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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Moisés da Rocha: voz aos negros na rádio brasileira

publicado: revista trip

Quem nunca viu o samba amanhecer vai no Bixiga pra ver. E quem nunca nem ouviu esse clássico do samba paulista? Liga na Rádio USP aos sábados e aos domingos a partir do meio-dia. Há boas chances que essa canção, composta por Geraldo Filme (um dos maiores artistas negros do Brasil), dê as caras. Durante duas horas, o senhor Moisés da Rocha embala o ritmo brasileiro por excelência no programa homônimo a seu bordão. “O Samba Pede Passagem” desde 1967, entoado pelo meio crooner meio bamba que jura ser mais coadjuvante que protagonista da história -- mesmo sendo amigo de gente como o próprio Geraldo Filme.

“Esse programa foi a primeira voz que a comunidade negra teve num meio de comunicação”, diz ele, hoje, aos 71 anos. Moisés tem muito tempo pra perder tempo. No centro de São Paulo, numa sala com cores de repartição pública, ele lida com muitas coisas como se fosse um percussionista sincopando. Tamborila o teclado, responde a emails, escuta um CD de Jorge Veiga e disserta sobre o papel da rádio para os negros do país que a eles deve, quase sempre nega, e paga em parca moeda. “‘O Samba Pede Passagem’ surgiu como resistência. É um resgate da cultura afrodescendente, é dar dignidade e identificação a ela”.

Moisés conhece as trilhas da música que retoma em seu programa. Muitas delas ele fez em pessoa. Locutor por vocação, pesquisador por costume e sambista de nascença, ele teve seus primeiros contatos com música quando criança, na cidade de Ourinhos. Aos 13 anos, já tocava em roda de samba do interior, manjedoura dos ritmos africanos que dariam no samba paulista. “Fui criado em igreja Metodista. Meu irmão e eu tocávamos num bloco da cidade e as pessoas falavam: que coisa horrível, os filhos do Dito Rocha nessa coisa de malandro”, lembra. Ao fim dos anos 50, deixou a província e rumou a São Paulo. Em pouco tempo já estava envolvido com os bambas da capital. “Eu ia nas rodas de Pirituba naquela época”

Um período como pracinha no canal de Suez, no Oriente Médio, deu a chance de Moisés se tornar crooner do conjunto Brazilian Boys. A vontade de viver de música só fez aumentar. De volta ao Brasil em 65, o jovem decidiu dar a cara tapa. Ligou para a rádio Cometa e, como manda a cartilha das coincidências, recebeu um convite inesperado. “Fui ver um horário para gravar e, quando liguei, o Domingos De Lello, diretor, disse: saiu um locutor aqui e, conversando com você, acho que você se daria bem”, diz. Estava certo. Moisés se deu bem e começou a carreira de radialista em 67.

Desde então, seu trabalho nunca se resumiu ao microfone. Trabalhou como assistente de locução, produtor, repórter. Ia pra rua, terreiros, escolas de samba, botecos, comunidades, casas elegantes. “Tive o prazer de entrevistar o Dick Farney, o Lúcio Alves, o Nelson Cavaquinho”. Assim ele vai enumerando a lista de fontes que viraram amigos, amigos que viraram fontes. Plinio Marcos, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Paulinho da Viola, Monarco, Dona Zica, além do próprio Geraldo Filme. “A velha guarda todinha de SP e do RJ”, diz, sem modéstia da humildade que se precisa para se chegar a tantos lugares.

Seu passo leve no mundo do samba foi o embrião do programa. A convite do diretor da Rádio USP, Leonardo de Castro, Moisés preparou a atração que estrearia em 1978 na grade da emissora. Dois anos depois aconteceu o que ele chama de retomada do samba. “Eu frequentava o Bixiga e um amigo falou de um disco gravado no Rio que era bom, mas não tocava lá. Eu ouvi e toquei direto na rádio”. Era o álbum de estreia do Fundo de Quintal, conhecido por renovar o gênero com a adição de novos instrumentos. Em seguida veio Zeca Pagodinho e a batucada dos tantãs tomava fôlego. “Como dizia Nelson Sargento, o samba agoniza, mas não morre.”

Moisés ressalta o perfil que o programa toma com o tempo. “Não é um vitrolão, só para tocar música. Existe uma conscientização de reverenciar os grandes músicos populares da nossa história”, afirma. A reboque, também se cria um espaço de divulgação e denúncia para o movimentos afro, de grupos a eventos. “Mesmo no período da ditadura a gente fazia isso”. O que o radialista não podia controlar foi a escalada do samba a custo das gravadoras. “Eu vi alunos da USP dizendo que achavam o pagode legal porque era brega, mas isso ajudou a acabar o preconceito. O samba se fixou”, diz.

Para Moisés, a mão que afaga também apunhala. A tomada do gênero pelos grandes selos, a longo prazo, reduziu seu lugar nas rádios em favor de estilos mais rentáveis aos cofres corporativos. “O samba não perde espaço por causa da qualidade, ele perde espaço porque os meios de comunicação manipulam sua veiculação”, afirma. O modismo não derrubou o seu programa que segue no ar no alto dos 35 anos. No currículo constam três prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, tema de sambas-enredo, uma lista considerável de artistas e fãs do mundo inteiro. “Já recebi pedido do Japão!”, lembra Moisés.

O radialista também tem a certeza de que “O Samba Pede Passagem” é um megafone. “O programa dá voz a periferia”, diz. A música acaba sendo instrumento de questões tão velhas quanto o próprio samba, como o preconceito e o racismo. “O único jeito de acabar com isso é não esmorerecer, a luta tem de ser contínua”, afirma incisivamente num dos poucos momentos que abandona outros afazeres para manter a conversa. Dali a pouco, Moisés encontraria um de seus amigos para uma de suas tantas tarefas do dia. Ele também pensa em passar por alguma quadra de escola ou roda de samba. É quase uma obrigação, mesmo ante as quase 4 mill inscrições que tem de avaliar para a Virada Cultural. Ele também é curador do evento. “Meio curador, meio curandeiro”, brinca. Quem foi que falou que o samba não tem o poder de curar?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Sebrae defende política pública para o carnaval e fim da informalidade no setor

publicado: Agência Brasil

A criação de uma política pública para o carnaval é muito positiva, “porque é um grande evento, que mobiliza o país inteiro”, na avaliação da coordenadora da Área de Economia Criativa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do estado do Rio de Janeiro (Sebrae- RJ), Heliana Marinho.

O Sebrae-RJ é um dos organizadores da primeira feira exclusiva sobre carnaval (Carnavália) e do 1º Encontro Nacional do Carnaval, que ocorrem a partir de hoje (31), no Centro de Convenções Sul América, na capital fluminense.

Segundo Heliana, a cadeia produtiva do carnaval, principalmente no Rio de Janeiro, tem atividades integradas, “que precisam ser observadas com olhar de mercado”. Falta ao setor, por exemplo, organizar e sistematizar informações sobre quanto os profissionais do carnaval ganham, o que eles precisam para trabalhar, as condições de formalização, entre outros fatores, como ocorre em setores como turismo, hotelaria e gastronomia.

A coordenadora destacou a necessidade de qualificação dos trabalhadores do setor, que tem 80% da mão de obra empregada de maneira informal. “Precisam ser orientados para a formalização”. Segundo ela, por causa do impacto econômico do carnaval, a maioria desses trabalhadores pode ser formalizada como microempreendedores individuais (MEI). “Essa é também uma das bandeiras do carnaval no processo de relações de negócio dessa cadeia produtiva”.

No ano passado, o Sebrae-RJ elaborou uma cartilha sobre o MEI, que foi distribuída aos trabalhadores na Cidade do Samba. A cartilha foi aprimorada recentemente e abrange não só informações sobre benefícios após a formalização dos trabalhadores, mas também as obrigações com o Fisco e a Previdência Social, entre outras. “O nível de rendimento deles é muito compatível com o MEI e é preciso que eles tenham compreensão total de tudo que significa ser formalizado”.

Primeira feira exclusiva do carnaval (Carnavália) e 1º Encontro Nacional do Samba (Sambacon) foram abertos hoje no Centro de Convenções Sulamérica, no Rio de JaneiroTomaz Silva/Agência Brasil

A cartilha será distribuída durante a Carnavália/Sambacon, que vai até sábado (2). Profissionais do Sebrae e consultores especializados prestarão informações e esclarecimentos aos interessados. A expectativa é que, a partir do ano que vem, sejam implementadas rodadas de negócios entre fornecedores de matérias-primas e consumidores.

Segundo Heliana Marinho, cada escola de samba precisa, em média, de 200 a 300 pessoas nas atividades fabris. “Isso com muita sazonalidade, desde que acaba o carnaval, quando começa a ser desmontado e reaproveitado o material, até o momento em que o carnaval do ano seguinte começa a ser montado”. Multiplicado pelo número de escolas existentes em cada cidade, é possível ter dimensão do contingente de empregos gerados pelo setor, segundo ela.

A maior parte da mão de obra informal recebe remuneração de cerca de 1,5 salário mínimo, de acordo com a coordenadora do Sebrae. “O que nos interessa é que a informalidade é muito grande, ela precisa ter um olhar diferenciado”. As atividades ligadas ao carnaval englobam desde serviços de carpintaria, confecção de fantasias, adereços e acessórios, até o trabalho das pessoas que organizam a plataforma dos desfiles e controlam o andamento da apresentação na Passarela do Samba.

O microempresário Stephano Rocha está participando da 1ª Carnavália e disse que “demorou para que a gente tivesse uma feira dessas”. Há seis anos, ele vende, pela internet, plumas e penas para decoração e diz que no carnaval, a demanda pro produtos aumenta e chega a zerar o estoque. “O carnaval representa aumento de 30% no faturamento. Entre São Paulo e Rio de Janeiro, são 25 toneladas vendidas”, contou.

Outro fornecedor que está participando da feira é Leonardo Leonel, que produz roupas para mestre-sala e porta-bandeira, rainhas e musas das escolas de samba, além de figurino teatro e produções de televisão. Há 12 anos no mercado, a microempresa tem dez funcionários fixos, que chegam a 15 no período do carnaval. Segundo Leonel, os desenhos de figurinos para o carnaval começam a chegar à empresa por volta de junho ou julho do ano anterior.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Em Cartaz: O Samba

Em cartaz apenas hoje em Curitiba, documentário investiga a mais brasileira das manifestações culturais
Divulgação / Martinho da Vila conduz a narrativa do longa franco-suíço
publicado: gazeta do povo - 28-07-2014

A música tem lugar fundamental na produção do documentarista franco-suíço Georges Gachot. O Samba – em cartaz no Espaço Itaú, em Curitiba , às 19 horas, dentro da Mostra Imovison 25 Anos– é seu terceiro filme sobre a música brasileira depois de Maria Bethânia: Música É Perfume (2005) e Rio Sonata (2010), com Nana Caymmi. O documentário mostra o samba sem cair nos lugares-comuns. Com proposta abrangente e tom de reportagem, o gênero musical é apresentado enquanto cultura, linguagem e estilo de vida.

Muito além da sensualidade da dança, observa outros aspectos do fenômeno, dando destaque às letras, à dimensão social, à melancolia.

Gachot faz de Martinho da Vila o condutor da narrativa e esboça, de passagem, um retrato do cantor e compositor. Martinho brilha pela espontaneidade e pelas observações precisas que faz sobre o gênero musical e sua história. Enquanto isso, canta músicas com aquela voz inconfundível, mansa e cheia de meneios.

Intérpretes como Ney Matogrosso, Leci Brandão e Moyseis Marques dão belos depoimentos. Apesar de a escola de samba Vila Isabel ser outro foco da reportagem, o Carnaval não ocupa o centro das atenções. Gachot percebeu que o samba ultrapassa o hedonismo carnavalesco e insistiu em mostrar a escola como um microcosmo, como o lugar em que o samba é parte da identidade das pessoas.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

ARTIGO DISCUTE "O MORRO NÃO TEM VEZ" DE TOM JOBIM

publicado:brasil247.com

A obra O morro não tem vez, de Antonio Carlos Jobim e a sua ampla articulação e interpretação, com forte cunho social, é tema de artigo publicado pelo professor doutor Silvio Augusto Merhy, que aborda a ligação da musica com o meio, o samba e a favela enquanto inspiração, entre outros tópicos, na sua publicação: “Em alguns aspectos o ambiente do Rio expõe o marco da divisão urbana, revelando forte tensão entre grupos humanos. A divisão e a tensão são visíveis na arquitetura - favela/bairro, no comportamento - violência/cortesia, na produção artística - música de concerto/música do morro”, afirma Silvio

Favela 247 – Silvio Augusto Merhy, bacharel em direito e piano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializado em piano pelo Conservatório Tchaikovsky de Moscou, mestre em música e doutorado em história social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atual professor associado III da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), atuando principalmente no ensino de música com os temas harmonia de teclado, transcrição de canções e história da música popular, escreveu e publicou o artigo “Letra, melodia, arranjo: componentes em tensão em O morro não tem vez de Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes” na revista Per Music, da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais.

No artigo, Silvio utiliza a canção O Morro não tem vez, de Antonio Carlos Jobim, para discutir a música além de um objeto de apreciação estética, citando as canções populares, como um meio capaz de pensa-la enquanto algo pertencente a uma rede social: “O registro fonográfico tornou mais fácil pensar uma produção musical como documento, não apenas como objeto de apreciação estética. A gravação de canções populares permite prontamente decompor, recompor, analisar, destacar partes e pensá-las como objeto pertencente a uma rede social de amplitudes quase infinitas. Ocasionalmente, o modo como se combinam letra, melodia e arranjo faz brotar questões sobre a classificação dos gêneros. O arranjo musical, suporte sonoro da canção, pode colocar em tensão a combinação letra e música e até mesmo deslocar o sentido do conjunto. Algumas das gravações de O morro não tem vez de Tom Jobim e Vinícius de Moraes revelam contrastes e tensões que tornam uma questão permanente o que se classificou como Bossa Nova”, argumenta Merhy no resumo da sua publicação.

Merhy, em seu artigo, traz, entre outras discussões, a tese da Cidade Partida, de Zuenir Ventura, a favela enquanto tema e inspiração, o surgimento do samba e a necessidade da música dialogar com o seu ambiente durante a sua caracterização, o que, quando é desconsiderada, a torna incompleta, tudo isso desconstruindo, construindo e analisando a obra de Antonio Carlos Jobim: “A caracterização das práticas musicais, por exemplo, pode se tornar incompleta se, na descrição, o ambiente em que ocorre é desprezado. É necessário que se descrevam os elementos característicos que estruturam o produto artístico considerando-se o seu impacto no mundo social. As funções dos elementos que estruturam a forma artística estão, de algum modo, conectados ao tipo de prática e ao perfil do grupo onde ela ocorre. A análise pode revelar como se dão estas conexões e que tensões elas podem criar”, afirma Silvio.