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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Xenofobia se converte em agressões contra imigrantes haitianos

Desde julho, 13 trabalhadores do Haiti denunciaram espancamentos sofridos dentro de empresas em que trabalhavam, em Curitiba
publicado: gazeta do povo


O tórax do haitiano Mau­­rice*, de 26 anos, ainda dói quando faz movimentos bruscos. Há pouco mais de um mês, ele foi espancado até perder os sentidos, por dois colegas de trabalho. As agressões ocorreram dentro da cerealista da qual eram empregados. O rapaz foi surrado depois de pedir que parassem de lhe ofender por sua cor e condição de migrante. Além de, por mais de um mês, ter sido chamado diariamente de “escravo” e de “macaco”, aguentava colegas que lhe atiravam bananas, como forma de ofendê-lo. Mais do que os ferimentos físicos, é a dor do preconceito que incomoda o haitiano.
“Eu falava pra eles: ‘Você é meu irmão. Sou humano igual a você, criado pelo mesmo Deus’. Mas me bateram, bateram e ninguém separou”, disse o migrante. “Eu não entendo porque isso, se sou gente como eles”, lamenta.

Antes velada, a xenofobia em Curitiba parece ter ultrapassado os limites da injúria e do racismo. Se antes o ódio se manifestava em olhares, em xingamentos e em algumas reações mais contidas, agora alguns casos passaram a se cristalizar em atos violentos.
Desde julho, a Casa Latino Americana (Casla), organização que acolhe migrantes na capital paranaense, recebeu 13 haitianos que foram espancados por causa do preconceito.

Assim como Maurice, os relatos detalham atitudes que escancaram a discriminação e que terminaram com agressões físicas graves. As vítimas estão recebendo assessoria jurídica da Casla, com apoio da Ordem dos ADVOGADOS do Brasil (OAB), por meio da Comissão de Direitos dos Migrantes.

“Todos estes casos ocorreram por preconceito e xenofobia. As vítimas foram agredidas por serem haitianas. Estamos assustados, porque estes são apenas os casos que nos chegam. Muitos devem ficar ocultos”, diz a advogada Nádia Pacher Floriani, presidente da comissão da OAB. “Às vezes, temos que nos segurar para as lágrimas não rolarem diante das histórias”, conta.

No trabalho

As agressões recentes reúnem uma característica em comum: foram cometidas dentro de empresas em que os haitianos trabalhavam. Por precisarem do emprego, muitas das vítimas acabam suportando as humilhações e as agressões, silenciando diante do preconceito. “Ao mesmo tempo em que essas aberrações acontecem, muitos são obrigados a permanecer no trabalho para garantir seu sustento. É xenofobia. É um problema cultural de não aceitar o outro”, define o ADVOGADO trabalhista Adriano Falvo, que presta assessoria jurídica voluntária às vítimas.

As ocorrências extrapolam a esfera trabalhista e têm gerado, também, ações criminais. Um dos homens que espancou Maurice chegou a se preso poucas horas depois, por crime de racismo. Posteriormente, no entanto, foi solto, porque as autoridades consideraram que o ato se enquadrava em injúria racial. Mesmo diante do patrão, ele teria mantido as ofensas. “Ele disse ao chefe que tinha me batido porque não gostava de preto e de haitianos. Eu fico muito triste com isso”, desabafa Maurice.

* Os nomes das vítimas e das empresas foram omitidos, porque os casos correm na Justiça sob sigilo.




Proibido de trabalhar após casos suspeitos de ebola


A suspeita recente de ebola no Paraná parece ter colocado em ebulição o preconceito e a xenofobia contra migrantes negros, mesmo aqueles que não vêm da zona de maior risco para a doença, ainda circunscrita a países da África. Na última semana, um imigrante do Haiti I (país da América Central), contratado de uma empresa terceirizada que presta serviços a uma construtora, foi impedido de entrar na obra em que trabalhava. “Ele foi barrado na portaria, por um funcionário que disse: ‘Você é haitiano, negro e vai trazer doenças. Aqui você não trabalha’. Ele não pôde sequer pegar suas coisas, que ficavam num armário da obra”, disse o advogado Adriano Falvo.


Na última segunda-feira, a Gazeta do Povo mostrou que, após a suspeita de um guineano ter sido contaminado com o vírus do ebola em Cascavel, parte da população local se voltou contra os migrantes negros. “Apesar de o Haiti ficar a milhares de quilômetros da Guiné, depois desse caso a xenofobia e o preconceito parecem ter aflorado por aqui. Só com informação é que vamos reverter isso”, opina a advogada Nádia Floriani.


Chefe que agredia haitiano foi demitido após denúncia


Além de ter apanhado do chefe de cozinha do restaurante em que trabalha, em Curitiba, Jean* afirma que ainda foi espancado no ALOJAMENTO da empresa, onde o agressor também morava. O haitiano, de 24 anos, foi ameaçado de morte e, ainda hoje, sente medo. “Eu estava no computador. Ele chegou em casa e já me deu um soco na cabeça. Eu perdi os sentidos. Quando acordei, ele continuou me batendo e pegou uma faca. Eu consegui correr para fora e voltei ao restaurante. Ele queria tirar a minha vida”, conta o haitiano.


Perseguido


Antes mesmo de ter sido agredido no alojamento, Jean vinha sendo perseguido pelo chefe de cozinha, que o chamava com palavrões e de “preto”. O rapaz continua trabalhando no restaurante, enquanto o chefe foi demitido. Ainda assim, ele pensa em mudar de emprego. “Eu faço de tudo para segurar este trabalho, mas tenho muito medo”, confessa.

Curitibano tem restrições a imigrantes


publicado: gazeta do povo

Pesquisa mostra que 51% aprovam a acolhida de estrangeiros. Mas 13% são contra e 36% fazem ressalvas
Os recentes casos de xenofobia, racismo e intolerância denotam que Curitiba não pode se esquivar do debate sobre a imigração. O fantasma assusta. Ontem, a Gazeta do Povo mostrou que, nos últimos três meses, 13 haitianos foram espancados dentro de empresas na capital. Pesquisa feita pela Brain Bureau Inteligência Corporativa demonstra que, apesar de a maioria dos curitibanos ver com bons olhos a vinda de estrangeiros, o índice de rejeição a imigrantes ainda é grande.


O levantamento aponta que 51% dos entrevistados se manifestaram favoráveis a Curitiba acolher pessoas de outros países. Por outro lado, 36% só aprovam o fenômeno dependendo do imigrante e 13% são contrários a qualquer tipo de imigração. E 15% acreditam que o trabalho dos estrangeiros radicados em Curitiba prejudica a economia. Para 48%, depende: os imigrantes podem ajudar ou atrapalhar. Só 37% consideram que os forasteiros contribuem com a cidade por meio do trabalho.

Parte da Europa, que vive às voltas com casos de xenofobia, tem números semelhantes aos de Curitiba. Em um referendo realizado em fevereiro na Suíça, 50,3% da população local consideraram que o país deveria instituir cotas de imigração. Na ocasião, nações como França e Alemanha manifestaram preocupação com as reações que a iniciativa (ainda não implantada) poderia causar.

No Brasil, segundo o Mi­nistério da Justiça, três principais fluxos migratórios convergem atualmente para a capital paranaense com maior força: africanos, sulamericanos e, principalmente, haitianos. Curitiba é a quarta cidade brasileira que mais recebe imigrantes do Haiti. Estima-se que mais de 2,5 mil deles estejam vivendo na capital. De acordo com a pesquisa, 71% dos curitibanos aprovam a vinda de haitianos. Outros 17% rejeitam a presença dos imigrantes do Haiti e 12% disseram não ter opinião formada. A reprovação é sentida de forma velada por quem teve de deixar sua terra e buscar uma vida melhor.

“Às vezes, a gente senta em um banco de praça e as pessoas fazem cara feia, se levantam e vão para outro lado”, disse o haitiano Morales Moralos, de 38 anos. “Eu vim aqui para trabalhar, para ajudar. Mas parece que não temos direitos [trabalhistas]. E os piores trabalhos ficam para haitianos. Se tiver um haitiano e um brasileiro, a empresa vai escolher o brasileiro”, acrescentou Feguner Toussaint, de 30 anos. Ambos estão desempregados.

Preconceito

O debate ocorre 140 anos depois de Curitiba receber as primeiras levas de estrangeiros. No fim do século 19, vieram os alemães, italianos, poloneses e ucranianos. Hoje, o fluxo migratório envolve estrangeiros de pele negra. Para o sociólogo Lindomar Bonetti, professor da PUCPR, a rejeição pode estrar atrelada aos laços europeus de Curitiba e ao pensamento “branco”.

“Parece que, quanto mais desenvolvida a região, maior é um grau de conservadorismo. É a dificuldade de compreender o diferente e o medo de perder espaço para este. O branco se vê ameaçado do ponto de vista cultural e da conquista dos espaços sociais.”

As vítimas à espera de Justiça

O haitiano Jean* é uma das vítimas recentes da xenofobia. Auxiliar em uma rede de restaurantes, ele foi espancado pelo chefe de cozinha no ambiente de trabalho e no ALOJAMENTO da empresa. O rapaz acredita que tenha sido agredido por ser negro e imigrante. “Eu acho que quem faz isso é quem não tem um nível intelectual. Quem estudou não vai fazer uma coisa dessas, porque sabe que julgar pela cor é errado”, diz. Enquanto isso, aguarda Justiça.

Para a presidente da Co­­missão de Direitos dos Mi­gran­tes da Ordem dos Ad­vogados do Brasil, Nádia Floriani, é preciso superar o preconceito. “Os migrantes não vêm para um cruzeiro. É uma migração forçada. Vêm porque precisam”, diz. “As pessoas deveriam ver o lado positivo. Como nossos antepassados, os imigrantes são pessoas que vieram para contribuir com o desenvolvimento econômico e cultural da sociedade.”

Outro braço forte na defesa dos estrangeiros tem sido o Ministério Público do Trabalho (MPT). Neste ano, o órgão inspecionou quatro obras para checar se os direitos trabalhistas estavam sendo assegurados. Em duas delas, houve irregularidades. “Havia haitianos trabalhando sem contrato ou sem anotação na carteira”, diz o procurador Alberto Emiliano de Oliveira Neto. “Toda essa violação de direitos sociais nos preocupa muito. Temos de não só combater as irregularidades, mas atuar de forma pedagógica, de forma a derrubar certos mitos e dogmas.”

Os 13 haitianos agredidos desde julho no trabalho em Curitiba estão sendo acompanhados pelo MPT, OAB e Casa Latino-Americana (Casla), que precisa de ADVOGADOS voluntários. Cada ocorrência gerou uma ação trabalhista e uma criminal. Ontem, uma das vítimas – um rapaz espancado depois de ser chamado de “macaco” e “escravo” – distribuía currículos no Centro da capital.

*nome fictício, porque o caso corre sob segredo de Justiça.