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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pelé diz que Aranha 'se precipitou' ao reagir a gritos racistas

"Se eu fosse parar um jogo cada vez que me chamassem de macaco e crioulo, todo o jogo tinha que parar", comentou o Rei do Futebol
publicado: gazeta do povo

Apesar de ressaltar que é importante combater o racismo, Pelé avaliou nesta quarta-feira(10) que o goleiro Aranha, do Santos, errou na forma como reagiu às ofensas raciais que recebeu de torcedores gremistas durante jogo disputado no dia 28 de agosto, na Arena Grêmio, em Porto Alegre, pelas oitavas de final de Copa do Brasil. Segundo ele, o jogador santista se "precipitou" ao dar tanta atenção ao caso.
"O Aranha se precipitou um pouco em querer brigar com a torcida" disse Pelé, durante evento na tarde desta quarta-feira no Rio. "Se eu fosse parar um jogo cada vez que me chamassem de macaco e crioulo, todo o jogo tinha que parar", reforçou ele, lembrando dos tempos em que era jogador. "O torcedor, dentro da sua animosidade, grita mesmo. A gente tem que coibir o racismo, mas não é dessa forma."
Diante das ofensas que recebeu durante aquele jogo em Porto Alegre, Aranha chegou a procurar o árbitro para denunciar o caso. Depois de encerrada a partida, ele deu entrevista na saída do gramado e revelou que tinha sido chamado de "macaco" por alguns torcedores gremistas que estavam atrás do seu gol - imagens da tevê comprovaram que a acusação do goleiro do Santos era realmente verdadeira.
O caso envolvendo Aranha foi rapidamente julgado no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que condenou o Grêmio com a exclusão da Copa do Brasil por causa das ofensas raciais contra o goleiro. O clube gaúcho já entrou com recurso, que deve ser julgado antes do começo das quartas de final entre Santos e Botafogo. Enquanto isso, a polícia investiga os torcedores que teriam cometido o ato.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Desculpas: por que não vamos aceitar.

por Mônica Gonçalves *
Desculpas: por que não vamos aceitar.

Hoje errei na mão ao cozinhar: queimei o bife, que ficou duro e sem gosto. Dada a necessidade, engoli. Teria feito com mais gosto soubesse da sobremesa estava por vir em seguida: um pedido de desculpas, adocicado por muitas lágrimas. Esse foi mais difícil de digerir – sim, falo da agressora de Aranha. Em minha visão, todo psicólogo é, primordialmente e antes de tudo, um analista do discurso, que faz pontes entre significantes e significados, e acaba desvelar os sentidos que se ocultam nessa trama. Nos dicionários Aurélio e Houaiss predominam dois sentidos para a palavra desculpa: o primeiro gira em torno de pedir desculpas ou desculpar, solicitar perdão ou indulgência. O outro tem como núcleo a ideia de escusa, pretexto, justificativa, ou “razão ou motivo para atenuar ou eximir da culpa”. Quando vi e ouvi a cena, imediatamente pensei: trata-se de desculpar-se ou de inventar desculpas? Ah, não, nem como psicóloga pensei em (des)culpar-se, enquanto demanda psíquica. Jamais. E me pareceram os dois sentidos tão articulados que assim também me veio o entendimento do que deva ser a interpretação e a resposta. Primeiro: Patrícia e/ou os representantes de seus interesses (os dela e os deles!) disseram que ela não sabia o que estava fazendo. Sabia sim. Bastam apenas duas condições para se apreender os códigos culturais: ser humano e habitar este planeta. Ela atende às duas. Sua fala, que soa, assim, tão isolada, descabida e inadvertida, revela a sabedoria da aprendizagem social, da experiência concreta de existir num mundo social e politicamente organizado em bases racistas, ainda que essa experiência seja inconscientemente aprendida – o que só a torna mais letal, mas não menos eficiente. Sua fala demonstra que aprendeu que o negro é inferior, sem valor, que pode ser desqualificado. Mostra o legado bem sucedido do capitalismo e das teorias eugenistas; mostra o júbilo da ideologia racista, amplamente difundida, que pretende afirmar que não somos gente. Segundo: Patricia disse que não é racista. É sim! Pois não é exatamente isso que sua fala e ação revelam? Dizer que não é racista diante do que fez só me fez pensar: a que ponto chegamos!!! Pensa que somos loucos? Essa fala e ação revelam ainda a posição que ocupa numa escala racial a que todos estamos submetidos: um lugar de suposta superioridade – suposta –, mas sem dúvida de privilégios, cuja percepção, apropriada e distorcida, lhe permitiu olhar um outro sujeito e deslegitimá-lo em tudo o que os identifica: a condição de ser humano. É bem verdade que há muitos racistas que por uma inteligência cínica, medo ou cautela – dos quais a moça não pensou em se utilizar – não se manifestam. O contrario, porém, não pode ser afirmado: se nem todo racista se revela em sua ação, toda ação racista revela o sujeito dessa mesma qualidade. Terceiro: ela disse que não teve a intenção. Mentira. Vejam a contradição: ela, que chama um homem de macaco não sabe a diferença entre esse bicho e um homem! A ação dirigida, a intencionalidade e a capacidade de planejamento voltados à concretização de uma idéia pré-concebida no intuito de satisfazer nossas necessidades é o que distingue Aranha da aranha, que faz a teia sem saber de sua linha, de seu desenho, de seu por que. A aranha faz porque responde a uma programação filogenética. É também o que difere o homem de um papagaio, que é mero reprodutor de signos sonoros que não é capaz de simbolizar, que não respondem a significados culturais partilhados socialmente, nem tem sentidos pessoais pra ele. Quarto: ela disse que fez por amor ao Grêmio. E…? Ainda espero uma desculpa, ou deveria eu pensar que o amor justifica barbáries? Ah, deveria? Ah, então eu penso, ok, mas esse não foi um discurso de amor ao Grêmio, e sim de ódio aos pretos. O seu amor ao Grêmio você esteja a vontade para proferir. E o que me preocupa nessa trama toda nem é tudo isso. Não são as desculpas falaciosas, mas as lágrimas forjadas para colocar forçosamente no campo do compreensível o que não é justificável. O papel de vítima não cabe ao agressor. Ela, que não nos poupou de seu racismo, podia ter tido a decência de nos poupar do choro que não cabe a ela; a ela só cabem responsabilização e reparação. E percebam um detalhe quase irrelevante: antes de pedir desculpas ao agredido – ao sujeito individual e a todo o povo negro – ela pediu desculpas ao clube e a toda a nação gremista! Depoooois ela se lembra de que feriu alguém, como quem diz ‘ah, é mesmo, ainda tem isso, né?!’. Seria uma piada? Não se enganem: tão pouco ingênua é essa sujeita, tanto sabe o que faz que que não se furtou a pedir desculpas a uma entidade que canta – literalmente – a branquitude. (Sobre branquitude, ler tese doutorado Lia Vainer Schucman). Sabe que ofender um sujeito negro, concreto e real, num sistema social racista e racializado, é menos doloso que prejudicar um sujeito branco, ainda que abstrato! E é por tudo isso que não vamos aceitar desculpas. Que fique enegrecido: se ela fala por muitos, por um sentimento identitário de superioridade a partir da percepção do privilégio de que toda pessoa branca goza em nossa sociedade, a contrapartida também é valida: ofendeu a todos nós, sujeitos negros, homens e mulheres. Essa onda de revolta não é contra essa garota, trata-se de dar-se conta de todas as violências que já sofremos: a diáspora, a escravatura, a eugenia, o genocídio, o encarceramento, todos concretizados numa fala: macaco. Não me parece uma reação desproporcional. Ao fim, penso que era isso que ela realmente não sabia, que assim como ela não fala por si só, não estamos sozinhos nós, cá desse outro lado. E não vamos mais admitir. E pra deixar bem frisado que o personagem principal dessa mensagem é nosso enfrentamento cotidiano e continua, é nossa resistência, encerro com esses três vídeos, que embora menos projetados que a postura de Aranha, certamente nos orgulham e empoderam grandemente. Ela não sabia? Pois que os dessabidos saibam: não estamos sozinhos; não vamos admitir atos racistas e… desculpas pra eles? Não vamos aceitar! Referência https://www.youtube.com/watch?v=_wZa3K2F5jc https://www.youtube.com/watch?v=YJ2lpQQCx00 https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10201726019312463&id=1840013657 Imagem de destaque - Foto: Reprodução/ESPNAcompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.


Mônica Gonçalves*
Mônica Mendes Gonçalves, 28 anos, mulher, negra. Psicóloga desde 2008, neste ano ingressei no curso de Saúde Pública. De pequena aprendi com minha mãe que a mulher negra nasce na luta, e que essa afirmação de sua existência está em todos os palcos. Resisto a abandonar minha fé na mudança, expressa pelo desejo de lutar com os negros, as mulheres, os loucos, a saúde e a vida.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Grêmio Excluído da Copa do Brasil por ofensas racistas a goleiro Aranha

Pedro Ivo Almeida
Do UOL, no Rio de Janeiro
Em sessão da 3ª Comissão Disciplinar, STJD decide excluir o Grêmio da Copa do Brasil por ofensas racistas ao goleiro Aranha
O Grêmio está fora da Copa do Brasil. O time gaúcho foi excluído do torneio nesta quarta-feira (03), em sessão da 3ª Comissão Disciplinar do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), por causa de ofensas racistas proferidas por torcedores contra o goleiro Aranha, titular do Santos, em partida válida pelas oitavas de final da competição nacional. Em decisão unânime, o clube ainda recebeu uma multa total de R$ 54 mil, e as pessoas que foram identificadas xingando o jogador foram proibidas de entrar em estádios por 720 dias. O árbitro Wilton Pereira Sampaio (Fifa-GO) foi multado em R$ 1.600 e suspenso por 90 dias por não relatar o incidente na versão inicial da súmula, e os auxiliares também foram punidos por esse motivo (multa de R$ 1 mil e suspensão de dois meses).

A diretoria do Grêmio já decidiu recorrer da decisão, que agora será levada ao pleno do STJD. Ao UOL Esporte, um representante do clube gaúcho disse que não acredita que a punição seja mantida na instância superior.

Caso a exclusão do Grêmio seja confirmada, o Santos avançará automaticamente para as quartas de final da Copa do Brasil, na espera pelo vencedor do confronto entre Ceará e Botafogo.
O Grêmio foi punido com base no artigo 243-G do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), que prevê perda de pontos, mando de campo ou até mesmo exclusão do clube da competição em questão.

Na última quinta-feira (28 de agosto) um grupo de torcedores gremistas foi flagrado em ofensas de cunho racista contra o goleiro Aranha. O jogador do Santos denunciou o incidente de forma imediata, mas não teve a solicitação apreciada pelo árbitro Wilson Pereira Sampaio.

Posteriormente, com bases na transmissão de TV e imagens de circuito interno do estádio, a direção do Grêmio ajudou a identificar alguns dos torcedores envolvidos, que agora são investigados pela Polícia Civil de Porto Alegre. 

Durante a sessão desta quarta-feira no Rio, os advogados do Santos exibiram uma entrevista de Aranha ao Fantástico, programa da TV Globo.
Por sua vez, os advogados do Grêmio usaram na defesa uma campanha do clube contra o racismo, prévia ao incidente, deflagrada através do site oficial do clube, mídias sociais e no próprio estádio.

O Grêmio também contou no Rio de Janeiro com a presença do presidente Fábio Koff, de 83 anos, dirigente respeitado do futebol nacional. A estratégia de levar o cartola veterano ao STJD era de evitar o "linchamento" público do clube gaúcho.

Em seguida os gaúchos pediram sessão com portas fechadas, mas Fabrício Dazzi, presidente da 3ª Comissão Disciplinar, indeferiu a solicitação: "O julgamento aberto favorece a democracia. É uma coisa melhor para todos".

O árbitro Wilton Pereira Sampaio (Fifa/GO), que havia trabalhado no jogo Grêmio x Santos, também foi ouvido pelo tribunal. Ele explicou que não citou o coro racista na versão inicial da súmula porque não havia notado que isso tinha acontecido: "Se eu tivesse visto ou se alguém da minha equipe tivesse visto, teríamos interrompido o jogo".

Um dos auxiliares também foi interpelado pelos auditores, com foco no porquê de o episódio não ter sido citado na primeira versão da súmula. Os profissionais da arbitragem foram denunciados por causa disso.

Depois de um intervalo de cinco minutos, o auditor-procurador Rafael Vanzin relembrou episódios antigos e disse que punições pedagógicas não ajudaram a mudar o comportamento da torcida do Grêmio. Além disso, criticou declarações de dirigentes da equipe tricolor, que minimizaram o caso.
Vanzin citou até cântico da torcida do Grêmio sobre a morte de Fernandão, ídolo do Internacional: "São condutas nefastas, e eles merecem, sim, uma punição".
Na defesa, os advogados do Grêmio alegaram que fizeram tudo para ajudar na identificação dos culpados e relataram campanhas do time contra ações discriminatórias de seus torcedores. "Não é uma defesa que se faz apenas do Grêmio, mas de clubes de futebol que fazem tudo certo e podem ser punidos por ações de uma minoria. O Grêmio é um dos poucos clubes que fazem campanha contra o racismo, e faz isso há muito tempo", disse o advogado Michel Assef Filho, contratado pela equipe tricolor para trabalhar no caso.

"A procuradoria, por mídia, pede a exclusão. Mas foram apenas quatro pessoas dentro de 30 mil. Se seguirmos assim, pessoas poderão adentrar no meio de milhares com intenção de prejudicar os times", continuou o jurista.
"Tenho uma interpretação completamente diferente", respondeu o relator Francisco Pessanha no início de seu voto. Ele pediu exclusão do Grêmio da Copa do Brasil.

Na última quinta-feira, o Santos venceu o Grêmio por 2 a 0 em Porto Alegre, com gols de David Braz e Robinho. Um dia depois o STJD decidiu pelo adiamento da partida de volta, marcada inicialmente para esta quarta (dia 3 de setembro).