segunda-feira, 28 de julho de 2014

Com canções de Chiquinha Gonzaga, espetáculo chega a Curitiba

Silvana Marques/Divulgação / O espetáculo tem apresentações nos dias 9 e 10 de agosto, no Teatro Guaíra O espetáculo tem apresentações nos dias 9 e 10 de agosto, no Teatro Guaíra
publicado: gazeta do povo

A comédia musical “Forrobodó - Um Choro na Cidade Nova” tem apresentações nos dias 9 e 10 de agosto, no Teatro Guaíra.
O espetáculo que teve sua última encenação, em 1995, ganhou uma nova montagem em julho deste ano.
Na versão anterior, procurava-se reconstituir o estilo ingênuo e pitoresco de uma época do teatro carioca, agora, o musical está renovado e mais musical.
Do musical participa a atriz Juliana Aves.

Em Cartaz: O Samba

Em cartaz apenas hoje em Curitiba, documentário investiga a mais brasileira das manifestações culturais
Divulgação / Martinho da Vila conduz a narrativa do longa franco-suíço
publicado: gazeta do povo - 28-07-2014

A música tem lugar fundamental na produção do documentarista franco-suíço Georges Gachot. O Samba – em cartaz no Espaço Itaú, em Curitiba , às 19 horas, dentro da Mostra Imovison 25 Anos– é seu terceiro filme sobre a música brasileira depois de Maria Bethânia: Música É Perfume (2005) e Rio Sonata (2010), com Nana Caymmi. O documentário mostra o samba sem cair nos lugares-comuns. Com proposta abrangente e tom de reportagem, o gênero musical é apresentado enquanto cultura, linguagem e estilo de vida.

Muito além da sensualidade da dança, observa outros aspectos do fenômeno, dando destaque às letras, à dimensão social, à melancolia.

Gachot faz de Martinho da Vila o condutor da narrativa e esboça, de passagem, um retrato do cantor e compositor. Martinho brilha pela espontaneidade e pelas observações precisas que faz sobre o gênero musical e sua história. Enquanto isso, canta músicas com aquela voz inconfundível, mansa e cheia de meneios.

Intérpretes como Ney Matogrosso, Leci Brandão e Moyseis Marques dão belos depoimentos. Apesar de a escola de samba Vila Isabel ser outro foco da reportagem, o Carnaval não ocupa o centro das atenções. Gachot percebeu que o samba ultrapassa o hedonismo carnavalesco e insistiu em mostrar a escola como um microcosmo, como o lugar em que o samba é parte da identidade das pessoas.

sábado, 26 de julho de 2014

Jazz lhe abençoe: Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane

Conheça a Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane, um ritual único e cheio de notas
publicado: revista trip
Depois de criar a luz, a terra, os animais e os homens, Deus nos deu o saxofone. Para que John Coltrane trouxesse um evangelho musical e uma família chamada King fundasse uma igreja de San Francisco. A Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane - um ritual único, sincero e cheio de notas para trazer almas para o jazz e para Jesus

“Com trombetas e som de cornetas, exultai perante a face do Senhor, do Rei”
Salmos, 98:6
Um baterista suado rufa e dá com tudo no prato de condução enquanto um pianista acima do peso castiga o teclado em síncope e o saxofonista de longos dreadlocks e exóticas vestes segura um harmônico agudo por 10 s no que, sem muita dúvida, é a melhor jam session de San Francisco. O ar está esfumaçado, uma platéia multirracial estala dedos, grita, bate palmas, e mulheres negras dançam de olhos fechados diante da banda. Descrição perfeita de um mundano bar de jazz – mas Jesus, assim como o diabo, está nos detalhes. 

A fumaça é de incenso, as vestes do saxofonista são de um sacerdote, as dançarinas são senhoras devotas e os gritos, infalivelmente, são de “aleluia”. Fora o fato de que o relógio marca meio-dia em um domingo de sol. Hora da missa semanal na igreja ortodoxa mais freestyle do planeta. A Igreja Ortodoxa Africana de São John Coltrane. Louvado seja Jazz.

O templo em si não tem a descrição de uma típica casa de Deus. Uma sala anexa de centro comunitário, com porta e paredes de vidro escurecidos, carpete barato e fileiras de cadeiras de auditório. O ar sacro da igreja vem das enormes telas penduradas. Um Jesus negro, uma Virgem Maria negra, crianças angelicais, uma árvore e duas imagens de São John Coltrane. Em ambas o santo segura um saxofone que expele fogo sagrado – a visão original que inspirou o bispo King a fundar sua congregação. Prestai atenção.

Há 43 anos o jovem saxofonista Franzo King entrou com sua esposa em um club de San Francisco. Esperavam assistir a uma grande performance, mas, no gargarejo do palco, suas vidas foram transformadas. Sentiram na alma o poder sagrado do sax tenor de John Coltrane. Franzo viu os olhos do jazzman varados de luz em um rosto que parecia esculpido na pedra. Era alguém não humano mas divino. E de seu sax um evangelho sem palavras tomava o ar, e o som tão forte, místico e atraente quanto o fogo. Uma aparição. 

Entendo o surto de Franzo... John William Coltrane vinha em uma bem-sucedida busca espiritual. Tinha 38 anos, e havia anos longe da birita e da heroína dos anos 50. Livre como seu som, tocou no islã, na cabala, na meditação, na astrologia, no hinduísmo, no cristianismo. John domou sua alma, sua técnica, e produziu o jazz mais poderoso já ouvido. O show a que o casal King assistiu foi em 1965, Coltrane acabara de gravar um disco. O LP da gravadora Impulse era uma oração em gratidão a seu despertar espiritual. Reconhecendo qual o tipo de amor Deus tem por nós: supremo. A Love Supreme, o título do álbum.

Marina e Franzo já eram parte de um rebanho cristão, de fé pentecostal. Mas agora o caso é outro. Os King sabiam que aquele não era um mero músico virtuoso, mas Deus em pessoa. Eles buscaram na obra do saxofonista seus pensamentos e palavras. Pulverizaram o nome do meio de Coltrane. William virou Will-I-Am, uma afirmação do caráter divino de John. A hipérbole era literal... tanto que, assim que levantou algum dinheiro, o casal fez o que qualquer arrebatado faria: foi pregar. 

Em 1971, quatro anos depois da morte de Coltrane, Franzo e sua companheira, Marina King, deram o primeiro serviço no One Mind Temple Evolucionary Transitional Body of Christ. O nome mezzo cristão mezzo hippie era bem adequado àquele começo de década, mas a doutrina só seria consolidada em 1982. Quando a One Mind... começou era mais uma jam forte, aberta e salpicada das falas do reverendo King exaltando Coltrane e seu som como a própria Verdade, como Deus que pisou na Terra. Foi um arcebispo de Chicago, de passagem por San Francisco, que tirou a peculiar seita do underground da fé.

Sax Appeal 
Seu nome era Alexander McGuire, criador da Igreja Ortodoxa Africana, tradicional congregação cristã negra, fundada em 1921 para protestar contra a discriminação racial sofrida nas comunidades pentecostais de Chicago. Quando visitou a missa de Franzo King, McGuire deu sua bênção. Promoveu nosso reverendo a bispo e rebaixou Coltrane da condição de Deus à de santo. King adotou a batina e a liturgia mais formal de McGuire. A One Mind... se tornou a divisão do oeste da Igreja Ortodoxa Africana. E orgulhosamente tomou São John Coltrane como padroeiro.

Qual o milagre de Coltrane, bispo? “A sua ascensão”, responde, “em unir-se com Deus em si através do poder de sua música. Acreditamos que, quando ele se livrou do vício das drogas, sua revelação e seu despertar espiritual se tornaram um evangelho em A Love Supreme. Quem tem o coração aberto reconhece o caratér sagrado daquela mensagem”. Se o leitor não é catequizado em jazz moderno, A Love Supreme é considerado a obra-prima de Coltrane, um álbum intencionalmente construído como uma prece, uma busca pela perfeição e pela pureza espiritual traduzida em quatro partes. As mesmas composições que, todo domingo, a banda de reverendos executa e improvisa em cima. O mesmo disco que Waneka King, filha do bispo e ela mesma reverenda, transmite semanalmente pela KPOO, a única rádio de propriedade afro-americana da Califórnia. Um programa de quatro horas dedicado à música de São Coltrane e à palavra de Deus.

OS KING SABIAM QUE AQUELE NÃO ERA UM MERO MÚSICO VIRTUOSO, MAS DEUS EM PESSOA

Waneka é a “gerente” da igreja, cuida dos contatos, da comunidade durante a semana e é a espetacular baixista da banda. Ela quem sorri antes de responder, cheia de dedos, se acha que o papa reconheceria um dia São John Will-I-Am Coltrane como um santo pra valer. “Nem todos aceitam fácil essa idéia, eu sei. Mas nós sabemos que nosso padroeiro foi um homem conectado com Deus através da música. Eu gostaria de saber o que João Paulo II teria a dizer sobre isso, mas Bento 16 já seria incrível se canonizasse Madre Teresa.”

Pela qualidade do jazz e pela peculiaridade da igreja, é espantoso que o quorum não seja maior. De 15 a 20 pessoas comparecem a cada serviço. Mas o rebanho do jazz é fiel. Um casal branco de Nova York bate cartão, e os pés, diga-se, participando dos serviços, sapateando profissionalmente em um tablado de madeira do lado da banda. Senhores na casa dos 60, na estica de paletó, colete e chapéu, soltam seus aleluias quando um solo chega ao auge. E a família estendida do bispo King faz mais do que volume – é o coração da igreja, cantando passagens bíblicas em complexas melodias afrojazzísticas, batendo pandeiros e, eventual­mente, passando a sacolinha. Nada de couvert artístico, o dinheiro serve para manter a igreja em ordem e para caridade na vizinhança.

Duas horas e meia depois do primeiro tema é a hora da palavra. Franzo King, suado de tocar saxofone e bateria ao longo da missa, vai ao púlpito improvisar sua pregação. A data é especial, deveras, o primeiro domingo pós-eleição presidencial. E bispo King, logo após uma prece, sai solando verbalmente.

Os Estados Unidos da Babilônia
Como sua igreja, King tem um pé no mundano que atrai também o descrente. Seu estilo é uma mistura de MC com pregador, uma marra arrastada e meio irônica que me fez pensar que ele criou algo como o “Pimp my Church”. Toda sua fala foi sobre o presidente eleito: “Quero falar sobre o Obama...”. “Aleluia!”, “Oh, yes!”, “Thank yoooou, Lord!”, gritam os fiéis. O bispo está feliz, evidente. Mas não muito interessado na esperança política, na “change” do slogan ou na queda do muro racial da América. O bispo quer saber é o que Deus pretende com o Barack no poder. “Muita gente está comemorando cedo demais, amém?” “Aleluia!”, respondem. Bispo segue: “A América está achando que estamos redimidos. Que o reino dos céus é nosso. Mas aqui, meus irmãos, é a Baaaaabilônia!”. “Tá certo!”, alguém grita. “Falou e disseeeee”, canta outro. King sorri: “Como o irmão Bob Marley disse, a Babilônia vai queimar!”. Não que nosso bispo queira o mal da América, não senhor, mas ele ainda vê o saldo vermelho na consciência americana. Vai King: “Coorporações não tem país, não tem bandeira. Eles estão na cadeira da presidência há muito tempo. E vocês acham que eles vão deixar Obama governar se ele não tiver algum tipo de poder divino agindo para ajudar?”. Palmas e chocalhos explodem. “O país está com a espada sobre a cabeça. Qual é a mudança, qual é a esperança? A minha é que Deus vire a mesa dessa nação. Que acabe com a loucura desse país! Não acham que tem maluco demais por aqui?”, diz em tom jocoso o bispo saxofonista.

Ele fala sobre arrependimento, fala sobre a crise que vai assolar o mundo nos próximos anos. E de como Jesus, quando voltar, “vai estar bravo. Ah, vai estar beeeeem bravo, aleluia!”. Um saxofonista sopra um fraseado. “Tem muito arrependimento para ser feito nesse país, e eu quero ver como Deus vai usar esse rapaz Obama. Eu quero ver se Obama está pronto para o plano de Deus.” Silêncio na paróquia após a estranha desconfiança do bispo. 

Ele percebe, para logo os consolar. “Mas vocês sabem, meus irmãos, que uma pessoa é tão boa quanto a música que escuta...”, King pausa como um bom saxofonista antes de fechar seu solo, “e eu sei, e tenho minhas fontes, que Obama escuta São John Coltraaaaane!”. “Aaaaaaleluia!”, delira a congregação e o presente repórter, enquanto o baterista de batina ataca o prato de condução, Waneka dedilha o baixo, o bispo pousa a Bíblia no púlpito. De cocuruto vermelho, espanca um pandeiro velho e mother Marina King canta um gospel de beleza violenta. Arcebispo Franzo Wayne King apanha o sax tenor. Fecha o olho, dá um berro e exulta a Palavra pela boca de um saxofone, na face do Senhor. E na de São John Will-I-Am Coltrane.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Pegava livros no lixo: ex-catador de Brasília conta como virou médico

Cícero Batista venceu a pobreza e se formou em medicina
O dia seis de junho de 2014 é uma data muito importante para Cícero Pereira Batista, 33. É data da sua formatura, quando ele fez o "Juramento de Hipócrates" e jurou fidelidade à medicina. O diploma na tão sonhada carreira foi um investimento de quase oito anos da vida do ex-catador.

Natural de Taguatinga, cidade satélite a 22,8 km de Brasília, Cícero nasceu em família pobre e precisou de muita perseverança para alcançar a formação em uma das carreiras mais concorridas nos vestibulares. Ele só começou a fazer a graduação aos 26 anos.

"Minha família era muito pobre. Já passei fome e pegava comida e livros do lixo. Para ganhar algum dinheiro eu vigiava carro, vendia latinha. Foi tudo muito difícil pra mim, mas chegar até aqui é uma sensação incrível de alívio. Eu conseguir superar todas as minhas dificuldades. A sensação é de que posso tudo! A educação mudou minha vida, me tirou da miséria extrema", conta Cícero.

Arquivo pessoal Não há desculpa para não seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoa Cícero Pereira Batista, 33, ex-catador que virou médico
O histórico familiar de Cícero é complicado: órfão de pai desde os três anos e com mãe alcoólatra, o médico tinha dez irmãos. Dois dos irmãos foram assassinados.

Quando tinha 5 anos, o menino pegava o que podia ser útil no lixo. Inclusive livros, apesar de não saber ler. Com o tempo, conta o ex-catador, eles foram servindo de inspiração. Ficava mais feliz quando encontrava títulos de biologia, ciências. Certa vez encontrou alguns volumes da Enciclopédia Barsa e "descobriu Pedro Álvares Cabral, a literatura, a geografia".

Cícero é o único da família que concluiu o ensino médio e a graduação. Para ele, a educação era a única saída: "Diante da minha situação social eu não tinha escolha. Era estudar ou estudar para conseguir sair da miséria extrema". Ele terminou o ensino fundamental na escola pública em 1997 -- na época as séries iam do 1º ao 8º ano. Entre 1998 e 2001, fez o ensino médio integrado com curso técnico em enfermagem.
Ajuda dos professores e colegas

"Quando eu fazia o ensino médio técnico eu morava em Taguatinga e estudava na Ceilândia. Não tinha dinheiro para o transporte e nem para a comida. Andava uns 20 km, 30 km a pé. Muitas vezes eu desmaiava de fome na sala de aula", explica.

Ao perceber as dificuldades do rapaz, professores e colegas começaram a organizar doações para Cícero de dinheiro, vale-transporte e mesmo comida. "Eu era orgulhoso e nem sempre queria aceitar, mas, devido à situação, não tinha jeito. Eu tinha muita vergonha, mas nunca deixei de estudar", conta.

Na época da faculdade, Cícero também recebeu abrigo de um amigo quando passou em medicina numa instituição particular em 2006 em Araguari (MG), a 391 km de Brasília. "Frequentava as aulas durante a semana em Minas e aos finais de semana vinha para Brasília para trabalhar. Era bem corrido", diz. Ele conseguiu segurar as contas por um ano e meio. "Eu ganhava cerca de RS 1.300 e pagava RS 1.400 [de mensalidade]. Até cheguei a pedir o Fies [Fundo de Financiamento Estudantil] por seis meses, mas no fim as contas foram apertando ainda mais e parei".

Arquivo pessoalA educação mudou minha vida, me tirou da miséria extremaCícero Pereira Batista, 33, ex-catador que se formou em medicina

Ao voltar para Brasília decidiu fazer Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para conseguir uma bolsa do Prouni (Programa Universidade para Todos). Estudou por conta própria, fez a prova no final de 2007 e conseguiu uma bolsa integral em uma universidade particular de Paracatu (MG), a 237,7 km de Brasília. Foram mais seis meses -- e Cicero voltou a Brasília mais uma vez.

No ano seguinte, fez o Enem mais uma vez. Ele queria estudar mais perto de casa por causa do trabalho -- ele era técnico de enfermagem concursado -- e da família. Com sua nova nota do Enem, ele conseguiu uma vaga com bolsa integral na Faciplac (Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central), na unidade localizada na cidade satélite Gama, 34,6 km de Brasília.

"Tive que começar tudo zero novamente. Tive vontade de desistir na época. Poxa, já tinha feito um total de dois anos do curso de medicina, mas não consegui reaproveitar nenhuma matéria. Mas no fim deu certo", conta o médico que enfrentou os anos da faculdade também com a ajuda dos livros do projeto Açougue Cultural, uma iniciativa que empresta livros gratuitamente nas paradas de ônibus de Brasília.

Atualmente, Cícero é diretor clínico de um hospital municipal e trabalha em outros dois. O momento para ele agora é o de "capitalizar" [ganhar dinheiro] para melhorar de vida e ajudar a família. Cursar um doutorado fora do Brasil também está entre seus planos.

"Não há desculpa para não seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoa", conclui.

Novo colonialismo na África: Europeus, americanos e chineses se apoderam das riquezas africanas

Por: Jornal La Tribune - Argélia

Na República Centro-Africana, enquanto a mídia se concentra nos riscos de um conflito religioso atualmente em curso entre muçulmanos e cristãos que se massacram a tiros e machadadas, está em curso uma dilapidação das riquezas do país. E tudo acontece longe dos olhares curiosos dos jornalistas e da maioria dos especialistas em assuntos africanos.
Para o comum dos mortais, a República Centro-Africana é apenas uma vasta área florestal, com uma população muito pobre. Ignora-se, como acontece em geral quando se trata de países africanos, a existência de grandes riquezas naturais. Este país de seis milhões de habitantes transborda de petróleo, diamantes e outros recursos naturais. Tesouros que suscitam a cobiça dos países desenvolvidos.

Soldados franceses estacionados na República Centro Africana participam de cerimônia militar em Bangui
A França, que se recusou a intervir no país quando o presidente deposto, François Bozizé, lhe pediu (em dezembro de 2012), acabou por enviar soldados (em dezembro de 2013), quando a crise em Bangui (a capital) assumiu contornos de guerra religiosa entre a minoria muçulmana, que assumiu o poder pela primeira vez em março de 2013, e a maioria cristã, que clama ter sido alvo de genocídio por parte dos rebeldes da Séléka (coligação entre partidos políticos e forças rebeldes).
Oficialmente, o presidente francês, François Hollande, alegou razões humanitárias para justificar o envio de 1600 soldados para Bangui, onde vive grande número de cidadãos franceses.

Garoto centro africano se refugia dentro de carro incendiado em conflito na capital Bangui
Quem chega primeiro às riquezas?
Essa intervenção foi vista por alguns como um ato de neocolonialismo por parte da França, tal como as também recentes intervenções no Mali e na Líbia. Outros consideraram que a ação era necessária, para evitar novo genocídio em solo africano, como o de Ruanda, há 20 anos.

A presença francesa na antiga colônia foi saudada por alguns centro-africanos que consideraram que os soldados franceses em Bangui iriam dar um apoio significativo à missão africana de manutenção da paz no país. Desde a independência, em 1960, ele já passou por seis golpes de Estado.

O caráter supostamente filantrópico da intervenção francesa esconde, no entanto, objetivos econômicos e geoestratégicos. Objetivos traçados, no entanto, longe do conceito neocolonialista avançado por alguns analistas obcecados pela ideologia, numa época em que nada se sobrepõe ao poder do dinheiro e à guerra já pouco disfarçada pelo controle das riquezas do planeta.

Soldado francês ordena ao homem que largue sua arma improvisada.
 que está em questão em Bangui não é salvar os centro-africanos de um genocídio étnico-religioso, à semelhança do que também nos tentam fazer crer no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo, no Darfur e em outros países africanos. O que está em causa é saber quem vai chegar primeiro às riquezas do subsolo desses países.
A súbita decisão por parte de Paris de enviar tropas à República Centro-Africana visa, efetivamente, obstruir a presença chinesa, que começou a se reforçar na era de Bozizé (no poder entre março de 2003 e março de 2013).
É isso que justifica a recusa do governo francês em dar suporte a Bosizé no momento em que ele estava prestes a ser derrubado por uma coligação supostamente heterogênea, a Séléka. Paris, que sempre apoiara Bozizé, abandonou-o devido ao namoro cada vez mais assumido desse líder africano com o gigante chinês. A China injetou milhões de dólares na República Centro-Africana para garantir sua presença cada vez maior nos negócios de Bangui.


Familiares de mortos durante conflitos religiosos na periferia de Bangui lamentam suas perdas
Interesses franceses na África
A estratégia chinesa na República Centro-Africana já deu bons frutos, bem como em vários outros países africanos nos quais Pequim conseguiu abocanhar uma boa fatia da exploração dos recursos naturais em troca de uma assistência ao desenvolvimento local. Essa assistência aconteceu sobretudo na construção de estradas em regiões remotas e na edificação de escolas e na implementação de outros serviços públicos.
“A França tem interesses na República Centro-Africana. Atualmente, controla a economia do país e de tudo o que se passa nele. A holding francesa Bolloré controla completamente a logística e o transporte fluvial do país. O grupo Castel impera no mercado de bebidas e do açúcar. A multinacional CFAO domina o comércio de veículos. A France Telecom entrou na dança em 2007. O gigante nuclear Areva está presente no país, embora oficialmente ainda esteja em fase de prospeção. A petrolífera Total tem reforçado a hegemonia no controle das reservas e na comercialização de petróleo, mas tem de negociar com a camaronesa Tradex, especializada no comércio de produtos petrolíferos”, afirmam analistas africanos, entre eles a agência de notícias Bêafrika Sango, órgão de informação independente sediado em Bangui.

Mais de cem mil pessoas obrigadas a abandonar suas casas pelos terroristas acamparam ao redor do aeroporto de Bangui, capital da República Centro Africana
O ímpeto da atitude francesa, bem como o envolvimento do presidente dos EUA, Barack Obama, nos acontecimentos de Bangui, são indícios dos grandes interesses econômicos e geo-estratégicos que estão em jogo neste momento na República Centro-Africana.
No início de dezembro, Washington forneceu apoio logístico e financeiro à França e à União Africana, para que a intervenção militar acontecesse; a 10 de janeiro, o então presidente centro-africano, Michel Djotodia, e o primeiro-ministro renunciaram aos cargos, por pressão da França e do Chade.

Um homem passa informações a soldado francês sobre o paradeiro e os esconderijos de membros das organizações terroristas

Essa mesma política desencadeada por potências europeias e os Estados Unidos não se desenrolam apenas na República Centro-Africana: os vizinhos Sudão do Sul e a República Democrática do Congo passam por crises semelhantes que abalam a estabilidade política e minam a segurança, devido a essa luta renhida pelo controle dos recursos naturais africanos.
Nos três países há importantes grupos rebeldes apoiados por países estrangeiros que tanto lhes fornecem ajuda humanitária como militar e financeira. A atual guerra civil, que na aparência é um conflito entre cristãos e muçulmanos, pode durar muito tempo, mantendo a instabilidade em toda a sub-região da África Equatorial.

TRABALHO E VIOLÊNCIA TIRAM ALUNOS NEGROS DA ESCOLA

Foto: Antonio Cruz:
publicado: Brasil247
Adolescência é a fase de maior evasão. Entre os jovens de 15 a 17 anos, 40% afirma ter parado de estudar por considerarem a escola desinteressante. Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente alerta que é preciso cobrar a inclusão da história e cultura negra no conteúdo da sala de aula

Favela 247 – A maioria dos mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos que não frequenta a escola é do sexo masculino, negro e pobre. “A pobreza influencia muito as taxas de evasão, e a população negra e indígena são os grupos mais vilipendiados”, afirma a presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Miriam Maria José dos Santos, em matéria publicada pelo site do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert). Uma das principais causas do abandono escolar entre os 6 e os 14 anos é o trabalho infantil. E dados do relatório “Crianças Fora da Escola 2012”, do Unicef, apontam que, dos mais de um milhão de crianças e adolescentes trabalhando nessa faixa etária, 64,78% são negras. A violência também ajuda a sustentar as desigualdades raciais na educação. Levantamento de 2013 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação aos brancos.

A adolescência é a fase com a maior taxa de evasão escolar. Ouvidos pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), 40% dos jovens entre 15 e 17 anos deixam de estudar por considerarem a escola desinteressante. “Essa escola não atrativa ao estudante em termos de conteúdo, de recreação e de profissionais que não dialogam com a realidade precisa mudar”, considera a presidente da Conanda. Ela reforça aos pais e à sociedade que cobrem a utilização do conteúdo da Lei de Diretrizes e Bases alterada pela Lei 10639/03, que versa sobre a inclusão da história e cultura negra na sala de aula.

Por Juliana Gonçalves, do Ceert

O que afasta as crianças e adolescentes negros da escola?

Além das vulnerabilidades sociais, a discriminação racial e falta de diálogo com o repertório da cultura negra colaboram para a evasão escolar

Do sexo masculino, jovem, negro e pobre. Esse é o perfil típico de um adolescente fora da escola. Pesquisas demonstram que uma das principais barreiras socioculturais enfrentadas por meninas e meninos brasileiros é a discriminação racial. Ao contabilizar todas as idades, fica nítida a desvantagem dos negros em relação à população branca no acesso, mas, principalmente, na permanência na escola.

Ao todo, estima-se que há mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos que não frequentam a sala de aula, segundo informações obtidas nos microdados do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do Unicef (1).

Números como esse, colocam o Brasil no triste pódio da terceira maior taxa (24,3%) de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH. De acordo com dados coletados no ano passado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), 1 a cada 4 alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil abandona a escola antes de completar a última série.

Não é de se estranhar que neste quadro de evasão os mais excluídos da escola são aqueles historicamente excluídos de toda a sociedade. “A pobreza influencia muito as taxas de evasão, e a população negra e indígena são os grupos mais vilipendiados”, afirma Miriam Maria José dos Santos, Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – Conanda. Miriam enxerga que há avanços neste quadro conquistados graças aos Programas de Governos que estão ajudando a romper o ciclo da pobreza, porém, a melhora dos últimos dez anos nem de longe interferiu drasticamente na realidade pautada em anos de omissão.

Em vistas de colaborar positivamente neste quadro, dia 17 de julho, o CEERT em parceria com a Petrobrás lançará projeto que visa contribuir para que o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e demais legislação sejam utilizados na promoção da igualdade racial e no enfrentamento do racismo na infância, especialmente no ambiente escolar, fortalecendo a atuação dos conselheiros tutelares e demais profissionais do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes.

Trabalho infantil e violência

Dados do relatório “Crianças Fora da Escola 2012”, também da Unicef, apontam que mais de um milhão de crianças e adolescentes, entre 6 e 14 anos, encontram-se trabalhando no Brasil, dessas 34,60% são brancas e 64,78% negras. Nesse período de vida, o trabalho infantil é uma das principais causas do abandono escolar.

As meninas negras ainda hoje são conduzidas a repetir um padrão que tem base no sistema escravocrata do passado. Cedo, começam a trabalhar como faxineiras nas casas de terceiros. De acordo com dados de 2013, divulgados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 93% das crianças e dos adolescentes envolvidos em trabalho doméstico no Brasil são meninas negras.

Além do trabalho infantil, a violência é outro pilar que sustenta as desigualdades raciais na educação. Apontamentos do IPEA de 2013 dão conta de que a chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação aos brancos(2).

O perigo de uma escola não atrativa

A maior taxa de evasão escolar está na adolescência e, apesar da pobreza e violência criarem cenários propícios para o abandono, nenhum desses aspectos foi apontado pelos próprios estudantes como o principal causador. Entre os 15 e 17 anos, 40% dos estudantes deixam de estudar por considerarem a escola desinteressante. Em segundo lugar, figura o trabalho precoce, com 27% (3).

Outros apontamentos contidos no estudo da Unicef, com base em questionários respondidos pelos dirigentes municipais de educação de todo o Brasil, revelam que nesta mesma faixa etária, 653,1 mil adolescentes brancos não estudavam, ante 1 milhão de negros.

O índice alto de evasão desse público pode ser explicado parcialmente por um sistema educativo que não contempla a cultura e a identidade dos estudantes negros. “Essa escola não atrativa ao estudante em termos de conteúdo, de recreação e de profissionais que não dialogam com a realidade precisa mudar”, considera a presidente da Conanda, ao destacar, por exemplo, a necessidade de pais, alunos e sociedade cobrar o trabalho do conteúdo da LDB alterada pela Lei 10639/03 que versa sobre a inclusão da história e cultura negra dentro da sala de aula.

Conselheiros Tutelares devem estar atentos ao recorte étnico-racial

O ECA deixa nítido que a escola tem a responsabilidade de reter o aluno porque dispõe de ferramentas para localizá-lo e trazê- lo de volta. “Para isso gestores e professores precisam realizar uma vigilância positiva, manter dialogo constante com a família e não esperar a evasão para agir”, conta Miriam. A escola já é obrigada a acionar o Conselho Tutelar em caso de faltas constantes e injustificadas. “A sociedade pode ajudar por meio do Disque 100, denunciando anonimamente crianças e jovens que não estão frequentando a escola”, sugere.

Com relação ao recorte étnico-racial, Miriam afirma que a maioria dos conselheiros tutelares não está encaminhando demandas para os conselhos de direitos da Secretaria de Educação que demostrem falhas nas políticas públicas direcionadas a negros e indígenas, ou seja, muitos não estão atentos ao recorte étnico-racial presentes nos dados de evasão.

“Quando os dados exemplificam que há exclusão de um público especifico do ambiente escolar, isso significa que a escola não está dialogando com esse público e o conselheiro tutelar deve levar essa percepção à Secretaria de Educação”, declara. Infelizmente, os conselhos tutelares não estão cumprindo esse papel ou por falta de formações que orientem neste sentido ou pela infraestrutura precária de trabalho que enfrentam.

Referências

(1) "O enfrentamento da Exclusão Escolar no Brasil", estudo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

(2) Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) “Participação, Democracia e Racismo?”de 2013.

(3) Pesquisa “Motivos da Evasão Escolar” - desenvolvida com base nos Suplementos da PNAD 2009.

BENEDITA HOMENAGEIA MANDELA E CRITICA RACISMO

FOTO: George Hallet/Divulgação: "A atualidade de Mandela para nós se deve principalmente quanto à necessidade de continuarmos a lutar contra o racismo e a violência contra as populações negras. As leis que já existem não são devidamente aplicadas e por isso as denúncias e a fiscalização pública são fundamentais"

Por *Benedita da Silva, para o Favela 247

Mandela - Mandiba
18 de Julho, data do nascimento de Mandela, foi instituído pela ONU como o Dia Internacional de Nelson Mandela, para homenagear a luta pela igualdade, liberdade e democracia. Quando um nome simboliza tantos valores fundamentais para a humanidade, é porque foi construído com o exemplo de sua vida e de sua luta. Como muitos que defendem a democracia e a igualdade racial, lutei pela libertação de Mandela da prisão perpétua que lhe impôs o cruel regime racista do Apartheid. A sua vida orgulha e inspira todos nós. Mandela é mostrado sob vários ângulos, pois assim foi a sua luta, mas prefiro vê-lo como o lutador incansável, como ele mesmo se definiu: “A luta é a minha vida. Continuarei a lutar pela liberdade até o fim de meus dias."

Quando foi solto em 1990, depois de uma campanha internacional de solidariedade, Mandela teve que enfrentar a violência genocida dos racistas sul-africanos com medo de sua grande liderança. Milhares de homens, mulheres e crianças negras eram massacrados por grupos armados. Ele não se deixou intimidar e, pressionando com a mobilização popular, buscou o caminho do diálogo político para por fim à absurda segregação racial. Conquistou a revogação das leis racistas do apartheid e as eleições livres e diretas em 1994, quando foi eleito presidente da África do Sul. Nessa condição de líder negro, tomou a iniciativa de dialogar com a minoria branca em busca da tolerância mútua e do consenso democrático. Mandela conseguiu superar a divisão racial e construir uma grande nação democrática. O filme Invictus revela muito da habilidade e firmeza com que Mandela mediava os conflitos. Sua vida é, sem dúvida, uma fonte inesgotável de ensinamento sobre luta, tolerância e consenso.

O mais importante na celebração da data simbólica do 18 de Julho é entender o que ela tem a ver com o nosso país. O Brasil tem a maior população negra fora da África. Aqui o negro foi trazido como escravo mas nunca deixou de lutar por sua libertação, cujo maior exemplo é o de Zumbi dos Palmares. O fim da escravidão, porém, se lhe deu a liberdade formal lhe impôs a condição de socialmente excluído. Ele recebe os piores salários e tem as mais precárias condições de vida. Sobre as populações negras se abate uma violência institucional permanente. Em nosso país o Apartheid racial assumiu a forma da chamada Cidade Partida, que nas grandes cidades exclui socialmente as populações pobres e negras. Os avanços obtidos nos tempos mais recentes são reais mas apenas deixam claro o longo caminho que ainda temos que percorrer no campo da igualdade racial e dos direitos sociais. Apenas um exemplo para ilustrar a violência contra o negro. O Mapa da Violência de 2012, elaborado pelo Ministério da Saúde, mostra que “se no ano 2002 a vitimização negra foi de 65,4%, no ano de 2006 cresceu para 90,8% e, no ano de 2010 foi ainda maior: 132,3%. Isto é, por cada branco vítima de homicídio proporcionalmente morreram 2,3 negros pelo mesmo motivo.”

A atualidade de Mandela para nós se deve principalmente quanto à necessidade de continuarmos a lutar contra o racismo e a violência contra as populações negras. As leis que já existem não são devidamente aplicadas e por isso as denúncias e a fiscalização pública são fundamentais. O legado de Mandela, contudo, é também o da tolerância e da democracia, o da disputa acirrada mas sem ódio e violência.

*Benedita da Silva é deputada federal (PT-RJ)