Mostrando postagens com marcador gay. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gay. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A verdade verdadeira do gay de verdade

Por Fabrício Longo, d’Os Entendidos
publicado: Revista Fórum

Pelas sagradas perucas da Cher! Que graça é essa de não saber a última coreografia da Beyoncé? Como assim “eu gosto de futebol”? Está maluco, rapaz?! Sashay away, que para ser bicha tem que saber a trilha sonora de Moulin Rouge de cor e salteado! Ou você acha que eles liberam entrada na sauna assim, sem nem perguntar a discografia na Madonna? Não, não! Para ser gay, tem que ser um gay de verdade!

É bastante improvável que algum pai tenha dado o “esporro” acima em seu “filhão”. Do momento em que é comprada a primeira roupinha azul, a única coisa que nos ensinam é como ser um “homem de verdade”: o contrário de ser gay.

Parece estranho que o sistema binário – que aprisiona os gêneros em masculino e feminino, geralmente centrado na genitália – seja tão rápido em dizer que alguém é um menino e que portanto, automaticamente tem obrigações sociais “de homem”. Estranho porque se fosse mesmo algo tão óbvio, essa masculinidade não seria ameaçada por qualquer “deslize”, como a ousadia de “rezar fora da cartilha”. Somos designados como homens se possuirmos um pênis, mas perdemos direito a essa definição se gostarmos de chupar um. O que não é “coisa de homem”.

Deve ser por isso que ser hétero é tão difícil. As regras são tão estritas que é praticamente impossível que alguém esteja 100% em acordo com elas. Talvez seja isso que nos ajuda a entender quando uns e outros falam em orgulho hétero. Certamente, passar a vida toda sem perder esse título deve representar uma conquista, e talvez por isso que existe tanta questão de apontar quem não consegue. E nesse clube, gay não entra.

Mas parece que para ser gay também é preciso seguir uma cartilha.
Como todo grupo social, a comunidade LGBT tem características e marcadores culturais próprios. Depois de anos de história, temos ídolos, divergências, nichos de consumo e ramos de pesquisa, uma bandeira oficial e uma penca de subgrupos. Estamos em todas as esferas da sociedade, não importando se o mainstream nos aceita ou não. Porém, no “mundo normal”, somos marcados pela diferença. Somos “infiltrados”.

Como se sente, então, o “gay invisível”? Como fica quem não está nem lá e nem cá, nesse limbo da invisibilidade?

Muitos gays enchem a boca para dizer que o movimento não os representa, ou que tais e tais comportamentos seriam “desnecessários” ou desrespeitosos. Quando essa rejeição é muito grande e vira razão para discriminar e promover valores conservadores, falamos em homofobia internalizada – que é a homofobia plantada no indivíduo homossexual e reproduzida por ele. É uma das faces mais cruéis da opressão, pois funciona de dentro para fora. Mas há também o caso daqueles que, sem sentimentos de aversão, simplesmente não se identificam com o ideal de gay. A heterossexualidade e a construção da masculinidade não admitem desvios, enquanto a cultura gay se reconhece através de padrões definidos.

Já escutei muitos relatos de meninos se dizendo confusos por não se sentirem “gays de verdade”. Uma vez, um comentário em um dos textos da coluna falava no “verdadeiro gay afeminado”, listando uma série de características de dona de casa dos anos 50 que teoricamente seriam as ideais para gays, em oposição à postura escandalosa de dar pinta e “fechar o tempo”. Tudo besteira!

Dançar a coreografia de I’m a Slave 4U é uma das coisas mais divertidas do universo, mas o que define um homossexual é o desejo – que nem sempre inclui a prática – por pessoas de mesmo gênero. Todo resto é “perfumaria”.

Isso de pegar uma prática sexual e transformar em identidade de grupo, além de cobrar que as pessoas assumam fazer parte dele, é uma escolha. Uma escolha cultural, feita há anos pelos agentes de um sistema de opressão, em benefício próprio. “Gay” e “hétero” são ilusões. Palavras criadas para reduzir as diversas qualidades dos indivíduos a uma única bandeira, como se o nosso modo de fazer sexo definisse quem somos.

Ninguém, nem mesmo nossos pais, tem poder para ditar o que somos ou deixamos de ser. É “gay de verdade” quem escolhe essa identidade. Eu me defino como quiser, obrigado.

Permita-se. Seja livre. Encontre a sua própria verdade e não permita que tentem roubá-la de você. Isso é fabuloso!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O castigo do “corpo gay”

Seria natural que a “Comunidade Gay” fosse um paraíso de aceitação pronto para receber seus filhos. Entretanto, não é isso que acontece. Ao invés de buscarmos o respeito à diversidade – que gostamos tanto de dizer ser nosso objetivo – seguimos na eterna busca da aprovação dos heterossexuais

Por Fabricio Longo, em Os Entendidos
publicado: revista Fórum

GAY [guêi] adj. Informal. 1. Homossexual. Que se refere à homossexualidade: relacionamento gay. 2. Que demonstra comportamentos, particularidades e/ou ações características de homossexual: evento gay. s.m. e s.f. Aquele ou aquela cuja atração (afetiva e/ou emocional) é demonstrada e/ou direcionada a pessoas do mesmo sexo: ela é gay, logo, tem uma namorada. 3. (Etm. do inglês: gay) Alegre, vistoso.

A apropriação de termos ofensivos é um dos pilares da cultura de resistência. A palavra “gay” era utilizada em tom pejorativo por significar “alegre”, para deixar claro que a frescura – ou “alegria” – não era um traço desejável em um homem. Como o machismo necessita da constante afirmação do masculino, transforma tudo que é afeminado – ou seja, gay – em algo desprezível, menor. Chega a ser irônico que a palavra usada para definir homossexuais seja essa…

Ser gay dói. É difícil. Apesar de impressionantes avanços dos últimos 40 anos, perceber-se homossexual ainda envolve muita negação e rejeição. Há o medo de contar para a família, o medo de passar a vida sozinho, o medo de sofrer com a violência das ruas, o medo do preconceito nos espaços de trabalho… Tudo isso parece passar quando vivemos o momento libertador de “sair do armário”, já que admitir essa identidade tira o peso do segredo, de uma dor solitária. Acontece que esse “assumir-se” é uma resposta à pressão social por uma definição. Por mais gostoso que seja, transforma-se em outro pedido desesperado por aceitação, como um “tá bom, sou isso mesmo, já podem me encaixar em X modelo de sociedade”. E não há nada de alegre nisso.

Seria natural que a “Comunidade Gay” fosse um paraíso de aceitação pronto para receber seus filhos, inclusive com as variantes que formam nossa sigla atual, ALGBTTIQ. Entretanto, não é isso que acontece. Ao invés de buscarmos o respeito à diversidade – que gostamos tanto de dizer ser nosso objetivo – seguimos na eterna busca da aprovação dos heterossexuais. Por sermos definidos como divergentes do “padrão de referência”, procuramos obsessivamente “nos desculpar pelo incômodo” e corrigir a nossa falha, entrando num padrão definido para nós, por aqueles que nos rejeitam.

Alteramos nossos corpos.

“Gay” é um padrão que vai muito além de desejos sexuais ou de identidades culturais. É um nicho social que tem regras rígidas, reproduzidas quase sem pensar. Um “homem gay ideal” precisa ser melhor do que um heterossexual. Mais bonito, culto, bem cuidado, estiloso… É como se a “falha” da homossexualidade tivesse que ser compensada com uma série de qualidades fabulosas de anúncio de revista. Dentes brancos, cabelo liso e bem penteado, corpo sarado, porte atlético, barba desenhada porque a aparência masculina deve ser cultivada. Somos lindos e gays, mas apenas quando parecemos uma coleção de bonecos Ken!

A cada final de semana, as redes sociais são inundadas por milhões de fotos de homens gays, sempre exibindo a felicidade conjunta de festas e eventos badalados. É fumaça, bons drink com energético, corpos brilhando de suor e raios laser iluminando as pistas. Curiosamente, ninguém usa camisa. Somos lindos e nossos corpos conquistados à duras penas nas academias precisam ser exibidos. Ao que parece, é o único meio de sermos desejados e admirados. Validados pela luxúria alheia. Padronizados. Aceitos.

É o “bom estereótipo gay”, já que essa beleza branca e endinheirada nunca é questionada. O gay que incomoda é a “bichinha pão com ovo”. Os “machos sarados” são motivo de inveja entre homens HT e um desperdício na opinião das mulheres. Gordos “nem parecem gays”, e como não são aceitos pelo padrão vigente precisam criar um nicho próprio, a toca dos ursos. Negros são a minoria da minoria, transformada em um fetiche por pau grande.

Nesse mar de generalizações, só temos em comum o estigma da promiscuidade. Nossa liberdade sexual goza do sabor predatório que o machismo empresta à sexualidade de todos os meninos, com a vantagem de que nossos parceiros são nossos iguais, sem repressão. Talvez seja esse o nosso pecado imperdoável, que precisa ser coberto de culpa como forma de punição. Ao sermos reduzidos a nossos desejos sexuais, somos privados de nossa identidade e considerados um pouco menos humanos. Viadosmesmo.

Esse castigo é doloroso porque não importa o tamanho do esforço, pois continuaremos à margem. Somos lindos, mas sacrificamos nossos afetos para manter um padrão inatingível, que nos oprime. Na busca por uma perfeição inventada, criamos outra coisa para rejeitar em nossos corpos e nossas subjetividades. Não há nada de alegre nisso… O que é TÃO gay!