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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Estudante de Londrina denuncia colegas por racismo no WhatsApp

Gilberto Abelha/JL / A estudante de Direito Celiana da Silva afirma estar psicologicamente abalada após as agressões no aplicativo
Universitária do curso de Direito da Faculdade Arthur Thomas registrou queixa na polícia por crime virtual

Uma estudante de Direito da Faculdade Arthur Thomas denunciou alguns colegas de curso por prática de racismo. Celiana Lúcia da Silva chamou a polícia e apresentou cópias de mensagens enviadas pelo celular em um grupo do WhatsApp. Em uma das discussões, os alunos comentam sobre uma foto tirada da vítima. “É o pé da Celiana?, pergunta um deles. “Com meia ou sem meia?” comenta outro, numa referência a cor da pele da estudante, que é negra.

Outros alunos também participaram da conversa. “Eu achava que ela tava de meia preta”, disse outro. Nesta segunda (8), a Polícia Militar (PM) foi chamada por Celiana, que pediu investigação sobre o caso. Os PMs entraram na sala de aula, anotaram os nomes dos estudantes suspeitos, mas não apreenderam os celulares porque o prazo para flagrante já havia esgotado.
Reprodução/RPC TV
  
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Celiana Lúcia da Silva chamou a polícia e apresentou cópias de mensagens enviadas pelo celular em um grupo do WhatsApp

As trocas de mensagem ocorreram durante a semana passada por meio do aplicativo. Segundo a vítima, os aparelhos guardam imagens e textos considerados ofensivos. “Escureceram a pele e fizeram comentários com conotação racial com relação a minha cor. Falaram da minha roupa, falaram que nem em favela se veste dessa maneira”, afirmou em entrevista para a RPC TV.
Uma das integrantes do grupo chegou a defender Celiana. “ Talvez devêssemos pedir permissão antes de publicar algo em um grupo como esse. Acho que devêssemos, no mínimo, pensar e lembrar que não importa a cor do sapato ou da pele e sim a compaixão pelo próximo”.
No entanto, alguns alunos contestaram: “Como é? Pedir permissão?”; “A gente fala só o que vê”; “É só uma brincadeira, querida.”
Celiana soube do caso por uma colega que fazia parte do grupo no WhatsApp. A estudante afirma estar psicologicamente abalada. “Eu não quero que isso fique impune. Nós estamos no quaro ano de Direito. Eles conhecem a lei. É muito humilhante”, afirma Celiana, que também é professora da rede estadual de ensino.
Crime pode render três anos de prisão
A PM fez boletim de ocorrência por injúria racial e vai encaminhar o documento para a Polícia Civil, que deve chamar todos os alunos para depor. O crime de injúria racial é caracterizado por ofensas que usam elementos referentes à raça, cor , etnia, religião ou origem. A pena por este crime varia entre um e três anos de prisão.
A Faculdade Arthur Thomas informou que vai tomar todas a providencias necessárias para apurar o que aconteceu.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Traços em negrito: beleza negra além dos traços finos

Por Jarid Arraes
publicado: revista Fórum
O padrão ocidental de beleza é obviamente racista – um fato inevitavelmente observado em todos os contextos relacionados a aparência física. São raras as celebrações da negritude, sobretudo quando as pessoas em questão são mulheres. Infelizmente, é muito comum passar as páginas de revistas e catálogos de cosméticos ou assistir programas inteiros de televisão sem encontrar representações de mulheres negras como belas, nem mesmo nos comerciais e propagandas. E apesar de haver alguns exemplos de mulheres negras famosas no Brasil e no mundo que são consideradas lindas, a beleza negra presenciada na mídia parece, na maioria das vezes, se enquadrar nos específicos critérios dos “traços finos”.
São cabelos que até podem ser cacheados – mas nunca armados -, lábios que não devem ser muito grossos e narizes afilados e “delicados”. Só assim as mulheres negras estarão dentro do padrão de beleza. Esse filtro, no entanto, é extremamente excludente: no Brasil e no mundo, há muitas etnias e variações genéticas que resultam em traços distintos, que claramente não podem ser todos compatíveis com o que a sociedade considera bonito. Essa separação do que é permitido no mundo da beleza acaba gerando uma hierarquização da própria negritude, discriminando aquelas que possuem cabelos crespos e volumosos, mas dando permissões limitadas às mulheres negras de rosto mais fino e cabelos com cachos mais definidos.

A cultura dos “traços finos” é uma tentativa de “higienização” de todo um grupo racial que já há muitos séculos é retratado como indesejável. A expressão livre e desimpedida da negritude é repudiada e, portanto, sua aparência física também é podada e as mulheres cujos traços não são finos acabam sendo hostilizadas. Aquelas que conseguem enfrentar os parâmetros da indústria da beleza e amam suas características físicas, sem recorrer a modificações corporais como rinoplastias e alisamentos, são verdadeiras guerreiras que resistem fortemente para manter a autoestima. Essas mulheres, que passo a passo buscam a politização e o fortalecimento da percepção de si, levam suas características faciais e corporais a um patamar transformador que repercute em todas as esferas sociais. É a resistência e o empoderamento dessas mulheres que criam caminhos por onde a desintegração do racismo pode trilhar e acontecer.

Com essa importante reflexão, é possível virar a mesa e jogar com as palavras originalmente usadas para oprimir. Ao invés de reproduzir a ideia dos “traços finos” desejáveis, deve entrar em cena a exaltação dos “traços em negrito“: fortes, escuros e evidentes. A beleza da negritude, afinal, pode e deve existir em muitos tons, tamanhos e pluralidades.
Foto:Tredência Modas

terça-feira, 29 de julho de 2014

As griotes da Diáspora Negra. Relato do Latinidades 2014.

As griotes da Diáspora Negra. Relato do Latinidades 2014.
Peço licença à todas as palestrantes e também para o coletivo Pretas Candangas e Griô Produções, responsáveis pela organização do Latinidades, cujos trabalho e atuação são irretocáveis e inspiradores, para falar em primeiro lugar de duas griotes da diáspora negra: Inès Morales e Iradilva Miranda Dantas. A primeira faz parte do MOMUNE (Movimento de Mujeres Negras de la Frontera Norte de Esmeraldas, Equador). A segunda, e não menos importante, é benzedeira/curandeira e membro da Malungu e Coordenadora Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará. São elas que podem, para efeitos desse relato, serem os primeiros testemunhos de tantos momentos políticos e espirituais que tivemos nessa edição do evento.

Falar de Inès Morales é colocar em pauta diversas questões. A primeira delas talvez seja como somos apartadas de nós mesmas e uma das outras, aqui e lá fora. Quantas de nós sabemos que existem outras mulheres negras no Chile, no Equador, na Colômbia e na Argentina, por exemplo, lutando as mesmas batalhas? Quantas de nós fomos e somos separadas por fronteiras arbitrárias que não reconhecemos? Quem estabeleceu ou estabelece tais divisões entre nós? É disso que também fala a luta do MOMUNE, que, além de enfrentar questões ditas clássica de gênero e raça, coloca em xeque sua fronteira com a Colômbia, uma linha imaginária que as separa de suas (e nossas) irmãs afrocolombianas.

Já Iradilva Miranda Dantas também nos fala sobre território, sobre como ele é importante para a manutenção de nossos saberes ancentrais, mais uma vez de como ainda precisamos lutar para que sejam reconhecidos e valorizados. Em sua casinha, como chama o lugar que lhe serve de consultório, atende aproximadamente 60 pessoas por dia, o que demonstra sua vocação e a qualidade do trabalho desenvolvido. Mas para além de números, estamos falando de como a mulher negra pratica medicina num país que não a contempla como paciente e como agente de saúde em potencial e de fato. Que a pratica da curar de nossas benzedeiras em todo Brasil seja reconhecido como patrimônio imaterial e estratégico que é.

Na mesa Letras e Vozes da Diáspora Negra tivemos a presença da professora e ativista pernambucana Inaldete Pinheiro dispensa apresentações. Pesquisadora, foi responsável por denunciar como nossas crianças são representadas na literatura em Racismo e anti-racismo na literatura infanto-juvenil, sendo responsável por aplicar a Lei 10.639 muito antes que ela existisse. Falou também como tantas de nossas estórias são transmitidas por meio da oralidade, falando das famosas estórias de trancoso, aquelas que ouvimos de nossas avós e mães, e tantas vezes dão conta de uma universo fantástico povoado por personagens ancestrais.

Shirley Campell Barr, escritora e ativista costa-riquenha, autora do poema Rotundamente Negra, falou sobre nosso protagonismo, sobre a importância de nossa escrita. testemunhou, num dos momentos mais emocionantes de sua exposição, queescreve porque tem vontade e direito. “Me nego categoricamente a deixar de falar minha língua, meu acento e minha história”. Compartilhou também sua experiência vivendo no Brasil, onde pessoas negras não ocupam os espaços de poder, mando e prestigio.

A literatura erótica também esteve presente com a voz e a pena da jovem e carismática escritora brasileira Nina Silva que falou sobre como nossa sexualidade, usada pela branquitude para objetificar corpos negros, é ferramenta de militância. Somos corpos negros, afeitos às curvas e ao prazer. Nós mulheres, precisamos conhecermos, nos tocar. Acima de tudo, sermos nós as senhoras desse prazer.

Na conferência de Conferência de Abertura, Diálogos Afro-Atlânticos, fomos agraciadas com as presenças de Ana Maria Gonçalves e Paulina Chiziane. A primeira questionou o estereótipo da mulher negra forte. Sim, sabemos que o somos, mas queremos muito mais. Até mesmo para podermos dizer não à tarefa que sempre nos é relegada, de sermos cuidadoras de nós de todos os outros. Que o façamos apenas se o quisermos. A segunda nos trouxe uma discussão interessante de como o cristianismo tem sua origem africana menosprezada, como o protagonismo africano de sua construção é transformada numa manifestação demoníaca. Para a palestrante, não precisamos de uma nova igreja, mas sim nos apropriar mais uma vez daquela que criamos.

No primeiro dia, foi apresentada a performance Quadros com as atrizes Vera Lopes ePâmela Amaro, em comemoração ao centenário da escritora Carolina Maria de Jesus. Esse foi um dos momentos mais emocionantes do festival, quando muitas de nós se emocionaram e choraram juntas. Outro momento de grande emoção se deu com a exibição do curta metragem O Dia de Jerusa, estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Após a apresentação a diretora, Viviane Ferreira (BA/SP), nos emocionou ainda mais, reafirmando seu compromisso de fazer cinema fiel às questões do universo da mulher negra. Mais do que nunca o pessoal se tornou político.

A oficina de contação de estórias, feita pelas cariocas Sinara Rúbia e Ludmilla Almeidados projetos Ton Ogbon e Grupo Cultural Vozes da África, fez da participação do público sua grande virtude. Tudo começou com a princesa Aláfia, para empoderar e fazer conhecer que somos muito mais que escravizados. Em seguida, audiência foi dividida em grupos e a cada uma coube recontar uma estória fazendo uso de panos, símbolos e instrumentos de percussão. De maneira muito simples e divertida, foi contada por exemplo a estória de Exu, de quem foi prontamente retirado o estigma, dando lugar a uma estória de dualidade, sabedoria, esperteza e humanidade.

Foi durante a mesa Sabedoria ancestral: memória, política e sustentabilidade que a pernambucana Martha Rosa Queirós, Chefe de Gabinete da Fundação Cultural Palmares, nos questionou o protagonismo dos maracatus africanos face ao movimento Mangue Beat, criado no ambiente universitário. Também nos lembrou do Maracatu Nação Leão Coroado Nação Nagô, na pessoa do seu mestre, o senhor Luis de França que permitiu que a mesma tocasse percurssão no grupo, o que abriu o caminho para diversas mulheres.

Já Célia Maria Corsino, Diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial do IPHAN, destacou que o patrimônio imaterial tem o mesmo status legal dos tombamentos. Mas tem uma peculiaridade importante, pois reconhece acima de tudo comunidades. Trouxe também um projeto que tem sido discutido na instituição, que versa sobre os mestres populares do saber. Está previsto que eles obtenham a mesma titulação que aqueles reconhecidos pela academia, recebendo inclusive bolsa equivalente à titulação para desenvolver seus projetos e formar aprendizes.

Heloisa Pires Lima, educadora, escritora e editora sediada em São Paulo, trouxe um vívido exemplo de como a oralidade, a proximidade das estórias xona sobre a figura de Njuzu, senhora das águas, com uma lenda contada da Amazônia. Junto com conosco, povos escravizados pelo europeu, viajaram significados e saberes que podem nos ajudar a reconstruir nossos elos perdidos com a África. Em sua fala, o convite: “quer mergulhar nessas águas” de conhecimento e ancestralidade?

Débora Marçal, atriz da companhia paulista Capulanas, participou da mesa Territórios Negros: fontes de sabedoria ancestral e falou sobre a trajetória do grupo e a apropriação do quintal como território negro. Contou também sobre a decisão de escrever sobre o grupo antes que alguém o fizesse, na conquista em ter o espaço para que o grupo desenvolvesse suas atividades. Ao final de sua fala, nos emocionou com seu canto na companhia das demais atrizes da companhia.

A engenheira florestal e ativista do MNU Minas Gerais, Angela Gomes, apresentou sua tese de doutorado, Territórios da Etnobotânica: Terreiros, Quilombos, Quintais. Nesse estudo reconheceu mais de 500 espécies trazidas do continente, com destaque para 80 plantas.Nos fez questionar que, acima de tudo, o tráfico de negros para a América tinha como um dos seus pilares a transferência de saberes e tecnologias ambientais, ainda hoje desprezados pela academia mas preservados pelos terreiros e pela cultura popular.

Esse é um post que não termina aqui mas é o momento apropriado para reverenciar as irmãs Pretas Candangas e a Griô Produções. Mulheres negras de luta que concretizaram aquilo que antes era apenas uma sonho para muitas. Uma possibilidade que agora é uma realidade palpável de mudança e empoderamento. Durante esses dias tivemos amor, compartilhamos lutas e projetos. Mais uma vez possibilidades que, como disse uma companheira, falam de uma ancestralidade nova e ao mesmo tempo antiga. Obrigada a todas as mulheres da organização, palestrantes e da audiência. Essa é uma experiência de vida que será por nós sempre lembrada com todo carinho e afeto.

Charô Nunes
Olá, meu nome é Charô, escrevo sobre cultura e sociedade no blog Indigestivos Oneirophanta.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Irmãs, juntas, na luta pela liberdade



As ilustrações feministas da designer gráfica Carol Rossetti trazem a ideia de que a sororidade é a saída para combater a opressão social e cultural que ainda atinge as mulheres

Por: Anna Beatriz Anjos e Isadora Otoni, da Fórum Semanal. Todas as ilustrações são de Carol Rossetti - publicado: revista forum

“Acredito que seja uma prioridade acabar com essa noção torta de que mulheres são necessariamente competitivas umas com as outras. Isso nos é ensinado e estimulado desde a infância, e devemos parar de incentivar esse pensamento”, explica a designer gráfica Carolina Rossetti. A tentativa de promover a sororidade e a compreensão às diferenças é um dos traços mais marcantes de seu trabalho, que reúne mais de 90 mil fãs na internet.

Carol, como é conhecida nas redes sociais, tem 26 anos e vive em Belo Horizonte, mas suas ilustrações vão além: já ganharam o Brasil e outras partes do mundo. Entre os comentários postados em sua página oficial no Facebook, é possível encontrar alguns em inglês, espanhol e até em russo. Ela se esforça para que suas mensagens sejam lidas pelo maior número de olhares possível. Por isso, as escreve em vários idiomas.

Críticas são sempre bem-vindas e atendidas, na maioria das vezes. “Eu retrato diversas situações que não vivo diretamente, de forma que preciso ser fiel ao sentimento de quem, de fato, vivencia o problema. A alteridade só me permite ir até certo ponto”, avalia Carol, que escolhe seus personagens e histórias a partir de situações por quais ela mesma ou amigos já enfrentaram. Desconhecidos também podem mandar suas sugestões.

Ainda que defenda a subversão dos com padrões impostos socialmente às mulheres, seu trabalho não assume um tom de denúncia. “Tento provocar empatia através dos textos, uma vez que não escrevo em um tom agressivo, focando no sentimento da pessoa que vivencia determinada situação”, coloca.

Confira, a seguir, a entrevista que Carol Rossetti deu à Fórum.

Fórum – Por meio do seu trabalho, você tenta empoderar as mulheres. Acha que isso é “nadar contra a corrente”, frente aos diversos sites e páginas que lhes tentam impor padrões de beleza, relacionamento e comportamento?

Carol Rossetti – Em parte, sim. Meu trabalho não deixa de ser uma resposta a todo um contexto de opressão a mulher. A palavra opressão muitas vezes sugere apenas uma situação de violência física baseada em estereótipos que estaria sempre distante da maioria das pessoas. Mas eu uso o termo em um sentido amplo, pensando em todas as formas culturais que se fortaleceram ao longo de muitos anos com o objetivo de limitar, controlar e restringir de tantas formas a liberdade pessoal de alguém, até que esta se tornasse invisível. Acho que isso aconteceu com a mulher e suas representações na mídia. As tantas matérias e artigos sobre beleza e comportamento, as temáticas restritas às páginas femininas (em geral, canais femininos tem como seções os tópicos beleza, comportamento, sexo e/ou relacionamento, moda, decoração e fofoca de celebridades. são os interesses aceitáveis socialmente para uma mulher), o patrulhamento sobre o corpo de mulheres famosas… Tudo isso torna comum, e portanto invisível, o que deveria ser visto como absurdo. A mensagem é que mulheres em qualquer ocasião podem e serão avaliadas pela sua aparência de acordo com o parâmetro surreal de beleza e comportamento defendido atualmente. Mas, por outro lado, eu não nado contra a corrente sozinha. A “contracorrente” vem se fortalecendo!


A designer gráfica Carolina Rossetti, de 26 anos, moradora de Belo Horizonte (Foto: Arquivo pessoal)

Fórum – Por que você escolheu seguir pela linha da sororidade?

Carol – Eu realmente acho o conceito de sororidade muito válido e muito forte. Acredito que seja uma prioridade acabar com essa noção torta de que mulheres são necessariamente competitivas umas com as outras. Isso nos é ensinado e estimulados desde a infância, e devemos parar de incentivar esse pensamento. Acredito, por outro lado, que muitas mulheres ainda se sintam desconfortáveis com a ideia porque o feminismo tradicional não costuma abarcar em sua luta questões como o racismo, a gordofobia e a transfobia. E são questões muito importantes na vida de muitas mulheres, que acabam por se sentir excluídas ou intimidadas pelo movimento. Eu proponho um conceito de sororidade para todas as irmãs, considerando as demandas que vão além do gênero.

Fórum – Você acredita que algumas feministas deveriam ser mais flexíveis em relação a certos assuntos que parecem ser tabus para o próprio movimento – como, por exemplo, a prostituição – e também a pessoas que ainda não têm muito conhecimento sobre a luta?

Carol – Eu acho que “as feministas” é gente demais. O movimento feminista não é uniforme, existem várias vertentes em constante transformação. Eu acho que é importante que todos tenham a mente aberta para pensar em certos assuntos além dos conceitos que já estão enraizados. A prostituição é um tópico que deve ser debatido. Acredito pessoalmente que, assim como o aborto, não é possível acabar com a prostituição, mas sua regulamentação pode dar mais qualidade de vida e segurança para os envolvidos. E isso deve ser debatido.

Fórum – Qual a sua opinião sobre o papel dos homens no feminismo?

Carol – Os homens não precisam se afirmar enquanto feministas uma vez que isso não tem o mesmo significado de empoderamento que tem para uma mulher. Não quero dizer que homens não possam ser feministas. Acredito que eles podem e devem ser aliados, mas devem falar de feminismo não para as mulheres, mas para outros homens. Mais do que falar, assumir a responsabilidade de colocar algumas coisas em prática.

Fórum – Você retrata somente histórias reais? Como escolhe os casos que desenha?

Carol – Nem sempre são diretamente baseados em pessoais reais, mas uma vez que sempre vejo pessoas se identificando, acredito que as situações sejam sempre reais para muita gente. Alguns casos aconteceram comigo, outros com pessoas próximas a mim, outros com relatos de pessoas desconhecidas que li pela internet. Hoje, recebo muitas sugestões bacanas, acho que este projeto não vai acabar nunca!


Fórum – Reparamos que, quando seus desenhos recebem críticas construtivas, você as aceita e chega até a modificá-los de acordo com elas. Considera que isso faz parte do processo de fortalecimento e democratização do feminismo?

Carol – Com certeza. Eu retrato diversas situações que não vivo diretamente, de forma que preciso ser fiel ao sentimento de quem, de fato, vivencia o problema. A alteridade só me permite ir até certo ponto. Não vejo problema nenhum em ouvir o que as pessoas tem a dizer e mudar o que precisa ser mudado.

Fórum – De que maneira você busca romper com o feminismo dito de “classe média”, que leva em consideração apenas uma parcela das mulheres?

Carol – Bom, primeiramente, eu tento trazer visibilidade a quem não se enquadra nessa minoria branca, jovem, magra, rica e sem deficiências físicas. Eu retrato mulheres nessas situações, às vezes falando especificamente sobre isso, as vezes não. E tento provocar empatia através dos textos, uma vez que não escrevo em um tom agressivo, focando no sentimento da pessoa que vivencia determinada situação. Acho que, em parte, isso vem funcionando.

Fórum – Como sua carreira começou? De onde veio a ideia de retratar situações que envolvem preconceito e quebra de paradigmas?

Carol – Minha carreira em si começou muito antes deste projeto. Já ilustrei um livro infantil e faço ilustrações com frequência nos projetos de design gráfico que faço com meus sócios no meu estúdio Café com Chocolate Design. Este projeto em particular começou coo um projeto pessoal, no qual eu queria apenas melhorar minha técnica com lápis de cor, e tive a ideia de escrever textos que fizessem as pessoas repensarem situações muito cotidianas. Mas nunca imaginei que fosse fazer tanto sucesso.

Fórum – Pretende manter o foco apenas nas mulheres ou pensa em abranger outras minorias?

Carol - Este trabalho é realmente apenas sobre mulheres, o que não significa que eu não possa abordar outras questões, como racismo, transfobia, homofobia, ableísmo etc.

Fórum - Tendo em vista as eleições de outubro, acredita que as mulheres estejam bem representadas na política brasileira? Como vê a discussão dos direitos das mulheres no âmbito político?

Carol – Não, as mulheres ainda compreendem acho que 9% da Câmara dos Deputados, é muito pouco. A política ainda é feita maioritariamente por homens e para homens. Existem movimentos e melhorias, é claro. Mas essa discussão ainda tem muito a crescer.

Fórum – Você se sente representada pelos movimentos feministas que encabeçam a luta atualmente – como a Marcha Mundial das Mulheres e Marcha das Vadias?

Carol – Acho que estes movimentos são muito importantes por vários aspectos, mas não tenho um movimento em particular que acho que me represente sempre, e não acho estes rótulos muito relevantes. O mundo está cheio de referências, não dá pra ficar preso a uma coisa só. Existe muita coisa para ser aprendida por aí.


Mensagem em hebraico: “Mariana sempre amou ir à praia. No entanto, ultimamente as pessoas têm falado mal sobre o seu corpo, e até sugeriram que ela aposentasse o biquini e usasse algo mais discreto.
Mariana, seu corpo não é um enfeite feito para agradar o público. Você vai à praia como quiser! Aqueles que não aprovam a sua aparência podem sempre olhar para o outro lado.”


Mensagem em inglês: “Lorena demorou muito tempo para encontrar sua sensualidade, porque ela nunca enxergava em si mesma beleza, somente tragédia.
Mas você é muito mais do que a maneira pela qual a mídia te retrata, não é, Lorena? Sua cadeira de rodas significa liberdade, e pode passar por cima de qualquer um que te reduza a estereótipos.”


Mensagem em espanhol: “Maíra adora seu black! Mas dizem por aí que ele é feio, bombril, é vassoura e ruim.
Maíra, não o alise por causa disso. Seu cabelo é memória, beleza, ancestralidade, identidade, força e muito amor!
Seu cabelo, além de lindo, é só seu. É você quem manda.”

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Caminhos de resistência: reconhecer-se negra

Luma Oliveira
Luma Oliveira*
publicado: blogueiranegras.org

Faz muito tempo que gostaria de compartilhar um pouco da minha história, que não é só minha, mas de várias outras mulheres negras. Uma história cujos caminhos não foram fáceis, mas sim cruéis e dolorosos. Muitas vezes nos sentimos sem força para percorre-lo, ficamos nos perguntando se terá de fato um fim, sem as angústias cotidianas e marcas que o racismo deixa para além de nossa pele, estou falando de um caminho e uma história cheia de reticências para nós. Antes que eu comece, quero perguntar para você, mulher negra que está lendo agora: quanto tempo levou para que você se reconhecesse como NEGRA? Pense um pouco e depois pensaremos juntas acerca desta questão.

Vamos lá pra nossa história. Bem, agora estou na casa dos vinte de idade (21), fico recordando por várias vezes como aconteceu e começou o processo desencadeador para que eu pudesse gritar ao mundo: sou negra! A gente sabe (nós, mulheres negras) desde que nascemos, geralmente, sempre fazem questão de destacar em nossa aparência qualquer traço/característica que nos remeta ao branco, nos fazendo odiar qualquer característica de África que possa surgir desde os nossos olhos até a pele. Sou de uma família que fazia questão de exaltar os antepassados de todas as nacionalidades possíveis, menos a nossa ascendência negra e até mesmo indígena, que temos por parte das duas famílias inclusive. Eu ouvia vários relatos, especulações sobre a presença européia, principalmente de dizerem “seu tataravô era português”, “sua tataravó tinha o cabelo liso”, “fulano era loiro”, mas nunca ouvi falar nada sobre a parte negra e indígena da família. Da parte do meu pai, a família é toda negra, pouca coisa ele mesmo sabe sobre ela, visto que meus avós faleceram quando ele era uma criança. Os meus tios mais velhos que chegaram à conhecê-los falam de suas características, dentre elas, alguns fazem questão de falar sobre os cabelos da minha avó paterna, dizendo que lembram pouco, mas têm quase certeza que ele eram lisos. Essas incertezas permeadas de “certezas” trabalhadas no estereótipo europeu é que carreguei por um longo tempo da minha vida, e carrego até hoje, não posso negar. Sendo assim, ficaria cada vez mais difícil me orgulhar ou sequer lembrar de onde vim, quem eu poderia ser – minha construção ficava cada vez mais lenta- embora essas questões e características se façam presentes entre a minha família, há algumas pessoas que sabem e destacam histórias e cores sobre minha africanidade, mas demorou muito para que eu pudesse e quisesse contar ao mundo essa parte da história.

Imersa nesse contexto, sempre fui cheia de incertezas e só quis acreditar naquilo que seria mais agradável para a sociedade, naquilo que fazem todos os dias as meninas pretas acreditarem: que nós somos “exóticas”, “devemos nos orgulhar dos traços brancos”, “quanto mais traço branco, mais bonita”, etc. Fatores que colaboraram ainda mais para que eu pudesse esconder minha cor e identidade. Falava aos quatro ventos quando alguém perguntava sobre meus traços, das histórias europeias que me contavam, mas era evidente que minha vida não tinha apenas uma face. Tentava negar até as últimas consequências qualquer semelhança e identidade negra que pudesse haver em mim, lembro da minha infância, início de adolescência e não foram fases muito diferentes.

Um segundo processo foi querer esconder meus cabelos do mundo, para isso utilizava qualquer processo que necessitasse para vê-lo liso. Progressiva, alisamento, chapinha e eram processos sofridos. Já tive muitos problemas por isso, cheguei até a não sair de casa, caso não conseguisse sair com os cabelos lisos por preguiça de fazer alguns dos processos, falta de dinheiro ou algo que me impedisse de alisar os cabelos. Muita gente pode achar que quando cito “cabelos” estou falando de algo fútil e sem importância, mas não estou: estou falando de “ser”, resistência, história e identidade. Acredito que nunca usei meus cachos antes da ruptura que em breve vou contar pra vocês, só usava os cabelos lisos e o mesmo processo se arrastou para todas as mulheres negras de minha família: primas, tias, irmã, menos para minha mãe que é branca. Por falar nela, não devo esquecer de destacar: em meio aos meus devaneios escrevendo esse texto, carrego na lembrança o tratamento que me davam ao ser vista com minha mãe, tratamento dado até hoje. Muita gente acha estranho quando digo que ela é minha mãe biológica, fazem colocações racistas, colocações que faziam desde que eu era criança, mas hoje sei muito bem me defender e resistir, naquela época não. Hoje vejo e lembro da dor que isso me causava, não só a mim quanto à minha irmã, que também passou por isso.

Após querer camuflar meus cabelos, o outro processo era querer exaltar e ficar procurando na frente do espelho qualquer traço branco que eu pudesse tentar enxergar, traços dos quais as revistas, televisão e novelas me faziam lembrar constantemente. E cada traço identificado era uma festa, cada estratégia utilizada era uma vitória. Cada vez mais eu deixava de ser eu, de ser exatamente quem eu era, e passava a ser aquilo que esperavam de mim, aquilo que me causava vergonha era preciso ficar na gaveta. Na adolescência, eu nunca fui a garota que alguém queria namorar, nunca fui a garota elogiada, no início da adolescência comecei a querer ser amada, e eu via quem eram as pessoas amadas nos meios em que convivia, e de todas as diferenças, estava um ponto comum entre elas: eram todas brancas. Quando você está passando de uma fase pra outra, principalmente nessa, a mente e o corpo são um turbilhão de sensações. Quando paro pra pensar em tudo isso, vejo e entendo a importância em construir a auto-estima das crianças negras desde o berço, penso que se talvez isso tivesse acontecido, eu teria conseguido resolver vários processos de outras maneiras. O racismo iria doer, ele sempre dói, anula e machuca de alguma maneira, não posso negar, mas as estratégias como podemos enfrentá-lo, se trabalhada nossa auto-estima, podem tentar, tentar mas não vão nos destruir, não mesmo. Se um dia pensar em ter filhxs, acredito que é um dos ensinamentos que aprendi e vejo junto às mulheres negras que quero tornar como um dos ensinamentos primeiros da vida de uma criança.

Após me anular por anos, tentar atingir um padrão que estava bem longe do meu e negar toda a minha ancestralidade, veio então com mais clareza o que era o feminismo. Sempre tive uma criação e presenças femininas em minha vida, femininas e feministas. Mas não o feminismo que está na academia e notas de rodapé, mas o feminismo da faca que corta a carne, das mulheres nordestinas, negras, da periferia, aquelas que não tiveram oportunidade de frequentar universidades. Estou falando de mulheres não só do meu sangue, mas também aquelas que compartilharam conosco o cotidiano de muita luta por uma vida sem violência, luta por liberdade. Acredito que meus primeiros contatos com o feminismo, foi o trabalho feito em casa com as mulheres de suas vidas que fazem parte da minha, sobretudo, mãe e irmã. Foi no meio de relatos, experiências, diálogos, luta conjunta e todo esse processo é que me formei, não sabíamos ao certo naquele tempo o que era feminismo, apesar de ouvirmos falar esse nome na TV, mas a gente já vivia o feminismo, que anos depois veio ganhar nome. A luta feminista junto à essas mulheres foi libertadora, e não foi uma liberdade individual, foi um processo coletivo de luta, desconstruções de pensamentos, aceitação de nós mesmas, de luta constante de nós por nós. Em meio a essa efervescência de ideias, identidades e vivência é que fomos nos desconstruindo e construindo cada canto que precisasse. Foi por meio do feminismo que me reconheci pela primeira vez como negra, que não me bastou mais chamarem-me de “morena”, “mulata” ou “café com leite” ; foi aí que eu aprendi a gritar, viver e resistir: SOU PRETA!

Foi uma ruptura que me abriu um mundo, não menos doloroso – contudo, com mais força para que eu conseguisse compreender e enxergar o verdadeiro sentido da resistência. Não aceitei mais as palavras usadas como bem entendem para negarem nossa cor e identidade, não aceitei mais que tentassem mandar direta ou indiretamente em como meus cabelos deveriam ficar: é, resolvi soltá-los e libertá-los junto comigo. Hoje “ostento”, saio por aí balançando-os sem medo e sou adepta da frase “quanto mais volume, mais poder”. Não quero mais saber de um só lado da moeda, não quero mais que minha imagem seja apagada, minha história descrita e escrita pelo lado que a sociedade aceitou, quero ela escrita com toda tinta preta que merece. Antes de soltar os cabelos, vieram outras mulheres que também foram fazendo-o, e aos poucos fui entendendo, sentindo e dizendo NÃO para toda sociedade racista que por anos tentou me matar. Foi um processo que vivi com minha irmã, uma das pessoas que mais me ensinaram e aprendi, igual à frase da música “1 de julho” que diz: eu vejo que aprendi, o quanto te ensinei. Hoje desfilo a minha cor em meio ao racismo, que tentou por tantas vezes me apagar. Tenho orgulho da minha história, luta… na verdade, de NOSSA história e luta. Não deixo mais ninguém usar de “eufemismos” para falar da minha cor, minha pele preta é minha essência, meu poema.

Doeu muito me esconder por tanto tempo, não ter forças suficientes para tentar lutar. A luta contra o racismo e suas raízes fincadas na sociedade é diária, ela continua doendo. Primeiro tentam te anular, mesmo você tentando chegar ao que esperam de você, não é isso que te dará algum ponto de paz. Depois, se você tentar existir e resistir, tentarão derrubar você das piores maneiras possíveis. A dor não passa, a dor não diminui – você sente e vê o racismo o tempo inteiro. Da hora que acorda até a hora que consegue encostar a cabeça no travesseiro. Para muitos, nossa luta, nossas história e resistência são exagero, para muitos isso não passa de “qualquer coisa” – agora, para quem sente desde que nasceu as correntes do racismo, a gente não está falando de qualquer coisa – estamos falando do direito de viver. Voltando à pergunta inicial, sabe quanto tempo demorei para reconhecer-me negra? 18 anos da minha vida! Sabe o que isso significa pra mim? Anos tentando buscar e entender quem eu era, quem eu queria ser. Anos sem poder levantar da cama e me sentir feliz por ser quem eu era, imersa em fantasmas e histórias mal contadas. Foram anos difíceis, não que agora esteja tudo mais fácil, porque não está. Continua doendo, continua me cortando dia após dia. Enxergo com mais clareza o que eu fechava os olhos para não crer, enxergo e sinto a cada esquina o peso do machismo e racismo sobre mim, mas e o que eu aprendi no caminho? No caminho conheci gente, fortaleci os meus laços, vi de que lado quero sambar, qual é o lado em que vou lutar. Aprendi que ouvir é uma das armas mais preciosas de luta, reconhecer-me negra é uma arma revolucionária. E a gente tem que sonhar, lutar e tentar todos os dias existir – lutar por um mundo preto. Quero que um dia as meninas pretas não demorem tanto quanto eu, quero que as meninas pretas se enxerguem em cores, amores e poesia. Quero as mulheres pretas na luta, olhando seu reflexo e dizendo: SOU PRETA! Não houve nada mais libertador na minha vida do que sentir-me e reconhecer-me: nem morena, nem mulata: SOU NEGRA! Apesar de toda luta e espinhos por esses caminhos de resistência, que a gente tenha ainda umas as outras para nos fortalecer, seja no sangue à poesia:

“Disseram-te ontem, menina preta
Que tu não servia pra casar
Venderam tua imagem pros turistas
Dizendo que teus quadris só servem pra sambar
Ensinaram-te, menina preta
Desde o berço,
A teus cabelos desprezar
Fazer progressiva, chapinha e teu afro alisar
Nunca teve, menina preta
Uma boneca da tua cor
Diziam que boneca loura era a única
Que merecia o teu amor
Fiz estes versos, menina preta
Para teu black libertar
Que da solidão desta cidade, tu não sejas mais refém
Que os teus quadris dancem quando tu quiser
Não para agradar turista, carregando etiqueta de passista
A poesia pra menina preta,
Tem seu som, tua cor
Força e garra, te libertando das amarras
E mostrando o quão bela tu és
Não te envergonhe nunca da sua história
Saiba que nestes versos
Estão luta, liberdade e por ti amor
Voe, sonhe, pise no chão, terreiro, na rua e realize,
Faça dessas letras a tua caneta com tinta preta
Inspire-se nessas linhas tortas,
E escreva agora a tua própria história…”

Luma de Lima Oliveira*
feminista, negra, poeta, socialista, periférica, educadora popular, estudante de Letras e blogueira no Entre Luma e Frida.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O significado político de uma boneca negra

por Amanda Beatriz
publicado:blogueirasnegras.org

Era uma vez uma menina. Era uma vez uma menina negra. Era uma vez uma menina negra que queria ter cabelo amarelo “cor de biscoito Fandangos”. Até que um dia esta garotinha ganhou de presente uma boneca negra. E, então, naquele momento, aconteceu uma verdadeira epifania!

A criança da nossa história se viu projetada em sua boneca. Ao contemplar o gracioso bebê negro de vestido lilás claro, aquela criança se entendeu negra pela primeira vez. Conseguiu enxergar-se bela através da imagem refletida pela bonequinha! Mais ainda, inconscientemente, aquela garotinha notou que suas características físicas eram bonitas e merecedoras de serem copiadas.

Não preciso dizer que a ideia do cabelo “amarelo” foi sumariamente descartada!

De lá pra cá, nunca mais senti necessidade de ter cabelos loiros. Não porque – em si – pintá-lo seja algo bom ou mau. Nada disso. O fato é que a vontade de ter o cabelo na cor “de biscoito Fandangos” – era assim que eu falava quando era criança – se dissipou na medida em que descobri, com a ajuda daquela boneca, a beleza existente na cor do meu próprio cabelo.



Foi aí que comecei a descobrir as nuances castanhas da minha cabeleira. Meus olhos se abriram para a textura gostosa e macia dos meus fios. Aprendi a admirar a “cor-de-bombom” da minha pele! Por meio dos olhos da bonequinha, pude visualizar como o formato dos meus olhos café é ricamente amendoado… Não senti mais, desde então, o desejo de usar lente de contato verde.

Meus lábios eram como o da boneca. Ina tinha os lábios grossos assim como os meus. E eram bonitos! Ah, se eram! Como aqueles lábios salientes abrilhantavam minha graciosa filhinha! Notei que não precisava ter lábios que não eram meus. Os lábios “finos” das atrizes globais deixaram de ser meu objeto de desejo.

E o nariz… O que falar dele! Confesso que o meu nunca foi um problema para mim, pois sempre ouvia “elogios” do tipo: “Olha só como ela tem os traços finos!”, “Que nariz mais formoso e delicado”, “Seu nariz é tão bonito que nem parece com o de preto”… E, de fato, durante um tempo, eu me defini como a “mulata de nariz fino e de traços delicados”. Afinal de contas, era esse o modo o qual as pessoas se referendavam a mim.

E, outra vez, ei-la! Eis que surge, de novo, a bendita boneca!

Quando a menina de tranças observou atentamente a criancinha em miniatura que estava em seu colo, de imediato, tratou de analisar aquele nariz com olhar de descrédito e desconfiança… Ele – o nariz – era tão diferente do “fino e delicado”. Tenho que admitir, cara leitorx, que a primeira impressão foi bastante negativa.

Entretanto, à medida que eu brincava com a Ina – e desde que fui presenteada, só queria brincar com ela! – o nariz, aos poucos, foi me parecendo mais agradável, simpático… bonito! Eu pensava com meus botões: “O nariz da Ina fica tão bem nela”. “A Ina é tão linda”. “Que curioso: é bonita e não tem o meu nariz”. “E eu aqui, achando que só as meninas de nariz ‘fino’ e ‘delicado’ eram belas”. Em meu íntimo se operava uma mudança de ponto de vista, cada vez que admirava minha bonequinha preta, pois, lá dentro, eu começava a entender o quanto sua própria beleza fazia com que tudo naquele corpo se harmonizasse certinho!

A boneca era “negramente” linda! Ela era como eu: negra de olhos café-amendoado, pele “bombom”, lábio grosso, cabelo crespo e, ainda por cima, era coroada com aquele nariz! Ela tinha o nariz que me ensinaram, desde cedo, a considerá-lo feio… Para minha surpresa, eu a descobri inusitadamente bonita! Graças à Ina, minha boneca, um novo olhar acerca de mim, enquanto menina negra, se descortinou diante dos meus olhos.

Finalmente estava apta a reconhecer o valor único de beleza, contido em si mesmo e inerente a meus atributos físicos. Na medida em que brincava diariamente com aquela réplica de criança negra moldada em vinil, minhas características étnicas ganhavam forças. Aos poucos, a negritude foi deixando de ser “objeto sujeito à mensuração de padrões externos” e migrou para a condição de beleza referencial. Foi assim que se iniciou, em minha pessoa, o complexo e não linear processo de construção da autoimagem negra. Minha bagagem existencial começava a assumir contornos de padrão estético com vida própria!

O marco fundador da reflexão política? Não tenho dúvidas de que foi o contato contínuo e reiterado com esta boneca em minhas brincadeiras.

Entender o significado político de uma boneca negra é perceber que o ato de presenteá-la a uma criança negra vai além de se ofertar um mero brinquedo. Quando os pais ou os responsáveis presenteiam a criança com a boneca que reproduz suas características físicas – sistematicamente desprestigiadas e reputadas feias pela sociedade – estimula-se o desabrochar da elevação da autoestima desta criança. E muito mais, eu me atreveria ir além, a partir da conexão afetiva que a criança desenvolve com a boneca, se encoraja o olhar de reconhecimento da sua própria identidade. A pessoa não só aprende a se aceitar negra, mas também aprende a se sentir bem sendo negra.

Pense um pouco, cara leitorx. Se uma criança, um jovem, um adulto ou um idoso negro não se encanta pela sua cor de pele, não se afeiçoa a seu nariz, não aprecia a cor de seu cabelo e não consegue identificar beleza alguma em seus olhos… Significa dizer, em outras palavras, que esta pessoa não se sente confortável sendo aquilo que ela é.

Para além de pensarmos, ingenuamente, que este é um acontecimento absolutamente normal, é preciso refletir sobre o porquê uma beleza tão diferente da nossa é a mais atraente e adequada, a ponto de ser necessário reeditar a própria identidade. Enfatizo, contudo, que não há nada de errado em querer se enxergar da maneira a qual se entenda como sendo a mais agradável.

Entretanto, quando é necessário desconfigurar tudo o que se é – “apagando” as marcas de sua natureza – em prol de alcançar outra modelagem estética “mais desejável”; podemos concluir que isto já é um sinal indicativo de que algo precisa ser urgentemente reavaliado.

E a boneca auxilia neste processo de empoderamento. A boneca ajuda quando ainda se é criança.

Qual de nós nunca se sentiu instigada, desde menina, a ter que corresponder às expectativas de um padrão de beleza que não é o da sua etnia? Conforme já foi dito: cor da pele, tipo de cabelo, espessura dos lábios, tipo de nariz e por aí vai… Nesse contexto é que boneca desponta como veículo didático e não verbal para comunicar a criança negra várias informações tais como:
Você é negro;
Sua compleição física é bonita;
Não há nada de inadequado e/ou inconveniente em ser negro;
Ser negro é tão bonito quanto ser de outra etnia. Da mesma forma que pessoas com características físicas diferentes da nossa fabricam seus brinquedos de acordo com seus atributos estéticos; nós também produzimos bonecos negros que copiam nossa imagem e semelhança. Bonecos tão belos quanto o são os de qualquer outra raça;
Se aceite. Se entenda lindo. Se enxergue bonito. Não há nada de errado em ser como você é.

A construção da autoestima negra é lenta e complexa. Não porque negros menosprezem sua autoimagem “gratuita e espontaneamente” ou porque tenham algum tipo de sentimento de inferioridade, mas sim, por existir toda uma construção social deletéria em torno da estética negra – esta, raramente é bela por si só e, em geral, é classificada como “exótica”, acessória, coadjuvante e de segunda categoria –.

Pois bem. Dito isso, é aí que a boneca negra – efetivamente – cumpre seu papel enquanto “instrumento político”.

Uma coisa que percebi assistindo vídeos no Youtube sobre o “Teste da Boneca” é que frequentemente diversas crianças até se identificam como negras quando a psicóloga lhes pergunta se a boneca que veem é parecida com elas. No entanto, me surpreendi no momento da segunda pergunta: quando indagadas se achavam bonita a boneca negra, a maioria replicou que era feia. Por outro lado, essas mesmas crianças, uma vez questionadas acerca da boneca branca, unanimemente, responderam que a achava bonita.

Em 2007, na Nigéria – país com mais crianças negras do que em qualquer outro lugar do mundo – Taofick Okoya se chocou ao descobrir que não havia disponível no mercado nenhuma boneca negra para dar de presente à sobrinha. Em um país com cerca de 170 milhões de habitantes, se constituindo a mais populosa nação africana, é absurdamente incoerente pensar que não haja bonecas dotadas de características étnicas com as quais suas crianças se identifiquem.

Pensando nisso, Okoya, em um gesto de coragem e de empreendedorismo, lançou no mercado a linha de bonecas negras “Rainhas da África”. A ideia de fabricar as bonecas se consolidou com mais afinco depois que sua filha pediu para “virar” branca. A partir daí, Okoya buscou a inspiração necessária para fazer com que a menina se tornasse confiante em sua cultura e se sentisse pertencente às suas raízes.



As Rainhas da África são personagens fictícios criados para contar a trajetória de princesas reais da História Africana. O grande diferencial das bonecas é que sua indumentária imita o modo de vestir recorrente na cultura do país. A origem das bonecas é facilmente identificada através das roupas e dos acessórios. A meta de Okoya é de lançar, futuramente, bonecas alusivas a outros grupos étnicos africanos.

De acordo com o site da empresa e sua fanpage no Facebook, produtos tais como: livros, quadrinhos, músicas e séries animadas também foram desenvolvidos. Tudo isso com a finalidade de propiciar o fortalecimento da identidade africana.

Vale ressaltar que tal como a Barbie, as Rainhas da África são esguias e magras. Além disso, a feição das bonecas não é totalmente compatível com a fenotipia negra. Segundo Okoya, suas primeiras modelagens eram mais encorpadas, porém não houve boa aceitação entre as crianças. Então, se decidiu padronizar o corpo das bonecas de acordo com o referencial esbelto. As Rainhas possuem o nariz, a boca e o cabelo à moda da beleza Ocidental, tal como a Barbie. O empreendedor explicou que pretende mudar este conceito, viabilizando a confecção de moldes mais sofisticados – delineados com características africanas de maior coerência com a etnia negra – tão logo que a marca tenha sua imagem mais consolidada no mercado. Por hora, só é possível ofertar as opções da linha atual. Ainda assim, considero ser um significativo avanço no empoderamento negro, se comparado ao cenário anterior, de total vazio da representatividade cultural preta.

Na Nigéria, a aceitação é enorme: as Rainhas ganharam o coração do público mirim e já desbancaram a boneca Barbie na preferência das meninxs nigerianxs.



Portanto, acredito ser de extrema importância para o resgate da autoestima da criança negra, o contato permanente com a boneca que reproduza – o tanto quanto possível – a compleição física de seu respectivo grupo étnico. Creio que este poderoso instrumento político é aliado estratégico que se traduz em ferramenta potencialmente fortalecedora no processo de construção do empoderamento negro. É fato que tal processo é percebido como lento e vagaroso. Entretanto, estou segura e convencida de que, no final, terá valido a pena!