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sexta-feira, 25 de julho de 2014

TRABALHO E VIOLÊNCIA TIRAM ALUNOS NEGROS DA ESCOLA

Foto: Antonio Cruz:
publicado: Brasil247
Adolescência é a fase de maior evasão. Entre os jovens de 15 a 17 anos, 40% afirma ter parado de estudar por considerarem a escola desinteressante. Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente alerta que é preciso cobrar a inclusão da história e cultura negra no conteúdo da sala de aula

Favela 247 – A maioria dos mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos que não frequenta a escola é do sexo masculino, negro e pobre. “A pobreza influencia muito as taxas de evasão, e a população negra e indígena são os grupos mais vilipendiados”, afirma a presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Miriam Maria José dos Santos, em matéria publicada pelo site do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert). Uma das principais causas do abandono escolar entre os 6 e os 14 anos é o trabalho infantil. E dados do relatório “Crianças Fora da Escola 2012”, do Unicef, apontam que, dos mais de um milhão de crianças e adolescentes trabalhando nessa faixa etária, 64,78% são negras. A violência também ajuda a sustentar as desigualdades raciais na educação. Levantamento de 2013 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação aos brancos.

A adolescência é a fase com a maior taxa de evasão escolar. Ouvidos pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), 40% dos jovens entre 15 e 17 anos deixam de estudar por considerarem a escola desinteressante. “Essa escola não atrativa ao estudante em termos de conteúdo, de recreação e de profissionais que não dialogam com a realidade precisa mudar”, considera a presidente da Conanda. Ela reforça aos pais e à sociedade que cobrem a utilização do conteúdo da Lei de Diretrizes e Bases alterada pela Lei 10639/03, que versa sobre a inclusão da história e cultura negra na sala de aula.

Por Juliana Gonçalves, do Ceert

O que afasta as crianças e adolescentes negros da escola?

Além das vulnerabilidades sociais, a discriminação racial e falta de diálogo com o repertório da cultura negra colaboram para a evasão escolar

Do sexo masculino, jovem, negro e pobre. Esse é o perfil típico de um adolescente fora da escola. Pesquisas demonstram que uma das principais barreiras socioculturais enfrentadas por meninas e meninos brasileiros é a discriminação racial. Ao contabilizar todas as idades, fica nítida a desvantagem dos negros em relação à população branca no acesso, mas, principalmente, na permanência na escola.

Ao todo, estima-se que há mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos que não frequentam a sala de aula, segundo informações obtidas nos microdados do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do Unicef (1).

Números como esse, colocam o Brasil no triste pódio da terceira maior taxa (24,3%) de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH. De acordo com dados coletados no ano passado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), 1 a cada 4 alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil abandona a escola antes de completar a última série.

Não é de se estranhar que neste quadro de evasão os mais excluídos da escola são aqueles historicamente excluídos de toda a sociedade. “A pobreza influencia muito as taxas de evasão, e a população negra e indígena são os grupos mais vilipendiados”, afirma Miriam Maria José dos Santos, Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – Conanda. Miriam enxerga que há avanços neste quadro conquistados graças aos Programas de Governos que estão ajudando a romper o ciclo da pobreza, porém, a melhora dos últimos dez anos nem de longe interferiu drasticamente na realidade pautada em anos de omissão.

Em vistas de colaborar positivamente neste quadro, dia 17 de julho, o CEERT em parceria com a Petrobrás lançará projeto que visa contribuir para que o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e demais legislação sejam utilizados na promoção da igualdade racial e no enfrentamento do racismo na infância, especialmente no ambiente escolar, fortalecendo a atuação dos conselheiros tutelares e demais profissionais do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes.

Trabalho infantil e violência

Dados do relatório “Crianças Fora da Escola 2012”, também da Unicef, apontam que mais de um milhão de crianças e adolescentes, entre 6 e 14 anos, encontram-se trabalhando no Brasil, dessas 34,60% são brancas e 64,78% negras. Nesse período de vida, o trabalho infantil é uma das principais causas do abandono escolar.

As meninas negras ainda hoje são conduzidas a repetir um padrão que tem base no sistema escravocrata do passado. Cedo, começam a trabalhar como faxineiras nas casas de terceiros. De acordo com dados de 2013, divulgados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 93% das crianças e dos adolescentes envolvidos em trabalho doméstico no Brasil são meninas negras.

Além do trabalho infantil, a violência é outro pilar que sustenta as desigualdades raciais na educação. Apontamentos do IPEA de 2013 dão conta de que a chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação aos brancos(2).

O perigo de uma escola não atrativa

A maior taxa de evasão escolar está na adolescência e, apesar da pobreza e violência criarem cenários propícios para o abandono, nenhum desses aspectos foi apontado pelos próprios estudantes como o principal causador. Entre os 15 e 17 anos, 40% dos estudantes deixam de estudar por considerarem a escola desinteressante. Em segundo lugar, figura o trabalho precoce, com 27% (3).

Outros apontamentos contidos no estudo da Unicef, com base em questionários respondidos pelos dirigentes municipais de educação de todo o Brasil, revelam que nesta mesma faixa etária, 653,1 mil adolescentes brancos não estudavam, ante 1 milhão de negros.

O índice alto de evasão desse público pode ser explicado parcialmente por um sistema educativo que não contempla a cultura e a identidade dos estudantes negros. “Essa escola não atrativa ao estudante em termos de conteúdo, de recreação e de profissionais que não dialogam com a realidade precisa mudar”, considera a presidente da Conanda, ao destacar, por exemplo, a necessidade de pais, alunos e sociedade cobrar o trabalho do conteúdo da LDB alterada pela Lei 10639/03 que versa sobre a inclusão da história e cultura negra dentro da sala de aula.

Conselheiros Tutelares devem estar atentos ao recorte étnico-racial

O ECA deixa nítido que a escola tem a responsabilidade de reter o aluno porque dispõe de ferramentas para localizá-lo e trazê- lo de volta. “Para isso gestores e professores precisam realizar uma vigilância positiva, manter dialogo constante com a família e não esperar a evasão para agir”, conta Miriam. A escola já é obrigada a acionar o Conselho Tutelar em caso de faltas constantes e injustificadas. “A sociedade pode ajudar por meio do Disque 100, denunciando anonimamente crianças e jovens que não estão frequentando a escola”, sugere.

Com relação ao recorte étnico-racial, Miriam afirma que a maioria dos conselheiros tutelares não está encaminhando demandas para os conselhos de direitos da Secretaria de Educação que demostrem falhas nas políticas públicas direcionadas a negros e indígenas, ou seja, muitos não estão atentos ao recorte étnico-racial presentes nos dados de evasão.

“Quando os dados exemplificam que há exclusão de um público especifico do ambiente escolar, isso significa que a escola não está dialogando com esse público e o conselheiro tutelar deve levar essa percepção à Secretaria de Educação”, declara. Infelizmente, os conselhos tutelares não estão cumprindo esse papel ou por falta de formações que orientem neste sentido ou pela infraestrutura precária de trabalho que enfrentam.

Referências

(1) "O enfrentamento da Exclusão Escolar no Brasil", estudo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

(2) Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) “Participação, Democracia e Racismo?”de 2013.

(3) Pesquisa “Motivos da Evasão Escolar” - desenvolvida com base nos Suplementos da PNAD 2009.

Inovações na educação 'servem de estímulo a professor', diz OCDE

Escola na Coreia do Sul (AFP/ Arquivo)Dinamarca, Indonesia, Coreia do Sul (foto) e Holanda inovaram mais na sala de aula
publicado:bbc Brasil

Inovações - de filosofia, estilo e até de recursos tecnológicos - nas escolas podem ter
 impacto positivo na valorização de professores e, em alguns casos, 
nas notas dos alunos em algumas disciplinas.
É o que sugere um estudo-piloto divulgado pela OCDE (Organização para a Cooperação e 
Desenvolvimento Econômico), o relatório Mensurando Inovação na Educação.
os especialistas da OCDE, ainda que não haja uma relação facilmente comprovável entre
 inovação e melhorias na educação, "em geral, países com maiores níveis de inovação veem 
aumento em alguns resultados educacionais, incluindo melhor performance em matemática na
 oitava série (13 e 14 anos), resultados de aprendizado mais igualitários e professores mais 
satisfeitos".A análise se debruçou sobre 28 sistemas educacionais
(entre países, estados americanos e territórios canadenses, 
Brasil não incluído) no mundo. As conclusões podem ser lidas no link http://bbc.in/1yPdvTw.
Entre as inovações analisadas estão materiais didáticos, recursos educacionais, 
estilo de ensino, aplicação de conhecimento na vida real, interpretação de dados e textos, 
disponibilidade de computadores e sistemas de e-learning nas aulas, novas formas de 
organizar atividades curriculares e uso de tecnologia na comunicação com pais e 
alunos, entre outros.
Porém, os investimentos em tecnologia e inovação não são unanimidade entre estudiosos 
de educação, já que nem sempre esses investimentos se traduzem em melhor desempenho
 ou em benefícios mensuráveis - e muitas vezes incorrem em aumento de gastos.
Questão de confiança
O autor do relatório, Stephan Vicent-Lancrin, explica à BBC Brasil que de fato não é
 possível verificar com certeza a relação direta entre inovação e benefícios. Mas há 
"indícios" de que aquela tenham efeitos positivos na igualdade de oportunidades 
entre alunos, no desempenho em disciplinas como matemática e, sobretudo, no 
estímulo a professores.
"Não podemos afirmar com certeza que as notas melhoram graças a inovações 
na sala de aula. Mas vemos que inovações trazem confiança para
 (que agentes participantes da educação) promovam outras mudanças", 
diz Vincent-Lancrin.
"A relação mais forte que observamos foi em relação à satisfação de professores.
Mais inovações trouxeram mais motivação."



Inovações medidas incluem materiais didáticos, estilo de ensino e disponibilidade
 de computadores
As práticas foram estudadas pela OCDE entre 2000 e 2011, no ensino primário e
 secundário, e o país estudado que mais adotou inovações no período foi a 
Dinamarca (com 37 pontos no índice calculado pelo órgão), seguido por 
Indonésia (36), Coreia do Sul (32) e Holanda (30).
Entre as mudanças observadas na Dinamarca estão, por exemplo, aumento
 no uso de testes-padrão elaborados por professores, e mais intercâmbio 
de conhecimento entre o corpo docente.
Segundo o relatório, "os sistemas educacionais que mais inovaram são
 também os mais igualitários em termos de desempenho dos estudantes". 
Por exemplo, os da Indonésia e da Coreia do Sul.
Sendo assim, o estudo aponta que há uma "presunção" de que mais inovação 
desencadeie mais igualdade de oportunidades e aprendizado entre alunos, 
ainda que isso não possa ser efetivamente provado.
Debate
Mas se a adoção de novas práticas na ciência e na economia produtiva é 
apontada como um fator importante para a competividade global, 
na educação essa correlação não é tão simples. O próprio estudo aponta que
 existem também sistemas educacionais com baixa inovação e alto desempenho.
Ao mesmo tempo, argumentos pró-inovação na educação incluem maximizar
 o retorno do investimento público, buscar avanços no desempenho de alunos 
e reduzir a desigualdade de oportunidades entre estudantes, aponta a OCDE.
O relatório diz que, "ao contrário do que se costuma pensar, há um nível razoável de 
inovação no setor educacional, tanto em relação a outros setores da sociedade como
 em termos absolutos. Setenta por cento dos formandos empregados no setor 
educacional consideram seus estabelecimentos como altamente inovadores, índice similar ao da média (do restante) da economia (69%)".
Segundo Stephan Vincent-Lancrin, o setor educacional apresentou índices de inovação
 mais elevados do que o restante do setor público, mas são necessários mais estudos 
para entender exatamente seus desdobramentos no ambiente escolar.
"Estamos tentando colocar o assunto no mapa para entender seu impacto", diz.