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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Suspeita de ebola acirra preconceito contra haitianos

Para os 2 mil estrangeiros de pele negra que vivem em Cascavel, olhares desconfiados se intensificaram
Luiz Carlos da Cruz/Gazeta do Povo / A frentista haitiana Marie Pierre Ciceron ressalta a confusão geográfica: o Haiti fica na América Central e o surto de ebola está concentrado na África
Apesar de a suspeita de ebola ter envolvido um imigrante da Guiné, a repercussão em torno do caso atingiu negativamente todos os estrangeiros com pele negra que vivem em Cascavel. Principalmente os vindos do Haiti, que estão em maior número. Discursos que condenam a permanência dos estrangeiros ganharam corpo nos últimos dias, a ponto de preocupar as entidades de apoio. A Associação dos Imigrantes Haitianos de Cascavel chegou a propor que todos os membros sejam submetidos a testes, como forma de conter o preconceito.

“Nós, os haitianos, estamos disponíveis às autoridades de saúde, para fazer todos os exames”, disse o vice-presidente da associação, Marcelin Geffeari, que há dois anos e oito meses vive em Cascavel. “Depois deste caso [suspeita de ebola], parece que [o preconceito] piorou muito. Nos preocupa”, declarou.
A associação estima que hoje mais de 2 mil haitianos residam na cidade. Quase a metade trabalha em frigoríficos e em uma cooperativa agrícola. “Depois que aconteceu [a suspeita], os brasileiros olham com cara feia. A gente sabe que os brasileiros não gostam de gente”, disse Joan Auguste, auxiliar de depósito.
No albergue da Sociedade Espírita Irmandade de Jesus – onde o guineano sob suspeita de ter contraído ebola estava hospedado –, a preocupação era evidenciada por funcionários. Outro grupo que costuma acolher os migrantes, a Associação Mão Amiga, também destacava o “aumento da tensão” entre moradores da cidade e os imigrantes.
“O povo já tem preconceito normalmente. Agora, aumentou. Só o tempo vai dizer se isso vai passar”, disse a diretora do albergue, Valdemira Bibiano da Silva. “O meu medo é com a segurança deles. Que alguém acabe descontando neles”, acrescentou a presidente da Mão Amiga, Rosana Cristina Anastácio.
Confusão geográfica

A haitiana Marie Pierre Ciceron, que trabalha como frentista em um posto de combustível, ressaltou não entender a confusão geográfica que estão fazendo – já que o Haiti, que fica na América Central, está longe da zona de risco de ebola, que tem seu epicentro na África. “Não tem nada a ver essa doença com o Haiti. No Haiti existe uma epidemia de cólera, não de ebola”, disse.

“Tinha que deportar essa gente”, diz morador
No fim de semana, o assunto mais comentado nas rodas de conversa em Cascavel, é claro, foi a suspeita de que um imigrante radicado na cidade estivesse infectado com ebola. Por vezes, as reações contra os estrangeiros transpareciam de forma evidente e até agressiva.

O taxista José Ribeiro disse que, depois do caso, passou a se negar a transportar haitianos. Ele criticava a falta de controle sanitário e defendia a expulsão dos imigrantes que estão em Cascavel.“Eu não carrego mais [haitianos no táxi]. Com essas doenças, como que eu vou me arriscar a levar essa gente? A gente não sabe de onde eles vêm, se têm alguma coisa, não sabe nada”, afirmou. “Tinha que deportar essa gente, mandar embora do Brasil”, completou.

No entorno da Unidade de Pronto Atendimento II, onde o guineano sob suspeita de contágio foi internado, os discursos também estavam mais acalorados. Para o jardineiro Edmar Cruz, o governo brasileiro deveria “fechar as portas” aos haitianos. “Olha o tamanho do transtorno que isso gerou. E se confirmassem que ele estava com ebola? Quem ia pagar o prejuízo? A verdade é que dão mais valor a esse povo do Haiti do que a nós, que somos brasileiros”, disse.
Colaborou Luiz Carlos da Cruz.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Haitianos em situação análoga à de escravo são resgatados em SP

publicado: blog do Sakomoto
O governo federal resgatou 14 trabalhadores haitianos que estavam em condições análogas à escravidão em uma oficina de costura na região central do município de São Paulo. A operação é a primeira envolvendo imigrantes dessa nacionalidade no Estado.

O caso é inédito. Apesar de haitianos já terem sido resgatados da escravidão no Brasil (por exemplo, 100, em Minas Gerais e 21, no Mato Grosso), nenhum caso havia sido registrado no Estado de São Paulo, nem no setor têxtil. Segundo depoimentos, os trabalhadores não estavam recebendo salários e passavam fome. A reportagem é Stefano Wrobleski, da Repórter Brasil:

Doze haitianos e dois bolivianos foram resgatados de condições análogas às de escravos em uma oficina têxtil na região central de São Paulo. O resgate ocorreu no início deste mês após fiscalização de auditores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e uma procuradora do Ministério Público Trabalho (MPT). As vítimas trabalhavam no local há dois meses produzindo peças para a confecção As Marias, mas nunca receberam salários e passavam fome.

Segundo a fiscalização, antes de serem aliciados, os haitianos estavam sendo abrigados pela pastoral Missão Paz, mantida pela paróquia Nossa Senhora da Paz para acolher migrantes de outros países que chegam a São Paulo. Além de alojar os migrantes, a pastoral promove palestras a empresários sobre a cultura e os direitos dos estrangeiros, onde os interessados em contratar os recém-chegados preenchem fichas com informações que são usadas para verificar a situação trabalhista das empresas na Justiça e monitorar as contratações.

A estilista e dona da empresa, Mirian Prado, afirmou à Repórter Brasil que não tinha conhecimento das condições de trabalho na oficina e que só terceirizava o trabalho: “A gente estava na hora errada, no lugar errado e fazendo a coisa errada sem saber”, disse. Depois da autuação, informou que a empresa passou a fiscalizar outros fornecedores e que pretende deixar de terceirizar o serviço em breve para ter melhor controle sobre sua produção.

Vítimas cumpriam jornadas de mais de 15 horas sentadas em cadeiras de plástico inadequadas. Foto: SRTE/SP

De acordo com o padre Paolo Parise, que coordena a missão desde 2010, o interesse dos empresários pela Missão Paz diminui quando eles são informados de que os migrantes têm os mesmos direitos dos demais trabalhadores no Brasil. O padre diz que, de janeiro a julho deste ano, 587 empresas contrataram 1710 migrantes através da pastoral. O número de empresas, porém, equivale a apenas um terço do total de interessados que assistem à palestra inicial.

A dona da oficina onde as 14 vítimas de trabalho escravo foram resgatadas faz parte dos dois terços de empresários desistentes. “Em maio, ela e seu esposo vieram, participaram da palestra e, depois, sumiram sem contratar ninguém”, disse Paolo. Antes de ser aliciado, Daniel*, um dos haitianos, já tinha emprego fixo em um shopping da capital e retornava todas as semanas à pastoral para dar, voluntariamente, aulas de português aos colegas conterrâneos.

Daniel aprendera o idioma pela internet antes de vir para o Brasil e vem aprimorando seus conhecimentos desde 2012, quando chegou ao país pelo Acre. A maior parte dos seus colegas, no entanto, havia chegado fazia menos de um mês ao Brasil e o crioulo (junto com o francês, uma das línguas oficiais do país) era o único idioma que sabiam falar.

Ante a promessa de receber um salário menor, mas com benefícios como alimentação e alojamento garantidos pelo empregador, ele aceitou a oferta da dona da oficina: “O maior problema no Brasil são os custos de vida, como aluguel e outras coisas”, disse à reportagem. Daniel, então, deixou o emprego no shopping e chamou alguns colegas para quem dava aulas na Missão Paz. Para o trabalho, a dona da oficina havia dito a ele que não era necessário saber costurar: eles seriam contratados como aprendizes e teriam contato com o ofício trabalhando na confecção para As Marias. No Haiti, eles tinham ocupações diversas. Daniel era vendedor autônomo, enquanto outra das vítimas estudava para ser enfermeiro.

Condições degradantes - Na oficina, as vítimas começaram a trabalhar em junho. No local também ficavam os quartos onde os doze haitianos, um casal de bolivianos e seu filho de quatro anos dormiriam. Com colchões em mal estado no chão, mofo, infiltrações e péssimas condições de higiene, a auditora fiscal Elisabete Cristina Gallo Sasse, que participou da operação, disse à Repórter Brasil que os cômodos eram tão pequenos que “nós [a equipe] não conseguíamos nem ficar dentro deles”.

De segunda a sábado, submetidos a uma jornada que podia chegar a até 15 horas por dia, os bolivianos teriam a função de ensinar às demais vítimas a costurar. Assim, os haitianos tiveram suas carteiras de trabalho assinadas na função de “aprendiz de costureiro”. A fiscalização apurou que a maioria dos trabalhadores tinha mais do que a idade máxima, de 24 anos, para exercer a função de aprendiz e não havia qualquer instituição acompanhando o aprendizado. O artifício tinha a função de permitir o registro em carteira com salário de R$724, o mínimo brasileiro e inferior ao piso, de R$1017, da categoria dos costureiros para a região.

Fome - Apesar de baixo, o salário nunca veio. A alimentação, outra promessa inicial, era de baixa qualidade e não havia refeitório no local. Quando, quase dois meses depois do início do trabalho, as vítimas reclamaram que queriam ser pagas, receberam da dona da oficina um vale de R$100. Em contrapartida, deixaram de receber comida.

Ao chegar ao local, a fiscalização encontrou os trabalhadores almoçando pães franceses que eles mesmos haviam comprado. Os fiscais também descobriram uma cozinha de uso exclusivo da dona da oficina e em melhores condições do que a disponibilizada aos costureiros. Dentro dela, os alimentos eram escondidos no interior de um sofá. “O que mais me chocou foi ver a crueldade do ser humano de deixar trabalhadores passando fome, de ter o alimento e não fornecer, deixando-os em situação de penúria”, lamentou Elisabete.

Antes de deixar a oficina, a equipe interditou o imóvel e as máquinas de costura pelo “grave e iminente risco de incêndio”, conforme os fiscais escreveram no relatório da operação, por conta de instalações elétricas irregulares, da falta de extintores dentro do prazo de validade e da não existência de proteção das partes móveis das máquinas de costura.

A confecção As Marias foi responsabilizada pelas infrações aos direitos dos trabalhadores com base nasúmula nº 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST). A empresa pagou todas as verbas rescisórias e os salários atrasados dos funcionários e firmou Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho para fornecer cestas básicas e hospedagem às vítimas.

Já Daniel, que passara por outros empregos no Acre, Rio Grande do Sul e São Paulo antes de ser escravizado, disse pensar em voltar para seu país natal: “No Brasil tem muitos empregadores que falam para a gente [haitianos] que vão pagar uma coisa e, quando a gente chega lá, acabam pagando menos, não pagam hora extra… Muitos empresários pagam direito, mas eu tive muitos problemas”, explicou.

MTE assina protocolo contra escravidão – Em coletiva de imprensa, o superintendente regional de São Paulo do MTE, Luiz Antônio de Medeiros Neto assinou portaria que regulamenta o envio direto de ofício com informações sobre empresas flagradas com trabalho escravo no Estado de São Paulo para a Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae) e a Secretaria da Fazenda do Estado. A medida visa garantir a efetividade da lei nº 14.946/2013, que prevê a cassação do registro do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de empresas flagradas com trabalho escravo e seu banimento do estado por dez anos.

domingo, 22 de junho de 2014

Para ouvir o Haiti

publicado: gazeta do povo - 21/06
Músicos haitianos fundaram em Curitiba o grupo Recif, que pretende mostrar a cultura do país por meio do compas, seu ritmo mais tradicional
Entre os muitos percalços que os haitianos vêm encontrando ao se instalarem no Brasil nos últimos anos, o não reconhecimento de suas habilidades e talentos pode ser o pior – pelo menos para os jovens músicos do Haiti que fundaram em Curitiba o grupo Recif, em janeiro deste ano.
A banda foi criada com um propósito defendido de forma apaixonada por seus 18 integrantes: mostrar, por meio de um gênero tradicional do Haiti, o compas, uma faceta cultural do país caribenho que a maioria dos brasileiros não conhece.
A ideia também é um desafio ao preconceito. “Há pessoas no Brasil que acham que os haitianos e o povo negro não conhecem nada, não têm nada de bom para oferecer. Por isso, nos tratam mal. Mas temos talentos escondidos”, explica Evens Mondesir, um dos cantores do grupo, que se apresenta neste domingo, às 19 horas, na Pulse.
O nome da banda vem da palavra recife, em francês, e é uma espécie de resposta a esse menosprezo percebido pelos haitianos. Na metáfora do grupo, o recife é o obstáculo que surpreende o navio de cruzeiro e o afunda. Em outros termos, é um fator que pega de surpresa alguém que se considera em uma posição de superioridade.
“Todo o povo haitiano é um recife. Se você conhecer a história da independência do Haiti da França, verá que somos o primeiro povo negro livre, que venceu o exército francês, o maior do mundo na época”, explica o guitarrista, compositor e arranjador Amos Saint-Juste, líder do grupo.
Compas
As armas do Recif, no entanto, são canções solares, dançantes, tocadas com alegria pelos seus integrantes, que já se conheciam no Haiti – a maioria é da região de Gonaives, cidade do norte do país. As letras falam de temas como amizade, como em “Mwen La Toujou”, uma das músicas tocadas pelo grupo, que também está criando suas próprias composições.
O compas é um gênero popular cheio de síncopas, derivado do méringue, um ritmo haitiano de raiz. Ficou conhecido nos anos 1950 por meio do músico Nemours Jean-Baptiste (1918-1985), e divide as atenções dos haitianos com a invasão do zouk, outro estilo caribenho de sucesso massivo, originário de Guadalupe.
No Recif, é tocado com guitarras (Saint-Juste e Elysée Succes), contrabaixo (Bertrode Darius), teclados (Gédéon Sajous e Abdias Marcelin), bateria (Harry Mervil e Mdjy Oscar) e percussões (Becken Noel, Claudin Presendieu e Dieucene Archelus). Completam o grupo os cantores Sonel Mondesir, Evens Mondesir, Daniel Felice e Berthony Pierre, além de Ezechiel Charles, Huguenson Jean, Pierre-Michel Jean e Reginald Elysee, em funções administrativas.
Os integrantes do grupo entraram no Brasil com visto, favorecidos pelo acordo diplomático firmado com o país caribenho. Têm ensino superior e trabalham em áreas variadas. O principal objetivo é viver de música. “Tem gente que vem para trabalhar na construção civil. A maioria do povo brasileiro pensa que todos vêm para isso. Mas também temos uma cultura para mostrar”, diz Saint-Juste, que estuda violão no Conservatório de MPB. “É isso que vamos explorar”, completa Evens.