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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Física é poesia!

Física é poesia! Mais do que ensinar uma disciplina, devemos mostrar para os nossos alunos por que nos apaixonamos por ela

Por Adilson J. A de Oliveira*
publicado: carta na escola

Um dos maiores desafios de ser professor é motivar os alunos para a disciplina que se leciona, em particular na área de Ciências. Como professor tive oportunidades de propor disciplinas de Física para a área de Ciências Biológicas e Humanas. Uma das minhas experiências mais interessantes foi o curso “Física para poetas”.

Trata-se de uma disciplina que existe em muitas universidades no exterior para cursos da área de Ciências Humanas. O objetivo é apresentar a Física sem formalismo matemático, destacando a parte mais bela e fascinante. A minha versão de Física para poetas é um pouco diferente. Além de utilizar o mínimo de formalismo matemático, costumo introduzir alguns elementos relacionado às artes, como a própria poesia, música, cinema e imagens de obras de arte. A escolha dos temas a serem abordados também tem alguma inspiração poética.

“O enigma do movimento”, “Memórias de um carbono”, “Admirável e fascinante pequeno mundo” e “O tempo em nossas vidas” foram algumas das aulas do curso. Na primeira foi possível falar sobre algumas das questões mais importantes da Física, como o movimento planetário, inércia e Teoria da Relatividade, de Einstein.

“Memórias de um carbono” é uma narrativa de um átomo de carbono contando a sua história, desde o seu nascimento, em uma distante estrela que morreu há bilhões de anos até o momento que esse átomo acabou de sair pela nossa respiração. Temas como Astronomia, Biologia, Evolução e Química surgiram ao longo dessa aula.
Na aula “Admirável e fascinante pequeno mundo” foi discutido o universo dos átomos, começando com as concepções gregas sobre a constituição da matéria e chegando à Física Quântica, uma descrição do mundo atômico. Gilberto Gil foi uma grande inspiração, por meio de seu álbum Quanta.
Em “O tempo em nossas vidas” é apresentado esse fascinante conceito físico que envolve não somente a Física, mas também a Biologia e até a Psicologia. Algumas músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, poesias de Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade ajudaram nessa abordagem. Não faltou também Tempo Rei, de Gil.
Apresentar conceitos científicos dessa forma requer um pouco de experiência, mas principalmente a percepção de tentar correlacionar a Física (e a ciência em geral) com as Artes, uma outra forma de manifestação do conhecimento humano. Como professor sempre pensei que mais do que ensinar uma disciplina devemos mostrar para os nossos alunos por que nos apaixonamos por ela. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Aspiração (Agostinho Neto)*





Ainda o meu canto dolente e a minha tristeza no Congo, na Geórgia, no Amazonas Ainda o meu sonho de batuque em noites de luar ainda os meus braços ainda os meus olhos ainda os meus gritos Ainda o dorso vergastado o coração abandonado a alma entregue à fé ainda a dúvida E sobre os meus cantos os meus sonhos os meus olhos os meus gritos sobre o meu mundo isolado o tempo parado Ainda o meu espírito ainda o quissange a marimba a viola o saxofone ainda os meus ritmos de ritual orgíaco Ainda a minha vida oferecida à Vida ainda o meu desejo Ainda o meu sonho o meu grito o meu braço a sustentar o meu Querer E nas sanzalas nas casas no subúrbios das cidades para lá das linhas nos recantos escuros das casas ricas onde os negros murmuram: ainda O meu desejo transformado em força inspirando as consciências desesperadas. (Sagrada esperança)

Poesia Africana
*António Agostinho Neto (Ícolo e Bengo, 17 de Setembro de 1922Moscovo, 10 de Setembrode 1979) foi um médico angolano, formado nas Universidades de Coimbra e de Lisboa, que em 1975se tornou o primeiro presidente de Angola até 1979. Em 1975-1976 foi-lhe atribuído o "Prémio Lenine da Paz".

terça-feira, 29 de julho de 2014

RESTO

por: Denis Denilto
Do céu as lágrimas caem e aqui 
embaixo, bem embaixo o coração dói.
Não resta muita coisa para o agora. 
Em um mundo "gris" esperar é a última esperança!
Não há nada novo neste instante.
Nesta manhã experimente o mesmo de antes.
As Lágrimas choram neste tempo cinza.
Tenho azia ao mesmo de sempre...
As folhas caem lentamente e lentamente
deixo adormecer minha mente.
Não adianta resistir!
As lágrimas caem e o coração dói
em um mundo cinza. 
Só me resta a azia depois de ver cair
lentamente as folhas dormidas na mente.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Solano Trindade - Conversa

Solano Trindade (poemas e cantos)

CONVERSA

- Eita negro!

quem foi que disse

que a gente não é gente?

quem foi esse demente,

se tem olhos não vê…

- Que foi que fizeste mano

pra tanto falar assim?

- Plantei os canaviais do nordeste

- E tu, mano, o que fizeste?

Eu plantei algodão

nos campos do sul

pros homens de sangue azul

que pagavam o meu trabalho

com surra de cipó-pau.

- Basta, mano,

pra eu não chorar,

E tu, Ana,

Conta-me tua vida,

Na senzala, no terreiro

- Eu…

cantei embolada,

pra sinhá dormir,

fiz tranças nela,

pra sinhá sair,

tomando cachaça,

servi de amor,

dancei no terreiro,

pra sinhozinho,

apanhei surras grandes,

sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa

tu tens pra contar…

não conta mais nada,

pra eu não chorar -

E tu, Manoel,

que andaste a fazer

- Eu sempre fui malandro

Ó tia Maria,

gostava de terreiro,

como ninguém,

subi para o morro,

fiz sambas bonitos,

conquistei as mulatas

bonitas de lá…

Eita negro!

- Quem foi que disse

que a gente não é gente?

Quem foi esse demente,

se tem olhos não vê.