quarta-feira, 26 de março de 2014

Karol Conka conquistando a Europa

Um ano após o lançamento de seu primeiro disco, rapper curitibana ganha a Europa e bota os franceses para dançar ao som de seu groove universal
Publicado em 26/03/2014 |
Vocês vão ter que a engolir. Se em tempos outros era o rock curitibano que derrubava a barreira do invisível e almejava algum alcance nacional – Blindagem, Beijo AA Força, Maxixe Machine, Relespública, Poléxia –, e no início da década passada a fuleiragem funkeada do Bonde do Rolê conquistou até a revista Rolling Stone – “escutem essa banda!”, ordenaram –, hoje é uma rapper do Boqueirão que carrega a música da cidade nas costas e na mochila, e de certa forma manda um recado para aqueles que ainda esperam algum grupo local “fazer sucesso de verdade” para que lhe seja dada a devida atenção.

Heitor Humberto/Divulgação / Show explosivo: reconhecimento começou no Prêmio Multishow de 2013, quando Karol Conka ganhou na categoria “Revelação”
Heitor Humberto/Divulgação
Show explosivo: reconhecimento começou no Prêmio Multishow de 2013, quando Karol Conka ganhou na categoria “Revelação”
Diário de bordo
Karol Conka aprontou das suas em Paris e irá participar de um prestigiado projeto musical em Londres. Confira:
“Brresiil!”
Na última sexta-feira, gritos de “Karroool” e “Brrresiil” ecoaram em uma das salas do 104, espaço cultural de Paris. Karol colocou os cerca de 200 parisienses presentes para dançar ao som de “Corre, Corre, Erê”, a primeira faixa do setlist.
Agenda
Houve participações em emissoras da rede Radio France, além de entrevistas e sessões de fotos em veículos do país – momentos depois de sua apresentação na France Inter, o disco da brasileira passou a figurar no ranking dos mais vendidos na seção hip-hop do iTunes francês.
Rémy Kopoul
No estúdio móvel da Radio Nova, Karol conversou com Rémy Kolpa Kopoul, um dos nomes mais importantes da indústria musical na França, responsável por turnês de Caetano Veloso e Gilberto Gil na Europa durante os anos 1980
“I Feel Good”
O clube Le Plan, em Ris-Orangis, a 20 minutos de Paris, foi palco para artistas como James Brown, Barrington Levy, Charles Bradley, Lee “Scratch” Perry, entre outros. Foi lá que Karol fechou a segunda noite do festival Les Femmes.
Vale nota
Em Londres, na próxima semana, a curitibana irá gravar no Brownswood Basement, renomado projeto do produtor Gilles Peterson, um dos nomes por trás do surgimento do Jamiroquai.
O fato é que Karol Conka está com tudo. Um ano após o lançamento de Batuk Freak, álbum que colocou a vida de Karoline dos Santos Oliveira de cabeça para baixo, a descolada rapper de cabelo mutante vive um “boom” internacional que desafia explicações.
Começou com a inclusão da música “Boa Noite” no game Fifa 2014, passou por sua participação na propaganda da Adidas, chegou até o Japão, onde, após convite do DJ Zegon, tocou ao lado da dupla N.A.S.A., e agora o furacão Karol está na Europa – o selo inglês Mr. Bongo Records lançou o disco internacionalmente, e a rapper tem quatro shows na França e um na Inglaterra programados até o fim do mês.

“Já me disseram por aqui que não fazem a menor ideia do que eu canto, mas que adoram a minha interpretação, espontaneidade e atitude”, diz Karol, por e-mail, de Paris. Sua extroversão nada curitibana, seu visual caleidoscópico e, claro, a sonoridade algo universal de Batuk Freak, abriram portas para sempre. “Talvez o disco tenha saído no momento certo, em que as pessoas estavam buscando algo contemporâneo e diferente do que está saindo pelo mundo. Tanto é que o disco foi bem aceito tanto como hip-hop quanto como world music”, diz a M.I.A. dos pinheirais.
Na turnê europeia, a rap­­per está sendo acompanhada pelo DJ francês Tom B. “Sabe tudo de música brasileira. Já desfilou no carnaval carioca duas vezes e conhece um monte de músicos aqui na Europa”, diz a curitibana, que também aproveita para fazer seus contatos. “Conheci a cantora africana Angélique Kidjo e a búlgara Dena.”
A música de Karol Conka encontrou um facilitador na França, país em que a cultura do rap tem grande força. Ela conta que os franceses – e imigrantes africanos, propulsores da cena local – “já estão abertos” a esse tipo de música. “Tenho o privilégio de poder circular confortavelmente entre o rap, o pop e a world music aqui na Europa, assim como tem rolado no Brasil”, diz.
Apesar do assédio da imprensa local –“na primeira semana, fiz várias entrevistas por dia!” –, Karol se diverte. Conta que oui, está se virando em francês. E que, no tempo que sobra, passeia por Paris. O mais difícil mesmo é acompanhar a repercussão de seu trabalho. No fechamento desta reportagem, uma informação de última hora: o disco Batuk Freak é o mais “baixado” e o segundo mais ouvido no conceituado site francês Qobuz. Quem segura Karol?

CCJ da Câmara aprova cota para negros em concurso público


publicado:www.folha.com.br
Foto - Desembargador Paulo Rangel

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (26) um projeto que reserva 20% das vagas em concursos públicos federais e cargos comissionados (ocupados por pessoas indicadas) para afrodescendentes.
A expectativa de líderes da Casa é de que a proposta possa ser votada na noite de hoje pelo plenário da Câmara. Encaminhado pelo Planalto no ano passado, a proposta tramita em urgência, o que garante prioridade na pauta de votações.

Na CCJ, o relator, deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), aprovou o texto com três mudanças apresentadas por deputados. Foi inserido um mecanismo para estender a reserva de vagas para nomeação de negros aos cargos em comissão. A Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público havia aprovado sugestão no mesmo sentido.
Outra emenda aprovada, do deputado Domingos Dutra (SSD-MA), amplia o percentual de reserva de vagas para 30% e inclui os indígenas. A CCJ também considerou constitucional a emenda da deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP) que sugeriu que o preenchimento dos cargos em comissão seja feito em percentuais paritários entre negros, pardos e brancos.
As modificações serão debatidas em plenário. Para o relator, os negros continuam com acesso reduzido às oportunidades de obter aprovação nos concursos públicos por conta de um dívida histórica.
"Essa dívida remonta aos tempos da escravidão e sua posterior exclusão dos meios de educação formal, que levaram à condição de pobreza a maioria dos negros do país", disse o deputado. E completou: "Segundo IBGE, apesar de os negros representarem mais de 50% da população, eles ocupam hoje menos de 30% dos cargos na administração pública."
O texto já foi aprovado pelas Comissões de Direitos Humanos e pela Comissão de Trabalho. Uma emenda apresentada pelo Pastor Eurico (PSB-PE) e acatada pelo relator, Marco Feliciano (PSC-SP), estabelece uma divisão no preenchimento das vagas. Dos 20% de vagas reservadas, 25% teriam que ser ocupadas por pessoas que concluíram seus estudos em escola privada e 75% para aqueles que se formaram em escolas públicas.
Inicialmente, o projeto enviado ao Congresso pelo governo estabelecia a cota apenas em concursos públicos. Relator da proposta, Feliciano ampliou a reserva de vagas também para os cargos comissionados (indicações políticas). De acordo com dados divulgados pela comissão, o governo conta com cerca de 90 mil comissionados.
A cota vale para concursos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União. A reserva vale por dez anos.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Justiça arquiva processo contra ator preso por engano no Rio

publicado:Folha.com.br

O juiz Rudi Baldi Loewenkron, da 33ª Vara Criminal do Rio, determinou o arquivamento do processo no qual o ator e vendedor Vinícius Romão de Souza, 27, era acusado de roubo. Ele ficou preso por 16 dias, após ser identificado como o responsável pelo assalto à copeira Dalva Moreira da Costa.
O ator foi solto apenas depois de a vítima do assalto ter dito que tinha ficado em dúvida se ele tinha sido realmente o autor do roubo. A bolsa que teria sido roubada não foi encontrada com ele.
Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Rio, a decisão judicial acolhe parecer do Ministério Público estadual, que fundamentou seu pedido de arquivamento do caso por "carência de justa causa para a deflagração de ação penal".
Ontem, o advogado Rubens Nogueira disse à Folha sua preocupação com relação ao arquivamento do processo. "A opção por arquivar por falta de provas implica no fato de que o réu ainda pode ou não ser culpado. Seria melhor que o juiz absolvesse Romão, determinando que ele não participou do assalto", argumentou.
Gabriel de Paiva - 26.fev.14/Agência O Globo 
O ator e vendedor Vinícius Romão de Souza após ser solto no Rio

Em depoimento na Coinpol (Corregedoria Interna da Polícia Civil), na manhã de ontem, Vinícius Romão de Souza relatou o sumiço de seus bens durante a prisão.
O delegado Niandro Lima afirmou que uma sindicância foi aberta para averiguar o que aconteceu no caso de Romão. Segundo o advogado Rubens Nogueira, o pai de seu cliente, Jair Romão, só recebeu de volta a carteira do filho, com R$ 10 e o documento de identidade.
Em nota, a Coinpol informa que a investigação preliminar vai avaliar a conduta do policial civil Waldemiro Antunes de Freitas Junior, lotado na 11ª DP (Rocinha), que fez a abordagem do ator e apresentou a ocorrência à delegacia, e do delegado de plantão na 25ª DP, William Lourenço Bezerra, responsável por lavrar o flagrante.

A copeira disse que chegou a pensar em retornar à polícia no dia seguinte para "retirar a queixa", e que só não o fez por não ter o dinheiro da passagem. Disse ainda que o policial que passava pelo local e prendeu o jovem em flagrante, "mesmo hesitante", só o conduziu à delegacia porque ela o reconheceu na hora como autor do crime.
O ator fez parte do elenco da novela "Lado a Lado", da TV Globo. Formado em psicologia, nos últimos meses, trabalhava como vendedor em um shopping na zona norte do Rio e voltava para casa na hora da abordagem policial. Segundo o advogado, ele ainda não retomou o trabalho no shopping.
No último dia 7 de março, foi preso Dione Mariano da Silva, 24, suspeito de ser o responsável pelo assalto a copeira que acusou, por engano, o ator. Silva foi encontrado no Engenho de Dentro (zona norte), mesmo bairro onde houve o assalto. Segundo moradores do bairro, ele é morador de rua.
Com Silva foi encontrado um revólver e munição, por isso ele foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

'Senti-me acolhido pelos detentos', diz ator preso por engano no Rio

publicado: folha.com.br

O ator Vinícius Romão, 27, que ficou preso por 16 dias após uma identificação falsa, recebeu a imprensa em seu apartamento na tarde desta quarta-feira e contou como foi esse tempo na Casa de Detenção Patricia Acioli. "Há muitos Vinícius lá dentro, e me senti acolhido pelos detentos", afirmou.

Romão foi solto por volta das 13h de hoje e foi direto para o apartamento onde mora sozinho no Méier, zona norte do Rio, acompanhado pelo pai, Jair Romão, e pelo advogado Rubens Nogueira. No apartamento, foi recebido por cerca de 50 amigos, vizinhos e jornalistas.

Pálido e aparentemente mais magro, Romão chorou e cumprimentou um a um antes de falar com a imprensa. Ele disse que não guarda mágoas ou rancor da mulher que o acusou. "Ela foi vítima", resumiu. Já sobre a atuação da polícia, ele preferiu não comentar, designando ao advogado a informação.
Gabriel de Paiva/Agência O Globo

O ator e vendedor Vinícius Romão de Souza foi solto agora no começo da tarde desta quarta-feira

PRESÍDIO

"Quando cheguei no presídio, rasparam a minha cabeça e perguntaram sobre qual facção eu pertencia, e eu respondi que era neutro", relatou Romão.

Na cela em que ficou até ontem, quando foi expedido seu mandato de soltura, ele ficou com presos por crimes de tráfico de drogas e agressão doméstica. De ontem para hoje, ele detalha, passou a noite com outros 14 homens numa cela onde haviam três beliches.

"Dormi no chão sobre papelão. O líder chegou a me sugerir pedir a declaração da faculdade para eu ser transferido para uma cela especial, mas preferi ficar aonde estava para não ficar sozinho", contou.

O ator descreveu que, na unidade prisional, tinha direito a três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e quatro banhos de dez minutos cada. No banho, como ele ressaltou, eles aproveitavam para encher recipientes com água do chuveiro para tomarem.

"Lá eu li 'Poliana' e a maior lição disso tudo é aproveitar cada minuto da vida", disse. "No uniforme vem escrito 'Seap - Ressocialização', só que não acredito que quem está lá possa sair melhor que entrou, pois falta recursos, oficinas, palestras, algo para fazer. Muitos se apegam à palavra de Deus."

"Há muitos Vinícius lá dentro, e me senti acolhido pelos detentos. Quando me mudaram de cela ontem, não me avisaram que ia ser solto, mas falaram que a minha prisão estava repercutindo em todo país, e esta foi a informação que eu precisava para manter a calma e a única coisa que não poderia esquecer, a esperança."

PRISÃO

Vinícius Romão relatou que na noite em que foi preso um policial o abordou no momento em que voltava a pé para casa. Ele estava de camisa preta, com celular preso ao braço ouvindo música e sem mochila ou bolsa no corpo, o que poderia sustentar a suspeita do roubo.

"Eram dois caras e a mulher. Um deles pediu para eu virar e apontou uma arma para as minhas costas. Eu disse 'braço (gíria para designar alguém forte), não sou eu quem vocês estão procurando. Não entenderam", explicou Romão sobre o fato de a polícia ter dito que o acusado estaria escondendo a bolsa roubada ao braço.

Vinícius Romão negou ter sido vítima de racismo mas contou que não teve seus direitos preservados. "Muito tem que ser revisto. As condições de higiene são desumanas. Só pude ligar para o meu pai no dia seguinte."

Recém-formado em Psicologia, Romão anunciou que, após descansar, pretende retomar seu cargo de vendedor de roupas na unidade da loja Toulon instalada no Norte Shopping. Com relação à carreira de ator, ele, que atuou na novela "Lado a lado", da TV Globo, sutilmente, deixou clara sua vontade em fazer um curso de formação.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

“12 Anos de Escravidão” Herança racista

Cloves Geraldo *
publicado:vermelho.org.br

Cineasta anglo-africano Steve McQueen retoma o tema da escravidão para mostrar a permanência do racismo

Nefasta herança do sistema escravocrata, o racismo continua a assumir as mais diversas facetas, do preconceito ao diferente à disfarçada adoção de termos, como clean (limpo) ou aloiramento dos cabelos para estar na moda. Daí parecer ficção o filme que o cineasta afro-britânico Steve McQueen e seu corroteirista John Ridley estruturaram a partir das memórias do músico, escritor e abolicionista estadunidense Solomon Northup, “12 Anos de Escravidão”, lançada em 1853.

Do século XV, inicio do tráfico de escravos, ao século XIX foram vendidos 14.650.000 de africanos aos EUA (2). Na metade deste último, os afro-descendentes e os ex-escravos já circulavam como libertos no Norte dos EUA. Mesmo assim, no Sul, essencialmente agrícola, perdurava a escravatura. McQueen, em síntese exemplar, revela-o do instante em que o escravo, nativo ou africano, se torna mercadoria e tem seu preço fixado pelo leilão de cativos até chegar à fazenda. Ele não tem voz, apenas se submete.

Escravos são cotados em leilão

O leilão de escravos é um circo de horrores. Eles, homens, mulheres e crianças, são classificados segundo sua complexão física, saúde e habilidades laborais. E, uma vez precificados, são expostos nus diante dos compradores. Concluído o “pregão”, filhos são separados dos pais, irmãos dos irmãos, a família se desintegra. As sequências em que os filhos pequenos de Eliza (Sarah Paulson) são levados pelo comprador e seu choro constante, já na fazenda, corroem as entranhas dos mais insensíveis. 

Também a experiência de Northup, como escravo liberto, nada lhe serve. Ele se esmera em ser útil ao senhor de escravos Ford (Benedict Cumberbatch), para reconquistar a liberdade, mas sua solução para o transporte de madeira rende lucros a seu dono, mas só lhe traz problemas. McQueen ao ressaltar sua atitude mostra o quanto o senhor de escravos lucrava: como dono e como empresário. Northup, agora Platt, é, assim, duplamente rentável: como mercadoria e mão de obra, sem recompensa alguma.

Ocorre que no sistema escravocrata o escravo não é dono de sua força de trabalho, ele está à mercê dos interesses de seu dono. Serve como moeda de troca, penhora, empréstimo e venda. Platt hesita quando Ford, endividado, lhe diz que irá trabalhar na fazenda do poderoso Pepps (Michael Fassbender). É onde seu aprendizado de escravo se completa. É notável a clareza de McQueen para fazer o espectador entender a trajetória de Platt de ex-escravo esperançoso a ser humano mutilado.

Escravo é mula de carga

No sistema escravocrata, diz Northup/McQueen, o escravo passa do sonho à desilusão, dado ao tratamento de mula de carga que recebe. Deve suportar sempre mais às costas. De Platt e dos demais escravos, na fazenda de Pepps, é sempre exigida mais produção/colheita de algodão. Então ele, ao entender isto, perde a ilusão de libertar-se pelo esforço no trabalho. Não só pelo que sofre, mas pelos castigos impostos a Patsey (Lupita Nyong´o). As costas dela ficam em carne viva. E a autoestima e o ego se despedaçam.

McQueen não deixa de fora nenhuma etapa da desumanização perpetrada pelo sistema escravagista. Inclusive o uso da religião, dos versículos bíblicos, para sustentar os castigos e impingir medo ao escravo. Pepps, a cada chicotada em Patsey, cita um deles. Ao escravo era negado seu próprio ritual religioso. A exemplo do que fazem hoje certas igrejas evangélicas no Brasil ao invadir terreiros espíritas onde os afrodescendentes realizam seus rituais. Confundem, assim, culto aos orixás com rituais satânicos e só geram medo.

Notável a capacidade de McQueen em tratar de suas raízes e ser fiel à memória e luta de Northup. Embora Alex Hayley (1921/1992) tenha abordado este tema, em sua obra “Raízes”(1976), transposta para uma série televisiva de sucesso (1977), ele é mais contundente e corajoso. Não negligencia a contribuição dos afro-descendentes, como Steve Spielberg, em “Lincoln” (2012), que mostra a abolição como contribuição exclusiva deste, ou trata a luta do escravo como uma história de heroísmo, igual a Quentin Tarantino, em “Django Livre” (2012).

O Platt, de McQueen é o escravo que viveu as experiências de liberto e de cativo e entendeu a necessidade de organizar os seus para conquistar a abolição. Não foi um herói solitário do western, mas um revolucionário, que se entregou a causa de seu povo. Além disso, McQueen, ainda que tenha construído um filme de linguagem e estética clássica, soube fazê-lo usando os recursos com precisão e maestria. Adverso do que fez em “Shame” (2011), com cenas curtas, cortes rápidos, planos aproximados, closes. É um cineasta cuja estética serve ao seu tema.

“12 Anos de Escravidão”. (“Years a Slave”). Drama. EUA/Reino Unido. 2013.133 minutos. Fotografia: Sean Bobbit. Roteiro: Steve McQueen/John Ridley, baseado na biografia homônima de Solomon Northup. Direção: Steve McQueen. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong´o, Sarah Paulson, Benedict Cumberbatch.

(*) Bafta 2014 (prêmio inglês): Melhor filme e Melhor ator (Chiwetel Ejiofor)

(*) Globo de Ouro 2014: Melhor filme.

(1) “12 Anos de Escravidão”, Northup, Solomon, 232 págs, 2013, Editora Seoman.

(2) Franklim, Hope John; Moss, Jr., Alfred A., Da Escravidão à Liberdade, A História do Negro Americano, 1989, pág.51, Editora Nórdica, 


* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis, "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Conmebol diz que não tem como conter racismo de torcedores

publicado: gazeta do povo -

Presidente da entidade afirmou ainda que "o racismo não está ligado só ao futebol". Jogador Tinga foi alvo de manifestações racistas em jogo do Cruzeiro na Libertadores

O presidente da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), Eugenio Figueredo, repudiou o caso de racismo contra o volante Tinga, do Cruzeiro, em jogo da última quarta-feira, no Peru, mas ressaltou as dificuldades em conter as atitudes dos torcedores.


O jogador do time mineiro entrou aos 20 minutos do segundo tempo na derrota por 2 a 1 para o Real Garcilaso, pela Taça Libertadores, em Huancayo, a 300 km de Lima (Peru). Quando tocava na bola, a torcida imitava macacos.

"A Conmebol se preocupa, mas o racismo não está ligado só ao futebol. Isso acontece em diversas áreas. E nesse caso específico, não foi de jogadores. Foi um ato racista de torcedores. Não temos como segurar torcedores. Mas a Conmebol lamenta que isso ainda aconteça em estádio de futebol", disse Figueredo, que está em Florianópolis para acompanhar o seminário das seleções que jogarão a Copa do Mundo, realizado pela Fifa.

O mandatário da entidade, que não determina a possível pena ao Real Garcilaso, ressaltou ainda que o caso está sendo analisado pela Unidade Disciplinar da Conmebol.

A reportagem apurou que a orientação do Comitê Disciplinar da Fifa, que serve de base para as confederações, em casos de racismo envolvendo torcedores é o de, na primeira vez, punir o clube com multa e obrigá-lo atuar com portões fechados.

Apenas na reincidência o time é punido mais severamente, com perda de pontos, rebaixamento e até eliminação da competição.

Cinco casos de racismo julgados por Fifa e pela Uefa (União Europeia de Futebol), em 2013, semelhantes ao de Tinga, resultaram em jogos com portões fechados.

No ano passado, o combate ao racismo foi considerado prioridade para a Fifa, que criou um código com as possíveis punições.

Australiana foi presa por agredir e ofender manicure negra em Brasília

Louise Stephanes disse no salão de beleza em Brasília que não queria ser atendida pela profissional negra por ela ser de "raça ruim"

A australiana que foi presa em Brasília, acusada de agredir e ofender uma manicure negra em um salão de beleza, responde por outros processos de racismo na Companhia Energética de Brasília (CEB), onde trabalha. Na última sexta-feira ((14), a secretária Louise Stephanes, de 30 anos , disse que não queria ser atendida pela profissional negra por ela ser de "raça ruim".

Em nota divulgada nesta segunda-feira (17), a CEB afirma que "a empregada Louise Stephanes Garcia Gaunth já responde a mais de uma sindicância, dentre outros motivos, por indícios de atitudes racistas". Ao fim das investigações, o resultado será encaminhados ao Ministério Público.

Na nota, a companhia informa também que avalia quais medidas administrativas podem ser tomadas em relação ao crime que a australiana teria cometido no fim de semana.

Revoltada, a dona do salão acionou a polícia na última sexta. Ao ser abordada por um policial militar negro, Stephanes gritou para que ele não falasse com ela. Ela foi presa em flagrante, mas no sábado (15) conseguiu um habeas corpus e responderá pelo crime em liberdade. Nesta segunda, ela não compareceu ao trabalho.

Telefone

Na manhã desta segunda-feira, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, lamentou o ato da australiana.

"O racismo é lamentável em qualquer situação e é por isso que o governo do Distrito Federal tem políticas públicas de combate à discriminação, como, por exemplo, o disque-denúncia. E a população tem consciência disso, tanto que a denúncia de racismo foi feita pelas pessoas que estavam no salão de beleza. Uma atitude que merece nosso respeito e prova que a população de Brasília não aprova o racismo."

Desde março do ano passado, quando o Disque Racismo (156) foi criado no Distrito Federal, 126 casos do crime foram confirmados, uma média de 11 por mês. As denúncias são avaliadas pela Ouvidoria e encaminhadas para o Ministério Público.

O secretário de Igualdade Racial, Viridiano Custódio, afirma que o Disque Racismo facilita a identificação desse tipo de crime, pois nas delegacias muitos atos são registrados apenas como injúria racial.

A falta de informação faz com que muitas vezes uma pessoa que cometeu racismo tenha uma pena mais branda pelo crime ter sido registrado como injúria racial. A injúria consiste em ofender a honra de alguém com a utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Nesse caso, a pena é menor, o suspeito paga fiança e fica livre. No racismo é diferente. É quando alguém discrimina um determinado grupo ou coletividade a pena pode chegar a três anos de prisão.

Ainda de acordo com o secretário, a manicure que sofreu a agressão foi procurada e orientada a registrar a queixa também pelo Disque Racismo. O caso já é investigado pela 1.ª Delegacia de Polícia.

Segundo testemunhas, a suposta agressora tem cerca de 30 anos e entrou no estabelecimento para fazer as unhas do pé. A primeira pessoa que ela ofendeu foi uma manicure, que preferiu não se identificar por se sentir envergonhada. A profissional foi contratada pelo salão há uma semana.
A suposta agressora foi levada para a delegacia e foi transferida neste sábado (15) para a Penitenciária Feminina do Gama (Colmeia). Segundo a Polícia Civil, ela vive regularmente no Brasil há cinco anos e já foi detida por dirigir sob efeito de álcool.

A Polícia Civil informou que mulher foi presa por racismo e não por injúria racial porque disse que não poderia ser atendida pela funcionária negra. Ela cometeu segregação racial ao afirmar que a profissional não poderia executar o serviço por ser de "raça ruim".

O encaminhamento para a penitenciária da Colmeia comprova que ela foi enquadrada por racismo, segundo a polícia. Se fosse por injúria, ela teria assinado um termo de comparecimento à Justiça e deixaria a delegacia. O crime de racismo é inafiançável. A suspeita pode permanecer presa por até um ano.

"Ela chegou e perguntou se havia alguém que pudesse fazer o pé dela. A recepcionista disse que sim, então ela sentou. Quando ela viu que seria eu, disse que não queria", lembra a manicure. "Fiquei sem graça. Aí a menina disse que tinha então outra pessoa, e ela respondeu que podia ser a outra, porque ela era um pouco mais clara. Ela disse que eu era escura demais para fazer a unha dela."

Minutos depois, a suposta agressora teria se incomodado com a presença da manicure e pedido que ela se retirasse. "Ela disse: 'dá para você se retirar? Sua presença está me incomodando. Eu não quero que você fique perto de mim'. Subi na hora, não conseguia parar de chorar", conta a profissional.

Dona do salão, Eliete Lima de Carvalho cuidava do cabelo de uma cliente e só percebeu o problema quando viu a manicure chorando. A proprietária subiu as escadas para o banheiro atrás dela para saber o que havia acontecido e, depois, voltou ao salão para exigir que a cliente se desculpasse.

"Ela disse que não ia se desculpar, que não tinha feito nada de errado. E aí começou a falar do trabalho da outra manicure, dizendo que ficou uma porcaria, que não ia pagar. Outra cliente, que é morena, ficou irritada e pediu para ela abaixar o tom, então ela disse 'eu não sei por que essas pessoas de raça ruim insistem em falar comigo'. Precisei segurar a menina, que queria bater nela", conta Eliete.

A discussão evoluiu para bate-boca e gritaria. A dona do salão acionou a Polícia Militar, mas a suposta agressora tentou fugir. Eliete afirma que pediu mais uma vez que ela se desculpasse, que a situação poderia ser contornada se ela reconhecesse que errou. "Ela disse que queria ver quem iria prendê-la por isso", diz a proprietária.

Abordada por um PM negro, a australiana ainda teria gritado para que ele não dirigisse a palavra a ela. A cliente ofendida, as funcionárias, a dona do salão e a cliente de quem ela cuidava, que é advogada, foram para a delegacia prestar depoimento.

Assustada e desconfortável, a manicure que não quis se identificar disse que nunca passou por isso antes. "Ela insistiu que não queria nenhum de nós, pretos, falando com ela. Disse que éramos raça ruim", conta.

De acordo com os dados mais atualizados disponíveis no site da Secretaria de Segurança Pública, houve 409 crimes raciais em 2012 no DF.

Protesto
Indignada com a situação, Eliete decidiu trabalhar com o cabelo o mais volumoso possível neste sábado. "Não admito funcionário tratar mal cliente, nem cliente tratar mal funcionário. E não admito preconceito, de forma alguma", afirmou. "Ela me machucou profundamente. Agiu como se fosse melhor por não ser negra ou porque acha que ser manicure é ser inferior. Não aceito."

No momento da confusão, havia cinco clientes e nove funcionárias no salão - quatro delas, negras. O estabelecimento funciona há dez anos.

Eliete disse ainda que, pela manhã, comentou com as funcionárias que achou absurdo o ocorrido com o jogador Tinga, do Cruzeiro, vítima de racismo durante partida contra o Real Garcilaso, pela Taça Libertadores, no Peru. "Ainda falei que era inadmissível, que esse era o tipo de coisa que eu não conseguia acreditar que ainda existia."

O episódio de racismo contra o jogador ocorreu na cidade peruana de Huancayo. Tinga, que é negro, entrou no segundo tempo. Sempre que ele tocava na bola, a torcida do time da casa, fazia sons que imitavam um macaco.

publicado: agencia O Globo e  Midiacon News