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terça-feira, 3 de março de 2015

Termina hoje prazo para estudante participar da lista de espera do ProUni

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Encerra-se hoje (3) o prazo para os estudantes participarem da lista de espera do Programa Universidade para Todos (ProUni). A inscrição na lista é feita pela internet, na página do programa. Pode participar o aluno que não foi selecionado nas duas chamadas do ProUni e quem não foi chamado por não ter formado turma.
A relação dos candidatos na lista de espera será divulgada no dia 6 de março. O participante deverá comparecer, entre os dias 10 e 11 de março, à instituição de ensino na qual pretende fazer o curso e entregar a documentação para comprovar as informações prestadas no momento da inscrição. Após a entrega, o estudante aguarda a possível convocação.
O Prouni oferece bolsa de estudo integral ou parcial em instituições particulares de educação superior. Os candidatos concorrem às bolsas com base na nota do Exame Nacional do Ensino Médio.
Nesta primeira edição de 2015, o ProUni registrou 1.523.878 inscritos. São oferecidas 213.113 bolsas para 30.549 cursos em 1.117 instituições de ensino superior privadas.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Comunidade Negra no ENEM: Professor Denis dá dica de Filosofia

Nesta videoaula, o professor de Filosofia, Denis Denilto Laurindo, analisa a Teoria do Conhecimento a partir de pensadores como, René Descartes, John Locke e Immanuel Kant e, respectivamente, as correntes do Racionalismo, Empirismo e do Criticismo. O professor analisa e resolve duas questões do Enem de 2013 e alerta que o filósofo Immanuel Kant tem sido recorrente no exame, desde 2009.
TV Paulo Freire. 2014.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Alunos da Uninove fazem protesto contra o racismo em São Paulo

Daniel Santos
Do BOL, em São Paulo

Na quarta-feira (15), uma mensagem racista foi encontrada em um dos banheiros da Uninove, no campus da Barra Funda, em São Paulo. A mensagem foi apagada

Um grupo de estudantes se reuniu em frente à Universidade Uninove, nesta sexta-feira (17), no campus da Barra Funda, em São Paulo (SP), para protestar contra racismo na instituição. Na quarta-feira (15), uma mensagem racista foi encontrada em um dos banheiros da faculdade. "Lugar de negro macaco é na senzala, não na faculdade", dizia o texto, fotografado por alunos. Com alto-falante e cartazes, os manifestantes chamaram a atenção ao gritarem, em coro, "racistas não passarão".

Segundo Danilo Gonçalves, 26, estudante de ciências sociais, o objetivo do ato é "transbordar a aculdade", ou seja, mostrar que o preconceito é está em toda parte. "O racismo, ou qualquer outro preconceito, não acontece só aqui. Queremos também conscientizar quem passa e vê o nosso protesto. A mensagem nazista do banheiro foi o que nos motivou, mas estamos aqui para repudiar qualquer tipo de discriminação".
Danilo também contou que a segurança do prédio foi alertada sobre a mensagem, mas disse aos alunos que se tratava de uma "situação normal e corriqueira".
Para Carina Vitral, 25, do curso de economia, a manifestação é mais um aviso à sociedade. "É importante dar visibilidade a um problema que é tão recorrente. A mensagem do banheiro remete a duas situações abomináveis: o texto fala em 'senzala', que nos leva a sofrer de novo por um período nefasto da nossa história. Além disso, o autor fala em exclusão quando diz que 'lugar de negro não é na faculdade'. Queremos reforçar que, sim, já temos política de inclusão válida para todos".

Na quinta-feira (16), uma nota do site SPresso SP apontou para outras situações de discriminação. Segundo a nota, um indivíduo com uma suástica tatuada no braço teria ameaçado de morte um punk que estava com os estudantes em um bar próximo à faculdade, e um suposto grupo de alunos de direito, ditos nacionalistas, teria ameaçado uma universitária.

Os manifestantes dizem desconhecer os casos. Porém, de acordo com um professor que acompanhava o ato, alunos já reclamaram de grupos integralistas nos arredores ou na própria faculdade. Mas o docente, que não quis ser identificado, diz que não tem como comprovar se essas facções são efetivas ou se foram casos isolados, "talvez motivados pelas discussões polêmicas das Eleições".
A manifestação, que durou cerca de uma hora, foi finalizada com uma música do rapper Criolo.
A universidade
De acordo com o estudante Danilo Gonçalves, a diretoria da Uninove tomou conhecimento da mensagem – que foi apagada - e prometeu se reunir com alunos para conversar sobre o ocorrido. "A faculdade se ateve ao problema e sugeriu que nos juntássemos para elaborar um projeto de conscientização, ainda indefinido e sem prazo".

Procurada para falar sobre o caso, a universidade não se pronunciou.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Psicologia e racismo: o desafio de romper a omissão




Mestre em Psicologia Social Valter da Mata defende a necessidade de se rever algumas das lógicas reproduzidas pela Psicologia brasileira, que precisa dar mais atenção ao problema do racismo

publicado: Revista Fórum
Por Jarid Arraes

No Brasil, há uma profunda dificuldade em se ter acesso a dados sobre a saúde mental da população negra. Isso acontece porque a cor não é uma informação coletada e analisada pelos órgãos responsáveis, como se o recorte racial fosse irrelevante para compreender os transtornos mentais. Para entender melhor sobre o tema, é preciso se aprofundar na busca de trabalhos acadêmicos pontuais e livros escritos por psicólogos que, não por acaso, são na maioria das vezes pessoas negras.

Segundo um artigo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria e disponível no Scielo, “os sujeitos de cor negra permaneceram, em média, 71,8 dias internados [em hospitais psiquiátricos], enquanto os de cor parda permaneceram 20,3 dias e os de cor branca, 20,1 dias”. No entanto, é importante perceber que essas pessoas são as que se encontram nos quadros mais agudos de desamparo, pois não recebem visitas e, muitas vezes, não possuem familiares ou amigos que possam oferecer assistência após o período de internação.

Um exemplo desse tipo de equívoco quanto ao recorte racial dos transtornos mentais, especialmente se tratando do acolhimento de pessoas negras, pobres e moradoras de rua, aconteceu no dia 6 de fevereiro de 2013 no Crato, cidade que fica na região do Cariri, interior do Ceará. Um cidadão negro chamado Francisco do Nascimento, que sofre de transtornos mentais, entrou em surto no centro da cidade após ser insistentemente maltratado e provocado pelas pessoas ao seu redor, que rejeitavam a sua presença nas calçadas e arredores. Francisco foi amarrado a um poste por dois agressores e a polícia foi chamada ao local, onde os policiais se negaram a socorrer e transportar o homem a um centro onde pudesse ser atendido. Por horas preso sob tratamento humilhante e desumano, o cidadão virou personagem principal de uma situação lamentável, onde as pessoas o observavam como um ser exótico e conviviam naturalmente com a imagem de um homem negro amarrado em praça pública.


A humilhação pública de Francisco do Nascimento (Foto Raquel Paris)

Em relato sobre o caso publicado no blog da jornalista Raquel Paris, alguns pontos importantes são apresentados no desfecho da situação: “Por fim, soldados do Corpo de Bombeiros o desamarraram e encaminharam Francisco ao único hospital psiquiátrico de toda região. Chegando ao Santa Tereza, foi admitido e medicado. No dia seguinte, atendido pela psicóloga Leda Mendes Pinheiro, reclamou da forma com que foi tratado e principalmente por nem água ter bebido. Segundo ele, sua intenção era juntar o lixo da rua. Tudo se transformou em caso de polícia quando os lojistas foram hostis e ele reagiu com hostilidade. Ainda segundo a psicóloga, ele estava bem, orientado e participando das atividades”.

No entanto, a realidade da população de rua e das pessoas negras que acabam necessitando de atendimento psiquiátrico e internações não é a única face do racismo como problema de saúde mental. O racismo vigente no Brasil causa prejuízos à autoestima e autonomia das pessoas negras e suas consequências são seríssimas em diversos âmbitos subjetivos e sociais. De uma forma ou de outra, esse conhecimento não é devidamente divulgado e, ao contrário de diversos outros temas relacionados à Psicologia, o conteúdo sobre o assunto é escasso até mesmo na internet.

Além disso, as ações promovidas pela Psicologia brasileira, representada por seus órgãos responsáveis e instituições de ensino, são extremamente pontuais, tímidas e, quando ocorrem, limitadas ao âmbito acadêmico.

O racismo não é problema da Psicologia?

Valter da Mata é psicólogo, mestre em Psicologia Social e professor universitário, além de ser membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia. Ele está envolvido em diversas atividades e reivindicações para que a Psicologia dedique mais atenção ao problema do racismo no Brasil e fala abertamente sobre a necessidade de rever algumas das lógicas reproduzidas pela Psicologia brasileira. Em entrevista concedida à Fórum, da Mata discorre sobre o problema do racismo no Brasil e por que a Psicologia deve se debruçar para combatê-lo. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Fórum – Como surgiu o seu interesse pela temática racial na Psicologia?

Valter da Mata – Ainda estudante, fui convidado por uma ONG, na época chamava-se Cooperativa Educacional Steve Biko, para ministrar uma disciplina chamada CCN – Cidadania e Consciência Negra. Em contato com os estudantes desta instituição, pude ver por um outro prisma os impactos do racismo na construção psíquica daquelas pessoas. Baixa autoestima, que se caracterizava por escolhas de carreiras baseadas nas menores concorrências; identidade étnicorracial fragmentada, geralmente com negação das referências africanas. Daí por diante, levei essas inquietações para minha formação.

Fórum – Foi difícil encontrar produções voltadas para o assunto?

Da Mata – Publicações na Psicologia, quase nenhuma, tive que me orientar por psicólogos norte americanos e textos de antropologia e sociologia. Na década de 1990, a produção acadêmica sobre relações raciais da Psicologia brasileira era pífia.

Fórum – Como você enxerga a formação da Psicologia no Brasil hoje? O racismo é um tema abordado nas grades curriculares?

Da Mata – A formação da Psicologia no Brasil passa por um momento de transformação, mas ainda muito lenta. Parece que a fase de casulo ainda vai demorar. As Instituições de ensino, aliadas à representação social do trabalho do psicólogo, continuam privilegiando o trabalho de clínica individual no consultório como o principal. Parece que ainda não se ligaram no contexto atual, onde cresceu assustadoramente o número de cursos de Psicologia em todo Brasil, além da necessidade de ocupação de postos nas mais diversas políticas públicas.

Desconheço completamente a abordagem do racismo nos cursos de Psicologia, mesmo sendo um tema que pode ser discutido em todas as disciplinas. Vejo isso mais enquanto iniciativas particulares de alguns professores. Infelizmente a maioria, mesmo tendo a obrigação de fazer a inclusão do tema, não o faz. Essa obrigação é devido as leis 10639 e 11645, que determinam o ensino da história e cultura dos povos africanos e indígenas, além de temas correlatos, desde o ensino fundamental até o ensino superior.

Fórum – Mesmo com mais de 50% da população sendo autodeclarada negra, por que é tão raro encontrar disciplinas e eventos acadêmicos na Psicologia voltados para o problema do racismo?

Da Mata – O motivo para isso? Difícil responder um único motivo, provavelmente deve ser multifatorial: acredito que parte minimiza o problema, tratando-o como algo menor; outros devem acreditar que a Psicologia nada tem a ver com isso; outros devem acreditar no mito da democracia racial, onde existe uma convivência pacífica entre as raças; outros adotam o discurso antirracistas blasé, onde não existem raças, somente uma única, a humana, e falar de racismo e de raças seria acirrar os ânimos, num típico discurso “deixa quieto”. Enfim, são múltiplas.

Fórum – Independente da abordagem psicológica escolhida pelo aluno ou profissional, é possível tratar o racismo como algo que gera sofrimento psíquico? É possível ir a fundo nessa questão e dar ao racismo um tratamento similar ao dado para questões como depressão, estresse, ou até outros transtornos mentais?

Da Mata – Não conheço todas as abordagens psicológicas, portanto fica difícil responder com precisão essa pergunta. Mas para mim a primeira coisa que o profissional ou estudante pode e deve fazer, é acreditar que o racismo existe no nosso país e que ele pode gerar sofrimento psíquico. Uma situação de discriminação racial, das mais sutis possíveis, pode vir a desencadear situações de extrema angústia, refletindo decisivamente na autoestima do indivíduo. A discriminação racial não pode ser tratada como algo “natural” ou “normal”, é algo que humilha e faz sofrer. Evidentemente, cada sujeito elabora de acordo com seus repertórios cognitivos e culturais cada demanda.

Fórum – Muitas pessoas negras que buscam psicólogos relatam casos de discriminação na psicoterapia. Muitas vezes, esses profissionais tratam o racismo como um problema individual e até mesmo de “paranoia” ou “síndrome de perseguição”, chegando à culpabilização da pessoa negra, que é revertida como racista por enxergar racismo em toda parte. Como trabalhar melhor essas questões na psicoterapia, já que a psicoterapia é uma prática difícil de se “fiscalizar” e acompanhar?

Da Mata – Temos que entender o contexto em que se dá essas relações. A Psicologia se estabeleceu como uma ciência burguesa, exercida por e tratando burgueses. O padrão de normatividade também segue o que advém da burguesia. O Brasil foi forjado no mito da democracia racial, que foi e de certa forma ainda é, uma justificativa perfeita para explicar as condições materiais, psicológicas, de status e tantas outras: a própria incompetência, algo inato da raça negra. Esse mito esconde os privilégios historicamente destinados à população branca e assim tomar essa “superioridade” enquanto algo natural. Esse pano de fundo se torna um terreno fértil para o psicólogo que não se dedica a estudar as relações raciais cair na vala do senso comum e acusar a vítima como culpada da sua situação. Chamo isso de “crimes perfeitos”, onde a própria vítima é a culpada, muito parecido com os casos de estupro, onde as mulheres são vistas enquanto culpadas pelo ato. Creio que fiscalizar a prática desses profissionais é difícil, mas cabe realmente ao cliente denunciar, mesmo sendo difícil provar o ocorrido, cabe uma acareação, cabe uma orientação por parte do Conselho Regional, cabe apresentar a resolução 18/2002. Provavelmente esse comportamento tenderá a desaparecer, uma vez que essa prática poderá colocar sua atuação profissional em risco.

Fórum – Como cobrar os conselhos regionais e federal para que desenvolvam iniciativas e eventos voltados para a discussão e o combate ao racismo? Estudantes e profissionais podem exigir isso dos conselhos?

Da Mata – Os profissionais e estudantes podem e devem exigir dos conselhos toda e qualquer discussão de interesse dos mesmos. O Congresso Nacional da Psicologia aponta como diretriz a ser contemplada pelas gestões regionais e federal abordar as questões étnicorraciais, portanto ao realizar essas ações, os conselhos regionais estão cumprindo as diretrizes nacionais da Psicologia.

Fórum – Na sua perspectiva, é um desafio para a Psicologia levar esse tema para além dos ambientes acadêmicos?

Da Mata – A Psicologia por muito tempo ratificou as diferenças raciais. Testes de inteligência e tantos outros foram utilizados para ratificar a superioridade da raça branca. No Brasil, a Psicologia após da década de 1950 calou-se diante da temática, deixando a discussão para outras ciências como a Sociologia e Antropologia. Entretanto é o discurso psicológico que pode estudar, avaliar e entender os efeitos subjetivos do racismo. Saber em que medida essa chaga interfere nas relações entre as pessoas baseados nos seus traços fenotípicos, especialmente no que diz respeito a construção das identidades pessoal e social.

Fórum – O Código de Ética do Psicólogo diz que é proibida a manifestação de opiniões discriminatórias. Se um profissional manifesta opiniões racistas nas redes sociais, por exemplo, como levar esse problema para os conselhos? É possível?

Da Mata – Essa proibição está bem explicitada na resolução 18/2002, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e discriminação racial. Caso o profissional manifeste opiniões racistas cabe a outros psicólogos, a sociedade e até mesmo o próprio conselho fazer a denúncia. Na minha prática docente, faço questão de apresentar a resolução a todos os alunos, enquanto conteúdo básico da disciplina.

Fórum – Afinal, qual é o papel da Psicologia na luta contra o racismo brasileiro?

Da Mata – Podemos dizer que somente no século XXI a Psicologia acordou para estudar o fenômeno do racismo e suas repercussões psicológicas. Por décadas psicólogos desenvolveram teorias que sustentaram e ratificaram o binômio superioridade/inferioridade das raças humanas. No Brasil, temos a forma mais sofisticada de racismo já elaborada, sem leis explícitas que ratifiquem a exclusão, é um racismo que vai sendo veiculado em doses às vezes homeopáticas, às vezes cavalares, no cotidiano. Os atores sociais vão assimilando essas crenças, que determinam lugares, justificam o status quo, dentre outras consequências. Cabe à Psicologia, juntamente com outros saberes, ajudar a decifrar esse enigma, essa ideologia perversa que aprisiona e produz sofrimento de diversas ordens. Cabe aos psicólogos enfrentarem o mito da democracia racial, dentre tantos outros mitos, para que possamos criar uma ciência e profissão realmente engajada na promoção dos direitos fundamentais, para a construção de uma sociedade equânime.




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Enem terá 15 mil candidatos idosos


publicado:Agência Brasil
Não são apenas os jovens que estão buscando a educação no Brasil. Os idosos, que comemoram hoje (1º) o seu dia, estão procurando, cada vez mais, desde o ensino básico até o ensino superior. Alguns realizam o sonho de fazer a segunda graduação em uma área que sempre lhes despertou interesse, outros alcançam a meta de aprender a ler e escrever.
O Dia do Idoso foi instituído pela Organização das Nações Unidas e, posteriormente, escolhido para a criação do Estatuto do Idoso, que comemora 11 anos.

Neste ano, 15,5 mil idosos fizeram a inscrição no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O número de inscritos com 60 anos ou mais cresce anualmente. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), no ano passado esses inscritos somaram 10,9 mil. Em 2009, foram 4,7 mil idosos.
O Enem é a porta de entrada para instituições de ensino superior e técnico, além do financiamento estudantil e intercâmbio acadêmico. Neste ano, as provas serão aplicadas nos dias 8 e 9 de novembro. No total, foram 8,7 milhões de inscritos.

“O aumento de idosos está sendo identificado em várias instituições de ensino superior. São pessoas aposentadas, que por vezes já têm diploma de ensino superior e buscam outros cursos. Procuram uma mudança de carreira ou a realização de um sonho”, diz o superintendente-geral de Educação a Distância do Centro Universitário Iesb, em Brasília, Francisco Botelho.
“O nível de entendimento daquilo que é repassado, de compreensão e assimilação, é diferente”, compara a segunda com a primeira graduação, concluída quando tinha pouco menos de 30 anos. “Tenho assimilado com mais facilidade por causa da experiência que acumulei. Tenho também mais tranquilidade com o conteúdo que é colocado”, diz.Ele lembra também os estudantes que buscam o ensino superior particular, sem bolsas. Segundo Botelho, muitos procuram os cursos a distância pela comodidade. O engenheiro agrônomo aposentado Tarcisio Siqueira é um desses estudantes. Ele tem 75 anos, 41 dedicados à agronomia. Depois de aposentado, para “exercitar o cérebro”, decidiu estudar engenharia civil a distância.

Luiz Pereira de Souza, 84 anos, sapateiro aposentado, realiza o sonho de aprender a ler. E garante: “Estou me dando muito bem”. Luiz entrou neste ano em um grupo de alfabetização de adultos no Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá (Cedep), no Distrito Federal. Quando as aulas começaram, já sabia ler “alguma coisa e escrevia o nome”. Agora, ele, que é evangélico, consegue ler a Bíblia. 

“Estudar é muito bom, a gente aprende muita coisa, a ler, escrever, contar. A professora é gentil, tem muita paciência comigo”, diz o estudante.
“Na minha opinião, esses alunos procuram outro modo de vida, outro conjunto de pessoas, uma vida em que tenham representatividade. Quando chegam, necessitam de carinho, atenção. Não é mais para entrar no mercado de trabalho, mas para se comunicar. É um sonho de aprender”, explica a coordenadora de curso do Programa DF Alfabetizado, Eva Lopes. “A alfabetização muda a vida. Tive uma aluna que aprendeu a ler comigo, com mais de 80 anos. Ela me disse que começou a se deslocar mais quando aprendeu a ler a palavra Paranoá e sabia que ônibus devia pegar”, conta a alfabetizadora.
Os idosos são hoje no país 26,3 milhões, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa 13% da população. A expectativa é que esse percentual aumente e que em 2060 chegue a 34%, segundo previsão do próprio IBGE.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Maior parte dos candidatos é formada por mulheres e negros

publicado: portal.mec.gov.br
O perfil dos participantes do Enem de 2014 mostra que 57,11% dos inscritos se declararam negros; as mulheres são maioria (foto: guiadoestudante.abril.com)

A maior parte dos inscritos para a edição de 2014 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é composta por mulheres, pessoas negras, estudantes que já concluíram o ensino médio e candidatos oriundos da região Sudeste. Mais de 8,7 milhões estudantes farão, nos dias 8 e 9 de novembro, as provas do exame.

Entre os participantes, 4.990.025 já concluíram o ensino médio, enquanto 1.748.588 devem terminá-lo este ano. As mulheres representam 58,11% candidatos – mais de 5 milhões. O perfil dos participantes também mostra que 57,91% dos inscritos se declararam negros e 37,7%, brancos.
De acordo com o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Chico Soares, a Lei de Cotas [Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012] explica a grande participação dos negros no exame. “Com as cotas, tivemos os alunos negros vindo para o Enem e procurando usar uma oportunidade que antes não estava aberta”, disse. “Percebe-se uma mudança de acolhimento na educação superior ensino superior via Enem.”

A divisão geográfica dos inscritos aponta que a região Sudeste tem a maior parte dos participantes; são 35,27%, seguido das regiões Nordeste, com 32,99%; Sul, com 11,97%; Norte, com 10,89%, e Centro-Oeste, com 8,85%. São Paulo, que tem 15,19% dos candidatos, Minas Gerais (11,23%) e Bahia (7,63%) são os estados com maior percentual de inscritos.
O Enem será realizado em dois dias. No primeiro os estudantes terão quatro horas e meia para fazer as provas de história, geografia, filosofia, sociologia, química, física e biologia. No segundo dia os participantes terão cinco horas e meia para fazer as provas de matemática, língua portuguesa, literatura, artes, educação física, tecnologias da informação e comunicação e língua estrangeira, além da redação. Nos dois dias as provas terão início às 13 horas, no horário de Brasília.

Para responder a prova, o estudante deve apresentar um documento de identidade com foto e preencher o caderno de respostas com caneta esferográfica preta. O aluno só pode deixar o local da prova duas horas após o início do exame e só terá permissão para levar o caderno de questões se sair nos trinta minutos finais do horário de prova.

Assessoria de Comunicação Social

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Lugar de negro é onde ele quiser

por Aline Silveira
publicado: blogueirasnegras.org

Quando se pensa em políticas públicas para os negros está se assumindo que existe racismo no Brasil. A recente pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) diz que no país há cerca de 97 milhões de pessoas negras (pretas ou pardas),
contra 91 milhões de brancos. Somos a maioria, entretanto nossa representação no âmbito acadêmico é de somente 11% no Brasil. Fica nítido que a disputa por conhecimento é uma guerra declarada por poder.

A visibilidade da população negra permaneceu por muito tempo ignorada no RioGrande do Sul. O estado é conhecido por ser reduto europeu, principalmente, por conta da imigração alemã e italiana. Os hábitos e as características físicas dos gaúchos são considerados heranças exclusivas do branco europeu. No entanto a região tem uma considerável população negra que luta para ser reconhecida. Em Pelotas e Rio Grande, por exemplo, o número de habitantes negros chega a 80%.

As vagas reservadas às cotas, nas instituições estaduais, teve início em 2003 na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), logo seguida pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). No ano seguinte, 2004, a Universidade de Brasília (UnB) se torna a primeira universidade federal a aderir às cotas. No Rio Grande do Sul, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) os debates em torno de ações afirmativas de cotas surgiram em 2004. Muitos argumentavam que a entrada de negros na UFRGS iria baixar o nível de ensino, atrapalhando a evolução dos outros alunos.

O índice de estudantes negros em instituições de ensino superior é muito baixo no estado. Pesquisas recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) indicam que a taxa de analfabetismo entre negros e pardos é de 26,7%. Entre os
brancos, esse número fica em 5,9%. Em 2006 foi designada, pelo então reitor, José Carlos Ferraz Hennemann, uma Comissão Especial para elaborar programas de ações afirmativas na UFRGS. Entretanto, dias antes de decidir se adotava ou não o sistema de
cotas raciais e sociais, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul amanheceu com.seus prédios pichados com ofensas racistas do tipo: “Negros só se for na cozinha”, “Lugar de macaco é no zoológico” e “Voltem para senzala, cotas não”.

O programa de cotas na UFRGS foi aprovado em 2007 e regulamentado pela Decisão no 134/2007 do Conselho Universitário. Na instituição são designadas 15% de vagas para alunos vindos de escolas públicas e outros 15% a alunos autodeclarados negros, que também devem ter obtido sua escolaridade na rede pública. Caso não haja preenchimento dessas vagas pelas cotas, elas retornam para o acesso universal.

Contudo, o ingresso dos negros na universidade é apenas o primeiro passo de uma série de desafios. Manter-se nela é tão difícil quanto passar no vestibular. Os críticos às cotas afirmam que elas são vias de acesso fácil, que esses auxílios tornam as pessoas preguiçosas, que tem que ensinar a pescar e não dar o peixe. As universidades seguem o modelo de educação baseada na meritocracia como forma de barrar o avanço do povo preto no ensino superior. Enquanto a elite branca estuda nos melhores colégios particulares, aprendendo inglês, francês, espanhol desde os 6 anos de idade e viaja pela Europa nas férias, o jovem negro está no ensino público e muito provável trabalhando para ajudar na renda familiar. Não existe igualdade.

É hora da sociedade gaúcha, que tem um longo histórico racista, aceitar que a universidade é para todos. E que lugar do negro não é mais na cozinha do restaurante universitário. Negros não são mais os porteiros que vocês cumprimentam na entrada da
faculdade. A negra não é mais a faxineira que limpa o banheiro da UFRGS. Ela está na sala de aula, e estamos aqui para dizer, em alto e bom som, que lugar de negro é onde ele quiser.
*Aline Silveira
Sou de Porto Alegre-RS. Graduada em História e
 atualmente estou no 3 semestre de jornalismo na UFRGS.
Aline Silveira

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

UFMG decide expulsar estudante que praticou trote racista

publicado: uol 
Carlos Eduardo Cherem 
 Belo Horizonte
O Conselho da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) decidiu nesta terça-feira (12) pela expulsão de um estudante de direito que participou de trote com conotações sexistas, racistas e nazistas na instituição, em março de 2013
18.mar.2013 - Trote realizado por alunos da Faculdade de Direito da UFMG gera acusações de racismo
Outros três alunos envolvidos serão suspensos por um semestre.
O rapaz expulso aparece numa foto amplamente divulgada em redes sociais acorrentando a uma estudante pintada de preto, com a inscrição: "caloura Chica da Silva". Os outros três participantes amarraram um calouro em uma pilastra e aparecem na imagem fazendo a clássica saudação nazista, erguendo o braço direito.


18.mar.2013 - Trote com saudação nazista na Faculdade de Direito da UFMG

Uma comissão da UFMG investigou 134 estudantes que participaram do trote, desde outubro do ano passado, e seu parecer serviu de base para a decisão do conselho.

Segundo o reitor da UFMG, as punições aos estudantes foram adequadas. "A universidade tem uma responsabilidade perante a sociedade e a comunidade, e atos como esses não podem ser tolerados", disse.
O UOL não localizou representantes dos estudantes para comentar a decisão.
Relembre o caso
O trote ocorreu em 15 de março do ano passado nas dependências da faculdade. As duas fotos "viralizaram" nas redes sociais, em especial no Facebook, com mais de 2.500 compartilhamentos em menos de 5 horas, e causaram protestos em grupos de discussão relacionados à universidade.
Na página do Facebook do CAAP (Centro Acadêmico Afonso Pena), da Faculdade de Direito, enquanto alguns internautas consideraram o trote "ofensivo" e "humilhante", outros disseram se tratar apenas de uma brincadeira tirada do contexto.
Em abril de 2013 o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial publicou moção de repúdio ao trote no DOU (Diário Oficial da União) e solicitou providências à UFMG.
A UFMG, por sua vez, divulgou nota de repúdio às "brincadeiras" feitas durante o trote. "Elas representam um ato de violência que não faz parte da vida acadêmica".

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Inovação e qualidade na graduação: desafios da universidade de inclusão social

publicado: gazeta do povo
por: ZAKI AKEL SOBRINHO E MARIA AMELIA SABBAG ZAINKO*

Muitos são os desafios a ser enfrentados pelas universidades brasileiras frente ao compromisso de expansão, interiorização e recepção de um alunado que chega em busca de um processo de formação pessoal e profissional de qualidade, com pertinência social e com possibilidade de uma experiência internacional que certamente ampliará a sua visão de mundo e de país. Viver a universidade será firmar conceitos e compromissos com a democracia, a responsabilidade, a inovação e a sustentabilidade.

Para tanto, a universidade de inclusão social que todos desejamos e que estamos construindo se apresenta como espaço democrático, público e inclusivo, como lócus de todos(as) e para todos(as) reafirmando a crença e o compromisso de que é fundamental mantê-la pública, gratuita, de qualidade e socialmente responsável, com políticas de ensino de graduação e pós-graduação, de pesquisa e de extensão calcadas na qualidade social e na excelência acadêmica, e com políticas de assistência estudantil construídas no diálogo.

A ampliação e o fortalecimento do apoio aos estudantes de graduação e pós-graduação para a participação em projetos de pesquisa e a socialização dos resultados obtidos, a internacionalização dos conhecimentos no processo de formação acadêmica, o fortalecimento do esporte universitário, a formação cultural e artística são compromissos e desafios que estão presentes na construção desse novo caminhar da universidade.

Nossos programas de formação associam o intercâmbio de saberes com experiências vivas de articulação com a sociedade. Nossa meta é formar em nível de excelência agentes de mudança das realidades presentes, com vistas à construção de um futuro promissor.

O respeito à diversidade, a intensa integração à realidade do estado e do país, o engajamento ao tecido social e às demandas do mundo contemporâneo, e a ampliação das ações e políticas afirmativas com acessibilidade e atendimento às pessoas portadoras de necessidades especiais nos campi completarão os desafios de uma universidade republicana, cidadã, moderna, que respeita o legado de seu passado e é capaz de superar os desafios do presente em direção a um futuro de paz, fraternidade e justiça social para todos.

Neste mês de agosto, retomamos as atividades acadêmicas, e estaremos também abrindo as inscrições para nosso processo de ingresso, o vestibular 2014/2015. Convidamos você, que faz parte da vibrante juventude brasileira, a viver essa experiência fascinante de fazer a universidade que todos sonhamos.

*Zaki Akel Sobrinho é reitor da Universidade Federal do Paraná. Maria Amelia Sabbag Zainko é pró-reitora de Graduação da UFPR.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Concorrência das cotas gera ‘cobiça’ entre vestibulandos

publicado: gazeta do povo
matéria: Marcelo Frazão do JL

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) abriu 3 mil vagas para cursos de graduação no último vestibular. O sistema de cotas, iniciado há dez anos, reservou 1.212 vagas para a disputa exclusiva por alunos da rede pública (739 vagas) e por negros e pardos vindos da rede pública (473 vagas).

As cotas abriram as portas da UEL a estudantes que, até então, tinham mais dificuldade para ingressar no ensino superior. No entanto, como têm concorrência, em média, até cinco vezes menor do que as enfrentadas por candidatos não negros e vindos do ensino privado, o sistema também desperta cobiça.

Defesa
Cotista considerada não negra pela UEL sustenta a matrícula na Justiça
A estudante Gabriela Fernanda Carvalho de Oliveira, que concorria a uma vaga das cotas no curso de Medicina da UEL, não convenceu a comissão de que é parda e foi reprovada junto com outros seis inscritos. A UEL concluiu que ela é branca, baseada na foto dela na ficha de inscrição do vestibular e na entrevista com a comissão avaliadora. O juiz Marcos José Vieira, da 1ª Vara de Fazenda Pública, discordou e validou a matrícula.

“É possível depreender que a requerente tem traços que a distinguem notoriamente como pessoa da raça negra. A fotografia fala por si: os cabelos da requerente são encarapinhados e sua boca possui contornos pronunciados, características que, aliadas à cor mais para o moreno de sua pele, são bem próprias de pessoas de origem negra”, considerou o juiz.

O advogado Jackson Ariukudo afirmou não existirem dúvidas de que sua cliente é de cor parda. No recurso perpetrado na Justiça, a estudante anexou fotos dos pais (negros) e sustenta ser vítima de racismo decorrente da cor. “Existe muita subjetividade da comissão, que não fundamentou o motivo da recusa. Limitaram-se a dizer que não a reconhecem como cotista. E só.”

Em 2014, por exemplo, o curso de Medicina tinha concorrências bem distintas entre os dois segmentos cotistas e o de não cotistas. Na disputa geral, cada vaga tinha 98,25 candidatos. Nas cotas para quem estudou em escolas públicas, eram 72,19 por vaga. Já entre negros ou pardos de escolas públicas, 12,75 por vaga.

“Infelizmente, há quem tente burlar esse direito conquistado a duras penas pleiteando, de forma injusta e indevida, uma vaga em cursos por meio das cotas, com concorrências bem menores”, diz Margarida de Cassia Campos, professora da UEL que integrou a última comissão formada para validar as matrículas de candidatos que se declararam negros ou pardos.

Integram a comissão mem­­bros de movimentos negros, da UEL e de segmentos envolvidos com o tema. No último vestibular, sete alunos foram reprovados nessa avaliação, por não se enquadrarem na exigência de traços fenotípicos negros ou pardos. O critério desconsidera a ascendência negra, ou seja, entende-se que pais e avós negros não transmitem necessariamente ao candidato o direito de pleitear a vaga por cotas.

No começo deste mês, o juiz Marcos José Vieira, da 1.ª Vara de Fazenda Pública, determinou à UEL, em sentença definitiva, a matrícula da estudante Gabriela Fernanda Carvalho de Oliveira, 18 anos, de Matelândia, no curso de Medicina, pelas cotas para negros e pardos vindos do ensino público.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Professor inova ao utilizar Wikipédia como avaliação


Professor inova ao utilizar Wikipédia como avaliação
“Faz mais sentido que outras pessoas possam ter acesso do que ter um arquivo no meu pen drive”, opina a aluna que participou do projeto de verbetes sobre perseguidos da ditadura militar no Brasil

Por Isadora Otoni

Para João Alexandre Peschanski, que leciona Ciências Políticas na Faculdade Cásper Líbero, aplicar provas não faz mais tanto sentido. Para fugir de modelos de atividades arcaicas, o professor propôs que seus alunos fizessem verbetes na Wikipédia. Mas não sobre qualquer assunto: com os 50 anos de Golpe Militar, ele pediu que a memória dos perseguidos políticos da época fosse restaurada.

Mais do que usar a criatividade para causar impacto na formação dos estudantes de Jornalismo da faculdade, João Alexandre conseguiu mostrar a relevância da plataforma e a importância de uma boa apuração. E seus alunos confirmam. “Depois da desmitificação da Wikipédia, vemos que se você publicar um verbete sem referências bibliográficas ele vai ser deletado. Com isso, eu passei a usar a plataforma com mais confiança”, conta a aluna Sophia Winkel, de 19 anos.

Em dupla, a estudante escreveu uma página sobre Massafumi Yoshinaga, um perseguido durante a ditadura militar brasileira que se suicidou em 1976. “Tive um pouco de dificuldade de fazer sobre ele. Eu realmente tive que apurar tudo e a minha maior fonte de informação foi a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos”, relata Sophia, que se empolgou ao contar detalhes da vida de Yoshinaga.

A aluna teve dificuldades para usar a Wikipédia, por não ter familiaridade com a plataforma. No entanto, ela conta que o professor foi ensinando a manusear o site por etapas. Dessa forma, quando o projeto final foi proposto ela teve mais facilidades. “Logo na primeira vez em que tentei editar um verbete, pedi entre parênteses que não apagassem o que eu tinha feito porque ainda estava editando. Hoje em dia, acho um absurdo eu ter feito isso”, relembra. Com seu verbete no ar, Sophia se contenta por ter prestado um serviço para a sociedade. “Faz mais sentido que outras pessoas possam ter acesso do que ter um arquivo no meupen drive”.

Já a estudante Júlia Faria, de 20 anos, ressalta a complementaridade do projeto com a matéria de João Alexandre. “Além de aprender as minúcias de um período político tão importante, nós mesmos estávamos fazendo política. Trazer à vida essas pessoas desaparecidas pela ditadura é dar visibilidade a esse período que alguns parecem fazer questão de esquecer”, opina sobre o projeto.

A aluna escreveu sobre o militante desaparecido Luiz Almeida Araújo, e teve dificuldades em sua pesquisa. “Achei muitas informações contraditórias e muitas coisas ficaram incompletas”, conta. Manusear uma plataforma nova também não foi uma tarefa fácil, mas Júlia pontua que uma palestra feita em sala de aula a ajudou na atividade. Assim como Sophia, ela passou a dar mais credibilidade à Wikipédia. Além disso, as duas estudantes afirmaram que se tornaram colaboradoras ativas ao site.

Wikipédia, ditadura militar e Ciências Políticas: o que isso tudo tem a ver?


João Alexandre Peschanski conta que realizar o projeto foi fruto de diversas motivações. Quando o professor realizou seu doutorado, ele participou de um curso que usava a Wikipédia de maneira similar. “Foi meu primeiro contato e eu achei realmente interessante”, avalia. Outro impulso para a atividade era a discussão em torno dos 50 anos do Golpe Militar no Brasil e como ele e os estudantes poderiam contribuir com a Comissão da Verdade.

Por trás da lista de desaparecidos políticos, existiam três grandes objetivos. “O primeiro deles era efetivamente pedagógico. As novas tecnologias nos propõe impactar mais do que simplesmente uma provinha que o professor lê para verificar se o aluno decorou bem a matéria”, descreve. “Também pensei o curso como uma possibilidade dos alunos atravessarem essa barreira de serem simplesmente usuários ou leitores do Wikipédia e pudessem, a partir de oficinas, se tornarem editores. E tem esse aspecto de contribuição social-política, resgatando a memória de pessoas que sacrificaram a vida na luta contra a ditadura no Brasil”.

Para ele, a relação do projeto com Ciências Políticas é muito direta. “O tema foi abordado no primeiro bimestre, quando a gente discutiu formas alternativas de produção. A Wikipédia é uma forma alternativa de produção econômica“, comenta o professor, que cita o autor de A Riqueza das Redes, Yochai Benkler, como uma das referências para afirmação. “Outro lado é a discussão sobre o conteúdo que a gente acabou abordando, que é a ditadura”, disse Peschanski.

A atividade, que foi apoiada pelo Projeto Wikipédia na Universidade, abrangeu mais de 170 alunos trabalhando em pelo menos 166 verbetes, algo que João Alexandre ainda não tinha visto no Brasil. “Geralmente, os núcleos que são formados nas universidades públicas reúnem de 20 a 30 alunos que ficam fazendo contribuições. Aqui a dimensão era muito maior. Pelo aspecto quantitativo, o resultado é de muito impacto”, comemora ele.