quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cinco anos sem Michael Jackson; entenda por que o Rei do Pop não morreu

por: Leonardo Rodrigues
publicado: musica.uol.com.br




Elvis não morreu, entrou para o programa de proteção às testemunhas do FBI. Jim Morrison também vive: cansado da fama, passou a se esconder do mundo sob a identidade do escritor Thomas Pynchon. Diferente dos colegas, Michael Jackson pode ainda não ter ganhado sua teoria conspiratória definitiva, mas hoje, passados exatos cinco anos de sua morte, sua memória brilha forte tal qual uma cintilante luva cravejada de cristais Swarovski.Você pode gostar dele ou não, mas o fato é que o Rei do Pop continua entre nós, e muito mais no presente do que em sua apagada última década de vida. Indícios não faltam. Desde o fatídico 25 de junho de 2009, Michael já lançou dois álbuns póstumos e tem material para outros oito, voltou às paradas, estrelou um documentário, se apresentou "ao vivo" como holograma e até foi flagrado fazendo compras em Paris.
No caso mais pitoresco, precisou pagar a indenização simbólica de 1 euro a fãs da Suíça, Bélgica e França, pelo inapelável "dano emocional" causado por sua repentina morte, após uma overdose de propofol, um forte anestésico utilizado como sonífero. Brincadeiras, exageros e polêmicas à parte, Michael nunca perdeu seus tons superlativos nem sua majestade na música. Segundo levantamento da revista "Forbes", ele é o artista que mais lucra depois de morrer, desbancando a estrela Elizabeth Taylor.

A recente escalada do pop suingado de Bruno Mars, Pharrell Williams, Robin Thicke e Justin Timberlake reafirma ainda mais o legado de um artista que redefiniu não só a música negra dos Estados Unidos, mas todo um universo pop. Hoje é possível afirmar que existe o antes, o depois e o "além" de Michael Jackson.

Consumo infantil e a mãe negra

Por: Luciane Reis
publicado: blogueirasnegras.org


Por já nascer à parte de uma sociedade racializada, a criança negra cresce aprendendo a valorizar algumas características que são idealizadas e quase sempre não dizem respeito à sua identidade. Ela aprende não apenas a conviver com a sociedade, mas também a viver no intuito de ter aquilo que essa apresenta como um ideal de vida, de beleza e de comportamento. Ao ter contato cada vez mais constante com diversos estímulos que chegam por diferentes meios: televisão, rádio, internet ou passados através de programas de televisão, músicas, filmes e claro pela propaganda, esses indivíduos têm acesso a dados culturais que acabam por alterar alguns dos instintos mais fortes do ser humano, tais como o desejo de aceitação social e a necessidade de autorrealização independente de como esta é apresentada.

As crianças negras aprendem a ser consumidoras de maneira muito delicada. Isso se dá principalmente por meio da observação do comportamento das pessoas que as cercam e da influência proveniente das propagandas, uma das principais formas de contato com os diversos produtos, ideologias, comportamentos e serviços existentes no mercado. Para se construir uma propaganda que consiga interagir com as crianças e influenciá-las é preciso pensar em como “alcançá-las”. Os comerciais de televisão voltados para o público infantil contam com uma mistura de imagens, cores, sons e movimentos que prende a atenção das crianças, especialmente as menores. Os desafios de ser mãe de uma criança negra começam quando esses recursos não visibilizam a presença de seu filho. Dela é exigido negociar concepções diante de uma mídia que se pauta pelos ditames do comércio e da publicidade, pouco interessada em questões como a da discriminação do negro ou das consideradas minorias.

Para uma mãe negra, fica a tarefa diária de não somente educar seus filhos para um consumo consciente, como também atuar contra discursos que perpetuam ideologias e que se mantêm até hoje através da “venda” da representação negra nos meios de comunicação como produto a ser consumido e não como consumidor, vide os anúncios de jornal do tempo da escravidão e a forma de tomada de referências negra. Fazer uma criança entender que a sua imagem, mesmo não estando presente nestes meios, não tira dela sua beleza e orgulho, é uma tarefa heróica e que somente mães de crianças violentadas diariamente pelo racismo tem a dimensão. Por se tratar de pessoas em formação, a ausência delas na mídia pode causar danos à identidade racial e à auto-estima. A política de invisibilidade de crianças negras, usada pela mídia brasileira, serve indiretamente de suporte para a ideologia do branqueamento tão naturalizada nos dias de hoje. As propagandas de produtos infantis, salvo raras exceções, não têm contemplado adequadamente a representação negra.

As propagandas infantis sejam elas exibidas na TV aberta, fechada ou impressa acabam por fazer crer a uma pessoa desavisada estar em um país europeu e nórdico tal a profusão de crianças loiras. O professor Hélio Santos (2000, p. XX) é assertivo: “nada contra os loiros, mas tudo contra a loirice”. Partindo dessa máxima, podemos pensar sobre a prática costumeira adotada no Brasil de representação ínfima do contingente negro que é minoria ao olhar da mídia, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. É sabido que o momento entre a infância e a pré–adolescência constitui a fase de construção da identificação dos indivíduos quando se estabelecem seus valores, conceitos, modelos e padrões estéticos. Neste sentido, a tarefa de ser uma mãe negra se torna mais delicada pela ausência de crianças negras no conjunto da mídia e em especial na propaganda, espaço que acaba por induzir os indivíduos dessa categoria a se entender como subcidadãos e subconsumidores, independentemente da sua capacidade de consumo.

O racismo existente no Brasil não poupa a infância. Na verdade, é nessa fase que ele ganha corpo e consegue novos adeptos. A propaganda pode transmitir para as crianças negras a interiorização de um lugar social delimitado e com horizontes claramente marcados. Construir a auto-estima de crianças, onde a cor de sua pele resume a impertinência de sua presença em um lugar onde somente branco e rico seriam bem-vindos é uma tarefa árdua. A criança negra na mídia brasileira é uma criança sem nome ou rosto, rejeitada pela cor, o que de forma abstrata registra a desigualdade de maneira poderosa para resumir a racialização de classe da sociedade brasileira.

Não temos dúvida de que as crianças negras de hoje têm uma realidade diferente das do passado, inclusive com maior poder de compra e o direito de teoricamente serem livres. Mas essa “liberdade” não lhes proporciona o direito de ser tratadas igual a todas as outras crianças. Diferenças como a cor de sua pele e a classe social onde estão inseridas determinam suas realidades que, muitas vezes, está impregnada de preconceito. Essas chamadas diferenças, fruto do reflexo social presente nos meios de consumo, são fatores que determinam quais dificuldades serão enfrentadas. São tarefas detectadas muito cedo por suas mães de forma dolorosa nas campanhas, nas compras de produtos infantis diários onde as crianças inteligentes, aventureiras, fortes, saudáveis, amadas e felizes; aquelas que consomem toddynho ou nescau – são todas brancas. A realidade é que as crianças negras são ainda invisíveis ao universo do consumo, o que pode parecer óbvio, dada a sobreposição da desigualdade de classe à desigualdade racial no País: negros ainda são mais pobres que brancos, um fato que alimenta intermináveis controvérsias para segmentos privilegiados sobre as causas da desigualdade, onde estes têm dúvida se seriam de renda ou racial.

As crianças negras não são invisíveis apenas nos meios de comunicação, mas em escolas, hospitais ou espaços de lazer, isto é, como futuros cidadãos e cidadãs em uma sociedade que se define como livre do racismo. Quando se é criança, a defesa de seu espaço se dá através da inferiorização do outro, onde ela se coloca como superior, tendo como base alguma característica que a distingue, passando a se sentir inatingível aos ataques de seus colegas. Isso ocorre com frequência na relação entre crianças brancas e negras: a primeira se elevando e a segundo se retraindo e se auto-desvalorizando. (O racismo na construção das mensagens publicitárias, isto é, a supervalorização da representação branca em detrimento da negra, contribui para a propagação de preconceitos, atingindo crianças negras e brancas em suas atitudes e comportamentos, alargando a incidência do racismo para as futuras gerações) A maneira de construção midiática brasileira contribui para que essas simplesmente adquiram preconceitos da mesma maneira que aprendem outras atitudes e comportamentos, partilhados pela sociedade como um todo.

A baixa autoestima detectada em crianças e pré-adolescentes negros em grande medida pode também ser atribuída a esta invisibilidade nas propagandas, pois a contrapartida esperada numa sociedade de consumo é que a aquisição de bens e serviços dêem aos indivíduos uma sensação de satisfação) advinda dos comerciais de produtos/marcas. Não podemos dizer que em pleno século XXI, não tenhamos conquistado o papel de consumidor ativo na sociedade. Mas mesmo tendo sido percebidos pelo mercado, isso não promove tratamento igual aos brancos nos veículos de comunicação. Os pequenos avanços adquiridos ainda não conseguem fazer com que a cor da pele não seja importante para o reconhecimento do outro como semelhante. É isso que chamamos racismo: descrição do outro como um dessemelhante e abjeto pela cor de seu corpo.
Numa sociedade marcadamente racista e que se vê como uma democracia racial, um sujeito inimaginável pelo consumo é reiteradamente excluído por meio de sua cor e traços. Para esse sujeito ser reconhecido, é preciso antes ser perceptível à ordem dominante, ou seja, algo precisa ser reavaliado. A publicidade infantil age do mesmo modo, ao fazer com que uma criança antes de entender o sentido político do racismo, seja alvo de uma rejeição que resume sua existência. À mãe negra cabe então a tarefa de contribuir para que, mesmo diante de toda rejeição a seu corpo, as crianças negras não percam antes do tempo a ingenuidade infantil que em breve será vencida pela observação cotidiana de práticas racistas. Com o tempo, a criança sem nome e com somente cor diante da mídia brasileira encontrará outro grupo para traduzir sua experiência de sentir-se desprezível que não será mais porque é uma criança em um ambiente de adultos, mas um adolescente, um homem ou um velho negro em um mundo cuja ordem do consumo e da lei é, ainda, branca.

DISCRIMINAÇÃO E NOJO: ATÉ QUANDO VAMOS IGNORAR O QUE VEMOS E VIVEMOS?


JACY AFONSO
Publicado: brasil247.com

As discriminações e as dificuldades estão às claras. Não se pode mais tentar tapar o sol com a peneira. É preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir para que a história seja, finalmente, outra
O sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) desenvolveu uma teoria social que serviu para alargar o campo dos estudos sociológicos voltados à elucidação dos processos de interação humana no âmbito da sociedade. Segundo ele, nos séculos XVII e XVIII, na maioria dos países da Europa ocidental havia o que chamou de sociedade de corte, destacando especificamente a francesa. Nesse período não eram as cidades, e sim a corte que constituía o centro representativo, o local de origem de toda a experiência e toda a compreensão do homem e do mundo. O sociólogo afirma que as cortes foram se transformando em modelos concretos e centros formadores de disseminadores do estilo. Mais além, significaram fonte e origem de modelos de comportamento.

A formação gradual dessa sociedade de corte veio acompanhada por uma civilização baseada nos modelos da classe superior e evidencia a maior contenção e regulação dos anseios e o aumento do controle social. Nessa sociedade o que predominava era o consumo por prestígio e status, com a finalidade de manter sua posição social. Elias afirma que “... Alguém que não pode mostrar-se de acordo com o seu nível perde o respeito da sociedade. Permanece atrás de seus concorrentes numa disputa incessante por status e prestígio, correndo o risco de ficar arruinado e ter de abandonar a esfera de convivência do grupo de pessoas de seu nível e status ...” Nesse modelo social cada qual conhecia seu lugar e o respeitava. Especialmente as roupas, expressão de elegância e poder, significavam a linha divisória entre refinados e rudes.

Analisar as relações de poder e saber no contexto social implica considerar que o poder não é um objeto natural, mas uma prática social historicamente constituída que perpassou os séculos, em períodos interdependentes. Ao olharmos para uma pessoa imediatamente a julgamos pela aparência, pela roupa, pelo comportamento, pela etiqueta. E, desde esse momento formamos um conceito prévio a respeito desse ser humano. As cabeças e as condutas, por séculos e séculos, reproduzem a concepção de uma sociedade assentada em grupos diferenciados social, econômica e politicamente. E cada qual, dentro de um sistema de divisão e dominação de classes, deve estar em seu devido lugar.

Todos já ouvimos expressões como: “Tenho nojo de política”; “Estou com nojo deste país”, “Tenho nojo da sua cor e de seu cabelo” ; “Tenho ojeriza de sua sexualidade”.

Vemos constantemente pessoas demonstrando sua repulsa, sua ojeriza com expressões faciais tipicamente associadas com coisas que são percebidas como sujas e infecciosas ao avistarem moradores de rua, usuários de drogas, carroceiros, catadores de lixo. Vemos ainda nos tempos atuais pessoas torcendo o nariz para outras pessoas, aquelas “da classe social baixa” e que estão nos aeroportos para viajarem pela primeira vez de avião. Ou médicas cubanas que, ao chegarem para trabalhar no Programa Mais Médicos que leva saúde da família nos rincões do país, áreas onde profissionais brasileiros não querem ir trabalhar, receberam um dos mais absurdos e preconceituosos comentários por parte da jornalista potiguar Michelline Borges: “Elas têm cara de empregada doméstica!” Repudiada nas redes sociais pela postura elitista, a jornalista retirou rapidamente sua página do Facebook. Ou ainda o médico negro cubano Juan Delgado que foi hostilizado com vaias por médicos cearenses, sendo chamado de escravo. Com dignidade, Juan respondeu: “escravo da saúde e dos pacientes doentes, pelo tempo que for necessário”.

Atitudes truculentas como essas mereceram desculpas públicas do governo brasileiro. Tanto o ministro da Saúde como a presidenta Dilma foram ao público para recriminar a discriminação, a ignorância e a xenofobia contra os médicos cubanos, que trouxeram sua capacitação e qualificação científica para trabalhar no programa brasileiro de atendimento à saúde da população que mais necessita.

E os rolezinhos? “O que esses meninos e meninas da periferia querem em nossos shoppings, nos centro das cidades? Tomar de assalto o espaço onde exibimos nossa nobreza? Que horror!”

A organização da sociedade da corte francesa tem se apresentado de forma ainda mais violenta no chamado processo de gentrificação. Ainda pouco conhecido como conceito, mas todos vivemos seus efeitos. Gentrificação é o nome que se dá à expulsão de moradores e/ou freqüentadores pobres de determinada região por meio de um conjunto de medidas socioeconômicas e urbanísticas. Atrás de propostas de revitalização de determinadas áreas para que fiquem bonitas e seguras, realizadas, em geral, próximo a bairros nobres ou a áreas comerciais, está o interesse econômico. Após a assepsia social, que “limpa” a pobreza expulsando-a em nome das leis de mercado, da segurança, da beleza local ocorre uma valorização absurda desses espaços.

Esses processos “revitalizadores” estão configurados na reprodução de desigualdades e na falta de garantias sociais para grande parcela da população. A desigual distribuição de bens sociais, a discriminação, o desrespeito às diferenças, a incerteza, a involução de valores não são anomalias; constituem o pensamento globalizado e o processo econômico atual.

A realidade brasileira, embora com suas características próprias, está integrada à tendência de fragmentação mundial. O modelo econômico neoliberal implantado no País produziu subjugados, pessoal e socialmente, com difícil perspectiva de transposição social. Lembramos que mudanças ocorreram com a implementação, nos últimos dez anos, de políticas governamentais de cunho social, o que trouxe perspectivas novas a milhões de pessoas.

Porém, há pessoas invalidadas pela estrutura econômica e social capitalista, decorrentes das novas exigências da competitividade, da concorrência e da redução de oportunidades; não há mais lugar para todas na sociedade e as que sobram são impelidas a acreditar em uma situação que se define como individual, lhes negando a possibilidade de ver que a história as tornou rejeitadas, discriminadas, descartáveis.

Não é coincidência que essas reflexões acontecem na semana em que ainda se propaga a abolição da escravidão (13 de maio) no Brasil. Desde 1888 as condições mudaram tão lentamente que quase não mudaram. Continuamos tão escravos de conceitos de beleza, elegância, etiqueta quanto na sociedade dos cortesãos franceses. E pior, a escravidão tomou outras formas e proporções. As pessoas continuam discriminadas pela cor, pela condição social, pela opção sexual, pelo gênero, pelo trabalho que realizam.

As discriminações, pelo seu exercício constante, violentam física, moral e psicologicamente e se configuram em espécies de escravidão. Aqueles que ousam não se enquadrar na etiqueta social formatada pelos reis, pela burguesia, pelas igrejas, pelos capitalistas, pelos ricos, pelos preconceituosos estão condenados aos grilhões da apartação social e são colocados nas senzalas a eles reservadas.

Há na sociedade brasileira a imposição do “se não os vemos eles não existem”. Então, empurremos, pois, essas pessoas para baixo do tapete, para os armários, para as periferias, para as ruas distantes e escuras. Até quando vamos fingir não ver o que enxergamos? Até quando vamos ignorar que os haitianos que fogem para o Brasil nos dizem respeito? Até quando a sociedade brasileira vai suportar a “normalidade” de falas contra bolsa família, contra cotas para negros e contra outras políticas sociais, críticas que vêm justamente dos que vão estudar no exterior pelo Programa Ciência sem Fronteira? Até quando vamos suportar sem reação efetiva a virada de rosto daqueles que se julgam superiores e que colocam cada grupo no lugar que julgam que o pertence? Até quando vamos ignorar Zumbi dos Palmares e sua luta por libertação não somente de um povo, mas por libertação de conceitos e preconceitos que nos amarram, nos submetem, nos fazem cada dia menos humanos? Até quando...?
Nem se discute que as discriminações e as dificuldades estão às claras. Não se pode mais tentar tapar o sol com a peneira. É preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir para que a história seja, finalmente, outra.

OS NEGROS, A CIDADANIA, A ECONOMIA E A ESCRAVIDÃO. PARA NÃO ESQUECER


DAVIS SENA FILHO
publicado:brasil247.com

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus

Tem um pensamento que eu gosto muito. Mais do que gostar, eu acredito neste pensamento, porque, para mim, ele significa a verdade. "Raça não existe; o que existe é a espécie humana". Quando o homem, ou melhor, a humanidade se organizou em sociedades. Quando ela passou a dominar a agricultura e, conseqüentemente, construir cidades para alojar milhares ou milhões de pessoas, a luta pelo controle político e pela hegemonia econômica recrudesceu. Desta luta deriva todo tipo de preconceito, inclusive o pior deles: o racismo.

O preconceito do racismo é a forma mais infame e cruel de intolerância moral que o ser humano pôde expressar, porque se trata da negação da vida, da negação de Deus. O racista nega a vida e reafirma a indiferença, a desigualdade social e a violência. A pobreza material de grande parte dos povos da África negra e do povo brasileiro é intrínseca ao racismo. Eu quero afirmar, sem dúvida alguma, que a miséria material do nosso povo tem como raiz o racismo. Este sentimento, além de ser comportamental e cultural, o é também de fundo econômico, o que o torna intolerável para as pessoas civilizadas e de filosofia humanista e democrática.

Quando os ancestrais do povo brasileiro foram escravizados em um tempo de cinco séculos pelas potências colonialistas, o trabalho humano escravo foi visto como solução para que os colonizadores europeus pudessem ocupar os territórios por eles conquistados, além de desenvolver suas economias e, por conseguinte, disputar o mercado, em seus diferentes setores, pois a corrida pela hegemonia econômica e militar se encontrava em um processo de disputa entre a Inglaterra, a França, a Espanha, a Holanda e Portugal, dentre outros países, que buscavam riquezas, com o objetivo de colonizar terras e dominar os oceanos.

Com a explosão demográfica no continente europeu e o fim da Idade Média, considerada a era mais sombria das sociedades ocidentais, iniciou-se o ciclo das grandes navegações. Historiadores afirmam que foi a opção e a realidade encontrada pelos governos das potências européias, para que a Europa não sucumbisse economicamente e seus povos não ficassem sem espaço para desenvolver suas atividades econômicas, principalmente a agricultura, razão pela qual foi efetivado o sistema de escravidão, com a cumplicidade entre os europeus e suas diversas nacionalidades, com apoio, inclusive, da Igreja da época, bem como de agentes africanos que participavam do tráfico negreiro.

A escravidão de africanos começou no Brasil ainda em meados do século XVI. Duarte Coelho, donatário da Capitania Hereditária de Pernambuco, solicitou, em 1539, ao rei de Portugal a isenção de impostos de "peças" africanas. As "peças", na verdade, eram os escravos. Grandes extensões de terras e agricultura baseada na monocultura de cana-de-açúcar, que propiciou ao Brasil colonial o Ciclo do Açúcar, foram as primeiras razões dos colonizadores para que o comércio de homens, mulheres e crianças negros se perpetuasse até o ano de 1888, quando oficialmente foi abolida a escravidão no Brasil.

O tráfico de escravos foi um comércio tão lucrativo que somente acabou em âmbito mundial em 1865. A partir deste ano, o Brasil se tornou o único no mundo ocidental a possuir escravidão institucionalizada. Essa realidade impedia a chegada de imigrantes que preferiam outros países das Américas. Enquanto o mundo se transformava por meio da revolução industrial, as nossas elites, principalmente os cafeicultores paulistas, insistiam, teimavam com o sistema de escravidão, o que prejudicou, sobremaneira o Brasil nos fóruns internacionais, bem como a sua economia, que, baseada na mão-de-obra escrava, não conseguia competir, satisfatoriamente, com os países, inclusive muitos da América do Sul, que pagavam salários aos trabalhadores, principalmente aos imigrantes europeus que tinham conhecimento técnico para exercer suas funções nas fábricas e no campo.

O Brasil foi o último País a dar fim ao comércio de escravos, além de Cuba, que, apesar de ter escravidão em seu território, a ilha caribenha era usada mesmo como entreposto de escravos, que eram distribuídos pelo Caribe, América do Norte e América Central. Países escravagistas como a Inglaterra, a França, a Espanha e a Holanda tinham grandes interesses econômicos nessas regiões. A presença da Espanha na América do Sul também era muito forte, bem como Portugal, pequeno país ibérico, mas que se tornou potência marítima, que, através do tempo, transformou o Brasil colonizado por ele em um País continental.

A escravidão dos negros africanos era uma escravidão essencialmente mercantilista. Sempre houve escravidão no mundo. A humanidade sempre pecou no que concerne a explorar à própria humanidade. Os países muito antigos, as sociedades antigas, os do tempo de Jesus Cristo e os de tempos anteriores ao do Filho de Deus escravizavam, mas, geralmente, eram troféus, os quinhões dos vencedores de guerras. Eram militares e civis que perderam guerras e pagaram com o preço alto da escravidão.

Por seu turno, a escravidão dos negros não tinha razões outras que não apenas a comercialização de seres humanos, por cerca de 400 anos, no mundo ocidental, que já tinha passado pelo Renascimento e se preparava para entrar no mundo moderno, que se iniciou, primeiramente, com as grandes navegações. O sentimento, realmente, é de vergonha. Não minha vergonha, não sua vergonha, não a vergonha dos milhões de negros brasileiros, mas daqueles que enriqueceram e conquistaram terras com a morte e a escravidão de milhões e milhões de homens e mulheres, que morriam nos navios negreiros, em cerca de 40%, vítimas de maus tratos, de todo tipo de doença, além de serem jogados aos mares, como punição ou por causa da fiscalização do exército e da marinha ingleses, cujo governo, no ano de 1806 para 1807, decidiu dar fim ao tráfico de escravos. A Inglaterra era a potência mundial daquela época.

Portugal, que edificou uma nação importante em termos mundiais na América do Sul, foi o maior mercador de escravos de todos os tempos, no que tange aos interesses especificamente comerciais e econômicos. O Brasil, além de ser o último País a libertar os escravos, foi também o destino de três milhões e 600 mil escravos, dos dez milhões que chegaram vivos e foram trazidos para as Américas. Como se percebe, o Brasil, nos séculos da escravatura, foi responsável por 36% de todo comércio escravagista em âmbito mundial. São realmente números assombrosos.

A escravidão dos negros foi e ainda o é a maior diáspora da história da humanidade. Se a comunidade negra internacional fosse rica e controlasse as mídias, a imprensa comercial e privada, os bancos e as terras evidentemente que essa dolorosa história nunca deixaria de ser comentada, nunca seria esquecida, bem como o genocídio dos índios de todas as Américas nunca ficaria relegado a um segundo plano. Como se observa, a divulgação política da escravidão e dos massacres e genocídios dos negros e dos índios são também questões econômicas e financeiras, além de morais e de justiça, que nunca foi feita, e considero que nunca o será.

Os escravocratas nunca ganharam tanto dinheiro. A comercialização de pessoas era mais lucrativa do que a estratificação, a agricultura, a pecuária e a pesca. A indústria praticamente não existia, porque começou a se desenvolver na segunda metade do século 19, quando a Inglaterra começou — por questões econômicas e não morais —, que isto fique registrado, a perseguir e a afundar navios, boicotar economias e agredir militarmente os países que insistiam em traficar seres humanos com finalidade comercial. Era o início da industrialização, quando surgiu, de forma incipiente, a classe operária, melhor qualificada, sem direitos trabalhistas, contudo, assalariada, valores baixíssimos, trabalhadores explorados, porém, reitero, assalariados.

Os negros africanos, cujos filhos e descendentes são brasileiros, desembarcavam nos portos da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Depois da chegada, eles eram espalhados, "distribuídos" por todo o País. Trabalhavam na mineração, na lavoura, na pecuária, nas instituições governamentais, nas ruas e nas casas residenciais. Eles estavam presentes no dia a dia da vida brasileira e ajudaram, indubitavelmente, a construir o Brasil de hoje, País que tem um PIB de R$ 3,675 trilhões, segundo o IBGE, e que atualmente tem influência planetária. Sem sombra de dúvida, a plural e multirracial sociedade brasileira deve muito aos homens e mulheres negros que trabalharam, arduamente, sendo que milhares pagaram com a própria morte, como vítimas que foram da terrível e inominável escravidão.

Os negros, os cidadãos negros foram heróis da Guerra de Canudos e da Guerra do Paraguai e não receberam retorno algum, a não ser o abandono do estado e da sociedade brasileiros. Foram morar nos morros da Favela e da Providência, as primeiras favelas deste País. As desigualdades sociais são gritantes. A miséria e a pobreza, históricas, são a razão da prostituição, do tráfico e da violência. São essências da degeneração familiar e, consequentemente, da sociedade.

Os negros, observemos, pertencem às camadas mais pobres da sociedade brasileira, as que estão em risco constante de ser vítimas de todo tipo de miséria humana e de ignorância. O ignaro é mais perigoso que o marginal, porque ele é parte de milhares, quiçá milhões, e por isso se anulam as condições para que as nossas cidades e o País se desenvolvam, de maneira equânime, justa e democrática. Não há paz se não existir justiça social. Os governos, em todas as esferas, têm de deixar de ser patrimonialistas. O estado tem de ser devolvido ao povo e não continuar a servir à pequena parcela da sociedade, que há séculos confunde e mistura os interesses do estado com os interesses privados — particulares. É uma luta árdua, perene e constante.

Os governos trabalhistas de Lula e agora o de Dilma Rousseff têm lutado e conseguido mudar o quadro social e econômico das classes sociais carentes e populares. É uma revolução da grandeza da que o presidente Getúlio Vargas realizou em 1930 e depois em 1950, quando o Brasil deixou de ser rural e passou a ser urbano, por meio da industrialização, da organização do serviço público de forma centralizada, em âmbito federal, e da criação de meios de fiscalização das receitas públicas, bem como dos serviços de arrecadação de tributos do estado nacional, além da criação de estatais como a CSN, a Vale do Rio Doce (os neoliberais só querem chamá-la de Vale) e a Petrobras.

Os programas de Lula incluíram 42 milhões de brasileiros na classe média (quase a população da Argentina) e tiraram 36 milhões da pobreza. E grande parte dessa gente brasileira, caro leitor, é formada por brasileiros de etnia negra. É uma revolução ou não é? Só para ficar nisso, porque esse governo trabalhista fez muito mais, como, por exemplo, fortalecer nosso mercado interno ao ponto de o Brasil praticamente não sentir a crise econômica e financeira que aconteceu no mundo em 2008, apesar de a imprensa de negócios privados não reconhecer e por isso mentir e manipular, porque a verdade é que ela se tornou porta-voz dos trustes internacionais e nacionais, ponta-de-lança dos interesses da classe social que habita o pico da pirâmide social, além de se transformar em um partido de direita — o Partido da Imprensa. Se há alguma dúvida, basta pesquisar para confirmar o que eu afirmo e o que eu escrevo nesta tribuna chamada Palavra Livre.

O estado democrático de direito, conforme reza a Constituição de 1988, é o agente que determina as políticas públicas, no que é relativo à saúde, à educação, à moradia, à segurança e à luta para favorecer a distribuição de renda e a geração de empregos. Todas essas coisas boas são desejos dos brasileiros, principalmente os negros e os índios que ainda não foram resgatados historicamente e socialmente. O Brasil tem de continuar a ser dos brancos, dos amarelos, dos vermelhos e dos negros. Contudo, sabemos que a grande parcela negra da população tem de ser ouvida por todos os segmentos da sociedade, bem como ser alvo de políticas públicas positivas que garantam a inclusão dos negros (e também dos índios) no mercado de trabalho e nas escolas.

Até hoje, em pleno século 20, parte significativa do povo brasileiro não tem acesso a benefícios sociais e ao direito de ter uma vida de melhor qualidade. Os negros continuam a ter os piores empregos, a morar nas periferias, nas favelas, nas comunidades pobres. Seus empregos são os mais insalubres, os mais perigosos e mal pagos. Continuam a ser vítimas do pior sentimento dentre os piores sentimentos que é o racismo, porque, como cidadão negro, ele é medido por sua cor, por seu cabelo, por suas características físicas e não pela sua conduta, pela sua competência, pelo seu caráter, digo melhor, bom caráter, pelo seu coração. Os indivíduos são pertencentes à espécie humana. Raça é terminologia superada, que somente os desinformados, os ignorantes, os preconceituosos e os racistas insistem em assim se comportar. Comportar-se mal.

É um direito inalienável do homem e da mulher, independentemente de sua origem e cor, ter suas cidadanias ratificadas e reiteradas pelo estado e pela sociedade a qual pertencem. Ser cidadão não se reduz a pagar impostos. Ser cidadão é também saber de seus direitos e, dentre um elenco de direitos, é não ser humilhado ou esquecido ou relegado por sua condição social e por sua cor de pele e etnia. Os negros estão para sempre, eternamente, na história do Brasil e do seu povo. Ele é parte dele. Ele é o povo, e o Brasil é de todos e para todos os brasileiros.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Sociedade 13 de Maio promove Festival Batuques de Terreiro

"Porque Umbanda e Candomblé são religiões sim!" Dia 28 de junho, a partir das 21h, na Sociedade Treze de Maio.

Dia 28 de junho a Sociedade 13 de maio promove o Festival Batuques de Terreiro com apresentações dos grupos:
  1. Os Encantados;
  2. Tambores do Paraná;
  3. Curimba do Terreiro do Tio Antonio;
  4. Paranambuco. 

A música brasileira e suas raízes culturais desencadeiam em uma transformação, uma criação de uma nova perspectiva de vida, movimenta e põe em prática os conhecimentos motivados por objetivos primordiais para o desenvolvimento social: entristecer, provocar e deixar em evidencia os sentimentos mais generosos das pessoas. A música está na alma e no corpo. Na mente e no coração. Fazer música não é apenas empunhar um instrumento, mas sim ceder e executar as melodias existentes no tempo, ou na ausência dele.

O batuque representa a mistura de culturas e etnias que se fundem na história e no folclore de seu povo. Falar dos sons que influenciam na criação da musica brasileira de raiz é falar da mistura de tradição trazida pelos colonizadores, da espiritualidade e ritualização aliada a uma rica diversidade cultural existente em diversas matrizes indígenas e africanas.
Musica brasileira de raiz é uma junção que resulta num valor de extrema importância: Paixão. Colocar em evidencia a capacidade dos mais sinceros sentimentos. O alegre e o melancólico. A vibração da alma que é inquestionavelmente, entre tantas, uma grande virtude da música.
Propondo uma divulgação em prol da cultura de raiz brasileira e sua musicalidade, buscamos atingir por meio deste festival uma unificação entre os artistas locais e regionais, para que haja uma constante troca e se faça visível esta capacidade transformadora da criatividade em beneficio da evolução e conhecimento da musica de raiz produzida no Brasil.

O Festival Batuques de Terreiro tem por objetivo unificar essa paixão ao mesmo tempo em que traz a cultura afro-brasileira a público. As manifestações dessa cultura, tanto musicais, religiosas e visuais, estão presentes na nossa sociedade, fazem parte de nossa construção. Propomos o Festival para trazer para cada vez mais públicos essas manifestações brasileiras.
mais informações pelo site do festival.

Nasci negra depois dos 30

por*:
Shirlene Marques
publicado: http://blogueirasnegras.org
2014 é o ano do meu nascimento. Durante três décadas, ou desde o que dia em que tenho lembranças de quem fui ou tornei-me a ser, fui “morena clara”, morena e também achei-me branca. Mas, eu negra? Não,não… Ouvia frases do tipo: “olha que morena mais bonitinha”.

Como todo ser humano que se constitui dentro do seu meio, fui educada como sendo branca, de religião católica. E assim saí da infância lutando para negar marcas genéticas, como o tipo de cabelo. Cabelo este que eu considerava ruim e difícil de manter-se domado, dominado. Afinal, os outros reproduziam e insistiam: “cabelo ruim é assim mesmo”.

Quando a idade de mocinha foi chegando, achava-me feia e escondia-me em mim. Porém quando o som dos tambores ecoava através dos grupos afrobaianos, que eu via na televisão, sentia fortaleza e atração. Naquele tempo, eu menina-moça morava à beira do rio São Francisco, nascida em terras baianas de Juazeiro e crescendo em terras pernambucanas de Petrolina. Missas e alisamentos colocavam a herança negra bem longe de mim; era mundo de apreciação.

Mas o gosto pela música vindo da minha Bahia, onde foi gerada e recebida, ecoava em minha alma e me trazia sensação de ligação e de que querer chegar mais perto. Mas eu? Negra não! A música era deles, dos negros lá de Salvador.

No crescimento do corpo físico e desejo de crescimento intelectual sigo para capital Recife, desejando cursar Jornalismo. Os olhos abrem-se para novos “mundos” representados em sons, em textos, em gente. Era maracatu, coco, ciranda, afoxé,frevo…Todo som que ecoava em mim. Conquistando-me… Religando-me. Mas eu? Negra não!

Na minha mente já estava plantada a certeza de uma forte identificação com o mundo negro; gostava do som dos tambores, vibrava ao ver negros engajados na política e em causas sociais; ficava feliz quando uma negra (o) conseguia sua ascensão conquistada com esforço e educação. Mas e eu? Sim, sim, a morena do curso. Vinda do interior, de escola pública e cursando Jornalismo numa Universidade Federal. Estava num lugar para brancos e “ricos”, “mérito” para brancos, as cotas não existiam.

Os primeiros anos na capital também marcaram a minha vida na busca por uma religiosidade mais profunda. Foram tempos de andanças e de buscas… Neste tempo, começaram a nascer as mudanças. Era tempo de ser gerada, chamada… Os dogmas do catolicismo já não me pertenciam. Abraço o espiritismo kardecista que me mostrou a imensidão do mundo espiritual. E eu? Morena, não católica.

Religiões afro-brasileiras, não, não. Não poderiam fazer parte de mim. Religiões como o candomblé era espaço para eles, os negros, as negras. Tinha respeito e admiração por aquele mundo. E eu? Divulgava já com orgulho: Sou branca, mas minha alma é negra.

E em meio aos vendavais encontrei o candomblé ou o candomblé encontrou-me. Fui iniciada aos 34 anos, adentrando em novos espaços, que já conhecia de longe, de tempo atrás. Encontrei pertença, riqueza; a ligação estava concluída. Mas, e eu? Não podia ser a negra que queria. Minha pele não era preta, preta como a deles.

Durante 30 anos fui ensinada a ser “morena”, num panorama de sociedade e de conhecimento que vivi. Minha cabeça encheu-se dúvidas, as quais foram sanadas com leituras que me trouxeram uma grande resposta, que antes eu não buscava; afinal, eu não era negra. Eis que as respostas chegaram: a denominação de uma pele morena, no Brasil, é usada para camuflar a pertença à raça negra, de ter o sangue negro no corpo.

Tenho nariz achatado, cabelo crespo, lábios grossos, sangue negro em minhas veias, não pele negra, tão negra como a lua, eis-me aqui nascida negra. Nascimento que não foi forçado como na cesárea. Foi parto natural, parto amadurecido, parto que esperou tantos anos, filho mais que desejado. Foi gestado e alimentado com leitura, pois nasceu um tempo em busca da cura física que foi transformada em tempo de alimento.

Nasci negra em meio à busca da cura física. Nasci negra e agora como uma criança tenho desejos infinitos de entender este meu mundo negro. Cada dia tem sido posto para grande descobertas, momentos do passado que tento entender, pessoas e fatos que tento entender. Encantamento com a vida nova. Braços vão sendo apresentados a mim, mãos me ensinam a caminhar, pessoas maravilhosas vão me guiando. E como toda criança, vou enchendo meu coração de sonhos e ficando feliz com os presentes que me chegam (amig@s, espaços de aprendizagem, leituras).

MP denuncia Odebrecht por trabalho escravo de brasileiros em Angola

publicado: agência Brasil

O Ministério Público do Trabalho (MPT) em Araraquara entrou com uma ação civil pública contra o Grupo Odebrecht, alegando envolvimento da empresa em um esquema de tráfico de pessoas para trabalho análogo ao de escravo em Angola.

Trabalhadores brasileiros eram levados do município de Américo Brasiliense, a 298 quilômetros de São Paulo, para as obras de uma usina de cana-de-açúcar no país africano. Lá, eles eram submetidos a condições precárias de trabalho, de acordo com o procurador Rafael de Araújo Gomes.

Segundo ele, ações trabalhistas na região de Araraquara, com condenações judiciais proferidas, já reconheceram a situação degradante a que os operários eram submetidos. Além de condições precárias nas instalações sanitárias, na alimentação – por receber comida estragada – os trabalhadores não podiam ir aonde quisessem.

“[A investigação do Ministério Público] permitiu revelar que, além da condição degradante, existem vários outros sinistros de extrema gravidade, como o cerceamento de liberdade, que é outra condição que o Artigo 149 do Código Penal equipara a trabalho escravo. A retenção de documentos pessoais, a não disponibilização de transporte. Bastaria uma dessas para caracterizar trabalho análogo à escravidão”, disse Gomes à Agência Brasil.

Segundo o MPT, a empresa levou os operários a Angola sem autorização para trabalhar no país, além de reter seus passaportes, impossibilitando-os de procurar outro emprego ou sair do canteiro de obras. Os que saíam acabavam presos pelas autoridades locais, por serem estrangeiros sem qualquer documentação. O órgão pede que a Odebrecht pague R$ 500 milhões de indenização.

Em nota, a empresa informou que ainda não foi citada judicialmente mas, que quando isso ocorrer, irá apresentar defesa. A Odebrecht negou as acusações de trabalho escravo e de condições precárias de trabalho. “Não existe cerceamento de liberdade para seus integrantes e seus parceiros”, diz a nota, que acrescenta que a empresa “oferece transporte gratuito aos trabalhadores para as cidades vizinhas de suas operações”.

A assessoria da Odebrecht informou ainda que “oferece, sem custo aos trabalhadores, benefícios de qualidade como refeição, transporte e alojamento, todos com acesso à internet, televisão, telefone que possibilita ligações tanto locais quanto internacionais, e área de lazer conjugada”.