Cicero voltou a Brasília mais uma vez.

No ano seguinte, fez o Enem mais uma vez. Ele queria estudar mais perto de casa por causa do trabalho -- ele era técnico de enfermagem concursado -- e da família. Com sua nova nota do Enem, ele conseguiu uma vaga com bolsa integral na Faciplac (Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central), na unidade localizada na cidade satélite Gama, 34,6 km de Brasília.

"Tive que começar tudo zero novamente. Tive vontade de desistir na época. Poxa, já tinha feito um total de dois anos do curso de medicina, mas não consegui reaproveitar nenhuma matéria. Mas no fim deu certo", conta o médico que enfrentou os anos da faculdade também com a ajuda dos livros do projeto Açougue Cultural, uma iniciativa que empresta livros gratuitamente nas paradas de ônibus de Brasília.

Atualmente, Cícero é diretor clínico de um hospital municipal e trabalha em outros dois. O momento para ele agora é o de "capitalizar" [ganhar dinheiro] para melhorar de vida e ajudar a família. Cursar um doutorado fora do Brasil também está entre seus planos.

"Não há desculpa para não seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoa", conclui.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Eu acredito

Eu acredito
por Yaisa Carolina*
publicado: blogueirasnegras.org 

Eu acredito que há mudança, que há esperança, que há futuro, que há certezas, que há fé. Eu acredito que há vitórias, que há pessoas que acreditam no melhor não só apenas quando a bola rola.
Eu acredito que há avanços, acredito que há ainda mais espaços para ocupar. Que unir é ainda a melhor arma para vencer. Que a educação é o melhor jeito de crescer. Acredito que não há apenas uma fórmula de sabedoria, assim como há várias maneiras de se cultivar a cultura.
Que a aflição há de acabar, mas sem luta não há vitória. Temos que ter objetivos, maiores do que aqueles escritos nos livros. Acredito que a identidade vale mais do que o rótulo. Que a lei é falha, visto que foi idealizada por homens. Mas os mesmos homens que erram, podem acertar.
Acredito que nem tudo vem de cima, aqui embaixo temos o nosso dever. Acredito que lamentar não nos move. Mas acreditar em si mesmo faz o caminho até a montanha mais vantajosa.
Acredito que exista o caminho do bem, não acredito nas promessas de um mundo mais bonito. Mas sim em pessoas mais positivas.
Eu acredito nas diferenças, quando tratadas com igualdade, respeito.
Eu acredito em nós. Eu acredito na força da minha ancestralidade. Acredito no povo da pele preta. Eu acredito na gente.
A miséria, a mazela, a violência, a fome, o descaso, a impunidade, a indiferença, a descrença, a ignorância, a corrupção, são resultados de subtrações realizadas por nós. Se aprendermos a somar…
Nós temos um DNA marcado. Não temos escolha de cor. Mas temos opções de cota. Temos opções de ser ou estar. Só nós podemos avaliar o que é melhor pra gente mesmo. Acredito na voz. Não acredito na representação. Acredito que devemos ter o papel principal em nossas histórias.
Nossa história marcada pela oralidade. Está na hora de preencher os formulários em branco.
Acredito na escolha. Eu escolhi me mostrar sem medo, me identificar sem receio, a lutar pelo que vejo. A derrota se esconde naquele que não se assume. Eu escolhi fazer parte de uma vertente social que há anos caminha em prol de justiça. Mesmo sendo, em sua maioria, punida por ela. A justiça.
Eu faço parte da maioria. Eu sou a maioria. Nós somos a maioria. A repetição leva a perfeição.
A facilidade nem sempre é positiva. Eu acredito no merecimento. Eu creio na superação.
Eu acredito que no dia que eu deixar de acreditar o sentido da vida estará perdido.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Lispector.

Yaisa Carolina
Formada em Produção Cultural, Coordenadora de Cultura na Coordenadoria Extraordinária de Igualdade Racial de Macaé. Nasceu na casa de sua bisavó em Campos dos Goytacazes - RJ, desde cedo aprendeu que os valores que se aprende em família e a cor da sua pele, definem os caminhos. O samba, a cultura e as memórias são os compassos que te guiam nesse caminho com respeito a ancestralidade negra.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Anderson Silva




Marcos Vilas Boas
publicado: revista Trip

Quando o assunto é racismo, Anderson Silva costuma fazer como nos ringues: mais esquiva do que ataca. Mesmo assim, não escapou de passar por situações de preconceito ao longo da vida. Quais? ele conta a seguir. E fala também sobre aposentadoria, homossexualidade e de como ficou careca depois de tanto alisar o cabelo
Anderson Silva tinha 16, 17 anos, um currículo que incluía aulas de capoeira, tae kwon do, balé e sapateado, e fazia o melhor cover de Michael Jackson das festinhas black de Curitiba. Ele montou com os amigos um conjunto que imitava as coreografias dos grandes grupos de funk, soul e disco americanos; sua tia Edith costurava as roupas, todas iguaizinhas, com a indefectível calça meia canela acompanhada de meias brancas. Mas Anderson só saía de casa depois de um ritual sagrado: aplainar o cabelo crespo com generosas quantidades de creme Alisabel.
Problemas de autoimagem? Racismo às avessas? Imposição da sociedade de consumo? Desejo inconfesso de se tornar branco como seu ídolo Jackson? Anderson tem uma explicação mais singela: “Eu só queria poder jogar meu cabelo nas festinhas”. O resultado foi desastroso: os cachos alisados à força foram substituídos por uma lustrosa careca – que, por ironia, acabou virando marca registrada. Até hoje há quem ache que o lutador raspa a cabeça para atemorizar adversários. A verdade é que Alisabel venceu Anderson por nocaute.

Para um garoto negro, pobre e que havia sido enviado de São Paulo pela desesperançada mãe, aos 4 anos, para ser criado por uma tia e sua família, não foi moleza crescer na pálida Curitiba. Anderson diz ter enfrentado inúmeros episódios de racismo durante a infância e a adolescência. Houve a vez em que um policial o abordou num ponto de ônibus, lhe deu um peteleco na cabeça e um soco no estômago – porque ele, único pele preta num grupo de amigos brancos
ali reunidos, havia tido a desfaçatez de dizer que voltava de um shopping naquela longínqua era pré-rolezinho. E também a ocasião em que era atendente do McDonald’s, e um cliente se recusou a ser atendido por um negro. E ainda a desconfiança de que o pai de uma namorada, por quem foi profundamente apaixonado, não apertava sua mão, não o recebia em casa e sabotou o relacionamento por causa de sua cor.

SÃO SEBASTIÃO DE BERMUDAS
Corta para um estúdio de São Paulo, março de 2014. Anderson posa calado e paciente para o fotógrafo Marcos Vilas Boas com seis flechas cortadas e coladas a seu corpo, com sangue falso escorrendo pela regata branca. A imagem produzida pela Trip homenageia a clássica capa da revista norte-americana Esquire de abril de 1968, em que o boxeador Muhammad Ali aparece em pose que remete ao martírio de São Sebastião, o militar que foi flechado por ordem do imperador Diocleciano por proteger cristãos.

Naquele momento, o martírio de Ali – célebre por sua luta pelos direitos civis dos negros e contra o racismo – era político: ele havia sido preso e destituído de seu título de boxe por se recusar a se alistar na guerra do Vietnã. Já o martírio de Anderson hoje é sobretudo físico: ele se recupera de uma delicada cirurgia depois da chocante fratura de sua tíbia e sua fíbula esquerdas durante o combate de dezembro passado contra Chris Wideman, em que perdeu a chance de reaver o cinturão dos pesos médios do UFC (Ultimate Fight Championship).

Embora seus estilos de boxeadores-bailarinos se assemelhem, Ali e Anderson são bastante distintos nos posicionamentos políticos. Ao contrário do americano, o brasileiro se recusa a levantar bandeiras quando o assunto é racismo. Seu discurso remete ao de outro grande atleta negro, Pelé – que, ao fazer seu milésimo gol em 1969, dedicou-o às criancinhas brasileiras, em frase que à época foi tachada de demagógica pelas patrulhas ideológicas. “Quando perguntam minha opinião, eu dou, mas prefiro evitar polêmicas”, afirma Anderson. “Há outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar, como as crianças do nosso país.”

"Me arrependi de usar alisabel, perdi meu black power"

Depois de meia hora parado como um São Sebastião de bermudas brancas e bíceps inflados, Anderson pede pressa porque começa a sentir câimbras – ainda um efeito colateral da delicada cirurgia por que passou há três meses. Considerado por muitos o maior lutador da história do MMA (artes marciais mistas), prestes a completar 39 anos neste 14 de abril, ele dá nota 9 para a recuperação da sua perna, confirma que pretende voltar a lutar no ano que vem, mas ainda não sabe dizer quando e como pretende encerrar sua carreira. De certeza, apenas uma: na ativa ou aposentado, nunca mais veremos seus cabelos encaracolados. “Me arrependi de usar Alisabel, perdi meu black power.”

Você acaba de refazer uma foto clássica do Muhammad Ali, que é um dos seus ídolos. Além de um grande boxeador, ele foi um cara que usou a fama para combater o racismo. Você às vezes sente vontade de fazer o mesmo aqui no Brasil? Quando sou abordado para falar sobre qualquer assunto político, seja racismo ou não, eu dou minha opinião. Mas prefiro me manter calado e evito polêmicas nesse sentido.

Por quê? Não acho legal. Não que não seja importante. Mas tem outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar e gastar mais energia.

No esporte, na família? Na família. Nas crianças do nosso país. Hoje eu fui ao hospital do Graacc [Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer] e vi um monte de crianças que estão ali passando por milhões de dificuldades, muitas sem perspectiva de vida, mas lutando para ser felizes. Então eu prefiro focar nessas coisas. Serve para que a gente entenda que nossos problemas são tão pequenos perto do que algumas pessoas passam.

O jornalista Ali Kamel, da TV Globo, escreveu um livro chamado Não somos racistas. Você concorda com a afirmação do título? O Brasil não é racista? Eu não acredito que o Brasil seja um país racista. Nós temos casos isolados de racismo. O Brasil tem muita coisa pra melhorar em relação ao racismo, política, saúde, educação. Mas acredito que a gente tem chances de mudar. Só não podemos perdê-las.

Você se lembra da primeira vez em que foi tratado de forma diferente por causa da cor da sua pele? Houve várias situações. Mas eu nunca tive problema com isso porque lá em casa a gente sempre foi muito bem instruído pela minha tia Edith a lidar com essas situações.

Que tipo de coisa sua tia falava? Ela sempre reforçou que somos todos iguais, independentemente de ser negro, branco, amarelo, roxo, de ser rico, pobre. Quando você tem essa consciência, tem capacidade de lidar com certas situações. Por mais que elas acabem te deixando um pouco constrangido, por mais que elas te magoem, você aprende a lidar.

Mas você pode falar de alguma situação específica? Uma vez eu trabalhava como atendente em uma lanchonete, e um cliente perguntou: “Não tem ninguém para me atender?”. Eu respondi: “Estou aqui para atendê-lo”. Aí ele falou: “Eu não quero ser atendido por um negro”. Fui até meu gerente e falei que tinha um senhor que não queria ser atendido por mim. O gerente foi até o balcão, e o cliente falou: “Não quero ser atendido por um negro, isso é um absurdo”. Aí o gerente respondeu: “Se você não for atendido por ele, você não vai ser atendido por mais ninguém aqui”. Aí aquele senhor saiu da loja meio bravo.

"Nós estamos vivendo um momento em que não cabe racismo no mundo"
Hoje, olhando esse caso tantos anos depois, você acha que tomou a melhor atitude na situação ou acha que deveria ter processado essa pessoa? Caberia esse processo. Mas aí eu iria perder meu dia de trabalho, teria que ir até a delegacia e não daria em nada. Porque nossa lei, por mais que exista, é muito falha. Principalmente em relação a esse tipo de coisa. Na época, meu caso não teria nenhuma repercussão. Agora, sim. Mas antigamente eu era uma pessoa comum. Hoje em dia eu tenho uma vida um pouco mais restrita, tem alguns lugares aonde não vou, por causa do assédio. Nos últimos anos, não tenho passado por nenhum constrangimento desse tipo.

Você acha que a fama que conquistou nos últimos anos protege você do racismo ou você acaba sendo mais visado? Depende muito das situações. Quando se fala em racismo, a fama acaba me deixando mais visível e mais desprotegido em alguns sentidos. Mas depende muito da sua postura, da forma como você lida com isso.

Você agora mora em Los Angeles, mas passa muito tempo no Rio. Você acha que o racismo é mais grave no Brasil ou nos Estados Unidos? Racismo é ruim em qualquer canto do planeta. Nos Estados Unidos existe também, até muito mais que no Brasil. Eu nunca tive problema com racismo em Los Angeles. Acho que as coisas estão mudando, as pessoas estão aprendendo que todos são iguais perante Deus, independentemente de cor, de raça. Eu costumo dizer que o confronto é inevitável no homem, que a cor é só uma desculpa para desencadear essa loucura, essa falta de respeito que as pessoas têm umas com as outras. Eu sou muito bem resolvido com essa coisa de racismo. Nós estamos vivendo um momento em que não cabe racismo no mundo.

Houve alguns exemplos recentes muito duros de racismo envolvendo atletas. O jogador de futebol Tinga foi xingado no Peru, o Arouca foi ofendido no Brasil, jogaram bananas no carro de um juiz. Quando você lê notícias como essas, como se sente? É triste, é desagradável. Nós estamos numa era de evolução. Mas não adianta. São coisas que vão acontecer. Muitas vezes as pessoas nem sabem o que estão falando. No caso do juiz, elas estavam ali porque eram torcedores e queriam atingir o juiz de alguma maneira. Como ele era negro, foi a maneira que encontraram de hostilizá-lo. Se fosse outro juiz, japonês, branco, não ia sofrer a mesma coisa, mas ia sofrer algum tipo de vandalismo.

Quando você começou nas artes marciais lá em Curitiba, era um meio que... Que tem muito racismo...

Como foi sua entrada, um rapaz pobre e negro, nesse universo? Minha tia e meu tio me ensinaram a entrar e a sair dos lugares de cabeça erguida. Em todas as academias que eu frequentei, sempre fui muito bem recebido por ter a disciplina e a educação que adquiri na minha casa. Quando comecei a treinar tae kwon do, na academia tinha muito coreano e branco, eu era talvez o único negro. Eu limpava a academia e treinava de graça. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito dentro da academia. Sempre fui bem recebido, sempre fui respeitado. Tenho grandes amigos que fiz nas academias até hoje. Dentro do ambiente esportivo, você tem que aprender a conviver com diferentes opiniões, diferentes raças, classes sociais. É todo mundo igual.

Então no esporte você não sofreu racismo. Mas e nas ruas de Curitiba? Você sofreu muito com batidas policiais? Várias vezes. Teve outra situação em que sofri racismo. Eu estava voltando do treino com amigos, fui passear no shopping e estava no ponto de ônibus, de bermuda e chinelo, com uma mochila nas costas. Parou uma viatura de polícia. Um PM desceu e me abordou, perguntou de onde eu estava vindo. Eu respondi que vinha do shopping. “Como assim do shopping?”, ele perguntou. Ele poderia ter feito isso com todos os outros meninos, mas fez só comigo. Eu era o único negro. Pensei: “Vou responder o que ele precisar e tá tudo certo”. Ele foi um pouco rude, mas eu não dei muita bola.

Como você se sente ao ler outras notícias de violência policial contra negros, como o caso da Claudia Silva Ferreira, que foi arrastada no asfalto pendurada em um camburão no Rio de Janeiro? Foi um episódio horrível. Como sou de família militar, acho que houve despreparo dos policiais. O que a gente pode fazer é abrir os olhos e prestar atenção nas coisas que estão acontecendo todos os dias e tentar mudar isso. Não adianta fazer manifestação e, depois que começa o Carnaval, está tudo certo. Não adianta fazer manifestação, ter feriado de Copa do Mundo, e está tudo certo. Estamos entrando numa época em que temos a oportunidade de fazer mudanças. É importante que as pessoas tenham consciência para exercer seus direitos, fazer manifestação sem serem violentas, agressivas, e sendo objetivas. Fica muito vago quando as pessoas são vítimas de alguma coisa, fazem um estardalhaço na mídia e depois deixam aquilo passar. Outros casos de violência e de racismo passaram, ficaram por isso mesmo. Acho importante as pessoas pararem um pouco e observarem o quanto elas podem mudar o país, as leis, o quanto a gente pode ter um país melhor.

Você perdeu seu cabelo usando Alisabel. Como foi isso? O problema não foi o Alisabel. O problema é que eu passava Alisabel todo dia! Minha tia falava: “Para, vai cair seu cabelo, você vai ficar careca”. Mas eu continuava passando todo dia, porque achava legal ficar com o cabelo liso, ir para os bailinhos. E, aí, de repente, caiu.

Quantos anos você tinha? Tinha 16, 17.

Por que você queria ter cabelo liso? Pegava mal cabelo crespo na época? Na minha turminha todo mundo tinha cabelo lisinho, eu queria ter igual, pra poder jogar o cabelo nas festinhas. Depois me arrependi de não ter meu black power.

Não tinha nada a ver com problemas de autoimagem, de querer parecer menos negro? Não era nada disso, até porque na minha turma havia pessoas de várias raças, japonês, árabe. Nunca foi por conta de ser negro que eu alisava o cabelo.

Você tinha um conjunto que fazia as coreografias do Jackson 5, né? Meus irmãos tinham um grupo, e minha turma sempre os via dançando, ensaiando. Aí a gente resolveu montar nosso grupinho e dançar também. A gente se reunia na garagem de casa e ficava fazendo as coreografias. Quando tinha as festinhas americanas, a gente saía dançando.

"Tem vários homossexuais no MMA que não se revelaram ainda"

dizem que você é um bom dançarino. Eu já fui. Hoje em dia não mais.

Sua tia colocou você para fazer balé na infância, não foi? Poxa, que fase... No começo eu não gostava não. Foi um castigo. Nenhum amigo fazia. Eu fazendo balé? Hello? Não era muito legal. Meus amigos ficavam: “Ah, menininha, mocinha”. E ainda com a minha voz fina... Sofri muito bullying.

E depois você começou a gostar do balé? Comecei a gostar, sim. Minha tia me botou também nas aulas de sapateado. Sou grato a ela porque me ajudou muito na luta. O [boxeador] Evander Holyfield fazia balé. Não tem muito a ver essa coisa, não. Você quer fazer balé, você faz balé. Quer fazer esgrima, faz esgrima. Você resolveu virar gay, vira gay, está tudo certo. Você respeitando o espaço das pessoas, elas respeitando teu espaço, está tudo certo.

No MMA tem muita discriminação contra gays? Acho que não tem preconceito, mas tem homossexuais no MMA. Tem vários que não se revelaram ainda.

Eles estão no armário porque, se saíssem, ia pegar mal nesse meio? Acho que hoje em dia é uma coisa tão boba não expressar o sentimento. Desde que você respeite o espaço das pessoas, respeite seus limites. Você tem que viver sua vida em paz e ninguém tem nada a ver com isso.

Quando entrevistei o Minotauro, há dois anos, ele disse que preferia não treinar com gay. Você treinaria? Claro, desde que me respeitassem, está tudo certo. Acho que não tem muito a ver. O fato de o cara ser gay não quer dizer que ele vai te assediar. Ele pode ser gay, ter um relacionamento, pode conviver em grupo com caras que não são gays. Ele faz o que quiser da vida particular dele.

Você é assumidamente vaidoso, metrossexual. Tiram muita onda com você na academia? Tiram. Às vezes a galera acha que eu sou gay. Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: “Olha, que eu saiba não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui um tempo eu descubra que eu sou gay” [risos]. Eu tomo muito cuidado com as minhas coisas, ponho todas as coisas na minha bolsa, coloco sabonete, passo um creme quando acaba o treino. A galera acha frescura. Mas é de cada um. Não quer dizer que você é mais macho ou menos macho, mais gay ou menos gay.

Você disse que sua tia Edith o orientou a lidar com o racismo. O que você fala para seus filhos sobre isso? Falo para eles não deixarem ninguém desrespeitá-los e para tomar cuidado para não desrespeitar ninguém. A vida se resume a dar para as pessoas respeito e receber de volta. Seguir por onde você resolver andar com a cabeça erguida, determinação e honra. É isso que eu passo pros meus filhos.

Eles já sofreram com o racismo? Eu acredito que não, porque teriam me falado. Nunca me falaram. Nos Estados Unidos, elas estudam em colégio público, convivem com outras crianças negras, brancas, japonesas, russas. Não têm essa proteção que tinham aqui. No Brasil, elas estudavam em colégio particular, mas nunca aconteceu nada.

Na infância, você gostava muito de quadrinhos, principalmente do Homem-Aranha, o que acabou lhe dando o apelido de Spider. E muita gente encarava você como um super-herói mesmo. Agora, com a lesão dessa última luta, você acha que estão encarando você de forma mais humana? Você virou o Peter Parker de novo? Acho que os últimos anos, as últimas lutas fizeram as pessoas entenderem isso, que sou uma pessoa comum como todas as outras, que não sou uma máquina, que eu posso falhar a qualquer momento e que estou tentando superar meus erros. Como todo brasileiro, todos os dias.

Você nunca caiu nessa de que era invencível? Nunca, jamais. Quando você pensa dessa forma, é o começo do fim.

Você reviu a luta da lesão? Eu vi uma vez, com olhos técnicos. Vi algumas coisas que eu poderia ter feito diferente.

Aquele chute você faria diferente? Hoje eu faria. Eu tentaria não fazer o chute tão isolado. Dei um chute isolado, sem colocar nenhum tipo de golpe antes. Foi falta de atenção naquele momento da minha parte.

Como você lidou com a dor? Ouvi dizer que você preferiu não se medicar para não se viciar. É verdade? O remédio que os médicos me deram pra dor era muito forte. Eu tomava o remédio, dava uns 3, 4 minutos, e a dor ia embora. Depois ela voltava. Tinha alguns momentos em que eu estava sem dor e estava tomando remédio. Eu resolvi parar, ficar com a dor e ver o que ia dar. Quando ela voltava, eu enchia a banheira de gelo e botava a perna dentro até passar. Fiz esse esforço para não viciar no remédio.

"[Depois da contusão] eu cheguei a me perguntar: 'será que vou conseguir voltar?'"

Você achou que não ia conseguir voltar? Eu cheguei a me perguntar: “Será que vou conseguir voltar?”. Mas o Marcio Tanure, meu médico e do UFC, que me trata há anos, me disse: “Relaxa, isso é mais fácil que cirurgia no menisco”. Aí eu fiquei mais tranquilo.

O Ronaldo, seu amigo e sócio da 9ine [que gerencia a carreira de Anderson], ajudou você nesse momento? Ele falou sobre como superou as cirurgias dele? A gente conversou bastante, ele falou da experiência que ele teve. Foi bacana, importante. Foi mais fácil lidar.

Como você está fisicamente? Fisicamente estou 100%. Minha perna, de 0 a 10, está 9. Estou me sentindo forte, treinando todos os dias.

O que falta pra perna ficar 10? Tempo. Mais alguns meses eu estou zerado. Estou fazendo a fisioterapia, já estou mais seguro, estou chutando. A única restrição é que eu não posso pular nem correr.

Como você enxerga sua carreira daqui pra frente? Eu tenho mais oito lutas no meu contrato. Estou com a cabeça boa, com o coração bom. Tô com muita vontade de continuar. Mas as coisas vão surgir com o tempo: os medos, as frustrações, a vontade, a falta de vontade de lutar. Por enquanto, eu estou bem, estou com vontade de continuar fazendo o que eu faço e não tenho mais nada para provar pra ninguém. É ir lá e fazer o que eu amo, independentemente do resultado.

A volta é para 2015? É. Este ano não.

Estão começando a falar de lutas com nomes como o [boxeador] Roy Jones Jr. Faz sentido? Muito. Agora o Roy Jones é o maior objetivo na minha carreira. É um sonho pessoal que eu tenho. Ele foi o melhor boxeador na época dele. Eu gostaria de ter essa oportunidade de fazer uma luta de boxe com ele, nas regras do boxe, fora do contrato com o UFC. Ele já se pronunciou e acha que seria fantástico.

Esse contrato de oito lutas com o UFC pode ser quebrado? Pode. Eu posso parar na hora que eu resolver parar. O tempo vai dizer. As oportunidades vão aparecendo, as limitações.

O Jon Jones deu uma declaração forte por esses dias, dizendo que você deveria se aposentar, fazer palestra, seminários. Como bate esse tipo de declaração? Cada um tem sua opinião. Minha mulher e meus filhos também acham que eu tenho que me aposentar. Lá em casa tem um pé de “acho” que nunca dá nada. Ninguém pode falar para você o que fazer dentro daquilo que você ama. Você é que tem que saber do seu limite e da sua hora de parar.

E, no caso do Minotauro, você acha que ele deveria se aposentar? O Rodrigo [Minotauro] é um cara que tem uma história dentro desse esporte e só ele pode dizer a hora de parar. Ninguém pode dizer. Eu não acho que seja um bom momento para ele parar, ou para qualquer pessoa parar, quando não sente isso dentro do coração. A gente conversa muito sobre isso, eu, Rodrigo, o Rogério [Minotouro]. É uma coisa que tem que surgir de cada um. Eu fiz minha história, estou caminhando, estou correndo atrás. Ninguém pode dizer para mim que é hora de eu parar. O Dana White não pode me aposentar, ele não tem esse direito. Ele pode cuidar do negócio dele, das coisas dele. Quem sabe quando e como parar é o atleta.

Uma geração de ídolos do UFC está perto do final da carreira. Você, o Georges St. Pierre, o Minotauro. Vai ser um baque pro UFC quando vocês pararem? Não houve uma renovação, não houve um trabalho de base com novos atletas. Os novos talentos já apareceram famosos. Assim fica difícil ver alguém que vá fazer algo diferente lá dentro. Tudo que está aparecendo hoje no UFC é normal, ninguém vai assistir a um cara porque acha que ele vai fazer algo diferente. As pessoas lutam com a regra, mostram que estão ali para fazer o trabalho delas, não demonstram um talento acima da média. É a evolução do esporte, é um negócio. Na minha época era uma coisa. Com as novas gerações é diferente.

Você se destacou pelo seu talento, mas também pelas polêmicas. Muita gente reclama das suas provocações, das brincadeiras no octógono, de lutar de guarda baixa. Hoje você faria diferente? Para mim, entrar no octógono, lutar e fazer o que eu faço é uma diversão. Tem que assumir o risco e entender que aquilo é seu jeito, você tem que estar feliz com o que está fazendo. Eu sempre fiz tudo com muita tranquilidade, com verdade. Não fazia para acharem que era melhor que meu adversário. Fazia porque eu gostava. Quando comecei a lutar, nunca tive pretensão de chegar ao UFC. Eu treinei para ser tão bom ou até melhor que meus professores, para ser melhor que eu mesmo no dia anterior. Acho que esse foi o caminho do meu sucesso dentro do octógono. As oportunidades foram aparecendo, nunca desafiei ninguém, nunca fiz menção de que queria lutar com esse ou aquele. Deus me deu aquilo que ele achava que era meu de direito.


Eu achava que era um jogo mental para desestabilizar o adversário... Era uma coisa que eu via nos meus ídolos, no Bruce Lee, no Muhammad Ali, até mesmo no Roy Jones Jr. Mas nunca fiz isso para me vangloriar sobre meus adversários ou para criar uma barreira psicológica. Fazia porque gostava, porque achava legal, porque me divertia. Sempre entro ali pensando na minha diversão. Esqueço meus fãs, esqueço as pessoas que estão à minha volta e tento fazer o que eu treinei, com respeito aos meus fãs, ao meu país. Mas eu não luto pelos meus fãs, eu luto por mim, eu luto porque eu amo lutar. Depois vêm as outras coisas, vêm os fãs, a fama, o dinheiro.

Como você vê o Anderson daqui a 20 anos? Um velho chato, enchendo o saco dos meus filhos, talvez brigando muito com meus netos. Não, tô brincando. Me vejo feliz, com meus filhos bem-criados, formados, cada um trilhando com sucesso o caminho que decidiu trilhar. E vivendo minha vida em paz, com dignidade.

O jornalista Eduardo Ohata, que ajudou você a escrever sua biografia, disse que sempre o viu mais como um professor do que como um lutador. Ele está certo? Está sim. Acredito que sou melhor professor do que lutador. Ainda tenho meus alunos, sei exatamente a forma de conduzir alguns treinos. Sei lidar muito mais com a coisa de ensinar do que com a coisa de lutar. Eu tenho dificuldade de relacionamento com os treinadores de uns anos para cá porque tem coisas que eu percebo que não vão funcionar e que eu acho que não devem ser treinadas.

Quando você decidir que é hora de parar, a ideia é que você seja um professor? Não sei se vou ter tempo de continuar fazendo isso depois de me aposentar. Eu gosto de ensinar, eu ensino meus filhos, apesar de nenhum querer ser lutador. Mas eu não sei se teria tempo para dar aula todos os dias. Minha vida mudou muito.

Como está o plano de fazer cinema? Tá bacana. Fiz uma participação no filme brasileiro Até que a sorte nos separe 2, ao lado do Leandro Hassum. Acabei de filmar o Tapped com o Lyoto Machida, sobre o mundo do MMA. Estou recebendo alguns roteiros, estudando qual vai ser melhor fazer. Acabei de assinar contrato com a ICM, terceira maior agência de atores em Hollywood. No Brasil, eu tenho aulas com o Luiz Mario, preparador de atores, com ajuda do Johnny Araujo, que é um excelente diretor. E, quando estou em Los Angeles, também tenho aula de acting.

O Steven Seagal deu uns toques a você sobre luta. Ele também está ajudando na atuação? O Steven Seagal é um amigo distante, que aparece quando pode. Numa época ele esteve mais perto, porque estava tranquilo no trabalho. Deu uns toques sobre treino, sobre luta. Mas, como ator, ainda não deu nenhuma dica.

Quando você parar de lutar, vai deixar inimigos no UFC? Espero que não. Eu não tenho inimigos dentro do UFC. Respeito todos os funcionários como parte da minha família. Quando parar, deixo uma história bonita e um legado. Há uma grande chance das novas gerações do UFC olharem para trás e falarem: “Eu tenho esse cara como exemplo. Ele fez a diferença”.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Nego do Borel:"Acho que o sonho de todo filho é dar uma casa pra sua mãe"




O funkeiro carioca MC Nego do Borel postou uma foto segurando uma pilha de notas de R$ 100 e R$ 50, conhecido como "malote", em sua conta no Facebook. Segundo o músico, o dinheiro seria utilizado para comprar a primeira casa própria da mãe.

“Comprei a casa pra minha mãe que ela tanto sonhava, lutei, trabalhei, passamos por várias humilhações e hoje eu conseguir dar algo melhor pra minha mãe. Moramos em várias casas de madeira. Só tenho que agradecer a Deus que realizou meu sonho e o sonho da minha mãe. Acho que o sonho de todo filho é dar uma casa pra suas mães, nunca desistam dos seus sonhos, acredite sempre em Deus que sua vida muda! — se sentindo emocionado”, escreveu.

Fifa: ausência de negros em cargos administrativos é reflexo da realidade

publicado:agencia Brasil
banner Brasil 2014
O vice-presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Jeffrey Webb, disse hoje (3) que há uma ausência de negros em cargos administrativos no futebol em várias partes do mundo. “Essa é a percepção sobre uma realidade infeliz”, disse, ao avaliar que os negros também estão sub-representados em outras áreas. Segundo Webb, que também é diretor da Força-Tarefa Antirracismo da Fifa, o futebol não abraçou a diversidade e a integração em cargos de mais prestígio, como o de treinador.
“Há um reflexo em campo dessa falta de diversidade. A mesma coisa acontece nas empresas, nos clubes e nas associações”, avaliou Webb, em entrevista sobre racismo no futebol.
Ao assumir o cargo na força-tarefa, em 2013, o vice-presidente da Fifa se propôs a compreender as oportunidades para as pessoas pretas e pardas no futebol, uma vez que é grande o número de jogadores negros. “O Cafu [ex-jogador brasileiro] disse que isso não existe no Brasil. Em alguns lugares do mundo estamos avançando, em outros, não”, disse.
Na avaliação do capitão do Brasil no pentacampeonato, a presença de apenas dois técnicos negros na primeira divisão do Campeonato Brasileiro é “coincidência”. Ele acredita que, no país do futebol, são muitos os negros no alto escalão. “Isso depende muito da capacidade intelectual da pessoa e não da cor”, declarou. “Mas é óbvio que se forem dadas mais oportunidades para uma pessoa que não tem tantas condições, tanto direito à igualdade, ela vai se destacar”, completou.
Levantamento da Rádio Nacional aponta que dos 20 times que participam, este ano, da maior competição do futebol nacional, apenas dois têm treinadores negros: o Fluminense, do Rio de Janeiro, comandado por Cristóvão Borges, e o Chapecoense, de Santa Catarina, por Celso Rodrigues.
Auxiliar técnico da seleção de Trindad e Tobago, o ex-jogador Dwight Yorke, que brilhou no Manchester United, também acredita que as oportunidades aparecem com a qualificação, mas vê um problema: “O fato é que há muito jogadores que gostariam de ser técnicos, mas sentem que não terão oportunidade para tal”, declarou, ao participar da entrevista. Na avaliação dele, com ações de combate ao racismo, a Fifa também deve atacar o problema.
“Esperamos que com novos regulamentos haja igualdade de oportunidades. Isso [a ausência de negros entre os treinadores] é algo que devemos corrigir”, completou.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

CENSO DO CNJ: SÓ 1,4% DOS JUÍZES SE DIZEM PRETOS

Primeiro Censo do Poder Judiciário, feito de forma voluntária por servidores e magistrados de todo o país, revela que 14% dos magistrados se declararam pardos; 1,4% pretos e apenas 0,1% se identificaram como indígenas; perfil da magistratura é o de homens brancos (84,5%), com média de idade de 45 anos, casado e com filhos
:
André Richter - Repórter da Agência Brasil

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou hoje (16) o resultado do primeiro Censo do Poder Judiciário, feito de forma voluntária por servidores e magistrados de todo o país. Os dados apontam que o perfil da magistratura é o de homens brancos (84,5%), com média de idade de 45 anos, casado e com filhos.

Conforme a pesquisa, 14% dos magistrados se declararam pardos; 1,4% pretos e apenas 0,1% se identificaram como indígenas. De acordo com a classificação racial usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pretos e pardos, somados, formam o grupo de negros.

O censo teve participação de 60% (170,7 mil) dos servidores do Judiciário e de 64% dos juízes (10,7 mil). Apesar de poucos juízes afrodescendentes na Justiça, em dois anos, o percentual de negros que ingressaram na carreira cresceu de 15% para 19%.

A pesquisa também mostra que 64% dos juízes são homens e 36% são mulheres. A presença de magistradas é maior na Justiça do Trabalho (47%). Do total de juízas que responderam ao censo, 65% afirmaram que a vida pessoal é afetada pela carreira em relação aos colegas homens. Pelo fato de ser mulher 30% das juízas informaram que vivenciaram reações negativas.

O Censo Nacional do Poder Judiciário teve início em agosto do ano passado e foi elaborado para definir o perfil dos magistrados e de servidores. De acordo com o CNJ, o censo terá importância para a formulação de políticas de recursos humanos e públicas do Judiciário.

Unegro propõe debate sobre a vaga de Joaquim Barbosa


A presença do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte do país, em que pese todas as controvérsias que ele criou, é importante para os negros brasileiros e um representante da raça deve ser nomeado para seu lugar. Esta é a posição da União dos Negros pela Igualdade (Unegro) do Distrito Federal, ao anunciar mobilização do movimento negro para influenciar a presidenta Dilma Rousseff pela indicação de outro nome negro para ocupar a vaga de Barbosa.
A Unegro-DF anunciou vai buscar apoio de outras entidades para tentar influenciar na decisão da presidenta.“O ministro Joaquim Barbosa exerceu uma carreira muito controvertida no Supremo e, do ponto de vista do papel de juiz, deixou a desejar. Mas a sua presença ali foi emblemática para nós negros, muito representativa e nós achamos que a presidente Dilma deve seguir o mesmo pensamento do ex-presidente Lula indicar um negro para a vaga do Joaquim Barbosa”, afirmou Santa Alves, presidente da Unegro-DF (foto).

Ela anunciou que a entidade vai deflagrar esta semana um debate entre os representantes do movimento negro e dos movimentos sociais para buscar influenciar na decisão da presidenta.

O presidente da Confederação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) do Distrito Federal, Aldemir Domício, já anunciou que fará parte da mobilização pela manutenção de um representante negro no STF.

“A CTB vai se engajar nesta campanha. Nós entendemos que a presença de um negro no Supremo foi uma conquista histórica para um segmento social que representa mais da metade da população. E nós queremos manter esta conquista”, afirmou.

Outra entidade que quer debater o tema é a Comissão de Jornalista pela Igualdade Racial (Cojira), entidade ligada ao Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal. Internamente seus membros vêm debatendo o significado de um negro na mais alta corte do país. A entidade também defende a manutenção da conquista.

A decisão caberá a Dilma, que por sua vez deverá consultar o ministro Ricardo Lewandowski, que assumirá a presidência do Supremo após a saída de Barbosa no final deste mês.

Da Redação em Brasília
Fonte: Brasil Notícia

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Consumo infantil e a mãe negra

Por: Luciane Reis
publicado: blogueirasnegras.org


Por já nascer à parte de uma sociedade racializada, a criança negra cresce aprendendo a valorizar algumas características que são idealizadas e quase sempre não dizem respeito à sua identidade. Ela aprende não apenas a conviver com a sociedade, mas também a viver no intuito de ter aquilo que essa apresenta como um ideal de vida, de beleza e de comportamento. Ao ter contato cada vez mais constante com diversos estímulos que chegam por diferentes meios: televisão, rádio, internet ou passados através de programas de televisão, músicas, filmes e claro pela propaganda, esses indivíduos têm acesso a dados culturais que acabam por alterar alguns dos instintos mais fortes do ser humano, tais como o desejo de aceitação social e a necessidade de autorrealização independente de como esta é apresentada.

As crianças negras aprendem a ser consumidoras de maneira muito delicada. Isso se dá principalmente por meio da observação do comportamento das pessoas que as cercam e da influência proveniente das propagandas, uma das principais formas de contato com os diversos produtos, ideologias, comportamentos e serviços existentes no mercado. Para se construir uma propaganda que consiga interagir com as crianças e influenciá-las é preciso pensar em como “alcançá-las”. Os comerciais de televisão voltados para o público infantil contam com uma mistura de imagens, cores, sons e movimentos que prende a atenção das crianças, especialmente as menores. Os desafios de ser mãe de uma criança negra começam quando esses recursos não visibilizam a presença de seu filho. Dela é exigido negociar concepções diante de uma mídia que se pauta pelos ditames do comércio e da publicidade, pouco interessada em questões como a da discriminação do negro ou das consideradas minorias.

Para uma mãe negra, fica a tarefa diária de não somente educar seus filhos para um consumo consciente, como também atuar contra discursos que perpetuam ideologias e que se mantêm até hoje através da “venda” da representação negra nos meios de comunicação como produto a ser consumido e não como consumidor, vide os anúncios de jornal do tempo da escravidão e a forma de tomada de referências negra. Fazer uma criança entender que a sua imagem, mesmo não estando presente nestes meios, não tira dela sua beleza e orgulho, é uma tarefa heróica e que somente mães de crianças violentadas diariamente pelo racismo tem a dimensão. Por se tratar de pessoas em formação, a ausência delas na mídia pode causar danos à identidade racial e à auto-estima. A política de invisibilidade de crianças negras, usada pela mídia brasileira, serve indiretamente de suporte para a ideologia do branqueamento tão naturalizada nos dias de hoje. As propagandas de produtos infantis, salvo raras exceções, não têm contemplado adequadamente a representação negra.

As propagandas infantis sejam elas exibidas na TV aberta, fechada ou impressa acabam por fazer crer a uma pessoa desavisada estar em um país europeu e nórdico tal a profusão de crianças loiras. O professor Hélio Santos (2000, p. XX) é assertivo: “nada contra os loiros, mas tudo contra a loirice”. Partindo dessa máxima, podemos pensar sobre a prática costumeira adotada no Brasil de representação ínfima do contingente negro que é minoria ao olhar da mídia, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. É sabido que o momento entre a infância e a pré–adolescência constitui a fase de construção da identificação dos indivíduos quando se estabelecem seus valores, conceitos, modelos e padrões estéticos. Neste sentido, a tarefa de ser uma mãe negra se torna mais delicada pela ausência de crianças negras no conjunto da mídia e em especial na propaganda, espaço que acaba por induzir os indivíduos dessa categoria a se entender como subcidadãos e subconsumidores, independentemente da sua capacidade de consumo.

O racismo existente no Brasil não poupa a infância. Na verdade, é nessa fase que ele ganha corpo e consegue novos adeptos. A propaganda pode transmitir para as crianças negras a interiorização de um lugar social delimitado e com horizontes claramente marcados. Construir a auto-estima de crianças, onde a cor de sua pele resume a impertinência de sua presença em um lugar onde somente branco e rico seriam bem-vindos é uma tarefa árdua. A criança negra na mídia brasileira é uma criança sem nome ou rosto, rejeitada pela cor, o que de forma abstrata registra a desigualdade de maneira poderosa para resumir a racialização de classe da sociedade brasileira.

Não temos dúvida de que as crianças negras de hoje têm uma realidade diferente das do passado, inclusive com maior poder de compra e o direito de teoricamente serem livres. Mas essa “liberdade” não lhes proporciona o direito de ser tratadas igual a todas as outras crianças. Diferenças como a cor de sua pele e a classe social onde estão inseridas determinam suas realidades que, muitas vezes, está impregnada de preconceito. Essas chamadas diferenças, fruto do reflexo social presente nos meios de consumo, são fatores que determinam quais dificuldades serão enfrentadas. São tarefas detectadas muito cedo por suas mães de forma dolorosa nas campanhas, nas compras de produtos infantis diários onde as crianças inteligentes, aventureiras, fortes, saudáveis, amadas e felizes; aquelas que consomem toddynho ou nescau – são todas brancas. A realidade é que as crianças negras são ainda invisíveis ao universo do consumo, o que pode parecer óbvio, dada a sobreposição da desigualdade de classe à desigualdade racial no País: negros ainda são mais pobres que brancos, um fato que alimenta intermináveis controvérsias para segmentos privilegiados sobre as causas da desigualdade, onde estes têm dúvida se seriam de renda ou racial.

As crianças negras não são invisíveis apenas nos meios de comunicação, mas em escolas, hospitais ou espaços de lazer, isto é, como futuros cidadãos e cidadãs em uma sociedade que se define como livre do racismo. Quando se é criança, a defesa de seu espaço se dá através da inferiorização do outro, onde ela se coloca como superior, tendo como base alguma característica que a distingue, passando a se sentir inatingível aos ataques de seus colegas. Isso ocorre com frequência na relação entre crianças brancas e negras: a primeira se elevando e a segundo se retraindo e se auto-desvalorizando. (O racismo na construção das mensagens publicitárias, isto é, a supervalorização da representação branca em detrimento da negra, contribui para a propagação de preconceitos, atingindo crianças negras e brancas em suas atitudes e comportamentos, alargando a incidência do racismo para as futuras gerações) A maneira de construção midiática brasileira contribui para que essas simplesmente adquiram preconceitos da mesma maneira que aprendem outras atitudes e comportamentos, partilhados pela sociedade como um todo.

A baixa autoestima detectada em crianças e pré-adolescentes negros em grande medida pode também ser atribuída a esta invisibilidade nas propagandas, pois a contrapartida esperada numa sociedade de consumo é que a aquisição de bens e serviços dêem aos indivíduos uma sensação de satisfação) advinda dos comerciais de produtos/marcas. Não podemos dizer que em pleno século XXI, não tenhamos conquistado o papel de consumidor ativo na sociedade. Mas mesmo tendo sido percebidos pelo mercado, isso não promove tratamento igual aos brancos nos veículos de comunicação. Os pequenos avanços adquiridos ainda não conseguem fazer com que a cor da pele não seja importante para o reconhecimento do outro como semelhante. É isso que chamamos racismo: descrição do outro como um dessemelhante e abjeto pela cor de seu corpo.
Numa sociedade marcadamente racista e que se vê como uma democracia racial, um sujeito inimaginável pelo consumo é reiteradamente excluído por meio de sua cor e traços. Para esse sujeito ser reconhecido, é preciso antes ser perceptível à ordem dominante, ou seja, algo precisa ser reavaliado. A publicidade infantil age do mesmo modo, ao fazer com que uma criança antes de entender o sentido político do racismo, seja alvo de uma rejeição que resume sua existência. À mãe negra cabe então a tarefa de contribuir para que, mesmo diante de toda rejeição a seu corpo, as crianças negras não percam antes do tempo a ingenuidade infantil que em breve será vencida pela observação cotidiana de práticas racistas. Com o tempo, a criança sem nome e com somente cor diante da mídia brasileira encontrará outro grupo para traduzir sua experiência de sentir-se desprezível que não será mais porque é uma criança em um ambiente de adultos, mas um adolescente, um homem ou um velho negro em um mundo cuja ordem do consumo e da lei é, ainda, branca.

DISCRIMINAÇÃO E NOJO: ATÉ QUANDO VAMOS IGNORAR O QUE VEMOS E VIVEMOS?


JACY AFONSO
Publicado: brasil247.com

As discriminações e as dificuldades estão às claras. Não se pode mais tentar tapar o sol com a peneira. É preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir para que a história seja, finalmente, outra
O sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) desenvolveu uma teoria social que serviu para alargar o campo dos estudos sociológicos voltados à elucidação dos processos de interação humana no âmbito da sociedade. Segundo ele, nos séculos XVII e XVIII, na maioria dos países da Europa ocidental havia o que chamou de sociedade de corte, destacando especificamente a francesa. Nesse período não eram as cidades, e sim a corte que constituía o centro representativo, o local de origem de toda a experiência e toda a compreensão do homem e do mundo. O sociólogo afirma que as cortes foram se transformando em modelos concretos e centros formadores de disseminadores do estilo. Mais além, significaram fonte e origem de modelos de comportamento.

A formação gradual dessa sociedade de corte veio acompanhada por uma civilização baseada nos modelos da classe superior e evidencia a maior contenção e regulação dos anseios e o aumento do controle social. Nessa sociedade o que predominava era o consumo por prestígio e status, com a finalidade de manter sua posição social. Elias afirma que “... Alguém que não pode mostrar-se de acordo com o seu nível perde o respeito da sociedade. Permanece atrás de seus concorrentes numa disputa incessante por status e prestígio, correndo o risco de ficar arruinado e ter de abandonar a esfera de convivência do grupo de pessoas de seu nível e status ...” Nesse modelo social cada qual conhecia seu lugar e o respeitava. Especialmente as roupas, expressão de elegância e poder, significavam a linha divisória entre refinados e rudes.

Analisar as relações de poder e saber no contexto social implica considerar que o poder não é um objeto natural, mas uma prática social historicamente constituída que perpassou os séculos, em períodos interdependentes. Ao olharmos para uma pessoa imediatamente a julgamos pela aparência, pela roupa, pelo comportamento, pela etiqueta. E, desde esse momento formamos um conceito prévio a respeito desse ser humano. As cabeças e as condutas, por séculos e séculos, reproduzem a concepção de uma sociedade assentada em grupos diferenciados social, econômica e politicamente. E cada qual, dentro de um sistema de divisão e dominação de classes, deve estar em seu devido lugar.

Todos já ouvimos expressões como: “Tenho nojo de política”; “Estou com nojo deste país”, “Tenho nojo da sua cor e de seu cabelo” ; “Tenho ojeriza de sua sexualidade”.

Vemos constantemente pessoas demonstrando sua repulsa, sua ojeriza com expressões faciais tipicamente associadas com coisas que são percebidas como sujas e infecciosas ao avistarem moradores de rua, usuários de drogas, carroceiros, catadores de lixo. Vemos ainda nos tempos atuais pessoas torcendo o nariz para outras pessoas, aquelas “da classe social baixa” e que estão nos aeroportos para viajarem pela primeira vez de avião. Ou médicas cubanas que, ao chegarem para trabalhar no Programa Mais Médicos que leva saúde da família nos rincões do país, áreas onde profissionais brasileiros não querem ir trabalhar, receberam um dos mais absurdos e preconceituosos comentários por parte da jornalista potiguar Michelline Borges: “Elas têm cara de empregada doméstica!” Repudiada nas redes sociais pela postura elitista, a jornalista retirou rapidamente sua página do Facebook. Ou ainda o médico negro cubano Juan Delgado que foi hostilizado com vaias por médicos cearenses, sendo chamado de escravo. Com dignidade, Juan respondeu: “escravo da saúde e dos pacientes doentes, pelo tempo que for necessário”.

Atitudes truculentas como essas mereceram desculpas públicas do governo brasileiro. Tanto o ministro da Saúde como a presidenta Dilma foram ao público para recriminar a discriminação, a ignorância e a xenofobia contra os médicos cubanos, que trouxeram sua capacitação e qualificação científica para trabalhar no programa brasileiro de atendimento à saúde da população que mais necessita.

E os rolezinhos? “O que esses meninos e meninas da periferia querem em nossos shoppings, nos centro das cidades? Tomar de assalto o espaço onde exibimos nossa nobreza? Que horror!”

A organização da sociedade da corte francesa tem se apresentado de forma ainda mais violenta no chamado processo de gentrificação. Ainda pouco conhecido como conceito, mas todos vivemos seus efeitos. Gentrificação é o nome que se dá à expulsão de moradores e/ou freqüentadores pobres de determinada região por meio de um conjunto de medidas socioeconômicas e urbanísticas. Atrás de propostas de revitalização de determinadas áreas para que fiquem bonitas e seguras, realizadas, em geral, próximo a bairros nobres ou a áreas comerciais, está o interesse econômico. Após a assepsia social, que “limpa” a pobreza expulsando-a em nome das leis de mercado, da segurança, da beleza local ocorre uma valorização absurda desses espaços.

Esses processos “revitalizadores” estão configurados na reprodução de desigualdades e na falta de garantias sociais para grande parcela da população. A desigual distribuição de bens sociais, a discriminação, o desrespeito às diferenças, a incerteza, a involução de valores não são anomalias; constituem o pensamento globalizado e o processo econômico atual.

A realidade brasileira, embora com suas características próprias, está integrada à tendência de fragmentação mundial. O modelo econômico neoliberal implantado no País produziu subjugados, pessoal e socialmente, com difícil perspectiva de transposição social. Lembramos que mudanças ocorreram com a implementação, nos últimos dez anos, de políticas governamentais de cunho social, o que trouxe perspectivas novas a milhões de pessoas.

Porém, há pessoas invalidadas pela estrutura econômica e social capitalista, decorrentes das novas exigências da competitividade, da concorrência e da redução de oportunidades; não há mais lugar para todas na sociedade e as que sobram são impelidas a acreditar em uma situação que se define como individual, lhes negando a possibilidade de ver que a história as tornou rejeitadas, discriminadas, descartáveis.

Não é coincidência que essas reflexões acontecem na semana em que ainda se propaga a abolição da escravidão (13 de maio) no Brasil. Desde 1888 as condições mudaram tão lentamente que quase não mudaram. Continuamos tão escravos de conceitos de beleza, elegância, etiqueta quanto na sociedade dos cortesãos franceses. E pior, a escravidão tomou outras formas e proporções. As pessoas continuam discriminadas pela cor, pela condição social, pela opção sexual, pelo gênero, pelo trabalho que realizam.

As discriminações, pelo seu exercício constante, violentam física, moral e psicologicamente e se configuram em espécies de escravidão. Aqueles que ousam não se enquadrar na etiqueta social formatada pelos reis, pela burguesia, pelas igrejas, pelos capitalistas, pelos ricos, pelos preconceituosos estão condenados aos grilhões da apartação social e são colocados nas senzalas a eles reservadas.

Há na sociedade brasileira a imposição do “se não os vemos eles não existem”. Então, empurremos, pois, essas pessoas para baixo do tapete, para os armários, para as periferias, para as ruas distantes e escuras. Até quando vamos fingir não ver o que enxergamos? Até quando vamos ignorar que os haitianos que fogem para o Brasil nos dizem respeito? Até quando a sociedade brasileira vai suportar a “normalidade” de falas contra bolsa família, contra cotas para negros e contra outras políticas sociais, críticas que vêm justamente dos que vão estudar no exterior pelo Programa Ciência sem Fronteira? Até quando vamos suportar sem reação efetiva a virada de rosto daqueles que se julgam superiores e que colocam cada grupo no lugar que julgam que o pertence? Até quando vamos ignorar Zumbi dos Palmares e sua luta por libertação não somente de um povo, mas por libertação de conceitos e preconceitos que nos amarram, nos submetem, nos fazem cada dia menos humanos? Até quando...?
Nem se discute que as discriminações e as dificuldades estão às claras. Não se pode mais tentar tapar o sol com a peneira. É preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir para que a história seja, finalmente, outra.

OS NEGROS, A CIDADANIA, A ECONOMIA E A ESCRAVIDÃO. PARA NÃO ESQUECER


DAVIS SENA FILHO
publicado:brasil247.com

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus

Tem um pensamento que eu gosto muito. Mais do que gostar, eu acredito neste pensamento, porque, para mim, ele significa a verdade. "Raça não existe; o que existe é a espécie humana". Quando o homem, ou melhor, a humanidade se organizou em sociedades. Quando ela passou a dominar a agricultura e, conseqüentemente, construir cidades para alojar milhares ou milhões de pessoas, a luta pelo controle político e pela hegemonia econômica recrudesceu. Desta luta deriva todo tipo de preconceito, inclusive o pior deles: o racismo.

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus. O racista nega a vida e reafirma a indiferença, a desigualdade social e a violência. A pobreza material de grande parte dos povos da África negra e do povo brasileiro é intrínseca ao racismo. Eu quero afirmar, sem dúvida alguma, que a miséria material do nosso povo tem como raiz o racismo. Este sentimento, além de ser comportamental e cultural, o é também de fundo econômico, o que o torna intolerável para as pessoas civilizadas e de filosofia humanista e democrática.

Quando os ancestrais do povo brasileiro foram escravizados em um tempo de cinco séculos pelas potências colonialistas, o trabalho humano escravo foi visto como solução para que os colonizadores europeus pudessem ocupar os territórios por eles conquistados, além de desenvolver suas economias e, por conseguinte, disputar o mercado, em seus diferentes setores, pois a corrida pela hegemonia econômica e militar se encontrava em um processo de disputa entre a Inglaterra, a França, a Espanha, a Holanda e Portugal, dentre outros países, que buscavam riquezas, com o objetivo de colonizar terras e dominar os oceanos.

Com a explosão demográfica no continente europeu e o fim da Idade Média, considerada a era mais sombria das sociedades ocidentais, iniciou-se o ciclo das grandes navegações. Historiadores afirmam que foi a opção e a realidade encontrada pelos governos das potências européias, para que a Europa não sucumbisse economicamente e seus povos não ficassem sem espaço para desenvolver suas atividades econômicas, principalmente a agricultura, razão pela qual foi efetivado o sistema de escravidão, com a cumplicidade entre os europeus e suas diversas nacionalidades, com apoio, inclusive, da Igreja da época, bem como de agentes africanos que participavam do tráfico negreiro.

A escravidão de africanos começou no Brasil ainda em meados do século XVI. Duarte Coelho, donatário da Capitania Hereditária de Pernambuco, solicitou, em 1539, ao rei de Portugal a isenção de impostos de "peças" africanas. As "peças", na verdade, eram os escravos. Grandes extensões de terras e agricultura baseada na monocultura de cana-de-açúcar, que propiciou ao Brasil colonial o Ciclo do Açúcar, foram as primeiras razões dos colonizadores para que o comércio de homens, mulheres e crianças negros se perpetuasse até o ano de 1888, quando oficialmente foi abolida a escravidão no Brasil.

O tráfico de escravos foi um comércio tão lucrativo que somente acabou em âmbito mundial em 1865. A partir deste ano, o Brasil se tornou o único no mundo ocidental a possuir escravidão institucionalizada. Essa realidade impedia a chegada de imigrantes que preferiam outros países das Américas. Enquanto o mundo se transformava por meio da revolução industrial, as nossas elites, principalmente os cafeicultores paulistas, insistiam, teimavam com o sistema de escravidão, o que prejudicou, sobremaneira o Brasil nos fóruns internacionais, bem como a sua economia, que, baseada na mão-de-obra escrava, não conseguia competir, satisfatoriamente, com os países, inclusive muitos da América do Sul, que pagavam salários aos trabalhadores, principalmente aos imigrantes europeus que tinham conhecimento técnico para exercer suas funções nas fábricas e no campo.

O Brasil foi o último País a dar fim ao comércio de escravos, além de Cuba, que, apesar de ter escravidão em seu território, a ilha caribenha era usada mesmo como entreposto de escravos, que eram distribuídos pelo Caribe, América do Norte e América Central. Países escravagistas como a Inglaterra, a França, a Espanha e a Holanda tinham grandes interesses econômicos nessas regiões. A presença da Espanha na América do Sul também era muito forte, bem como Portugal, pequeno país ibérico, mas que se tornou potência marítima, que, através do tempo, transformou o Brasil colonizado por ele em um País continental.

A escravidão dos negros africanos era uma escravidão essencialmente mercantilista. Sempre houve escravidão no mundo. A humanidade sempre pecou no que concerne a explorar à própria humanidade. Os países muito antigos, as sociedades antigas, os do tempo de Jesus Cristo e os de tempos anteriores ao do Filho de Deus escravizavam, mas, geralmente, eram troféus, os quinhões dos vencedores de guerras. Eram militares e civis que perderam guerras e pagaram com o preço alto da escravidão.

Por seu turno, a escravidão dos negros não tinha razões outras que não apenas a comercialização de seres humanos, por cerca de 400 anos, no mundo ocidental, que já tinha passado pelo Renascimento e se preparava para entrar no mundo moderno, que se iniciou, primeiramente, com as grandes navegações. O sentimento, realmente, é de vergonha. Não minha vergonha, não sua vergonha, não a vergonha dos milhões de negros brasileiros, mas daqueles que enriqueceram e conquistaram terras com a morte e a escravidão de milhões e milhões de homens e mulheres, que morriam nos navios negreiros, em cerca de 40%, vítimas de maus tratos, de todo tipo de doença, além de serem jogados aos mares, como punição ou por causa da fiscalização do exército e da marinha ingleses, cujo governo, no ano de 1806 para 1807, decidiu dar fim ao tráfico de escravos. A Inglaterra era a potência mundial daquela época.

Portugal, que edificou uma nação importante em termos mundiais na América do Sul, foi o maior mercador de escravos de todos os tempos, no que tange aos interesses especificamente comerciais e econômicos. O Brasil, além de ser o último País a libertar os escravos, foi também o destino de três milhões e 600 mil escravos, dos dez milhões que chegaram vivos e foram trazidos para as Américas. Como se percebe, o Brasil, nos séculos da escravatura, foi responsável por 36% de todo comércio escravagista em âmbito mundial. São realmente números assombrosos.

A escravidão dos negros foi e ainda o é a maior diáspora da história da humanidade. Se a comunidade negra internacional fosse rica e controlasse as mídias, a imprensa comercial e privada, os bancos e as terras evidentemente que essa dolorosa história nunca deixaria de ser comentada, nunca seria esquecida, bem como o genocídio dos índios de todas as Américas nunca ficaria relegado a um segundo plano. Como se observa, a divulgação política da escravidão e dos massacres e genocídios dos negros e dos índios são também questões econômicas e financeiras, além de morais e de justiça, que nunca foi feita, e considero que nunca o será.

Os escravocratas nunca ganharam tanto dinheiro. A comercialização de pessoas era mais lucrativa do que a estratificação, a agricultura, a pecuária e a pesca. A indústria praticamente não existia, porque começou a se desenvolver na segunda metade do século 19, quando a Inglaterra começou — por questões econômicas e não morais —, que isto fique registrado, a perseguir e a afundar navios, boicotar economias e agredir militarmente os países que insistiam em traficar seres humanos com finalidade comercial. Era o início da industrialização, quando surgiu, de forma incipiente, a classe operária, melhor qualificada, sem direitos trabalhistas, contudo, assalariada, valores baixíssimos, trabalhadores explorados, porém, reitero, assalariados.

Os negros africanos, cujos filhos e descendentes são brasileiros, desembarcavam nos portos da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Depois da chegada, eles eram espalhados, "distribuídos" por todo o País. Trabalhavam na mineração, na lavoura, na pecuária, nas instituições governamentais, nas ruas e nas casas residenciais. Eles estavam presentes no dia a dia da vida brasileira e ajudaram, indubitavelmente, a construir o Brasil de hoje, País que tem um PIB de R$ 3,675 trilhões, segundo o IBGE, e que atualmente tem influência planetária. Sem sombra de dúvida, a plural e multirracial sociedade brasileira deve muito aos homens e mulheres negros que trabalharam, arduamente, sendo que milhares pagaram com a própria morte, como vítimas que foram da terrível e inominável escravidão.

Os negros, os cidadãos negros foram heróis da Guerra de Canudos e da Guerra do Paraguai e não receberam retorno algum, a não ser o abandono do estado e da sociedade brasileiros. Foram morar nos morros da Favela e da Providência, as primeiras favelas deste País. As desigualdades sociais são gritantes. A miséria e a pobreza, históricas, são a razão da prostituição, do tráfico e da violência. São essências da degeneração familiar e, consequentemente, da sociedade.

Os negros, observemos, pertencem às camadas mais pobres da sociedade brasileira, as que estão em risco constante de ser vítimas de todo tipo de miséria humana e de ignorância. O ignaro é mais perigoso que o marginal, porque ele é parte de milhares, quiçá milhões, e por isso se anulam as condições para que as nossas cidades e o País se desenvolvam, de maneira equânime, justa e democrática. Não há paz se não existir justiça social. Os governos, em todas as esferas, têm de deixar de ser patrimonialistas. O estado tem de ser devolvido ao povo e não continuar a servir à pequena parcela da sociedade, que há séculos confunde e mistura os interesses do estado com os interesses privados — particulares. É uma luta árdua, perene e constante.

Os governos trabalhistas de Lula e agora o de Dilma Rousseff têm lutado e conseguido mudar o quadro social e econômico das classes sociais carentes e populares. É uma revolução da grandeza da que o presidente Getúlio Vargas realizou em 1930 e depois em 1950, quando o Brasil deixou de ser rural e passou a ser urbano, por meio da industrialização, da organização do serviço público de forma centralizada, em âmbito federal, e da criação de meios de fiscalização das receitas públicas, bem como dos serviços de arrecadação de tributos do estado nacional, além da criação de estatais como a CSN, a Vale do Rio Doce (os neoliberais só querem chamá-la de Vale) e a Petrobras.

Os programas de Lula incluíram 42 milhões de brasileiros na classe média (quase a população da Argentina) e tiraram 36 milhões da pobreza. E grande parte dessa gente brasileira, caro leitor, é formada por brasileiros de etnia negra. É uma revolução ou não é? Só para ficar nisso, porque esse governo trabalhista fez muito mais, como, por exemplo, fortalecer nosso mercado interno ao ponto de o Brasil praticamente não sentir a crise econômica e financeira que aconteceu no mundo em 2008, apesar de a imprensa de negócios privados não reconhecer e por isso mentir e manipular, porque a verdade é que ela se tornou porta-voz dos trustes internacionais e nacionais, ponta-de-lança dos interesses da classe social que habita o pico da pirâmide social, além de se transformar em um partido de direita — o Partido da Imprensa. Se há alguma dúvida, basta pesquisar para confirmar o que eu afirmo e o que eu escrevo nesta tribuna chamada Palavra Livre.

O estado democrático de direito, conforme reza a Constituição de 1988, é o agente que determina as políticas públicas, no que é relativo à saúde, à educação, à moradia, à segurança e à luta para favorecer a distribuição de renda e a geração de empregos. Todas essas coisas boas são desejos dos brasileiros, principalmente os negros e os índios que ainda não foram resgatados historicamente e socialmente. O Brasil tem de continuar a ser dos brancos, dos amarelos, dos vermelhos e dos negros. Contudo, sabemos que a grande parcela negra da população tem de ser ouvida por todos os segmentos da sociedade, bem como ser alvo de políticas públicas positivas que garantam a inclusão dos negros (e também dos índios) no mercado de trabalho e nas escolas.

Até hoje, em pleno século 20, parte significativa do povo brasileiro não tem acesso a benefícios sociais e ao direito de ter uma vida de melhor qualidade. Os negros continuam a ter os piores empregos, a morar nas periferias, nas favelas, nas comunidades pobres. Seus empregos são os mais insalubres, os mais perigosos e mal pagos. Continuam a ser vítimas do pior sentimento dentre os piores sentimentos que é o racismo, porque, como cidadão negro, ele é medido por sua cor, por seu cabelo, por suas características físicas e não pela sua conduta, pela sua competência, pelo seu caráter, digo melhor, bom caráter, pelo seu coração. Os indivíduos são pertencentes à espécie humana. Raça é terminologia superada, que somente os desinformados, os ignorantes, os preconceituosos e os racistas insistem em assim se comportar. Comportar-se mal.

É um direito inalienável do homem e da mulher, independentemente de sua origem e cor, ter suas cidadanias ratificadas e reiteradas pelo estado e pela sociedade a qual pertencem. Ser cidadão não se reduz a pagar impostos. Ser cidadão é também saber de seus direitos e, dentre um elenco de direitos, é não ser humilhado ou esquecido ou relegado por sua condição social e por sua cor de pele e etnia. Os negros estão para sempre, eternamente, na história do Brasil e do seu povo. Ele é parte dele. Ele é o povo, e o Brasil é de todos e para todos os brasileiros.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Nasci negra depois dos 30

por*:
Shirlene Marques
publicado: http://blogueirasnegras.org
2014 é o ano do meu nascimento. Durante três décadas, ou desde o que dia em que tenho lembranças de quem fui ou tornei-me a ser, fui “morena clara”, morena e também achei-me branca. Mas, eu negra? Não,não… Ouvia frases do tipo: “olha que morena mais bonitinha”.

Como todo ser humano que se constitui dentro do seu meio, fui educada como sendo branca, de religião católica. E assim saí da infância lutando para negar marcas genéticas, como o tipo de cabelo. Cabelo este que eu considerava ruim e difícil de manter-se domado, dominado. Afinal, os outros reproduziam e insistiam: “cabelo ruim é assim mesmo”.

Quando a idade de mocinha foi chegando, achava-me feia e escondia-me em mim. Porém quando o som dos tambores ecoava através dos grupos afrobaianos, que eu via na televisão, sentia fortaleza e atração. Naquele tempo, eu menina-moça morava à beira do rio São Francisco, nascida em terras baianas de Juazeiro e crescendo em terras pernambucanas de Petrolina. Missas e alisamentos colocavam a herança negra bem longe de mim; era mundo de apreciação.

Mas o gosto pela música vindo da minha Bahia, onde foi gerada e recebida, ecoava em minha alma e me trazia sensação de ligação e de que querer chegar mais perto. Mas eu? Negra não! A música era deles, dos negros lá de Salvador.

No crescimento do corpo físico e desejo de crescimento intelectual sigo para capital Recife, desejando cursar Jornalismo. Os olhos abrem-se para novos “mundos” representados em sons, em textos, em gente. Era maracatu, coco, ciranda, afoxé,frevo…Todo som que ecoava em mim. Conquistando-me… Religando-me. Mas eu? Negra não!

Na minha mente já estava plantada a certeza de uma forte identificação com o mundo negro; gostava do som dos tambores, vibrava ao ver negros engajados na política e em causas sociais; ficava feliz quando uma negra (o) conseguia sua ascensão conquistada com esforço e educação. Mas e eu? Sim, sim, a morena do curso. Vinda do interior, de escola pública e cursando Jornalismo numa Universidade Federal. Estava num lugar para brancos e “ricos”, “mérito” para brancos, as cotas não existiam.

Os primeiros anos na capital também marcaram a minha vida na busca por uma religiosidade mais profunda. Foram tempos de andanças e de buscas… Neste tempo, começaram a nascer as mudanças. Era tempo de ser gerada, chamada… Os dogmas do catolicismo já não me pertenciam. Abraço o espiritismo kardecista que me mostrou a imensidão do mundo espiritual. E eu? Morena, não católica.

Religiões afro-brasileiras, não, não. Não poderiam fazer parte de mim. Religiões como o candomblé era espaço para eles, os negros, as negras. Tinha respeito e admiração por aquele mundo. E eu? Divulgava já com orgulho: Sou branca, mas minha alma é negra.

E em meio aos vendavais encontrei o candomblé ou o candomblé encontrou-me. Fui iniciada aos 34 anos, adentrando em novos espaços, que já conhecia de longe, de tempo atrás. Encontrei pertença, riqueza; a ligação estava concluída. Mas, e eu? Não podia ser a negra que queria. Minha pele não era preta, preta como a deles.

Durante 30 anos fui ensinada a ser “morena”, num panorama de sociedade e de conhecimento que vivi. Minha cabeça encheu-se dúvidas, as quais foram sanadas com leituras que me trouxeram uma grande resposta, que antes eu não buscava; afinal, eu não era negra. Eis que as respostas chegaram: a denominação de uma pele morena, no Brasil, é usada para camuflar a pertença à raça negra, de ter o sangue negro no corpo.

Tenho nariz achatado, cabelo crespo, lábios grossos, sangue negro em minhas veias, não pele negra, tão negra como a lua, eis-me aqui nascida negra. Nascimento que não foi forçado como na cesárea. Foi parto natural, parto amadurecido, parto que esperou tantos anos, filho mais que desejado. Foi gestado e alimentado com leitura, pois nasceu um tempo em busca da cura física que foi transformada em tempo de alimento.

Nasci negra em meio à busca da cura física. Nasci negra e agora como uma criança tenho desejos infinitos de entender este meu mundo negro. Cada dia tem sido posto para grande descobertas, momentos do passado que tento entender, pessoas e fatos que tento entender. Encantamento com a vida nova. Braços vão sendo apresentados a mim, mãos me ensinam a caminhar, pessoas maravilhosas vão me guiando. E como toda criança, vou enchendo meu coração de sonhos e ficando feliz com os presentes que me chegam (amig@s, espaços de aprendizagem, leituras).

sábado, 21 de junho de 2014

Sociedade capitalista, racismo e sexismo: a importância da autocrítica feminista

por: Marjorie Chaves
publicado: blogueirasnegras.org

À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de textos feministas ou de ganhos com o movimento feminista por igualdade no mercado de trabalho, o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva.bell hooks
Não há capitalismo sem racismo.
Malcolm X

Não há luta antirracista e antissexista fora da luta de classes. Pesquisas que sintetizam informações estatísticas desagregadas em gênero e raça como o Anuário das Mulheres Brasileiras (2011) evidenciam a situação de indigência e pobreza vivida por mulheres negras e a sua concentração em postos de trabalhado vulneráveis como o trabalho doméstico e o de cuidados em regiões metropolitanas e Distrito Federal. Os recentes estudos sobre relações de gênero no mundo do trabalho pouco têm avançado em considerar a questão racial como um dos principais elementos na distribuição de lugares e papéis sociais que constituem as desigualdades na sociedade capitalista.

Esse silenciamento pode ser explicado pela maneira como vem se consolidando os estudos feministas e de gênero nas universidades brasileiras com produções teóricas cada vez mais sofisticadas e distanciadas da realidade de mulheres pobres e racializadas que compõem parte significativa da força de trabalho. Para bell hooks (1984),“tem sido mais fácil para as mulheres brancas que não vivenciam opressão de raça ou classe se concentrarem exclusivamente no gênero”.

Nas décadas de 1970 e 1980 feministas negras como Angela Davis, bell hooks e Lélia Gonzalez já apontavam que a luta antirracista é indissolúvel da luta de classes. A recusa de feministas em reconhecer outras experiências de mulheres (que não as brancas, universitárias e de classe média) suprimiu a conexão entre raça e classe, escamoteando a situação de privilégio de um seleto grupo de mulheres forjado pelo discurso da “opressão comum”.

Nancy Fraser (2009) lembra o quanto o feminismo prosperou no momento da ascensão do neoliberalismo em que as reivindicações por justiça foram substituídas em função do reconhecimento da identidade e da diferença, reprimindo a memória de um igualitarismo social. A promessa emancipatória do feminismo, aos poucos deu lugar aos interesses individuais de mulheres privilegiadas que almejavam a igualdade com os homens de sua classe. As lutas feministas foram facilmente cooptadas pelo pensamento burguês a medida que mulheres brancas foram beneficiadas pelo movimento.

O capitalismo não cria desigualdades raciais e de gênero, ele as apropria. O racismo e o sexismo operam de modo a criar disputas dentro da própria classe trabalhadora gerando privilégios na competição por ocupações do mercado de trabalho. A divisão sexual do trabalho (HIRATA; KERGOAT, 2007) em que há, supostamente, trabalhos de mulheres e trabalhos de homens, sendo os desses últimos mais valorizados, não funciona da mesma maneira para todas as mulheres. A experiência de mulheres negras na diáspora é a experiência do trabalho, sempre estivemos nas ruas oferecendo todo tipo de serviço.

Cada vez que mais e mais mulheres passaram a ocupar o mercado de trabalho, foi preciso que outras assegurassem seu trabalho doméstico criando uma subdivisão de classe no interior da divisão sexual do trabalho (ÁVILA, 2010). A delegação de tarefas, além de não proporcionar a divisão igualitária do trabalho reprodutivo entre homens e mulheres, perpetua as desigualdades entre mulheres, assim como as desigualdades raciais, já que são as mulheres negras que historicamente ocupam o lugar do trabalho doméstico remunerado.

Se a autocrítica faz parte da ação e da elaboração teórica dos feminismos como alguém pode considerar a si mesmo como feminista sendo liberal e racista? Muitas organizações contemporâneas de mulheres negras sequer utilizam o termo “feminismo” para designar sua prática política. No entanto, o que costumamos nomear de prática feminista negra ou pensamento negro feminista é o conhecimento gerado a partir da própria experiência em resposta às opressões que interseccionam gênero, raça, classe e sexualidade (COLLINS, 2012), afirmando um posicionamento crítico ao feminismo hegemônico que pouco tem nos representado. É necessário refletir sobre qual emancipação queremos, pois as lutas antissexistas e antirracistas por si só não abalam as estruturas do capitalismo que, por seu oportunismo sistemático, apropria-se das desigualdades raciais e de gênero para acirrar a exploração econômica e fragmentar todas as formas de resistência.

Referências:

ÁVILA, Maria Betânia. Divisões e tensões em torno do tempo do trabalho doméstico no cotidiano. Revista do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero. Edição especial – Tema: Trabalho e Gênero. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2010. p.67-76.

COLLINS, Patricia Hill. Rasgos distintivos del pensamiento feminista negro. In: JABARDO, Mercedes (Ed.). Feminismos negros: uma antología. España: Traficantes de Sueños, 2012. p. 99 a 134.

DIEESE. Anuário das mulheres brasileiras. São Paulo: DIEESE, 2011.

FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações. Londrina, v. 14, n. 2, p. 11-22, jul./dez. 2009.

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. São Paulo, Cadernos de pesquisa, v. 37, n. 132, set.-dez. 2007, p. 595-609.

HOOKS, bell. Feminist Theory: from margin to center. Boston and Brooklyn: South End Press Classics, 1984.