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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O CANTOR MACAU FALA SOBRE SUA CARREIRA

publicado: revista Raça Brasil
Compositor da música "Olhos Coloridos" que virou sucesso na voz de Sandra de Sá, o cantor Macau fala sobre sua carreira nesta entrevista





Ele assina a música que se transformou no hino pop da negritude do Brasil. Aos 60 anos, e com mais de 200 obras no currículo, Macau comemora três décadas do lançamento de Olhos Coloridos, na voz deSandra de Sá. Mas o grande público ainda sabe pouco do artista que é autor da façanha de fazer uma canção valer mais que mil palavras. “A minha contribuição é a música. O meu trabalho é cheio de canções que mostram o sofrimento dos negros em suas várias formas. Em forma de poesia, de canção, eu escrevo a história, a luta e as conquistas do povo negro do meu país”, diz Macau.

Veja trechos da entrevista com o cantor Macau:

Macau, conte-nos um pouco de sua infância. Você vem de família pobre?

A minha infância foi normal na qualidade de negro pobre da favela. Fui criado pelos meus avós, na Favela da Praia do Pinto, hoje Condomínio Selva de Pedra, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Lá acontecia de tudo: brigas, tiros, invasão policial. Cresci vendo tudo isso. Meu avô era dono de uma birosca que promovia festas, cantorias, congada, caxambu, samba de terreiro. Tinha de tudo. Na fogueira assavam batatas-doces e carne. Nos fundos da casa, ou, melhor, do barraco, tinha um quintal enorme com árvores e frutas. Eu fui bem criado. Eles tinham dois filhos: eu era filho do Rui Xisto, o filho mais velho.

Como você foi apresentado ao mundo da música e se transformou em compositor?

Morando na Cruzada São Sebastião, criada por Dom Hélder Câmara. Na Cruzada estava instalada a Escola Santos Anjos, construída também por ele no terreno entre a Paróquia Santos Anjos e o Jardim de Alah. Minha avó sempre me levava à igreja. Fiz a primeira comunhão, fui coroinha, fiz parte do coral e me tornei coordenador do Grupo Jovem, no qual cuidei da área musical. Nessa época me tornei um músico, compus canções sacras e concorri no Festival de Música Sacra, em que ganhei o primeiro lugar com a música Eu preciso nascer novamente. Passei a conviver com a música na igreja, e com os amigos da Cruzada, tocando violão e compondo.

Suas experiências pessoais influenciaram nos versos de Olhos Coloridos?

Muito. É resultado de uma forte discriminação racial da qual fui vítima. Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de “nego abusado”, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era “sarará crioulo”.

Negro discriminando outro negro...

Mas não parou aí: fiquei horas no camburão com outras pessoas como se fôssemos lixo, um por cima dos outros, como lata de biscoito. Rodamos horas pela cidade até que resolveram nos levar para a delegacia para averiguação. Não havia nada que me mantivesse preso e, mesmo assim, só de madrugada fui liberado com a ajuda do padre Bruno Trombeta, da Pastoral Penal. Saí dali triste e revoltado, chocado e com forte depressão.

A música "Olhos Coloridos", sucesso na voz de Sandra de Sá, foi composta por Macau | FOTO: Divulgação
Foi logo depois que compôs seu belo hino-denúncia?

Não consegui ir para casa. Fui para a praia onde refleti sobre tudo que tinha acontecido comigo. Chorei muito olhando para o mar e foi aí que surgiu a primeira frase “os meus olhos coloridos me fazem refletir...”. Imediatamente fui para casa, peguei meu violão e, em poucos minutos, compus Olhos Coloridos. Ela veio de uma manifestação pessoal, uma expressão de revolta. Por isso minha música é subterrânea, é uma fusão afro-brasileira do meio ambiente em que vivo.

Sua música vem conscientizando e encantando gerações como hino pop da negritude, popularizada, sobretudo, na voz de uma diva da black music. Como é sua relação com Sandra de Sá?

Sandra de Sá gravou Olhos Coloridos pela primeira vez no LP Sandra Sá, em 1982, gravação original em que toquei meu violão, com arranjos de Serginho Trombone e produção de Durval Ferreira. Esse LP selou definitivamente a minha parceria com ela, que dura até hoje, sempre com Olhos Coloridos à frente de tudo. Em 1982, no LP Sandra de Sá & Banda Black Rio, a música foi gravada em uma versão que até hoje é executada nas rádios brasileiras. Houve novas versões em 1986, 1994, 2004, fora as inúmeras apresentações em que ela canta esta canção.

Se tivesse que compor uma canção para chamar a atenção da sociedade brasileira contemporânea sobre a questão racial,manteria a mesma letra de Olhos Coloridos?

Sim! Essa canção está cada vez mais atual, por incrível que pareça. Ela é o hino da juventude negra. Se tivesse que compor,agora, uma canção para chamar a atenção da sociedade, eu a comporia de novo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Gratidão Lupita Nyong’o

por* Hanayrá Negreiros
publicado:blogueirasnegras.org
Para mim esse texto é um agradecimento meu à Lupita Nyong’o.

Faz tempo que eu não escrevo, tinha perdido a vontade, ou talvez não tivesse nenhum assunto que me fizesse pensar com as palavras, até conhecer a Lupita, moça preta, da pele bem escura, que conseguiu mostrar a nossa beleza pro mundo. Obrigada Lupita!

A conheci no Pinterest, site de referências de imagens, onde a gente consegue montar painéis com diferentes temas, no meu caso, gosto muito e estudo a estética da mulher negra, e comecei a ver nesse site muitas fotos dessa até então desconhecida moça. De primeira, achei ela linda e com um tipo físico parecido com o meu, o que me animou bastante! Eu ainda nem tinha assistido 12 Anos de Escravidão e já gostava dela, gostava porque ela era colorida, literalmente, começando pelo tom de pele, que diga-se de passagem, a gente não vê muito por aí estampado em revistas de moda, nem em comerciais de TV, nem em nada, e depois por ela se permitir ser colorida, ela usava cores alegres, que contrastavam com a pretura da sua pele, nas roupas, nas maquiagens.

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.

A falta de mulheres parecidas com a gente, na mídia, seja ela TV, revistas e o que mais possa servir para ajudar a formar uma identidade estética negra, (não para seguirmos à risca, porque eu realmente acredito que não será uma revista que vai me falar o que usar), nos anula enquanto mulheres e consumidoras. E com certeza o Oscar de Lupita representa muito mais do que o resultado de uma linda atuação, representa uma mudança não só estética, mas política também.

E com a falta de tudo isso, acredito que não só pra mim, mas para muitas outras mulheres negras, tanto com a pele escura feita a dela, ou mais clara (porque temos vários tons), a chegada da Lupita, de alguma forma, nos fez sentir assim, representadas. Como se Lupita dissesse por nós – “olha, a gente tá aqui também!”

Porém, toda essa minha gratidão, só poderia ser completa pelo que Lupita representa não só pela beleza dela, ou pelas roupas e maquiagens que ela usa, mas pelo discurso dela também, por ela dizer que não há vergonha na nossa beleza, que somos bonitas também. Imagino quantas meninas negras se sentiram mais felizes vendo uma Lupita, vendo uma Alek Wek, e outras mulheres negras que nos representam. E já aviso, precisamos de mais pretas nas TVs, nos filmes, nas passarelas, espero que não pare na Lupita. Isso me faz pensar nas outras mulheres negras que vieram antes de Lupita ou Alek, me faz pensar em Carolina Maria de Jesus, que com suas palavras e jeito de contar o que se passava na favela, fez com a enxergassem, como mulher, preta e periférica. Recentemente, li um texto publicado aqui no BN escrito por Dulci Lima em homenagem ao centenário de Carolina, onde é contada a importância dessa mulher para nossa sociedade. E penso, como me sinto também agradecida por poder ler o que essa mulher se pôs a escrever.

Penso também em Zezé Motta, Ruth de Souza e tantas outras mulheres, que vieram antes, e que de alguma forma também ajudaram na minha formação enquanto mulher preta. O meu muito obrigada!

Por hora fico por aqui, pensando nos próximos textos a serem escritos e nos próximos batons coloridos a serem usados, porque como bem disse uma vez, uma moça bem preta e bonita “não existe vergonha na beleza negra”.

Hanayrá Negreiros é formada em Moda, adora escrever sobre estética da mulher negra, costurar e fazer ilustrações. Não vive sem um doce, chocolate de preferência!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cinco anos sem Michael Jackson; entenda por que o Rei do Pop não morreu

por: Leonardo Rodrigues
publicado: musica.uol.com.br




Elvis não morreu, entrou para o programa de proteção às testemunhas do FBI. Jim Morrison também vive: cansado da fama, passou a se esconder do mundo sob a identidade do escritor Thomas Pynchon. Diferente dos colegas, Michael Jackson pode ainda não ter ganhado sua teoria conspiratória definitiva, mas hoje, passados exatos cinco anos de sua morte, sua memória brilha forte tal qual uma cintilante luva cravejada de cristais Swarovski.Você pode gostar dele ou não, mas o fato é que o Rei do Pop continua entre nós, e muito mais no presente do que em sua apagada última década de vida. Indícios não faltam. Desde o fatídico 25 de junho de 2009, Michael já lançou dois álbuns póstumos e tem material para outros oito, voltou às paradas, estrelou um documentário, se apresentou "ao vivo" como holograma e até foi flagrado fazendo compras em Paris.
No caso mais pitoresco, precisou pagar a indenização simbólica de 1 euro a fãs da Suíça, Bélgica e França, pelo inapelável "dano emocional" causado por sua repentina morte, após uma overdose de propofol, um forte anestésico utilizado como sonífero. Brincadeiras, exageros e polêmicas à parte, Michael nunca perdeu seus tons superlativos nem sua majestade na música. Segundo levantamento da revista "Forbes", ele é o artista que mais lucra depois de morrer, desbancando a estrela Elizabeth Taylor.

A recente escalada do pop suingado de Bruno Mars, Pharrell Williams, Robin Thicke e Justin Timberlake reafirma ainda mais o legado de um artista que redefiniu não só a música negra dos Estados Unidos, mas todo um universo pop. Hoje é possível afirmar que existe o antes, o depois e o "além" de Michael Jackson.